Redes sociais, ditaduras e liberdade de expressão

Os recentes acontecimentos na Tunísia e no Egito, além de porem fim a ditaduras hereditárias, vieram demonstrar a importância das mídias sociais como instrumento relevante na mobilização das massas a revelia da censura impostas pelos déspotas.

Nesse contexto, as novas tecnologias, notadamente celulares e internet, tornam obsoletas as truculentas tentativas das ditaduras de impor censura.

Redes sociais como o Twitter e o Facebook estão cada vez mais burlando o autoritarismo dos Estados com governos assentados no autoritarismo.

A geração que cresceu com essas novas mídias, faz fotos dos protestos nas ruas, grava declarações e testemunhos dos manifestantes, e posta tudo no Facebook e/ou Twitter, tornando obsoleto o cerceamento a informação imposto pelos ditadores de plantão.

Segundo a empresa de pesquisas comScore, dos estimados 2 bilhões de internauta em todo o mundo, 72% participam de alguma rede social.

Para se ter idéia do tamanho da “encrenca” armada contra os ditadores e demais “donos oficiais da verdade”, somente o Facebook tem 596 milhões de usuários, os quais compartilham mensalmente 30 bilhões de notícias, fotos, links e vídeos.

O Editor


Censura: USA Hillary anuncia US$ 25 milhões para ajudar internautas a driblar censura

Dias depois de Facebook e Twitter ajudarem a mobilizar manifestantes no Egito, os Estados Unidos anunciaram uma nova política para a liberdade na internet, injetando mais US$ 25 milhões este ano para ajudar cyber dissidentes a burlar a censura on-line.

Na Universidade George Washington, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que os EUA vão aumentar seus apelos por direitos humanos e democracia.

Na semana passada, o governo americano já havia lançado posts no Twitter em árabe e farsi, e agora vai mirar também em internautas em China, Rússia e Índia.

Hillary sugeriu que governantes repressores poderiam ter o mesmo destino de Hosni Mubarak.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

– A História nos mostra que a repressão lança as sementes para a revolução – disse Hillary.

– Aqueles que ergueram barreiras contra a liberdade na internet vão acabar se vendo encurralados. Vão enfrentar o dilema do ditador, e terão que escolher entre deixar as paredes caírem ou pagar o preço para mantê-las de pé.

Esse preço, segundo ela, tanto pode ser a opressão maior quanto se fechar a novas ideias econômicas e políticas.

Em seu segundo grande discurso sobre internet, Hillary disse que as manifestações mobilizadas pela rede em Egito, Tunísia e Irã mostram que os governos não podem escolher que liberdades oferecer aos cidadãos.

Os US$ 25 milhões vão se somar aos US$ 20 milhões já destinados a tecnologias, ferramentas e treinamento para derrubar barreiras impostas por governos repressores.

Segundo Hillary, os EUA veem a liberdade na internet como um direito, embora lide com as consequências, como o vazamento de documentos pelo grupo WikiLeaks.

Ela defendeu a busca de um código de conduta, sem limitar a liberdade.

– O Irã não é terrível porque as autoridades usaram o Facebook para capturar membros da oposição.

É terrível porque seu governo rotineiramente viola os direitos de seu povo.

O Globo

Mubarak, Facebook e Twitter

Manifestantes contra Mubarak em frente a "pichação social"

Como o Facebook e o Twitter ajudaram a derrubar o presidente do Egito

Para especialistas, redes sociais tiveram papel essencial na saída de Mubarak do poder no país e saem do episódio com imagem fortalecida.

Com a saída de Hosni Mubarak da presidência do Egito na sexta-feira (14/2), analistas e alguns manifestantes locais afirmaram que o político ainda estaria no poder se não fosse pela força dos sites de redes sociais.

Após 18 dias de protestos tumultuados e recusas de deixar uma posição que ocupava havia cerca de 30 anos, Mubarak entregou o poder para líderes militares do país no fim de semana.

Durante um período de agitação em que o regime do ex-presidente desconectou o Egito da Internet por vários dias, sites de redes sociais como Facebook e Twitter serviram como ferramentas essenciais para as pessoas que queriam derrubar o ditador.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, destacou o papel da tecnologia nessa mudança e elogiou os cidadãos egípcios que usaram “sua criatividade, talento e tecnologia para clamar por um governo que representasse suas esperanças e não seus medos.”

