O charme do design Norueguês

O temperamento nacional da Noruega é tímido, e a estética do design é divertida e única. Clare Dowdy explora por que esse país negligenciado tem um estilo Scandi próprio.

Poster – Designer Anders Bakken

Mínimo, funcional, bonito e democrático – o design escandinavo é uma força importante em móveis e interiores e existe há décadas. Este canto do norte da Europa está repleto de lendas do design de meados do século como Arne Jacobsen, Verner Panton, Alvar Aalto e Bruno Mathsson.

Mas esse termo genérico não está cumprindo seu nome. As grandes armas do design escandinavo são os dinamarqueses (como Jacobsen e Panton), os finlandeses (Aalto) e, em menor grau, os suecos (Mathsson). E os vizinhos do lado?

No que diz respeito às populações, a Noruega não é o peixinho da região – com uma população de 5,4 m, é aproximadamente do mesmo tamanho que a Finlândia e a Dinamarca, e os três têm cerca da metade do tamanho da Suécia com 10 m de altura. Apesar disso, o design norueguês está abaixo do seu peso.

As cadeiras de Engesvik para Fogia têm uma peculiaridade peculiar (Crédito: Fogia)

Os habitantes locais atribuem seu perfil relativamente baixo a uma mistura de fatores, que vão dos altos e baixos do petróleo e da pobreza ao temperamento nacional. A Noruega foi fortemente bombardeada na Segunda Guerra Mundial, suas fábricas de móveis destruídas. Uma indústria caseira na costa oeste rural e alongada tomou seu lugar. Aqui, entre fiordes e montanhas, fazendeiros que sempre fabricavam móveis para si e tinham acesso à silvicultura iniciavam negócios. Um desses empreendedores foi Lars Karl Hjelle, e a marca de terceira geração LK Hjelle ainda fabrica na aldeia de Sykkylven.

“Não se tratava de artesanato naquela época”, diz Morten Hippe, da jovem marca de móveis norueguesa Eikund, “mas de produzir um design simples que pudesse ser entregue rapidamente”.

Quando o país se recuperou na década de 1950, esses utensílios domésticos básicos precisavam de uma atualização. Uma coorte talentosa de graduados em design recém-saídos da faculdade liderou o ataque. Eles foram treinados por Arne Korsmo, chefe de móveis e interiores da Academia Nacional Norueguesa de Artesanato e Indústria de Arte. Um arquiteto extremamente influente no estilo internacional, Korsmo era conhecido por seus projetos de casas de campo, algumas das quais – como a Villa Stenersen da década de 1930 – são consideradas obras-primas do funcionalismo norueguês.

Chamar esta nação rica de pobre relação parece um pouco exagerado – mas quando se trata de design, tem um toque de verdade. Entre seus vizinhos, o estereótipo nacional norueguês é de um caipira sem instrução em um suéter tricotado, com um peixe à mão. No entanto, esse clichê ultrapassado e sua posição inferior na hierarquia do projeto Scandi deram à criatividade norueguesa seu próprio sabor e uma vantagem em potencial.

As cadeiras de Engesvik para Fogia têm uma peculiaridade peculiar (Crédito: Fogia)

Os habitantes locais atribuem seu perfil relativamente baixo a uma mistura de fatores, que vão dos altos e baixos do petróleo e da pobreza ao temperamento nacional. A Noruega foi fortemente bombardeada na Segunda Guerra Mundial, suas fábricas de móveis destruídas. Uma indústria caseira na costa oeste rural e alongada tomou seu lugar. Aqui, entre fiordes e montanhas, fazendeiros que sempre fabricavam móveis para si e tinham acesso à silvicultura iniciavam negócios. Um desses empreendedores foi Lars Karl Hjelle, e a marca de terceira geração LK Hjelle ainda fabrica na aldeia de Sykkylven.

“Não se tratava de artesanato naquela época”, diz Morten Hippe, da jovem marca de móveis norueguesa Eikund, “mas de produzir um design simples que pudesse ser entregue rapidamente”.

Quando o país se recuperou na década de 1950, esses utensílios domésticos básicos precisavam de uma atualização. Uma coorte talentosa de graduados em design recém-saídos da faculdade liderou o ataque. Eles foram treinados por Arne Korsmo, chefe de móveis e interiores da Academia Nacional Norueguesa de Artesanato e Indústria de Arte. Um arquiteto extremamente influente no estilo internacional, Korsmo era conhecido por seus projetos de casas de campo, algumas das quais – como a

A poltrona Krysset de Eikund é um clássico norueguês do meio do século, projetado em 1955 (Crédito: Eikund)

Ele e sua esposa Grete Prytz Kittelsen, uma igualmente talentosa designer de utensílios de mesa, viajaram para os EUA para conhecer pioneiros modernistas, incluindo Frank Lloyd-Wright, Ludwig Mies van der Rohe e Charles e Ray Eames. “Eles eram um casal incrível, trabalhando em rede com pessoas de alto nível em arquitetura e design”, diz Benedicte Sunde, curador da exposição anual de design contemporâneo Norwegian Presence.

De volta a casa, as experiências de Korsmo fizeram com que seus graduados “estivessem em pé de igualdade com os vizinhos”, diz Widar Halén, diretor de design e artes decorativas do Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design de Oslo. Muitos, como Fredrik A Kayser, Torbjørn Afdal e Torbjørn Bekken, produziram peças elegantes para as oficinas da costa oeste. Eles e seus colegas estavam animados, participando de exposições itinerantes de design escandinavo e ganhando prêmios internacionais.

Os negócios estavam em expansão, até a Noruega descobrir petróleo na década de 1960. O ganho da nação foi a perda do design. “As pessoas qualificadas deixaram o setor e agora tínhamos dinheiro para importar móveis. Perdemos muita produção aqui ”, diz Hippe.

Não queremos nos gabar ou nos destacar, somos um país tímido – Morten Hippe
Sunde elabora: “Quando o petróleo chegou, o foco e o dinheiro do governo foram para o Mar do Norte, e o foco no design para exportação desapareceu. Os pequenos fabricantes não conseguiram acompanhar. ” Assim como o governo norueguês estava tirando os olhos da bola do design, seus vizinhos – que só podiam sonhar com os recursos naturais da Noruega – estavam apoiando seus fabricantes de móveis com financiamento estatal e promovendo fortemente designers no exterior.

da década de 1930 – são consideradas obras-primas do funcionalismo norueguês.

