A banalidade do mal; O “pensamento sem corrimão” de Hannah Arendt

Lá está ela, pensativa, de queixo apoiado na mão, cigarro aceso entre os dedos: Hannah Arendt (1906-1975), já não tão jovem, numa fotografia em preto-e-branco tirada de ângulo ligeiramente baixo. E, impressa por cima, a enigmática frase: “Nenhum ser humano tem o direito de obedecer.”

Em tempos de fake news e histerias de massa nas redes sociais, exposição em Berlim propõe a desobediência da filósofa teuto-alemã Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do século 20, como antídoto.

É longa a lista das controvérsias que Hannah Arendt desencadeou ou incentivou.

Com esse cartaz, com atraso forçado pelo coronavírus, o Museu Histórico Alemão (DHM) de Berlim convida a uma exposição sobre a grande pensadora teuto-americana do século 20. A mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt em 16 capítulos acessíveis, com fotos, documentos em áudio e filme, objetos de seu espólio pessoal e empréstimos internacionais.

A intenção é apresentar, de uma forma nova, pontos de cristalização da história do século 20. E a obra da filósofa de fato se presta muito bem a isso, pois ela escreveu sobre temas centrais da época, como antissemitismo, colonialismo, racismo, nacional-socialismo e stalinismo, com um gosto de julgar notavelmente rigoroso, refletindo tanto prazer quanto ousadia.

Sobre a banalidade do mal

É longa a lista das controvérsias que a intelectual de origem judaica desencadeou ou incentivou. A mais intensa foi, certamente, a sobre seu livro Eichmann em Jerusalém, a qual se espalhou por todo o mundo e também toma bastante espaço na mostra em Berlim.

Em 1961, ela participou como repórter do julgamento do ex-tenente-coronel da SS Adolf Eichmann, que fora responsável pela deportação de milhões de judeus para campos de concentração e extermínio. A reportagem sobre o processo foi publicada dois anos mais tarde pela revista The New Yorker e, como livro, com o subtítulo Um relato sobre a banalidade do mal.

Mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt com fotos, documentos em áudio e filme e objetos de seu espólio pessoal

Lá, Arendt descreve o criminoso nazista como um tecnocrata sem convicções, que se apresentava como mero instrumento de seus superiores. A brutalidade do mal banal consiste em sua falta de reflexão e responsabilidade, observava ela, e a obediência “incondicional” repetidamente evocada por Eichmann é, em princípio, a expressão dessa atitude mental.

O estopim da controvérsia em torno do livro de Arendt não foi apenas a questão da “banalidade”, já lançada no título, mas também a postura dos “conselhos judaicos”. Será que os participantes dessas instituições foram culpados de colaboração?

“Deixamos à disposição do espectador os veredictos de Hannah Arendt sobre temas do século 20”, explica a curadora da exposição, Monika Boll. “Não porque acreditemos que ela sempre estivesse certa, de forma alguma. Mas, ao também transferir e delegar aos espectadores esse gosto de julgar, queremos que também eles formem seu julgamento.”

Uma decisão bem no espírito de Arendt, para quem julgar era uma atividade eminentemente política. Segundo Boll, para a filósofa, o nazismo não significou apenas o colapso de todos os valores morais, mas também o colapso da capacidade de julgar. Porque o julgamento fora cooptado pelo sistema, porque se dizia “nós”, e não “eu”. Dessa maneira, porém, também a questão da responsabilidade pessoal ficava delegada a instâncias impessoais.

“Pensamento sem corrimão”

Arendt nasceu próximo a Hannover em 1906, filha de judeus laicos, e cresceu nos meios cultos de Königsberg (hoje Kaliningrado, Rússia). Em 1924, começou a estudar Filosofia, tendo Teologia como cadeira secundária, primeiro em Marburg, mais tarde em Freiburg e Heidelberg. Por intermediação do filósofo Martin Heidegger, doutorou-se em 1928 sob a orientação de Karl Jaspers.

