Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”

Prestes a fazer 90 anos, acaba de abandonar o MIT. Ali revolucionou a linguística moderna e se transformou na consciência crítica dos EUA

Noam Chomsky
Noam Chomsky, em seu escritório da Universidade do Arizona, em Tucson. APU GOMES 

Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos.

Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demônios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano (editora Bertrand Brasil), ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riquezae poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro.

Preparado para o ataque.

— O senhor se considera um radical?

— Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.

— Defina-se ideologicamente.

“As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária. O resultado é uma mistura de aborrecimento e medo”

— Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso… isso é anarquismo.

Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilômetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo.

O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.

Pergunta. Vivemos uma época de desencanto?

Resposta. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.

P. E assim surgem as fake news (os boatos)?

R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?

P. Nem mesmo nos veículos de comunicação?

R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.

P. Mas há alguns muito críticos, como The New York TimesThe Washington Post, CNN…

R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.

Noam Chomsky.
Noam Chomsky. APU GOMES

P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia?

R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.

P. Ele voltará a ganhar?

R. É possível, se conseguir retardar o efeito letal de suas políticas. É um demagogo e showman consumado que sabe como manter ativa sua base de adoradores. Também joga a seu favor o fato de que os democratas estão mergulhados na confusão e podem não ser capazes de apresentar um programa convincente.

P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders?

R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower[presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular.

“Trump liberou deliberadamente ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes mas não legitimadas”

P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?

R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?

P. Então o neoliberalismo triunfou?

R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.

P. O que o senhor descreve soa a George Orwell.

R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.

P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?

R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.

P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo?

“As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são marxistas mas com os valores invertidos”

R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.

P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.

R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.

P. O senhor teme o nacionalismo?

R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.

P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?

R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.

P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.

R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…

P. Ainda tem esperanças?

R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.

Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.
ElPais

10 estratégias de manipulação em massa utilizadas diariamente contra você

Quanto mais disperso o ratinho, mais facilmente cai na ratoeira.manipulacao-em-massa

Noam Chomsky é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como “o pai da linguística moderna“, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica.

“Em um estado totalitário não se importa com o que as pessoas pensam, desde que o governo possa controlá-la pela força usando cassetetes.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Mas quando você não pode controlar as pessoas pela força, você tem que controlar o que as pessoas pensam, e a maneira típica de fazer isso é através da propaganda (fabricação de consentimento, criação de ilusões necessárias), marginalizando o público em geral ou reduzindo-a a alguma forma de apatia” (Chomsky, N., 1993)

Inspirado nas idéias de Noam Chomsky, o francês Sylvain Timsit elaborou a lista das “10 estratégias mais comuns de manipulação em massa através dos meios de comunicação de massa

Sylvain Timsit elenca estratégias utilizadas diariamente há dezenas de anos paramanobrar massas, criar um senso comum e conseguir fazer a população agir conforme interesses de uma pequena elite mundial.

Qualquer semelhança com a situação atual do Brasil não é mera coincidência, os grandes meios de comunicação sempre estiveram alinhados com essas elites e praticamincansavelmente várias dessas estratégias para manipular diariamente as massas, até chegar um momento que você realmente crê que o pensamento é seu.


1. A Estratégia da Distração


O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética.

Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real.

Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais.


2. Criar problemas e depois oferecer soluções


Este método também é chamado “problema-reação-solução“. Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar.

Por exemplo: Deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade.

Ou também: Criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. (qualquer semelhança com a atual situação do Brasil não é mera coincidência).


3. A estratégia da gradualidade


Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas, neoliberalismo por exemplo, foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990.

Estratégia também utilizada por Hitler e por vários líderes comunistas.  E comumente utilizada pelas grandes meios de comunicação.


4. A estratégia de diferir


Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.

É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento.


5. Dirigir-se ao público como crianças


A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental.

Quanto mais se tenta enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante.

Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.”


6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão


Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos.

Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.


7. Manter o público na ignorância e na mediocridade


Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.

“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.


8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade


Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto. Introduzir a idéia de que quem argumenta demais e pensa demais é chato e mau humorado, que lhe falta humor de sorrir das mazelas da vida.