Os desenhos de Lars Tornøe são cada vez mais procurados (Crédito: Lars Tornøe)

No entanto, Hippe não está convencido de que essa abordagem funcionaria para os noruegueses, de qualquer maneira. Ele acredita que a ideia de autopromoção não teria se adaptado bem a eles. “Não queremos nos gabar ou nos destacar, somos um país tímido”, diz ele. Historicamente, os noruegueses têm uma reputação de serem reservados e distantes – traços dificilmente adequados para defender os talentos de alguém.

Assim, enquanto os melhores móveis da Noruega em meados do século caíam em produção, seus rivais mantinham a bandeira voando reemitindo incansavelmente. Desde a Cadeira Fácil Modelo 45 de Finn Juhl e a Cadeira Wishbone de Hans Wegner, até o Banco Aalto, Modelo 60, e a Cadeira Egg e Cadeira Swan de Jacobsen, essas peças foram elevadas a ícones do design Scandi.

Hoje, os criativos contemporâneos – mesmo na Noruega – são pressionados a nomear muitos designers noruegueses daqueles dias felizes. A designer dinamarquesa Nina Tolstrup, com sede em Londres, é franca: “A Noruega ficou invisível no cenário do design de 1900 a 1990”. Apenas um mestre de meados do século vem à mente dela: Hans Brattrud, designer da cadeira Skandia.

Uma rédea livre

Mas o fato de que esses projetos foram em grande parte perdidos ou esquecidos, está nas mãos da geração atual. Nos países onde a década de 1950 nunca desapareceu, “os designers contemporâneos consideraram isso um fardo – eles não podem produzir novas idéias porque a reprodução é tão dominante”, diz Halén. “Isso os atrapalha.”

A luminária pendente Half & Half de Hallgeir Homstvedt é uma das favoritas dos aficionados do design (Crédito: Hallgeir Homstvedt)

Na qualidade de dinamarquês, Tolstrup sente o seguinte: “Os novos designers na Noruega, na última geração, tiveram o benefício de não ter um histórico pesado de design, o que para os designers dinamarqueses por muitos anos foi um fardo, pois era muito difícil ultrapassar o forte legado do design histórico. ”

Ter raízes menos visíveis deu aos noruegueses mais liberdade. “A cena do design na Noruega realmente floresceu nos últimos dez anos”, disse o designer norueguês Hallgeir Homstvedt à BBC Designed. Ele cita os Pontos de Lars Tornøe, uma série de grandes ganchos para casacos de madeira torneada. “Milhões de pontos foram vendidos e provocaram uma nova categoria de produtos de cabides para esculturas”, diz Homstvedt.

Essa liberdade se traduziu em uma certa peculiaridade. “Muitos [designers noruegueses] são reconhecidos por ter uma brincadeira calorosa nos produtos que projetam”, diz Elizabeth Hurlen, gerente de exportação da LK Hjelle, que produz os espirituosos pufes Boy pelo pioneiro estúdio de design Noruega Says.

Andreas Engesvik, com sede em Oslo, cria móveis com a empresa de design Fogia (Crédito: Fogia)

Enquanto isso, é tempo de recuperação para os designers “perdidos”. Para marcas norueguesas como Fjordfiesta, Eikund e Hjelle, relançar as criações de seu país em meados do século é um chamado. “Agora, nossa missão não é apenas vender peixe e bombear petróleo; precisamos conhecer nossa herança ”, diz Hippe em Eikund.

O Dr. Halén acredita que o próximo passo é acomodar confortavelmente a nostalgia retro, juntamente com a necessidade de novos talentos. “Queremos bons novos designers, mas também queremos comprar ícones. É necessário equilíbrio.

Talvez na Noruega, o design contemporâneo possa prosperar enquanto os clássicos possam reviver – é uma abordagem interessante em duas frentes que poderia ajudar o país a tomar seu lugar de direito na mesa projetada por Scandi.

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.

Magnus Carlsen, campeão mundial de xadrez: quem é o norueguês que repaginou o esporte

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013.Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.

Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas – desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro.

Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos.

Oligopólio soviético
Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria.

Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand.

Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen.

Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90.

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.Direito de imagem GETTY IMAGES
Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes

Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos.

Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw.

Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME.

Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido… em um episódio do desenho Os Simpsons.

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.Direito de imagem FOX
Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons

Rivalidade entre irmãos
“O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos”, explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez.

Mas “Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez”, destacou.

O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos – mas inicialmente não deu muita bola para a atividade.

O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar.

“Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou”, disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016.

Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai.

Mozart do tabuleiro
Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez.

Com isso, ele passou a ser chamado de “Mozart do xadrez”, destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte.

Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial.

A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes – seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6).

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.Direito de imagem EPA
Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez

A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21.

Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista – multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones.

O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo.

Jovens no poder
“Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais”, diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com.

Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos.

Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan.

“Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar”, acrescenta Doggers.

“Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou”.

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.Direito de imagem GETTY IMAGES
A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez

O oponente
A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo.

Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo.

De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética.

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.Direito de imagem GETTY IMAGES
O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo

Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o “Duelo do Século” – inspirando filmes e musicais da Broadway.

“Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky”, diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo.

“Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez”.

Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano.

Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992.

“Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário”, opina Butler.

