Filipe Martins e a rede de mentiras agonizam: um tuiteiro nocauteou a grana de sites de fake news

Uma reportagem do El País revelou como um perfil no Twitter virou a grande pedra no sapato da extrema direita americana. Com o nome de Sleeping Giants, o perfil criado em 2016 expôs ao escracho público as marcas que anunciavam em sites de fake news.

Filipi Martins e Steve Bannon – Reprodução: Twitter/Filipe G. Martins

O perfil informava ao público os nomes das empresas e compartilhava as capturas de tela dos anúncios nas suas redes oficiais. A tática foi um sucesso, e as empresas se viram obrigadas a anunciar publicamente o bloqueio dos anúncios.

O Breitbart News é um site de extrema direita famoso por inventar histórias contra adversários de Trump. Durante a eleição presidencial, o site publicou a história de que a então candidata Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia e promovia orgias sexuais com crianças no porão de uma pizzaria. Após a ação do Sleeping Giants, o site viu ir embora mais de 4,5 mil anunciantes — um golpe que significou uma perda de mais de 8 milhões de euros. Steve Bannon, o guru da extrema direita internacional, era o proprietário do site e, à época, chamou o Sleeping Giants de “a pior coisa que há”. Como se sabe, Bannon é o homem por trás da engenharia de desinformação dos extremistas de direita no mundo inteiro. As mentiras que ajudaram a eleger Trump foram uma inspiração para o surgimento das mamadeiras de piroca que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Um estudante que desenvolve pesquisas sobre fake news leu essa reportagem do El País e decidiu criar a versão brasileira do Sleeping Giants. Em apenas quatro dias, o perfil ultrapassou a marca de 200 mil seguidores e virou um movimento coletivo contra a propagação de mentiras. Para se ter uma ideia do sucesso brasileiro, o perfil americano juntou 270 mil seguidores em quatro anos. As marcas passaram a ser cobradas e quase todas empresas anunciaram o fim dos anúncios em sites que disseminam mentiras. O sucesso da tática enfureceu as hostes bolsonaristas, que imediatamente partiram para o contra-ataque.

Um dos que lideraram a manada foi Filipe Martins, esse projeto sorocabano de Steve Bannon. Ele é o bolsonarista mais próximo do americano e foi o responsável por aplicar o seu know-how de mentiras no Brasil. O jovem de 31 anos é, junto de Carlos Bolsonaro, um dos arquitetos por trás do “gabinete do ódio”, conhecido oficialmente como Assessoria Especial da Presidência. Nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, Martins também é o responsável por fazer o meio de campo entre o governo e as milícias virtuais bolsonaristas: youtubers, blogueiros e sites de notícias falsas. É ele quem organiza o ódio bolsonarista e municia a militância com conteúdo.

O assessor especial provocou o criador do Sleeping Giants americano, Matt Rivitz, que causou aquele prejuízo milionário ao seu guru americano. É que no fantástico mundo olavista de Martins parece óbvio que há “forças globalistas” por trás da versão brasileira. O aprendiz de Steve Bannon chamou de “censura” e “prática totalitária” uma ação feita por livre iniciativa das pessoas que protestaram e das empresas privadas que optaram por retirar os anúncios. Onde está a turma do ultraliberalismo sem freio nessas horas? Cadê seu deus livre mercado agora?

O Sleeping Giants brasileiro começou focando nos anunciantes do site Jornal da Cidade Online, que já foi alvo de processos por publicação de mentiras e está sendo investigado pela CPMI das Fake News. O relatório da comissão afirma que há “indícios da prática de condutas ilegais de José Pinheiro Tolentino Filho por meio de seu projeto de comunicação Jornal da Cidade Online”. O site já teve que pagar 150 mil em indenização para o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, pela publicação de uma mentira sobre ele. Não é uma coincidência o fato dessa mentira ter sido publicada justamente na época em que Santa Cruz protagonizou um bate-boca público com Bolsonaro.

Assim como a maioria de sites e blogs ligados ao bolsonarismo, o Jornal da Cidade Online consegue faturar com anúncios através do Adsense, um serviço da Google que os distribui automaticamente para sites assinantes. Nesse formato, as empresas não escolhem para quais sites irão seus anúncios. É o algoritmo do Google que os distribui nos sites. Ao serem expostas como patrocinadoras de sites que publicam mentiras, as grandes marcas imediatamente se posicionaram.

Sleeping Giants Brasil
Oii @DellnoBrasil, tudo bem? Realmente seus notebooks são incríveis, só não acho legal divulga-los em site famoso por espalhar Fake News e atacar constantemente a democracia. Pls considere bloquear✊🏽#SleepingGiantsBrasil@DellnoBrasil
Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.

Oii @ClaroBrasil, tudo bem? Realmente é muito mega hein mas não acho legal encontrar esse anúncio em uma postagem que chama o @felipeneto de “imbecil,lixo, ícone da canalhice e verme”. Por isso pedimos: PLS BLOQUEIE!✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@ClaroBrasil
Olá! Nós não compactuamos com a disseminação de notícias falsas, temos o compromisso ético com a transparência da informação. Por isso, todos os nossos anúncios automáticos estão passando por monitoramento, em conjunto com as plataformas parceiras, que distribuem tais conteúdos.

Oii @iFood, tudo bem? Realmente o app quebra um galho na hora de pedir um @McDonalds_BR quando bate aquela fominha, mas acreditamos que eles não gostariam de saber que seu lanche está ajudando a financiar um site divulgador de Fake News! ✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@McDonalds_BR
Nosso time já retirou do ar nossa mídia vinculada a esse site e a qualquer outro que compactue com notícias falsas. Obrigado!

@fastshop @fastshop_sac vocês também tem anuncio lá, vamos tomar providências?

@fastshop
Informamos que não temos vínculos com nenhum portal jornalístico. Estamos analisando os anúncios com nosso nome e removendo das plataformas que anunciam de forma automática através de sites de busca. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas. Agradecemos por nos avisar.

