‘Minha vida corre perigo’: a troca de e-mails que desencadeou os Panama Papers

Bastian Obermayer e Frederik Obermaier, do jornal Sueddeutsche Zeitung, explicam como uma fonte anônima compartilhou com eles mais de 11 milhões de documentos do escritório de advocacia Mossack Fonseca – Image copyright Suedeutsche Zeitung


A primeira mensagem chegou por e-mail, de forma anônima, há mais de um ano: “Olá, aqui é o fulano. Interessam alguns dados?”

“Estamos muito interessados”, respondeu Bastian Obermayer, repórter do jornal alemão Suddeutsche Zeitung.

“Há algumas precondições. Minha vida corre perigo”, alertou a fonte, segundo confirmou à BBC Frederik Obermaier, outro repórter do jornal alemão.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“A única coisa que não podemos revelar é o idioma em que se deu o diálogo original”, desculpou-se Obermaier, um dos integrantes da equipe de investigação que recebeu os chamados Panama Papers, o maior vazamento de documentos confidenciais da história.

De fato, o jornal recebeu, ao longo de vários meses, mais de 11 milhões de documentos de uma das empresas mais fechadas do mundo, o escritório de advocacia panamenho Mossack Fonseca.

Os documentos – que envolvem 12 chefes de Estado atuais e passados e mais de 60 de seus parentes, além de personalidades políticas e esportivas – mostram como ricos e poderosos usam paraísos fiscais para ocultar patrimônio.

É importante lembrar que contas offshore não são por si só ilegais, desde que devidamente declaradas ao Fisco: podem ser uma forma de investir-se em bens e ativos no exterior. Muitas vezes, porém, contas em paraísos fiscais são usadas para evadir impostos, lavar dinheiro ou ocultar o real dono da fortuna depositada.

Escritório de advocacia no Panamá teria aberto e gerenciado milhares de contas em paraísos fiscais – Image copyright AFP

A Mossack Fonseca nega ter cometido qualquer irregularidade em seus 40 anos de atuação.

A identidade da fonte que divulgou os documentos é desconhecida. O que se sabe é como o vazamento ocorreu.

Criptografia

A fonte anônima impôs condições claras. Em primeiro lugar, encontros ao vivo estavam descartados.

“A comunicação será apenas por arquivos criptografados. Nunca nos reuniremos. A decisão sobre o que será publicado é, obviamente, de vocês”, disse a fonte ao jornal.

Mas qual era a motivação para fazer algo assim?

“Quero tornar esses crimes públicos”, disse, ao ser questionado a respeito.

Primeiro-ministro da Islândia renunciou ao cargo após revelação de que mantinha conta não declarada em paraíso fiscal – Image copyright EPA

“De quantos documentos estamos falando?”, foi a pergunta seguinte. “Mais do que vocês jamais viram antes.”

Efetivamente, nos meses seguintes, os documentos vazados cresceram até superar 2,6 terabytes de dados, em 11,5 milhões de documentos da Mossack Fonseca.

Os dados abrangem um período que vai da década de 1970 a 2016 e envolvem 214 mil entidades.

Ação hacker

Ramon Fonseca, um dos fundadores da Mossack Fonseca, negou que o vazamento tenha partido da empresa e denunciou a ação de hackers.

Fonseca disse à agência Reuters que foi um furto de documentos feito por “hackers externos”, e não um vazamento por empregados. Disse ainda que a empresa já apresentou denúncia ao Ministério Público local.

Para se ter uma ideia da dimensão do vazamento, se os documentos divulgados pelo WikiLeaks fossem a população da cidade americana de São Francisco (837 mil pessoas), os Panamá Papers equivaleriam à população da Índia (1,2 bilhão).

“A fonte não queria compensação econômica nem nada em troca, apenas algumas medidas de segurança”, afirmaram Obermaier e colegas em artigo no Suddeusche Zeitung.

Para processar a quantidade enorme de informações, o jornal alemão compartilhou os documentos com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês). Isso permitiu a análise dos arquivos por uma equipe de cerca de 400 jornalistas de 107 meios de comunicação de 76 países, entre eles a BBC.