Escrevia para o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung e se ocupou de Rahel Varnhagen von Ense, uma intelectual judia do Romantismo, cuja história era considerada um exemplo de assimilação cultural bem-sucedida. Arendt, em contrapartida, via com ceticismo a ideia da assimilação em nome da igualdade de todos os seres humanos, a qual considerava politicamente ingênua. E ela causou escândalo com essa posição.

Antes de muitos outros observadores, já em 1931 Arendt partia do princípio de que os nazistas assumiriam o poder. E, ao contrário da maioria dos alemães, já em 1933 defendia a opinião de que o regime devia ser combatido ativamente.

Naquele mesmo ano, emigrou para a França, trabalhou em organizações sionistas e como pesquisadora em Paris até fugir em 1941, com o marido e a mãe, para Nova York, após passar por Lisboa. E ela se transformou numa apaixonada cidadão americana.

Coronavírus atrasou abertura da exposição no Museu Histórico de Berlim

Por toda a vida, permaneceu fiel a si mesma, sem nunca seguir uma determinada escola, tradição ou ideologia. Seu pensamento é difícil de classificar, e por isso tão interessante, comenta a curadora Boll: “Pode-se encontrar repetidamente nesse pensamento tanto componentes liberais como conservadores e de esquerda, de forma que ela é bem difícil de situar numa ala política.”

A própria Hannah Arendt definia essa atitude como “pensamento sem corrimão”. Além disso, era uma excelente escritora, e tudo isso a torna tão viva, “por isso mesmo dá tanto prazer se ocupar dela”, elogia Boll. De fato: quer se trate de suas reportagens sobre a Alemanha do pós-guerra, ou suas declarações sobre a questão dos refugiados, o racismo nos Estados Unidos, o movimento estudantil internacional, ela sempre consegue surpreender.

Na mostra no DHM de Berlim, a venerável filósofa continua estimulando os visitantes a questionarem seus próprios pontos de vista, e provando a importância de ter uma opinião própria fundamentada. A curadora Boll dá uma dimensão atual à questão: justamente em tempos de fake news e histeria de massa produzida pelas redes sociais, Hannah Arendt é um maravilhoso antídoto.

Escultura em memória das vítimas no
Campo de concentração de Dachau

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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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“Nazismo de esquerda”: o absurdo virou discurso oficial em Brasília

Como chanceler, Ernesto Araújo repete tese, propagada nas mídias sociais, considerada desonesta e sem sentido por acadêmicos e diplomatas. Historiadores europeus se impressionam: “Uma asneira e um disparate”.Itamaraty,Ernesto Araújo,Diplomacia,Brasil,Idade Média

Uma recente declaração do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sugere que uma tese tida como absurda e desonesta por acadêmicos e diplomatas europeus se incorporou ao discurso oficial do governo Jair Bolsonaro: a de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

A declaração, dada em longa entrevista a um canal simpático à extrema direita no Youtube, repete um discurso que esteve em alta nas mídias sociais brasileiras durante as eleições, mas que jamais foi levada a sério por acadêmicos na Alemanha. A posição de Araújo impressionou historiadores.

Na entrevista, questionado sobre a diferença entre o nacionalismo que defende e o pregado pelos regimes autoritários passados da Alemanha, Itália e Rússia, o ministro respondeu que o sentimento nacional teria sido distorcido por grupos que o utilizaram para chegar ao poder.

“Uma coisa que eu falo muito é dessa tendência da esquerda de pegar uma coisa boa, sequestrar, perverter e transformar numa coisa ruim. É mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda”, destacou Araújo, na entrevista divulgada em março pelo “Brasil Paralelo”, grupo que propaga a linha de pensamento do ideólogo Olavo de Carvalho.

Foi a primeira vez que Araújo, como ministro, classificou o nazismo como um suposto movimento de esquerda – ele já o fizera em um texto publicado em 2017 em seu blog. A teoria vai contra o amplo consenso acadêmico e político sobre o tema na Alemanha, onde a disputa sobre a classificação da ideologia nazista é inexistente entre historiadores renomados.