Philips BrasilSegundo levantamento do UOL, o Jornal da Cidade Online contava com 903 anunciantes. Durante pouco mais de um ano, todas essas empresas fizeram juntas 1.987 anúncios diferentes no site. O maior anunciante foi o Banco do Brasil que, ao ser confrontado no Twitter, também informou que retiraria os anúncios:

Oii @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas não precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear!✊🏽#SleepingGiantsBrasil

@BancodoBrasil
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Foi aí que o gabinete do ódio pegou fogo. Filipe Martins e Carlos Bolsonaro acionaram a rede virtual bolsonarista, que reagiu em peso junto com políticos e outros expoentes da extrema direita. A deputada bolsonarista Carla Zambelli, doPSL paulista, e o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, também foram escalados para repudiar o episódio. Wajngarten, que cuida das verbas publicitárias do governo, disse que o governo irá “contornar a situação”e garantir a “defesa da liberdade de expressão”. Afirmou ainda ter certeza que o Jornal Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”.

Para os padrões de seriedade de Wjangarten, que é investigado pelos crimes de corrupção, peculato e advocacia administrativa, a análise faz sentido. O Jornal da Cidade Online é um veículo tão sério que alguns de seus repórteres e colunistas não existem. O site publicava textos assinados por repórteres com identidades falsas para poder atacar ministros do STF e adversários políticos de Bolsonaro. O site também está sendo processado por atacar desembargadores do Rio de Janeiro e o ministro Gilmar Mendes com ofensas e mentiras usando esses perfis falsos.

Leandro Ruschel
@leandroruschel
Caro @jairbolsonaro e @secomvc , há um banco estatal discriminando site jornalístico, com inclinação conservadora, seguindo mera denúncia sem provas de perfil anônimo, aparentemente ligado à esquerda. É preciso rever essa decisão. https://twitter.com/BancodoBrasil/status/1263126286484082691 … Banco do Brasil
@BancodoBrasil
Respondendo a @slpng_giants_pt
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Logo após o resmungo de Carluxo no Twitter, o Banco do Brasil, cujo gerente executivo de Marketing e Comunicação é filho do vice-presidente da República, voltou atrás da decisão e manteve os anúncios no site de fake news. Ou seja, um vereador carioca, lotado não oficialmente no gabinete do ódio, interferiu na política de anúncios de uma estatal. O filho do presidente da República conseguiu manter as verbas públicas que irrigam um site que defende o bolsonarismo espalhando fake news. É o dinheiro do povo brasileiro sendo usado para financiar a rede de mentiras que sustenta o governo.

Parece que finalmente estamos tomando um bom caminho para combater a máquina de propaganda fascistoide do bolsonarismo. A tática de constranger marcas que apoiam iniciativas se mostrou importante e eficaz, mas o Google, que gerencia a maior partes dos anúncios na internet, também deve ser cobrado. É ela quem controla o algoritmo que ajuda a financiar esses sites. Em novembro do ano passado, o Intercept revelou como o Google ofereceu treinamentos grátis para ensinar blogueiros bolsonaristas e antipetistas a faturarem com Adsense. Muitos desses blogueiros eram notórios criadores de fake news. Não adianta a empresa lavar as mãos.

O criador do Sleeping Giants brasileiro pretende se manter no anonimato porque viu o criador da tática sofrendo sérias ameaças de morte nos EUA. Mexer com a extrema direita é sempre perigoso. E, quando seu núcleo central mantém ligações políticas e financeiras com as milícias, todo cuidado é pouco.

Olavo de Carvalho,Newton,Gravidade,Blog do Mesquita

Olavo de Carvalho X Newton

Orvalho de Cavalo; “Os cientistas explicam satisfatoriamente todos os fenômenos que ele mesmos inventam” Hahahah. A gravidade foi descoberta não inventada
Astrólogo anal, a gravidade foi descoberta não inventada. Pare com essa dieta de Alfafa.
Já li muita idiotice na internet, principalmente no Facebook, mas essa supera todas

Olavo de Carvalho,Newton,Gravidade,Blog do Mesquita

Ricardo Velez,Brasil,Jair Bolsonaro,Política,Políticos,Presidente da República,Blog do Mesquita,Olavo de Carvalho,MEC,Educação

Batalha entre olavistas e militares no MEC trava a pauta de educação

Disputa interna, que já levou a sete exonerações e remanejamentos do alto escalão no ministério, seria cortina de fumaça para ausência de políticas efetivas, avaliam especialistas.Ricardo Velez,Brasil,Jair Bolsonaro,Política,Políticos,Presidente da República,Blog do Mesquita,Olavo de Carvalho,MEC,Educação

Ministro da Educação, Ricardo Vélez. MARCELLO CASAL JR AGÊNCIA BRASIL

Governo diz preparar cartilha com Política Nacional de Alfabetização.

O alto escalão do Ministério da Educação (MEC) se envolveu em uma disputa de poder que já rendeu pelo menos sete exonerações e remanejamentos e mergulhou a pasta em uma crise política. Em meio a uma batalha por influência e poder de diferentes grupos dentro do órgão, o Governo sinalizou que pode realizar internamente uma Lava Jato da Educação para averiguar corrupção dentro da pasta nas gestões anteriores. A área ainda ganhou uma pressão extra vinda do Ministério da Economia, que pretende desvincular todo o orçamento da União, o que comprometeria o percentual obrigatório de recursos públicos a serem aplicados na Educação.

Enquanto o ministro Ricardo Vélez se esforça para arrumar a casa e se manter no cargo, o Governo Bolsonaro pode perder a oportunidade de marcar uma política educacional efetiva no início do mandato, momento que costuma ser mais favorável para aprovar ações pela ausência de desgastes da gestão que se inicia, apontam especialistas. Nos pouco mais de 70 dias desde o início do atual Governo, pouco se falou publicamente de ações efetivas para o setor. Até o momento, as notícias sobre uma eventual queda de Vélez e a batalha dentro do ministério entre grupos ligados a militares, técnicos e a ex-alunos de Olavo de Carvalho ganharam mais destaque do que a dinâmica que será seguida a partir de agora nas escolas e universidades de todo o país. “A ênfase do MEC em assuntos periféricos [como as disputas internas] limita no sentido de colocar pra andar o que é essencial para reverter o cenário da educação brasileira. O ponto mais grave desta ausência de uma agenda é o risco de o atual Governo perder a janela de oportunidade que é o início de mandato, quando o capital político atinge o seu ápice”, avalia o porta-voz do Todos pela Educação, Olavo Nogueira Filho.