Volume

Milhões de e-mails, contratos, transcrições e documentos escaneados compõem a maior parte da informação divulgada.

Jornalistas e a fonte compartilharam arquivos por meio de um programa de cibersegurança chamado Nuix.

Para isso, empregaram um processo tecnológico conhecido como reconhecimento ótico de caracteres (OCR, em inglês), que permitiu organizar os arquivos criptografados e converter imagens em textos digitais.

Trabalho conjunto de jornalistas permitiu análise de volume maciço de dados

Com isso, o processo ganhou rapidez.

Especialistas do ICIJ criaram um mecanismo de busca com dois fatores de autenticação, e compartilharam o endereço eletrônico com dezenas de órgãos de imprensa, por meio de e-mails criptografados.

A tecnologia também permitia manter conversas em tempo real, e os jornalistas puderam trocar conselhos e informações em diferentes idiomas.

Depois de mais de um ano de trabalho, as primeiras reportagens começaram a ser publicadas no domingo passado. E o resto já é (e está sendo) história.
BBC

Roberto Jefferson ataca outra vez

O andar capenga da moralidade no governo atual, deixa aos analista uma descomunal dificuldade gramatical em adjetivar tal situação, sem o risco de vir a responder por ofensa à moralidade pública.

Agora aparece o caso da Casa da Moeda, onde o ex-presidente da Casa da Moeda, Luiz Felipe Denucci, é demitido por suspeita de receber propinas via “offshores”, que são empresas localizadas no exterior, normalmente em paraísos fiscais.

São usadas para remessa ilegal de dinheiro e manter sigilo sobre as referidas operações. O Luiz Denucci e a filha, Ana Gabriela, são donos de duas contas “offshores”.

José Mesquita – Editor


O presidente do PTB, Roberto Jefferson, disse hoje à Folha que o ministro Guido Mantega (Fazenda) deve ir ao Congresso explicar a indicação e a demissão de Luiz Felipe Denucci da presidência da Casa da Moeda por suspeita de corrupção.

Segundo ele, Denucci é um nome do ministro da Fazenda e o PTB fez apenas um “favor” ao chancelar a indicação.

“O ministro Mantega, que é o padrinho, deve satisfações à opinião publica. Ele foi feito presidente da Casa da Moeda pelo ministro”, disse Jefferson, reafirmando que o governo foi alertado há dois anos sobre o fato de Denucci e a filha dele, Ana Gabriela, terem montado duas offshores no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, como a Folha revelou nesta semana.

“O governo já sabia desse problema e só tomou providências ao saber de uma matéria que a Folha preparava.”

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Um relatório da empresa londrina WIT, que faz transferência de dinheiro para o exterior, apontou que, por meio de transações complexas, os Denucci receberam U$ 25 milhões de comissão de empresas contratadas da Casa da Moeda. Ele confirma ter as offshores, mas diz que o documento é falso.

Ele criticou o papel do governo na apuração de irregularidades e disse que o Planalto quer deixar a conta pela indicação no PTB.

“O Mantega chamou o Jovair [Arantes, líder do PTB na Câmara] e pediu um aval. Ele não é do PTB. Ele é do Mantega. O PTB fez um favor ao Mantega e se deu mal.”

O presidente do PTB disse que não causa surpresa o envolvimento do partido no caso. “Eu não confio no PT. O PT é um amigo que trai o outro.”

Temeroso de que Denucci envolva o partido em mais denúncias, o presidente da legenda proibiu a bancada na Câmara de indicar um substituto. Até sábado, o governo elogiava a atuação de Denucci no cargo.

Vice-líder do governo e líder do PTB no Senado, Gim Argello (DF), não quis comentar o caso.

O Congresso reabre na tarde de hoje os trabalhos. Com isso, poderá ser protocolado um requerimento pedindo a presença de Mantega para tratar da demissão na Casa da Moeda.

Para que o ministro da Fazenda fale formalmente aos congressistas é necessária a aprovação de um requerimento em comissão permanente.
Tribuna da Imprensa