Assim as pessoas vivem superficialmente, sem se aprofundar em nada e sempre ter uma piadinha para se safar do aprofundamento necessário a questões maiores.

A idéia é tornar qualquer aprofundamento como sendo desnecessário. Pois qualqueraprofundamento sério e lúcido sobre um assunto pode derrubar sistemas criados para enganar a multidão.


9. Reforçar a auto-culpabilidade


Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços.

Assim, no lugar de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E, sem ação, não há questionamento!


10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem


No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes.

Graças à biologia, a neurobiologia a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado sobre a psique do ser humano, tanto em sua forma física como psicologicamente.

O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que dos indivíduos sobre si mesmos.

manipulacao-em-massa

Nós do Yogui.co acreditamos que para se manter desperto e apto a tomar decisões sem sermos massa de manobra devemos nos auto-conhecer, o caminho mais profundo de auto-conhecimento é a meditação (ao nosso ver).

A simples tarefa de olharmos internamente para cada nuance de nosso ser e questionar cada célula, cada pensamento é o caminho básico para quem deseja despertar de toda essa manipulação que foi pensada e estrategiada para nos manter dispersos.

Noam Chomsky – Pro dia nascer melhor? – 13/03/2016

“O problema com as democracias verdadeiras é que elas podem fazer seus governantes caírem na heresia de responder às necessidades de sua própria população, em vez das dos investidores norte-americanos.”
Noam Chomsky

Chomsky: ‘Este é o momento mais crítico na história da humanidade’

Chomsky repassa as principais tendências do cenário internacional, a escalada militarista do seu país e os riscos crescentes de guerra nuclear.

Ministerio de Cultura de la Nación Argentina / Flickr

“Os Estados Unidos sempre foram uma sociedade colonizadora. Inclusive antes de se constituírem como Estado já trabalhavam para eliminar a população indígena, o que significou a destruição de muitas nações originárias”, como bem lembra o linguista e ativista estadunidense Noam Chomsky, quando se pede que descreva a situação política mundial.

Crítico feroz da política externa de seu país, ele recorda 1898, quando ela apontou seus dardos ao cenário internacional, com o controle de Cuba, “transformada essencialmente numa colônia”, e logo nas Filipinas, “onde assassinaram centenas de milhares de pessoas”.

Chomsky continua seu relato fazendo uma pequena contra-história do império: “roubou o Havaí da sua população originária 50 anos antes de incorporá-lo como um dos seus estados”. Imediatamente depois da II Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornaram uma potência internacional, “com um poder sem precedente na história, um incomparável sistema de segurança, controlando o hemisfério ocidental e os dois grandes oceanos. E, naturalmente traçou planos para tentar organizar o mundo conforme a sua vontade”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Contudo, ele aceita que o poder da superpotência diminuiu com respeito ao que tinha em 1950, o auge da sua hegemonia, quando acumulava 50% do produto interno bruto mundial, muito mais que os 25% que possui agora.

Ainda assim, Chomsky lembra que “os Estados Unidos continua sendo o país mais rico e poderoso do mundo, e incomparável a nível militar”.

Um sistema de partido único

Em algum momento, Chomsky comparou as votações em seu país com a eleição de uma marca de pasta de dentes num supermercado.

“Nosso país tem um só partido político, o partido da empresa e dos negócios, com duas facções, democratas e republicanos”, proclama. Mas ele acredita que já não é possível continuar falando dessas duas velhas coletividades políticas, já que suas tradições sofreram uma mutação completa durante o período neoliberal.

Chomsky considera que “os chamados democratas não são mais que republicanos modernos, enquanto a antiga organização republicana ficou fora do espectro, já que ambas as vertentes se moveram muito mais à direita durante o período neoliberal – algo que também aconteceu na Europa”.

O resultado disso é que os novos democratas de Hillary Clinton adotaram o programa dos velhos republicanos, enquanto estes foram completamente dominados pelos neoconservadores. “Se você olha os espetáculos televisivos onde dizem debater política, verá como somente gritam entre eles e as poucas políticas que apresentam são aterrorizantes”.