O Governo até ventilou prioridades —o combate ao analfabetismo está entre as principais delas— e chegou a se reunir com entidades do setor, mas ainda não detalhou estratégias nem anunciou uma agenda clara para a área. Por ora, o MEC prepara uma cartilha para apresentar à sociedade a Política Nacional de Alfabetização, considerada um carro chefe da gestão. A estratégia, porém, está refém de um embate político interno do MEC, que ficou evidente após uma carta de Vélez orientando as escolas a ler o slogan de campanha de Bolsonaro e a gravar os alunos cantando o hino nacional. Nenhum dos grupos que disputam influência interna na pasta assume a autoria dessa ideia, que foi rejeitada publicamente até pelo presidente Jair Bolsonaro.

Depois do episódio do hino, grupos ligados a alguns militares e a técnicos passaram a defender internamente que o ministro Vélez abandonasse o discurso ideológico mais duro para focar em políticas de eficácia comprovada. O então diretor de programa da Secretaria Executiva do MEC, Coronel Roquetti, e o secretário executivo Luiz Antonio Tozi, número dois da pasta, eram nomes que defendiam uma ação educacional desvinculada da guerra política e ideológica herdada da campanha eleitoral. Mais próximo desse grupo, o ministro Vélez começou a exonerar seguidores do guru da direita Olavo de Carvalho, com viés ideológico mais duro. No ápice do conflito, houve baixas de ambos os lados, e Roquetti (mais ligado aos militares) acabou exonerado a pedido do próprio Bolsonaro.

Olavo de Carvalho
Nunca escrevi uma palavra contra o meu caro Ricardo Velez nem muito menos contra o presidente Bolsonaro. Ao contrário, escrevi contra os vampiros escondidos que querem tucanizar o governo para agradar à mídia, traindo o povo.

Mesmo assim, as outras exonerações do ministro da Educação caíram mal entre olavistas, justamente o grupo que apoiou sua entrada no Governo Bolsonaro. Vélez foi convidado para ser ministro sob a bênção do filósofo que faz sucesso nas redes sociais entre ativistas de direita. Agora, os olavistas chamam as exonerações e rebaixamentos no MEC de traição. “O expurgo de alunos do Olavo de Carvalho do MEC é a maior traição dentro do Governo Bolsonaro que se viu até agora”, publicou Silvio Grimaldi, que trabalhava no gabinete de Vélez e foi exonerado por não aceitar seu remanejamento para a Capes. Olavistas também criticaram o espaço a “tucanos” na pasta e disseram que a gestão não segue as ideias de Bolsonaro. O próprio Olavo de Carvalho passou a aconselhar a saída de seus seguidores do MEC, dizendo que o Governo estava cheio de “inimigos” e que seus ex-alunos pouco poderiam contribuir nesse cenário. Mesmo após a exoneração do Coronel Roquetti, Olavo usou o Twitter para defender uma “limpeza” no MEC com a retirada de pessoas ligadas ao militar, que segundo ele articulava a disputa interna contra seus seguidores. Tozi também acabou exonerado.

Alfabetização é o carro chefe
Enquanto os gestores disputam espaço no MEC, as propostas efetivas para a educação têm ficado em segundo plano. Especialistas na área dizem que a sensação é de paralisação na pasta. Em nota, o Governo afirma que criou um grupo de trabalho em janeiro e que tem se reunido com entidades para desenvolver as políticas no setor, tendo como carro chefe a Política Nacional de Alfabetização. Uma secretaria especial foi criada para isso e é comandada por um seguidor de Olavo de Carvalho, Carlos Nadalim. Conforme o MEC, uma cartilha está sendo produzida para apresentar as ações para a sociedade. No último mês, o Governo também apresentou ao Congresso sete prioridades para a área, mas ainda não informou como pretende avançar em cada uma delas. A principal meta é justamente a criação de uma Política Nacional de Alfabetização. Também é prioridade a implementação da Base Nacional Comum Curricular e a redistribuição de recursos do Fundeb. Outros objetivos são o ensino profissionalizante, as escolas militares e o ensino para pessoas com necessidades especiais. Uma política de formação de professores também está entre as prioridades. Sem detalhamento, contudo, a sensação entre especialistas é que na prática não existe um norte a ser seguido.

“Este é um momento ímpar para avançar na agenda, mas o tempo vai passando, e o Governo parece que não aproveitará as oportunidades”, diz Olavo Nogueira Filho, do Todos pela Educação. Segundo ele, a gestão também pode perder a oportunidade de desenhar uma polícia efetiva ao setor diante do recente entendimento político de que a educação é central para a retomada do desenvolvimento do país. “Nós no Brasil não temos tempo pra perder na educação”, afirma. Para Nogueira Filho, o desafio do Governo já não é estudar os problemas, mas implementar políticas de eficiência comprovada cujo debate está maduro. “Não é mais uma questão de se debruçar no que se deve fazer, mas articular um projeto comum voltado para a aprendizagem”, acrescenta.

O coordenador executivo da Ação Educativa, Roberto Catelli, avalia que a falta de agilidade na apresentação de ações concretas pelo Governo se soma a uma postura de um MEC mais ligado ao discurso eleitoral e à tentativa de criminalizar governos anteriores do que aos problemas reais pelos quais passa a Educação. “Somos um país que ainda tem baixo financiamento da educação, aquém da necessidade. Precisamos ampliar recursos e garantir qualidade ao ensino. Nos últimos anos, tivemos avaliações negativas. Temos um Plano Nacional de Educação com metas a serem implementadas em dez anos, que é o pilar da Educação e precisa ser implementado. Mas não vemos uma fala sobre isso, nem a apresentação de políticas públicas que dialoguem com isso”, afirma.

