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Por que cidades precisam mais do que nunca de árvores

Megacidades como Paris e Londres têm projetos ambiciosos para se tornarem mais verdes. Algo indispensável, segundo ecologistas, para frear os efeitos das mudanças climáticas nas cada vez mais populosas áreas urbanas.    

Pessoas caminham em parque de ParisParis construirá quatro florestas urbanas dentro da cidade ao longo de 2020

Não muito tempo atrás, muita gente não tinha certeza se as árvores deveriam ter um lugar nas cidades. Pedestres, carros, casas e prédios compunham áreas urbanas – não havia muito espaço para a natureza.

Mas as árvores agora têm um lugar fundamental em muitas grandes cidades do mundo, diz Sonja Dümpelmann, historiadora da paisagem da Universidade da Pensilvânia – mesmo que, na maioria delas, ainda estejam lutando por espaço.

Para colher os benefícios das paisagens urbanas, ecologistas dizem que é fundamental que as árvores sejam vistas como mais do que uma mera adição estética às cidades. Isso é especialmente verdade agora que metade da população mundial vive em espaços urbanos – até 2050, estima-se que outras 2,5 bilhões de pessoas se mudarão para cidades.

Árvores são chave quando se trata de regular os microclimas, filtrando a poluição do ar, fornecendo sombra, absorvendo CO2, ajudando a evitar inundações repentinas. Além disso, atuam como um antídoto importante para o efeito de ilha de calor urbana, que torna as cidades muito mais quentes do que as áreas rurais vizinhas.

“As árvores podem fazer uma enorme diferença na temperatura de uma cidade”, diz Tobi Morakinyo, climatologista urbano que pesquisa o efeito de resfriamento de árvores em Akure, sudoeste da Nigéria. Segundo ele, o uso de árvores para gerar sombra em edifícios pode resfriá-los em até 5°C.

Em cidades quentes da África subsaariana como Akure, onde as temperaturas médias máximas de verão podem chegar a 38°C, esse efeito de resfriamento é uma ferramenta importante. Segundo Morakinyo, as cidades podem empregar árvores tanto contra o estresse térmico quanto contra os custos de resfriamento.

“Além dos serviços ecológicos que as árvores urbanas proporcionam, há também as qualidades que não podemos colocar em valor monetário”, acrescenta Cris Brack, ecologista florestal da Universidade Nacional Australiana e diretor do Arboretum Nacional em Camberra. “São a biodiversidade, a estética e nossa necessidade visceral de experimentar a natureza”, completa Brack, referindo-se ao conceito de ‘biofilia’ – a ideia de que os seres humanos têm um desejo inato de se conectar com a natureza.

Evidências sugerem que habitantes de regiões com mais árvores experimentam níveis mais baixos de estresse e doenças mentais.

Luta contra o cimento

A necessidade de árvores nas cidades é cada vez maior, mas elas frequentemente lutam contra ambientes urbanos opressivos. Abaixo do solo suas raízes podem ser sufocadas por tubos de água, estradas e estacionamentos subterrâneos, e acima pela poluição, linhas de energia e tráfego. Árvores também enfrentam danos causados por carros, condições climáticas cada vez mais extremas e remoções para dar lugar a canteiros de obras.

Talvez o desafio moderno mais duro para as árvores da cidade, diz Somidh Saha, ecologista florestal urbana do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, seja a estiagem. Após a onda de calor sem precedentes na Europa em 2018, um estudo coassinado por Saha constatou que 30% das árvores plantadas em Karlsruhe, no sudoeste da Alemanha, nos quatro anos anteriores haviam morrido – tanto direta quanto indiretamente por falta de água.

“Sem água suficiente, as árvores se tornam fracas e isso as torna vulneráveis a doenças”, diz Saha. Ao mesmo tempo, o declínio das populações urbanas de aves e mamíferos arborícolas, como morcegos, deixa as populações de insetos sem controle, e as árvores locais mais vulneráveis.

Projetos em megacidades

Projetos ecológicos ambiciosos surgiram em várias megacidades ao redor do mundo nos últimos anos – Nova York plantou um milhão de árvores entre 2007 e 2015; o prefeito de Londres, Sadiq Khan, espera tornar verde mais da metade da capital até 2050; Paris, por sua vez, anunciou que construirá quatro florestas urbanas ao longo de 2020.

Mas fora da Europa, em lugares como a Índia e a Nigéria, onde faltam recursos e vontade política para tornar o verde urbano uma prioridade, as árvores nas cidades são muito mais escassas.

Como a mudança climática traz temperaturas mais quentes e chuvas mais imprevisíveis, as cidades estão exigindo um novo tipo de resiliência das árvores urbanas. Para muitas cidades do mundo, os ecologistas dizem que isso significa plantar espécies mais exóticas.

Pessoas caminham no Central Park, em Nova YorkNova York plantou um milhão de árvores em cerca de uma década

A ideia, porém, encontra bastante resistência. Os ecologistas Brack e Saha argumentam, no entanto, que espécies alternativas geralmente se adaptam melhor ao ambiente artificial de uma cidade – especialmente diante do aumento das ondas de calor. O bordo de três dentes, nativo da China, Coreia e Japão, é uma espécie que poderia aparecer em maior número em outras partes do mundo à medida que a temperatura global aumenta.

Há também uma distinção importante a ser feita entre árvores “exóticas”, o que significa apenas que não são locais, e as “invasivas”, que são prejudiciais, espalhando-se muito rapidamente e dominando o meio ambiente.

Quanto à vida selvagem local, estudos contínuos estão sendo realizados em lugares como Canberra, onde quase todas as espécies de árvores da cidade são exóticas. Ali, os pássaros comem com prazer frutas de plantas não nativas, e os mamíferos encontram casas onde quer que haja um buraco apropriado.

Empenho cidadão

Uma solução para preservar as árvores urbanas que tem crescido em popularidade nos últimos anos é o envolvimento dos moradores. O programa de poda de Nova York permite que os habitantes da cidade tenham aulas para se tornarem cuidadores oficiais das árvores, e Berlim – um lugar que normalmente tem excluído os cidadãos de cuidar da flora urbana – está agora permitindo que os residentes solicitem licenças para manter canteiros e propôs que eles reguem árvores no verão.

O envolvimento dos cidadãos tem seus prós e contras, diz Dümpelmann, e estes tipos de programas podem ou não ser eficazes dependendo da cultura local. Mas até mesmo regar árvores sozinho “demonstrou ser um esforço de manutenção realmente relevante”, comenta.

Embora o plantio de árvores em espaços urbanos seja uma forma eficaz e bastante eficiente de adaptação às mudanças climáticas, Dümpelmann enfatiza que não é uma solução holística. “É algo em que devemos trabalhar ao mesmo tempo em que abordamos as causas fundamentais da mudança climática”, diz.

Além de usar as árvores como ferramenta de geoengenharia, ecologistas urbanos ressaltam que mais árvores nas cidades poderiam mudar as perspectivas da vida urbana e dar às pessoas uma maior compreensão de como valorizar a natureza como parte de uma cidade sustentável e habitável – não separada dela.

Isso significa ver as árvores como seres vivos, em crescimento, diz Brack, não paradas no tempo, ou imunes aos estresses da vida em ambientes urbanos.

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Desmatamento na Amazônia; Exército sabia dos pontos de maior risco de devastação da Amazônia, mas falhou no combate

Foto João Laet/AFP
Técnicos do Ibama, sob anonimato, dizem que comando erra ao usar ferramenta inédita do INPE. Defesa rebate.

Gado pasta em frente a uma área de queimada em Novo Progresso, no Pará, no final de 2019. Até hoje a região é uma das mais críticas de devastação da floresta

A operação de grandes proporções começou em maio. Sob a batuta do vice-presidente e general da reserva Hamilton Mourão, 3.815 militares, 110 veículos terrestres, 20 embarcações e 12 aeronaves foram despachados para a Amazônia. Com o objetivo de prevenir e reprimir delitos ambientais antes do grande período tradicional de queimadas, a ofensiva, batizada de Operação Verde Brasil 2, visava também ser uma resposta aos críticos que acusam o Governo Bolsonaro de negligenciar e, no limite, incentivar de maneira tácita, a destruição da selva.

Para além do contingente e dos veículos, os militares que comandavam a ação estavam munidos de dado estratégico e inédito: tinham um mapa das cinco áreas críticas que concentraram quase 45% do desmatamento total da floresta amazônica em 2020, um traçado feito com o auxílio de imagens de quatro satélites, tudo disponibilizado desde fevereiro pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A iniciativa, elaborada em parceria com o Ibama, foi batizada de Deter-Intenso: a cada 24 horas é gerada uma imagem com definição de 10 metros quadrados mesmo com a presença de nuvens, o que permite avaliar a evolução dos focos de desmatamento e queimadas de forma sem precedentes. Uma ação efetiva de fiscalização nestes cinco pontos, cuja área representa 9% da Amazônia Legal, se traduziria em mais floresta em pé. Não foi o que ocorreu.

Governo Bolsonaro sonha em driblar pressões ambientais

Mesmo com presença de militares, desmatamento na Amazônia cresce em junho e é o maior em 5 anos.

