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Meio Ambiente: Destruição da natureza pelos humanos é suicida, alerta ONU

Relatório das Nações Unidas afirma que a humanidade e a ambição pelo crescimento econômico estão tornando a Terra um lugar inabitável, e exorta governos e empresas do mundo a agirem antes que seja tarde.

Amazônia,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita,Alter do Chão,Brasil,Pará“Sem a ajuda da natureza, não vamos prosperar, ou mesmo sobreviver”, afirmou o secretário-geral da ONU

Através das mudanças climáticas, da perda da biodiversidade e da poluição, os humanos estão destruindo a Terra e tornando-a um planeta cada vez mais inabitável, afirma um relatório das Nações Unidas.

Para reverter esse caminho trágico, o mundo precisa implementar mudanças urgentes e dramáticas na sociedade, na economia e na vida diária das pessoas, acrescenta o texto.

Diferente de relatórios anteriores da ONU, que costumam focar num problema e evitam orientar os governos sobre quais ações devem ser tomadas, o novo documento reúne três crises ambientais – o clima, a biodiversidade e a poluição – para dizer aos governos, empresas e pessoas ao redor do mundo o que precisa mudar, antes que seja tarde demais.

O texto pede, por exemplo, mudanças no que o governo tributa, em como as nações valorizam a produção econômica, em como a energia é gerada, em como a agricultura e a pecuária são geridas, na maneira como as pessoas se locomovem e no que elas comem.

“Sem a ajuda da natureza, não vamos prosperar, ou mesmo sobreviver”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Por muito tempo, temos travado uma guerra sem sentido e suicida contra a natureza. O resultado são três crises ambientais interligadas: perturbações climáticas, perda de biodiversidade e poluição ameaçam a nossa viabilidade como espécie.”

O título do relatório de 168 páginas, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), é direto: “Fazendo as pazes com a natureza: um plano científico para enfrentar as emergências do clima, da biodiversidade e da poluição.”

“Riscos inaceitáveis” para gerações futuras

Baseado em conclusões de outras grandes análises sobre clima e biodiversidade elaboradas por painéis internacionais de especialistas, o texto afirma que uma transição rápida para energia renovável e a eliminação da perda de habitat são essenciais para prevenir “riscos inaceitáveis” para gerações futuras.

“Nossos filhos e netos herdarão um mundo de eventos climáticos extremos, aumento do nível do mar, perda drástica de plantas e animais, insegurança alimentar e hídrica e aumento da probabilidade de futuras pandemias”, alertou o cientista britânico Robert Watson, principal autor do relatório.

A emergência que aflige o mundo hoje é “de fato mais profunda do que pensávamos poucos anos atrás”, disse Watson, um químico premiado que já liderou outros relatórios científicos da ONU sobre mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

Os problemas do planeta estão tão interligados que devem ser trabalhados juntos para que sejam resolvidos da maneira certa, destacam as Nações Unidas. E muitas das soluções podem combater múltiplos problemas, incluindo as mudanças climáticas e a poluição.

Segundo o relatório, uma dessas soluções seria a eliminação do uso de combustíveis fósseis. Além de pedir o fim do uso, o texto também defende que sejam anulados os 5 trilhões de dólares em subsídios que empresas de combustíveis fósseis recebem todos os anos de governos do mundo.

“Estatísticas assustadoras”

O documento reúne uma série de “estatísticas assustadoras”: cerca de 9 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência da poluição; cerca de 1 milhão das 8 milhões de espécies de plantas e animais estão ameaçadas de extinção; até 400 milhões de toneladas de metais pesados, lama tóxica e outros resíduos industriais são despejados nas águas do mundo todos os anos.

O texto alerta também que a Terra está a caminho de um aquecimento adicional de 3,5 graus Celsius em relação aos níveis de agora, muito acima da meta estabelecida internacionalmente no Acordo de Paris sobre o clima.

“No final, isso vai nos atingir”, afirmou o biólogo Thomas Lovejoy, que foi assessor científico do relatório. “Não se trata do que vai acontecer com os elefantes. Ou o que vai acontecer com o clima ou com o nível do mar. Tudo vai nos impactar.”

Com duas grandes cúpulas da ONU sobre mudança climática e perda de biodiversidade marcadas para ocorrer em 2021, os autores do texto pedem decisões robustas dos governos, afirmando que respostas “fragmentadas e descoordenadas” ficam muito aquém do que o planeta precisa.

“Embora eu aplauda todos os países do mundo que decidiram zerar as emissões líquidas de carbono até 2030, a verdadeira questão é o que os países farão até 2030”, afirma o autor principal, Watson. “É realmente necessária ação a curto prazo, não apenas metas ambiciosas para meados do século.”

A manutenção da paz precisa de um novo formato

Paz não deve ser uma palavra a ser lembrada apenas em tempos de conflito. Até que a paz se torne um processo constante, a espiral de guerra e conflito continuará, diz Serdar Vardar.

É hora de a ONU repensar sua estratégia para missões de paz?

Vamos enfrentá-lo: as Nações Unidas perderam muito de sua credibilidade e influência e não podemos permitir que as questões de paz e segurança sejam decididas pelas cinco potências nucleares do Conselho de Segurança da ONU. Devemos agir no nível do solo. Devemos envolver as pessoas, encorajá-las a falar umas com as outras. O tempo todo. Algo que a ONU falhou em fazer.

Por que não podemos imaginar um Comitê Internacional de Paz, por exemplo? Um preenchido não com diplomatas, mas com pessoas que dedicam suas vidas à paz e são escolhidas pelos cidadãos de cada país. Cada estado membro pode ser responsável por realizar eleições para escolher dois (um homem e uma mulher) delegados da paz que não tenham nenhuma filiação política. Pessoas que provaram ser pacificadores respeitados em seus países.

O ciclo vicioso de conflitos congelados

Essa organização global e civil pode transformar os tons suaves da paz em uma orquestra em grande escala. Porque a verdadeira paz é construída pelo povo, não mediada estrategicamente como no exemplo recente do Azerbaijão e da Armênia.

Em 1993, a Armênia tinha um exército melhor equipado e treinado do que o Azerbaijão e assumiu o controle do Nagorno-Karabakh, uma região reconhecida internacionalmente como território azeri. Depois de três décadas de conflito congelado, o Azerbaijão rico em petróleo tinha os meios para construir um exército melhor e retomou o controle da região. Depois de seis semanas de guerra que matou milhares e desabrigou 130.000 pessoas, ambos os lados concordaram em um contrato de fogo intermediado pela Rússia.

Longe de ser um acordo de paz, isso serviu apenas para congelar o conflito até que um dos lados reinicie as hostilidades. Esse tipo de ciclo vicioso deve acabar.

Os ‘pacificadores’ têm sua própria agenda política

Podemos realmente esperar que superpotências construam a paz em terceiros países? Por exemplo, o governo russo não tem interesse em alcançar uma paz real entre a Armênia e o Azerbaijão. Somente um conflito congelado permite que a Rússia atue como o “Big Brother” para ambos os países e mantenha uma presença militar na região.

Outras grandes potências também não são inocentes. A França disse recentemente que continuará vendendo armas francesas, independentemente do histórico de direitos humanos do país. Na mesma semana, o Senado dos Estados Unidos apoiou a venda de caças F-35 aos Emirados Árabes Unidos, país que bombardeou um centro de refugiados na Líbia e é acusado de cometer crimes de guerra no Iêmen.

