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Congo:Especialistas prevêem que o covid-19 se espalhará mais amplamente

Os países pobres são especialmente vulneráveis

“Existem tantas crises no Congo.”

Gervais Folefack, que coordena os programas de emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) na República Democrática do Congo, domina a arte do eufemismo. O país foi destruído pela guerra e corrupção. “O tempo todo estamos respondendo a crises”, diz Folefack. Ele lista os mais recentes: Ebola, sarampo, cólera.

Para eles, ele pode ter que adicionar a covid-19, uma doença respiratória originada na China. Aqueles que precisariam responder a uma onda de casos cobertos por 19 anos já estão ocupados com o surto de Ebola que começou em 2018. “Estamos tentando nos preparar”, continua o Dr. Folefack, mas simplesmente não há tempo suficiente.

Até o momento, 99% dos casos confirmados do novo coronavírus estão na China. Dos 1.000 casos estranhos fora da China continental, mais da metade esteve no Diamond Princess, um navio de cruzeiro ancorado no Japão; o restante está espalhado por 27 países, principalmente na Ásia.

O Covid-19 se espalhou rapidamente na China, apesar do governo bloquear cidades inteiras por semanas. Os esforços da China, juntamente com as restrições de viagem que muitos países impuseram a seus cidadãos, retardaram o progresso do vírus. Mas muitos especialistas temem que isso se torne inevitavelmente uma pandemia. As autoridades de saúde estão tentando freneticamente se preparar.

Em 12 de fevereiro, Nancy Messonnier, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (cdc), disse que os Estados Unidos devem estar preparados para o vírus “ganhar uma posição” no país. Médicos na África do Sul estão em alerta, diz Cheryl Cohen, do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis. Mais de 850 médicos em todas as nove províncias do país foram ensinados a identificar a doença. Quem está enviando máscaras cirúrgicas, aventais e luvas para hospitais em mais de 50 países. Ele está ensinando os profissionais de saúde em toda a África como usá-los para prevenir infecções por covid-19 – e como tratar aqueles que têm a doença.

Um número crescente de países está examinando passageiros nos aeroportos e nas fronteiras em busca de sinais da covid-19. Mas quando um vírus começa a viajar pelo mundo, diz Michael Ryan, o verdadeiro ponto de entrada é uma sala de emergência movimentada ou uma cirurgia médica. No surto de sars de 2003 (síndrome respiratória aguda grave), outro coronavírus que se espalhou para mais de 20 países, cerca de 30% das 8.000 pessoas infectadas eram profissionais de saúde. Muitos, se não a maioria, dos surtos de sars no mundo – de Toronto a Cingapura – começaram em um hospital com um único paciente que havia sido infectado no exterior.

Em países onde os casos de covid-19 ainda são raros, os médicos estão tentando, por enquanto, identificar pacientes suspeitos perguntando àqueles com tosse e febre sobre viagens recentes a países com surtos da doença e testando-os. Nos Estados Unidos, se os pacientes apresentarem resultados negativos para a gripe sazonal, os laboratórios estão começando a testar a covid-19 (o país até agora identificou 29 casos).

Confirmar uma suspeita de infecção em um laboratório pode levar dias. Alguns pequenos países europeus têm apenas um ou dois laboratórios capazes de processar testes covid-19. Todo o suprimento de kits de teste da Europa é enviado dos dois principais laboratórios do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ecdc), a agência de saúde pública da ue. Todo o suprimento da América vem do CDC em Atlanta. Levará vários meses até que os testes comerciais estejam disponíveis.

Esteja preparado
Os EUA estão à frente da maioria dos países no planejamento de tais coisas, diz Hanfling. Desastres como o furacão Katrina – quando muitos pacientes morreram em hospitais que não estavam preparados para o desastre – revelaram a necessidade de se preparar para o pior. A cada ano, o governo federal concede aos estados e hospitais cerca de US $ 1 bilhão especificamente para a preparação para desastres. Isso é mais do que o orçamento nacional de saúde de muitos países africanos.

A experiência recente de outros países pode ajudá-los. Kerala, o único estado da Índia a confirmar casos de covid-19, rapidamente conteve um surto de Nipah, um vírus desagradável, em 2018 e, desde então, reforçou seu sistema de saúde. Uganda reteve a propagação do ebola do vizinho Congo e, no processo, acumulou estoques de roupas de proteção para os profissionais de saúde.