O desmatamento e as queimadas registraram recorde histórico em junho. Em julho, nova alta de 28%, com 6.803 focos de incêndio ante 5.318 em 2019. Além disso, houve aumento de 25% no desmatamento acumulado do semestre em comparação com o mesmo período de 2019: os alertas feitos a partir das imagens de satélite indicam devastação em 3.069,57 km², contra 2.302,1 km² no ano anterior. Para quatro fiscais do Ibama envolvidos direta ou indiretamente com a Operação Verde Brasil 2 —todos tiveram a identidade preservada para evitar retaliações, uma vez que estão subordinados ao Exército—, há razões claras para o descompasso entre a precisão da ferramenta nova e os resultados obtidos: os militares falharam no desenho e na execução das ações.

Os relatos apontam para a falta de efetividade dos militares na escolha dos alvos. Ainda que atuem dentro da área delimitada pelos pontos críticos (hotspots) do novo sistema de monitoramento do Inpe-Ibama, o comando está, segundo os fiscais, priorizando ações que não atacam diretamente focos de desmatamento e queimadas ativos, como por exemplo bloqueios em rodovias e apreensão de toras já derrubadas. Os garimpos ilegais, grandes vilões ambientais, também são poupados. Os servidores do Ibama apontam também para a falta de experiência do Exército na fiscalização. Criticam o foco em ações de patrulhamento e apreensões de madeira que não são efetivos para a preservação da Amazônia.

Indagado sobre o aumento no desmatamento, o Ministério da Defesa informou em nota que a operação “já contabiliza números expressivos”. “Foram realizadas 16.104 inspeções, patrulhas, vistorias e revistas, e a inutilização de 107 equipamentos como motores de garimpo, balsas, tratores, escavadeiras, veículos, entre outros (…)”, diz o texto. A nota também celebra 345 embarcações e 174 veículos apreendidos, 372 quilos de drogas e 28.000 metros cúbicos de madeira. “Foram ainda embargados 33.012 hectares e realizadas 153 prisões”, continua a pasta.

Áreas críticas monitoradas pelo Deter-Intenso

Estas áreas são responsáveis por quase 50% do desmatamento da Amazônia

Apesar do tom otimista da nota da Defesa, o próprio vice-presidente afirma que o desmatamento da Amazônia estava “além daquilo que pode ser considerado como aceitável”. “A gente não nega que houve desmatamento além daquilo que pode ser considerado como aceitável, ou seja, dentro dos 20% de cada propriedade rural e fora das unidades de conservação e terras indígenas”, afirmou no dia 13 de junho, após a divulgação dos dados do Inpe.

Limitação das ações

Sob o comando dos militares, os fiscais do Ibama que também integram a Verde Brasil 2 reclamam que tinham pouca margem de manobra para agir, mesmo de posse das informações precisas do sistema Deter-Intenso e uma lista de hotspots. “Nós do Ibama sabíamos quais eram as áreas, os hotspots, e até fomos direcionados para alguns. Mas como a coordenação era do Exército, a gente propunha os alvos e eles que tinham que aprovar. O que observei: os garimpos ficaram de fora sempre, na hora que submetemos os alvos, todos eles foram cortados”, conta um fiscal sob condição de anonimato.

De acordo com esse fiscal, essa resistência do comando da Verde Brasil 2 a atacar focos de mineração ilegal ocorre por dois motivos: “São locais onde existe muito maquinário em locais isolados, logo teria que ser usado o procedimento de destruição. E eles deixaram claro que não queriam se ver atrelados a estas ações, ainda que amparados por lei”. Além disso, “existe a postura do presidente Jair Bolsonaro”, diz o fiscal. Ele se refere ao fato do mandatário ser crítico da repressão aos garimpos ilegais e da destruição de seus equipamentos.

Os servidores do Ibama são unânimes ao avaliar que apesar de ser um grande aliado no apoio logístico de operações contra crimes ambientais, o Exército não tem vocação nem treinamento para fiscalizar. “Eles são um grande parceiro em várias operações já há alguns anos. Mas [na Verde Brasil] existe uma falta de objetivos sobre o que está sendo feito em campo, como se fiscalizar fosse manter presença, patrulhar, girar. Fiscalizar não é uma simples patrulha, não gera dissuasão no caso ambiental”, explica um fiscal. “O que gera dissuasão é ter a punição levada a cabo. Fiscalizar não é fazer uma ronda ostensiva: isso tem um efeito muito temporário e localizado. Você está em uma cidade, os criminosos ambientais vão pra outra, a patrulha acaba eles voltam”.

O critério do Ibama na escolha de alvos também era diferente dos do Exército. “Nós priorizamos sempre desmatamentos em andamento [detectados pelo Deter-Intenso]. Eles muitas vezes focam nos números. Apreensão de caminhões com tábuas ou toras de madeira, por exemplo. Só que isso, montar bloqueios nas estradas, não impede a devastação da floresta. É algo que nós fazíamos dez anos atrás”, disse o fiscal.

O Ministério da Defesa é questionado sobre a escolha dos alvos da operação. Em nota, a pasta informou que isso “é decidido no âmbito do Grupo de Integração para proteção da Amazônia”. “Este colegiado reúne onze órgãos governamentais, entre agências ambientais e órgãos de segurança pública”, segue o texto. Ainda segundo a Defesa, dados do Deter-Intenso são utilizados, juntamente com outras informações, para subsidiar as escolhas dos alvos. De acordo com a pasta foram realizadas ações em quatro dos cinco hotspots monitorados, mas não foi informado qual o tipo de ação desenvolvido em cada um (barreira em estrada, apreensão de drogas, etc).

Evolução do monitoramento

Os dados recentes do desmatamento são decepcionantes, especialmente considerando o imenso avanço do monitoramento agora à disposição do Governo brasileiro. Para entender a dimensão, é preciso analisar a evolução dos métodos utilizados: o Deter-Intenso foi um aprimoramento do Deter, que monitora toda a região amazônica e outros biomas ameaçados com geração de imagens a cada cinco dias (ante intervalos de 24 horas da nova versão). “Para essas áreas onde há demanda maior [os hotspots] desenvolvemos essa solução. Isso é um avanço enorme na questão do monitoramento, pois permite direcionar de forma precisa o deslocamento de equipes de fiscalização. Mostramos aquilo que está crescendo, para que a fiscalização possa agir”, explica o coordenador do Programa Amazônia do Inpe, Cláudio Aparecido de Almeida.

No total o Deter-Intenso monitora cinco áreas críticas: Anapu e Novo Progresso, no Pará; Apuí no Amazonas, Candeias do Jamari (Amazonas e Rondônia) e Extrema (Acre e Rondônia), totalizando 485.000 km² (aproximadamente 9% da área da Amazônia Legal). A seleção dos locais foi feita com base em um documento do Ibama elaborado no final de 2019, e que listava dez hotspots. Indagado sobre a razão de não ter ocorrido queda no desmatamento tendo em vista o material produzido pelo Deter-Intenso somado ao efetivo da Verde Brasil 2, Cláudio de Almeida, do Inpe, afirmou que “a queda do desmatamento está associada a condução de várias políticas públicas, como por exemplo programa de valorização da floresta, a fiscalização em campo e o monitoramento. Dentre essas ações o Inpe é responsável pelo monitoramento”.

Um caso de sucesso do Ibama

Quando foi lançada em maio, os números da Verde Brasil 2 impressionaram: além do efetivo de quase 4.000 agentes e veículos, chamou atenção o custo de 60 milhões de reais, praticamente o Orçamento anual do Ibama para fiscalização. Este valor ainda pode aumentar: o Governo elaborou um projeto de lei que pede mais 410 milhões de reais para serem aplicados na Verde Brasil 2, prorrogada até novembro deste ano.

Apesar dos grandes recursos humanos, financeiros e tecnológicos a seu dispor, o grande exemplo de sucesso no combate à devastação da Amazônia este ano não foi dado pela Verde Brasil 2, e sim por uma operação do Ibama realizada entre 15 de janeiro e 30 de abril. A região escolhida foi o sul do Pará, na proximidade de Altamira, área que concentra três terras indígenas —Ituna-Itatá, Apyterewa e Trincheira Bacajá. A situação no local era dramática: em uma das terras os grileiros chegaram a construir uma pequena vila para atrair mais invasores, havia até mesmo um barracão com tanques para armazenar combustível de aeronaves. “Estas terras indígenas foram as mais desmatadas do Brasil em 2019, de acordo com as imagens de satélites. Lá havia vários focos de desmatamento ativos”, conta um fiscal do Ibama que participou da ação. O objetivo era ousado: zerar a devastação nos locais.