Capitão América versus Thor

Depois de 19 dias de batalha, Magnus Carlsen finalmente alcançou a vitória e venceu o Campeonato Mundial de Xadrez nesta quarta-feira, em Londres. Ele é o dono do título desde 2013. Desta vez, o norueguês venceu o americano Fabiano Caruana por 3 a 0 no desempate por partidas rápidas - desfecho para uma disputa que se iniciou em 9 de novembro. Carlsen, de 27 anos, receberá um prêmio de valor superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões). Ele confirma também a atribuição de ter talvez o principal rosto da renovação deste jogo, criado há mais de 1.500 anos. O homem que sobreviveu a contato com tribo isolada que matou americano: 'Estava claro que eu não era bem-vindo' O boi gigante que chocou telespectadores de TV australiana e escapou do abate por ser 'grande demais' Oligopólio soviético Para começar, Carlsen não nasceu na União Soviética ou em algum país do Leste Europeu, região que lidera no ramo desde a Guerra Fria. Até o surgimento desta estrela norueguesa, somente dois enxadristas conseguiram romper o oligopólio soviético e de seus aliados desde 1937: o americano Bobby Fischer e o indiano Viswanathan Anand. Nenhum deles, porém, chegou ao nível de excelência de Carlsen. Nem mesmo o russo Gary Kasparov, que ficou famoso mundialmente por seus duelos contra computadores nos anos 90. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Caruana (na foto, à esq.) e Carlsen já se enfrentaram 56 vezes Carlsen se tornou um fenômeno inédito e global no xadrez desde que conquistou o primeiro título mundial, aos 22 anos. Além da genialidade no tabuleiro, sua imagem protagonizou propagandas de relógios de luxo, de carros esportivos e da grife holandesa G-Star Raw. Um documentário sobre sua vida já chegou a 56 países e, em 2013, seu nome figurou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista TIME. Outro indicador de sua popularidade foi ter aparecido... em um episódio do desenho Os Simpsons. Direito de imagemFOX Image caption Magnus Carlson foi retratado em um episódio de Os Simpsons Rivalidade entre irmãos "O xadrez era visto como um esporte de homens mais velhos", explicou à BBC Kate Murphy, diretora da Play Magnus, uma empresa criada por Carlsen para o mercado de aplicativos de xadrez. Mas "Carlsen mudou essa percepção ao ganhar o título e motivar os mais jovens a jogar xadrez", destacou. O norueguês foi introduzido ao jogo pelo pai, aos 5 anos - mas inicialmente não deu muita bola para a atividade. O interesse mudou após ganhar de sua irmã mais velha, que até o momento era quem se juntava ao progenitor da casa, Hendrik Carlsen, para jogar. "Ganhar dela era minha principal motivação e, nesse processo, o xadrez me cativou", disse o campeão mundial em uma entrevista em 2016. Aos 9 anos, Carlsen começou a ganhar do pai. Mozart do tabuleiro Aos 13, Magnus Carlsen já era um grande Mestre Internacional de Xadrez, um título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez. Com isso, ele passou a ser chamado de "Mozart do xadrez", destacando o impressionante talento de uma pessoa com origem em um país distante de ser uma potência no esporte. Ele é o único norueguês entre os 100 primeiros na classificação mundial. A Rússia, por sua vez, tem mais de 20 representantes - seguida pela China (9), Reino Unido e Estados Unidos (7) e Índia (6). Direito de imagemEPA Image caption Carlsen é um raro representante de seu país no mundo do xadrez A guinada de Carlsen coincidiu também com o avanço tecnológico que sacudiu o mundo no século 21. Graças à internet, o jogo teve uma exposição jamais vista - multiplicando-se em diferentes plataformas nas redes sociais e nos smartphones. O site Chess.com assegura contar com mais de 2 bilhões de usuários no mundo. Jovens no poder "Kasparov foi um jogador brilhante e um perfeito embaixador do esporte, mas Magnus Carlsen chegou na hora e no lugar certo para se beneficiar da internet e das mídias sociais", diz Peter Doggers, um dos diretores do Chess.com. Uma das mudanças mais óbvias ocorreu na demografia da população que pratica a atividade: seis dos dez melhores jogadores do mundo hoje têm menos de 30 anos. Entre as mulheres, a proporção é ainda maior: nove das dez, incluindo a número um do mundo, a chinesa Hou Yifan. "Essa é uma das consequências mais imediatas de como os computadores influenciaram o xadrez. Hoje, qualquer criança com um laptop ou celular pode treinar duro e melhorar", acrescenta Doggers. "Mas não há dúvida de que Carlsen é o modelo a ser seguido e, graças a ele, a visibilidade do jogo aumentou". Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption A tecnologia expandiu o alcance do milenar xadrez O oponente A final de Londres ofereceu uma experiência completamente nova para Carlsen: foi a primeira vez que ele disputou com um rival mais novo. Seu oponente foi Fabiano Caruana, número dois do mundo. De origem italiana, Caruana buscava ser o primeiro jogador nascido nos EUA a se tornar campeão desde que Bobby Fischer surpreendeu o mundo com sua espetacular vitória em 1972 sobre Boris Spassky, um dos representantes da era soviética. Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption O americano Bobby Fischer foi um dos dois enxadristas a romper com o domínio da União Soviética na elite do jogo Esse duelo, acontecido em Reykjavik, na Islândia, é conhecido como o "Duelo do Século" - inspirando filmes e musicais da Broadway. "Fischer chegou a ganhar mais dinheiro do que Mohamed Ali, o que mostra o impacto de sua vitória sobre Spassky", diz o jornalista Brin-Jonathan Butler, autor do livro sobre o famoso duelo. "Mas ele também mostrou como a genialidade e a loucura andam de mãos dadas no xadrez". Butler faz referência à negativa feita por Fischer de defender novamente o título em 1975 e a posterior obscuridade na qual caiu o americano. Durante anos, o enxadrista precisou viver recluso e ficou famoso por sua batalha legal contra o governo dos EUA, após desafiar um embargo e jogar na antiga Iugoslávia, em 1992. "Fischer foi um artista do tabuleiro. Magnus joga como uma máquina e às vezes isso é frustrante, se o que você está procurando é um jogo mais emocionante. Embora ainda seja extraordinário", opina Butler. Capitão América versus Thor Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos. Agora, ele era um dos protagonistas de "Capitão América versus Thor", como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos. A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico. Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.Direito de imagem GETTY IMAGES
Preparo físico do norueguês é destacado como um de seus grandes diferenciais

Caruana se tornou o Mestre Internacional de Xadrez mais jovem dos Estados Unidos a alcançar esse reconhecimento, com 15 anos.

Agora, ele era um dos protagonistas de “Capitão América versus Thor”, como seu duelo contra Carlsen foi promovido nos Estados Unidos.