Mas os países pobres seriam particularmente afetados por surtos de cobiços-19. Uganda está acostumado a lidar com doenças transmitidas por sangue, mosquitos ou parasitas. O Covid-19, se vier, poderia se espalhar de forma rápida e imprevisível, o que testaria um sistema de assistência médica sem dinheiro. Ian Clarke, presidente de uma federação de saúde privada com sede em Uganda, teme que as taxas de mortalidade possam ser mais altas na África do que na China, porque muitas pessoas já enfraqueceram o sistema imunológico como resultado de HIV ou nutrição deficiente.

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Coronavírus: vírus se espalha. Aumenta o número de mortos

Dentro do laboratório Nos EUA desenvolvendo uma vacina contra o coronavírus

O número de mortos pelo surto de coronavírus aumentou para 170, e um caso confirmado no Tibete significa que atingiu todas as regiões da China continental.

As autoridades de saúde chinesas disseram que havia 7.711 casos confirmados no país em 29 de janeiro.

As infecções também se espalharam para pelo menos 15 outros países.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está novamente se reunindo em Genebra para considerar se o vírus deve ser declarado uma emergência de saúde global.

Vários países implementaram planos de evacuação e quarentena para os cidadãos que desejam retornar da China, onde o surto começou na cidade de Wuhan.

A Rússia decidiu fechar sua fronteira do leste com 4.300 km (2.670 milhas) com a China, na tentativa de impedir o contágio.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, nomeou Alemanha, Vietnã e Japão, como lugares onde as pessoas pegaram o vírus de outras pessoas que visitaram a China.

“Embora os números fora da China ainda sejam relativamente pequenos, eles têm o potencial de um surto muito maior”, disse ele, acrescentando que a transmissão humano a humano é uma preocupação.

Agora, mais pessoas foram infectadas na China do que durante o surto de Sars no início dos anos 2000, mas o número de mortos permanece muito menor. Sars, também um coronavírus, causou doenças respiratórias agudas.

Os pesquisadores estão correndo para desenvolver uma vacina para proteger as pessoas do vírus. Um laboratório na Califórnia tem planos para que uma vacina em potencial entre em testes em humanos em junho ou julho.

O que há de mais recente em evacuações?

As evacuações voluntárias de centenas de estrangeiros de Wuhan estão em andamento para ajudar as pessoas que querem deixar a cidade fechada e retornar aos seus países.

Espera-se que Reino Unido, Austrália, Coréia do Sul, Cingapura e Nova Zelândia coloque todos os evacuados em quarentena por duas semanas para monitorá-los quanto a sintomas e evitar qualquer contágio.

  • Britânicos em Wuhan voltam para casa na sexta-feira

A Austrália planeja colocar em quarentena seus evacuados na Ilha Christmas, a 2.000 km (1.200 milhas) do continente, em um centro de detenção que foi usado para abrigar requerentes de asilo.

The Costa Smeralda cruis ship, seen at port in CivitavecchiaImage copyright REUTERS
O navio Costa Smeralda, com 6.000 pessoas, está preso no porto perto de Roma

Cingapura está instalando uma instalação de quarentena em Pulau Ubin, uma ilha a nordeste do continente da cidade-estado.

Seis mil pessoas a bordo de um navio de cruzeiro na Itália foram impedidas de desembarcar depois que um passageiro chinês era suspeito de ter coronavírus; no entanto, os testes iniciais voltaram como negativos
Os vôos para tirar cidadãos britânicos e sul-coreanos de Wuhan foram adiados depois que permissões relevantes das autoridades chinesas não foram aprovadas.
Dois vôos para o Japão já pousaram em Tóquio. Até agora, três passageiros testaram positivo para o vírus, informou a mídia japonesa
Cerca de 200 cidadãos dos EUA foram levados de Wuhan e estão isolados em uma base militar na Califórnia por pelo menos 72 horas.
Duas aeronaves devem levar cidadãos da UE para casa, com 250 franceses saindo no primeiro voo
A Índia confirmou seu primeiro caso do vírus – um estudante no estado de Kerala, no sul, que estudava em Wuhan.

Japanese aircraft at Tokyo airportImage copyright AFP
Primeiro vôo do Japão com evacuados chegou na quarta-feira

Como a China está lidando com o surto?

Embora tenham sido levantadas questões sobre transparência, a OMS elogiou o tratamento da China pelo surto. O presidente Xi Jinping prometeu derrotar o que ele chamou de vírus do “diabo”.

A província central de Hubei, onde quase todas as mortes ocorreram, está em estado de confinamento. A província de 60 milhões de pessoas abriga Wuhan, o coração do surto.

A cidade foi efetivamente isolada e a China adotou inúmeras restrições de transporte para conter a propagação do vírus.

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A OMS alerta que o vírus tem potencial para um surto muito maior

As pessoas que estiveram em Hubei também estão sendo instruídas por seus empregadores a trabalhar em casa até que seja considerado seguro retornar.