O efetivo era modesto quando comparado aos números da Verde Brasil 2: atuaram de 7 a 10 fiscais por mês, totalizando aproximadamente 40 profissionais. O baixo custo também chama a atenção: somadas as diárias do fiscais do Ibama (que são de 177 reais), chega-se a um valor de 212.400 reais. Com o custo do uso de duas aeronaves, chega-se a 1,5 milhão de reais. O resultado também diferiu do alcançado até o momento pela operação do Exército: “Nós zeramos o desmatamento na região no período em que atuamos. O impacto foi tão grande que ao eliminar a devastação naquelas áreas, derrubamos em 58% o número total de desmatamento em terras indígenas no Brasil”. Mas sem uma presença efetiva das autoridades no local após a ação de sucesso, em julho a área voltou a sofrer com desmatamento ilegal, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

Para este fiscal envolvido na operação nas terras indígenas, é preciso entender o que existe por trás da derrubada da floresta. “Hoje o desmatamento na maior parte da Amazônia Legal não está pulverizado. É uma questão de crime organizado, é um avanço coordenado naqueles hotspots, pois há expectativa de ocupação e regularização fundiária naquela área por parte de interesses poderosos”, conta. “Quando você atua na área crítica você vai para desarticular uma organização criminosa, você desarticula toda a estrutura do crime ambiental, da usurpação de recursos e terra pública. Não vai para multar uma pessoa só”.

Se a devastação da floresta está em alta, as multas aplicadas pelo Ibama —consideradas uma das ferramentas mais eficazes para dissuadir crimes ambientais— tiveram queda de 60% nos primeiro semestre ante o mesmo período de 2019, de acordo com a Folha de S.Paulo. É a segunda queda no Governo Bolsonaro: entre 2018 e 2019 já havia ocorrido redução de 40%.

Maior índice de branqueamento de corais em 35 anos é registrado na APA Costa dos Corais

O branqueamento de colônias de corais acontece em razão da perda das algas que vivem em associação mutualística com o coral, as chamadas zooxantelas, causando a morte desses corais.

Branqueamento de coral. Foto: Pedro Pereira.

Tal fenômeno vem ocorrendo em nível global e está diretamente ligado ao aquecimento das águas dos oceanos causado pelas mudanças climáticas – e não parou por conta da pandemia.

Ao contrário. Uma recente expedição nos recifes de coral da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC), realizada pela gestão da unidade de conservação na semana passada, constatou que o pior está acontecendo. Os pesquisadores detectaram uma grande onda de branqueamento de várias colônias de corais em zonas de preservação e de visitação da APA em Maragogi, Alagoas, famoso ponto turístico.

De acordo com Pedro Henrique C. Pereira, pesquisador do projeto Águas Marinhas e Costeiras Protegidas (GEF Mar) e membro da equipe do ICMBio Costa dos Corais, esse é o pior evento de branqueamento dos últimos 35 anos. “Esse ano ocorreu o maior aquecimento das águas da APA desde 1985. Registramos mortes de até 70% para Millepora braziliensis (coral-de-fogo) e de 40% para Mussismilia hartii (coral-cérebro), espécie ameaçada de extinção”, diz.

O monitoramento foi realizado entre os dias 20 e 24 de julho, no qual a equipe do ICMBio Costa dos Corais, com o apoio do Projeto Conservação Recifal (PCR), mergulharam na Zona de Preservação da Vida Marinha (área fechada a visitantes) e nas Zonas de Visitação aquário e nas galés da APACC em Maragogi. Pereira explicou que o monitoramento dos corais é feito há vários anos, porém o último havia sido realizado apenas em março, devido à pandemia de coronavírus.

Monitoramento dos corais. Foto: Pedro Pereira.

A mais recente expedição tinha como objetivo avaliar os efeitos do isolamento social nos ambientes coralíneos, isto é, avaliar como o ambiente se comportou com a suspensão da visitação pública. “Infelizmente, apesar do isolamento social, os efeitos do branqueamento foram implacáveis, sendo observada grande mortalidade de corais e muitos corais ainda branqueados”, lamentou Pereira.

Os pesquisadores utilizaram dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (National Oceanic and Atmospheric Administration – NOAA) para avaliar o aquecimento das águas oceânicas e o nível de alerta de branqueamento dos corais para 2020. “Apesar da falta de dados entre os meses de isolamento social, o monitoramento continuado dos recifes da APACC mostra que este é provavelmente o maior evento de mortalidade de corais das últimas décadas”, explicou Pereira.
Branqueamento de colônia de coral-cérebro (Mussismilia hartii). Foto: Pedro Pereira.

Questionado sobre como seria possível mitigar o fenômeno, Pereira destacou a urgente necessidade de redução dos impactos das mudanças climáticas. “A solução são os acordos internacionais de redução de poluentes. O aquecimento global só será revertido com uma demanda da sociedade em geral sobre os governantes dos países que mais poluem”.

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, segundo o SEEG para 2018 (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima).

APA Costa dos Corais

Branqueamento da Millepora sp. (coral de fogo). Foto: Pedro Pereira.A APA

Costa dos Corais (APACC) é a maior unidade de conservação federal marinha costeira do Brasil. Possui mais de 400 mil hectares de área e cerca de 120 quilômetros de praias e mangues. Seu objetivo é a conservação ambiental e o equilíbrio entre os usos direto (pesca) e indireto (turismo e pesquisa) dos recursos naturais, garantindo-os para as gerações atuais e futuras.

Na Europa, as mudanças climáticas trazem novas culturas, novas idéias

À medida que o clima da Europa mudar nas próximas décadas, algumas regiões terão cada vez mais dificuldade em sustentar as culturas tradicionais.

Mas com novas variedades e estratégias, alguns agricultores estão plantando de olho no futuro.

Com verões mais quentes, tempestades severas e períodos secos prolongados nas previsões, as perspectivas para os agricultores da Europa são assustadoras.

Prevê-se que as temperaturas médias anuais aumentem de 1 a 5,5 graus Celsius (1,5 a 10 graus Fahrenheit), com o aquecimento mais forte projetado no sul do continente nos meses de verão.

Um relatório de setembro de 2019 da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEA) observou que o estresse térmico, eventos climáticos extremos como inundações repentinas e tempestades de granizo e escassez de água já mudaram as condições para várias culturas na Europa – especialmente para os alimentos básicos do Mediterrâneo, como azeitonas e uvas para vinho.

Enquanto isso, lugares no norte da Europa podem ter benefícios agrícolas com as mudanças climáticas, incluindo estações de crescimento mais longas e um período mais curto de geada “permitindo o cultivo de novas culturas e variedades”, afirmou o relatório. As terras cultiváveis adequadas ao redor do Mar Báltico podem mais que dobrar até 2100, de 32% da área atual para cerca de 76%, com certas culturas agora comuns ao sul da Europa criando raízes mais ao norte.

Reino Unido, vinhos escandinavos

Essas mudanças climáticas já deram frutos – literalmente. No estado alemão do norte da Baixa Saxônia, onde as temperaturas médias subiram quase 2 graus Celsius nas últimas décadas, alguns agricultores começaram a cultivar frutas tipicamente encontradas mais ao sul, como damascos e nectarinas. E o cultivo do vinho, tipicamente associado a mais encostas do sul da França, Espanha e Itália, agora está decolando em lugares como Dinamarca, Suécia e Reino Unido.

A Ryedale Vineyards, no nordeste da Inglaterra, produz vinhos britânicos desde 2006. Como uma das vinícolas mais ao norte do Reino Unido, depende principalmente de variedades híbridas resistentes a doenças, mais adequadas às regiões mais frias do norte da Europa.

A tendência de aquecimento das últimas décadas viu a indústria vinícola do Reino Unido quadruplicar em tamanho desde 2000, com as vinhas inglesas produzindo cerca de 13,2 milhões de garrafas em 2018. Mas a mudança climática apresenta outros desafios, incluindo padrões climáticos incomuns e aumento do risco de doenças associadas a verões mais úmidos. que estão ligadas às mudanças climáticas.

“Eventos climáticos imprevisíveis, secas e intensas tempestades de verão são um problema real e parecem ter aumentado em frequência”, disse Jon Fletcher, que administra a Ryedale Vineyards com sua família. Ele listou os desafios: geadas tardias, tempestades de granizo destrutivas e períodos de seca que podem durar meses. “Este ano já tivemos o maio mais ensolarado já registrado e nenhuma chuva há dois meses, então o clima imprevisível continua.”

“As mudanças climáticas representam um risco para a sustentabilidade do gerenciamento de vinhedos em escala global e, principalmente, na Europa”, disse Josep Maria Sole, do VISCA (Aplicativo Integrado de Clima Inteligente para Vinhas), um projeto financiado pela UE que visa ajudar a indústria vinícola da Europa desenvolver estratégias de adaptação a médio e longo prazo. Ele disse que as áreas produtoras de vinho sofrerão cada vez mais com intensas ondas de calor e secas e, em certas regiões da Espanha, geadas mais intensas na primavera, que podem danificar os brotos das videiras.

Blaz Kurnik, especialista em impactos das mudanças climáticas e adaptação no EEE, disse que essas temperaturas mais altas, especialmente os invernos mais quentes, também favorecem a introdução de novas doenças e pragas, incluindo a mosca da oliveira. Enxames crescentes estão ameaçando a indústria de azeite da Europa, responsável por cerca de três quartos do suprimento mundial. “No pior cenário, até 80% das oliveiras [italianas] serão afetadas por isso todos os anos”, disse Kurnik, acrescentando que as moscas também estavam infestando os olivais da Espanha.

Lichia, mamão: estas são as culturas futuras da Europa?
Manga, abacate e lichia: as futuras culturas comerciais da Europa?

A Itália, que ocupa a segunda posição no mundo em produção de azeite, teve uma colheita desastrosa em 2018. O mau tempo e a geada fizeram com que a produção caísse 57%, representando uma perda de quase € 1 bilhão (US $ 1,13 bilhão).