Como podemos esperar que esses países tragam a paz quando, em primeiro lugar, são eles que vendem armas para cada lado? Se vêem um interesse nacional, interferem; se têm pouco a ganhar, procuram outro lugar. Basta olhar para o que aconteceu com os tutsis em Ruanda, o povo de Darfur no Sudão ou os bósnios no meio da Europa.

Um Comitê Internacional para a Paz escolhido pelo povo
Acho que chegou a hora de acabar com a dependência da abordagem burocrática e limitada dos poderes da ONU e do Conselho de Segurança.

Um Comitê Cívico Internacional de Paz pode fortalecer as iniciativas locais de paz e não confundiria o processo de paz com agendas estratégicas ocultas. O único objetivo seria desenvolver iniciativas consistentes de manutenção da paz, mesmo em tempos de paz.

Sei que há contra-argumentos sobre por que tal conceito pode ser descartado como uma tortura, mas devemos tentar e apresentar novas ideias e estruturas. Aqueles que oferecem oportunidades para pacificadores civis de todo o mundo. Porque uma coisa é clara: a paz é importante demais para ser deixada para poderes políticos oportunistas e egoístas.

DW

Biden promete restaurar a cooperação e liderança global dos EUA – mas será que ele conseguirá?

O presidente eleito tem jurado consistentemente se afastar do unilateralismo. Mas para restaurar de fato a liderança dos EUA, ele terá de reconquistar a confiança de aliados alienados e cobrar contas dos adversários.

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, prometeu restaurar o papel de liderança da América no mundo, revertendo o unilateralismo da administração Trump e reorientando-se em alianças internacionais de longa data. Ele diz que seu governo vai elevar a diplomacia e liderar pelo “poder do exemplo”, em vez do “exemplo de poder”.

Biden herdou uma situação em que os aliados questionam a credibilidade dos EUA, com as relações entre Washington e capitais ao redor do mundo tensas.

O presidente eleito prometeu reparar o máximo de danos possível em seus primeiros 100 dias no cargo, revertendo uma série de ordens executivas assinadas pelo presidente Donald Trump. As ordens derrubaram acordos e alianças internacionais que o presidente alegou serem injustos para os Estados Unidos por várias razões. Os críticos dizem que as medidas foram contraproducentes e que o isolacionismo dos EUA simplesmente permitiu que a China expandisse sua influência na ausência dos Estados Unidos.

Aqui estão algumas das maiores reversões da política externa que o presidente eleito prometeu fazer imediatamente:

Plano de ação abrangente conjunto (JCPOA)

Trump criticou regularmente o JCPOA, mais conhecido como Acordo Nuclear do Irã, como “um dos piores negócios da história” e retirou os EUA do acordo em 8 de maio de 2018. Ele também restabeleceu as sanções contra o Irã e qualquer pessoa que fizesse negócios com isso.

Assinado com China, França, Rússia, Reino Unido, Alemanha e Irã pelo governo Obama em 2015, os signatários concordaram em estabelecer diálogo e monitoramento do programa nuclear do Irã em troca de alívio econômico. O governo Trump chamou o acordo de fraco e, em vez disso, buscou o que chama de “campanha de pressão máxima”.

Biden diz que a política de Trump foi ineficaz e serviu apenas para aumentar as tensões. Ele prometeu voltar a aderir ao JCPOA, mas diz que só suspenderá as sanções após a confirmação da estrita adesão do Irã às regras do JCPOA.

De forma mais geral, Biden também poderia buscar distanciar os EUA do adversário regional do Irã e maior aliado árabe de Washington no Oriente Médio, a Arábia Saudita. Trump cortejou de perto a monarquia autoritária durante seu mandato, com o reino desempenhando um papel fundamental na aliança anti-iraniana do presidente.

Biden poderia iniciar esse distanciamento encerrando o apoio dos EUA à guerra impopular da Arábia Saudita no Iêmen.

Acordo Climático de Paris

Biden, eleito em parte com o compromisso de lutar contra a mudança climática, tem afirmado consistentemente que retornará imediatamente ao Acordo Climático de Paris. Trump, um negador da mudança climática, retirou os EUA do acordo em 1 de junho de 2017, alegando que favorecia injustamente a China.

Os EUA são o segundo maior poluidor do mundo atrás da China e enquanto Trump enquadrou a questão em termos econômicos de soma zero, escolhendo lucros de combustíveis fósseis em vez de proteção ambiental, Biden prometeu construir uma economia de energia limpa para financiar ambiciosos programas de redução de emissões.

Organização Mundial da Saúde (OMS)

O governo Biden se comprometeu a retornar imediatamente à OMS e procurar liderar os esforços do corpo para o coronavírus. Os EUA têm grande influência nesta importante autoridade de saúde pública, contribuindo com 15% de seu orçamento (a Alemanha contribui com 5,6%). Em 7 de julho de 2020, o presidente Trump anunciou que os EUA se retirariam da organização – que, entre outras coisas, coordena os testes de vacinas globais – a partir de 6 de julho de 2021.

Em 8 de novembro, os Estados Unidos registraram o maior número de infecções por coronavírus em um único país (9.957,50), bem como mortes (237.567), com infecções globais em 49.948.324 e mortes globais em 1.252.189.

Nações Unidas (ONU)

Trump ameaçou deixar as Nações Unidas, embora até agora os EUA tenham deixado apenas duas organizações dentro do corpo: o Conselho de Direitos Humanos (UNHRC) e a Organização Educacional, Científica e Cultural (UNESCO). Os EUA citaram o tratamento injusto do aliado Israel em ambos os casos.

Em 19 de junho de 2018, a então embaixadora dos EUA na ONU Nikki Haley chamou o UNHRC de “uma organização hipócrita e egoísta que zomba dos direitos humanos”, apontando para o que ela chamou de “preconceito crônico contra Israel” e objetando a membro do conselho para violadores dos direitos humanos China, Cuba e Venezuela. Os EUA pediram reformas ao órgão e freqüentemente entraram em confronto com os membros sobre sua defesa de Israel, que os críticos dizem que faz vista grossa aos abusos dos direitos humanos israelenses.

A administração Trump citou ostensivamente os conflitos na nomeação de locais do Patrimônio Cultural Mundial, que os EUA e Israel disseram ignorar ligações históricas judaicas, como motivo para a retirada da UNESCO. A nomeação dos locais também tocou em questões mais profundas de soberania internacional ao declarar a velha cidade de Hebron e a Tumba dos Patriarcas como locais palestinos.

Os EUA deixaram a UNESCO em 1984 no governo de Ronald Reagan e retornaram em 2002 no governo de George W. Bush. Os pagamentos foram congelados por nove anos sob o governo Obama-Biden, mas os EUA mantiveram sua adesão.

Biden é um forte apoiador de Israel e recebeu bem os acordos recentes entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, mas seu governo provavelmente pressionará para impedir a construção de assentamentos israelenses e anexações, além de ser um defensor mais vocal das necessidades dos palestinos na ONU.

A OMC, OTAN e o Senado

Outras questões que Biden abordará incluem a situação das relações comerciais, bem como dentro de órgãos como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) está em algum lugar onde Biden buscará consertar barreiras e expandir a cooperação, mas os objetivos de política externa permanecerão em vigor.

A questão é se Biden pode reconquistar a confiança e alcançar com sucesso os seus objetivos declarados: “Promover a segurança, a prosperidade e os valores dos Estados Unidos tomando medidas imediatas para renovar nossa própria democracia e alianças, proteger nosso futuro econômico e, mais uma vez, coloque os Estados Unidos na cabeceira da mesa, levando o mundo a enfrentar os desafios globais mais urgentes “- ou se o mundo evoluiu nos últimos quatro anos.