Vélez se vê, assim, desagradando a gregos e troianos. Olavistas chegaram a fazer campanha nas redes sociais para a queda do ministro, indicando possíveis sucessores. No centro da questão, está um suposto lobby interno contra a proposta da Lava Jato da Educação, um acordo entre vários ministérios para investigar possíveis fraudes na pasta em gestões anteriores. Diante dos conflitos, o presidente Bolsonaro garantiu que manteria Vélez no cargo, mas orientou a exoneração do Coronel Roquetti pelas críticas de Olavo. “Estamos 100% alinhados com o Planalto e agora mais do que nunca focados na real mudança da educação no país e sempre ouvindo a voz de todos vocês. Seguiremos com a Lava Jato da Educação”, publicou o ministro no Twitter, após a sinalização do presidente.

O presidente Bolsonaro chegou a dizer que os problemas internos dentro do ministério estavam resolvidos, mas as mudanças continuam acontecendo, várias delas influenciadas pelas críticas públicas de Olavo de Carvalho ou de seus seguidores. Após a demissão de Tozi, o ministro Vélez anunciou a promoção do secretário adjunto Rubens Barreto para a Secretaria Executiva do MEC. Dois dias depois, diante de críticas do grupo ligado ao guru dos Bolsonaro, o ministro Ricardo Vélez voltou atrás e escolheu Iolene Lima, ligada aos evangélicos, para ocupar o referido cargo e, consequentemente, ser a sua número dois dentro do ministério. A decisão foi confirmada nesta quinta-feira. Neste final de semana, um vídeo com uma entrevista antiga dela criou polêmica nas redes sociais. Nele, ela falava que “o autor da história é Deus, o realizador da geografia é Deus (…) e para os alunos do primeiro ano, o primeiro contato que eles têm com a matemática já é no livro de Gênesis [primeiro livro da Bíblia]”

A disputa como “distração”
O consultor educacional Cesar Callegari, que integrou o Conselho Nacional de Educação até o ano passado e tem acompanhado de perto as políticas federais na área, avalia que essa queda de braço interna no Ministério é uma tentativa de “distração calculada” para ofuscar a ausência de uma política efetiva e as consequências para o setor caso o Governo aprove no Congresso a desvinculação total de recursos da União. Hoje, pelo pacto federativo, os governos federal, estadual e municipal são obrigados a aplicar um percentual de suas verbas na Educação. O temor é de que os recursos para a área sejam reduzidos caso o Congresso aprove a proposta do Governo. “Sem esses recursos, não se conseguirá manter escolas e professores, muito menos melhorar suas condições”, diz Callegari. “A meu ver o MEC não tem e nem pretende ter projeto. Por isso, cria distrações como Escola sem Partido, Ideologia de Gênero, Hino nacional e Lava Jato da educação. A própria disputa interna entre grupos não passa de uma distração proposital”, analisa.

O EL PAÍS procurou o atual presidente do Conselho Nacional de Educação, Luiz Roberto Liza Curi, para saber o que o Governo Federal apontou de ações efetivas para a Educação até agora e como se desenha a política nacional para o setor sob Bolsonaro. Curi respondeu, por meio de sua assessoria, apenas sobre a questão da alfabetização, prevista na Base Nacional Comum Curricular. “Estamos debatendo o tema em conjunto com a Secretaria de Alfabetização do MEC, com encaminhamentos conjuntos e articulados. Já recebemos, inclusive, por duas vezes, o secretário Carlos Nadalin que apresentou a proposta da secretaria à Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação”, afirmou. Questionada sobre qual seria essa proposta, a assessoria não apresentou detalhes e disse que eram “ideias gerais”.

O combate ao analfabetismo é uma das prioridades mais mencionadas pelo Governo. Para especialistas, este é um problema real que o país enfrenta. Dados da Ação Educativa apontam que o analfabetismo funcional atinge 29% da população, por exemplo. Por meio de nota, o MEC informou que sua meta é desenvolver a Política Nacional de Alfabetização nos primeiros 100 dias de gestão e que estados e municípios poderão aderir a ela voluntariamente. O que se sabe até agora é que essa política servirá como marco legal para executar ações da educação infantil à alfabetização de jovens e adultos.

AÇÕES DO MEC EM 70 DIAS DE GESTÃO
Em janeiro, o ministro Ricardo Vélez criou um grupo de trabalho para fazer um mapeamento dos problemas inerentes à educação básica e à alfabetização e elaborar diretrizes com soluções. A assessoria de imprensa do MEC não especificou os resultados deste trabalho.
Em seguida, o GT realizou audiências com representantes de entidades de educação e especialistas para discutir propostas.
Esse grupo de trabalho teria elaborado uma minuta de decreto da Política Nacional de Alfabetização, com o “objetivo estabelecer uma política de alfabetização eficaz, baseada em evidências científicas, isto é, na Ciência Cognitiva da Leitura, que foi a base para experiências bem-sucedidas de outros países, como Inglaterra, EUA, Portugal e França”, segundo o MEC. Ou seja, trata-se de uma política baseada na crítica ao método construtivista de alfabetização.
A Secretaria de Alfabetização elabora agora um caderno explicativo sobre a Política Nacional de Alfabetização para informar a sociedade sobre as vantagens da proposta. O MEC não informa um prazo para apresentar essa cartilha.

Olavo de Carvalho

Em carta aberta devastadora, filha de Olavo de Carvalho acusa o pai de “colocar arma na cabeça dos seus filhos”

No facebook de Heloisa de Carvalho Arribas:Olavo de Carvalho

Carta aberta a Olavo de Carvalho, meu pai.

Estou escrevendo essa carta aberta por que você só sabe ficar xingando daí dos Estados Unidos, já que nunca teve a decência de enfrentar as pessoas cara a cara. E, quando digo enfrentar, é encarar que tudo o que falo sobre sua vida é a mais pura verdade. Não adianta mais o seu hábito de criar medo nas pessoas, o que fez com que seus filhos e esposas não abrissem a boca nem mesmo para Deus. Sempre foi sua tática chamar os outros daquilo que você é, e depois se sair de vítima quando é desmascarado ou ficar ironizando como uma forma de mascarar a verdade.