A Sicília é uma das principais regiões produtoras de azeite da Itália, juntamente com a Calábria e a Apúlia. Mas alguns agricultores começaram a focar sua atenção em culturas nativas das regiões tropicais, incluindo mangas, abacate e lichia.

As culturas tropicais foram introduzidas pela primeira vez na Sicília na década de 1970, mas nos últimos anos houve um crescimento exponencial dessas culturas e a introdução de novas espécies como o mamão, substituindo as frutas cítricas que “não são mais remunerativas”, disse Vittorio Farina, professor associado de agricultura na Universidade de Palermo.

“O clima favorável de muitas áreas da bacia do Mediterrâneo está promovendo o cultivo de frutas tropicais”.  “De fato, a produção predominante de manga e abacate está concentrada nos países tropicais, mas recentemente seu cultivo se espalhou fora das regiões geográficas tradicionais para a bacia do Mediterrâneo e, em particular, no Egito, Israel, África do Sul, Europa, principalmente Espanha e Itália”.

Farina disse que uma sucessão de invernos mais amenos favoreceu a expansão dos pomares de manga, abacate e mamão destinados aos mercados de exportação mais ao norte, embora os verões mais secos correspondentes e os eventos climáticos extremos continuem sendo um desafio.

“O problema da escassez de recursos hídricos para a agricultura impõe cada vez mais a introdução de espécies com pouca demanda de água”, afirmou Farina, sugerindo a possível introdução de frutas como a pêra. “Para a maioria das outras espécies tropicais, a irrigação nos meses quentes nas áreas secas é uma condição essencial para a obtenção de um produto de qualidade”. Farina disse que estava testando estratégias de irrigação de precisão para limitar a pegada hídrica das culturas tropicais.

 

Meio Ambiente: Desmatamento na Amazônia em junho é o maior em 5 anos, aponta Inpe

Em meio a pressão internacional, devastação da floresta aumentou pelo 14º mês consecutivo, com salto de mais de 10% em relação a junho de 2019. Quando considerado o primeiro semestre, alta foi de 25%.

Área desmatada na Amazônia

A destruição da Amazônia aumentou 10,6% em relação a junho de 2019, atingindo 1.034 km²

O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou pelo 14º mês consecutivo em junho e foi o maior registrado para o mês nos últimos cinco anos, segundo dados do sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados nesta sexta-feira (10/07).

A destruição da floresta aumentou 10,6% em relação a junho de 2019, atingindo 1.034 km². Em relação a junho de 2018, a alta foi de 112%, e a junho de 2017, de 70%.

Quando considerados os seis primeiros meses de 2020, o desmatamento aumentou 25% em relação ao mesmo período do ano passado, para 3.069 km².

Os dados foram coletados pelo sistema Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe, que emite alertas diários sobre onde a destruição está acontecendo para ajudar na fiscalização e no controle da devastação.

Os números indicam que a taxa oficial de desmatamento da Amazônia, medida pelo Inpe sempre entre agosto de um ano e julho do ano seguinte, deverá superar a do período anterior, quando mais de 10 km² foram desmatados – a maior área registrada desde 2008. Os dados medidos até agosto de 2020 devem ser divulgados no final do ano.

A alta do desmatamento ocorreu apesar da Operação Verde Brasil 2, lançada pelo governo federal em maio e que enviou militares para o combate ao desmatamento e focos de incêndio na Amazônia. Inicialmente programada para durar um mês, a operação foi prorrogada nesta semana até 6 de novembro.

Segundo dados divulgados pelo Inpe na semana passada, este também foi o mês de junho com maior número de queimadas em 13 anos. Foram registrados 2.248 focos de incêndio, o que representa um aumento de 19,6% em relação a junho de 2019.

Pressão internacional

O governo do presidente Jair Bolsonaro vem sendo criticado por outros países e organizações governamentais devido à alta do desmatamento e das queimadas na Amazônia, que provocaram comoção internacional no ano passado.

Nesta quinta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, afirmou que o país precisa obter resultados positivos no combate ao desmatamento no segundo semestre deste ano para, assim, apresentá-los a investidores na mesa de negociações.

A fala veio após uma videoconferência com representantes de fundos de investimento do exterior para tratar da preservação do meio ambiente no país. O encontro foi motivado por uma carta que o governo recebeu nesta semana de executivos de grandes empresas brasileiras e estrangeiras, que cobraram ações concretas de combate ao desmatamento no país.

No final de junho, outra carta havia sido enviada a embaixadas brasileiras na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, dessa vez por um grupo de administradores de recursos, que também expressaram preocupação com o avanço do desmatamento na Amazônia. Os representantes dos fundos que se reuniram com Mourão nesta quinta-feira fazem parte desse grupo.

Na semana passada, na cúpula do Mercosul, Bolsonaro disse que o governo está dialogando com diversos interlocutores “para desfazer opiniões distorcidas sobre o Brasil e expor as ações que tem tomado em favor da proteção da Floresta Amazônica e do bem-estar da população indígena”.

“A pressão está aumentando”, disse Mariana Napolitano, gerente de conservação e ciências do WWF-Brasil, nesta quinta-feira. “Os dados de desmatamento em si mostram que agora temos uma situação muito complicada, que está fora de controle na Amazônia”, afirmou à agência de notícia Reuters.

Pesquisadores e ativistas culpam Bolsonaro por incentivar madeireiros, garimpeiros ilegais e especuladores de terras ao enfraquecer a fiscalização ambiental e defender a mineração e a agricultura na Amazônia como maneiras de desenvolver a economia do país.

LPF/rtr/afp/ots

O Desmonte do IBAMA

A MILITARIZAÇÃO do combate ao desmatamento na Amazônia não tem evitado recordes de queimadas e desmatamento, mas isso não parece abalar o ânimo do governo Bolsonaro em gastar dinheiro com as Forças Armadas na região.

Do fundo de R$ 1 bilhão para reduzir desmatamento na Amazônia, criado após acordo da Lava Jato, mais da metade está separado para despesas do Ministério da Defesa. O valor é dez vezes o orçamento do Ibama, principal órgão ambiental fiscalizador, que ficou com R$ 50 milhões.

A opção do governo federal por militares fiscalizando estradas e rios, sancionada pela Garantia de Lei e Ordem para a região, sai mais cara que as medidas comuns adotadas pelo Ibama, como uso de inteligência na detecção por satélite de focos de desmatamento e queimadas e posterior ação de órgãos ambientais de fiscalização, segundo pesquisadores e ambientalistas com quem conversei. Pior: não são eficientes.

Com previsão de gastos de R$ 60 milhões por mês –orçamento médio de um ano do setor de fiscalização do Ibama –, a Amazônia sob GLO viu um mês de junho com maior número de queimadas desde 2007. Pesquisadores apontam que o Prodes, sistema de monitoramento por satélites que analisa o corte de árvores na Amazônia entre agosto e julho do ano seguinte, deve apontar um acúmulo de área desmatada ainda maior do que 2019.

Enquanto isso, o Ibama tem problemas com falta de pessoal e em 2020 caminha para um novo recorde: aplicar o menor número de multas em mais de dez anos. Como mostramos no começo da gestão de Ricardo Salles, desde abril do ano passado não há mais fiscalização ativa na floresta, aquela em que os fiscais vão a campo vistoriar serrarias ou buscar áreas desmatadas.

Também não parece ser intenção do governo Bolsonaro permitir que a sociedade acompanhe como o dinheiro do fundo está sendo gasto. Não há qualquer detalhamento sobre as despesas das Forças Armadas na GLO. Mas pelo orçamento da operação, atualizado no final de maio, é possível verificar que pelo menos R$ 520 milhões do fundo estão separados para o Ministério da Defesa em 2020. Destes, R$ 112 milhões são para o Comando da Marinha, que faz fiscalização de barcos em rios — mais do que o dobro do que o Ibama recebeu do mesmo fundo.

O cenário pouco animador para a Amazônia enfrenta outro desafio com a pandemia de covid-19. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, determinou que R$ 630 milhões do fundo da Lava Jato, do qual saiu o dinheiro da GLO, fossem utilizados pela União contra o desmatamento na Amazônia e outros R$ 430 milhões para ações de prevenção e fiscalização ambiental de órgãos estaduais. No entanto, quatro estados pediram para usar a verba na saúde por causa da pandemia. O Acre conseguiu decisão favorável ainda em 7 de abril, e no dia 13 de maio foi a vez dos governos de Maranhão, Mato Grosso e Tocantins pedirem pela realocação dos recursos. Assim, ações contra desmatamento perderam R$ 186 milhões em pouco mais de um mês.

