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Meio Ambiente: Destruição da natureza pelos humanos é suicida, alerta ONU

Relatório das Nações Unidas afirma que a humanidade e a ambição pelo crescimento econômico estão tornando a Terra um lugar inabitável, e exorta governos e empresas do mundo a agirem antes que seja tarde.

Amazônia,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita,Alter do Chão,Brasil,Pará“Sem a ajuda da natureza, não vamos prosperar, ou mesmo sobreviver”, afirmou o secretário-geral da ONU

Através das mudanças climáticas, da perda da biodiversidade e da poluição, os humanos estão destruindo a Terra e tornando-a um planeta cada vez mais inabitável, afirma um relatório das Nações Unidas.

Para reverter esse caminho trágico, o mundo precisa implementar mudanças urgentes e dramáticas na sociedade, na economia e na vida diária das pessoas, acrescenta o texto.

Diferente de relatórios anteriores da ONU, que costumam focar num problema e evitam orientar os governos sobre quais ações devem ser tomadas, o novo documento reúne três crises ambientais – o clima, a biodiversidade e a poluição – para dizer aos governos, empresas e pessoas ao redor do mundo o que precisa mudar, antes que seja tarde demais.

O texto pede, por exemplo, mudanças no que o governo tributa, em como as nações valorizam a produção econômica, em como a energia é gerada, em como a agricultura e a pecuária são geridas, na maneira como as pessoas se locomovem e no que elas comem.

“Sem a ajuda da natureza, não vamos prosperar, ou mesmo sobreviver”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Por muito tempo, temos travado uma guerra sem sentido e suicida contra a natureza. O resultado são três crises ambientais interligadas: perturbações climáticas, perda de biodiversidade e poluição ameaçam a nossa viabilidade como espécie.”

O título do relatório de 168 páginas, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), é direto: “Fazendo as pazes com a natureza: um plano científico para enfrentar as emergências do clima, da biodiversidade e da poluição.”

“Riscos inaceitáveis” para gerações futuras

Baseado em conclusões de outras grandes análises sobre clima e biodiversidade elaboradas por painéis internacionais de especialistas, o texto afirma que uma transição rápida para energia renovável e a eliminação da perda de habitat são essenciais para prevenir “riscos inaceitáveis” para gerações futuras.

“Nossos filhos e netos herdarão um mundo de eventos climáticos extremos, aumento do nível do mar, perda drástica de plantas e animais, insegurança alimentar e hídrica e aumento da probabilidade de futuras pandemias”, alertou o cientista britânico Robert Watson, principal autor do relatório.

A emergência que aflige o mundo hoje é “de fato mais profunda do que pensávamos poucos anos atrás”, disse Watson, um químico premiado que já liderou outros relatórios científicos da ONU sobre mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

Os problemas do planeta estão tão interligados que devem ser trabalhados juntos para que sejam resolvidos da maneira certa, destacam as Nações Unidas. E muitas das soluções podem combater múltiplos problemas, incluindo as mudanças climáticas e a poluição.

Segundo o relatório, uma dessas soluções seria a eliminação do uso de combustíveis fósseis. Além de pedir o fim do uso, o texto também defende que sejam anulados os 5 trilhões de dólares em subsídios que empresas de combustíveis fósseis recebem todos os anos de governos do mundo.

“Estatísticas assustadoras”

O documento reúne uma série de “estatísticas assustadoras”: cerca de 9 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência da poluição; cerca de 1 milhão das 8 milhões de espécies de plantas e animais estão ameaçadas de extinção; até 400 milhões de toneladas de metais pesados, lama tóxica e outros resíduos industriais são despejados nas águas do mundo todos os anos.

O texto alerta também que a Terra está a caminho de um aquecimento adicional de 3,5 graus Celsius em relação aos níveis de agora, muito acima da meta estabelecida internacionalmente no Acordo de Paris sobre o clima.

“No final, isso vai nos atingir”, afirmou o biólogo Thomas Lovejoy, que foi assessor científico do relatório. “Não se trata do que vai acontecer com os elefantes. Ou o que vai acontecer com o clima ou com o nível do mar. Tudo vai nos impactar.”

Com duas grandes cúpulas da ONU sobre mudança climática e perda de biodiversidade marcadas para ocorrer em 2021, os autores do texto pedem decisões robustas dos governos, afirmando que respostas “fragmentadas e descoordenadas” ficam muito aquém do que o planeta precisa.

“Embora eu aplauda todos os países do mundo que decidiram zerar as emissões líquidas de carbono até 2030, a verdadeira questão é o que os países farão até 2030”, afirma o autor principal, Watson. “É realmente necessária ação a curto prazo, não apenas metas ambiciosas para meados do século.”

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MPF investiga reuniões “secretas” do MMA que discutem extinção do ICMBio

Plano de fusão do Ibama e ICMBio está nas proposta do governo Bolsonaro desde a transição.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, criou um grupo de trabalho que discute com quase nenhuma transparência a extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É o que mostram as atas das oito primeiras reuniões desse GT obtidas por ((o))eco por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Elas resumem-se a listar os presentes nas reuniões e tópicos genéricos de pauta, sem apresentar uma síntese do que foi discutido e eventuais encaminhamentos.

Sem especialistas em conservação e composto por seis oficiais da Polícia Militar (PM) de São Paulo e um civil, o grupo foi criado pela Portaria nº 524/2020 para estudar a proposta de fusão entre o ICMBio e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), reunindo-se semanalmente desde 8 de outubro de 2020. O grupo responsável pela área ambiental na equipe de transição do presidente eleito Jair Bolsonaro, que se reuniu em novembro e dezembro de 2018, incluiu entre suas principais propostas a criação de um órgão que assumiria as funções do Ibama e do ICMBio. O grupo foi coordenado pelo agrônomo Evaristo de Miranda, chefe geral da Embrapa Territorial, em Campinas (SP).

A falta de transparência do GT da fusão entre Ibama e ICMBio foi tema de um dos painéis da audiência pública virtual convocada pelo Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) para discutir a proposta do ministro Salles para incorporar no Ibama as atribuições do ICMBio.

Assinam o edital que convocou a audiência os procuradores da República Ana Carolina Haliuc Bragança, Rafael da Silva Rocha e José Gladston Viana Correia. A audiência é parte do inquérito civil público que investiga o possível desmonte estrutural do ICMBio e o impacto potencial da eventual fusão do órgão com o Ibama, sobretudo nas atividades desenvolvidas pelo primeiro na Amazônia.

Para os procuradores, as atas das reuniões do GT “não evidenciam a participação ou consulta a especialistas ou outros servidores dos respectivos órgãos”. Segundo eles, é “dever do Estado Brasileiro assegurar que qualquer decisão administrativa tomada comprovadamente não implique retrocesso ambiental, sobretudo sobre a Amazônia, e seja pautada em paradigmas de transparência e participação”.

“Tanto quanto o mérito de eventual decisão pela fusão ou não das instituições, o procedimento de tomada de decisão importa, e eventuais inconsistências procedimentais relacionadas à transparência e amplitude do debate devem ser esclarecidas e, se for o caso, corrigidas”, disse ao ((o))eco a procuradora Ana Carolina. Ela espera que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) envie representantes à audiência para esclarecer o que está sendo discutido nos encontros do GT, a motivação da proposta de fusão e a ausência de consulta sobre o assunto a especialistas das áreas de atuação dos dois institutos e representantes de entidades da sociedade civil relacionadas de alguma forma às ações do ICMBio.

“A despeito de o Estado contar com discricionariedade administrativa para organizar a prestação de serviços públicos sob formas diversas, ele está adstrito a obrigações de transparência e de garantia de participação pública, em especial em relação a medidas capazes de produzir efeitos sobre a robustez do arcabouço de proteção ao meio ambiente no Brasil”, adverte a procuradora.

O GT deverá apresentar seu relatório final provavelmente na segunda semana de fevereiro, uma vez que o prazo de seu funcionamento é de 120 dias a partir da primeira reunião. Mas a portaria que o criou admite que o GT possa continuar ativo por mais 120 dias, após a conclusão de seu prazo inicial

Preocupa os ambientalistas a proximidade entre o fim dos trabalhos do GT e a eleição das mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, previstas também para a próxima segunda-feira, 1º de fevereiro. Acreditam que uma vitória do deputado Arthur Lira (PP-AL), candidato apoiado pelo presidente Bolsonaro na eleição da mesa da Câmara, poderia facilitar a tramitação no Congresso de eventual Medida Provisória (MP) ou projeto de lei (PL) extinguindo o ICMBio, que foi estabelecido pela Lei 11.516/2007, e adicionando atribuições do Instituto Chico Mendes no Ibama, criado pela Lei 7.735/1989.