“Eu certamente penso que ele (Mubarak) não teria saído da presidência se não fosse pelas ferramentas de redes sociais”, disse o analista principal da empresa Current Analysis, Brad Shimmin.

“Penso que eles queriam que todas as atenções fossem desviadas dessa revolta, mas as tentativas de bloquear o acesso à Internet falharam.”[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

“Por causa disso, Mubarak e seu regime sentiram que eles não tinham outra alternativa a não ser sair do poder.”

Olho no Facebook

Quando os egípcios que queriam Mubarak fora do poder começaram a se mobilizar, eles se viraram para as redes sociais, mais especificamente o Facebook.

Há cerca de três anos, um ativista egípcio iniciou uma página do movimento de 6 de abril no site criado por Mark Zuckerberg para apoiar os trabalhadores em greve no país. Desde então, a página já conseguiu reunir mais de 60 mil membros preocupados com problemas como liberdade de expressão, a economia ruim do país e frustração com o governo.

Além disso, ativistas daquele país também criaram uma página no Facebook para o ativista e blogueiro Khaled Said, que teria sido espancado até a morte pela polícia local no ano passado.

O que é especialmente interessante sobre isso é que os ativistas egípcios não estavam simplesmente buscando que as pessoas “curtissem” suas páginas de protesto ou dar a elas um lugar para expor suas frustrações. Eles usaram os sites de redes sociais para engajar as pessoas – para motivá-las a entrar em ação, não apenas online, mas no mundo real.

De alguma maneira, os egípcios parecem ter sido influenciados pelo participação de Obama nas redes sociais. O atual presidente norte-americano usou com sucesso sites de redes sociais, como Facebook, YouTube e Twitter, para ajudar sua campanha presidencial em 2008. E os membros de sua equipe sabiam que não era suficiente que seus eleitores simplesmente “curtissem” sua página no Facebook ou seguissem seus tweets de campanha. Eles precisavam usar as mídias sociais para estimular ações reais no mundo real.

E é isso o que fizeram os líderes manifestantes no Egito. Eles reuniram pessoas para protestar usando Twitter e mensagens de texto. Eles clamaram por ação em páginas do Facebook.

“As redes sociais claramente têm sido um catalisador e um acelerador”, disse o analista da Gartner, Ray Valdes. “Claramente, eles pensam que o Facebook teve um papel. Existem pessoas de todas as classes sociais nas ruas demonstrando isso e elas estão carregando cartazes em referência ao Facebook.”

Já o analista da Forrester, Augie Ray, alega que, apesar de as redes sociais não terem sido a base para essa revolução no Egito, foram sim uma parte essencial de sua infraestrutura.

“As mídias sociais não foram a faísca que criou essa revolução egípcia, mas uma vez que essa descarga elétrica chegou aos canais sociais, a habilidade de se comunicar em tempo real e alcançar grandes números de pessoas sem nenhum custo foi sem dúvida um fator significativo que contribuiu para que as demonstrações egípcias se espalhassem e fossem mantidas”, disse Ray.

“Páginas do Facebook foram usadas para informar e criar insatisfação. O Twitter foi usado para coordenar esforços e o YouTube ajudou a espalhar a palavra.”

Essa força causou muitas perturbações ao governo de Mubarak.

“É preciso dizer que o governo do Egito claramente temeu como essas ferramentas estavam sendo usadas baseado em suas ações para bloquear o acesso (à Internet)”, explica Ray. “E é importante não deixar passar o papel das mídias sociais em fornecer suporte no mundo todo.”

Shimmin também notou que os eventos no Egito terão um efeito imediato na imagem das redes sociais.

“Esse não é mais apenas um lugar para compartilhar fotos de bêbados em uma festa”, disse. “É um meio de se comunicar de uma maneira que você não podia antes e que dá às pessoas um senso de solidariedade

Por IDG News Service/EUA

Egito e o declínio do extremismo

‘O extremismo está em declínio’, diz historiador

O historiador e cientista político francês Jean-Pierre Filiu, professor visitante na Universidade Columbia, em Nova York, afirma que vitória de revoluções pacíficas e democráticas em países árabes como Egito e Tunísia é a derrota da al-Qaeda e do movimento jihadista.

“É uma catástrofe para a al-Qaeda. Todas as coisas pelas quais os manifestantes lutam são anátema para os jihadistas: eleições livres, transparência, poder para o povo”, diz Filiu, autor dos livros “O apocalipse do Islã” e “As fronteiras da jihad” (Editora Fayard).