A comparação de Magnus com o guerreiro norueguês também alude ao seu excelente estado físico.

Jogos de alta performance podem durar até seis horas e, no caso do norueguês, acredita-se que sua resistência tenha sido um ingrediente crucial na vitória.

O plano de futuro da Noruega: ser mais verde, mais digital e mais laica

O país que se destaca pela forte indústria petroleira está reformando a legislação para se tornar uma sociedade mais conectada com o próximo século

Noruega
Vários carros elétricos carregam a bateria em uma rua do centro de Oslo. 
 A Noruega já está pensando no século XXII. O país escandinavo está implantando políticas que o colocam no limiar de uma era mais digital, mais laica e ainda mais verde. O Governo conservador de Erna Solberg começou o ano com três fortes objetivos: separar a Igreja do Estado, eliminar os carros de combustível fóssil a partir de 2025 e abolir a histórica rádio FM para transmitir em uma faixa 100% digital.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

“Está em nosso DNA deixar as coisas para as gerações futuras em melhores condições do que as recebemos”, defende Inger Solberg, diretora da Innovation Norway (IN), a agência pública que investe o equivalente a 1,3 bilhão de reais por ano em sustentabilidade.

O silêncio da neve é especial em Oslo, a capital desse país de cinco milhões de habitantes. Mas há na atmosfera algo além desse sigilo e dessa espécie de recolhimento luterano: os carros não fazem barulho. A Noruega abraçou a ambiciosa meta de acabar com o comércio de carros a diesel e gasolina até 2025 para incentivar o uso de veículos elétricos e híbridos. “É perfeitamente realista”, garante ao EL PAÍS Vidar Helsegen, ministro do Meio Ambiente. Um em cada três carros já tem interruptor, revela Christina Bu, secretária-geral da associação nacional de carros elétricos.

Como produtora de petróleo (40% do PIB), a Noruega sofreu um forte golpe em suas contas com a crise que o setor atravessou entre 2014 e 2016 por causa de uma queda abrupta do preço do óleo bruto. O país “não pode viver do petróleo” por muito mais tempo, admite Helsegen. Cientes disso, os noruegueses sofreram “uma mudança de mentalidade”, ilustra Solberg que conversou com este jornal na embaixada da Noruega em Madri.

Essa virada é perceptível nas ruas de Oslo (610.000 habitantes), onde uma imensa quantidade de carros substitui o ruído do escapamento por um leve murmúrio de baterias. Em uma das ruas do centro os motoristas se amontoam para poder carregar seus carros durante algumas horas. “A Noruega está de dez a cinco anos à frente do resto do mundo”, diz Christina Bu ao lado de um Buddy, o único carro de fabricação nacional. Elétrico, é claro. A fatia de mercado de veículos com tomada foi de 30% em 2016. E vem subindo, apesar da “oposição tradicional”, aquelas pessoas que compraram carros a diesel “convencidas [pelas autoridades] de que poluíam menos”, reprova Arne Melchior, do Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais (Nupi).

Em um contexto em que o partido do Progresso (Fremskrittspartiet), de extrema direita e membro do Governo de coalizão com os conservadores, vem perdendo cadeiras fragorosamente, esse grupo enxerga a atual iniciativa política como uma forma de recuperar a popularidade às vésperas eleições de setembro, perante uma população que exige melhores meios de transporte, opina Indra Øverland, especialista em energia e clima do Nupi.

Governo começa o ano com três objetivos: separar a Igreja do Estado, eliminar os carros de combustível fóssil a partir de 2025 e abolir a histórica rádio FM para transmitir em uma faixa 100% digital

Essa gradativa independência do combustível fóssil, somada aos acordos de Paris 2015 – reduzir as emissões em 40% até 2030 – levaram a Noruega à “era pós-petróleo”, segundo Bu. E o motivo da popularidade desses veículos na Noruega (em 2016 se esgotaram as 100.000 placas com a letra O que identifica os carros elétricos) é puramente econômico: isenção do IVA (25%), do imposto de licenciamento, do pagamento de pedágios e de estacionamento. “É um esquema [de ajudas] muito generoso”, orgulha-se Helsegen. E é difícil encontrar quem seja contra esses atrativos.

Em Oslo, os elegantes e luxuosos Teslas invadem as vias como em nenhuma outra capital europeia, mas também há outros modelos mais modestos e silenciosos. Slavko Vitkovic, de 37 anos, tem um Nissan elétrico e garante, lacônico – característica generalizada em seus convizinhos -, que seu carro “é muito melhor e muito mais barato”. Cai a neve com força e o homem de 37 anos convida a sentar no assento do motorista para apreciar as qualidades do veículo enquanto o recarrega em um ponto na frente da majestosa Prefeitura de cor ocre.

Rádio com sistema DAB custa 200 euros na Noruega.
Rádio com sistema DAB custa 200 euros na Noruega.
Um ‘blecaute’ nas rádios

Em outro passo em direção a uma era mais tecnológica, a Noruega vai se tornar, neste ano, o primeiro país do mundo a deixar para trás a Frequência Modulada (FM) para transmitir em uma faixa 100% digital (DAB). Duas das seis regiões do país já desligaram seus transistores. “A rádio precisa se renovar”, ressalta Ole Jørgen Torvmark, diretor das rádios digitais da Noruega. Suíça (2020-2024), Reino Unido (2017) e Dinamarca (2018) já estudam seu blecaute particular.

A maior vantagem que o país encontrou ao abandonar a FM é que, primeiro, será possível alugar ou vender a velha frequência a companhias telefônicas, serviços de inteligência ou até mesmo à OTAN; e, segundo, os canais DAB se multiplicaram por quatro. “Os hábitos midiáticos dos cidadãos estão mudando muito rápido. Existe muita projeção de crescimento”, afirma Hagerup. Anedota curiosa é a paixão demonstrada por um grande número de ouvintes pela música country graças a um canal especializado. “Tudo está indo muito bem”, diz o diretor adjunto do grupo de rádio privado mais poderoso do país, Anders Opsahl.

Vidar Helgesen, ministro do Meio Ambiente.
Vidar Helgesen, ministro do Meio Ambiente.  