Por exemplo, ele destaca que todos os candidatos republicanos negam que o aquecimento global ou são céticos – não o negam mas dizem que os governos não precisam fazer algo a respeito.

“Entretanto, o aquecimento global é o pior problema que a espécie humana terá pela frente, e estamos nos dirigindo a um completo desastre”. Em sua opinião, as mudanças no clima têm efeitos comparáveis somente com os da guerra nuclear.

Pior ainda, “os republicanos querem aumentar o uso de combustíveis fósseis. Esse não é um problema de centenas de anos, mas sim um criado pelas últimas duas gerações”.

A negação da realidade, que caracteriza os neoconservadores, responde a uma lógica similar à que impulsiona a construção de um muro na fronteira com o México. “Essas pessoas que tratamos de distanciar são as que fogem da destruição causada pelas políticas estadunidenses”.

“Em Boston, onde vivo, o governo de Obama deportou um guatemalteco que viveu aqui durante 25 anos, ele tinha uma família, uma empresa, era parte da comunidade. Havia escapado da Guatemala destruída durante a administração de Reagan.

A resposta a isso é a ideia de construir um muro para nos prevenir. Na Europa acontece o mesmo. Quando vemos que milhões de pessoas fogem da Líbia e da Síria para a Europa, temos que nos perguntar o que aconteceu nos últimos 300 anos para chegar a isto”.

Invasões e mudanças climáticas se retroalimentam

Há apenas 15 anos, não existia o tipo de conflito que observamos hoje no Oriente Médio. “É consequência da invasão estadunidense ao Iraque, que é o pior crime do século. A invasão britânica-estadunidense teve consequências horríveis, destruíram o Iraque, que agora está classificado como o país mais infeliz do mundo, porque a invasão cobrou a vida de centenas de milhares de pessoas e gerou milhões de refugiados, que não foram acolhidos pelos Estados Unidos, e tiveram que ser recebidos pelos países vizinhos pobres, obrigados a recolher as ruínas do que nós destruímos. E o pior de tudo é que instigaram um conflito entre sunitas e xiitas que não existia antes”.

As palavras de Chomsky recordam a destruição da Iugoslávia durante os Anos 90, instigada pelo ocidente. Assim como Sarajevo, ele destaca que Bagdá era uma cidade integrada, onde os diversos grupos culturais compartilhavam os mesmos bairros e se casavam membros de diferentes grupos étnicos e religiosos.

“A invasão e as atrocidades que vimos em seguida fomentaram a criação de uma monstruosidade chamada Estado Islâmico, que nasce com financiamento saudita, um dos nossos principais aliados no mundo”.

Um dos maiores crimes foi, em sua opinião, a destruição de grande parte do sistema agrícola sírio, que assegurava a alimentação do país, o que conduziu milhares de pessoas às cidades, “criando tensões e conflitos que explodiram após as primeiras faíscas da repressão”.

Uma das suas hipóteses mais interessantes consiste em comparar os efeitos das intervenções armadas do Pentágono com as consequências do aquecimento global.

Na guerra em Darfur (Sudão), por exemplo, convergiram os interesses das potências ocidentais e a desertificação que expulsa toda a população às zonas agrícolas, o que agrava e agudiza os conflitos.

“Essas situações desembocam em crises espantosas, e algo parecido acontece na Síria, onde se registra a maior seca da história do país, que destruiu grande parte do sistema agrícola, gerando deslocamentos, exacerbando tensões e conflitos”, reflete.

Chomsky acredita que a humanidade ainda não pensa com mais atenção sobre o que significa essa negação do aquecimento global e os planos a longo prazo dos republicanos, que pretendem acelerá-lo: “se o nível do mar continuar subindo e se elevar muito mais rápido, poderá engolir países como Bangladesh, afetando a centenas de milhões de pessoas.

Os glaciares do Himalaia se derretem rapidamente, pondo em risco o fornecimento de água para o sul da Ásia. O que vai acontecer com essas bilhões de pessoas? As consequências iminentes são horrendas, este é o momento mais importante da história da humanidade”.

