Covid-19, menu degustação da crise climática

O abismo no qual um coronavírus precipitou muitos países ilustra o custo humano da negligência em relação a um perigo já perfeitamente identificado.

Evocar o destino não pode esconder o óbvio: prevenir é melhor que remediar. Os adiamentos atuais na luta para mitigar o aquecimento global, porém, podem levar a fenômenos muito mais dramáticos. Em março de 2020, a crise da saúde relegou as notícias sobre o clima para longe das manchetes. No entanto, este mês será marcado como o décimo consecutivo com uma temperatura média acima do normal na França. “Uma série de dez meses ‘quentes’ consecutivos em escala nacional é sem precedentes”, observa a Météo France, cujos dados permitem voltar até 1900.

O inverno passado bateu todos os recordes, com temperaturas 2 °C acima do normal em dezembro e janeiro e 3 °C em fevereiro. Como forma de se tranquilizar, as pessoas preferiram lembrar a espetacular melhoria na transparência atmosférica. Vislumbres de esperança: o Himalaia tornou-se de novo visível no horizonte de cidades do norte da Índia, assim como o Mont Blanc nas planícies de Lyon.

Não há dúvida de que a interrupção de grande parte da produção levará a uma redução sem precedentes nas emissões de gases de efeito estufa. Mas podemos realmente acreditar que um declínio histórico vai começar? Ao revelar a vulnerabilidade de nossa civilização e as fragilidades associadas ao modelo de crescimento econômico globalizado, por causa da hiperespecialização e dos fluxos incessantes de pessoas, bens e capitais, a Covid-19 causará um eletrochoque salutar? A crise econômica e financeira de 2008 também gerou uma queda significativa nas emissões, mas em seguida elas rapidamente voltaram a subir, quebrando novos recordes…

Prenúncio de possíveis colapsos mais sérios, o atual naufrágio sanitário pode ser visto ao mesmo tempo como um modelo em escala e como uma experiência acelerada do caos climático que se aproxima. Antes de se tornar um problema de saúde, a multiplicação de vírus patogênicos remete também a uma questão ecológica: o efeito das atividades humanas na natureza.2 A exploração interminável de novas terras perturba o equilíbrio do mundo selvagem, enquanto a concentração de animais nas fazendas favorece as epidemias.

O vírus afetou primeiro os países mais desenvolvidos, porque sua velocidade de propagação permanece intimamente ligada às redes de comércio marítimas e sobretudo aéreas, cujo desenvolvimento constitui igualmente um dos vetores crescentes das emissões de gases de efeito estufa. A lógica do curto prazo, do just in time, e a extinção das precauções mostram a capacidade autodestrutiva aos seres humanos da primazia concedida ao ganho individual, à vantagem comparativa e à competição.

Ainda que certas populações ou regiões se mostrem mais vulneráveis que outras, a pandemia afeta gradualmente todo o planeta, assim como o aquecimento global não se limita aos países que emitem mais CO2. A cooperação internacional se torna então essencial: frear o vírus ou as emissões de gases do efeito estufa localmente será inútil se o vizinho não fizer o mesmo.

Difícil fingir ignorância diante do acúmulo de diagnósticos. A intensidade da pesquisa e do debate científico tornou a maioria das informações acessíveis, e a precisão destas está sendo constantemente refinada. No caso da Covid-19, vários especialistas alertam sobre ela há anos, em particular o professor Philippe Sansonetti, docente do Collège de France, que apresenta a emergência infecciosa como um grande desafio do século XXI.

Não faltaram alarmes claros: vírus da influenza como o H5N1 em 1997 e o H1N1 em 2009; coronavírus como o COV-1 em 2003, depois o Mers em 2012. Da mesma forma, o relatório Charney, enviado ao Senado dos Estados Unidos há quarenta anos, já alertava sobre as possíveis consequências climáticas do aumento da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera. As estruturas multilaterais de compartilhamento de conhecimento e ação conjunta existem há cerca de trinta anos, com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e, depois, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Finalmente, os cientistas não evitam esforços para informar os tomadores de decisão e as empresas sobre a ameaça de um aquecimento que se acelera.