As ressalvas dos cidadãos vêm, na maior parte, da falta de compatibilidade dos veículos atuais com as rádios DAB. Será preciso comprar um adaptador especial que custa 700 coroas (260 reais) e não é financiado pelo Governo, levar o carro a uma oficina para instalá-lo ou trocar todo o sistema de rádio. Nas casas, no entanto, não há maiores problemas. “Sete de cada dez lares já estão digitalizados”, diz Hagerup enquanto brinca com um transistor 100% digital que custa o equivalente a 650 reais. “Também dá a previsão do tempo”, sorri.

Mudanças na tradição

O bispo de Bog, Atle Sommerfeldt, em um parque de Oslo
O bispo de Bog, Atle Sommerfeldt, em um parque de Oslo MASSIMILIANO MINOCRI EL PAÍS
 A Noruega já é secular. Pelo menos legalmente. Em janeiro, e após mais de sete anos de discussão no Parlamento – e 100 nas ruas -, o país plasmou na Constituição a separação entre o Estado e a Igreja luterana. E a cúria não só o aceitou como também “contribuiu para esse avanço”, orgulha-se Atle Sommerfeldt, bispo de Borg, a maior diocese da Noruega, com meio milhão de fiéis. O país de pouco mais de cinco milhões de habitantes conta com 3,8 milhões de adeptos da Igreja da Noruega.

Apesar de a Igreja não estar vinculada à vida pública na Noruega e seu chefe não ser mais o Rei – como em outros países protestantes, como o Reino Unido – , os “valores” continuam os mesmos, explica o bispo de 65 anos em uma livraria muito popular próxima ao Palácio Real. “O Estado continua se baseando em valores humanísticos, cristãos, democráticos e de direitos humanos”, diz. “Neste país não há problemas com a religião. Mas são muito especiais”, defende David Obi, um artista visual nigeriano que há dois anos toca uma pequena pizzaria.

A partir de agora a Igreja norueguesa deixará de receber uma boa parcela do dinheiro público: 400 reais por fiel a cada ano. Longe de censurar a medida num país onde (quase) todas as decisões que afetam a vida pública são tomadas por consenso, o presidente da conferência episcopal, Svein Arne Lindø, elogiava a decisão: “São boas notícias para ambos, a Igreja e o país”, declarou à emissora estatal NRK.

Mas quem faz a regra, faz a armadilha e, ao se considerar essa religião um “bem comum”, o Estado continuará oferecendo recursos, alerta Sommerfeldt. E ele continuará recebendo um salário: 250.000 reais anuais. Afinal, admite, “é política”.
BELÉN DOMÍNGUEZ CEBRIÁN

Noruega projeta estrada que ‘perfura’ fiordes com túneis submarinos e pontes flutuantes

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O túnel ficará a 30 metros de profundidade e vai permitir que os veículos atravessem os fiordes algo que, hoje, só pode ser feito de balsa.
Image copyrightGOVERNO DA NORUEGA/VIANOVA

O projeto é da rodovia costeira E39 da Noruega, uma rodovia que combinará pistas tradicionais com túneis submarinos e pontes flutuantes percorrendo 1,1 mil quilômetros.

A nova rodovia quer cobrir um trajeto de visual de grande beleza natural, mas nada fácil de ser transposto, por causa dos famosos fiordes – os estreitos vales formados pela água do mar em montanhas rochosas que caracterizam a costa oeste do país.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“O objetivo é unir, de norte a sul, as cidades de Trondheim e Kristiansand”, disse à BBC Mundo Kjersti Kvalheim Dunham, que dirige o projeto na Administração Pública de Vias da Noruega.

“Normalmente carros e caminhões que usam conexões com balsas levam cerca de 20 horas (para percorrer o trajeto)”, acrescentou.

Mas com a E39 os engenheiros esperam reduzir o tempo para 10 horas.

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Os engenheiros projetaram dois túneis flutuantes
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As estruturas que vão segurar os túneis submarinos terão esta aparência quando vistas de cima – Image copyrightGOVERNO DA NORUEGA/VIANOVA

Além disso, a rodovia poderá agilizar a economia do país já que 57% das exportações norueguesas vem da região oeste.

O governo estima que, graças à nova rodovia, os custos de transporte de mercadorias deverão cair pela metade.

O preço

O projeto deve custar cerca de US$ 30 bilhões, uma verdadeira fortuna até para um país rico como a Noruega. O prazo para a entrega da obra é até 2035.

O governo espera recuperar parte do investimento com a cobrança de pedágio para o uso da rodovia.

Dunham disse à BBC que esta é uma “obra única no mundo”.

“A maior parte da rota é de estradas comuns, mas o que torna este projeto extraordinário são as pontes e os túneis especiais que planejamos construir; são a melhor solução que encontramos para atravessar esta grande quantidade de fiordes, que têm os relevos mais variados que alguém pode imaginar”, explicou Dunham.

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As pistas serão elevadas quando for necessário
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E também serão submersas para ‘perfurar’ algumas barreiras geográficas – Image copyrightGOVERNO DA NORUEGA/VIANOVA

De acordo com os planos da Administração Pública de Vias da Noruega, os túneis submarinos ficarão a cerca de 30 metros de profundidade e serão formados por dois cilindros paralelos de concreto, uma para cada direção da rodovia.

Cada um destes cilindros terá duas pistas: uma para o trânsito comum e outra para veículos de emergência e reparo.

Em locais onde os túneis não forem viáveis, serão construídas pontes com pilares flutuantes – alguns deles suspensos com cabos de aço.

Em outros trechos, a E39 vai “perfurar” montanhas e rochas com túneis tradicionais.

Sonho impossível?

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Em alguns trechos as pontes flutuantes serão suspensas por cabos de aço
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Os pilares flutuantes serão fixados no fundo do mar com cabos
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Não é a primeira vez que se apresenta um projeto de estradas para terrenos acidentados como os fiordes noruegueses.

Países como Itália, Estados Unidos e Japão já avaliaram projetos parecidos para relevos difíceis, mas em menor escala. Nenhum destes projetos avançou.

Mas muitos questionam se uma ideia tão ambiciosa – e, para alguns, insensata – seria realmente viável.