Você não se lembra das inúmeras vezes em que você me pegou para passar o final de semana com você, e você nem me respeitava, ficando na sala ao lado enquanto eu dormia na sala do Bolla e era acordada no meio da noite com os gemidos das suas farras?

Lembra-se de que, quando minha mãe, meus irmãos e eu fomos despejados e passamos a morar em um quarto com banheiro nos fundos da sua escola de astrologia, a Escola Júpiter, enquanto você fazia uma farra com a sua segunda esposa, a Silvana, minha mãe tentou o suicídio e, se não fosse por mim, ela teria morrido? Já se esqueceu também de que, quando eu fui morar com você e a Silvana, meus irmãos foram morar com a nossa avó materna, mas você nunca foi visitá-los?

Esqueceu que, quando fomos morar na casa perto do aeroporto, você e sua esposa Silvana me largavam sozinha enquanto você ia dar aula de astrologia, e que depois saíam para jantar fora e chegavam de madrugada enquanto eu, com apenas 13 anos, ficava lá sozinha e sem comida?

Aliás, as suas casas, apesar de ter mais de uma esposa, sempre foram imundas, e as suas esposas faziam questão de ficar a madrugada toda acordadas, batendo papo furado com você, e depois dormiam o dia todo. A sua mãe nunca ia visitá-lo, pois tinha nojo! E eu, quando morei com você, acabei tendo de aprender todo o serviço de casa, já que nunca gostei de sujeira.

E já que estou falando da sua mãe, lembra-se que ela morreu recentemente sem ao menos receber um único telefonema seu enquanto estava consciente, apesar de ter pedido tanto que você entrasse em contato? Essa minha avó, com quem você tantas vezes brigou e deixava com enxaquecas, passando mal por sua causa, sendo que quem estava ao lado dela, muitas dessas vezes, era eu.

E era eu também que, quando você foi internado na clínica psiquiátrica, ia te visitar, apesar de você ter internado minha mãe em um hospício por duas vezes só para que a sua vida ficasse mais fácil, já que assim ela não podia cobrar nada de você.

Nós sempre vivemos contando com a ajuda de familiares. Ou se esqueceu de que minha mãe deu a guarda judicial dos filhos para parentes, para que assim nós pelo menos tivéssemos acesso a tratamento médico, já que você não dava assistência aos próprios filhos?

Já esqueceu que nunca se preocupou nem com a escola dos filhos, mas agora fica postando fotos dos diplomas da Leilah aí nos Estados Unidos, sendo que as pessoas nem imaginam que ela só vai à faculdade porque, depois de 12 anos que estão aí, ela ainda não conseguiu a cidadania e precisa de vínculo com uma universidade para continuar no país?

Não se lembra mais de que nunca visitou a casa de um filho? Hoje, para dar ares de “família margarina”, fica se fazendo de pai de família e bom avô, mas as pessoas não sabem que, quando você surta, culpa a todos à sua volta pelos seus erros com essa sua fúria histérica.

Lembra que, em um surto de loucura, colocou uma arma na cabeça dos seus filhos?

E onde estava o pai da “família margarina” que, quando soube que eu tinha sido abusada sexualmente, não fez absolutamente nada, e que há uns quatro meses ainda me culpou pelo abuso? Acho que você esqueceu de que eu só tinha 9 anos.

Diante de tantos fatos ocorridos em nossas vidas, fatos esses não só da vida familiar, mas também muitas coisas que eu vi você fazer contra os seus amigos, eu agora percebo que você não mudou nada. Eu até cheguei a acreditar que tinha mudado, mas, quando te liguei para defender o Daniel Aragão e te contar sobre o caráter do Jossias Teófilo, você, a Leilah e a Roxane começaram a xingar a mim e ao Daniel numa gritaria cheia de palavrões que mais parecia um surto psicótico. Eu sei que, quando você surta, você fica incontrolável. Eu já vi muitos desses surtos. Daí caí na realidade: você não mudou nada!

Você fala que não sabia que o Tales é muçulmano, mas se esqueceu que quem levou ele e a família toda para o islã foi você, e ainda levou junto um secto de amigos, sendo que alguns deles ainda frequentam seu meio social?

Na comunidade muçulmana que você criou em sua casa na Bela Vista, todos te apoiavam e te seguiam incondicionalmente. Na época, eu não sabia que aquilo era uma seita. Quando tudo explodiu, as pessoas te largaram, muitas sumiram e algumas ficaram loucas. Como no caso da Liana, uma pessoa boa que você usou, de quem você realmente pegou dinheiro indevidamente e que te processou por isso. Ela só não ganhou porque estava perturbada demais para ser sensata no processo, e você acabou beneficiado pelo “in dubio pro reo”.

Em relação a esse post:Olavo de Carvalho

Por que não se inspirou nele quando ele disse que eu precisava ter uma vida normal de criança? Talvez por isso é que diga que ele não fosse um exemplo para você.

Quanto a esse outro post:Olavo de Carvalho

Quando você ia “treinar” no Michel Weber, eu ficava andando pelo estúdo dele e via coisas macabras, como quadros e objetos que pareciam coisas satânicas. E tinha também aqueles cães sanguinários dele, que pareciam ter parte com o demônio, e, no dia em que quase me atacaram, o Michel, em vez de se preocupar comigo, ficou bravo com você por ter me deixado xeretando nas “coisas” dele.

Então, quem aqui é grotesco, quem aqui sempre foi unido com o macabro, quem aqui não é bondoso para com seus parentes e amigos, quem aqui não teve talento, e eu estou falando em talento de fato, não o de criar um secto de fanáticos e cegos, quem nunca teve coragem perante a vida, quem aqui nunca trabalhou de verdade?

Você pouco sabe da minha vida, das pessoas que me cercam, dos meus amigos, do meu trabalho… Então começa a criar vergonha na cara e pare de dar indiretas (um hábito seu desde que eu me conheço por gente). Você nunca teve coragem e decência para enfrentar a vida real.