“Portanto, alterações em suas finalidades e outros aspectos constituintes só podem acontecer por meio de outra lei, não por ato infralegal. É provável que uma eventual fusão ocorra por meio de Medida Provisória, que, para virar lei, necessitará ser aprovada no Congresso”, pondera análise sobre o GT da fusão publicada no fim de novembro passado pelo projeto Política por Inteiro.

((o))eco procurou por e-mail e telefone a assessoria de comunicação do MMA na última quinta-feira (21) com dúvidas e questões a respeito das reuniões do GT, mas não houve retorno da pasta até o fechamento desta reportagem. A Ascom/MMA confirmou o recebimento do e-mail, mas não soube informar se o setor responsável enviaria esclarecimentos.

Destaques do ICMBio

  • 170 milhões de hectares administrados nos territórios terrestre (80 milhões de hectares) e marinho (93 milhões de hectares), mais que o dobro do que dez anos atrás;
  • 281 unidades de conservação (UCs) com conselhos de gestão, consultivos ou deliberativos, quase o triplo ante 2007, envolvendo mais de 8.500 conselheiros; 
  • 191 UCs com planos de manejo, três vezes mais que em 2007; 
  • Concessões em quatro UCs (parques nacionais do Iguaçu, Tijuca, Fernando de Noronha e Serra dos Órgãos), duas concessões em processo inicial de operação (parques nacionais do Pau Brasil e Chapada dos Veadeiros) e um leilão realizado em janeiro de 2021 para a concessão dos parques nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral;
  • 667 RPPNs em 2017, 52% mais que as 440 existentes em 2007;
  • 254 espécies avaliadas entre 2009 e maio de 2017, 12 vezes mais que as 1.000 avaliadas até 2003;
  • 54 Planos de Ação Nacional (PANs), contemplando 593 espécies, quase 50% das 1.173 espécies ameaçadas de extinção identificadas até maio de 2017.

Raio X do GT 

Compõem o GT o secretário executivo do MMA, Luís Carlos Biagioni, os presidentes do Ibama, Eduardo Bim, e do ICMBio, Fernando Cesar Lorencini, dois diretores do Ibama, Luis Carlos Hiromi Nagao (planejamento) e Olímpio Ferreira Magalhães (proteção ambiental), e dois diretores do ICMBio, Ronei Fonseca (planejamento) e Marco Aurélio Venâncio (pesquisa, avaliação e monitoramento da biodiversidade). Exceto Bim, que é procurador de carreira da Advocacia Geral da União (AGU), os demais são militares – cinco oficiais da ativa e da reserva da Polícia Militar (PM) do estado de São Paulo e um oficial da reserva do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (DF).

Também participaram de algumas reuniões servidores do MMA, do Ibama e do ICMBio que não integram o GT oficialmente, como no primeiro encontro, que contou com a presença de oito pessoas, incluindo o ministro Salles. Entre membros do grupo e convidados, 14 servidores participaram de pelo menos uma das oito reuniões iniciais do GT. Destes, nove são militares – oito coronéis ou tenentes-coronéis da ativa ou da reserva da PM paulista e o bombeiro militar da reserva Ronei Fonseca.

Três pontos de pauta destacam-se no mar de generalidades expostas pelas atas. Um dos tópicos da segunda reunião, ocorrida em 16 de outubro, foi a inclusão no GT de Marcos de Castro Simanovic, coronel da reserva da PM paulista e diretor de criação e manejo de unidades de conservação (UCs) do ICMBio. Ele já havia participado da reunião inaugural do grupo, em 8 de outubro, e, também, esteve no segundo encontro, mas não apareceu nas seis reuniões seguintes. É um dos oficiais da PM paulista com maior experiência no trabalho com UCs, comandando uma diretoria nevrálgica no Instituto Chico Mendes. Em tese, ele ou um técnico dessa diretoria deveriam ser presenças obrigatórias em um grupo de trabalho que avalia a transferência da atribuição de criação e manejo de UCs federais para o Ibama.

Na quinta reunião do GT, realizada em 5 de novembro, um dos três pontos de pauta era a apresentação de dados do ICMBio. Contudo, só três membros do grupo participaram do encontro – Biagioni, Lorencini e Fonseca. Supõe-se que uma proposta de fusão entre os dois institutos deveria ser avaliada por representantes de ambos os órgãos. Justamente no encontro que tinha como tema uma apresentação sobre o ICMBio, nenhum representante do Ibama se fez presente. A rigor, o encontro nem poderia ter sido realizado, uma vez que o artigo 4º da Portaria 524/2020 prevê que as reuniões podem ser realizadas desde que contem com a presença mínima de quatro integrantes do GT.

Ainda assim, a apresentação do ICMBio poderia ter sido incluída na reunião seguinte, a sexta do GT, realizada em 12 de novembro, que teve o quórum mínimo de quatro membros, incluindo dois representantes do Ibama. Houve, contudo, somente dois assuntos na pauta da sexta reunião do grupo: regimentos internos/decretos de estruturas e a inclusão no grupo do secretário adjunto de Biodiversidade do MMA, o major da PM paulista Olivaldi Azevedo, que fora exonerado em abril de 2020 do cargo de diretor de proteção ambiental do Ibama. Não se sabe se a inclusão de Azevedo foi aprovada na reunião. Se o foi, não há notícia de ato oficial do ministro incluindo o secretário adjunto de Biodiversidade no GT. No entanto, Olivaldi não esteve presente nem na sexta, nem na sétima e tampouco no oitavo encontro do grupo.

A saída de Azevedo do Ibama ocorreu dois dias após a veiculação de uma reportagem do Fantástico pela TV Globo em abril de 2020 que acompanhou uma megaoperação do instituto para retirar madeireiros e garimpeiros ilegais de três terras indígenas no sul do Pará. Segundo funcionários do Ibama, Azevedo foi desligado do Ibama por não ter freado o setor de fiscalização do órgão. No entanto, foi recontratado por Salles em 1º de outubro como adjunto de Maria Beatriz Palatinus Milliet, secretária de Biodiversidade do MMA.

“O GT tinha que necessariamente, e segundo o princípio constitucional da publicidade na Administração Pública, ter suas análises, agendas e atas publicadas permanentemente no site do Ministério do Meio Ambiente, da mesma forma como funcionavam outros grupos e colegiados criados até 2018”, observa o advogado Fábio Ishisaki, analista do projeto Política por Inteiro.

Tópicos das oito reuniões iniciais do GT da fusãoRecursos Humanos; Recursos Materiais/Logística/Telemática; Orçamento/Financeiro/Outras fontes de recursos; Dados especializados/Geográficos; Estrutura de Gestão/Governança; Planilhamento dos dados; Padronização de planilhas; Apresentação dos dados IBAMA; Ajustes dos dados e planilhas; Ajustes dos dados geográficos; Dados espaciais/geográficos; Legenda para os dados geográficos; Inclusão de dados em representação gráfica; Regimentos internos/Decretos de Estruturas; Proposta para planilhas/Forma de dados/Abrangência de dados; Apresentação de dados por meio de planilha “Excel”; Inserção até nível de coordenadorias; e Auxílio do DGE/Secex/MMA.

Ex-presidentes do Ibama e ICMBio criticam grupo da fusão

A reportagem conversou sobre as atas das reuniões do GT que discute a fusão com dois ex-presidentes do ICMBio – Cláudio Maretti e João Paulo Capobianco –, uma ex-presidente do Ibama, Suely Araújo, e o presidente da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional), Denis Rivas.

“Além de reuniões praticamente vazias de conteúdo, surpreendem a irregularidade da participação do ICMBio e a pouca participação das diretorias que têm mais relação com as áreas protegidas, a Diman e a Disat”, critica Cláudio Maretti, ex-presidente do instituto (2015-2016) e vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas para a América do Sul da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Maretti refere-se às diretorias de Criação e Manejo de UCs (Diman) e Ações Socioambientais e Consolidação Territorial em UCs (Disat), que oficialmente não possuem representação no GT. O diretor da Diman, Marcos de Castro Simanovic, participou somente das duas primeiras reuniões do GT, na condição de convidado.  Chefia a Disat no momento Nolita Almeida Cortizo como diretora substituta, que não participou nem como convidada das oito reuniões ocorridas em outubro e novembro.

“Todos os indicadores mostram melhora na gestão das unidades de conservação depois da criação do ICMBio”, assinala Maretti, citando temas estratégicos na política de conservação da biodiversidade, como planos de manejo, colaboração com pesquisas, integração com as concessões do Serviço Florestal Brasileiro e atividades de integração, apoio e respeito às comunidades tradicionais extrativistas.