Biden apresentou planos amplos e ambiciosos em muitas frentes, mas embora os decretos do executivo possam ser revogados, sem uma maioria no Senado, qualquer coisa que requeira a aprovação do Congresso pode ser quase impossível de ser aprovada.

Mas, primeiro, ele precisa enfrentar o coronavírus e as consequências econômicas que ele está causando.

 

As ambiguidades da ajuda humanitária; A indústria da pobreza.

Essencial para a sobrevivência de milhões de pessoas no mundo – refugiados, deslocados, famintos, doentes etc. –, a ajuda humanitária mobiliza bilhões de dólares por ano.*

Para Estados, entidades civis e indivíduos, ela constitui com frequência um poder de fato, capaz de impor escolhas e normas. Os assistidos, porém, nem sempre saem em vantagem

Em dez anos, o montante gasto em ajuda humanitária em todo o mundo aumentou cinco vezes, atingindo US$ 28,9 bilhões em 2019.

Esse crescimento financeiro é acompanhado de uma proliferação de estruturas, desde a associação local criada por alguns voluntários até a ONG internacional, passando por agências e programas das Nações Unidas e pelo Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. No entanto, a diferença entre os fundos disponíveis e as necessidades continua a aumentar, em especial por causa do surgimento de crises: conflitos armados, desastres relacionados às mudanças climáticas e urbanização acelerada afetam mais pessoas, por mais tempo. O número de vítimas de desastres em 2018 foi estimado em 206 milhões.

A diferença se deve também às disfunções específicas da ajuda internacional, que a impedem de alcançar seus objetivos: falta de coordenação, desconhecimento em relação às áreas de intervenção, não proximidade com atores locais. Essas anomalias, embora conhecidas e identificadas há muito tempo, são repetidas sistematicamente, operação após operação. As justificativas habituais – a obrigação de agir com urgência, a rápida renovação da equipe, a ausência de memória institucional – mascaram causas estruturais, entre as quais a principal é a assimetria na relação entre os atores.

De fato, em 2017, dois terços do financiamento humanitário global foram alocados em apenas doze ONGs (entre elas Save the Children, Comitê Internacional de Resgate [IRC], Médicos Sem Fronteiras, Oxfam e Visão Mundial) e instituições da ONU,ou seja, 22 vezes mais que os recursos direcionados a operadores nacionais e locais.

Assim, certas organizações internacionais capturam o maná concentrado no hemisfério norte – sendo os Estados Unidos, a União Europeia e alguns Estados do Velho Continente, de longe, os principais doadores. Nos últimos anos, no entanto, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos se tornaram também doadores significativos, juntando-se à lista dos vinte principais fornecedores de recursos. Isso se deve à estratégia de reposicionar esses países no cenário regional e internacional, em um contexto marcado pelas guerras da Síria e do Iêmen.

O mito da vítima desamparada
A ajuda humanitária é construída de cima para baixo, de seus financiadores e doadores, a quem é preciso prestar contas e que decidem, na prática, as prioridades e os locais de intervenção. O próprio curso da intervenção – dominado pela urgência, o uso do inglês, a convergência dos perfis sociológicos e códigos culturais de sua equipe “sem fronteiras” – reforça essa dinâmica, que floresce à custa de atores locais e, por meio deles, de assistidos.

Dos US$ 2,4 bilhões arrecadados pelas Nações Unidas após o terremoto de 2010, as ONGs haitianas e o governo local receberam diretamente apenas uma pequena fração: respectivamente 0,4% e 1%. Assim, eles se limitaram ao papel de meros subcontratados de uma reconstrução guiada remotamente em nível mundial. É um caso extremo, mas não isolado, de Estados do Norte financiando seus próprios projetos por meio de suas próprias ONGs. As capacidades locais, consideradas insuficientes em vista dos requisitos contábeis e burocráticos impostos pelas instituições de países ricos, são depreciadas, se não desprezadas. Elas recebem apenas 3% da ajuda direta.

Percebendo essa assimetria, os principais doadores e organizações, reunidos em Istambul para a Primeira Cúpula Humanitária Internacional, em 23 e 24 de maio de 2016, comprometeram-se a reservar um quarto do financiamento para estruturas locais e nacionais, às quais os subsídios seriam pagos “o mais diretamente possível” (princípio da “localização”), até 2020. Essa decisão se explica em parte pelos resultados da pesquisa citada anteriormente, realizada entre maio de 2014 e fevereiro de 2015 em cinco países do Oriente Médio e norte da África com 1.231 pessoas “beneficiárias” de ajuda humanitária internacional.

Eles foram convidados a classificar suas opiniões em uma escala de 1 a 10; a média das respostas foi inferior a 3. Essa avaliação parece confirmar outra pesquisa realizada em 2018 com cerca de 5 mil pessoas em sete países: mais de 80% dos inquiridos no Iraque e no Líbano não consideravam que o apoio obtido lhes permitia autonomia, e a maioria deles achou que sua opinião era pouco ou nada considerada.

Esses resultados revelam o lado impensado da ajuda humanitária: a figura da vítima. As vítimas são percebidas, contra todas as evidências, como impotentes e passivas, embora sejam elas mesmas que, nas primeiras 24 horas, salvam o máximo de vidas à sua volta, antes da chegada de organismos externos (e da mídia). Há tempos, em 2004, o então secretário-geral da Cruz Vermelha Internacional, Markku Niskala, clamava que a ajuda humanitária deveria “dissipar o mito da vítima desamparada e da ajuda internacional infalível e colocar as pessoas afetadas por catástrofes, bem como suas lideranças, no centro do nosso trabalho”. Se, quinze anos depois, o mito persiste, é porque esse é o cerne da representação dominante que o setor faz de si mesmo – e que lhe convém.

Imagens do caos, vítimas apáticas e estados do Sul incapazes, corruptos ou totalitários (ou tudo isso ao mesmo tempo) confirmariam a necessidade de ação no exterior. O desencanto político e a certeza de pertencer ao lado do bem confirmariam essa legitimidade – em detrimento de outros tipos de análise. Longe de ficarem calados, os assistidos são muitas vezes silenciados por seus próprios Estados, pela pretensão do setor de se autorregular e pela multiplicação de relatórios internacionais. A história oficial da ajuda humanitária pode ser resumida como uma inocência constantemente equivocada, mas sempre reabilitada em nome da pureza de suas intenções e, acima de tudo, da salvaguarda necessária de sua independência. Essa narrativa obscurece outras relações de poder em jogo em operações de socorro.

O primeiro exercício desse tipo foi a avaliação conjunta da ajuda de emergência levada a Ruanda durante o genocídio de tútsis em 1994: a ação sublinhou como os trabalhadores humanitários estrangeiros e os jornalistas recém-desembarcados, confundindo visibilidade e eficiência, construíram conjuntamente uma leitura “salva-vidas” para os acontecimentos, imediatamente compreensíveis pelos espectadores do Norte, mas obscurecendo as lógicas militar, diplomática e política em jogo por trás dos fluxos de refugiados, bem como a falta de antecipação e coordenação dos atores internacionais. A intervenção humanitária serviu de cobertura para a cegueira e paralisia ocidentais, enquanto o problema deveria ser abordado em outra linha e exigia uma solução política. No fim das contas, a grande maioria das vítimas não morreu por falta de ajuda, e sim porque foi massacrada.