Tudo o que escrevi é um recado para você: muda enquanto dá tempo para você se transformar em um ser-humano decente. E não diga que eu me uni ao diabo. Isso sempre foi um direito só seu! Eu não preciso me unir a ninguém para falar e contar sobre você. E pode ter certeza de que lembro de muito mais coisas.

E só não enxerga o que você está criando nas pessoas, usando o nome de Deus, quem é cego, pois eu vejo claramente, como já vi em outras épocas suas, um bando de pessoas insensatas, com ódio de tudo e de todos, que caem cegamente na sua pregação, criando um exército de intolerantes com seus semelhantes, e que, quando enxergarem, não vai ter psiquiatra e nem hospício suficiente para todos.

Pai, você sabe que minha questão não é familiar como você pinta, fazendo parecer somente uma fofoquinha. Eu só falo de fatos familiares para que as pessoas enxerguem quem você é na vida real. Sinto muito que a sua lavagem cerebral sobre as pessoas já tenha tomado essas proporções. Sim, isso mesmo, lavagem cerebral com as técnicas que você domina tão bem, como as da Programação Neurolinguística.

E quanto ao dente de leite que está sendo leiloado e você diz não ser seu, foi a minha avó quem deixou para mim muito antes de morrer. Mas você sabe muito bem que eu sempre fui o baú e memória viva da família. Tanto dos fatos quanto dos objetos. Acredito que você nem sequer tenha uma foto sua de criança, nem o peso de papel do seu pai, nem o seu álbum de bebê. Nenhum de vocês tem nada, pois a única que sempre conviveu de perto com minha avó fui eu. E você sabe bem disso.

(…)

Então não diga que o dente de leite não é seu. Você sabe muito bem que minha avó sempre me deu tudo o que ela guardava de você.

Mas, se mesmo assim, tiver dúvidas quanto ao dente ser seu, eu posso mandar fazer um exame de DNA nele.

Mas você não vai querer passar pela vergonha de ser desmentido novamente, vai?

Heloísa de Carvalho Martin Arribas.

Comportamento,Olavo de Carvalho,Bolsonaro

Olavo de Carvalho e a obsseção pelo furico alheio

Comportamento,Olavo de Carvalho,Bolsonaro

LEITOR BISSEXTO de Olavo de Carvalho, eu supunha que o escritor paulista tivesse superado a fase anal do desenvolvimento psicossexual. É aquela que, estabelece certa literatura psicanalítica, encerra-se aos três ou quatro anos de vida. O engano findou quando assisti ao vídeo de sua recente entrevista ao repórter Fred Melo Paiva, da Carta Capital. Ao falar da confiança de Jair Bolsonaro em ações policiais virtuosas, Carvalho provocou: “Isso é fascismo? Fascismo é o cu da sua mãe”.

Depois de uma carreira discreta como jornalista e astrólogo, Carvalho reencarnou na pele de autoproclamado filósofo. Ministrou cursos online para milhares de alunos e colecionou 533 mil seguidores no Facebook. Atribui-se a ele a indicação dos nomes ou a inspiração para a escolha de dois ministros pelo presidente eleito: o da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Seria o guru ou o ideólogo mais prestigiado pela família Bolsonaro.

“Ideólogo”, preferiu numa edição a Folha de S. Paulo. Carvalho vituperou: “Atenção, ô chefe da fôia: Ideólogo é o cu da sua mãe”.

Louvaminheiros o cultuam como um pensador. Numa nota repetitiva, ele pronuncia incessantemente o substantivo com uma sílaba e duas letras que o Houaiss enuncia como “orifício na extremidade inferior do intestino grosso, por onde são expelidos os excrementos”.

Lacrador, gracejou: “Em breve só restarão duas religiões no mundo: maconha e cu”.

Interpretou o Brasil, do alto da condição de dono de “uma perspectiva geopolítica mais ampla” e “mais profunda” do que a “de Donald Trump” e “seu secretário de Estado”: “O cu do mundo é aí [o Brasil]”; “e olha que é um cuzão”; “vocês estão que nem aquele sujeito que estava limpando o cu do elefante, e o elefante decidiu sentar, e o cara ficou lá dentro, atolado”.

Negacionista das mudanças climáticas, sofisticou o argumento: “Combustível fóssil é o cu da sua mãe. Não existe combustível fóssil porra nenhuma. Isso é uma farsa, uma palhaçada”.

Confrontado com o pensamento divergente, nocauteou: “Ora, moleque, vai tomar no olho do seu cu”.

Autor de livros “aplaudidos pelas maiores inteligências do mundo”, a confiar em sua declaração à repórter Beatriz Bulla, de O Estado de S. Paulo, Carvalho especulou no passado sobre palavrões: “Segundo entendo, foram inventados precisamente para as situações em que uma resposta delicada seria cumplicidade com o intolerável”.

Seria intolerável um urso que o escritor matou numa caçada aparentemente legal nos Estados Unidos, onde se radicou há 13 anos? Ao lado de um animal abatido, ele disparou: “Fui buscar hoje a minha Henry Big Boy [rifle] cal. 45-70. Pau no cu dos ursos”.

Não trai cumplicidade, e sim receio, ao se referir a contendores políticos: “Os caras vêm com uma piroca deste tamanho e põem no nosso cu”. Uma variante, físico-erótico-estética: “Toda piroca se torna invisível ao entrar no seu cu”.

Carvalho se embrenhou na dialética do fiofó: “Esquerdistas são pessoas que lutam pelo direito de dar o rabo sem ser discriminadas, ao mesmo tempo em que protestam para reclamar que só tomam no cu”.

Assim como a peroração sobre “cumplicidade com o intolerável” se desmancha com o exemplo do urso, o ex-astrólogo que se apresenta como “escritor de envergadura universal” derrapa na aula de história. “Não se pode vencer uma guerra dando o cu”, pontificou. Do além, guerreiros gregos de outrora gargalham com a ignorância do professor.

‘O estado das pregas’
A obsessão pelo furico alheio não é comportamento merecedor de considerações morais, e sim um mistério da alma de Carvalho. Ela a expressa contra os suspeitos de sempre: “Quando um esquerdista brasileiro chama você de fascista, ele não quer dizer que você defendeu alguma ideia fascista. Ele só quer dizer o seguinte: ‘Ai, meu cu’”.