Dias depois, em 29 de maio, o vice-presidente Hamilton Mourão ignorou a perda orçamentária e anunciou em uma cartilha de 19 páginas que usaria R$ 1,06 bilhão do dinheiro do Fundo da Lava Jato para implementar, com a ajuda das Forças Armadas, o seu “Plano Nacional para Controle do Desmatamento Ilegal e Recuperação da Vegetação Nativa 2020-2023”. O documento é considerado um rascunho de continuação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, criado em 2004 e que reduziu o desmatamento na Amazônia apostando em monitoramento e fiscalização de crimes ambientais, fomento a atividades produtivas e ordenamento fundiário. Só que, diferente do anterior, que tinha eixos bem definidos de atuação no combate ao desmatamento, o plano de Mourão, diz a ex-presidente do Ibama e especialista em políticas públicas do Observatório do Clima Suely Araújo, tem apenas diretrizes gerais, sem metas de redução de desmatamento ou de emissão de gases do efeito estufa. “Por exemplo, o Exército tem feito fiscalização em estradas, algo que o Ibama não faz há anos, ao invés de usar a inteligência de monitoramento por satélite de desmatamento que já existe no país”, afirma Araújo.

Recheado de militares e com Mourão como chefe, o Conselho Nacional da Amazônia anunciou em maio a operação Verde Brasil 2, que mobilizou mais de 3,8 mil pessoas, entre militares e servidores do Ibama e órgãos ambientais estaduais, únicos aptos a lavrar multa ambiental. Mas a estratégia militar não parece ter dados resultados práticos e o governo chegou a usar autuações e apreensões de órgãos ambientais estaduais e do Ibama que não tinham relação com a GLO para inflar resultados. O fiasco fez o Senado convocar Mourão para explicar na próxima terça-feira, 14, a estratégia de combate ao desmatamento do Conselho Nacional da Amazônia.

Foto: Divulgação/Exército Brasileiro

Militares com o dinheiro, Ibama desmontado

Enquanto os militares encabeçam a fracassada estratégia de preservação da Amazônia, o desmonte do Ibama segue intenso. Nos primeiros seis meses de 2020, o órgão ambiental registrou apenas 1187 autuações nos estados da Amazônia. Parece pouco provável que chegue às 4834 autuações de 2019 – que já havia sido o menor número da década. Além disso, boa parte dessas multas viram fumaça e não são pagas por atrasos no processo de cobrança. Sob condição de anonimato, servidores do órgão criticam mudanças feitas em setembro do ano passado no sistema de registro de multas. Desde então, há inconsistências no conteúdo da plataforma de dados abertos do Ibama,  como atrasos na atualização da localização das autuações e erros no cadastro por bioma onde a multa foi lavrada.

A falta de servidores ajuda a entender essa queda. Em 2013, o Ibama tinha cerca de 4,5 mil servidores efetivos, sendo 1.350 no setor de fiscalização ambiental. Hoje, são pouco mais de 3 mil efetivos, com 750 são fiscais. Não há previsão de concurso para a pasta em 2020, apenas de contratação de 1,5 mil funcionários temporários para ajudar no combate a incêndios no período de seca na região, de junho a novembro. E os militares, que deveriam preencher esse buraco, não chegam nem perto das áreas de maior desmatamento, me disseram fontes dentro da instituição que preferiram não se identificar por medo de retaliação.

Além dos R$ 50 milhões do acordo da Lava Jato, o Ibama tem em caixa para 2020 outros R$ 104 milhões do orçamento da União aprovado pelo Congresso para combater danos ambientais em todo país. São R$ 66 milhões do orçamento que já existia para fiscalizar desmatamento e outros R$ 38 milhões contra queimadas. Para Araújo, essa verba seria mais útil se usada para melhorar a estrutura e repor o déficit servidores no Ibama.

“O governo afirma que gasta R$ 60 milhões por mês com GLO. Com o valor de dois meses dessa operação é possível pagar o salário de 1.000 novos servidores do Ibama por um ano inteiro. É preciso lembrar que o atual governo critica a fiscalização ambiental desde a eleição, então esses altos gastos com operações das Forças Armadas são para tentar solucionar um problema que o próprio governo ajudou a intensificar”, diz.

Na segunda-feira, o Ministério Público Federal no Distrito Federal apresentou uma ação de improbidade administrativa contra o ministro Ricardo Salles, pedindo seu afastamento por promover a “desestruturação de políticas ambientais”. Assinado por 12 procuradores da República, o documento cita também a falta de eficiência e os altos valores gastos pelos governo para enfrentar o aumento do desmatamento na Amazônia. Em dois meses, lembram os procuradores, a operação Verde Brasil 1, realizada em 2019, gastou R$ 124 milhões, valor superior ao orçamento do Ibama em um ano para ações de controle e monitoramento ambiental.

“Em que pese a relevância da mobilização de instituições diversas na temática, tal medida tem se demonstrado insuficiente ou metodologicamente inadequada na contenção de crimes contra o meio ambiente e de ameaças às populações amazônicas, além de absurdamente mais dispendiosa que o emprego de forças estruturadas e experts dos agentes do Ibama conforme previsão legal”, expõe a denúncia do MPF.

Pedi acesso via Lei de Acesso à Informação ao detalhamento desses gastos e não obtive resposta. Questionei também as assessorias de imprensa da Vice-Presidência da República e do Ministério da Defesa sobre como as Forças Armadas pretendem utilizar a quantia em combate a desmatamento na Amazônia. Mais silêncio.

No mapa, a evolução do desmatamento na Amazônia. Mapa: InfoAmazonia

‘Passar a boiada’

A redução do desmatamento provocada pelas ações do PPCDAm começou a arrefecer em 2012 com a aprovação do novo Código Florestal, que permitiu uma anistia a quem tinha desmatado até 2008, lembra o geólogo e pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon), Carlos Souza Jr. “O novo Código Florestal abriu um precedente ruim e houve um aumento do desmatamento nos anos seguintes. Mas houve um salto ainda maior depois de 2018”, diz Souza Jr, que estuda dados sobre desmatamento na Amazônia desde 2008.

Ações de incentivo a redução de desmatamento e de emissões gases do efeito, diz Souza Jr., funcionaram por alguns anos, mas não houve continuidade. Em 2019 a Amazônia teve mais de 10 mil km² de floresta desmatada, um recorde. Dados preliminares do Prodes analisados até o momento pelo Imazon indicam que o desmatamento em 2020 deve ser ainda maior. Para piorar esse cenário, um estudo recente do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o Ipam, revelou que há 4,5 mil km² de área desmatada desde o final de 2019 que deve ser queimada no atual período de seca da região. Em junho a Amazônia registrou 2.248 focos de queimadas, maior número desde 2007.

Vale lembrar que o impacto negativo da falta de ações concretas e eficazes contra o desmatamento na Amazônia pelo governo brasileiro é tão grande no exterior que ameaça o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, anunciado em 2019, mas que ainda precisa ser ratificado. Um buraco difícil de sair enquanto tivermos um ministro como Salles, que considera que é preciso aproveitar o foco na pandemia de covid-19 para “passar a boiada” sobre a legislação ambiental, como disse na reunião ministerial de 22 de abril.

As confusões criadas pelo governo Bolsonaro, especialmente por Salles, resultaram na suspensão do Fundo Amazônia em junho do ano passado. Desde então, nenhum novo projeto é aprovado, apenas ações que já estavam em curso continuam. O BNDES, gestor do fundo, tem atualmente R$1,5 bilhão parados porque não há comitê para aprovar novos projetos.

“Essa paralisação do fundo vai ter um impacto direto no desmatamento. Se não agora, porque ainda há projetos em andamento, isso ocorrerá em um futuro próximo”, explica Alessandra Cardoso, economista e assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos, o Inesc.

A substituição de Salles por Mourão na liderança das ações contra o desmatamento da Amazônia deveria ser parte de uma estratégia para melhorar a tão chamuscada imagem do Brasil no exterior. Mas, ao menos por enquanto, a única coisa diferença com relação ao desastre ambiental que a Amazônia registrou no ano passado é o orçamento generoso para as Forças Armadas.

Com dados do The Intercept e SIGA BR/INESC/OC

Aquecimento Global; Um verão desastroso no Ártico

Na Sibéria, no final de maio, o degelo do permafrost causou o colapso de um tanque de armazenamento de petróleo, levando ao maior derramamento de óleo já ocorrido no Ártico russo.

A remota cidade siberiana de Verkhoyansk, a cinco mil quilômetros a leste de Moscou e a seis milhas ao norte do Círculo Polar Ártico, há muito mantém o recorde, com outra cidade siberiana, do lugar mais frio e habitado do mundo. O recorde foi estabelecido em 1892, quando a temperatura caiu para noventa abaixo de zero Fahrenheit, embora atualmente as temperaturas do inverno sejam notavelmente mais amenas, pairando em torno de cinquenta abaixo. No último sábado, Verkhoyansk reivindicou um novo recorde: a temperatura mais quente já registrada no Ártico, com uma observação de 100,4 graus Fahrenheit – a mesma temperatura foi registrada naquele dia em Las Vegas. Miami só atingiu cem graus uma vez desde 1896. “Esta é uma primavera incomumente quente na Sibéria”, disse Randy Cerveny, relator de clima e extremos climáticos da Organização Mundial de Meteorologia. “A coincidência falta de neve subjacente na região, combinada com o aumento global da temperatura global, sem dúvida ajudou a desempenhar um papel crítico na causa desse extremo”. A Sibéria, em outras palavras, está no meio de uma onda de calor surpreendente e histórica.