Vinte e cinco anos depois, permanece o mesmo sistema narrativo, que recodifica situações de injustiça e desigualdade – fruto de escolhas políticas – como tendo causas naturais, quando não atribuídas a maldições. Em janeiro de 2006, um estudo sobre o processamento de informação por cerca de sessenta jornais e periódicos em nove países ocidentais concluiu que não havia ligação entre a escala de um desastre e sua cobertura da mídia, esta última vinculada a considerações econômicas e estratégicas dos Estados do Norte.

Assim, em 2004, o impacto do tsunami no Oceano Índico na indústria do turismo ocupou um lugar desproporcional na mídia. Inversamente, quanto mais cobertura da mídia sobre um desastre, mais organizações são atraídas e mais elas se lançam em uma corrida por visibilidade que coloca em risco qualquer esforço de coordenação entre elas. Ir para o campo é tornar-se visível (credibilidade), garantir financiamento (viabilidade) e reforçar a natureza imperativa de sua ação (legitimidade). A pertinência da ação tem pouca importância diante da oportunidade de mercado que se tornou.

O acesso privilegiado a subsídios, mídia e tomadores de decisão permite que os humanitários exerçam um poder cujas consequências são proporcionais ao não reconhecimento desse processo.12 O princípio da localização do auxílio, adotado pela cúpula de Istambul, não será eficaz se estiver “descolado das questões de injustiça, desigualdade e assimetria de poder”, diz Regina Salvador-Antequisa, diretora da Ecosystems Work for Essential Benefits Inc. (Ecoweb), uma ONG filipina.

O dinheiro e o tempo investidos na construção de infraestrutura, proteção civil, serviços públicos e preparação para desastres estão provando ser mais eficazes do que responder a eles em situações de urgência, por mais rápida que sejam essas respostas. Em 2015, a ONG norte-americana Mercy Corps enviou uma pequena equipe para avaliar as necessidades após o furacão Pam, que atingiu Vanuatu. E teve a valentia de desistir da intervenção quando descobriu que o governo e as agências locais eram suficientemente abastados e organizados.

Sem a mesma lucidez, durante o terremoto de 2015 no Nepal, os países europeus despacharam para Katmandu, sem nenhuma coordenação, quinze equipes de ajuda humanitária que desafiaram as realidades regionais: mais perto do cenário do desastre, China, Índia e Paquistão já estavam lá. O resultado: um fardo de logística e coordenação, e um aeroporto saturado, que atrasou a chegada de aviões franceses, belgas e neozelandeses em vários dias, tornando a ação inútil.

Esses descalabros podem explicar por que, após o terremoto em novembro de 2018, o governo indonésio canalizou e limitou a atuação de atores estrangeiros. A auto-organização dos “beneficiários” é inda mais estimulante: “Se quisermos resolver nossos problemas, devemos fazer isso sozinhos. As organizações internacionais são apenas coadjuvantes”, disse Mohib Ullah, anfitrião de uma greve de associações locais nos campos de refugiados rohingyas em Bangladesh, em novembro de 2018.

Como convocar tomadores de decisão quando, ao mesmo tempo, isso ajuda a despolitizar as relações sociais e promove uma eficiência que se vale da imagem de impotência pública do outro? Em paralelo, a ajuda humanitária tende a se tornar o nome oculto do que na verdade é a política: a política institucional não diz mais seu nome e segue esse caminho para compensar sua inação – a Palestina é um caso emblemático – ou, pelo contrário, para catalisar sua ação.

Parafraseando o geógrafo David Harvey, poderia se falar em privatização por meios humanitários. Nos países em questão, não estamos testemunhando uma “ONGização” de serviços sociais? A ajuda internacional, portanto, tende a substituir os sistemas públicos de saúde, que continuam sendo os meios mais eficazes de salvar vidas. O oposto da política não é o humanitário: é outra política.

*Frédéric Thomas é cientista político, pesquisador do Centro Tricontinental (Cetri) e professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Liège, Bélgica.

Um longo bloqueio será catastrófico para os países desenvolvidos

As pessoas caminham ao longo de uma estrada para retornar às suas aldeias. Nova Deli, India. REUTERS / Danish Siddiqui

A recessão global iminente e provavelmente duradoura, causada pelo fechamento de nossas economias, prejudicará todos nós – mas será muito, muito pior para aqueles que já estão à beira da fome.

Um relatório do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PAM), publicado no início desta semana, mostra uma visão deprimente dos efeitos da pandemia de Covid-19. O relatório sugere que o número de pessoas que enfrentam severa escassez de alimentos – à beira da fome – pode dobrar nos próximos 12 meses, de 130 para 265 milhões. O chefe do PAM, David Beasley, descreveu as possíveis fomes como “bíblicas”. Os debates sobre os bloqueios no Ocidente devem ter em mente os pobres do mundo antes de exigir que as restrições permaneçam em vigor.

O economista-chefe do PMA, Dr. Arif Husain, disse à mídia: “O Covid-19 é potencialmente catastrófico para milhões que já estão presos a um fio. É um golpe de martelo para milhões a mais que só podem comer se ganharem um salário. Os bloqueios e a recessão econômica global já dizimaram seus ovos. É preciso apenas mais um choque – como o Covid-19 – para empurrá-los para além do limite. Devemos agir coletivamente agora para mitigar o impacto dessa catástrofe global. ”

Precisamos aceitar algumas das reivindicações do PMA com um pouco de ceticismo. Quem se especializa em uma área específica sempre acreditará que os problemas são os mais importantes (embora a comida seja claramente a necessidade mais básica). E há sempre um grau de especial apelo a esses relatórios institucionais, com autoridades tentando promover os piores cenários, a fim de obter o maior orçamento possível.

No entanto, há claramente um problema muito grande aqui. A própria doença causará uma perda substancial de vidas e poderá adoecer muitas pessoas produtivas, numa época em que os meios de subsistência já estão à beira da faca. No entanto, também precisamos perceber o quão devastadores os bloqueios generalizados também podem ser.

Como a Índia está usando a catástrofe Covid-19 para começar a consertar seu sistema de saúde em ruínas.
Atualmente, pelo menos um terço da população do mundo vive trancado, incluindo 1,3 bilhão de pessoas somente na Índia. Apesar de anos de crescimento econômico impressionante, se possível exagerado, quase um quarto dos indianos ainda vive com menos de US $ 2 por dia. A situação será muito pior nos países que não desfrutaram do rápido desenvolvimento da Índia.

Os governos do mundo em desenvolvimento vêm copiando políticas em países muito mais ricos. Mas eles necessariamente fazem sentido? No Ocidente desenvolvido, a principal preocupação é que um pico acentuado nos casos sobrecarregue os serviços intensivos de saúde, levando a mortes desnecessárias. No entanto, muitos países mais pobres têm muito poucos ventiladores e médicos e enfermeiros experientes em relação às suas populações. Então, quais são os benefícios dos bloqueios que levarão muitos milhões a mais na pobreza abjeta?

Nas megacidades lotadas do mundo em desenvolvimento – como Mumbai, Cairo, Lagos – o distanciamento social é impraticável. A lavagem básica das mãos com sabão está amplamente indisponível. Do ponto de vista da saúde, as políticas fazem pouco sentido. Pior, estima-se que mais de dois bilhões de pessoas trabalhem na economia “informal” – elas estão fora do radar em termos de ação do governo, como cortes de impostos, benefícios sociais e outras intervenções do governo. Como Husain aponta sem rodeios: para muitas pessoas, se não trabalham, não comem.