“Quando um ministro do Exterior faz esse tipo de afirmação, considero altamente problemático diplomaticamente e um absurdo cientificamente”, afirma a historiadora Stefanie Schüler-Springorum, diretora do Centro para Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim.

O historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, deixa claro que os nazistas jamais seguiram políticas de esquerda. “Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira”, afirma.

Segundo Kansteiner, tanto o entrevistador quanto o ministro jogam com a palavra totalitarismo e, durante sua argumentação, Araújo tenta com ela traçar uma fronteira entre o nacionalismo, que seria algo bom, e o socialismo, que seria algo ruim. “Historicamente isso é um disparate”, ressalta o especialista, que também é autor do livro In pursuit of German memory (Em busca da memória alemã, em tradução livre).

Peter Carrier, coordenador de um projeto de pesquisa da Unesco sobre o ensino do Holocausto, promovido pelo Instituto alemão Georg Eckert, acrescenta que o ministro comete erros ao fazer referências à teoria do totalitarismo.

“Se Araújo tivesse lido precisamente os teóricos do totalitarismo e fosse fiel a suas teses, ele deveria condenar tanto a direita quanto a esquerda, pois o totalitarismo implica que regimes autoritários de direita e de esquerda são igualmente ruins”, afirma.

A estratégia de tentar classificar o nazismo como uma ideologia de esquerda não é nova e chegou a ocorrer no passado em vários países. Mas nunca chegou a virar um debate sério entre especialistas.

Na Alemanha, durante as pesquisas e debates sobre o Terceiro Reich, iniciadas nos anos 1960, chegou a haver tentativas de classificar esse regime como um movimento socialista, no entanto, há décadas não restam mais dúvidas, nos âmbitos acadêmico, social e político, sobre a natureza de extrema direita do nazismo.

Segundo Schüler-Springorum, essa estratégia era uma posição clássica da extrema direita após a Segunda Guerra Mundial numa tentativa de proteger o “verdadeiro nacionalismo” e se distanciar do nazismo: “Na política e ciência, porém, está mais do que consolidado que o nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos, além de dividir pessoas em grupos e hierarquizá-las”.

O debate sobre o nazismo como uma ideologia de esquerda foi levantado no Brasil a partir dos anos 2000 por Olavo de Carvalho. A visão rapidamente se espalhou por páginas de direita brasileiras, ganhando adesão também entre contas de viés liberal que adotaram posições conservadoras. Entre os adeptos está o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

No país, os atuais defensores da visão “nazismo de esquerda” costumam se basear no nome oficial da agremiação nazista, chamada de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. A presença da palavra “socialista” revelaria a linha ideológica do regime. Historiadores internacionais de renome, porém, destacam que essa nomenclatura e a inclusão de políticas tidas como de esquerda no programa de governo apresentado antes das eleições de 1933 não passaram de uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora.

“Na prática, isso não teve significado algum. O partido nazista se associou rapidamente e de maneira efetiva com as forças de direita da República de Weimar e, depois da tomada do poder, se juntou com as forças de direita da sociedade. Hitler nunca seguiu uma política socialista”, destaca Kansteiner, lembrando o episódio que ficou conhecido como Noite das Facas Longas, em junho de 1934, quando integrantes de uma ala mais à esquerda do NSDAP foram mortos.

Apesar de circular há algum tempo entre grupos de direita, essa distorção histórica chamou a atenção na Alemanha apenas no ano passado, quando um vídeo publicado pela embaixada alemã em Brasília no Facebook sobre como a sociedade alemã lida com o nazismo e o Holocausto virou alvo de ataques de militantes direitistas brasileiros.

Em entrevista à DW, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, afirmou na época que a discussão sobre o “nazismo de esquerda” não tinha uma base honesta.

“Há muitas pessoas que não sabem muito sobre o nazismo. E nós queremos informar. Uma pessoa informada vai fazer de tudo para evitar uma volta do nazismo. Mas parece que há outros que têm um interesse político de reinterpretar o nazismo para encaixá-lo de acordo com seus objetivos imediatos. Esses grupos políticos fazem tentativas desonestas de mover a responsabilidade do Holocausto para o colo de outros”, disse então Witschel.