Os cenários de crise também são conhecidos. Muito rapidamente após o aparecimento da Covid-19, vários pesquisadores e autoridades de saúde alertaram para o perigo de uma pandemia. A ironia da situação é que, em meados de abril de 2020, os países menos afetados são os vizinhos mais próximos da China: Taiwan, seis mortos; Cingapura, dez mortos; Hong Kong, quatro mortos; Macau, zero. Escaldados pelo episódio da Sars em 2003 e conscientes do risco da epidemia, eles imediatamente colocaram em prática as medidas necessárias para reduzi-la: controles sanitários nas entradas, testes em quantidade, isolamento de pacientes e quarentena para os potenciais contaminados, uso generalizado de máscara etc.Aquecimento Global,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 01

Na Europa, os governos continuaram a administrar o que consideravam suas prioridades: reforma previdenciária na França, Brexit do outro lado do Canal da Mancha, crise política quase perpétua na Itália… Então, para as semanas que estavam por vir, eles prometeram ações ou meios que já deveriam ter aplicado meses antes! Esse descuido os levou a tomar medidas muito mais drásticas que aquelas que poderiam ter sido suficientes no devido tempo, não sem maiores consequências no plano econômico, social ou das liberdades públicas. Sempre deixando para amanhã o cumprimento de seus compromissos assumidos em 2015 no âmbito do Acordo de Paris sobre o clima – ou negando a assinatura dele por seu país, como fez o presidente norte-americano –, os Estados procuram ganhar tempo. Na verdade, eles o estão perdendo!

Cavando nossa dívida ambiental

A súbita aceleração experimentada pela propagação do vírus na Europa antes do confinamento deveria deixar uma impressão duradoura nas pessoas. Os sistemas naturais raramente evoluem de maneira linear em resposta a distúrbios significativos. Nesse tipo de situação, é preciso saber detectar e levar em consideração os primeiros sinais de desequilíbrio antes de se confrontar com acelerações incontroláveis que podem levar a pontos de não retorno. Quando cuidadores ou funcionários de casas de repouso, deixados sem proteção e sem rastreamento, tornam-se eles próprios portadores do vírus, isso cria focos de contaminação em ambientes altamente sensíveis, que podem levar ao colapso dos sistemas de saúde, o que impõe um confinamento generalizado.

Da mesma forma, em termos de mudança climática, efeitos de retardo e retroações positivas – efeitos de retorno que amplificam a causa de partida – aprofundam nossa dívida ambiental, como um tomador de empréstimo sem dinheiro cujos novas contratações para pagar uma dívida antiga seriam feitas a uma taxa cada vez mais alta. A diminuição da cobertura de neve e o derretimento das geleiras se traduzem no desaparecimento de superfícies que refletem naturalmente a radiação solar, criando condições para uma aceleração do aumento da temperatura nas regiões envolvidas, resultando em um derretimento ainda mais reforçado que alimenta ele próprio o aquecimento. Assim, o derretimento do permafrost do Ártico – que cobre uma área duas vezes maior que a Europa – poderia levar a emissões maciças de metano, um poderoso gás de efeito estufa que multiplicaria por dez o aquecimento global.

Parte crescente da população sente a urgência de agir, faz suas próprias máscaras, organiza ajuda para os idosos. Mas qual é o sentido de pedalar, fazer compostagem ou reduzir seu consumo de energia quando o uso de combustíveis fósseis ainda é amplamente subsidiado e sua extração alimenta o aparato de produção e os números do “crescimento”? Como sair do repetitivo fenômeno das crises amplificado pelo discurso político-midiático: negligência, agitação, terror e depois esquecimento?Aquecimento Global,Meio Ambiente,Poluição

Porque existem duas diferenças fundamentais entre a Covid-19 e as mudanças climáticas: uma diz respeito às possibilidades de regular o choque sofrido, e a outra, à nossa capacidade de se adaptar a ele. A autorregulação das epidemias por aquisição de imunidade coletiva não faz da Covid-19 uma ameaça existencial para a humanidade, que já superou a peste, o cólera ou a gripe espanhola em condições sanitárias mais difíceis.

Com uma taxa de mortalidade provavelmente situada em torno de 1% – bem inferior a outras infecções –, a população do planeta não está ameaçada de extinção. Além disso, e mesmo que tenham sido negligentes no início, os governos dispõem do conhecimento e das ferramentas apropriadas para vir em socorro dessa autorregulação natural e diminuir o choque.