Primeiro presidente do ICMBio (2007-2008), o biólogo e ambientalista João Paulo Capobianco, concorda com os argumentos de Maretti e adiciona que “esse tipo de GT na administração pública é usualmente uma instância técnica que faz recomendações à direção do MMA. Esta é quem tem a incumbência de acatar ou não essas recomendações. Não faz sentido colocar o alto escalão no GT. Isto inibe a discussão técnica.”

Para ele, a fusão reduziria drasticamente a capacidade de atuação do sistema federal de meio ambiente. “Os efeitos seriam devastadores. A existência de órgãos públicos especializados [na gestão de áreas protegidas] é uma prática internacional, não é uma fabricação brasileira”, lembra Capobianco, vice-presidente do conselho diretor do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Entre os países que mantêm instituições públicas dedicadas exclusivamente à gestão das unidades de conservação, destacam-se Argentina, África do Sul, Austrália, Canadá, Colômbia, Costa Rica e Estados Unidos.

“Há evidências claras de que o processo de discussão sobre a fusão entre Ibama e ICMBio é um teatro e a decisão política já está tomada. Cabe aos técnicos que atuam em conservação da biodiversidade e à sociedade civil lutarem para que isso não ocorra”, diz Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima (OC) e ex-presidente do Ibama (2016-2019). “O ICMBio não cabe mais dentro do Ibama, é uma organização com missão consolidada e cultura própria.”

Para ela, ninguém ganhará com essa fusão, nem se economizarão recursos públicos. “Não há duplicidade de atribuições entre Ibama e ICMBio para que essa economia possa ocorrer. Na verdade, vão reduzir os recursos já muito escassos disponíveis para a conservação da biodiversidade.” Suely chama a atenção para o corte de 61,5% nos recursos previstos no Projeto de Lei Orçamentária Anual para 2021 (PLOA 2021) para apoio à criação, gestão e implementação das unidades de conservação, a principal atividade do instituto, na comparação com o orçamento autorizado em 2018. “Destinar menos de R$ 75 milhões para essa ação é matar o ICMBio por inanição”, conclui a ex-presidente do Ibama.

No fim de janeiro, o OC publicou o relatório Passando a boiada, que analisa o aprofundamento do retrocesso na política ambiental do governo Bolsonaro em 2020 e a forte redução no orçamento proposto para 2021 pela gestão Salles para o MMA e autarquias vinculadas. A PLOA 2021 prevê R$ 1,72 bilhão para as despesas totais do MMA Ibama e ICMBio, o menor orçamento para a área desde 2000.

“Estamos preocupados com um apagão na gestão ambiental caso o ICMBio seja extinto. A exemplo da paralisação do julgamento dos autos de infração ocasionada pelos [núcleos de conciliação ambiental], a criação de um novo órgão de gestão ambiental paralisaria todas as ações hoje em curso [no Ibama e no ICMBio]”, declara Dênis Rivas, presidente da Ascema Nacional, referindo-se a rumores de que o ministro Salles pretende mudar o nome do Ibama, após a incorporação das atividades do ICMBio, caso este seja fechado.

“Esperamos que essa audiência do Ministério Público Federal consiga reunir os elementos para impedir que a gestão ambiental federal sofra esse golpe de misericórdia e que os responsáveis pelo desmonte, por essa tentativa de ‘passar a boiada’ de crimes contra o meio ambiente, sejam responsabilizados”, assinala Rivas.

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Ambiente: Em um ano, governo Bolsonaro corta verba para brigadistas em 58%

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Apesar de alta das queimadas na Amazônia e no Pantanal, orçamento destinado à contratação de pessoal de prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais sofreu forte redução entre 2019 e 2020.

Até o fim de agosto, fogo consumiu 12% do Pantanal em 2020

Mesmo com as queimadas na Amazônia aumentando 30% em 2019 e com o Pantanal registrando o maior número de queimadas em mais de uma década, o governo Bolsonaro vem cortando drasticamente a verba para contratação de profissionais para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais.

O gasto esperado com a contratação de pessoal de combate ao fogo por tempo determinado, somado ao de diárias de civis que atuam como brigadistas, caiu de R$ 23,78 milhões em 2019 para R$ 9,99 milhões neste ano – uma redução de 58%, de acordo com dados oficiais do Portal da Transparência.

Este foi o segundo ano seguido de redução no orçamento total para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais. A verba inicialmente planejada para a área em 2018 era de R$ 53,8 milhões, reduzida em 2019 para R$ 45,5 milhões, e para R$ 38,6 milhões em 2020. Do ano passado para este, a redução foi de 15%.

Em meio aos cortes, o Pantanal vive seu pior ano em termos de queimadas de que se tem registro. De janeiro a 10 de setembro de 2020, o Pantanal somou 12.703 focos de incêndio, o mair número para o período desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou o monitoramento, em 1998. Segundo dados do órgão federal, nos primeiros oito meses do ano, 18.646 km² do bioma foram consumidos pelas chamas, mais da metade disso em agosto.

Historicamente, a situação observada em setembro é ainda pior, com mais áreas de campos, florestas e arbustos queimados. Se o ritmo medido em agosto se mantiver, o Pantanal terá um total de 28, 8 mil km² carbonizados até setembro, superando todos os anos anteriores.

A área queimada até o fim de agosto, equivalente a 15 cidades do Rio de Janeiro inteiras queimadas, representa 12% do Pantanal. O bioma possui 83% de cobertura vegetal nativa e a maior densidade de espécies de mamíferos do mundo, com uma concentração nove vezes maior que a vizinha Amazônia, que também vem sofrendo com as queimadas.

Em Mato Grosso – que, junto com Mato Grosso do Sul, abriga o Pantanal – não chove forte desde maio

Na Floresta Amazônica, 29.307 focos de queimadas foram registrados em agosto deste ano, destruindo uma área maior que a da Eslovênia. O número ficou pouco abaixo dos 30.900 registrados no mesmo período de 2019  que, de acordo com o Inpe, foi o pior mês de agosto para a Amazônia desde 2010, interrompendo uma tendência de queda observada em anos anteriores.

De acordo com especialistas, nem a Amazônia nem o Pantanal sofrem com incêndios espontâneos. Em Mato Grosso – que, junto com Mato Grosso do Sul, abriga o Pantanal – não chove forte desde maio, logo, não há raios que pudessem inflamar os campos e matas secas, levando à conclusão de que se trata de incêndios irregulares. Isso apesar de o uso do fogo para limpeza e manejo de territórios ter sido proibido no estado entre 1º de julho e 30 de setembro. Segundo decreto estadual, quem provocar queimadas pode ser punido com reclusão de dois a quatro anos e multa a partir de R$ 5 mil por hectare.

Atraso no combate

Em nota, o Ministério do Meio Ambiente afirma que aumentou o número de brigadistas em relação ao último mandato da ex-presidente de Dilma Rousseff. Questionada pela DW Brasil sobre os cortes, a pasta não explicou a questão orçamentária, e afirmou que em 2020 foram contratados 3.326 brigadistas pelo Ibama e pelo ICMBio, contra 2.080 em 2016.

No entanto, os editais de contratação para os profissionais, que costumam ser realizadas a partir de abril, para que as brigadas tenham tempo para o trabalho de prevenção dos incêndios, neste foram publicados somente em junho, atrasando todo o cronograma.

Segundo uma fonte do ICMBio que prefere não se identificar, o trabalho de combate aos incêndios no Pantanal demorou para começar, de modo que agora resta apenas esperar pela chuva e tentar impedir o fogo de consumir construções, pontes e unidades de conservação – os chamados alvos preferenciais.

“O grosso do trabalho de combate é feito de julho a setembro, antes há os trabalhos de queima preventiva, abertura de aceiros, feitos com acompanhamento do PrevFogo. O trabalho preventivo é até 20 vezes mais barato que o combate”, calcula.

No Pantanal, Ibama e ICMBio vêm trabalhando em conjunto com bombeiros, militares e o Sesc Pantanal na força conjunta que tenta manter a salvo o Parque Estadual Encontro das Águas e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, ambos refúgios de vida silvestre. Além do Mato Grosso, as brigadas atuam em outros 16 estados e no Distrito Federal em áreas ido Pantanal, do Cerrado e da Amazônia.

Agosto, mês de queimadas

Em junho, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alertou que o desmatamento observado no último um ano e meio na Amazônia poderia ser o prenúncio de uma catástrofe na região. O modus operandi do desmate da floresta é a derrubada em massa das árvores, com tratores que arrastam grandes correntes, derrubando tudo pelo caminho, para, no período seco seguinte, a vegetação ser queimada para limpeza do terreno.

