Pablo Neruda – Versos na tarde – 31/12/2017

As Máscaras
Pablo Neruda¹

Piedade para estes séculos e seus sobreviventes
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.

¹Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 12 de Julho de 1904
+ Santiago, Chile – 23 de Setembro de 1973

Paz na Colômbia?

‘Colômbia é uma sociedade totalmente traumatizada’

Pesquisadora Josefina Echavarría diz que resultado do plebiscito não é racionalmente explicável: há um conflito profundo no país, marcado por raiva e luto – EFE

Na prática, portanto, após penosas negociações e a recente assinatura do documento, o povo disse “não” à chance de dar fim a 52 anos de um conflito interno que já custou centenas de milhares de vidas e consome recursos preciosos.

A DW entrevistou a pesquisadora da paz Josefina Echavarría, nascida na Colômbia, que trabalha na Universidade de Innsbruck, na Áustria. Para ela, o profundo trauma da sociedade colombiana explica, em parte, a decisão popular, difícil de justificar com argumentos racionais.

Mas nem tudo está perdido: há iniciativas para implementar o acordo por outros meios. E o processo de paz viu nascer várias pequenas iniciativas de pacificação, em localidades e junto às famílias, que deverão sobreviver ao resultado das urnas. “Espero que esses movimentos não sejam afetados pela grande rejeição ao acordo de paz, em nível nacional”, torce Echavarría.

DW: O acordo de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo da Colômbia foi negociado a duras penas. Apesar disso, diversos grupos faziam campanha contrária. Como se explica isso?

Josefina Echavarría: Havia no país uma oposição, liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que movimentava os ânimos contra o governo. Essa posição fundamental, em princípio, nada tinha a ver com as negociações de paz. Além disso, uma série de grupos menores simplesmente consideravam injusto o acordo de paz.

Mas esse conflito dura mais de 50 anos, custou mais de 220 mil vidas. Depois de todo o sofrimento que ele tem causado na Colômbia, como alguém pode, a sério, ser contra um acordo de paz?

Não acho que esse resultado seja racionalmente explicável. Para compreendê-lo, é preciso considerar os diferentes estados de espírito entre os diversos grupos colombianos. A Colômbia é uma sociedade totalmente traumatizada, há tanta raiva, tanto luto no país. Muitos não se sentem escutados. E está claro que o governo e todos os que eram a favor do acordo subestimaram o tamanho desse grupo.

Agência Efe

Pesquisadora acredita que sociedade colombiana deve aprender a solucionar problemas de maneira democrática

O que o resultado do plebiscito significa para o processo de paz colombiano?

Já há tentativas para dar forma de lei ao acordo por outros caminhos. É também preciso enfatizar: graças a esse processo de paz, nos últimos anos foram fundadas numerosas iniciativas, a maioria trabalhando em nível local, que deram grande impulso a todo o processo. Justamente por atuarem nas pequenas localidades e, especificamente, com as famílias locais, eu espero que esses movimentos não sejam afetados pela grande rejeição ao acordo, em nível nacional.

A senhora acaba de voltar da Colômbia. Como se anuncia o futuro para as próximas gerações?

Acho que depende inteiramente de como os colombianos se comportarão após essa consulta popular. No momento, todos só estão olhando para esse resultado eleitoral. Vê-se nas urnas que a população estava totalmente dividida. Isso significa que há um conflito profundo na nação. Os colombianos precisam olhar para si e se perguntar: o que esse resultado representa agora, para o dia a dia no país? Acima de tudo, eles precisam aprender, ainda mais, a solucionar todos os seus conflitos de forma democrática.

Ainda há esperança para esse país sul-americano?

Acho que há muitas pequenas ilhas de esperança. A Colômbia é um país marcado por grandes disparidades. Há, por exemplo, em acentuado abismo entre as condições de vida no campo e nas grandes cidades. E, apesar dessas diferenças, dessa polarização da sociedade, sente-se, já agora, a paz em muitíssimos setores da vida quotidiana.

Peruana ganha Prêmio Goldman, o ‘Nobel de Ecologia’

Máxima Acuña lutou contra uma das maiores mineradoras do mundo

Personalidades,Máxima Acuña,Ecologia,Blog do MesquitaAgência ANSA

Uma camponesa peruana foi um dos vencedores do Prêmio Goldman, conhecido como o “Nobel de Ecologia“, que todos os anos é dado a ativistas que se dedicaram a salvar o meio-ambiente.

Em Los Angeles, Máxima Acuña e outras cinco pessoas compareceram à premiação, que a senhora da região de Cajamarca, área que se encontra a mais de 4 mil metros de altitude das cordilheiras dos Andes, nem sabia que existia há poucas semanas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

No palco, ao receber o prêmio, a peruana entoou uma canção sobre a luta dos camponeses do país para defender o meio-ambiente.

“É por isso que eu defendo a terra, a água, por que é vida. Eu tenho medo do poder das grandes empresas e continuarei a lutar pelos meus companheiros que foram mortos e por todos nós que lutamos em Cajamarca”, disse a senhora em seu discurso.

A história de Acuña chamou a atenção do mundo nos últimos meses pela coragem e persistência da mulher.

Tudo começou em 1994 quando a camponesa e seu marido compraram um pedaço de terra, que foi chamado de Tragadero Grande, onde o casal começou a cultivar uma pequena plantação de legumes e vegetais, a criar alguns animais e a cuidar de sua filha.

A família vivia tranquila em paz quando, em 2010, uma grande companhia de mineração norte-americana viu no terreno uma oportunidade de expandir seus negócios no Peru.

Em parceria com a empresa peruana Buenaventura, do mesmo ramo, a gigante Newmont, que é o segundo maior grupo de extração de ouro do mundo, viu no Tragadero Grande o local ideal para a criação da escavação a céu aberto na mina Conga, que já havia recebido um investimento de US$ 4,8 bilhões.

A ideia da companhia já estava tão preparada que o lago onde Acuña pegava água para usar na casa e dar para os animais, a Laguna Azul, seria drenado e transformado em local para descarregar detritos.

No ano seguinte, um grupo de policiais exigiu que Acuña saísse do local. Quando a ordem foi negada, mãe e filha apanharam.

Para que a camponesa aprendesse a lição a casa foi destruída e a peruana, acusada de ocupar o espaço ilegalmente. De nada valeu a sua palavra de que o terreno era sua propriedade.

Além de tudo, Acuña quase foi condenada a três anos de prisão e à uma multa de US$ 2 mil e teve sua plantação destruída e seus animais roubados.

Uma manifestação que aconteceu em 2012 contra a mineradora deixou cinco mortos e vários feridos.

Neste ponto, a camponesa decidiu pedir ajuda para a Grufides, ONG peruana que defende as comunidades locais.

Com ajuda da advogada Mirtha Vásquez, a peruana conseguiu provar que é a proprietária legítima de Tragadero Grande.

Assim, Newmont e Buenaventura tiveram que parar o projeto.

No entanto, a situação ainda pode mudar, já que a batalha judicial ainda não chegou ao fim e as mineradoras pretendem recorrer da decisão da Justiça na Suprema Corte.