E nas dissensões da confraria reaça, como neste tuíte endereçado ao economista Rodrigo Constantino: “Só não digo que seita fechada é o seu cu porque não averiguei o estado das pregas”.

É o próprio Olavo de Carvalho, 71, quem associa xingamentos e prazer: “A velhice é uma delícia: você não precisa respeitar mais ninguém, pode mandar todo mundo tomar no cu. É uma libertação”.

Esse papo “libertário” já está qualquer coisa? O sábio cultivado por Bolsonaro dá de ombros: “O que essa palavrinha está fazendo aí em cima? Nada de mais. Apenas avisando que só pararei de falar de cus quando pararem de ensinar as criancinhas a dar os seus”.

Até para falar de cu Carvalho apela a palavras sem lastro nos fatos: lições para “criancinhas” darem “os seus” é invencionice.

O ex-militante do Partido Comunista Brasileiro, hoje convertido ao ultradireitismo, proporcionou um discurso mais envernizado a legiões de extremistas de direita semiletrados. Jogada certeira do instrutor com formação autodidata: identificou uma necessidade e saciou-a. Mas não foi mais importante para o desenlace eleitoral do que, numa só menção, Edir Macedo. O que não significa que influencie menos do que o bispo na composição do futuro governo – ocorre o contrário.

O dito filósofo que se pavoneia como portador de “consciência da vida intelectual como ninguém mais tem”, recorre a pressupostos ilusórios para formular sínteses. Ao ouvir o nome da exposição Queermuseu, comentou: “Tava lá a menininha mexendo no pinto do homem”.

Isso, sabidamente, não aconteceu.

Carvalho chuta: “O empresariado brasileiro está vinculado à esquerda há mais de 50 anos”.

Eu penso: que o diga a coalizão, também empresarial, que derrubou Dilma Rousseff.

Relata: “As Farc têm o monopólio praticamente da distribuição de cocaína no Brasil”.

Pobre planeta: foi engambelado, em 2016, pela extinção da anacrônica guerrilha colombiana e sua decisão de depor armas.

Numa de suas satisfações supremas, historiar o jornalismo brasileiro, ensinou: “Durante o governo militar, os esquerdistas já dominavam a mídia inteira. Você não tinha um jornal chefiado por um cara de direita; nenhum”.

Trata-se de impiedosa injustiça com Boris Casoy, que chefiou a Folha durante anos, em plena ditadura. E com tantos outros editores de direita.

Em agosto de 2016, o guru de Bolsonaro concluiu, sobre o então presidente dos EUA: “Hoje em dia acredito mesmo que o Obama é um agente russo plantado na política americana”. Olavo de Carvalho é autor do livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”.

Com alicerce de fantasias, fica fácil erguer catedrais fictícias. Seria como eu alinhavar o balanço futebolístico do Flamengo neste ano considerando-o campeão nacional de 2018. Que tentação.

Política,Olavo de Carvalho,Conservador

Olavo de Carvalho: O ideólogo do conservadorismo paranoico nacional

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AINDA QUE O WHATSAPP seja a plataforma preferida na divulgação de notícias falsas e boatos nessas eleições, o YouTube também se tornou um dos principais meios de comunicação dos conservadores brasileiros. Quem analisa o ranking dos vídeos “em alta” da plataforma logo percebe a predominância de figuras da direita nacional. O YouTube, aliás, foi responsável pela fama e eleição de alguns deputados da bancada bolsonarista

Desses pregadores de ódio e desinformação, destaca-se a figura de Olavo de Carvalho, o principal guru do radicalismo de direita no Brasil há mais de duas décadas. Dos EUA, onde vive, o pensador escreveu livros e deu cursos online que formaram uma geração de brasileiros.

Um de seus vídeos mais recentes, intitulado “O aviso mais importante que já dei aos brasileiros”, é uma rigorosa exposição do estado da arte do antipetismo vesicular, crônico, paranoico.

Segue uma tentativa de análise de seu pensamento, que ajuda a entender não apenas a cabeça de Olavo, mas a cabeça dos entusiastas de Jair Bolsonaro.

Olavo começa seu vídeo falando sobre o atentado sofrido por Bolsonaro. Em suas palavras, um “crime cometido por um membro do PSOL”. Aqui já começa o espetáculo de mentiras e meias verdades, características da retórica radical.

O autor do atentado, ainda que tenha sido filiado ao PSOL até 2014, é notoriamente uma pessoa desequilibrada e que, segundo investigação da própria Polícia Federal, agiu sozinho. Mas ao chamá-lo de “membro do PSOL”, Olavo instiga o ódio pelos agrupamentos de esquerda.

Como a polícia chegou a conclusões pouco excitantes, Olavo faz questão de colocar em dúvida a isenção do delegado responsável, chamando-o de “assessor condecorado pelo governador petista de Minas Gerais”. Ademais, diz que ele foi “proibido de divulgar os dados da investigação” de modo a “não ajudar o Bolsonaro”.

Vê-se aqui a conspiração esquerdista: o autor da facada é “membro do PSOL”, e o delegado é mancomunado com o “governador petista”.

Partidos Comunistas do Brasil

O Capitão Ensandecido reverberou essa mesma teoria em cadeia nacional.

Olavo faz então uma digressão histórica. Para entender o grande domínio da esquerda, diz, é preciso voltar à redemocratização do país.

Segundo sua paranoia, “todos os políticos que emergiram” naquele período e/ou “voltaram do exílio”, “eram esquerdistas”. Sendo que “alguns, profundamente comprometidos com o partido comunista”.

É certo que figuras de esquerda, como Luiz Carlos Prestes e Miguel Arraes, puderam retornar ao Brasil a partir da anistia em 1979.

Mas para Olavo, em verdade, eram “todos esquerdistas”.

A única exceção seria o PFL (Partido da Frente Liberal, atualmente Democratas), que nasceu de um racha no PDS, que deu também origem ao PP (Partido Progressista).