Hitler,Fascismo,Nazismo,Ideologias,Guerra,Blog do Mesquita

Hitler: o fascismo por ele mesmo

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Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: ‘Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo’

Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.

George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.

Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.

“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”

Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.

Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.

O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.

Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.

“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”

“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”

O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.

“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”

Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”

“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”

“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”

“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”

Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.

“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.

“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.

“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”

“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”

Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.

No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.

“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”

“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”

“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.

“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.

“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”

Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.

Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.

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Biografia de Hitler lembra como uma democracia vira ditadura

Talento de ator, força como orador de massa, esperteza política são algumas das características pessoais que explicam o “caso Hitler”, diz biógrafo. Mas não eximem os alemães da culpa pelo Holocausto.

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Características pessoais de Adolf Hitler foram essenciais para sua ascensão e queda

A cultura alemã da memória está sob ataque dos populistas de direita. Eles querem o fim da abordagem autocrítica da era nacional-socialista, declarando-a um mero interlúdio numa história, de resto, gloriosa. Exemplo disso foi a declaração do presidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, minimizando Adolf Hitler e os nazistas como um “cocô de passarinho em nossa história mais do que milenar”.

Para o historiador e jornalista Volker Ullrich, declarações como essa são perigosas do ponto de vista histórico-político: “Quem pratica esse tipo de manipulação eufemística da história deve saber que está balançando os fundamentos da república”, condena Ullrich, que acaba de publicar o segundo e último volume de sua biografia de Hitler.

Ele apresenta o “caso Hitler” como um exemplo cautelar, demonstrativo da rapidez com que a democracia pode ser desmontada e de quão fina é a camada separando a civilização da barbárie.

Já em seu primeiro volume, lançado em 2013, sobre os anos anteriores à eclosão da Segunda Guerra Mundial, Ullrich colocara a pessoa do ditador no centro de sua análise – na contramão da tendência predominante na pesquisa sobre o nazismo, há anos concentrada de forma crescente nas condições estruturais que levaram à ascensão e domínio nacional-socialista.

O historiador não deixa essas questões de fora, mas ao mesmo tempo enfatiza as características pessoais de Hitler que fizeram dele um “Führer” tão atraente para tantos alemães: seu talento de ator, sua força como orador de massa e organizador, assim como a esperteza em adaptar-se rapidamente a mudanças na situação política.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioNazistas tomam o poder no Reichstag de Berlim, em 30/01/1933

Hitler como pessoa

Nas 894 páginas do segundo volume, Adolf Hitler – Die Jahre des Untergangs 1939-1945 (literalmente: Os anos da queda), o biógrafo prossegue de forma consequente, sobretudo na avaliação do papel do líder nazista como supremo senhor da guerra e no Holocausto.

Sua tese é que se, por um lado, o assassinato dos judeus europeus não teria sido possível sem milhares de ajudantes, ele tampouco o seria sem a pessoa do ditador nascido na Áustria. Já na radicalização da política para com os judeus até 1939, ele detinha o controle sobre a sequência das ações, como última instância – um padrão que se repetiu nos tempos de guerra.

Ullrich mostra que o genocídio não foi precedido apenas pela declaração geral de intenção de Hitler pelo extermínio sistemático dos judeus europeus: em diversos casos foi necessária sua aprovação pessoal – fosse para obrigar os semitas a portar a estrela de Davi ou para deportá-los do território do Reich.

Foi no papel de supremo senhor da guerra que vieram à tona os déficits pessoais do ditador, acredita Ullrich. Entre eles, não só a propensão a subestimar o adversário, como a muito mais grave tendência de apostar tudo numa carta só.

Hitler reagiu com acessos de ira e ódio às derrotas no front oriental, achando que sabia tudo melhor e punindo também pessoalmente os membros do comando supremo da Wehrmacht. Contrariando o costume até então, nas reuniões estratégicas ele não dava mais a mão a nenhum dos presentes, e durante um tempo deixou de participar do almoço e jantar coletivos.