O vírus está afetando a economia da China, a segunda maior do mundo, com um número crescente de países aconselhando seus cidadãos a evitar todas as viagens não essenciais ao país

Várias companhias aéreas internacionais pararam ou reduziram suas rotas para a China e empresas como Google, Ikea, Starbucks e Tesla fecharam suas lojas ou interromperam suas operações

Houve relatos de escassez de alimentos em alguns lugares. A mídia estatal diz que as autoridades estão “intensificando os esforços para garantir fornecimento contínuo e preços estáveis”.

A Associação Chinesa de Futebol anunciou o adiamento de todos os jogos nos anos 2020.

Coronavirus cases have spread to every province in China. There are now 7711 cases compared to 291 on 20 Jan. Hubei province has more than 4500 cases.
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Quem foi afetado?

Embora tenha havido quase 8.000 infecções, poucas informações detalhadas foram divulgadas sobre os perfis dos pacientes e como a doença os afeta.

A maioria dos casos confirmados envolve pessoas de Wuhan ou que tiveram contato próximo com alguém que esteve lá.

Um novo estudo publicado pela revista médica The Lancet mostra instantaneamente 99 casos do novo coronavírus observado no Hospital Wuhan Jinyintan, de 1 a 20 de janeiro. Revela:

  • Dos 99, 49 haviam sido expostos ao mercado de frutos do mar e animais que se acredita estar no centro do surto.
  • A idade média foi de 55,5 anos e a maioria (67) era do sexo masculino
    Febre e tosse foram os sintomas mais comuns.
  • Dezessete pacientes desenvolveram síndrome do desconforto respiratório agudo e 11 deles morreram por falência de múltiplos órgãos; 31 dos 99 foram liberados do hospital em 25 de janeiro.
  • Os pesquisadores disseram que a infecção parece ter “maior probabilidade de afetar homens mais velhos” com condições médicas adicionais.
  • Dos 99, 51 sofriam de uma condição crônica (principalmente cardiovascular ou cerebrovascular)
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Corona Vírus de Wuhan – China investiga o primeiro caso de ‘supercontêiner’ do coronavírus Wuhan

Um paciente transmite a doença a pelo menos 16 profissionais de saúde. Esses episódios foram fundamentais na expansão da SARS e MERS

Uma mulher de nacionalidade chinesa com uma máscara na estação de trem de Pequim. Em vídeo, 4.000 banheiros chineses viajam para Wuham para fortalecer a luta contra o coronavírus. AFP ATLAS

As autoridades chinesas estão investigando o primeiro caso em Wuhan de um paciente “supercontainer” – tradução da expressão em inglês usada em medicina, super spreader – um paciente que transmitiu o coronavírus a pelo menos 16 profissionais de saúde. Supercontailers são pessoas cuja capacidade de transmitir o vírus, por razões às vezes desconhecidas, multiplica a do paciente médio.

“Se na SARS um paciente costumava se espalhar de uma a quatro pessoas, com esses pacientes esse número subia para 36”, explica Natalia Rodríguez, médica do serviço internacional de saúde do Hospital Clínic de Barcelona e pesquisadora do ISGlobal.

A entrada desses grandes disseminadores de vírus em Wuhan acrescenta um novo elemento de preocupação para as autoridades. “Identificá-los precocemente pode ser útil para facilitar o controle do surto, mas, por enquanto, não se sabe como fazê-lo e ainda é muito cedo para saber seu papel nessa epidemia”, afirma José Miguel Cisneros, chefe de doenças infecciosas do Hospital Virgen del Rocío, Sevilha.

O papel desempenhado pelos supercontatores mais proeminentes das epidemias de SARS e MERS – principais referências em Wuhan, como também são causadas por coronavírus – já aparece nos anais da medicina por causa de sua importância. O médico Liu Jianlun é considerado a pessoa que involuntariamente fez a SARS deixar de ser um problema chinês para uma epidemia global.

Este médico, que acabou morrendo de doença, queria ir a um casamento em família em Hong Kong em 2012, apesar de se sentir mal e com alguns sintomas da doença depois de atender vários pacientes. Ele ficou no nono andar do Metropole Hotel, onde infectou 16 outros hóspedes que tinham quartos vizinhos. O vírus foi encontrado em espaços comuns, como o corredor ou a área do elevador. As pessoas infectadas foram as que espalharam o vírus para o Canadá, Vietnã, Cingapura e Taiwan.

Com o MERS, um único paciente de um hospital de Seul infectou 82 pessoas – doentes, visitantes, profissionais de saúde … – o que representa quase metade dos 186 afetados pelo surto que a Coréia do Sul sofreu em 2015.