Em nota técnica publicada, o Ipam apontou que, entre janeiro de 2019 e abril de 2020, uma área de 4.509 km² de Floresta Amazônica havia sido derrubada. “Se 100% queimar, pode se instalar uma calamidade de saúde sem precedentes na região ao se somar os efeitos da covid-19“, previu, apontando que o mês de agosto é quando grande parte da queima acontece na Amazônia.Amazônia,Queimadas,Brasil,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

Segundo os dados do Inpe citados no início deste texto, a Amazônia teve seu segundo pior agosto da última década em termos de queimadas registradas. No entanto, de acordo com reportagem a Folha de S.Pauloo sensor Modis, do satélite Aqua, da Nasa, apresentou problemas a partir de meados do mês, prejudicando a medição dos focos de incêndio em algumas áreas. Com isso, é possível que a situação tenha sido ainda mais severa do que a de agosto do ano passado.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

Em julho, 73% do desmatamento para garimpo na Amazônia ocorreu em unidades de conservação e terras Indígenas

Em julho deste ano, 73% do desmatamento para garimpo na Amazônia ocorreu em unidades de conservação (UCs) e em terras indígenas (TIs), informou um levantamento realizado pelo Greenpeace Brasil, com base em dados do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Registro feito em maio pela organização mostra as invasões na Terra Indígena Munduruku Foto: Marcos Amend / Greenpeace

O estudo apontou que, durante o mês, foram detectados 2.369 hectares de destruição na Amazônia para exploração da atividade. O Pará concentra 91% dessas áreas, sendo que 70% de todo o desmatamento se concentrou nas cidades Itaituba e Jacareacanga, localizadas na região do rio Tapajós. De acordo com a organização, os locais são apontados como principais pontos de origem do ouro ilegal e boa parte do material seria fruto da extração em áreas protegidas.

Desmatamento na Amazônia: Derrubada da floresta cresce 34% no período de um ano, indicam dados do Inpe

Ainda considerando todo o desmatamento para exploração garimpeira durante o mês, 55% ocorreu dentro de apenas três áreas, localizadas no mesmo estado: a Área de Proteção Ambiental do Tapajós, a Terra Indígena Munduruku e a Terra Indígena Kayapó.

Uma outra análise do Greenpeace Brasil já havia alertado para um aumento da exploração da atividade em territórios que deveriam estar sob regime de conservação. Entre janeiro e abril de 2020, 72% de todo o garimpo na Amazônia ocorreu nestes locais. Em relação ao mesmo período do ano passado, foi apontado um aumento de 13,4% dentro das terras indígenas, com 434 hectares desmatados com esse objetivo, e de 80,6% nas unidades de conservação, com 879 hectares.

A quantidade de áreas protegidas que foram desmatadas para garimpo no mês de julho, portanto, é maior do que a soma dos quatro primeiros meses do ano, calcula Carolina Marçal, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace Brasil.

— De janeiro a junho, 4781 hectares foram destruídos com esse objetivo na Amazônia Legal como um todo. Ou seja, foi destruído no mês de julho metade do que havia sido ao longo de 6 meses. E o que a gente tem observado é que a maioria desse desmatamento está se concentrando dentro de áreas protegidas — explica.

A alta do ouro e o contexto político

Para a porta-voz do Greenpeace, a alta no preço do ouro tem uma influência nesse avanço, mas já ocorre há alguns meses. Ela explica que, em momentos de crise como o atual, o ouro se torna um elemento seguro para investimento e, com isso, o preço aumenta, assim como a exploração. Outra questão apontada é o contexto político atual:

— Temos pronunciamentos do governo e do presidente dizendo que tem interesse em abrir, por exemplo, as terras indígenas para mineração. E temos medidas correndo no Congresso para tentar legalizar a realização dessas atividades dentro de TIs, o que é uma afronta à Constituição — analisa, e acrescenta que também há uma diminuição das atividades de campo dos órgãos que deveriam estar fiscalizando essas atividades.

Além disso, ela pontua que há uma questão da própria singularidade do sistema: atualmente é temporada de seca na Amazônia, então há menos limitação para identificar as áreas desmatadas. No período de chuva, muitas acabam não aparecendo no levantamento, explica Marçal.

Para a representante do Greenpeace Brasil, o avanço do garimpo em áreas protegidas traz uma série de consequências e conflitos. Nesse momento de pandemia, Carolina Marçal pontua que a presença de invasores dentro de Territórios Indígenas representa potenciais transmissores da Covid-19.

Ela também destaca o impacto do garimpo da região. Há o problema da contaminação dos rios com mercúrio, e os rejeitos depositados pela atividade, que podem gerar assoreamento e desequilíbrios ecológicos. Além disso, ressalta que a questão social é outro problema grave:

— O garimpo traz para a região prostituição, uso de drogas, violência e a desestabilização social de um povo — enumera.

Garimpo ilegal

Qualquer atividade de garimpo é proibida nas terras indígenas, de acordo com o Artigo 231 da Constituição. Já nas unidades de conservação, Marçal explica que eles podem ocorrer, dentro de algumas categorias. No entanto, para isso, a atividade precisa estar prevista no plano de manejo da unidade, um instrumento de gestão.

Quando existe uma comunidade nessa área, o plano precisa ser aprovado pelo conselho. Caso esse primeiro requisito seja cumprido, ainda é preciso que o órgão competente por licenciar a atividade a autorize, explica a porta-voz do Greenpeace.

— Acontece que boa parte das UCs não tem plano de manejo. A Área de Proteção Ambiental dos Tapajós, por exemplo, que concentrou mais de 900 hectares desmatados em julho, não tem — exemplifica.

A reportagem entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente, que afirmou que assuntos sobre a Amazônia deveriam ser tratados diretamente com a Vice Presidência e com o Ministério da Defesa.

Este último se limitou a responder aos questionamentos da reportagem listando as atribuições da Operação Verde Brasil 2, como é chamada chamada a ação de Garantia de Lei e da Ordem (GLO), iniciada no começo de maio para o combate a desmatamento ilegal e focos de incêndio na Amazônia Legal.

Segundo a Defesa, desde então, “militares e agentes de órgãos parceiros aplicaram R$ 445 milhões em multas e termos de infração. Efetuaram 153 prisões e realizaram 24,5 mil inspeções navais e terrestres, vistorias e revistas em embarcações, 122 inspeções em madeireiras serralharias e fazendas”.

Meio Ambiente – Captura de carbono

O corte de florestas contribui para as mudanças climáticas. Mas restaurar a natureza – em todos os tipos de paisagens – é uma ferramenta poderosa na corrida para parar as mudanças climáticas.

As florestas da Serra da Mantiqueira, no Brasil – ou pelo menos o que resta delas – podem levar a julgamento precipitado. Estendendo-se por 320 quilômetros perto da fronteira com o estado de São Paulo, a região da Mantiqueira faz parte da outrora vasta Mata Atlântica. Séculos atrás, essa floresta tropical famosa por sua diversidade cobria uma área com o dobro do tamanho do Texas, em uma faixa norte-sul paralela à costa. Hoje, as encostas das montanhas da Mantiqueira ficam praticamente sem árvores, cobertas por pastagens e campos agrícolas.

“Temos apenas 12% da Mata Atlântica original”, diz Rubens Benini, cientista da Nature Conservancy que trabalha há 22 anos para restaurar as florestas do Brasil. “E é muito fragmentado.”

A história da região da Mantiqueira é um conto clássico de destruição ambiental generalizada em nome do progresso econômico. Mas a história das florestas tropicais da região ainda não acabou.

Mais de uma década atrás, o governo de Extrema, um município da região da Mantiqueira, iniciou um programa de plantio de árvores como parte de um esforço para ajudar a garantir o abastecimento de água. O nome Mantiqueira vem de uma palavra indígena que significa “onde estão as nuvens”. Os picos das montanhas abrigam milhares de nascentes e córregos, cursos de água que abastecem São Paulo e Rio de Janeiro. As florestas ajudam a reter a água nos solos e retardam o escoamento das chuvas em córregos e rios. Sem florestas, os córregos da Mantiqueira agora mudam drasticamente de altos fluxos na estação chuvosa para baixos fluxos em tempos secos. Depois que o trabalho em Extrema ajudou a moderar alguns fluxos, os agricultores e pecuaristas locais se uniram aos esforços de reflorestamento – assim como a TNC. Desde 2005, o projeto replantou quase 5.000 acres de floresta e o plantio continua.

Em 2016, o Brasil assinou o Acordo de Paris e prometeu reduzir suas emissões para 43% abaixo do nível de 2005 até 2030. Para Benini, esse compromisso colocou o esforço de Extrema sob uma nova luz. Extrema havia replantado árvores para proteger sua água, mas essas mesmas árvores também absorviam dióxido de carbono todos os dias. E se houvesse dezenas de mais Extremas? Centenas? O Brasil poderia cumprir parte de seu compromisso climático e suportar melhor as secas futuras colocando árvores de volta em terras marginais que antes eram florestas.