Para o historiador, especialista em jihadismo, a ideia de que o Oriente Médio é refém da alternativa entre as últimas ditaduras e regimes extremistas islâmicos é completamente equivocada. Segundo ele, o extremismo está em declínio.

Filiu acredita que a “pedagogia do pluralismo” de uma coalizão será benéfica para a Irmandade Muçulmana. “Ser minoria faz muito bem à cabeça e ao coração de gente que é um pouco rígida”, diz.

Professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, Filiu, de 49 anos, viveu durante 20 anos no Oriente Médio. Em Nova York, ele trabalha no seu próximo livro, “A revolução árabe: 10 lições sobre o levante democrático”, e atende com um sorriso de alívio os alunos.

“Quando esses meninos me procuravam, eu sentia tanta pena deles, iam passar 20 anos com Mubarak, com a polícia secreta, o medo; agora eles participam da festa nas ruas do Egito.”[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A outra diferença é que seus colegas não torcem mais o nariz quando Filiu manda os alunos pesquisarem no Facebook.

O que o senhor espera ver no Oriente Médio nas próximas semana e meses? O senhor acredita que o exemplo dado pelo Egito tenha ressonância e se repita em outros países da região rapidamente?

O que acontece sempre que você está diante de um momento histórico é que nada do passado pode ser usado para interpretar ou analisar o que é radicalmente novo. Não acredito em efeito dominó. A comparação com a queda do Muro de Berlim em 1989 não é válida, porque ali havia um comando central, a União Soviética, e o fato de que a União Soviética estava se desmantelando levou mecanicamente à liberação de todos aqueles países.

No caso atual, temos a sociedade civil confrontando o regime, com uma coragem incrível, e temos um processo de emulação. As duas revoluções, na Tunísia, e no Egito, têm um enorme poder de emulação porque o medo foi derrotado, e o povo descobriu que aquilo com o que sonhava é possível.

São eventos de uma magnitude tal que serão sentidos em toda a região, mas isso não significa que a cada semana, ou a cada mês outro regime cairá. O que é certo é que se trata de uma nova era, e nesta nova era os governantes sabem que o tempo de impunidade absoluta acabou.

Olhando para o futuro, o senhor vê candidatos a presidente surgindo com força, como Amr Moussa, que anunciou sua renúncia da presidência da Liga Árabe ou o prêmio Nobel Mohamed ElBaradei? O senhor acha que os partidos de oposição conseguirão se organizar a tempo para a eleição?

Não devemos olhar para isso com olhos do passado. A era dos líderes salvadores terminou. Esses jovens não querem um líder, um modelo.

Mas alguém terá que assumir o poder, não?

Este problema é nosso, não deles. Nosso problema, nossa ansiedade, é ver alguém no lugar de Mubarak. Os egípcios não estão nem aí. Eles não fizeram esta revolução para substituir um Mubarak por outro. Se não entendermos esta mensagem, estaremos interpretando o movimento de uma maneira totalmente errada.

Se houver pressa em chegar a uma conclusão de que agora é ElBaradei ou Moussa, corre-se o risco de cair nos mesmos erros do passado. Temos que entender que essa geração é jovem não apenas porque usa o Facebook ou o Twitter, ela é jovem porque não quer um pai que diga a ela o que é certo e o que é errado. A questão mais importante, para eles, certamente não é ter um líder.

Tudo tem que ser reconstruído. Vai levar muito tempo, não se constrói um partido político ou um sindicato num piscar de olhos, nem mesmo uma ONG. Eles querem imediatamente o fim do estado de emergência, que gera vulnerabilidade a todos.

Mas não estão correndo para encontrar um salvador. Eles estão sendo muito maduros, querem antes desmanchar esse aparelho de repressão. Para eles, o mais importante é a eleição para o Parlamento, não o voto para presidente. É fascinante ver como essa pressa vem de fora, não de dentro do Egito.

Um dos motivos pelos quais os países ocidentais têm pressa é o medo que o extremismo cresça no Oriente Médio. Mas o senhor escreveu que a vitória de movimentos pacíficos na região vai desestabilizar a al-Qaeda, certo?
Fernanda Godoy/O Globo

É uma catástrofe para a al-Qaeda. Em primeiro lugar, porque o movimento pela democracia é um sucesso, e eles são um fracasso. O que a al-Qaeda conseguiu em 20 anos? Nada. Pior do que nada: conseguiu guerra civil no Iraque, guerra civil no Paquistão, ocupação prolongada no Afeganistão.