Porém, esse partido seria apenas “nominalmente liberal”, mas que tentava, a todo custo, mostrar que “não era tão direitista assim”, mostrando-se “a favor da causa gay, feminista, abortista”.

O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista.

Aos mais jovens, vale lembrar, o PFL foi o grande partido a se coligar com FHC em 1994, tendo na sua liderança as figuras do catarinense Jorge Bornhausen e o baiano Antônio Carlos Magalhães.

Bornhausen, em 2005, ao falar sobre os petistas que agonizavam durante o escândalo do mensalão, afirmou: “estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos”.

ACM, em discurso no Senado em 2006, afirmou: “Quero dizer aos comandantes militares: reajam enquanto é tempo! Antes que o Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical, presidida por um homem, mais corrupto que já chegou ao governo da República”.

Esses são os “moderados”, segundo Olavo.

Ao afastar o PFL, Olavo afirma que havia três grandes partidos no Brasil: PT, que seria o “comunista mais radical”, o PSDB, o “comunista mais adocicado” e o PMDB, que “sempre foi controlado pelo Partido Comunista” e que “tinha a função de parecer o partido isento”, mas que estaria “100% a serviço dos comunistas”.

O “filósofo”, no alto de sua paranoia, insiste, assim, que a democracia brasileira era 100% comunista. Ou melhor, 99,9%, já que o PFL era menos comunista que os demais. Essa democracia, pois, seria uma farsa, já que ia contra os anseios da população, que é em sua maioria, conservadora.

Os conservadores, porém, não teriam partido, não teriam jornal, não teriam universidade, não teriam uma revista semanal conservadora…

Mas os comunistas não dominam apenas o Brasil: o “comunismo é uma rede internacional”, que tem “apoio das megafortunas”, apoio dos “bancos”, de gente como George Soros e Mark Zuckerberg.

Como os fanáticos que enxergam a imagem da Virgem numa mancha na parede, Olavo enxerga a imagem do comunismo até nos bilionários do capitalismo contemporâneo.

A Igreja vermelha

Nesta altura, Olavo cita o seu satanás particular: o Foro de São Paulo.

Diz que a democracia brasileira foi “calculada para consolidar o poder comunista/socialista, mais ainda após a fundação” do Foro.

Foro esse que em sua análise é “uma organização nitidamente criminosa, onde partidos supostamente legais, se associavam intimamente a organizações criminosas como as FARCS, o MIR, que tinha o monopólio dos sequestros na América Latina”, além de ser a “grande fornecedora de cocaína ao mercado brasileiro”.

E Lula, nosso ex-presidente, comandava essa organização, junto com o comandante das FARCS.

Como profeta, Olavo afirma que “durante 16 anos, a mídia inteira negou a existência do Foro”, que seria “a maior entidade política que já existiu na América Latina”.

Fundado em 1990, o Foro de São Paulo apareceu nos arquivos do jornal O Estado de São Paulo em 1997, por exemplo, quando da realização de seu 7º encontro, realizado em Brasília.
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Mas a suposta ocultação do Foro faz com que Olavo afirme que “a mídia inteira faz parte desse esquema”. Alerta seus seguidores que se algum deles ainda “tem um pingo de confiança na Folha de São Paulo, Globo, Estadão, Veja”, etc., isso significa que “você está sendo simplesmente enganado”. Deve-se negar o jornalismo e os jornalistas, pois essa classe de trabalhadores é “100% cúmplice desta coisa, são todos criminosos”.

E assim se faz o viés anti-intelectual e contra o jornalismo profissional, que são pilares do radicalismo verde-amarelo que tanto sucesso tem obtido no Brasil.

É assim que se convence a massa que os jornais são todos mentirosos e que eles só devem acreditar na verdade emanada a partir de centros e indivíduos autorizados pelo Führer, pelo Duce, pelo Mito.

Ao tratar de outro tema inescapável dos radicais brasileiros, Olavo afirma que “Hugo Chávez destruiu” a economia venezuelana, por ter financiado “o terrorismo e o narcotráfico no mundo inteiro, com a ajuda do sr. Lula e o PT”. Adiante, afirma que “essa gente está envolvida numa rede criminosa de um tamanho descomunal”.

É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie.

Note-se que, para Olavo e seus seguidores, o PT não é um partido político, não é um agrupamento ideológico, é uma rede internacional de criminosos, envolvidos com tráfico de drogas, assassinatos, terrorismo, etc.

Essa é o elemento central do antipetismo patológico que vivemos.

Eis outro elemento do radicalismo nacional: divide-se a sociedade entre bolsonaristas e “petralhas”. Os primeiros são patriotas, cidadãos de bem, amam suas famílias, têm boa higiene pessoal, trabalham e estudam. Os outros, os “judeus” da ocasião atual, são os apátridas, os canalhas, os que querem destruir os valores familiares, os sujos, os parasitas, os ignorantes.

Exagero? Olavo afirma que “essa gente” – vocês devem saber a quem ele se refere – “está matando milhões de pessoas no Brasil, são genocidas todos eles”.

Olavo encerra afirmando:

“Gente, acordem, não é uma disputa política, eleitoral, é uma disputa contra o banditismo organizado, contra criminosos psicopatas, gente sem escrúpulo de espécie alguma, incluindo os colaboradores mais suaves, tipo Alckmin… Acordem, ou é eleger o Bolsonaro, ou dizer adeus ao Brasil”.

É esse tipo de discurso que transformou a política no nosso país em uma barbárie. Que provocou agressões de todo tipo às vésperas das eleições. É esse o tipo de mensagem que se entranhou no bolsonarismo mais radical. É essa mensagem de ódio e de divisão que Bolsonaro vai pregar, insistir e aumentar.

Nós, os que não somos bolsonaristas, mesmo os “colaboradores mais suaves”, estamos em risco. Nossa moral, nossa integridade física e emocional, tudo isso pode ser alvo de linchamentos.

Poucas vezes o futuro foi tão lúgubre neste país.

Imagem em destaque: O escritor, conferencista, ensaísta, jornalista e filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, o papa do conservadorismo brasileiro, em Richmond, nos EUA.