Cinema: Meu Amigo Nietzsche: uma história sobre a filosofia de potência

Meu Amigo Nietzsche (2012) é um curta-metragem dirigido por Fáuston da Silva filmado na Cidade Estrutural, região administrativa localizada na periferia do Distrito Federal. Essa região, inicialmente, era formada por uma comunidade de catadores de material devido à proximidade do aterro sanitário de Brasília, na época conhecido como “Lixão da Estrutural”, hoje desativado. No meio deste “lixão” o jovem Lucas, aluno com dificuldades de aprendizagem, encontra o livro Assim Falava Zaratustra, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. A partir de então, o “amigo Nietzsche” passa a lhe ensinar o caminho da superação.

Apesar da impressionante melhora na aprendizagem, sua professora, preocupada, parafraseia Nietzsche para referir-se a Lucas: “ele não é mais um garoto, é uma dinamite”.

A narrativa oscila entre situações divertidas e cenas poéticas. Dirigido com sensibilidade, o curta-metragem é uma breve apresentação da filosofia de Nietzsche, que exorta o homem a abandonar sua condição de fraqueza, pavimentando o caminho que leva ao super-homem — um dos conceitos fundamentais do filósofo.

O local onde ocorre a história, bem como seus personagens, representam a condição que, segundo o filósofo, a própria humanidade se colocou: pobreza, impotência, fanatismo religioso e vigilância moral são elementos que surgem para contrastar com a “filosofia de potência” de Nietzsche.

O fato do livro Assim Falava Zaratustra ser encontrado no “lixão” é o simbolismo mais forte do curta-metragem.

Meu Amigo Nietzsche recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior, entre eles o prêmio Youssef Chahin de melhor curta-metragem no Festival Internacional do Cairo.

Os parágrafos seguintes são comentários sobre o final da história. Assista ao curta-metragem antes de prosseguir.

Ao voltar para o lixão em busca do livro perdido, Lucas encontra outro livro, o Manifesto do Partido Comunista, sugerindo que agora o jovem leitor tem novo mestre: Karl Marx. Entretanto, Nietzsche não se alinha a qualquer doutrina política, social ou econômica. Seja progressista ou liberal. Para ele, tudo isso é “lamentável palavrório feito de política e egoísmo dos povos”.

Nietzsche não acredita no Estado, na política ou na democracia, que seriam decadentes devido à atual condição miserável do homem. Nas palavras dele, “socialismo é inveja, é antibiológico, uma tirania da impotência. Não existe igualdade, em nada somos iguais”. Sobre as elites econômicas, escreveu: “são vítimas dos negócios, suas casas nunca são lares, seu luxo é vulgar, adquirem riquezas e se tornam mais pobres. Pensar é tabu entre eles”.

A filosofia de Nietzsche representaria a superação desta “tragédia”, sendo o único mérito da humanidade ser “uma ponte entre o macaco e o super-homem”.

Contudo, essa incompatibilidade entre Nietzsche e Marx não tira o mérito de Meu Amigo Nietzsche, pelo contrário, é um convite à leitura de todos os filósofos.

Friedrich Wilhelm Nietzsche,Poesia,Literatura

Friedrich Nietzsche – Instinto de Rebanho

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Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos atos humanos. Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo.

A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto gregário no indivíduo.

Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’

Nietzsche e o Cinema

5 Filmes Influenciados Pela Filosofia De Nietzsche Que Você Precisa Assistir

Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?

Essa é uma das grandes perguntas propostas pelo filólogo, crítico cultural, poeta e compositor alemão do século XIX, Friedrich Wilhelm Nietzsche. E quanto mais o tempo passa, mais essa pergunta faz sentido. Os tempos mudam, mas a história continua para sempre.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O mesmo acontece com o cinema, veja Laranja Mecânica, de Kubrick, uma crítica sobre a sociedade da época. Mesmo tendo sido realizado nos anos 1970 continua completamente atual hoje em dia, 40 anos depois. Nietzsche escreveu diversos textos que serviram de inspiração para a psicologia, filosofia e a arte.

Pensando em suas contribuições dialéticas separamos 5 filmes, com a promessa de prepararmos outros 5. Confira:

1 – Cidadão Kane (1941) | Orson Welles

hollywood_0018_12Baseado na vida do magnata das comunicações William Randolph Hearst,Baseado na vida do magnata das comunicações William Randolph Hearst, conhecemos a história de Charles Foster Kane, o homem que construiu um império a partir do nada, mas que vivia uma vida pessoal extremamente ruim. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro.  A crítica considerou esta obra de Welles não só como um marco na história do cinema quanto ao roteiro, filmagem e cenário, como a considerou mais tarde como o melhor filme da história do cinema de todos os tempos.

O conflito existencial em Nietzsche: 

O filme termina e ninguém revela o mistério de “Rosebud”. Somente ao expectador é revelado o significado da palavra nos últimos segundos do filme. O que o leva à reflexão após o término do filme.

“Rosebud” se traduz do inglês por “Botão de Rosa” e é uma referência poética clara ao órgão genital feminino do prazer: o clitóris. A anatomia da genitália feminina é frequentemente associada à forma de um botão de rosa pelos poetas. Assim, “Rosebud” simboliza aquilo que há de mais íntimo, de mais misterioso, mais escondido, mais particular, mais encoberto.