Chomsky crê que estamos diante um ponto crucial da história, no qual os seres humanos devem decidir se querem viver ou morrer: “digo isso literalmente, não vamos morrer todos, mas sim se destruiriam as possibilidades de vida digna, e temos uma organização chamada Partido Republicano que quer acelerar o aquecimento global. E não exagero, isso é exatamente o que eles querem fazer”.

Logo, ele cita o Relógio do Apocalipse, para recordar que os especialistas sustentam que na Conferência de Paris sobre o aquecimento global foi impossível conseguir um tratado vinculante, somente acordos voluntários.

“Por que? Simples: os republicanos não aceitariam. Eles bloquearam a possibilidade de um tratado vinculante que poderia ter feito algo para impedir essa tragédia massiva e iminente, uma tragédia como nenhuma outra na história da humanidade. É disso que estamos falando, não são coisas de importância menor”.

Guerra nuclear, possibilidade certa

Chomsky não é de se deixar impressionar por modas acadêmicas ou intelectuais. Seu raciocínio radical e sereno busca evitar o furor, e talvez por isso não joga palavras ao vento sobre a anunciada decadência do império.

“Os Estados Unidos possuem 800 bases ao redor do mundo e investe em seu exército tanto quanto todo o resto do mundo junto. Ninguém tem algo assim, soldados lutando em todas as partes do mundo. A China tem uma política principalmente defensiva, não possui um grande programa nuclear, embora seja possível que cresça”.

O caso da Rússia é diferente. É a principal pedra no sapato da dominação do Pentágono, porque “tem um sistema militar enorme”. O problema é que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos estão ampliando seus sistemas militares, “ambos estão atuando como se a guerra fosse possível, o que é uma loucura coletiva”.

Chomsky acredita que a guerra nuclear é irracional e que só poderia suceder em caso de acidente ou erro humano. Contudo, ele concorda com William Perry, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, que disse recentemente que a ameaça de uma guerra nuclear hoje é maior que durante a Guerra Fria. O intelectual estima que o risco se concentra na proliferação de incidentes que envolvem as forças armadas de potências nucleares.

“A guerra esteve a ponto de ser deflagrada inumeráveis vezes”, admite ele. Um de seus exemplos favoritos é o sucedido sob o governo de Ronald Reagan, quando o Pentágono decidiu provar as defesas russas através de uma simulação de ataques contra a União Soviética.

“Acontece que os russos levaram a sério. Em 1983 depois que os soviéticos automatizaram seus sistemas de defesa, foi possível detectar um ataque de mísseis estadunidense. Nesses casos, o protocolo é ir direto ao alto mando e lançar um contra-ataque. Havia uma pessoa que tinha que transmitir essa informação, Stanislav Petrov, mas decidiu que era um alarme falso. Graças a isso, podemos estar aqui falando”.

Chomsky defende que os sistemas de defesa dos Estados Unidos possuem sérias falhas, e há poucas semanas se conheceu um caso de 1979, quando se detectou um ataque massivo com mísseis que vinham da Rússia. Quando o conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, estava levantando o telefone para chamar o presidente James Carter e lançar um ataque de represália, chegou a informação de que se tratava de um alarme falso. “Há cada ano são registradas dúzias de alarmes falsos”, assegura ele.

Neste momento, as provocações dos Estados Unidos são constantes. “A OTAN está realizando manobras militares a 200 metros da fronteira russa com a Estônia. Nós não toleraríamos algo assim se acontecesse no México”.

O caso mais recente foi a derrubada de um caça russo que estava bombardeando forças jihadistas na Síria, no final de novembro.

“Há uma parte da Turquia quase rodeada pelo território sírio e o bombardeiro russo voou através dessa zona durante 17 segundos, até ser derrubado. Uma grande provocação que, por sorte, não foi respondida pela força”. Chomsky argumenta que fatos similares estão sucedendo quase diariamente no mar da China.

A impressão que ele tem, e que expressa em seus gestos e reflexões, é que se as potências agredidas pelos Estados Unidos atuassem com a mesma irresponsabilidade que Washington, o destino do planeta estaria perdido.