Desde então, o Brasil estabeleceu uma meta de reflorestar 30 milhões de acres em seu território, parte de um crescente reconhecimento global de que a própria natureza pode ajudar as nações a cumprir seus compromissos climáticos. Gerenciados de forma inteligente, florestas, pântanos e solos têm a capacidade de armazenar carbono. Os próprios pesquisadores da Conservancy foram os primeiros a analisar de maneira abrangente o quanto as mudanças na conservação e no gerenciamento da terra poderiam fazer, não apenas nas florestas, mas em todos os tipos de paisagens.

A resposta, ao que parece, é muita.

Benini agora lidera a estratégia de restauração florestal da TNC para a América Latina. Ele permanece na vanguarda de uma iniciativa ambiciosa para ajudar o Brasil a levar o modelo Extrema para outros 283 municípios e, assim, restaurar quase 3 milhões de acres de floresta. Fazer isso exigirá ajuda de financiadores internacionais, mas esse investimento valerá a pena, diz Benini. A iniciativa retirará aproximadamente 280 milhões de toneladas de excesso de dióxido de carbono da atmosfera em 30 anos – o equivalente às emissões de mais de 55 milhões de carros – e cumprirá 10% da meta de reflorestamento do Brasil.

“Esta é uma nova maneira de olhar a paisagem”, diz Benini. “Quando estamos falando de restauração, não estamos falando apenas de trazer a floresta de volta. Estamos falando de enfrentar as mudanças climáticas “.A replantação de florestas – como Vinicius Uchoa faz aqui nas montanhas da Mantiqueira – é uma poderosa estratégia climática. Foto de Robert Clark
Em uma caminhada em um dia de primavera perto de sua casa em Harrisonburg, Virgínia, Bronson Griscom fala sobre as descobertas de pesquisa de sua equipe da maneira que alguém ainda acorda de um sonho profundo. Ecologista de florestas tropicais em treinamento, o diretor de ciência do carbono florestal da TNC há muito pressentia que a natureza era uma grande parte da solução para as mudanças climáticas.

A Griscom encontrou um corpo substancial de pesquisa publicada avaliando uma ou outra maneira específica de usar a natureza para combater as mudanças climáticas, seja restaurando florestas ou cultivando de maneiras que imitem mais a natureza. Mas ele diz: “Eu estava examinando essa [pesquisa], pensando: ‘Todo mundo está olhando para isso de diferentes ângulos, mas ninguém está realmente pregando a pergunta: como tudo isso se encaixa?’ Essa pergunta realmente não tinha sido respondida. em um nível abrangente. ”

Em 2014, Justin Adams, diretor-gerente global de terras da TNC, fez a mesma pergunta em uma reunião. Griscom se aproximou dele depois. “Eu estava tipo, ‘Devemos fazer um pequeno trabalho de revisão sobre isso'”, diz Griscom. Ele se lembra de ter pensado: “Vai ser divertido. Nada demais. Apenas execute alguns números.

Adams insistiu com ele – mas aconselhou, como Griscom coloca: “Isso é um grande negócio, e precisamos fazer isso da maneira certa”.

A busca para acertar os números rapidamente assumiu a sensação de uma expedição científica. Os sistemas naturais são muito mais confusos do que os projetados. Segundo Griscom, calcular quanto carbono, digamos, um hectare de pastagem de estepe seco pode absorver, “é muito mais complicado do que calcular os benefícios climáticos de uma turbina eólica”.

Foi preciso contratar uma equipe de funcionários adicionais e dois anos de horas atrasadas e fins de semana – além de um mergulho em técnicas estatísticas esotéricas, como simulações de Monte Carlo, curvas de custo de redução marginal e o método Delphi para obtenção de especialistas – para finalmente obter uma resposta.

Em 2017, Griscom e sua equipe calcularam, na Proceedings da Academia Nacional de Ciências, que as soluções climáticas naturais podem fornecer 37% das reduções de carbono necessárias para atender às metas do acordo climático de Paris – além de fornecer ar limpo, água e habitat para animais selvagens.

“Nós tendemos a pensar na natureza como uma vítima”, diz Griscom. “Mas houve menos atenção à resiliência fenomenal e ao poder da natureza para curar. A capacidade da natureza de resolver problemas simplesmente não recebe atenção suficiente. ”

As conclusões destacam as ações em três grandes linhas (“O caminho verde para um clima estável”, oposto). Um abraça o que muitos conservacionistas supuseram intuitivamente: na maioria dos lugares, simplesmente manter a natureza intacta ajuda a absorver o carbono da atmosfera. Deixe as florestas tropicais em pé, deixe os pântanos costeiros subdesenvolvidos, e a vegetação nesses lugares continuará crescendo e armazenando carbono.

Uma segunda estratégia intrigante centra-se no gerenciamento de áreas de trabalho – como fazendas, fazendas e bosques – com o carbono em mente. A contribuição em termos de carbono é menor que a de restauração, mas a estratégia pode ser aplicada em grandes áreas sem tirar terras da produção ou prejudicar as economias locais. O truque é encontrar a combinação certa de incentivos para convencer os produtores agrícolas e proprietários de terras a mudar a maneira como gerenciam as propriedades sob seus cuidados.

A terceira estratégia é restaurar sistemas naturais que foram danificados ou destruídos, assim como Benini e seus colegas esperam fazer no Brasil. A replantação de florestas oferece um enorme potencial para capturar carbono. Mas restaurar outras terras – pradarias, pântanos, manguezais costeiros e até ervas marinhas – também ajuda significativamente a imagem climática.

Além disso, o documento chega a uma verdade esquecida sobre os objetivos do acordo climático de Paris: eliminar as emissões de gases de efeito estufa de combustíveis fósseis é muito importante, mas reduzir as emissões por si só não será suficiente para manter a temperatura subir bem abaixo de 2 graus Celsius por 2030. A humanidade precisa descobrir como absorver muito carbono que já está na atmosfera, e Griscom acredita que suas descobertas oferecem um caminho claro para a ação.

É preciso ir além do norte de Nova York para encontrar um exemplo de como a análise da Griscom pode ser transformada em prática. Aqui, a TNC está ajudando o Albany Water Board a encontrar uma maneira de aumentar lucrativamente a capacidade de armazenamento de carbono em cerca de 6.500 acres de floresta pertencente à cidade, cujo único potencial de geração de dinheiro no passado era como madeira.

“Historicamente, a floresta era usada para preencher buracos fiscais”, diz Troy Weldy, gerente sênior de conservação da TNC em Nova York. Albany dificilmente está sozinho nessa prática, observa ele. Muitas cidades registram suas propriedades por dinheiro para complementar seus orçamentos.

Após a decisão dos EUA de se retirar do Acordo de Paris em 2017, no entanto, a prefeita de Albany Kathy Sheehan comprometeu-se a assumir parte da promessa que o governo dos EUA havia acabado de abandonar. Ao mesmo tempo, a TNC procurava parceiros para ajudá-la a criar um novo modelo de como os proprietários de florestas gerenciam suas propriedades florestais.

Sob um novo plano focado em carbono desenvolvido pela TNC, a floresta de Albany começou a parecer menos madeira em pé e muito mais créditos de carbono. “Mantemos as árvores no solo por um longo período de tempo, para que cultivemos árvores maiores”, diz Weldy. “E à medida que a floresta amadurece, ela absorve e armazena mais carbono”. Usando certificação de terceiros e mercados de carbono existentes, como os da Califórnia e Quebec, a Albany pode ganhar créditos pelo carbono extra que está armazenando e vendê-los a compradores que buscam compensar suas próprias emissões.

Além de ganhar créditos, as árvores maiores também significam maiores lucros com as vendas de madeira cuidadosamente planejadas que acontecem. As árvores maiores podem ser utilizadas de maneira muito melhor como madeira para construção. “Se você registra uma árvore e ela é moída e colocada em uma casa, o carbono ainda é armazenado”, diz Weldy. “O ciclo de vida de uma casa será de 100 a 200 anos, e esse carbono ainda está bloqueado durante esse período.” Por outro lado, a colheita de árvores menores geralmente é para lenha, que retorna imediatamente o carbono armazenado para a atmosfera quando queimado.

Está se transformando em uma mudança que faz sentido financeiro. Quando a TNC calculou as receitas potenciais para a autoridade hídrica, diz Weldy, “nossa estimativa conservadora foi de meio milhão de dólares em 10 anos, permitindo que as árvores crescessem por mais tempo”. Agora, com um inventário florestal mais detalhado em mãos e a decisão de Albany de incluir mais terras, Weldy acredita que o novo esquema de manejo pode realmente ser mais próximo
US $ 1 milhão para os cofres da cidade.A Julia Wangari faz parte de um projeto da TNC que está testando 10 variedades de bambu, novos fornos a carvão e fogões com eficiência energética para produzir um combustível de madeira mais sustentável.
Foto de Tate Drucker

Observar os esforços de conservação através de uma lente climática pode levar os projetos a novas direções, dependendo dos fatores econômicos que afetam as decisões de uso da terra.