O autonomeado “Feldherr” (comandante de campo) possivelmente se envergonhava diante dos militares de carreira, supõe Ullrich: “Ele permanecia longe do alto escalão não só por seu ressentimento para com os militares, mas também por não mais poder se apresentar diante deles na pose superior de comandante-gênio.”

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioAdolf Hitler e outros oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nazista em 1936
Oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nacional-Socialista em 1936. A dír., Hilter

Sem desculpas para os alemães

Nascido em 1943, o historiador e jornalista Volker Ullrich dirigiu de 1990 a 2009 a seção “Livro político” no semanário hamburguês Die Zeit. Por sua atuação como publicista recebeu, entre outros, o Prêmio Alfred Kerr de 1992.

Para sua apresentação sobre Hitler, erudita e de leitura fluente, o autor pesquisou numerosos documentos de arquivo. Com essa avaliação pessoal, contudo, ele não deixa nenhuma brecha para desculpas – nem para os generais, que depois de 1945 tentaram minimizar a própria participação na catástrofe moral e militar, apontando para Hitler.

E tampouco para os alemães, em si, que após o Holocausto pretenderam de nada saber: “Desse modo, procede que apenas alguns poucos alemães sabiam tudo sobre a ‘solução final’, mas também eram muito poucos os que não sabiam de nada.”Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioDW

E se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial?

AmazonNa série da Amazon, avanço atômico nazista foi mais rápido que o americano

Essa especulação voltou com força total recentemente graças ao lançamento da série americana The Man in he High Castle, em que os Estados Unidos e os aliados perdem a Segunda Guerra Mundial para Alemanha e Japão.

Mas a prática de imaginar cenários é milenar: ainda no Império Romano, o historiador Tito Lívio fez, em sua coleção de livros sobre a fundação da cidade, conjecturas sobre o que teria acontecido se as conquistas de Alexandre, o Grande, tivessem expandido seu império para o oeste em vez do leste.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Milenar

No século 19, o escritor Nathaniel Hawthorne escreveu o conto P’s Correspondence, em que reimagina o ano de 1845 sem a morte de uma série de políticos e outras personalidades.

Este é também o mote para A Felicidade Não Se Compra, um dos filmes de Natal mais famosos da cultura anglófona, em que o personagem George Bailey vê um mundo alternativo em que ele jamais nasceu.

AmazonA famosa Times Square, em Nova York, aparece bem diferente em uma realidade alternativa – Image copyright Amazon
Mas The Man in the High Castle adota tons mais ousados. Exibido apenas em serviço de streaming pela Amazon Video, a série é baseada em um livro de Phillip K Dick, o venerado autor de ficção científica também conhecido por Blade Runner – O Caçador de Androides.

Na série, os são EUA “loteados” entre alemães e japoneses. Já no primeiro episódio, que se passa no ano de 1962, um dos personagens principais é visto caminhando por uma Nova York repleta de símbolos nazistas, incluindo uma versão da bandeira americana adornada por uma suástica.

Em outra, a Estátua da Liberdade está vestida como se fosse comparecer a um dos notórios comícios de Adolf Hitler – e “faz” a saudação com o braço direito erguido. As imagens causaram controvérsia e o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, ordenou a remoção da anúncios da série dos trens do metrô.

AmazonO uso da Estátua da Liberdade na divulgação da série criou polêmica nos EUAImage copyright Amazon

No universo de Dick, os cientistas alemães venceram a corrida nuclear contra os americanos, e as tropas de Hitler vencem a guerra após detonar um bomba atômica sobre Washington. A principal parte do território americano fica com Berlim enquanto o Japão assume o controle da Costa Oeste, incluindo a Califórnia.

Mas a trama gira em torno de um misterioso filme no qual imagens do mundo que conhecemos, em que os aliados venceram, são traficadas a pedido de um misterioso cineasta.