Não são apenas os bloqueios no mundo em desenvolvimento que são importantes. As economias dos países em desenvolvimento dependem, em parte, do comércio com nações mais ricas. Se isso for interrompido, os níveis de pobreza aumentarão. Por exemplo, a varejista de roupas britânica Primark quase não tem presença on-line. Portanto, o fechamento de suas lojas na Europa deixou dezenas de milhares de europeus desempregados – mas também atingiu os que trabalham para fabricantes de países mais pobres. A empresa prometeu apoiar os fornecedores por enquanto, mas um longo desligamento deixaria um enorme número de trabalhadores mais pobres em todo o mundo sem trabalho.

De maneira mais ampla, uma consultoria britânica, o Center for Economic and Business Research, estimou que as famílias britânicas poderiam enfrentar uma perda de renda média de £ 515 (US $ 635) por mês ao longo deste ano. Uma fatia substancial desses gastos teria sido usada para comprar mercadorias de países em desenvolvimento. Essa perda de gastos sem dúvida exacerbará as recessões nos países mais pobres.

Esse aspecto dos impactos econômicos dos bloqueios por coronavírus parece ter sido amplamente esquecido. É compreensível que, na reação inicial à pandemia, o foco esteja em lidar com a questão em nível doméstico. Mas agora que temos um certo grau de espaço para respirar e as taxas de infecção parecem estar reduzidas, devemos agora considerar todos os impactos da continuação dos bloqueios, não apenas na saúde e na riqueza das pessoas no mundo rico, mas na parte mais pobre do mundo. mundo também.

No entanto, aqueles como eu, que pedem que as restrições sejam afrouxadas mais cedo ou mais tarde, são rotineiramente denunciados como mais interessados ​​em dinheiro do que em salvar vidas. Na vanguarda dessa demanda está o presidente Trump. Ainda nesta semana, o jornal britânico Guardian poderia publicar um artigo intitulado ‘Consoler-in-Chief? Sem empatia, Trump pesa os custos econômicos, não os humanos.

Quaisquer que sejam as motivações de Trump – e ele pode estar mais preocupado com os empregos americanos do que com os de Bangladesh -, o ponto permanece que serão os mais vulneráveis ​​do mundo que sofrerão se as economias forem fechadas por muito mais tempo. Com Trump na Casa Branca e um governo conservador no Reino Unido, muitas vozes de esquerda na mídia anglo-americana parecem ter adotado uma abordagem perversa e politizada para defender os bloqueios, alegando que estão colocando as pessoas antes dos lucros, quando é necessário. na verdade, os pobres que mais sofrem quando a economia pára.

Os governos ocidentais precisam pensar além de suas próprias fronteiras sobre os impactos dessa pandemia. Enquanto ninguém defende um retorno abrupto à normalidade, todos os esforços devem ser feitos para reduzir os impactos do distanciamento social o mais rápido possível e fazer com que todas as economias do mundo voltem a funcionar.

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O mundo poderá ser salvo por Grandes Empresas?

A economia mundial gera riqueza, assim como grande quantidade de gases de efeito estufa, desigualdade e perda de biodiversidade.    

Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial de 2020Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial de 2020

Agora, companhias prometem resolver tais problemas. Mas elas realmente o farão?

Ao andar pela Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, tem-se a impressão de estar ocorrendo na cidade uma convenção de caridade, e não uma reunião de 119 bilionários e muitos presidentes de empresas importantes e representantes do setor econômico mundial.

“Vamos fazer dos negócios a melhor plataforma de mudança”, diz a placa na frente de uma loja alugada por uma empresa. Outra mostra “O crescimento é uma ilusão?” com letras de neon brilhantes e arredondadas que seria possível encontrar na parede de uma cafeteria hipster.

Mais adiante está a “tenda ODS”, que organiza sessões abertas sobre temas como o futuro do capitalismo, finanças sustentáveis ou direitos LGBTI – todos pagos por empresas que desejam mostrar como estão comprometidas em ajudar a alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU.

A mensagem que as empresas estão tentando passar é bem clara: nós acordamos; já se foram os dias em que o lucro era sobreposto à moral; agora nós nos preocupamos com o meio ambiente e em tornar este mundo um lugar melhor.

Mas as empresas não têm contado essa história há tanto tempo quanto o Fórum Econômico Mundial existe? E ainda assim o mundo não está no caminho certo para alcançar as metas que estabeleceu para si mesmo – tome como exemplos o Acordo do Clima de Paris, de 2015, ou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Então as grandes empresas realmente cumprirão suas promessas desta vez?

Os manifestantes anti-Fórum Econômico Mundial na Promenade certamente já decidiram sua resposta. “Você realmente acha que as instituições e corporações que têm pensado e feito negócios de uma certa maneira podem mudar assim só para serem boas com os outros?”, pergunta Sebastian Justiniano, dando sua resposta logo em seguida: “Eu acho que não.”

Mudando para lucrar mais

Svein Tore Holsether discorda. Ele é o presidente da Yara, uma empresa norueguesa cujo principal negócio é a produção de fertilizantes sintéticos. Isso significa que a companhia é parte do setor agrícola, responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa.

Sentado em um canto tranquilo de um dos luxuosos saguões de hotel de Davos, Holsether explica por que quer transformar a Yara em uma empresa mais sustentável. “Eu acho que representa uma oportunidade de negócio incrível”, afirma. “Nós administramos nossos negócios com fins lucrativos, e isso é algo que precisamos para reinvestir e desenvolver o negócio.”

Ele fala sobre como a Yara mudou sua estratégia para o desenvolvimento de novas soluções após o Acordo do Clima de Paris; e sobre como a empresa, por exemplo, está planejando ajudar o agricultor a maximizar sua produção. Assim, será necessário menos terra, que ficaria livre então para árvores que absorveriam o CO2 do ar. Isso seria bom para o meio ambiente, para a segurança alimentar, para os agricultores – e, claro, para os resultados finais da Yara.

“Nos últimos anos, ficou cada vez mais claro que as empresas que são capazes de adaptar seus modelos de negócios tanto aos desafios como às oportunidades que vemos agora serão as que sobreviverão”, sublinha Holsether.

Na verdade, as empresas têm cada vez menos o poder de escolher se querem ou não se tornar verdes. O Relatório de Riscos Globais, divulgado antes do início do Fórum Econômico Mundial, listou fatores ambientais como a maior ameaça à ordem mundial. As condições climáticas extremas e os desastres naturais causados pelas mudanças climáticas prejudicariam os negócios.

Apesar da aparente mudança nas percepções de empresas sobre sustentabilidade, manifestantes em Davos continuam céticos

Apesar da aparente mudança nas percepções de empresas sobre sustentabilidade, manifestantes em Davos continuam céticos

E até mesmo Larry Fink, presidente da maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, advertiu recentemente que as empresas que não levam sustentabilidade a sério podem ter problemas quando procurarem financiamento no futuro.

Se tal transformação da economia impulsionada pelo mercado acontecerá com a rapidez suficiente, isso já é outra questão. As emissões de dióxido de carbono da Yara, por exemplo, aumentaram de cerca de 10 milhões de toneladas em 2013 para 16,6 milhões de toneladas em 2018, apesar da nova estratégia de sustentabilidade.

Portanto, se as forças do mercado trabalham de forma lenta para fazer com que as empresas se comportem de maneira mais sustentável, o que pode acelerar esse movimento? Alguns argumentam que se faz necessária uma mudança de mentalidade econômica em relação a qual é o objetivo de uma empresa.