“Se uma mulher tem inclinações eruditas é porque, em geral, há algo de errado na sua sexualidade. A esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; é que o homem, com vossa licença, é de fato ‘o animal estéril’”. Friedrich Nietzsche

2 – Festim Diabólico (1948) | Alfred Hitchcock

Festim Diabólico (1948) | Alfred Hitchcock

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Baseado em uma história real. Na cidade de Nova York, Brandon e Phillip assassinam seu amigo David, por considerarem-se superiormente intelectuais em relação a ele. Com toda a frieza e arrogância resolvem provar para eles mesmos sua habilidade e esperteza: esconderam o cadáver em um grande baú.  E este servira como mesa e exposta no meio da sala de estar do apartamento, durante uma festa que realizaram em seguida.  É interessante destacar que para muitos críticos este não é um filme tão respeitável quanto Psicose ou Janela Indiscreta. Na época de seu lançamento, Festim Diabólico,  fracassou crítica e comercialmente.

A natureza humana em Nietzsche:

No filme, o foco de toda a tensão está escondido em uma arca: o corpo do jovem assassinado. A motivação do crime é uma teoria a defender que apenas os seres humanos “superiores” são capazes de cometer um assassinato a sangue frio.

3 – 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) | Stanley Kubrick2001-1

Durante a pré-história, um misterioso Monolito Negro parece emitir sinais de outra civilização interferindo no nosso planeta. Quatro milhões de anos depois, no Século XXI, uma equipe de astronautas a bordo na nave Discovery é enviada a Júpiter para investigar o enigmático monolito.

A fuga do “eu” existencial em Nietzsche 

O homem frente à máquina e a sua disposição em desobedecer e quebrar as regras para conseguir aquilo que ambiciona lhe confere uma profundidade dramática que não pode ser observada em nenhum dos outros personagens. Esta contradição é interessante porque é ela que estabelece o principal parâmetro de comparação entre as duas épocas retratadas no filme. Se na alvorada da humanidade o homem ainda é um ser em formação, incompleto, que precisa descobrir o mundo para descobrir a si mesmo, já em sua alvorada ele ainda é incompleto. Através do advento da inteligência artificial ele confere a outrem o direito de pensar e tomar as decisões por ele, decretando assim o seu próprio fim como indivíduo… Neste processo para reencontrar a si mesma a humanidade precisará redescobrir a sua gênese e só então voltar a se perguntar sobre a estranheza do mundo à sua volta.

“Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos – para nos esquecermos dele em seguida”. Friedrich Nietzsche

4 – Apocalypse Now (1979) | Francis Ford CoppolaApocalypse Now

Baseado na obra Heart of Darkness, de Joseph Conrad, Apocalypse Now conta a história do capitão Willard, um combatente no Vietnã que recebe uma missão especial e confidencial: encontrar e matar um homem no meio da selva vietnamita. O problema é que o homem é o coronel Walter Kurtz, um dos mais condecorados e respeitados oficiais do exército americano. O coronel parece ter enlouquecido e formado uma própria seita onde é tratado como Deus por seus seguidores. Willard e sua equipe partem em um barco ao encontro de Kurtz e de si mesmos, enquanto presenciam os horrores e a estupidez da guerra.

A dualidade do ser em Nietzsche:

Apocalypse Now é uma jornada psicologicamente devastadora e surreal. É um complexo estudo sobre a dualidade e o conflito existente em cada ser humano. Uma análise pungente e hipnotizante sobre o frágil cordão que divide o nosso lado racional e irracional.  É muito mais do que um filme sobre a estupidez da guerra. Assume a posição de uma profunda reflexão sobre o ser humano e seus limites.

“Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”. Friedrich Nietzsche

5 – O Cavalo de Turim (2011) | Béla Tarr, Ágnes Hranitzky

cavalo

O velho fazendeiro Ohlsdorfer (Janos Derzsi) e sua filha (Erika Bok) dividem um cotidiano dominado pela monotonia. A realidade dos dois é observada pela vista da janela e as mudanças são raras. Enquanto isso, o cavalo da família se recusa a comer e a andar.

A fuga da realidade em Nietzsche

O filme é uma inspiração do que teria ocorrido com um cavalo que fora salvo da tortura por Nietzsche durante uma viagem a Turim, na Itália.  A família descrita pela sinopse vive um quotidiano miserável, mas sem piedade nem reclamações. Todas as manhãs, a filha se levanta, se veste, vai ao poço, busca água, volta, cozinha duas batatas que ela e o pai comem com as mãos, um sentado em frente ao outro. Depois eles alimentam o cavalo, limpam o estábulo e voltam para casa. O Cavalo de Turim é destas obras-primas em seu formalismo e na beleza poética da miséria humana, além da ausência de conexão com a realidade.
Portal Raízes

Nietzsche – Versos na tarde – 13/02/2017

O andarilho

Nietzsche ¹
Um andarilho vai pela noite
A passos largos;
Só curvo vale e longo desdém
São seus encargos.

A noite é linda –
Mas ele avança e não se detém.
Aonde vai seu caminho ainda?
Nem sabe bem.

Um passarinho canta na noite:
“Ai, minha ave, que me fizeste!
Que meu sentido e pé retiveste,

E escorres mágoa de coração
Tão docemente no meu ouvido,
Que ainda paro e presto atenção?

– Por que me lanças teu chamariz?”-

A boa ave se cala e diz:
“Não, andarilho! Não é a ti, não,
Que chamo aqui
Com a canção –
Chamo uma fêmea de seu desdém –

Que importa isso, a ti também?
Sozinho, a noite não está linda
Que importa a ti?
Deves ainda
Seguir, andar,
E nunca, nunca, nunca parar!

Ficas ainda?
O que te fez minha flauta mansa,
Homem da andança?”

A boa ave se cala e pensa:
“O que lhe fez minha flauta mansa,
Que fica ainda?
O pobre, pobre homem da andança!”

¹ Friedrich Wilhelm Nietzsche
* Weimar, Alemanha – 15 de Outubro de 1844
+ Weimar, Alemanha – 25 de Agosto de 1900

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