O mistério está em como essa realidade alternativa é possível e a razão pela qual autoridades nazistas e japonesas reprimem com extrema violência a circulação do filme, além de tentar a todo custo descobrir a identidade do homem que produziu as imagens.

Há também interessantes trama políticas envolvendo a sucessão de Adolf Hitler, que nessa realidade alternativa ainda está vivo e comandando suas tropas. E o crescimento de tensões políticas entre Berlim e Tóquio.

As reações no mundo real mostram o verdadeiro objetivo de histórias com uma linha temporal alternativa: elas são reflexo de nossos medos e de temores que surgem de ideias sobre outros rumos que a vida teria tomado.

Alerta contra a intolerância

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, ocorre algo contrário aos direitos humanos e aos preceitos constitucionais.

Com base na Lei da Transparência, sindicatos e uma associação de apoio à causa palestina exigiram da Reitoria que indicasse projetos ligados à defesa militar supostamente estabelecidos com o Estado de Israel.

Roberto Romano¹

Mas no mesmo átimo foi exigida a identificação de mestres e discentes israelitas (Memorando Circular 02/2015, Pró-Reitoria de Pós-Graduação). O requerimento proclama a “covardia” israelense e tem como base falas e atos da presidente Dilma Rousseff, que, diante do “massacre” (os próprios autores põem o termo entre aspas) dos palestinos, “chamou nosso embaixador naquele país, para consultas”.

Fosse o desejo conhecer supostos ou reais convênios bélicos entre a universidade e o Estado de Israel, o escrito enviado ao reitor limitar-se-ia aos projetos, documentos e dados. Mas o texto está embebido em ódio ideológico e conduziu o pró-reitor ao indigitamento de israelenses. Ao ler a ordem reitoral recordamos a estrela de Davi nas lapelas dos “perniciosos judeus covardes” e os massacres de hebreus aos milhões na 2.ª Guerra Mundial.

Aliás, o documento da Pró-Reitoria realiza em pequena escala o veiculado pela propaganda odienta da Rádio Islam: a nomeação dos judeus no Brasil (http://www.radioislam.org/islam/portugues/poder/lista_judeus_brasil.htm). O Ministério Público tem o dever de interpelar aquela estação de rádio, pois ela declaradamente pratica o ódio racial, com injúrias e difamação de judeus. [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Dado o teor do requerimento, prudente seria o gabinete reitoral devolvê-lo aos signatários, exigir a retirada do viés panfletário e do grave ataque aos direitos humanos. Um texto sem aquelas marcas seria de análise possível pela autoridade acadêmica, se redigido no respeito à lei. Da maneira como agiu, a Reitoria, infelizmente, avalizou intolerantes que, em nome de causas, fazem das normas legais letra morta.

Como a vida ética não foi totalmente corroída, instituições condenaram os militantes e as autoridades universitárias que cederam ao ditado das seitas. Em nota oficial o Ministério da Educação advertiu a Universidade de Santa Maria, verberando a discriminação empreendida. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência levantou-se contra o absurdo. Parte da imprensa exigiu explicações dos responsáveis.

“O ventre imundo de onde surgiu a besta ainda é fértil.” E como, senhor Brecht! A união histórica de setores árabes com o nazismo é conhecida. O elo entre sectários de hoje e o discurso do neonazismo é patente (Gilbert Achcar, The Arabs and the Holocaust). Tais sintaxes e semânticas foram mantidas após a 2.ª Guerra para garantir a razão de Estado nas potências mundiais. Quem deseja conhecer os bastidores da infâmia pode ler dois livros importantes: de John Hawkins, The Nazy Hidra in America, e de Christopher Simpson, Blowback, the First Full Account of America’s Recruitment of Nazis. O sucedido nos Estados Unidos foi replicado na América do Sul, basta recordar o caso Mengele. Longo tempo de pregação antissemita intoxicou mentes brasileiras. Os frutos surgem agora, inclusive em grupos cristãos.