A grande ideia lançada em Davos neste ano foi o conceito de “capitalismo das partes interessadas”. É a noção de que as empresas não têm a responsabilidade apenas de gerar lucros para seus investidores, mas responsabilidade com todos os afetados por suas ações, como sua força de trabalho, consumidores ou meio ambiente.

Fazendo o “capitalismo das partes interessadas” funcionar

A economista Mariana Mazzucato é a favor do conceito – desde que ele seja mais do que apenas um chavão vazio. “Dada a crise que estamos enfrentando – não apenas o clima, mas também a desigualdade, os sistemas de saúde e o estado de bem-estar social que está entrando em colapso de várias maneiras ao redor do mundo –, não temos tempo para besteiras”, afirma.

Os governos devem repensar como investem na economia e, particularmente, o que exigem em troca disso. Afinal, dar dinheiro às empresas as torna partes interessadas, e uma parte importante disso. Como exemplo de como isso poderia funcionar, ela menciona o governo alemão, que vinculou empréstimos estatais a empresas siderúrgicas à sua capacidade de reduzir a pegada de carbono.

“Faça com que seja condicional”, afirma Mazzucato. “Eles precisam ou morrem. É o que fazemos em outras áreas. Você não pode usar crianças numa fábrica. Existe a lei e você será excluído do negócio. Nós precisamos tornar as coisas obrigatórias.” Ela acrescenta que, no entanto, isso só funcionaria com métricas adequadas que garantam que as empresas cumpram o que prometeram.

Uma iniciativa que trabalha com tais métricas é a empresa sem fins lucrativos World Benchmarking Alliance (WBA). O grupo elaborou uma lista das 2 mil empresas mais influentes do mundo que juntas representam metade da economia global. Atualmente, uma equipe de cerca de 50 pessoas está trabalhando em classificá-las de acordo com a forma como elas contribuem para alcançar os vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Ao disponibilizar essas métricas gratuitamente, espera-se que seja possível responsabilizar as empresas e garantir que elas cumpram seus compromissos.

“É como as resoluções de Ano Novo”, conta o presidente da WBA, Gerbrand Haberkamp. “Nós sabemos que é difícil mantê-las. E é o mesmo para as empresas. Em fevereiro já é difícil ir à academia. É por isso que precisamos dessas métricas.”

Assim, as brilhantes campanhas de sustentabilidade são mais do que fumaça e espelhos? As empresas estão realmente começando a se comportar de forma mais responsável? Sim, parece que algumas realmente estão. Não necessariamente porque elas têm um coração grande, mas porque faz sentido em termos comerciais.

Elas estão mudando rápido o suficiente? Não, certamente não estão. Talvez seja melhor colocar nas palavras do cientista Johan Rockström: “Ainda estamos tendo ilhas de sucesso em um oceano de ignorância.”

Ambiente & Ecologia,Aquecimento Global,ONU

Gases de efeito estufa que aquecem o clima em níveis recordes, diz ONU

Dióxido de carbono, metano e óxido nitroso estão muito acima dos níveis pré-industriais

Ambiente & Ecologia,Aquecimento Global,ONUUma estação de energia na Polônia
Uma estação de energia na Polônia perto das fronteiras com a Alemanha e a República Checa. Foto: Florian Gaertner / Photothek / Getty Images

As principais emissões de gases do efeito estufa que impulsionam as mudanças climáticas atingiram níveis recordes, segundo os especialistas em meteorologia da ONU.

O dióxido de carbono, metano e óxido nitroso estão agora muito acima dos níveis pré-industriais, sem nenhum sinal de reversão da tendência de alta, segundo um relatório da Organização Mundial de Meteorologia .

“A última vez que a Terra experimentou uma concentração comparável de CO 2 foi de 3 a 5 milhões de anos atrás, quando a temperatura estava entre 2 e 3 graus Celsius e o nível do mar era de 10 a 20 metros mais alto do que agora”, disse o secretário geral da OMM, Petteri Taalas.

“A ciência é clara. Sem cortes rápidos no CO 2 e outros gases do efeito estufa, as mudanças climáticas terão impactos cada vez mais destrutivos e irreversíveis sobre a vida na Terra. A janela de oportunidade para ação está quase fechada. ”

Taxa de liberação de emissão de carbono “sem precedentes” nos últimos 66 milhões de anos
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Os níveis de CO 2 subiram para uma média global de 405,5 partes por milhão na atmosfera em 2017 – quase 50% mais do que antes da revolução industrial.

Os níveis de metano, um potente gás de efeito estufa responsável por cerca de 17% do aquecimento global, são hoje 2,5 vezes maiores que os tempos pré-industriais devido às emissões de gado, arrozais e vazamentos de poços de petróleo e gás.

O óxido nitroso, que também aquece o planeta e destrói a camada protetora de ozônio da Terra, é agora mais de 20% superior aos níveis pré-industriais. Cerca de 40% do N2O vem de atividades humanas, incluindo degradação do solo, uso de fertilizantes e indústria.

A OMM também destacou a descoberta da produção ilícita de CFC-11 , uma substância química proibida que também aquece o planeta e destrói o ozônio. Investigações indicam que pelo menos parte da produção está na China .

Em outubro, os cientistas do mundo disseram que o aquecimento global de até 1.5C teria consequências graves para a humanidade . Os acordos climáticos internacionais estabeleceram por duas décadas o limite 2C.

“Cada fração de um grau de aquecimento global é importante, assim como toda parte por milhão de gases do efeito estufa”, disse a vice-secretária geral da OMM, Elena Manaenkova. “O CO 2 permanece na atmosfera por centenas de anos e nos oceanos por mais tempo. Atualmente, não há varinha mágica para remover todo o excesso de CO 2 da atmosfera. ”

A professora Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia, disse que não ficou surpresa com os novos níveis recordes de gases de efeito estufa. “Mas estou muito preocupado com o fato de que todos os três gases mais responsáveis ​​pela mudança climática estão subindo sem parar. Parece que a urgência e a extensão das ações necessárias para lidar com a mudança climática não afundaram.

“Tecnologias de baixo carbono como o transporte eólico, solar e elétrico precisam se tornar mainstream, com fósseis poluidores antiquados expelidos rapidamente”.

Os esforços para reduzir as emissões estão aumentando e na quarta-feira o órgão de mudança climática da ONU publicou um relatório sobre os compromissos assumidos em 2018. Encontrou 9.000 cidades em 128 países, 240 estados e regiões em 40 países e mais de 6.000 empresas em 120 países.

Patricia Espinosa, chefe da convenção da ONU sobre mudança climática, disse: “Por um lado, as emissões de gases do efeito estufa ainda não atingiram o pico e os países lutam para manter a atenção concentrada e o esforço necessário para uma resposta bem sucedida à mudança climática. Por outro lado, a ação climática está ocorrendo, está aumentando e há vontade de fazer mais. Destaco isso porque cair no desespero e na desesperança é um perigo igual à complacência, nenhuma das quais podemos pagar. ”

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Venezuela: cerca de 3 milhões fugiram da crise política e econômica desde 2015, diz ONU

Êxodo impulsionado pela violência, hiperinflação e escassez de alimentos e medicamentos equivale a cerca de um em 12 da população do paísONU,Nações Unidas,Migração,Venezuela,Economia,Maduro,América Latina,Refugiados

Imigrantes venezuelanos viajam a bordo de um caminhão em Tumbes, Peru, perto da fronteira com o Equador, em 1º de novembro. Fotografia: Juan Vita / AFP / Getty Images

O êxodo dos venezuelanos que fogem da crise econômica e política em sua terra natal acelerou dramaticamente, alcançando um total de cerca de 3 milhões desde 2015, anunciou a ONU .