Dunham disse à BBC MUndo – o serviço em espanhol da BBC – que o projeto já é uma realidade, pelo menos em parte.

“Já começamos a construir trechos na região de Berben, no meio do trajeto e, no próximo ano, esperamos completar o primeiro túnel que terá 27 quilômetros”, contou.

No entanto Dunham admite que eles ainda não têm toda a verba para a construção das estruturas maiores e mais complexas. Mas ele espera conseguir o resto do dinheiro nos próximos anos.

Ele também não nega a dificuldade dos grandes desafios técnicos de um projeto como este.

“Os ventos fortes, as ondas e as correntes (marítimas) são grandes desafios.”

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Muitos temem os impactos ambientais do projeto
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E, além de tudo isso, o projeto ainda enfrenta a oposição de parte da população do oeste do país.

“Alguns se perguntam se vale a pena gastar tanto dinheiro na E39, outros afirmam que (o país) não precisa de estradas melhores e há aqueles que temem o possível impacto ambiental”, resumiu Dunham à BBC Mundo.

“Temos que ouvir todos estes.”

O Reino Unido pós-Brexit e o modelo norueguês

Em meio a especulações decorrentes do voto britânico anti-UE, evoca-se o status adotado pela Noruega. Uma mistura complexa de privilégios e desvantagens – que exigiria improvável dose de tolerância de ambos os lados.

Bandeiras do Reino Unido e União Europeia

Na alentada discussão sobre os destinos do Reino Unido e da União Europeia (UE) após a consumação do assim chamado Brexit, tem-se ouvido com frequência crescente o conceito “modelo norueguês”.

Embora não seja membro da UE, a Noruega integra a Área Econômica Europeia (AEE). Assim, da mesma forma que a Islândia e Liechtenstein, ela está sujeita às normas do bloco, mas sem poder votar sobre elas. Suas exportações para a UE são igualmente passíveis de controles alfandegários, já que os noruegueses não são membros da União Aduaneira Europeia.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A filiação à AEE – que também inclui os não membros da UE Andorra, Mônaco e San Marino – significa que mercadorias circulando dentro das fronteiras do bloco não são taxadas, e que seus membros aplicam uma taxa comum a todas as importações externas.

Os países também pagam contribuições anuais para manter a filiação. Segundo números publicados pelo governo em Oslo e pela Missão Norueguesa na UE, a quantia per capita desembolsada pela Noruega é equivalente à do Reino Unido.

A Noruega também paga aos países mais pobres da UE subsídios que são periodicamente renegociados, além de contribuir para programas da UE de que deseje participar, como, por exemplo, o Erasmus, de intercâmbios universitários.

Diante de tais dados, parece não haver razão para a Noruega não ser membro da UE. De fato, ultimamente parte da população argumenta que seria melhor o país se filiar ao bloco, já que está pagando contribuições equivalentes.

Desvantagens do modelo

Um relatório publicado por Londres em março aponta um dos problemas em adotar o modelo norueguês: “Se o Reino Unido negociasse o modelo, estaríamos subordinados a muitas das regras da UE, mas não teríamos direito de voto ou veto na criação dessas regras.”

Por que os mais velhos votaram pelo Brexit?

Não sendo membro, a Noruega tampouco tem representação ou direito de votação das leis europeias. O primeiro-ministro norueguês não participa do Conselho Europeu, e o país não integra o Conselho de Ministros nem ocupa assentos no Parlamento Europeu.

“A Noruega não tem um membro nacional na Comissão Europeia, nenhum juiz na Corte Europeia de Justiça, e seus cidadãos não têm direito de votar nas eleições da UE ou de trabalhar em suas instituições”, prossegue o relatório.

“Medidas de salvaguarda”

Ainda assim, talvez haja para o Reino Unido uma luz no fim do túnel do Brexit. O Capítulo 4º do acordo da AEE, intitulado “Medidas de salvaguarda”, permite aos Estados-membros “tomar unilateralmente medidas apropriadas” em casos de “sérias dificuldades econômicas, sociais ou ambientais […] com o fim de remediar a situação”.

Ou seja: em caso de emergência, os britânicos poderiam, em tese, evocar essas medidas de salvaguarda, declarando uma crise. A Islândia acionou esse mecanismo em 2008, em reação à crise econômica nacional.

Assim como a Noruega investe milhões de euros em programas conjuntos com a UE, o Reino Unido talvez também pudesse, então, escolher suas cooperações, permitindo que seus cidadãos trabalhassem e estudassem na UE. Algumas instituições financeiras também teriam permissão para operar no bloco – para alívio dos britânicos apreensivos em ambos os campos.

Renegociações complicadas

Em contrapartida, o relatório do governo britânico enfatiza que o modelo norueguês daria acesso considerável, mas não completo ao Mercado Único, de livre-comércio.

“Estaríamos fora da União Aduaneira e perderíamos acesso a todos os acordos comerciais da UE com 53 outros mercados por todo o mundo”, e “renegociá-los exigiria anos”, adverte a publicação de Londres.

Foto da semana: a desilusão do Brexit

A Suíça, por exemplo, mantém 120 diferentes pactos com a União Europeia, cuja negociação em parte levou vários anos, o que torna extremamente difícil reproduzir essa situação.

E o país não é o único com uma relação complexa com a UE. Ao contrário da Noruega, a Turquia pertence à União Aduaneira. Seus acordos com a UE cobrem mercadorias industriais e processadas, mas não serviços ou produtos agrícolas crus. E nas áreas em que os turcos têm acesso ao mercado europeu, eles têm que impor normas equivalentes às vigentes dentro do bloco.

Ficar com o bolo e comê-lo também?

Outra lacuna na aplicação do modelo norueguês ao Reino Unido seria o quesito da livre circulação de pessoas, que consta do acordo da AEE. A Noruega é obrigada a aceitá-la, e por isso optou por aderir ao Espaço de Schengen, em que estão abolidos os controles nas fronteiras internas.

A julgar pelos diversos incidentes recentes de xenofobia no Reino Unido, apelidados “racismo pós-Brexit”, parte da população dificilmente acataria uma imposição dessa parte do acordo.