Relativamente circunscrita, a crise da Covid-19 pode ser comparada em sua dinâmica aos incêndios que queimaram a floresta australiana em 2019. Há um começo e um fim, embora este último atualmente seja muito difícil de definir e um retorno sazonal da epidemia não esteja descartado. As medidas adotadas para se adaptar a ela são relativamente bem aceitas pela população, desde que sejam percebidas como temporárias.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

Por outro lado, a inação em questões climáticas nos fará sair dos mecanismos de regulação sistêmicos, levando a danos graves e irreversíveis. Podemos esperar uma sucessão de choques variados, cada vez mais fortes e frequentes: ondas de calor, secas, inundações, ciclones, doenças emergentes. O gerenciamento de cada um desses choques se assemelhará ao de uma crise de saúde do tipo Covid-19, mas sua repetição nos fará entrar num universo no qual as tréguas se tornarão insuficientes para se recuperar. Imensas áreas com uma grande parte da população mundial se tornarão inviáveis para viver ou simplesmente não mais existirão, pois serão invadidas pela subida do nível das águas.

É todo o edifício de nossas sociedades que está ameaçado de colapso. O acúmulo de gases de efeito estufa em nossa atmosfera é ainda mais deletéria pelo fato de que o CO2, o mais difundido deles, só desaparecerá muito lentamente, com 40% permanecendo presente na atmosfera após cem anos e 20% após mil anos.

Cada dia perdido em reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis torna ainda mais caras as ações a serem tomadas no dia seguinte. Cada decisão rejeitada como “difícil” hoje levará a decisões ainda mais “difíceis” amanhã, sem esperança de “cura” e sem outra escolha a não ser adaptar-se, seja qual for o caso, a um novo ambiente, cujo funcionamento teremos dificuldade para dominar.

Devemos afundar no desespero enquanto aguardamos o apocalipse? A crise da Covid-19 ensina, pelo contrário, a imperiosa utilidade da ação pública, mas também a necessária ruptura com a marcha anterior. Após uma aceleração tecnológica e financeira predatória, esse tempo suspenso se torna um momento de tomada de consciência coletiva e de questionamento de nosso modo de vida e de nossos sistemas de pensamento.

O vírus Sars-COV-2 e a molécula de CO2 são objetos nanométricos, invisíveis e inodoros para o comum dos mortais. No entanto, sua existência e seu efeito (patogênico em um caso; criador do efeito estufa no outro) são amplamente aceitos, tanto pelos tomadores de decisão como pelos cidadãos. Apesar da inconsistência do que os governos apregoam, o essencial da população rapidamente compreendeu as questões envolvidas e a necessidade de certas medidas de precaução. A ciência representa nos tempos atuais um guia precioso para a decisão, com a condição de não se tornar uma religião que foge das necessidades de demonstração e de contradição. E a racionalidade deve mais do que nunca levar à exclusão de interesses particulares.

Decrescimento de produtos insustentáveis

Todos os países dispõem de reservas estratégicas de petróleo, mas não de máscaras de proteção… A crise da saúde coloca em primeiro plano a prioridade que deve ser dada aos meios de subsistência: alimentação, saúde, moradia, meio ambiente, cultura. Ela também lembra a capacidade da maior parte das pessoas de entender o que acontece por vezes mais rapidamente que os tomadores de decisão. As primeiras máscaras caseiras apareceram assim, quando a porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye, ainda considerava seu uso inútil…

Por outro lado, parecemos mais bem preparados para reagir a ameaças concretas imediatas que para construir estratégias que nos permitam fazer frente aos riscos mais distantes, com efeitos ainda pouco perceptíveis.5 Daí a importância de uma organização coletiva motivada apenas pelo interesse geral e de um planejamento que articule necessidades.

Muito mais que a Covid-19, o desafio climático leva a questionar nosso sistema socioeconômico. Como tornar aceitável uma evolução tão drástica, uma mudança ao mesmo tempo social e individual? Antes de tudo, não confundindo a atual – e deletéria – recessão com a redução benéfica de nossa produção insustentável: menos produtos exóticos, que desperdiçam muita energia, caminhões, carros, seguros; mais trens, bicicletas, camponeses, enfermeiras, pesquisadores etc. As consequências concretas desse decrescimento só se tornarão aceitáveis para o maior número de pessoas quando recolocarmos a justiça social entre as prioridades e promovermos a autonomia dos coletivos em todos os níveis.