Em locais com extensas florestas, manter as árvores em pé torna-se extremamente importante – e isso deu nova atenção ao empoderamento das comunidades indígenas para gerenciar suas terras tradicionais. Na Colúmbia Britânica, por exemplo, a Great Bear Rainforest possui uma das maiores lojas de carbono do mundo. Aqui, a TNC trabalhou com 27 Primeiras Nações para ajudá-las a obter direitos para gerenciar grande parte de seus territórios tradicionais e treinar uma nova geração de líderes e empresários no manejo florestal sustentável. Essas comunidades indígenas finalizaram um acordo com os governos canadenses e provinciais em 2016, após mais de uma década de planejamento e negociação. O acordo coloca 9 milhões de acres de floresta tropical fora do alcance da exploração madeireira e coloca milhões de acres mais sob estritas diretrizes de manejo florestal.

Na Indonésia, onde a silvicultura teve um papel importante no crescimento econômico nas últimas cinco décadas, o Griscom da TNC ajudou a desenvolver técnicas para minimizar a quantidade de carbono emitida durante as operações legais de extração de madeira. Mudanças simples, mais notavelmente garantindo que apenas árvores comercialmente valiosas sejam cortadas, podem reduzir as emissões pela metade. Este ano, o governo indonésio adotou o sistema para uso em todo o país e a TNC está adaptando-o para uso no México, Peru, Gabão e Suriname.

Fazendas e fazendas também oferecem muito potencial. “Isso não requer repensar fundamentalmente o que está sendo produzido em áreas de trabalho”, diz Griscom. “Mas precisamos repensar nossas práticas nessas terras”.

Por exemplo, práticas como plantar plantas de cobertura entre as estações de crescimento aumentam a quantidade de carbono armazenada nos solos. De longe, os maiores ganhos de baixo custo na agricultura poderiam vir simplesmente do uso correto de fertilizantes. As plantas podem consumir apenas uma certa quantidade de nitrogênio; portanto, quando os agricultores aplicam muito fertilizante à base de nitrogênio, isso desnecessariamente custa tempo e dinheiro. Pior, o fertilizante reage com o ar e forma óxidos nitrosos, que são um potente gás de efeito estufa.

Da mesma forma, mudanças pragmáticas no manejo de pastagens – por exemplo, permitindo que a grama se recupere entre os episódios de pastoreio – podem ajudar. No Quênia, a TNC trabalha com o Northern Rangeland Trust há uma década para criar normas apoiadas pela comunidade em torno de como as pastagens comunitárias são gerenciadas. Ao dar mais tempo para as pastagens se recuperarem, os proprietários de gado acumulam a quantidade de grama no chão – um resultado bom para o rebanho, bom para as pastagens e mensurável para armazenar mais carbono. Os trabalhadores no Quênia colhem bambu maduro. Iniciativas favoráveis ​​ao clima como esta ajudam a melhorar a saúde e os meios de subsistência humanos. Foto de Tate Drucker

A equação do carbono deu a muitos conservacionistas um zelo renovado pela proteção do habitat. As zonas úmidas costeiras, por exemplo – manguezais, manguezais e gramíneas marinhas – armazenam carbono nos solos, onde a água a sela. Drene ou desenvolva essas áreas e “são milhares de anos de carbono sendo liberados na atmosfera”, diz Emily Landis, Estratégia da zona úmida costeira da TNC.

Por outro lado, manter intacto o mesmo habitat faz sentido para o clima. As florestas de mangue podem armazenar até quatro vezes mais carbono por hectare do que as florestas terrestres. Os manguezais também ajudam a proteger as comunidades costeiras de tempestades.

Nesse sentido, proteger os manguezais – assim como usar menos fertilizante nos campos agrícolas – melhora a vida das pessoas.

No Brasil, Rubens Benini viu essa dinâmica. Apenas quatro anos depois de iniciar o trabalho de restauração no terreno nas montanhas da Mantiqueira, Benini começou a ver evidências de grandes mamíferos como pumas voltando para as áreas reflorestadas.

“Passei quase uma vida inteira trabalhando nisso”, diz ele. “Quando vemos os animais que imaginávamos terem desaparecido completamente desta região, é uma sensação muito agradável. Mas quando você entra em uma floresta restaurada e vê os animais, a água limpa e os rios – o cenário todo – a sensação é completamente incrível. ”

Amazônia; Número de queimadas cai; desmatamento dispara

Desaceleração das queimadas com relação ao mesmo período de 2019 não é suficiente para desligar o alerta vermelho na Amazônia.
Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Enquanto os sistemas que monitoram a Amazônia confirmam o aumento do desmatamento no mês de março e no primeiro trimestre de 2020, com relação ao ano anterior, o número de focos de queimadas no bioma caiu cerca de um terço no acumulado dos três primeiros meses. De acordo com os dados do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no mês de março a queda foi ainda maior, de cerca de 50% no número de queimadas. Os dados apurados não são, entretanto, motivo de comemoração, pois seguem acima da média para o período.

Em 2019, a queimada na Amazônia virou assunto internacional. O ano passado bateu recordes de focos de queimadas em março e abril, com 3.383 e 1.702 focos respectivamente. Em 2020, houve uma desaceleração de cerca de 50% no mês de março, com registro de “apenas” 1.641 focos. Apesar da redução, o número ainda está acima da média histórica para o período. Em abril, até o dia 22 (data anterior ao fechamento desta reportagem), o monitoramento havia registrado 595 focos.

“No contexto geral, eu diria que o cenário não é tão animador assim. Caiu, mas ainda está acima da média. Então também é preocupante. O ano de 2019 foi um ano muito complicado do ponto de vista das queimadas. Então a queda de queimadas em relação ao ano anterior não significa que o número de focos está baixo, até porque os dados do INPE mostram que os números de 2020 ainda estão acima da média, com exceção de janeiro e até o momento abril, mas ainda faltam 7 dias pro final do mês”, explica o pesquisador do Programa de Queimadas do INPE,  Alberto Setzer.

Gráfico do Programa de Queimadas do INPE com comparativo dos valores do 1º semestre de 2020 de acordo com série histórica.

O pesquisador lembra também que o começo do ano é apenas a ponta do iceberg quando o assunto são as queimadas na Amazônia, pois o auge do fogo na região ocorre historicamente nos meses de julho a outubro, durante a seca.  “O início do ano sempre tem números baixos, pois é o período chuvoso. É mais pro final do ano, com a estiagem, que o povo começa a queimar. 95% do que vai queimar na Amazônia vai acontecer nesse período. É muito cedo para tentar adivinhar o que vai acontecer esse ano”, explica.

Setzer argumenta ainda que o cenário para o ano depende de fatores como o clima, a economia, o setor agropecuário e a própria situação da fiscalização e dos órgãos ambientais.

Os três primeiros meses de 2020 somaram 4.037 focos de queimadas, uma redução de 35% em relação a 2019, quando no mesmo período foram registrados 6.170 focos na Amazônia.

Os índices do desmatamento tiveram um rumo contrários no mesmo período, com crescimento de 63%, de acordo com os dados do DETER (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real), também do INPE. O número saltou de 503 km² desmatados em 2019 para 796 km² no primeiro trimestre deste ano. O sistema do DETER mostra o quanto de desmatamento foi detectado nesses meses e não o que efetivamente foi desmatado no período.

“Esse índice alto de desmatamento agora nos próximos meses pode induzir ao aumento de queimadas ou talvez os desmatadores da Amazônia tenham mudado de estratégia e não estejam mais fazendo queimadas justamente porque era isso que estava acionando vários alarmes de destruição da floresta”, analisa o pesquisador associado do Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (CEIBAM/Inpa), Lucas Ferrante, em referência à grande mobilização nacional e internacional feita em 2019 quando as queimadas na Amazônia escureceram o céu de São Paulo e chamaram atenção do mundo.

O pesquisador aponta que esses números só expõem ainda mais quão falhas e ineficazes têm sido as ações do governo para tentar mitigar a devastação da floresta. “O Exército Brasileiro foi colocado no combate intensivo às queimadas na Amazônia. Só que a queimada ocorre depois que o desmatamento já foi feito, que é justamente para limpar a área. Isso mostra como as ações do Exército podem ser completamente ineficazes. O desmatamento está explodindo nesse momento, mas as queimadas não, então a destruição da floresta não está mais tão associada à queimada e sim ao desmatamento direto, o corte raso”, completa Lucas.