Por fim, mesmo que o Reino Unido optasse por acionar as medidas de salvaguarda previstas no acordo da AEE, não está claro quanto tal situação poderia durar. E nem por quanto tempo os demais membros da União Europeia estariam dispostos a tolerar que os britânicos desfrutem das vantagens de ambos os sistemas.
Com dados do DW

Noruega: terror e internet

O poder de pensamentos perigosos na internet
Timothy Garton Ash ¹
Reproduzido do Estado de S.Paulo/tradução de Celso Paciornik

“Você pode ignorar a jihad, mas não pode evitar as consequências de ignorar a jihad.” Essa foi a primeira reação da blogueira anti-islâmica americana Pamela Geller à notícia dos ataques terroristas na Noruega.

No seu site, Atlas Shrugs, ela colocou um link para um vídeo antigo de uma demonstração pró-Hamas em Oslo.

Quando se revelou que o assassino em massa não era um terrorista islâmico, mas um terrorista anti-islâmico cujo manifesto online de 1.500 páginas estava repleto de material de escritores anti-islâmicos como o dela, Pamela deu de ombros: “Ele é um assassino sanguinário. Ponto. Ele é responsável por seus atos. Ele e apenas ele. Não há nenhuma ‘ideologia’ aqui”.

“Ninguém explicou nem pode explicar como as supostas opiniões antijihad desse sujeito têm qualquer coisa a ver com seu massacre de crianças”, protestou Robert Spencer da Jihad Watch, outro blogueiro favorecido por Anders Behring Breivik.

Bruce Bawer, americano que mora em Oslo e autor de uma lamentação sobre o crescimento do controle muçulmano sobre a Europa, foi mais ponderado.

Notando que em seu manifesto Breivik “cita de maneira aprovadora e por extenso meu trabalho, mencionando meu nome 22 vezes”, reflete Bawer, com decente consternação, “é arrepiante pensar que postagens no blog que eu compus em minha casa na zona oeste de Oslo nos dois últimos anos estavam sendo lidas e copiadas por esse futuro assassino em massa”.[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Agentes da violência

Então, qual é, se é que existe, a conexão entre as palavras deles e os atos de Breivik? Quais deveriam ser as consequências para a maneira como sociedades livres tratam escritores que esse assassino em massa citou com tanta deferência? Para começar, pessoas como Pamela e Spencer, para não mencionar o suave Bawer, não são responsáveis pelo que Breivik fez. É tão errado proclamá-los culpados por associação de assassinato em massa como considerar escritores muçulmanos não violentos (embora às vezes não liberais e extremados) culpados por associação com muçulmanos terroristas que cometeram atentados em Nova York, Londres e Madri.

Como esse é um jogo que eles próprios vinham jogando há anos, algumas pessoas podem sentir uma pitada de schadenfreude (pequena alegria com a desgraça alheia) ao ver Pamela & Cia. provando do próprio veneno. Mas não devemos fazer o mesmo. Eles não são culpados por associação. Ponto.

No entanto, se é ridículo sugerir que não há absolutamente nenhuma conexão entre ideologia islâmica e terror islâmico, é também ridículo sugerir que não houve nenhuma conexão entre a visão alarmista da islamização da Europa que esses escritores espalharam, e o que Breivik entendeu que ele próprio estava fazendo.

“Nenhuma ideologia” aqui? Pode apostar que houve. Uma parte significativa do manifesto de Breivik é uma reafirmação – com frequência por citação “recortada e colada” da internet – precisamente de sua história de horror da Europa como “Eurábia”: tão enfraquecida pelo veneno do multiculturalismo e outras doenças esquerdistas que sucumbe sem luta a uma condição de subserviência ante a supremacia muçulmana.

Sua mente claramente desequilibrada salta, então, para a conclusão de que o Cavaleiro Justiceiro solitário (ele próprio) deve emitir um sinal de alarme heroico e brutal para sua sociedade fragilizada – um “sinal agudo” como ele disse a investigadores noruegueses.

O que deveria ser feito então a respeito a palavras tão incendiárias? Uma resposta, bastante popular em partes da esquerda europeia, é “proibi-las”! Se o pensamento foi o pai do feito, parem o pensamento. Um novo rol de termos e sentimentos ofensivos e extremados deveria ser somado à já longa lista de “discurso de ódio” pelo qual se pode ser processado em algumas partes da Europa.

Alguns anos atrás, a então ministra alemã da Justiça, Brigitte Zypries, levou a União Europeia a aprovar uma “decisão de estrutura” para uma multiplicação pan-europeia desses tabus embora a prática felizmente tenha ficado aquém das intenções dela. Felizmente – pois essa é uma maneira muito errada de agir. Ela não acabará com esses pensamentos, apenas os empurrará para o subsolo, onde eles se corrompem e ficam ainda mais venenosos.

Isso esfriará o debate legítimo sobre questões importantes: imigração, a natureza do Islã, fatos históricos. Trará aos tribunais fantasistas como Samina Malik, uma ajudante de loja de 23 anos processada na Grã-Bretanha por escrever maus versos glorificando o martírio e o assassinato jihadista, mas não os verdadeiros homens da violência. A incitação direta à violência deve merecer em toda parte, e sempre, o pleno rigor da lei.

Corpo de evidências

Os textos ideológicos que alimentaram a loucura de Breivik, até onde posso ver, não cruzaram a linha. Permitir a expressão das fantasias reformadoras tanto de islâmicos quanto de anti-islâmicos radicais é o preço que pagamos pela liberdade de expressão numa sociedade aberta.

Isso significa que eles devem ficar sem resposta? Evidentemente que não. Como o preço da proibição é alto demais, e na era da internet ela é de qualquer modo irrealizável (“como saltar sobre uma sombra”, como diz o especialista em liberdade de expressão Peter Molnar), precisamos enfrentá-los num combate aberto.

Um campo de batalha decisivo é a política, onde políticos europeus das correntes dominantes, de olho no sucesso eleitoral de partidos populistas xenófobos, estão contemporizando em vez de falar contra os mitos extremistas.