Visão sobre a Colômbia

O linguista estadunidense Noam Chomsky conhece de perto a realidade colombiana. Fiel ao seu estilo e suas ideias, ele visitou o país e sua diversidade, conheceu a Colômbia que existe longe dos focos acadêmicos e midiáticos, adentrou no Vale do Cauca, onde grupos indígenas constroem sua autonomia, com base em seus saberes ancestrais, atualizados em meio ao conflito armado.

“Parece haver sinais positivos nas negociações de paz”, reflete Chomsky. “A Colômbia tem uma terrível história de violência desde o século passado, a violência nos Anos 50 era monstruosa”, lembrou ele, reconhecendo que a pior parte foi obra de operações paramilitares. Mais recentes são as fumigações realizadas pelos Estados Unidos, verdadeiras operações de guerra química, que deslocaram populações enormes de camponeses, para beneficio das multinacionais.

Como consequência, a Colômbia se tornou o segundo país do mundo em número de migrantes dentro do próprio território, depois do Afeganistão. “Deveria ser um país rico, próspero, mas está se quebrando em pedaços”, agrega.

Por isso, se as negociações tiverem sucesso, eliminarão alguns dos problemas, mas não todos. “A Colômbia, mesmo sem o problema da guerrilha, continuará sendo um dos piores países para os defensores dos direitos humanos, para líderes sindicais e outros”.

Um dos perigos que ele observa, no caso de que se assine o acordo definitivo de paz, seria a integração dos paramilitares ao governo, uma realidade latente no país.

Ainda assim, ele sustenta que a redução do conflito com as FARC seria um grande passo para frente, por isso acredita que deve se fazer todo o possível para contribuir com o processo de paz.

Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: Ministerio de Cultura de la Nación Argentina / Flickr

Programa de drones: a campanha terrorista mais extrema da modernidade

DivulgaçãoNoam Chomsky mira no programa de drones de Barack Obama, o qual ele descreve como a campanha terrorista mais extrema da história da modernidade.

 O acadêmico linguista renomado mundialmente Noam Chomsky criticou o que ele vê como hipocrisia ocidental seguindo os recentes ataques terroristas em Paris e a ideia de que existem dois tipos de terrorismo: “o deles versus o nosso.”

Em um editorial publicado segunda-feira na CNN.com, Chomsky nota como os ataques mortais à Charlie Hebdo e um supermercado semana passada incitaram milhões a protestar sob a frase “je suis Charlie” e solicitaram indagações “dentro das raízes dos ataques na cultura islâmica e explorando modos de conter a onda assassina do terrorismo islâmico sem sacrificar nossos valores.”

Nenhuma indagação do tipo na cultura ocidental e no cristianismo veio do ataque de 2011 de Anders Breivik na Noruega que matou milhares de pessoas.

Nem o ataque de mísseis pela OTAN em 1999 na sede de televisão Sérvia que matou 16 jornalistas desencadeou protestos como “je suis Charlie”.

De fato, Chomsky escreve, este ataque foi louvado pelos oficiais norte-americanos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O advogado de direitos civis Floyd Abrams descreveu o ataque à Charlie Hebdo como “o ataque mais amedrontador ao jornalismo na história,” não é surpresa, escreve Chomsky, quando um entende “’história’ como uma categoria construída cuidadosamente para incluir os crimes DELES contra nós e excluir os NOSSOS crimes contra eles – o último não sendo crime mais defesas nobres dos maiores valores.”

Outras omissões de ataques sobre jornalistas notados por Chomsky: o ataque de Israel em Gaza este verão cujas mortes incluem muitos jornalistas, e as dezenas de jornalistas em Honduras que foram mortos desde o golpe em 2009.

Oferecendo mais prova sobre o que ele descreve como hipocrisia ocidental em relação ao terrorismo, Chomsky mira no programa de drones de Obama, o qual ele descreve como “a campanha terrorista mais extrema da modernidade.”

“Mira em pessoas suspeitas de talvez tentarem nos machucar um dia e em quaisquer infelizes que estejam no meio do caminho,” ele escreve.
Fonte;
http://www.commondreams.org/news/2015/01/19/noam-chomsky-obamas-drone-program-most-extreme-terrorist-campaign-modern-times