Na opinião do pesquisador, o governo falha reiteradamente na missão de proteger a floresta, “outro exemplo de ineficácia é o Conselho da Amazônia que foi formado agora pelo Vice-Presidente General Mourão e que é composto por 19 militares e não possui nenhum especialista do Ibama nem de nenhum outro órgão ambiental”, acrescenta.

Efeito quarentena

Pandemia afetará fiscalização? Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Numa análise preliminar, os números, tanto de queimadas quanto do desmatamento, não parecem ter sido muito afetados pela pandemia do coronavírus e do confinamento recomendado. “No começo da quarentena houve uma diminuição significativa no desmatamento, que talvez se justifique pelo menor trânsito de pessoas, mas o que a gente tem observado agora que a quarentena já está consolidada é que os números triplicaram. A gente não tem mais como dizer que a quarentena diminuiu o desmatamento”, pondera Lucas.

Para fins de análise a curva dos números a partir do dia 11 de março, quando a movimentação sobre o coronavírus se acentuou no país e os estados começaram a implementar restrições e estimular a quarentena. Os dados do DETER de avisos de desmatamento entre o dia 11/03 e 09/04 (data da última atualização do sistema), detectaram o desmatamento de 487,96km². O que chama atenção é que, entre os dias 14 e 22 de março, não houve nenhum registro de desmatamento (0km²), o que pode sugerir que de fato houve um freio inicial causado pela prevenção – ou medo – do COVID-19.

O freio, entretanto, não durou muito, e logo após a “retomada”, nos 18 dias que se seguiram (23/março a 09/abril) o desmatamento deu um salto exponencial e foram detectados 411,39km² de solo exposto e floresta derrubada.

As queimadas, entretanto, se mantiveram desaceleradas em relação à 2019. Entre 1º de março de 2020 e 22 de abril (dia anterior ao fechamento desta matéria), o monitoramento do INPE havia registrado 2.236 focos de queimadas na Amazônia, uma queda de 53% com relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 4.798 focos. Quem lidera o número de focos é o Mato Grosso com 1.172 focos. Completam o ranking os estados de Roraima (819 focos), Pará (93), Amazonas (85) e Rondônia (56). A queda mais expressiva foi registrada no estado de Roraima que teve uma redução de mais de 75% no número de focos.

Quando comparado o número de focos a partir do dia 11 de março deste ano, são 1.613 focos até o dia 22 de abril versus 2.236 no mesmo período em 2019.

Apesar dos números em queda, o fato do desmatamento seguir em crescimento acelerado combinado com as medidas pouco eficazes do governo no combate à destruição da floresta são um alerta de que o cenário permanece sombrio.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) divulgou uma Nota Técnica na qual analisa o fogo e o desmatamento em 2019 e explica que “a análise dos dados do ano passado demonstra o efeito positivo de ações de fiscalização e controle do uso do fogo na Amazônia, principalmente no período da moratória das queimadas (setembro e outubro de 2019). Elas foram necessárias antes e devem ser mantidas agora, especialmente considerando que quase um terço dos focos de calor registrados em 2019 aconteceu em terras públicas sem destinação – ou seja, efeito de grilagem –, que se intensificou no primeiro trimestre de 2020, num verdadeiro roubo de patrimônio público dos brasileiros.

Contudo, ao contrário do que aconteceu em 2019, o esforço em campo deve coibir também o desmatamento, visto que são duas faces de uma mesma moeda. Sem estratégias que mirem ambos os problemas conjuntamente, espera-se pouca efetividade de qualquer plano governamental de controle do fogo na Amazônia”.

A Nota Técnica alerta ainda que a temporada de queimadas deste ano poderá ser igualmente – ou até mais – severa, pois o desmatamento gera um acúmulo excessivo de matéria seca, combustível ideal para as chamas se converterem em incêndios florestais.

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A floresta amazônica no Brasil: vivendo nas sombras da violência e do desenvolvimento

No centro do desmatamento e dos conflitos de terra no Brasil, um pequeno agricultor viu o custo pessoal para sua família e comunidade de se manifestar. Seu filho se escondeu para escapar das ameaças de morte.

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Maria Marcia Elpidia de Melo não vê seu filho Elmiro há mais de seis meses. O líder comunitário, de um assentamento agrário no Pará, na Amazônia brasileira, tem sido um crítico franco contra a apropriação de terras na região. No ano passado, seu filho de 20 anos foi espancado e recebeu ameaças de morte por agressores desconhecidos – e então ela o mandou para o esconderijo.

Ela tem 42 anos e mora em Terra Nossa desde 2006 como mãe solteira e com seu único filho em uma casa de tijolos de um andar. Manchava luz pela janela de Melo enquanto ela se inclinava sobre a mesa da cozinha, achando que o trabalho dela colocara sua vida em perigo. O pequeno agricultor e presidente da Associação de Produtores Rurais de Nova Vitória se tornou cada vez mais envolvido com disputas de terras.

“O que eu não posso aceitar é se eles matarem meu filho”, disse ela, com os olhos lacrimejando. “Ele está seguro por enquanto, mas não vou visitá-lo porque tenho medo de alguém me seguir.” Antes de se esconder, Elmiro ajudou a mãe em sua fazenda.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, um órgão de vigilância da violência rural, três habitantes da vila de Melo foram assassinados em 2018 – e desde então 16 pessoas na região receberam ameaças de morte por causa de conflitos de terra.
Árvores destruídas pelo fogo em Novo Progresso, Pará, Brasil em agosto do ano passado.Imagens aéreas de toras cortadas ilegalmente alinhadas na floresta amazônica

Grilagem de terras e ameaças

De Melo relatou vários incêndios provocados pelo homem e minas ilegais na delegacia de Novo Progresso ao longo do ano passado. Mas, em três ocasiões, ela diz, os homens envolvidos na exploração alertaram-na para “parar de protestar ou enfrentar a morte”. A força policial não respondeu a um pedido de comentário sobre as ameaças.

Terra Nossa, um assentamento de 350 famílias cercadas por uma floresta sufocante e acessível apenas por uma estrada de terra, está no epicentro do desmatamento na Amazônia. O município vizinho de Novo Progresso ganhou as manchetes internacionais em agosto do ano passado, quando incêndios florestais gigantescos tomaram conta da região, uma prática agrícola anual agora levada ao extremo pela apropriação de terras.

Cerca de 124 incidentes de incêndios foram registrados pelas autoridades de Novo Progresso em apenas um dia, coordenados em grande parte por um grupo, principalmente agricultores, procurando limpar a terra da floresta e reivindicá-la por si mesmos.

Leis e regulamentos atuais

De acordo com a agência espacial brasileira INPE, o desmatamento entre 1 de agosto e 30 de novembro de 2019 totalizou 4.217 quilômetros quadrados, ou 46.000 campos de futebol americano – mais do que o dobro dos números de 2018 no mesmo período.

Manifestantes no Rio de Janeiro exigem mais proteção para a Amazônia

Especialistas dizem que as leis atuais incentivam um processo interminável de incêndios, desmatamento e apropriação de terras. “Existe um incentivo claro na lei”, disse Brenda Brito, pesquisadora do Instituto Imazon, uma organização de pesquisa com sede no Brasil. “Ele permite que você ocupe terras públicas, finja que as está usando [para trabalho legítimo] e depois reivindique o título da terra”.

Em dezembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro afrouxou ainda mais as regulamentações, triplicando a quantidade de terras que podem ser reivindicadas e permitindo que aqueles que ocupam terras desde pelo menos 2014 recebam títulos – anteriormente o limite era 2008.

Apoio ao desenvolvimento

Das estradas de terra que cortam a Terra Nossa, usadas para transportar madeira extraída ilegalmente, surge uma cena de encostas empilhadas com troncos de árvores de décadas. “Era uma vez bonito aqui”, disse Melo. “Antes de todo esse negócio começar.”

Mas a Amazônia é uma das regiões mais pobres do Brasil, com 45% de seus 23 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza. Há raiva de alguns agricultores locais com a sugestão de que a floresta tropical seja priorizada sobre as condições de vida dos trabalhadores normais. Bolsonaro, eleito após fazer campanha para abrir a Amazônia à indústria, acendeu apoio ao desenvolvimento.

Vista aérea da terra limpa em Novo Progresso, Brasil

“O que eles esperam que façamos? Para alimentar nossa família com sujeira?” disse Agamenon da Silva Menezes, líder sindical de agricultores em Novo Progresso.

“Mesmo que a mudança climática seja real, e não tenho certeza se acredito, por que você [o Ocidente] pode ficar rico e esperar que o resto de nós fique feliz por permanecer pobre?” Menezes adicionado.

Conflito com as comunidades locais

Apesar da ampla condenação internacional, Bolsonaro incentivou e defendeu essas práticas. “O desmatamento e os incêndios nunca terminarão”, disse o presidente no ano passado, argumentando que “é cultural”.