A mudança climática antropogênica está fazendo com que o Ártico aqueça duas vezes mais rápido que o resto do planeta. Os modelos climáticos previram esse fenômeno, conhecido como amplificação no Ártico, mas não previram a rapidez com que o aquecimento ocorreria. Embora Verkhoyansk tenha visto temperaturas quentes no passado, o recorde de 100,4 graus de sábado segue um ano muito quente em toda a região. Desde dezembro, as temperaturas no oeste da Sibéria estão dezoito graus acima do normal. Desde janeiro, a temperatura média na Sibéria é de pelo menos 5,4 graus Fahrenheit acima da média de longo prazo. Como relatou o meteorologista Jeff Berardelli para a CBS, o calor que caiu na Rússia em 2020 “é tão notável que coincide com o que é projetado para ser normal até o ano 2100, se as tendências atuais nas emissões de carbono capturadoras de calor continuarem”. Em abril, devido ao calor, os incêndios florestais na região eram maiores e mais numerosos do que na mesma época do ano passado, quando o governo russo finalmente teve que enviar aviões militares para combater grandes incêndios. A escala dos atuais incêndios florestais – com altas nuvens de fumaça visíveis por milhares de quilômetros em imagens de satélite – sugere que este verão poderia ser pior. Por causa da pandemia de coronavírus, eles também serão mais complicados de combater.

No final de maio, quando o sol parou de cair no horizonte, o calor continuou. Na cidade de Khatanga, ao norte do Círculo Polar Ártico, a temperatura atingiu setenta e oito graus Fahrenheit, ou quarenta e seis graus acima do normal, superando o recorde anterior em vinte e quatro graus. O calor e os incêndios também estão acelerando a dissolução do permafrost da Sibéria, terra eternamente congelada que, quando descongelada, libera mais gases de efeito estufa e desestabiliza dramaticamente a terra, com graves conseqüências. Em 29 de maio, fora de Norilsk, a cidade mais setentrional do mundo, o degelo se deteriorou, causando um colapso do tanque de armazenamento de petróleo e vomitando mais de cento e cinquenta mil barris, ou vinte e um mil toneladas de diesel. Rio Ambarnaya. O derramamento foi o maior que já ocorreu no Ártico russo.

Norilsk, que foi construído na década de 1930 pelos prisioneiros de um campo Gulag nas proximidades, Norillag, já era um dos lugares mais poluídos do mundo. A maioria dos seus cento e setenta e sete mil residentes trabalha na Norilsk Nickel, a empresa proprietária do tanque de óleo em colapso. Somente seu complexo maciço de mineração e metalurgia vale dois por cento do PIB da Rússia. A cidade contribui com um quinto do suprimento global de níquel e quase metade do paládio do mundo, um metal usado na fabricação de conversores catalíticos. As fábricas ondulam incessantemente nuvens de dióxido de enxofre, e a chuva ácida resultante transformou a cidade e seus arredores em um terreno baldio industrial, sem espaços verdes ou parques, apenas terra e árvores mortas. A expectativa de vida em Norilsk é vinte anos mais curta do que nos Estados Unidos. A última vez que a cidade divulgou as notícias, antes do derramamento de óleo, foi há exatamente um ano, quando um urso polar emaciado, refugiado de sua casa em decomposição, foi fotografado vasculhando o depósito de lixo da cidade.

Os executivos da Norilsk Nickel tentaram contornar a responsabilidade pelo derramamento de óleo, culpando o degelo permafrost – ou, como um comunicado à imprensa afirmou, “um afundamento repentino dos pilares do tanque de armazenamento, que funcionou sem acidentes por mais de trinta anos”. Mas o degelo não aconteceu inesperadamente, do nada. Os edifícios em Norilsk entraram em colapso por causa do terreno caído. Especialistas russos e internacionais estão cientes dos riscos que o degelo rápido do permafrost representa há mais de uma década. Um relatório de 2017 de um grupo de trabalho do Conselho do Ártico disse que “as comunidades e a infraestrutura construídas em solos congelados são significativamente afetadas pelo degelo do permafrost, um dos impactos mais econômicos das mudanças climáticas no Ártico”. Eles descobriram que o degelo do permafrost pode contaminar a água doce, quando os resíduos industriais e municipais congelados anteriormente são liberados, e que a capacidade de sustentação das fundações das construções diminuiu de quarenta a cinquenta por cento em alguns assentamentos siberianos desde os anos noventa e sessenta. Eles também observaram que “o vasto campo de gás de Bovanenkovo ​​no oeste da Sibéria registrou um aumento recente de deslizamentos de terra relacionados ao degelo do permafrost”. Os autores de um artigo de 2018, publicado na Nature Communications, descobriram que “45% dos campos de extração de hidrocarbonetos no Ártico russo estão em regiões onde a instabilidade do solo relacionada ao degelo pode causar danos graves ao ambiente construído”. O documento continuou: “De maneira alarmante, esses números não são reduzidos substancialmente, mesmo que os objetivos de mudança climática do Acordo de Paris sejam alcançados”

No início de junho, o presidente Vladimir Putin declarou uma emergência nacional e censurou as autoridades locais por sua lenta resposta ao derramamento. O Kremlin supostamente descobriu o vazamento dois dias após o fato, a partir de fotos de um rio vermelho postado nas mídias sociais. Embora o Ministério Público russo tenha concordado, em uma conclusão preliminar, que o degelo permafrost foi um fator que contribuiu para o derramamento, os investigadores também disseram que o tanque de armazenamento de combustível precisava de reparos desde 2018. Eles prenderam quatro funcionários da usina sob acusações violar os regulamentos ambientais. Norilsk Nickel negou as acusações, mas disse que a empresa está cooperando com as agências policiais e lançou “uma investigação completa e completa”. “Aceitamos totalmente nossa responsabilidade pelo evento”, disse a empresa em comunicado ao Guardian.

Vladimir Potanin, presidente da Norilsk Nickel e o homem mais rico da Rússia, disse que a empresa pagará o custo total do desastre, que ele calculou em dez bilhões de rublos, ou cento e quarenta e seis milhões de dólares. (Um órgão ambiental russo, Rosprirodnadzor, pagou o custo em cerca de um bilhão e meio de dólares.) Putin, enquanto isso, criticou publicamente Potanin pelo desastre, enfatizando que foi a negligência de sua empresa que levou ao derramamento. “Se você os substituísse a tempo”, disse Putin, em uma vídeo chamada no início de junho, referindo-se ao tanque de armazenamento de petróleo em envelhecimento, “não haveria danos ao meio ambiente e sua empresa não precisaria carregar esses custos “.

Os esforços de resposta inicial da empresa – barreiras flutuantes para conter o vazamento – falharam amplamente. Em 9 de junho, o petróleo havia entrado no lago Pyasino, com 68 quilômetros de extensão, que faz fronteira com uma reserva natural e deságua no rio Pyasino. “Uma vez que entra no sistema fluvial, ele não pode mais ser parado”, disse Rob Huebert, especialista do Ártico da Universidade de Calgary. “O petróleo poderia então chegar ao Oceano Ártico.” Em 11 de junho, o comitê de investigação da Rússia acusou o prefeito de Norilsk de negligência criminal por sua resposta frustrada ao desastre. Na sexta-feira passada, em outra vídeo chamada, o ministro de emergências de Putin relatou que as equipes de resposta coletaram 3,6 milhões de pés cúbicos de solo poluído e 1,1 milhão de pés cúbicos de água contaminada. A empresa construirá um oleoduto para bombear a lama contaminada para locais de descarte não especificados. Mas a região continuará sendo tóxica. O óleo diesel penetra nas margens do rio. Mesmo se o óleo estiver contido no lago, a contaminação nunca poderá ser totalmente removida. Algumas delas passarão pela cadeia alimentar. A vida selvagem – peixes, pássaros, renas – pode sofrer por décadas. “Você nunca pode realmente limpar um vazamento”, disse Huebert. Putin, na chamada, enfatizou que o trabalho deve continuar até que o dano seja sanado. “Obviamente, o desastre trouxe conseqüências terríveis para o meio ambiente e impactou severamente a biodiversidade nos corpos d’água”, disse ele. “Vai levar

Os humanos não estão preparados para proteger a natureza

O filósofo Peter Sloterdijk, afirma que a humanidade está aprendendo uma nova “gramática comportamental” para lidar com as mudanças climáticas e vê elementos dela na reação global ao coronavírus.

Filósofo Peter Sloterdijk
Segundo o pensador Peter Sloterdijk, estamos vivendo um período de inocência perdida.

A humanidade passa por um período de inocência perdida do ponto de vista ambiental e está aprendendo a mudar a “gramática do seu comportamento”, avalia o filósofo alemão Peter Sloterdijk.

“Ainda estamos desconfortáveis no nível da mudança lexical. Estamos agora aprendendo novos termos, um novo vocabulário, mas, aos poucos, também aprenderemos uma nova gramática”, afirma.

Mudança, para Sloterdijk, nada mais é do que o nome atual para o que a filosofia clássica chamava de devir, pois tudo o que existe não existe em formas estáveis e eternas, mas precisa se tornar o que é.

Segundo o filósofo, um dos pensadores mais influentes da Alemanha, modernidade é, em essência, interferir nesse processo de tornar-se e empurrá-lo para uma direção que se encaixe melhor com os propósitos humanos.