Outro é a mídia chamada dominante. Em um país como a Noruega – e na Grã-Bretanha – as emissoras públicas de rádio e televisão e uma imprensa de qualidade responsável em geral asseguram que, apesar de opiniões extremistas serem transmitidas, os mitos perigosos que elas espalham são esvaziados por fato, razão e senso comum. Para os que ainda leem e ouvem esses meios de comunicação, melhor dizendo.

Mas, e se a pessoa obtém suas notícias de tabloides sensacionalistas demagógicos, do tipo favorecido por Rupert Murdoch? Ou de um canal de televisão sistematicamente partidário, seja um de Silvio Berlusconi na Itália ou a Fox News de Murdoch nos Estados Unidos?

Na noite da matança de Oslo, a âncora do programa The O’Reilly Factor na Fox News, Laura Ingraham, reportou “dois ataques terroristas mortais na Noruega, no que parece ser o trabalho, mais uma vez, de extremistas muçulmanos”.

Após descrever o que se sabia até aquela hora sobre dos ataques, ela prosseguiu: “Enquanto isso, em Nova York, os muçulmanos que querem construir uma mesquita no Marco Zero (área onde ficavam as Torres Gêmeas) conseguiram recentemente uma enorme vitória legal”. Muçulmanos sanguinários, percebem, plantando bombas em Oslo, mesquitas em Nova York.

E se a pessoa recebe suas notícias do mundo principalmente pela internet?

A história de Breivik mostra de novo o recurso fantástico que a internet é para os que querem buscar com a mente aberta. Em poucas horas, foi possível juntar uma quantidade de informações que em outros tempos exigiria semanas, e provavelmente uma viagem ao país em questão para montá-la. Mas há um corpo crescente de evidências de que a maneira como a internet funciona também pode contribuir para fechar mentes, reforçar preconceitos e nutrir teorias conspiratórias.

Respostas difíceis

Online podem-se encontrar com muita facilidade os milhares de outras pessoas que partilham sua visão pervertida. Obtém-se, então, uma espiral viciosa de pensamento grupal, reforçando o pior tipo de ideologia: uma visão de mundo sistemática, internamente consistente, totalmente divorciada da humanidade real. O manifesto de Breivik, com seus intermináveis pedaços “recortados e colados” de fontes online, é um exemplo didático desse processo.

Não há respostas fáceis aqui. “Proibi-las!” é a errada. O verdadeiro desafio é descobrir como podemos elevar ao máximo a capacidade extraordinária da internet para abrir mentes – e reduzir ao mínimo sua agora evidente tendência a fechá-las.

¹ Timothy Garton Ash é professor de Estudos Europeus na Universidade Oxford E bolsista sênior na Hoover Institution, Universidade Stanford

Noruega: manifesto do terrorista é colagem de textos

Manifesto de terrorista é colagem da internet; Brasil tem 12 citações.

O manifesto de 1.516 páginas de Word deixado pelo terrorista anglo-norueguês Anders Breivik impressiona pelo tamanho, mas não pelo conteúdo.

Grande parte foi produzida seguindo os preceitos da escola tecno-filosófica do CTRL+C e CTRL+V.

Plágio puro e simples. Do manifesto do Unabomber a blogs de extrema-direita, de páginas de malucos em geral à Wikipedia, trechos inteiros foram copiados e colados. Há pouco de sua própria autoria. É uma colagem a que ele chama de compêndio.

Quanto ao conteúdo, trata-se de um caso radical do que o crítico Roberto Schwarz certa vez chamou de “ideias fora do lugar”. Citações desconexas de autores marxistas misturadas a trechos da revista The Economist, estatísticas inventadas e passagens do Alcorão. Tudo para “provar” que a Europa está sob ataque do Islam (uma nova onda de ataque, na sua versão) e que precisa defender-se militarmente -usando todas as armas que tiver à mão, o terrorismo inclusive.

Porém, antes de atacar os muçulmanos, o auto-confesso terrorista defende ser preciso combater os adversários internos que facilitam a penetração do “inimigo” no território europeu. A saber: políticos liberais, marxistas, feministas, defensores do politicamente correto, a academia e, basicamente, todo mundo que discordar de suas convicções racistas. Daí os alvos de Breivik terem sido o governo liberal norueguês e os filhos de seus líderes.

Impossível não notar, todavia, que é covardemente conveniente matar adolescentes desarmados, encurralados em uma ilha sem ponte nem proteção policial, em vez de enfrentar um bando de jihadistas com experiência em combate.

A nuvem de 778 mil palavras do texto mostra-se bastante repetitiva. Os termos mais citados (em inglês) são “europeu”, “Europa”, “muçulmano(s)”, “Islam/ilslâmico”, “cristão(s)”, e “ocidental”. A tentativa de fazer uma oposição “política” e “cultural” entre os dois mundos fica evidente no texto, no qual ainda têm destaque as palavras “guerra”, “militar”, “país”, “cavaleiros” e “multiculturalismo”.

O Brasil recebe 12 menções no manifesto, especialmente em dois blocos. Num, o país aparece como anti-exemplo de multiculturalismo e “mistura de raças”, que seriam responsáveis pela suposta falta de coesão interna e transformariam o Brasil em um país de segunda classe.

A outra menção é sobre o episódio com césio 137 em Goiânia, no final da década de 80, quando várias pessoas foram contaminadas e algumas morreram ao entrar em contato com o material radiativo. O caso é citado como lembrete de que os fanáticos devem tomar cuidado ao manipularem esse tipo de material ao prepararem “bombas” ou outros artefatos.

Breivik, que se assina Andrew Berwick no texto, tenta valorizar seu trabalho intelectual escrevendo logo no começo que a elaboração do documento lhe tomou nove anos de trabalho e custou 317 mil euros. Difícil imaginar como um trabalho de copiar-colar pode ter demorado tanto tempo e custado tanto dinheiro. Parece ser mais um auto-elogio e uma tentativa de alcançar reconhecimento entre sues colegas racistas internet afora.

As citações a uma nova ordem de cavaleiros templários, unidade paramilitar cristã, parecem mais um desejo do que uma realidade. O estilo de ação e de seu manifesto lembram muito mais psicopatas solitários como o Unabomber e o atirador de Realengo do que terroristas organizados como a Al-qaeda.

Jose Roberto de Toledo/O Estado de S.Paulo