Um teste muito concreto e rápido da capacidade dos governos de derrubar os dogmas de ontem estará em sua atitude em relação ao Tratado da Carta da Energia. Esse acordo, que entrou em vigor em 1998 e vem sendo renegociado desde novembro de 2017, criou um mercado internacional “livre” de energia que envolve 53 países. Com o objetivo de tranquilizar os investidores privados, ele lhes concede a possibilidade de processar em tribunais arbitrais com poderes exorbitantes qualquer Estado que possa tomar decisões contrárias à proteção de seus interesses, decidindo, por exemplo, sobre a interrupção do uso da energia nuclear (Alemanha), a moratória das perfurações no mar (Itália) e o fechamento de usinas a carvão (Holanda).

E não se priva de sancionar os Estados por suas atitudes ambientalmente responsáveis: no fim de março de 2020, pelo menos 129 casos desse tipo foram objeto de uma “resolução de controvérsias”,6 um recorde em matéria de tratados de livre-comércio. Resultado: condenações para os Estados em um total de mais de US$ 51 bilhões.7 Em dezembro passado, 280 sindicatos e associações pediram à União Europeia que se retirasse desse tratado, que consideram incompatível com a aplicação do Acordo de Paris sobre o clima.Fome,Economia,Capitalismo,A vida como não deveria ser,Pobreza,Crianças,Fotografias

Trata-se menos de um plano para reviver a economia de ontem, da qual os países industrializados precisarão ao sair da crise da saúde, do que um plano de transformação em direção a uma sociedade na qual todos possam viver com dignidade, sem colocar em perigo os ecossistemas. A amplitude do recurso indispensável ao dinheiro público – que ultrapassará tudo que um dia conhecemos – oferece uma oportunidade única de condicionar apoios e investimentos à sua compatibilidade com a mitigação da mudança climática e a adaptação a essa mudança.

Philippe Descamps é jornalista do Le Monde Diplomatique; Thierry Lebel é hidroclimatologista, diretor de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) e do Instituto de Geociências Ambientais (IGE, Grenoble, França) e colaborador dos trabalhos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Os escritores que previram as pragas de hoje

Sobrevivência, isolamento, comunidade e amor são explorados nesses livros plausíveis e prescientes. Jane Ciabattari, nos romances que nos dizem ‘já passamos por isso antes e sobrevivemos’.

Em tempos incertos – de fato, estranhos – como esses, à medida que aumentamos nosso isolamento social para “achatar a curva”, a literatura fornece escape, alívio, conforto e companhia. Menos confortavelmente, porém, o apelo da ficção pandêmica também aumentou. Muitos títulos pandêmicos parecem guias da situação de hoje. E muitos desses romances dão uma progressão cronológica realista, dos primeiros sinais aos piores momentos, e o retorno da “normalidade”. Eles nos mostram que já passamos por isso antes. Nós sobrevivemos.

O Diário do Ano da Praga, de 1722, de Daniel Defoe, que narra a praga bubônica de 1665 em Londres, oferece uma série de eventos sinistros que lembram nossas próprias respostas ao choque inicial e à propagação voraz do novo vírus.O Diário do Ano da Peste de Daniel Defoe narra a peste bubônica de 1665 em Londres

Defoe começa em setembro de 1664, quando circulam rumores sobre o retorno da ‘pestilência’ à Holanda. Em seguida, vem a primeira morte suspeita em Londres, em dezembro, e depois, na primavera, Defoe descreve como os avisos de morte publicados nas paróquias locais tiveram um aumento sinistro. Em julho, a cidade de Londres impõe novas regras – regras que agora estão se tornando rotineiras em nosso desligamento em 2020, como “que todas as festas públicas, principalmente as empresas desta cidade, e jantares em tabernas, cervejarias e outros locais de entretenimento comum, seja perdoado até novas ordens e subsídios… ”

Defoe escreve que “nada foi mais fatal para os habitantes desta cidade do que a negligência supina das próprias pessoas que, durante o longo aviso ou aviso que tiveram da visitação, não fizeram provisões para isso, reservando provisões, ou de outras necessidades, pelas quais eles poderiam ter se aposentado e dentro de suas próprias casas, como observei outros, e que foram em grande parte preservados por essa cautela … ”

O que poderia ser mais dramático do que tirar uma foto de uma praga em andamento?