Do outro lado, um movimento pacífico, sem motivação islâmica, sem bandeira verde, e, em menos de um mês, o ditador caiu. Em segundo lugar, todas as coisas pelas quais os manifestantes lutam são anátema para os jihadistas: eleições livres, transparência, responsabilidade dos governantes, poder para o povo. A al-Qaeda está tão chocada que não consegue dizer uma palavra, e, quando diz algo, é terrível.

O braço iraquiano da al-Qaeda divulgou um comunicado no dia 8 de fevereiro insultando os manifestantes egípcios, por “adorar os ídolos podres do patriotismo e da democracia infiel”. Eles não podem estar mais fora de contato com a realidade. Eles sempre disseram que esses regimes não importavam, que eles tinham que atacar o inimigo distante, o World Trade Center, para desestabilizar o Egito ou outros países.

E aqui temos uma revolução feita pelo povo, genuinamente local, dizendo ao Ocidente: “Não interfiram, não estamos pedindo sua ajuda.” Esse movimento tem um grande potencial para amizade e até aliança com o Ocidente. Ele é o oposto do jihadismo, e funcionou. Mas não dou a al-Qaeda por terminada, eles mostraram capacidade de se renovar muitas vezes.

Depois do sucesso da revolução, se esses governos eleitos livremente trouxerem melhores condições de vida às pessoas, o extremismo ficará mais debilitado?

Precisamos prestar atenção em duas coisas: o jihadismo está em alerta e vai aproveitar qualquer oportunidade para se relançar. A oportunidade para eles é a repressão, é um banho de sangue. Eles podem tentar provocações, como o assassinato de um líder de um movimento democrático que provocasse uma dinâmica de confronto. Agora é o momento de deter esse tipo de provocação contra-revolucionária, porque isso poderia abrir um ciclo de violência que poderia botar o processo democrático em risco.

E a Irmandade Muçulmana?

A Irmandade Muçulmana sabe que tem que ser uma aliada da coalizão. A questão não é apenas paz versus violência. A questão é a pedagogia do pluralismo. Ser minoria faz muito bem à cabeça e ao coração de gente que é um pouco rígida. Numa coalizão você tem que negociar e se dá conta de que não é o dono da verdade.

Abaixo da superfície, a Irmandade é muito diversificada, e, no momento em que entrar numa coalizão, a diversidade dessas cores vai aparecer. É claro que haverá tensões, mas, se o processo evoluir bem, essa tendência democrática dominará a radical. O modelo é a Turquia, que obteve sucesso nessa processo.

Por que o senhor acha que ouvimos, durante os 18 dias de protestos, tantas expressões de preocupação e de medo no Ocidente, e não tantas de esperança? Na sexta-feira, o chanceler de Portugal, Luís Amado, disse na ONU que a Europa deveria se preparar para um Egito islamizado, e aceitar isso sem medo.

A ideia de que a alternativa é entre autoritarismo e islamização é completamente errada. Já estamos no pós-Islã. Mas como estamos sempre atrasados, muitas pessoas estão dizendo, com boas intenções, que, afinal de contas, a islamização não é tão má, mas essa não é a questão! Acabou! O problema do debate sobre o Islã no Ocidente é tão marcado por clichês e preconceitos. As pessoas misturam tudo: o véu, a política, sharia, tudo. No mundo muçulmano, as pessoas querem ter mais Islã em suas vidas: comida islâmica, banco islâmico, um monte de coisas, mas isso não significa que queiram um governo islâmico.

Foi positivo para o movimento que a vitória não tenha dependido de ajuda externa?

Claro. A atitude ideal para quem está de fora é uma neutralidade benevolente, mas tem que ser benevolente.

E talvez a contribuição mais importante do Ocidente tenha sido pressionar o Exército para que não houvesse uma repressão violenta, não?

Sim, e a mesma coisa aconteceu na Tunísia. Mas isso não é interferência, é abrir o campo das possibilidades. Não é mandar um avião para retirar Mubarak, como já aconteceu no passado. De qualquer forma, estamos no amanhecer de algo muito diferente. Seja graças aos EUA ou não, para esses ditadores o jogo acabou.

O fato de que essa geração tem acesso à mídia ocidental, de que as pessoas tenham ficado felizes com a cobertura, tenham beijado e agradecido a repórteres de emissoras americanas nas ruas, isso muda algo na relação com o Ocidente?