Os novos números mostram que cerca de um em cada 12 da população deixou o país, impulsionado pela violência, hiperinflação e escassez de alimentos e remédios.

A taxa de migração acelerou nos últimos seis meses, disse William Spindler, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que apelou por maiores esforços internacionais para aliviar a pressão sobre os vizinhos da Venezuela.

A vida é uma luta à medida que a inflação na Venezuela se aproxima de um milhão por cento

A Venezuela, rica em petróleo, entrou em crise com seu presidente socialista, Nicolás Maduro, que tem lutado para controlar a hiperinflação e reprimir os opositores políticos.

Dados da ONU em setembro mostraram que 2,6 milhões haviam fugido para países vizinhos, mas os governos regionais estão lutando para lidar com as consequências humanitárias e políticas de uma das maiores migrações em massa da história da América Latina .

“Os principais aumentos continuam a ser relatados na Colômbia e no Peru”, disse Spindler.

A Colômbia está abrigando 1 milhão de venezuelanos. Cerca de 3.000 mais chegam a cada dia, e o governo de Bogotá diz que 4 milhões poderiam estar vivendo lá até 2021, custando quase US $ 9 bilhões.

Cerca de 300 refugiados, que chegaram com nada além do que podiam carregar, fizeram acampamento fora do terminal de ônibus em Bogotá, capital da Colômbia.

“Quando você não consegue encontrar comida, quando sua filha pode ficar doente a qualquer momento, é quando você sabe que tem que sair”, disse Lozada, agarrando o bebê ao peito. “Mas aqui não temos trabalho, não temos nada para fazer, então podemos ter que voltar.”

Outrora uma garçonete em um restaurante sofisticado em Valência, a terceira maior cidade da Venezuela, ela agora passa seus dias implorando por pequenas mudanças fora de um shopping center.

Sem nenhum dinheiro para o resto da jornada, eles percorreram as 345 milhas restantes até Bogotá na esperança de encontrar trabalho. Eles atualmente vivem em uma barraca improvisada, dormindo em um colchão de acampamento que os moradores locais doaram.

” Essa foi uma caminhada longa e cansativa”, disse ela. “Um dia espero voltar para terminar meus estudos, mas é difícil ver as coisas melhorando”.

Maduro rejeitou os números da migração da ONU como ” notícias falsas ” destinadas a justificar a intervenção estrangeira nos assuntos da Venezuela.

“Maduro só se preocupa”, disse Augustín Pérez, de 51 anos, de Caracas, agora acampando em Bogotá com sua esposa e quatro filhos. “Ele não se importa com as pessoas sem nada para comer … enquanto todos os seus amigos engordam.”

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o ACNUR disseram que o êxodo estava sobrecarregando vários países vizinhos, especialmente a Colômbia.

“Os países da América Latina e do Caribe mantiveram amplamente uma política louvável de portas abertas”, disse Eduardo Stein, representante especial da ACNUR-IOM para refugiados e migrantes da Venezuela . “No entanto, sua capacidade de recepção é severamente tensa, exigindo uma resposta mais robusta e imediata da comunidade internacional.”

Depois da Colômbia, o Peru recebeu o segundo maior número de venezuelanos, com mais de 500.000. O Equador tem mais de 220.000, a Argentina 130.000, o Chile mais de 100.000, o Panamá 94.000 e o Brasil 85.000.

A resposta dos países latino-americanos à crise migratória marca uma grande diferença nos esforços da administração Trump para demonizar uma caravana de 7.000 migrantes , a maioria de Honduras, que atualmente atravessa o México em direção à fronteira sul dos Estados Unidos, onde planeja procurar asilo.

Adam Isacson, analista do escritório de Washington na América Latina, twittou : “Um especialista com quem falei hoje pontuou: como é que a Colômbia está recebendo 5.000 venezuelanos todos os dias, mas o governo dos EUA está em pânico com 7.000 centro-americanos? ?

Autoridades do governo regional devem se reunir em Quito, no Equador, de 22 a 23 de novembro, para coordenar esforços humanitários.
Joe Parkin Daniels/TheGuardian

Saúde, Antibióticos, Epidemia e Câncer

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer (se não for evitada)

resistência aos antibióticos
Abdoul Gadiri Diallo, médico do centro de saúde CMC Flamboyants em Conacri, Guiné.

Há muitos perigos que ameaçam a humanidade em seu caminho rumo a um mundo melhor em 2030, quando terá que prestar contas para comprovar se os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram alcançados. Certamente, o mais conhecido é a mudança climática, que há anos está na agenda internacional. Outro perigo, mais desconhecido da opinião pública, pode se tornar a primeira causa de morte em 2050 se não forem tomadas medidas contundentes para detê-lo: a resistência aos antibióticos.

“Trata-se de uma ameaça terrível, com grandes implicações para a saúde humana. Se não abordarmos isso, o avanço em direção aos ODS será freado e nos levará ao passado, quando as pessoas arriscavam suas vidas devido a uma infecção em uma pequena cirurgia. É um problema urgente”, disse na quinta-feira Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma reunião no âmbito da 72ª Assembleia das Nações Unidas (ONU), em Nova York. York.

A resistência aos antibióticos é uma resposta dos microrganismos ao uso desses medicamentos. Seu uso — e especialmente seu abuso — faz com que, por meio de diferentes mecanismos biológicos, percam sua eficácia. As bactérias deixam de ser sensíveis aos seus efeitos e são necessários princípios ativos cada vez mais agressivos — e tóxicos para o organismo humano — para eliminá-las. Com sorte. Porque já existem superbactérias que resistem até mesmo aos antibióticos de última geração. “As resistências estão aqui para ficar e vão piorar”, alertava Sally Davies, diretora médica do Reino Unido.

Por causa dessa resistência, cerca de 700.000 pessoas morrem todos os anos no mundo. O cenário com o qual os especialistas trabalham em seus estudos é que, se a situação não mudar, esse número chegue a 10 milhões em 2050. Para se ter uma ideia da magnitude da tragédia, hoje morrem pouco mais de oito milhões de pessoas por ano devido ao câncer. A grande maioria dos casos fatais estaria na Ásia (4,7 milhões) e na África (4,1 milhões), seguidas pela América Latina (392.000), Europa (390.000), América do Norte (317.000) e Oceania (22.000).

Xoliswa Harmans, conselheira da clínica Lizo Nobanda, da Cidade do Cabo, África do Sul. Estas profissionais de saúde são fundamentais para os doentes quando enfrentam um tratamento que durará pelo menos dois anos. Pacientes de tuberculose extremamente resistente encontram apoio emocional e informações durante esse processo.
Xoliswa Harmans, conselheira da clínica Lizo Nobanda, da Cidade do Cabo, África do Sul. Estas profissionais de saúde são fundamentais para os doentes quando enfrentam um tratamento que durará pelo menos dois anos. Pacientes de tuberculose extremamente resistente encontram apoio emocional e informações durante esse processo. ALFREDO CÁLIZ
A boa notícia é que a preocupação passou do plano científico, onde era debatido há décadas, para o político. Em 2016, na 71ª Assembleia Geral da ONU, o assunto foi discutido no mais alto nível pela primeira vez. Exatamente um ano depois, quando mudaram tanto o Secretário-Geral da ONU como o diretor da OMS, a preocupação de perder o interesse gerado foi explicitada por alguns oradores do encontro chamado Progressos, desafios, oportunidades e novas formas de abordar a resistência aos antibióticos, organizado pela UN Foundation.

