Imprensa em questão

De Balzac a Aaron Sorkin – A Imprensa e a ilusão que não pode ser perdida.

Sempre amigáveis com as demais artes, a literatura, o teatro e o cinema têm sido implacáveis quando tratam do jornalismo. Não o consideram da mesma família, jamais ousariam classificá-lo como a 8ª Arte, filha espúria do casamento com a História.

A imprensa começou a ser maltratada a partir do momento em que ganhou escala e institucionalizou-se. Espécie de vingança contra a sua capacidade de multiplicar informações e idéias, castigo contra o seu crescente e imbatível poder. Ilusões Perdidas, que o próprio Honoré de Balzac considerava a obra capital na sua Comédia Humana, começou a ser publicada em 1836, poucas décadas depois da incorporação da palavra journalisme aos principais idiomas europeus e do salto dos quotidiens, diários, para tiragens massivas. [A palavra teria sido criada nos anos 80 do século XVIII; Hipólito da Costa, poliglota com veleidades de linguista, chama os jornalistas de “redatores das folhas públicas”].

É arrasador o percurso do protagonista Lucien de Rubempré, que deixa a província honrada para buscar a glória numa Paris viciada. O jornalismo aparece como destruidor das ilusões. Não há idealismo, não há arte nesta escrita diária.

O prussiano antissemita Gustav Freytag inventou em 1853 um personagem chamado Schmok na comedia Die Journalisten; protótipo do joão-ninguém, rastejante e venal, encontra no jornalismo uma forma de sobreviver. O nome foi fartamente empregado pelo satirista e crítico de mídia vienense Karl Kraus, passou para o inglês e nos EUA entrou no jargão jornalístico. Na mesma Viena e certamente inspirado pelo mesmo Karl Kraus, o médico e escritor Arthur Schnitzler lançou em 1917, no auge da 1ª Guerra Mundial, uma comédia alegórica sobre jornalistas e censura, Merlo e Mimosa. Na Inglaterra, onde a imprensa ganhou a batalha pela liberdade, Anthony Trollope e John Stuart Mill também deram suas contribuições para a desmoralização do jornalismo.

Pedestal

Na Sétima Arte – o cinema –, a imprensa encontrou um pedestal para ser glorificada e satanizada. Foi na telona dos cinemas que o jornalismo apareceu como “a última profissão romântica” e, em simultâneo, como abrigo dos crápulas. A biografia de Émile Zola (produzida pela Warner Brothers e dirigida pelo refugiado do nazismo William Dieterle, em 1937) trata do famoso romancista que tirou o capitão Alfred Dreyfus do degredo na “Ilha do Diabo”, mas não se detém na manchete mais impactante e importante da história do jornalismo, “J’Accuse” (Eu acuso), tirada de uma carta aberta do escritor ao presidente francês.

O trabalho investigativo dos repórteres Woodward & Bernstein derrubou Richard Nixon, o presidente da maior superpotência mundial, mas seu feito maior foi transformar-se em paradigma do jornalismo militante e audaz graças à adaptação cinematográfica do seu livro Todos os homens do Presidente.

O sueco Stieg Larsson, autor da trilogia “Millenium”, morreu prematuramente antes de ver sua obra transformada em best seller mundial e já transformada em dois filmes. Era jornalista e o jornalismo é o pano de fundo para os seus intrigantes e irresistíveis relatos. Os imperfeccionistas, de Tom Rachman, e Exclusiva, de Annalena McAfee, mergulham neste mesmo mundo, devorados não propriamente pelos profissionais de imprensa ou pelos jovens que desejam seguir a profissão, mas por uma legião mundial fascinada pela máquina de celebrar e destruir, entreter e enganar chamada mídia. A recém-lançada série The Newsroom (Redação), da HBO, com apenas quatro episódios, já é tópico de debates, interpretações e execrações. Viva elas!

Meta-jornalismo

A imprensa é uma rede social, orgânica e natural, que antecede a criação formal das redes sociais. Imperiosamente protagonista, abomina os holofotes que ela própria acende, prefere apontá-los em outras direções. Isso explica, em parte, a pauleira a que é submetida desde Balzac a Aaron Sorkin (o autor de Newsroom).

O jornalismo é inevitavelmente meta-jornalismo, a forma de noticiar passou a ser notícia. Uma nova pergunta foi adicionada às clássicas questões que organizam o relato – “que? quem? quando? onde? por que?”. Agora importa saber como o fato está sendo informado. A salvação da imprensa está na manutenção plena da sua pulsação crítica, controlar o seu inconformismo é suicidar-se. A grande virtude do jornalismo está na sua capacidade de ser efêmero e vital, de encarar os seus vícios e escancarar as infâmias que transmite.

Esta derradeira ilusão não pode ser perdida.
Alberto Dines/Observatório da Imprensa

Na era do bip não cabem catástrofes

Crise profunda, demorada, devastadora não costuma render manchete.

Só fatos merecem o berro e o sacolejo.

O mundo está mergulhado numa das suas piores crises desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os resultados são imprevisíveis – na melhor das hipóteses, dramáticos.

É possível que despenquemos no abismo sem conseguir avaliar exatamente o que acontece, porque a imprensa desde que se convenceu de que deve ser mais idiota do que os mais idiotas dos leitores perdeu sua capacidade de oferecer referências.

Só emite bips. Digitais ou impressos, mas bips. 

No El País de segunda-feira (28/11), o ex-diretor do Le Monde Jean-Marie Colombani publicou um brevíssimo texto, com duas laudas no máximo, intitulado “A catástrofe anunciada”.

Cenário aterrador onde se verifica que as principais lideranças europeias reconhecem a iminência da catástrofe.

Paralisadas, nada conseguem fazer para detê-la.

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Como já se constatou nas bolhas e crises anteriores, os donos das empresas de comunicação, seus executivos e os mais brilhantes analistas que colocam a seu serviço, não conseguem entender o que eles próprios observam, nem disso sacar qualquer conclusão.

Porque seus acervos não contém registros para esse tipo de ocorrência.

Carecemos dessa vivência capital chamada “renascer das cinzas” que os europeus experimentam a cada 50/60 anos.

Pior do que o autoengano globalizado é a determinação caipira em disfarçá-lo e/ou negá-lo.

A mídia está sendo vítima da mídia. E da miopia que desenvolveu nos últimos 20 anos, desde que se proclamou onisciente e infalível.

Nos quadradinhos onde se comprime esse elemento aleatório chamado “opinião” já não cabem aqueles seres-radares capazes de pressentir cataclismos.

O mundo vai dar uma guinada e os últimos a senti-la serão aqueles que deveriam tocar o alarme.
Alberto Dinnes/Observatório da Imprensa