Em entrevista o autor de dezenas de livros que percorrem toda a gama da investigação filosófica, dedica algumas reflexões a respeito da dificuldade dos seres humanos para mudar e o que isso tem a ver com a atual crise climática.

Então estamos todos em constante mudança?

Peter Sloterdijk: Sim. A natureza como tal é uma entidade automutável. E tudo o que nos resta é, por assim dizer, continuar surfando na onda da mudança.

Quando se olha para o futuro, e se vê essa onda cada vez devido ao perigo das mudanças climáticas, há algumas grandes mudanças que temos que adotar, como espécie. E ainda assim parece que, no momento, não somos capazes de executá-las. Por quê?

Os seres humanos não estão preparados para proteger a natureza, em nenhum sentido. Porque em toda a nossa história como espécie, nossa convicção mais profunda sempre foi a de que somos nós que devemos ser protegidos pelos poderes da natureza. E não estamos realmente preparados para essa inversão. Assim como um bebê não pode carregar sua mãe, os seres humanos não estão preparados – ou não são capazes – de carregar a natureza. Eles precisam aprender a lidar com essa imensidão. Isso é um grande desafio, porque não existe mais a desculpa clássica de que somos muito pequenos para lidar com essas imensidades.

Seria um certo narcisismo que impede isso? Qual é o problema?

Sinto que é um problema de dimensões. Somos fisiologicamente quase incapazes de entender os resultados de nosso próprio comportamento – e as consequências disso são enormes. Estamos profundamente convencidos de que tudo o que fazemos pode e deve ser perdoado. Do ponto de vista ambiental, estamos vivendo um período de inocência perdida.

Então estamos todos, em uma escala planetária, procurando por uma sensação de perdão? Queremos nos purificar do que fizemos?

E haverá muitos pecados a serem perdoados. E quanto mais compreendermos isso, maior será a probabilidade de um dia desenvolvermos padrões de comportamento para lidar com a nova situação.

Nossa resposta à pandemia foi imediata, foi rápida e unificada de uma forma quase inacreditável. Já a nossa resposta à crise climática parece travada ou estagnada. Há uma maneira de encarar essas duas formas de crise de forma semelhante?

O que a resposta ao coronavírus tem provado é que a globalização através da mídia é um projeto quase concretizado. O mundo inteiro é mais ou menos sincronizado e coopera numa estufa de notícias contagiosas. A infecção por informação é tão forte quanto a infecção pelo vírus, na verdade ainda mais. E, assim, temos duas pandemias concomitantes: uma do medo e outra do contágio real.

O senhor diz que a modernidade nos impediu de tornarmo-nos o que somos. Podemos mudar o que somos?

Sim. Eu não acho que possamos mudar nosso DNA simplesmente mudando nossos pensamentos. Mas podemos mudar a gramática do nosso comportamento. E é isso o que o século 21 ensinará à comunidade global.

O que isso significa?

Tudo o que fazemos adere a uma estrutura – semelhante a uma linguagem. E a ação é algo governado por estruturas ocultas, como todas as frases que produzimos são regidas pela gramática e pelo léxico. E acho que ainda estamos desconfortáveis no nível da mudança lexical. Estamos agora aprendendo novos termos, um novo vocabulário, mas, aos poucos, também aprenderemos uma nova gramática.

Estamos, portanto, no processo de unir os blocos semânticos da linguagem. O senhor acha que conseguiremos falar antes que a destruição anunciada se torne realidade?

O que achei especialmente impressionante no comportamento das massas durante essa crise é a incrível obediência com que vastas partes da população no Ocidente – assim como no Oriente – estiveram prontas para obedecer às novas regras de precaução e distanciamento. Estes já são novos elementos de uma nova gramática social.

Mas isso também pode ser assustador, certo? Que nós, em questão de semanas, fomos capazes de abrir mão de liberdades extremamente básicas.

Ah, sim. Ao mesmo tempo, isso mostra que não devemos subestimar a maleabilidade do elemento humano. Mas quem pode saber quanto tempo esse comportamento paciente vai durar. Acho que devemos continuar nossas reflexões daqui a um ano, mais ou menos. Eu ficaria surpreso se, até lá, você não tiver aprendido mais.

Sobre o elemento humano: a nossa resposta ao coronavírus – algo com o que ninguém havia se deparado até então – mudou de alguma forma a percepção que o senhor tem da humanidade?

Sim e não. Certamente estou tão surpreso quanto muitos outros. Mas, ao mesmo tempo, isso também confirma algo que venho desenvolvendo há décadas num nível teórico. O que quero dizer é que isso confirma minha suposição de que a raça humana alcançou uma situação de sincronicidade com base num fluxo de informações. Estamos mesmo globalmente conectados e vivendo cada vez mais na mesma dimensão de tempo. Existe algo como a presença perene da globalização, e isso tem sido uma característica importante dessa crise. Tudo acontece mais ou menos ao mesmo tempo. E as únicas diferenças que vemos são atrasos entre diferentes focos de eventos. Mas, no geral, há uma grande cadeia de eventos e conexão.

Num nível pessoal, o senhor consegue se lembrar da última vez que percebeu uma mudança dentro de si mesmo?

Sim, experimentei uma profunda mudança no meu humor existencial aos 33 anos. Fui à Índia e passei aproximadamente quatro meses por lá. Foi um evento perturbador em minha vida. Mas o evento mais parecido e mais comparável com o que ocorre agora, por mais incrível que isso soe, foram os dias sublimes da queda do Muro de Berlim. Durante um período de aproximadamente dois meses, eu não estava em condições de ouvir ou ver nada além de notícias do fronte político.

E isso foi a, por assim dizer, sublime música da Reunificação. E quando ela terminou, eu só fui entender que havia terminado quando pude assistir a um filme comum pela primeira vez depois daquilo tudo. E agora ainda estou esperando o momento em que poderei escutar música e assistir a filmes como fazia antes.

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Investidores globais exigem debater desmatamento com diplomatas do Brasil

Um grupo de 29 empresas globais de investimento que administram 3,7 trilhões de dólares está exigindo reuniões com diplomatas brasileiros em todo o mundo para pedir ao governo do presidente Jair Bolsonaro que detenha o avanço do desmatamento na Floresta Amazônica.

Área desmatada da Amazônia brasileira em Itaituba, no Pará 26/09/2019 REUTERS/Ricardo Moraes

Os investidores, liderados pela empresa de seguros e pensões norueguesa Storebrand Asset Management, enviaram cartas a embaixadas do Brasil em sete países pedindo reuniões e expressando o receio de que o Brasil esteja eliminando proteções ambientais, de acordo com um comunicado que incluiu uma cópia da carta.

“A escalada do desmatamento nos últimos anos, combinada a relatos de um desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos e de agências de vigilância, está criando uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou oferecer serviços financeiros no Brasil”, disse a carta.

Ambientalistas culpam Bolsonaro por enfraquecer as proteções e causar um aumento no desmatamento e nos incêndios florestais desde que tomou posse em 2019.

Bolsonaro argumenta que o Brasil é um modelo de conservação, ao mesmo tempo em que pede mais mineração e agricultura na região amazônica.

O Ministério das Relações Exteriores brasileiro não respondeu a um pedido de comentário.

O presidente-executivo da Storebrand Asset Management, Jan Erik Saugestad, disse em uma entrevista que, embora iniciativas anteriores tenham se concentrado em pressionar empresas brasileiras, o novo esforço visa precisamente o governo.

Entre as 25 empresas europeias que assinaram estão a também norueguesa Nordea Asset Management e a Igreja da Inglaterra, que tem um fundo de pensão equivalente a 3,5 bilhões de dólares. A britânica Legal & General Investment Management (LGIM) está entre as maiores investidoras com seus 1,2 trilhão de libras esterlinas sob gerenciamento.

As norte-americanas Domini Impact Investment e Pax World Funds também assinaram a carta. A Fram Capital, que tem sede em São Paulo, é a única signatária brasileira.

A carta não fala em consequências se o governo brasileiro não agir, mas na semana passada sete empresas da Europa disseram à Reuters que podem desinvestir em ativos ligados ao país se a destruição ambiental continuar. Muitas destas empresas também assinaram a carta enviada às embaixadas.

Uma guerra contra a ciência climática, travada pelo Departamento de Patentes de Washington

Os esforços para minar a ciência da mudança climática no governo federal, uma vez orquestrados em grande parte pelos indicados políticos do presidente Trump, agora são cada vez mais conduzidos por gerentes de nível médio que tentam proteger seus empregos e orçamentos e desconfiam do escrutínio de altos funcionários, segundo entrevistas e relatórios e pesquisas revelados.A sede do Departamento do Interior de Washington
Foto: Victor Victor Blue/The New York Times.

Os esforços para bloquear a pesquisa sobre mudança climática não vêm apenas dos indicados políticos de Trump. Os funcionários mais baixos do governo estão seguindo suas pistas e correndo com eles.

Um caso em questão: quando John Crusius, químico de pesquisa do United States Geological Survey, publicou um artigo acadêmico sobre soluções naturais para a mudança climática em abril, sua publicação em documentos governamentais nunca apareceu. Não poderia.

A publicação de seu estudo, após um mês de atraso, foi condicionada por seu empregador ao fato de o Dr. Crusius não associar sua pesquisa ao governo federal.