Antes da 2.ª Guerra muitos norte-americanos acreditaram em Hitler, e não nos judeus. O jornal The Christian Science Monitor, por exemplo, atacou os “que difundiam mentiras sobre a Alemanha”. No Brasil, a revista A Ordem, em editorial (Os horizontes clareiam, 1934) afirma que a caça aos judeus era “mistificação” e “conjura” contra Hitler para “impedir que o nacional-socialismo se mantivesse no poder”. Herdeiros de Gustavo Barroso e comparsas continuaram a militância, à socapa ou abertamente, contra judeus. As fontes da memória nacional estão envenenadas.

Num ambiente prenhe de antissemitismo, a imprudência da Universidade Federal de Santa Maria salta aos olhos. Se os reitores não partilham, como acredito, os dogmas dos que assinaram a petição, era seu dever exigir dos autores o respeito aos direitos constitucionais. Ao aceitar as fórmulas dos peticionários, com base nos atos da presidente Dilma Rousseff, eles abriram um precedente que pode voltar-se amanhã contra os próprios defensores da causa palestina. Se atos de terror ocorrerem no Brasil, nomes serão demandados aos reitores. Como os de Santa Maria autorizaram a devassa contra os israelenses, só lhes restará abrir nomes de reais ou supostos terroristas árabes. Eles serão magníficos auxiliares do policiamento territorial. E os defensores da causa palestina receberão o mesmo remédio que hoje tentam aplicar nos judeus.

Acima dos Poderes está a Constituição. Para definir o Estado brasileiro, ela o proclama “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. E também: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Exigir a Reitoria universitária a indicação de nacionais ou estrangeiros é operar em conformidade com o não direito, contra a nossa Lei Suprema. Brasileiros, judeus, palestinos ou pessoas de qualquer outra origem não podem ser alvo de indigitamento, privado ou público. Esperemos que a crise ensine aos militantes mais respeito ante outros seres humanos. E aos administradores dos câmpus, prudência no trato de questões delicadas, pois elas tocam em feridas dolorosas na consciência da humanidade.

¹Roberto Romano é professor da UNICAMP e autor de “Razão de Estado e de Outros Estados” (Perspectiva)
Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

Arte – Pintura – Sofia Gandarias

Sofia Gandarias – Exposição “Kafka o Visionário”
Haus am Kleistpark de Berlim
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Texto de José Saramago para o catálogo da exposição

À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”.

É evidente que Deus não leu Kafka e, pelos vistos, Ratzinger também não. Não leram nem sequer Primo Levi, que está mais perto do nosso tempo e nunca se serviu de alegorias para descrever o horror.

Se se me permite a ousadia, eu aconselharia ao papa que visitasse, com tempo e olhos de ver, esta exposição de Sofía, que escutasse com atenção as explicações que lhe fossem dadas por uma pintora que, sabendo muito da arte que cultiva, muito sabe também do mundo e da vida que nele temos feito, os que crêem e os que não crêem, os que esperam e os que desesperam, e os outros, os que fizeram Auschwitz e os que perguntam onde estava Deus.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Melhor seria que nos perguntássemos onde estamos nós, que doença incurável é esta que não nos deixa inventar uma vida diferente, com deuses, se quiserem, mas sem nenhuma obrigação de crer neles. A única e autêntica liberdade do ser humano é a do espírito, de um espírito não contaminado por crenças irracionais e por superstições talvez poéticas em algum caso, mas que deformam a percepção da realidade e deveriam ofender a razão mais elementar.

Acompanho o trabalho de Sofía Gandarias desde há anos. Assombra-me a sua capacidade de trabalho, a força da sua vocação, a maestria com que transfere para a tela as visões do seu mundo interior, a relação quase orgânica que mantém com a cor e o desenho.

Sofía Gandarias é, toda ela, memória.

Memória de si mesma, como qualquer, em primeiro lugar, mas também memória do que viveu e do que aprendeu, memória de tudo o que interiorizou como algo próprio, memória de Kafka, de Primo Levi, de Roa Bastos, de Borges, de Rilke, de Brecht, de Hanna Arendt, de quantos, para tudo dizer numa palavra, se debruçaram do poço da alma humana e sentiram a vertigem.