O ambiente é muito positivo, porque houve neutralidade e houve empatia. Em segundo lugar, porque houve um eco do que foi mostrado no Ocidente pela mídia, que fez um trabalho maravilhoso. Mas não somos o centro do mundo. O que a mídia ocidental fez é o que a Al Jazeera vem fazendo há dez anos.

Os herois das ruas árabes, os que são festejados e protegidos pelos manifestantes são os repórteres da Al Jazeera. São eles que estão na vanguarda. Mas o potencial para amizade é enorme. Hospitalidade é a chave para esses países. O conceito de xenofobia é totalmente estranho à essa civilização, é uma cultura da generosidade.

O senhor acha que a Argélia é agora o país mais vulnerável?

Acho que a Argélia é a chave para muitas questões, porque foi na Argélia que parte dos sonhos que vemos hoje foi enterrada com um banho de sangue. A ideia de alternativa entre ditadura e islamização vem da suspensão do processo eleitoral na Argélia, em janeiro de 1999. Argélia é a chave para mostrar que outro futuro é possível, diferente dessa alternativa terrível. É isso o que os manifestantes na Argélia estão dizendo.

Mas, quando um regime é capaz de sobreviver quase intocado a um pesadelo desses, é claro que ele tem muita capacidade de se regenerar e cooptar. O Iêmen vai ter que se ajustar, e o presidente já disse que não vai concorrer de novo. A ideia de transmissão de poder de pai para filho acabou em todos os lugares.

Na Jordânia, a demanda principal é ter um primeiro-ministro escolhido pelo Parlamento, não pelo rei. E a Líbia está ansiosa, mas é um país tão opaco, nunca se sabe. Mas, com certeza, entre e o Egito e a Tunísia, eles não estão conseguindo dormir.

Fernanda Godoy/O Globo

Internet: como o Egito desligou a web

Saiba como o Egito se desligou da web, e o que é feito para furar bloqueio

Internet foi criada para sobreviver a ataque nuclear, mas pode ser ‘fechada’.

País tem rede pequena e provedores cooperaram com governo.

Alguns telefonemas.

É o que especialistas apostam ter sido suficiente para derrubar a internet no Egito.

O país tem poucas das chamadas redes autônomas (AS, na sigla em inglês), que são as pequenas redes que, quando conectadas entre si, formam a internet.

Existem ainda menos provedores internacionais que conectam o país.

Desconectar o Egito, portanto, não foi difícil.

O Egito possui cerca de 3500 redes, mas apenas seis provedores internacionais.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Os quatro maiores provedores do Egito foram os primeiros a parar suas atividades após o pedido do governo.

Os demais acabaram recebendo o tráfego extra, mas logo se viram sobrecarregados e também sob pressão até que o último provedor, Noor, foi desligado nesta segunda-feira (31).

O Noor ligava companhias ocidentais à internet e também a bolsa de valores do país, que agora se encontra off-line.

Gráfico mostra queda no número de redes egípcias visíveis internacionalmente (Foto: Reprodução/Ripe.net)

O bloqueio é possível graças ao protocolo Border Gateway Protocol (BGP). O BGP é o “idioma” que os provedores de internet usam para falar entre si, identificando congestionamentos na rede e vias de acesso (rotas) para vários pontos do mundo.

Um provedor precisa continuamente anunciar que sua rede existe e como é possível chegar até ela para que todos os demais usuários na internet conheçam o “caminho”. Se o BGP for parado ou começar a enviar dados de rotas falsas ou retiradas, não será mais possível chegar ao destino desejado. Foi o que aconteceu no Egito.

Outro bloqueio realizado no Egito foi o do Sistema de Nomes de Domínio (DNS, na sigla em inglês). O DNS é a lista telefônica da internet, convertendo nomes como “globo.com” em números que os computadores podem usar para se conectar. O bloqueio de DNS é mais simples de burlar, porém, e por isso os provedores no país passaram a usar o BGP para tirar o país da internet completamente.

A Vodafone, um dos provedores atuantes no Egito que foi forçado a derrubar sua rede, confirmou a existência da solicitação do governo. “Gostaríamos de deixar claro que as autoridades no Egito tem a capacidade técnica para fechar nessa rede”, comunicou a empresa, que ainda disse ser obrigada a acatar as decisões do governo. “Está claro para nós que não há opções legais ou práticas abertas para a Vodafone ou qualquer outra operadora de telefonia móvel no Egito”.