“Não há dúvida de que meu artigo foi negado pela aprovação do governo porque tinha a ver com os esforços para mitigar as mudanças climáticas”, disse Crusius, deixando claro que ele também estava falando em sua capacidade pessoal porque a agência exigia que ele o fizesse.

“Se eu fosse um sismólogo e tivesse escrito um artigo análogo sobre a redução do risco sísmico, tenho certeza de que o artigo teria passado”.

Especialistas do governo disseram que ficaram surpresos com a velocidade com que os funcionários federais internalizaram o antagonismo do presidente Trump à ciência do clima e consideraram a nova paisagem perigosa.

“Se os administradores de alto nível emitissem uma diretiva pública realmente clara, haveria um alvoroço e uma contração, e seria mais fácil combater”, disse Lauren Kurtz, diretora executiva do Fundo de Defesa Legal da Ciência Climática, que apóia os cientistas. “Isso é muito mais difícil de combater.”

Um relatório do inspetor-geral da Agência de Proteção Ambiental divulgado em maio descobriu que quase 400 funcionários pesquisados ​​em 2018 acreditavam que um gerente havia interferido ou suprimido a liberação de informações científicas, mas eles nunca relataram as violações. Uma pesquisa separada da Union of Concerned Scientists em 2018 com mais de 63.000 funcionários federais em 16 agências identificou o E.P.A. e Departamento do Interior por ter a liderança menos confiável em questões de integridade científica.

As descobertas publicadas na revista PLOS ONE, revisada por pares, em abril, em um subconjunto dessas agências, descobriram que 631 trabalhadores concordaram ou concordaram fortemente que haviam sido solicitados a omitir a frase “mudança climática” de seu trabalho. No mesmo artigo, 703 funcionários disseram que evitaram trabalhar nas mudanças climáticas ou usar a frase.

“Eles estão fazendo isso porque estão assustados”, disse Maria Caffrey, ex-especialista em geografia do Serviço Nacional de Parques, que lutou contra os gerentes enquanto tentavam excluir o papel da humanidade nas mudanças climáticas de um relatório recente sobre a elevação do nível do mar. “Essas são todas as pessoas que compareceram aos comícios da March for Science, mas depois entraram no escritório na segunda-feira e rolaram completamente”.

Exemplos são abundantes, nem todos novos. Mas cada vez mais, os cientistas estão dispostos a se manifestar.

Em 24 de abril de 2017, Noah Diffenbaugh, cientista climático da Universidade de Stanford, publicou um estudo mostrando as ligações entre eventos climáticos extremos e mudanças climáticas. Como a pesquisa foi financiada em parte pelos subsídios do Departamento de Energia da era Obama, que incluíam mais de US $ 1,3 milhão para o projeto de Diffenbaugh, creditei a agência nos agradecimentos do jornal.

Em 25 de abril, mostram os e-mails, os pesquisadores foram informados de que o reconhecimento do apoio do Departamento de Energia exigiria uma revisão adicional.

“Foi alarmante receber esse e-mail porque estava muito longe de nossa prática normal como comunidade científica”, disse Diffenbaugh.

A divulgação completa do financiamento, observou ele, é exigida pela maioria das revistas científicas e pela universidade.

Presidente Trump deixando o Jardim de Rosas da Casa Branca após uma aparição neste mês.
Crédito: Doug Mills / The New York Times

Os e-mails informavam que os gerentes do programa de pesquisa biológica e ambiental do Departamento de Energia, conhecido como BER, sentiam que seu programa estava “sob ataque interno” e estavam preocupados com certos termos, incluindo “atribuição de eventos extremos”, que se refere a quanto um determinado evento climático pode estar ligado ao aquecimento global.

Eles também se preocuparam com referências no trabalho de pesquisa de Diffenbaugh a termos como o Clean Power Plan, um regulamento da era Obama sobre usinas a carvão; o custo social do carbono, um princípio que impõe um preço às emissões de dióxido de carbono causadas pelo aquecimento climático; e o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

Citando essas três áreas, um supervisor de pesquisa escreveu ao Dr. Diffenbaugh seis dias após a publicação do estudo: “Estava tentando não escrever muito disso por escrito, mas a preocupação aqui é evitar a impressão de que B.E.R. está apoiando pesquisas diretamente focadas na avaliação de políticas.

Esses foram exatamente os assuntos da pesquisa financiada pelo governo de Diffenbaugh.

Um artigo subsequente examinou como o cumprimento das metas de redução de carbono do Acordo de Paris afetaria eventos climáticos extremos. Quando o Dr. Diffenbaugh a submeteu à aprovação, disseram-lhe que os funcionários do Departamento de Energia sentiram que era “sólido na ciência”, mas continha “palavras de alerta” como o Acordo de Paris, mostram os e-mails.

Sua escolha foi remover essas frases e reconhecer o financiamento da agência, ou mantê-las e não mencionar a concessão.

Dr. Diffenbaugh e Stanford decidiram que a pesquisa não deveria ser alterada e seria publicada com as chamadas palavras de bandeira vermelha e a divulgação de fontes de financiamento. Os funcionários do departamento notificaram posteriormente aos líderes do projeto que o financiamento seria reduzido pela metade. O projeto do Dr. Diffenbaugh foi zerado.

Jess Szymanski, porta-voz do Departamento de Energia, disse em um comunicado: “Não existe uma política do Departamento de Energia que proíba a menção de ‘mudança climática’ ou ‘Acordo de Paris’, nem há orientação do departamento para reter fundos para projetos como este. língua. Alegar é falso.

Depois, há o caso de Marcy Rockman. Até que ela renunciou ao Serviço de Parques em novembro de 2018, a Dra. Rockman atuou por sete anos como coordenadora de adaptação às mudanças climáticas; cinco desses anos foram gastos desenvolvendo uma estratégia para proteger os recursos culturais das mudanças climáticas. Mas quando a estratégia foi lançada no final de janeiro de 2017, seus supervisores decidiram abandonar os planos de enviar cópias para cada parque nacional.

“Não havia apetite para nenhuma das minhas cadeias de administração escrever um memorando que tivesse sua assinatura dizendo: ‘Estou distribuindo a estratégia de mudança climática'”, disse ela.

A Associação Européia de Arqueólogos notou o ocorrido e convidou a Dra. Rockman a apresentar seu trabalho na Holanda. Seu chefe aprovou a viagem e depois se aposentou.

Mas vários meses depois, disse Rockman, ela foi informada de que precisava se inscrever novamente para aprovação. Seus supervisores sugeriram que ela minimizasse as mudanças climáticas. Então a viagem foi negada.

“Fui responsável por tomar e executar decisões que ninguém acima de mim queria tomar”, disse ela.

O Departamento do Interior se recusou a comentar o caso do Dr. Rockman, citando litígios pendentes.

O E.P.A. Sede em Washington. Credito: Victor J. Blue para o New York Times

Patrick Gonzalez, o principal cientista de mudanças climáticas do Serviço Nacional de Parques, solicitou a aprovação de políticas em março de 2018 para publicar um artigo com base na análise de mais de um século de dados climáticos em 417 parques nacionais.

Seu supervisor não conseguiu superar a frase de abertura: “As mudanças climáticas antropogênicas estão alterando os sistemas ecológicos e humanos globalmente”.

“Sem ler mais o manuscrito, ela disse: ‘Vou ter que pedir para você mudar isso'”, lembrou Gonzalez. Ele disse em uma entrevista que estava falando por sua própria capacidade e não em nome do governo federal.

E-mails e outros documentos mostram que Gonzalez procurou John Dennis, o vice-cientista chefe da agência, para protestar. Dr. Dennis incentivou o compromisso.

Os documentos mostram que o Dr. Dennis destacou a frase “antropogênica” ou causada por humanos. “Essa palavra é necessária aqui para a tese científica básica do artigo – que eu interpreto como ‘a mudança climática já revelou ter tido grandes impactos nos parques?'”, Perguntei.

“Do ponto de vista político, pode ser muito forte para uma pessoa do DOI dizer ‘mudança climática antropogênica'” “, escreveu Dennis, sugerindo” mudança climática impulsionada por dióxido de carbono “.

Gonzalez se recusou a fazer a alteração e, após três meses, a agência recuou. O estudo foi publicado na revista Environmental Research Letters, em setembro de 2018, sem alterações.

Conner Swanson, porta-voz do Departamento do Interior, disse que a pesquisa de Gonzalez se refere à “adaptação à mudança climática em vez de causa da mudança climática e, como resultado, a integridade da ciência não exigia a discussão da causa da mudança climática em uma situação em que esse uso pode desviar a atenção das descobertas científicas do artigo. ”

No mesmo verão, o Serviço de Parques tentou excluir todas as menções ao papel da humanidade nas mudanças climáticas em um relatório sobre a elevação do nível do mar. Seu principal autor, Dr. Caffrey, contestou. Foi lançado após mais de um ano de atraso sem as tentativas de edição. Dr. Caffrey, no entanto, disse que ela foi demitida antes de sua posição ser eliminada.

Gonzalez disse que estava correndo o risco de contar sua história. Mas eu disse: “Pretendo servir como um exemplo positivo de defender fortemente a ciência”.