Na busca pelo lucro, no entanto, os ocupantes de terras em grande escala – tanto fazendeiros locais ricos como estrangeiros – estão cada vez mais entrando em conflito com as comunidades locais.

“Onde há desmatamento, geralmente há desapropriação e violência”, disse Mauricio Torres, cientista social e especialista em apropriação de terras na Amazônia. “Para desmatar, é necessário remover as comunidades que ocupam essa floresta.”

Alguns argumentam que incêndios, desmatamento e apropriação de terras no Brasil são incentivados por leis e regulamentos.

A apropriação de terras e incêndios na Amazônia tiveram um impacto direto nas comunidades locais no Brasil

Terra Nossa, da casa de Melo, é incomum entre pequenos agricultores que usam a terra e a floresta circundante repleta de açaí e castanha do Brasil de forma sustentável. A onda de ocupação de terras revirou esse modo de vida.

Raione Lima Campos, advogada da Comissão Pastoral da Terra na região, diz que líderes locais como de Melo frequentemente se tornam alvo de madeireiros e fazendeiros quando falam.

Ela acrescenta que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), o órgão nacional para questões de reforma agrária, fez pouco esforço para resolver as questões de invasão e violência de terras. “O INCRA não tem interesse nisso”, acrescentou, referindo-se à falta de ação. “Sempre foi ruim, mas agora a situação piorou.” O INCRA não respondeu a uma solicitação de comentário.

Para De Melo, o resultado é uma mistura estonteante de desconfiança nas instituições públicas que deveriam protegê-la. Mas a apropriação de terras é apenas uma parte do plano de Bolsonaro – juntamente com a ferrovia Ferrograo para transportar soja, barragens hidrelétricas ao longo do rio Tapajós e a rodovia BR-163 através do Pará – projetada para abrir a Amazônia ao agronegócio.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

Passeando pelo jardim da casa de Melo, onde seu filho Elmiro já brincou entre as plantações de caju, pupunha e açaí, há uma sensação de que ela é completamente isolada e vulnerável, mas também no coração pulsante de uma das infra-estruturas mais significativas projetos no mundo.

“Esses grileiros são uma gangue organizada que está em toda parte”, disse ela. “Eles até têm políticos influentes no meio deles. Qualquer problema que eles tenham, como eu, acabará por desaparecer.”

A Guerra que as Espécies Humanas não Podem Perder

“Até 2035, o ponto sem retorno poderá ser ultrapassado”, escreveu Matthew Burrows, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência, em um relatório no ano passado sobre riscos globais nos próximos quinze anos. Esse é o ponto após o qual impedir que a temperatura da Terra suba dois graus Celsius – ou 3,6 graus Fahrenheit – será extremamente difícil, se não impossível.

O gelo na Antártida está derretendo seis vezes mais rápido do que quarenta anos atrás, resultando em mais partos de icebergs – com riscos existenciais.

O iceberg que afundou o Titanic no Atlântico, em 1912, foi considerado um mero “pedaço de energia”, ou um pedaço menor de gelo flutuante; derreteu dentro de alguns anos. Os que vimos na Antártida eram enormes.

A Antártida é geralmente um continente poderosamente silencioso, exceto pelos ventos fortes ou pelas ondas no litoral.

“Os seres humanos serão apenas um pontinho no espaço da história da Terra”, disse Wayne Ranney, naturalista e geólogo. A única questão é quanto tempo o blip será.”

Na semana passada, a temperatura na Antártica atingiu quase setenta graus – a mais quente da história. Não foi por acaso de um dia. Famoso por suas paisagens de neve, o continente mais frio, selvagem, ventoso, mais alto e mais misterioso da Terra tem experimentado uma onda de calor. Alguns dias antes, uma estação meteorológica antártica registrou temperaturas em meados dos anos sessenta. Estava mais frio em Washington, DC. Imagens do norte da Antártica capturavam vastas faixas de terreno marrom estéril, desprovido de gelo e com apenas pequenos trechos de neve em forma de poça.

O problema não é se um novo recorde foi estabelecido: “é a tendência de longo prazo que torna mais provável a ocorrência desses registros com mais frequência”, John Nielsen-Gammon, diretor do Centro de Estudos Climáticos do Texas no Texas A. & M Universidade, disse esta semana. “É como uma floresta em que as árvores crescem constantemente e as árvores morrem, mas se elas começarem a morrer mais rápido do que podem voltar a crescer, você acabará perdendo a floresta”. “O mesmo se aplica às geleiras. As geleiras fluem para o oceano e se rompem, mas se elas se quebram mais rapidamente, a geleira recua e você perde gelo – e então o nível do mar sobe ao redor do mundo.”

O iceberg que sai da Antártica faz parte de um processo chamado parto. É normal e é uma etapa necessária no ciclo da natureza, exceto que agora está acontecendo muito mais rápido e em partes maiores – com riscos existenciais. Agora, o gelo na Antártica está derretendo seis vezes mais rápido do que há quarenta anos, afirma Eric Rignot, cientista da Terra na Universidade da Califórnia, Irvine, e co-autor de um grande estudo sobre a saúde do gelo no continente.

À medida que o clima esquenta, quanto e com que rapidez as geleiras da Terra derreterão?

Neste mês, um iceberg medindo mais de 160 quilômetros quadrados – o tamanho da ilha mediterrânea de Malta ou o dobro do tamanho de Washington, DC – interrompeu a geleira Pine Island (carinhosamente conhecida como porco, abreviada) na Antártida Ocidental. Em seguida, dividiu-se em pequenos “leitões”, de acordo com a Agência Espacial Européia, que os rastreava por satélite. O maior leitão tinha quase quarenta quilômetros quadrados.

O continente congelado é dividido em Antártica Ocidental e Antártica Oriental. (O Pólo Sul fica na Antártida Oriental.) A maior parte do derretimento e grande parte dos grandes partos aconteceu no oeste e ao longo de sua península de oitocentas milhas. Mas, em setembro, um iceberg de mais de seiscentos quilômetros quadrados – ou vinte e sete vezes o tamanho de Manhattan – partiu da plataforma de gelo Amery, na Antártida Oriental.

Dois outros grandes icebergs estão sendo rastreados à medida que suas fendas se tornam visíveis do espaço. Um é um porco no oeste, o outro está se formando na plataforma de gelo Brunt, no leste.

Lixão tóxico: ferro-velho de primeiro mundo no Gana coloca milhares em risco de câncer

 Gana se tornou um dos maiores depósitos de lixo do mundo para lixo eletrônico, criando uma indústria mortal que colocou milhares em risco.

O ferro-velho de eletrônicos perto da capital do Gana, Accra, deixou a região circundante contaminada com toxinas perigosas que poluíram o meio ambiente e criaram sérios problemas de saúde para os moradores.

Segundo uma estimativa, cerca de 200.000 toneladas dos eletrônicos descartados do mundo chegam a uma favela em Accra – o peso equivalente a mais de mil baleias azuis.

O enorme depósito de lixo é a principal fonte de renda para muitos trabalhadores, que escolhem montanhas de eletrônicos descartados e os derretem em metais como ferro e latão.

O processo de extração é altamente perigoso, liberando toxinas no ar que estão ligadas a uma série de problemas ambientais e de saúde sérios, incluindo dores crônicas, natimortos, poluição generalizada e danos à cadeia alimentar.

Os trabalhadores explicaram que sofrem de uma série de doenças, respirando a fumaça dos incêndios usados para queimar os aparelhos eletrônicose que causa dores no peito – e também dores de cabeça debilitantes.

Um estudo realizado por grupos de redes ambientais, o IPEN e a Rede de Ação da Basiléia, constatou que a exposição a longo prazo a vapores perigosos pode levar a sérios problemas de saúde, incluindo câncer ou danos aos sistemas imunológico e neurológico. Jindrich Petrlik, co-autor de um estudo ambiental, disse que não há sinais de que a situação esteja melhorando.

O crescimento do ferro-velho e a quantidade de lixo eletrônico … estão aumentando ano a ano; portanto, se nada for feito, o problema será maior e uma população maior poderá ser afetada pela contaminação geral do local e de seus arredores.

Os pesquisadores também descobriram que as toxinas mortais já entraram na cadeia alimentar. Galinhas que se alimentam perto do solo altamente contaminado em torno do lixão maciço absorveram o lixo em seus sistemas – expondo os humanos que os comem, ou seus ovos, a sérios riscos à saúde. Os poluentes também foram detectados no leite materno, o que significa que as toxinas estão sendo repassadas aos filhos dos trabalhadores.

Enfrentando problemas ambientais e de saúde que poderiam facilmente se estender por gerações, os habitantes locais disseram a que estavam desesperados por uma solução. Infelizmente, não há sinal de que o despejo maciço esteja indo a lugar algum.