Essas novas formas passam por abordar os dois grandes geradores de resistências: o uso indevido em seres humanos e o abuso nos animais. No que diz respeito às pessoas, são drogas que muitas vezes não exigem receita e é frequente que sejam consumidas à vontade. Particularmente perigoso é tomar de forma incompleta, porque o micro-organismo não chega a ser eliminado, mas conhece seu inimigo aprendendo a lutar contra ele. “Costuma-se debater que sempre é necessária a receita, mas em muitas partes do mundo este é um processo complicado que privaria milhões de pessoas do tratamento. Precisamos encontrar as soluções mais adequadas para cada realidade”, observou Julie Gerverding, vice-presidenta da farmacêutica Merck. “O necessário é um diagnóstico no começo para que o paciente tenha o tratamento correto o quanto antes”, acrescentou.

Por causa das resistências já morrem cerca de 700.000 pessoas por ano no mundo

As campanhas de informação, tanto para médicos quanto para pacientes, são uma das principais ferramentas para evitar esse mau uso de antibióticos. Jean Halloran, diretora das iniciativas de alimentação da União de Consumidores, explicou que sua organização está desenvolvendo em 20 países uma campanha que incentiva o uso de menos remédios. Nos consultórios, por exemplo, facilitam uma lista de perguntas que o próprio paciente deveria fazer ao seu médico se ele prescrever um antibiótico para ter certeza que é absolutamente necessário.

Mas talvez a arma mais valiosa para combater a resistência sejam as vacinas. Com elas, evitamos um grande número de doenças bacterianas comuns, o que torna os antibióticos desnecessários. “Imunizar 100% das crianças do mundo seria mais eficaz do que qualquer outra coisa”, afirmou Tim Evans, diretor de Saúde do Banco Mundial.

Sua organização calculou os custos da resistência. Em março passado publicou um relatório mostrando que não apenas são um perigo para a saúde, mas também para a economia. No melhor dos cenários, calculam uma queda do PIB mundial de 1,1% em comparação com o que aconteceria se não existisse, o que equivale a um trilhão de dólares por ano até 2030. O cenário mais pessimista eleva esse número para 3,8% de queda, 3,4 trilhões anualmente.

Não só o medicamento em seres humanos tem um papel importante nestes números. Outro dos grandes focos de resistência é a agricultura e o gado. Os animais recebem enormes quantidades de antibióticos para prevenir e curar as doenças comuns que ocorrem em ambientes lotados. E em muitos países (não na União Europeia), ainda está permitido administrar pequenas doses para favorecer a engorda. Este é o ambiente perfeito para que as bactérias se tornem resistentes.

Mas, ao mesmo tempo, a administração de medicamentos aos animais é necessária para a segurança deles mesmos e dos seres humanos. E seu uso vai continuar a crescer. De acordo com estimativas da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), vai dobrar nos próximos 20 anos pela intensificação da pecuária e da aquicultura. E também o tratamento das plantas, através da utilização de antibióticos nos pesticidas, contribui para a resistência.

O PIB mundial pode sofrer entre 1,1% e 3,8% pela “epidemia”, de acordo com estimativas do Banco Mundial

A FAO faz uma série de recomendações para detê-la: práticas sustentáveis, com boa higiene e medidas de biossegurança para começar a reduzir a necessidade de antibióticos; melhorar a prática veterinária; conhecimento do uso das drogas entre os agricultores e pecuaristas; acesso a diagnósticos rápidos…

Também nos animais as vacinas têm um papel crucial. Bard Skjesltad, chefe de Biologia e Nutrição da empresa aquícola Salmar, explicava que com imunizações conseguiram reduzir o uso de antibióticos para 1%, enquanto produzem entre três a quatro vezes mais comida. “Quando você para de medicar os animais enfrenta problemas de saúde, mas o fundamental são as medidas preventivas”.

Nos países desenvolvidos, as redes de fast food são a chave para combater o problema. De acordo com Jean Halloran (União de Consumidores), são as responsáveis pela produção de 25% das aves nos EUA. Nestes animais, estão conseguindo enormes reduções, começando pelo McDonald’s, que anunciou que iria parar de usar antibióticos neles. “Com a carne bovina e suína os progressos são mais lentos, mas podem ser feitos”, disse Halloran, que argumenta que já foi demonstrada a possibilidade que a produção em massa diminua o consumo de medicamentos com um custo muito baixo.

Mas o relógio está correndo contra a saúde global quando falamos de resistência aos medicamentos. As medidas precisam ser tomadas agora. Porque, como alertava o diretor da OMS, há poucos medicamentos novos que conseguirão resolver um problema que pode se tornar a maior epidemia nos próximos anos.

A participação de Planeta Futuro na Assembleia Geral das Nações Unidas foi possível graças ao apoio da UN Foundation.
ElPais

Guerra às drogas: Cinco ex-presidentes defendem o fim da guerra às drogas

Ex-chefes de Estado divulgaram um relatório pedindo o fim da guerra às drogas. Mas há pouca esperança de mudança para a próxima conferência da ONU sobre o tema.

Cinco ex-presidentes defendem o fim da guerra às drogas
Mudar a abordagem proibitiva da ONU requer apoio dos 193 países-membros
(Foto: Flickr/Neal Jennings)
Após muito dinheiro gasto e muita violência a guerra às drogas mostrou poucos resultados. Por conta disso, a ideia de mudança de abordagem vem ganhando adeptos em vários países.

A última crítica ao modelo vigente veio nesta quinta-feira, 24, através de um grupo de ex-presidentes e empresários que divulgou um relatório chamado “Ending the War on Drugs” (“Finalizando a Guerra às Drogas”).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O documento reúne vários artigos sobre o tema publicados pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, César Gaviria, da Colômbia, Ernesto Zedillo, do México, Olusegun Obasanjo, da Nigéria e Ruth Dreifuss, da Suíça, além de um grupo de especialistas.

O empresário George Soros, que já financiou vários grupos pró-legalização, também participou do relatório. Todos eles condenam o que enxergam como uma derrota política, econômica e de saúde pública.

A divulgação do relatório tem como objetivo influenciar os diplomatas que no mês que vem se reunirão em Nova York para a próxima conferência especial da Assembleia Gera da ONU sobre o tema.

A última conferência ocorreu em 1998, com o slogan “Um Mundo Livre de Drogas”.

Apesar do estímulo a uma nova abordagem, a próxima conferência não gera muitas expectativas.

A mais recente conferência da Comissão de Narcóticos da ONU, encerrou na última terça-feira, 22, com um projeto de declaração que sequer critica o uso de pena de morte para crimes relacionados às drogas, algo que era o mínimo esperado por aqueles que advogam por mudanças.

Os argumentos usados pelos ex-presidentes conseguiram persuadir um considerável número de pessoas a repensar o assunto, incluindo os Estados Unidos.

O país, que antes liderava a guerra às drogas, legalizou o uso medicinal e recreativo da maconha em vários estados e atualmente metade da população americana defende essa ideia.

Porém, mudar a abordagem proibitiva determinada pela ONU requer o apoio de todos os 193 países-membros, muitos deles firmes na decisão de manter a política atual.

O mais provável é que a discussão da reunião do mês que vem seja superficial e leve a entender que as demais conferências não serão reformadas, mas sim ignoradas.
Fonte:Opinião&Notícia