Em agosto, Defoe escreve, a praga é “muito violenta e terrível”; no início de setembro, atinge o seu pior, com “famílias inteiras e, de fato, ruas inteiras de famílias … varridas juntas”. Em dezembro, “o contágio estava esgotado, e também o clima do inverno acelerava, e o ar estava limpo e frio, com geadas fortes … a maioria dos que haviam adoecido se recuperou e a saúde da cidade começou a voltar”. Quando finalmente as ruas são repovoadas, “as pessoas andavam pelas ruas dando graças a Deus por sua libertação”.

O que poderia ser mais dramático do que tirar uma foto de uma praga em andamento, quando as tensões e emoções são intensificadas e os instintos de sobrevivência surgem? A narrativa pandêmica é natural para romancistas realistas como Defoe, e mais tarde Albert Camus.A Praga de Albert Camus está cheia de paralelos com a crise de hoje. Camus ‘The Plague, em que a cidade de Oran, na Argélia, fica fechada por meses enquanto a praga dizima seu povo (como aconteceu em Oran no século 19), também está repleta de paralelos à crise de hoje.

Os líderes locais relutam a princípio em reconhecer os sinais precoces dos ratos morrendo de peste espalhados pelas ruas. “Os pais de nossa cidade estão cientes de que os corpos em decomposição desses roedores constituem um grave perigo para a população?” pergunta um colunista no jornal local. O narrador do livro, Dr. Bernard Rieux, reflete o heroísmo silencioso dos trabalhadores médicos. “Não faço ideia do que me espera ou do que acontecerá quando tudo acabar. No momento eu sei disso: há pessoas doentes e elas precisam de cura ”, diz ele. No final, há a lição aprendida pelos sobreviventes da peste: “Eles sabiam agora que, se há uma coisa que sempre se pode desejar e, às vezes, alcançar, é o amor humano”.

A gripe espanhola de 1918 reformulou o mundo, levando à perda de 50 milhões de pessoas, após 10 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial. Ironicamente, o dramático impacto global da gripe foi ofuscado pelos eventos ainda mais dramáticos da guerra, que inspiraram inúmeros romances. Enquanto as pessoas praticam agora o ‘distanciamento social’ e as comunidades ao redor do mundo se retêm, a descrição de Katherine Anne Porter da devastação criada pela gripe espanhola em seu romance Pale Horse de 1939, Pale Rider se sente familiar: “É tão ruim quanto qualquer coisa. .. todos os teatros e quase todas as lojas e restaurantes estão fechados, e as ruas estão cheias de funerais o dia todo e ambulâncias a noite toda ”, diz o amigo da heroína Miranda, Adam, logo após o diagnóstico de influenza.

Porter retrata as febres e os medicamentos de Miranda, e semanas de doença e recuperação, antes de acordar para um novo mundo remodelado pelas perdas da gripe e da guerra. Porter quase morreu da praga da gripe. “Eu estava de alguma forma estranha alterada”, ela disse à The Paris Review em uma entrevista de 1963. “Levei muito tempo para sair e morar no mundo novamente. Eu estava realmente ‘alienado’ no sentido puro. ”

Tudo muito plausível

As epidemias do século XXI – Sars em 2002, Mers em 2012 e Ebola em 2014 – inspiraram romances sobre desolação e colapso pós-praga, cidades desertas e paisagens devastadas.

O Ano do Dilúvio (2009), de Margaret Atwood, mostra-nos um mundo pós-pandêmico com humanos quase extintos, a maioria da população exterminada 25 anos antes pelo ‘Dilúvio sem Água’, uma praga virulenta que “viajava pelo ar como se estivesse em asas , queimou pelas cidades como fogo”.A autora Margaret Atwood prevê um mundo devastado por um vírus em seu romance de 2009, O Ano do Dilúvio.

Atwood capta o extremo isolamento sentido pelos poucos sobreviventes. Toby, uma jardineira, vasculha o horizonte do jardim da cobertura em um spa deserto. “Deve haver mais alguém … ela não pode ser a única no planeta. Deve haver outros. Mas amigos ou inimigos? Se ela vê um, como saber? Ren, uma vez dançarina de trapézio – uma das “garotas mais limpas e sujas da cidade” – está viva porque estava em quarentena por uma possível doença transmitida pelo cliente. Ela escreve seu nome repetidamente. “Você pode esquecer quem você é se estiver sozinho demais.”

