Versos na tarde – Severo Sarduy – 11/03/2014

Giorgio Morandi – Itália 1890 – 1964
Natureza Morta – óleo s/tela – 1941 – 34,5 x 49 cm

Poesia do cubano Severo Sarduy (Cuba 1937-1993), sobre uma pintura de Giorgio Morandi

Uma lâmpada. Um copo. Uma garrafa.
Sem outra utilidade ou pertinência
que estar ali, que dar à consciência
um casual pretexto, mas não um traço humano
que ora inflama, abafa a luz ou que ali beba.
Em tudo a ausência:
paredes que, caiadas, dão ciência
que ali ninguém repousa ou se estafa.

Somente é familiar a luz acesa
que põe sobre a toalha posta à mesa
a sombra que se alarga: o dia quedo
do tempo o passo segue em sua vaga
irrealidade. A tarde já se apaga.
Abraçam-se os objetos: sentem medo.
tradução de Glauco Mattoso


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