Lei para desconectar a internet

Está em discussão no congresso norte-americano um projeto de lei que iria dar ao governo a capacidade de retirar a internet do país do ar “em casos de emergência”. O projeto é justificado pelas recentes preocupações a respeito de ciberguerra.

Ativistas apontam que o governo poderia abusar dessa capacidade em situações como a do Egito e temem a aprovação do projeto. “É muito ruim para a Internet e pior ainda para a economia de qualquer Estado que hoje dependa da rede para suas transações comerciais”, afirma Frederico Neves, diretor de tecnologia do Nic.br, que atua na coordenação das redes de internet do Brasil.

“O trânsito internacional [de internet brasileira] é provido majoritariamente por cerca de 20 redes autônomas. Elas têm o transporte de dados até o exterior prestado por quatro principais cabos submarinos e uma pequena porcentagem por sete operadores de satélites”, informa o diretor.

“Em um estado de direito, com respeito às atuais garantias constitucionais, não é concebível a interrupção do serviço. Desconhecemos qualquer dispositivo legal que permita este tipo de ação que no nosso caso precisaria ser executada nessas 20 redes para a interrupção de seus anúncios de rotas pelo protocolo BGP”, explica Neves.

Se o governo, ou outra entidade ou indivíduo interferisse na operação dos quatro cabos submarinos que conectam o Brasil, toda a comunicação do país iria sofrer – inclusive a telefonia comum. Tal interferência, no Egito, teria de ocorrer nos cabos submarinos no canal de Suez. Segundo Neves, isso teria consequências para a comunicação de todo o oriente médio.

Bloqueio burlado

Embora a comunicação com a internet tenha sido cortada pela retirada das rotas ao Egito por meio do BGP, os cabos de rede permanecem ativos e eles também são usados para serviços analógico, como a telefonia. E a telefonia permite o acesso à internet discada.

O acesso à internet discada pode ser feito com números internacionais. Um egípcio discando um número de internet dos Estados Unidos estará usando a infraestrutura de telefonia do Egito, mas a infraestrutura de internet dos Estados Unidos. Como a telefonia do país está em pleno funcionamento, esse tipo de acesso ainda é possível.

Voluntários e provedores europeus têm criado números de acesso discado destinado aos egípcios que buscam alguma conectividade com a rede, embora ela seja cara por necessitar uma discagem internacional.

Listas com esses números circulam no país com a ajuda de organizações voluntárias, segundo a BBC. Poucos egípcios podem realizar chamadas internacionais, no entanto.

O grupo de ativistas “Anonymous” está enviando para escolas egípcias, via fax, cópias dos telegramas norte-americanos envolvendo o Egito que foram vazados pelo Wikileaks. Os documentos contêm informações que comprometem o regime do presidente Hosni Mubarak, que está no poder há 30 anos.

Um documento na internet lista 20 maneiras de burlar o bloqueio egípcio. Além de conter números antigos de acesso à internet no Egito e novos números disponibilizados por voluntários fora do país, a lista ainda fornece frequências de rádio amador.

O Google liberou o Speak2Tweet que converte mensagens deixadas na caixa postal de voz do serviço em uma postagem no microblog Twitter.

Altieres Rohr/G1

Google Twitter se aliam no Egito contra a ditadura

Google e Twitter se aliam para colaborar com egípcios

Companhia cria ferramenta para ‘tuitar’ mensagens de voz dos egípcios

O Google anunciou nesta segunda-feira que desenvolveu uma ferramenta para que os cidadãos egípcios possam seguir com o Twitter, apesar de as autoridades do país terem interrompido a telefonia móvel e os serviços de internet.

A companhia colocou à disposição três telefones internacionais nos quais os usuários podem deixar uma mensagem de voz que o serviço instantaneamente “tuitará” com o tema #egypt.

Para a criação do projeto, o Google trabalhou durante o fim de semana junto a um grupo de engenheiros do Twitter e do SayNow, empresa que a gigante da tecnologia adquiriu recentemente.

Com o sistema, não é preciso internet e os interessados podem escutar as mensagens chamando os mesmos números de telefone disponibilizados ou visitando a página twitter.com/speak2tweet desde qualquer ponto de mundo.

“Esperamos que isto de alguma maneira ajude o povo no Egito a permanecer conectado neste momento tão difícil”, indicou a companhia.

Estado de S.Paulo


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