Por meio de flashbacks, Atwood explica como o equilíbrio entre os mundos natural e humano foi destruído pela bioengenharia patrocinada pelas empresas dominantes e como ativistas como Toby reagiram. Sempre atenta às desvantagens da ciência, Atwood baseia seu trabalho em premissas plausíveis demais, tornando o Ano do Dilúvio terrivelmente presciente.

O que torna a ficção pandêmica tão envolvente é que os humanos se unem na luta contra um inimigo que não é um inimigo humano. Não existem ‘mocinhos’ ou ‘bandidos’; a situação é mais sutil. Cada personagem tem uma chance igual de sobreviver ou não. O leque de respostas individuais a circunstâncias terríveis faz com que o romancista seja intrigante – e o leitor.O irreverente Canterbury Tales de Chaucer se passa em um cenário da Peste Negra.

A separação de Ling Ma (2018), que o autor descreveu como um “romance apocalíptico de escritório” com uma história de imigração, é narrada por Candace Chen, uma milenar que trabalha em uma empresa de publicação da Bíblia e tem seu próprio blog. Ela é uma das nove sobreviventes que fogem da cidade de Nova York durante a pandemia fictícia da febre de Shen em 2011. Ma retrata a cidade depois que “a infraestrutura … entrou em colapso, a Internet caiu em um buraco, a rede elétrica foi fechada”.

Como eles irão narrar a onda de espírito comunitário, os inúmeros heróis entre nós?

Candace se junta a uma viagem em direção a um shopping em um subúrbio de Chicago, onde o grupo planeja se estabelecer. Eles viajam por uma paisagem habitada pelos “febris”, que são “criaturas de hábitos, imitando velhas rotinas e gestos” até morrerem. Os sobreviventes são imunes aleatoriamente? Ou “selecionado” pela orientação divina? Candace descobre que a troca de segurança em números é uma estrita lealdade às regras religiosas estabelecidas por seu líder Bob, um ex-técnico de TI autoritário. É apenas uma questão de tempo até que ela se rebele.

Nossa própria situação atual é, obviamente, nem de longe tão extrema quanto a prevista em Severance. Ling Ma explora o pior cenário que, felizmente, não estamos enfrentando. Em seu romance, ela analisa o que acontece em seu mundo imaginário após a pandemia desaparecer. Depois do pior, quem está encarregado de reconstruir uma comunidade, uma cultura? Entre um grupo aleatório de sobreviventes, o romance pergunta: quem decide quem tem poder? Quem define as diretrizes para a prática religiosa? Como os indivíduos retêm agência?

As vertentes narrativas do romance Station Eleven de Emily St John Mandel, em 2014, ocorrem antes, durante e depois de uma gripe ferozmente contagiosa originária da República da Geórgia “explodir como uma bomba de nêutrons na superfície da terra”, destruindo 99% da população. a população global. A pandemia começa na noite em que um ator que interpreta o rei Lear sofre um ataque cardíaco no palco. Sua esposa é autora de histórias em quadrinhos de ficção científica ambientadas em um planeta chamado Station Eleven, que aparece 20 anos depois, quando uma trupe de atores e músicos através de “um arquipélago de pequenas cidades”, realizando Lear e Sonho de uma Noite de Verão em shoppings abandonados. . A Estação Onze carrega ecos dos Contos de Canterbury de Chaucer, o prototípico e irreverente ciclo de contar histórias do século XIV, tendo como pano de fundo a Peste Negra.O romance Estação Eleven de Emily St John Mandel, de 2014, analisa como o mundo é reconstruído depois que um vírus foi atingido.

Quem e o que determina a arte? Pergunta Mandel. A cultura das celebridades importa? Como vamos reconstruir depois que o vírus invisível sitia? Como a arte e a cultura mudarão?

Sem dúvida, existem romances sobre nossas circunstâncias atuais em andamento. Como os contadores de histórias nos próximos anos retratarão essa pandemia? Como eles irão narrar a onda de espírito comunitário, os inúmeros heróis entre nós? Essas são questões a serem ponderadas à medida que aumentamos o tempo de leitura e preparamos o surgimento do novo mundo.