A verdade é que “todos os motivos que levam uma pessoa a se tornar um supercontainer não são bem conhecidos”, explica Natalia Rodríguez. Existem alguns fatores comuns para todas as pessoas: “Quem está mais doente é infectado mais do que quem é menos. Quem não está isolado, mais do que quem é ”, acrescenta.lo está”, añade.

Mas existem outros fatores, incluindo os genéticos. “Eles geralmente são pessoas incapazes de conter adequadamente a multiplicação do vírus em seu corpo e mantêm uma carga viral alta no trato respiratório”, disse Pere Godoy, presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia (SEE). Cisneros destaca a enorme variabilidade entre as pessoas da capacidade de transmitir infecções, pois é o resultado da “interação de três fatores: o microorganismo, o paciente e a população exposta”.

O supercontainer mais famoso da história é Mary Mallon, Thypoid Mary, cozinheira assintomática da bactéria da febre tifóide que foi mantida após deixar para trás um rastro de surtos no início do século XX nos Estados Unidos.

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Anvisa dá aval à venda de maconha medicinal em farmácias

Agência também autoriza fabricação de produtos à base de cannabis no país, mas veta cultivo para esse fim. Fabricantes precisarão importar extrato. Venda só ocorrerá com prescrição médica e retenção da receita.    

MaconhaRegulamentação proíbe importação da planta de maconha ou de partes dela

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta terça-feira (03/12) um novo marco regulatório para o registro e venda de produtos à base de cannabis em farmácias no país, tornando o Brasil a nação mais recente da América Latina a autorizar o uso da maconha medicinal.

A decisão entrará em vigor 90 dias após sua publicação no Diário Oficial da União e terá validade de três anos. Os produtos poderão ser em formato de comprimidos ou líquidos, para uso oral ou nasal, bem como soluções oleosas.

De acordo com a Anvisa, a medida visa “encontrar uma forma de garantir o acesso por via farmacêutica” e “assegurar um mínimo de garantia para os usuários do produto”. A agência afirma que a regulamentação oferece alternativa a pacientes que dependem da maconha medicinal.

A Anvisa rejeitou, porém, o cultivo da maconha para fins medicinais ou pesquisa. Dessa forma, apesar de autorizar a fabricação desse produto em território nacional, empresas que desejarem entrar nesse ramo precisarão importar o extrato de cannabis.

As novas regras estabelecem que fabricantes desse tipo de produto necessitam de autorização da vigilância sanitária, além de um certificado de boas práticas emitido pela Anvisa. Farmácias de manipulação não têm autorização para fabricar produtos à base de cannabis.

Além disso, eles só poderão ser vendidos com prescrição médica e retenção de receita. Pacientes precisarão assinar um termo de consentimento. A Anvisa destaca ainda que as embalagens não podem ter termos como medicamento ou remédio, pois mais testes são necessários para elevar o produto à base de cannabis à categoria de medicamento.

Se tiver teor acima de 0,2% de tetra-hidrocanabidiol (THC), um dos derivados da maconha, a embalagem precisará do aviso de que “pode causar dependência física e psíquica”. Esse tipo de produto só será prescrito a pacientes terminais ou que já tenham tentado todas as alternativas terapêuticas.

O marco regulatório possibilita ainda a importação de substratos de cannabis para a fabricação dos produtos. Fica vetada a importação da planta ou de partes dela.

Produtos com o canabidiol são usados no tratamento de doenças como epilepsia, autismo, Parkinson, dores crônicas e câncer.

Atualmente, pacientes que utilizam medicamentos à base de canabidiol precisam de uma autorização da agência para importá-lo. O preço pode chegar a 2 mil reais.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, mais de 7,7 mil pessoas obtiveram o aval da agência desde 2015. Estima-se que 3,9 milhões de podem ser beneficiadas com a liberação da venda em farmácias.

CN/efe/rtr/ots

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A desigualdade no Brasil é medida pelos dentes

Ricos vão ao dentista, e pobres sentem dor.

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Foto: Image Source/Folhapress

MARIA DA LUZ teve sua primeira escova de dentes aos 15 anos. Antes disso, usava folhas para limpar os dentes, como era de praxe em Mulungu do Morro, interior da Bahia, onde nasceu. Aos 14, sentiu uma dor forte no dente da frente e seu avô a levou ao farmacêutico, ordenando que extraísse todos os dentes da frente de uma vez só — sem anestesia — para que não voltasse a incomodar. Aos 17 anos, depois de muito trabalhar na roça, ela conseguiu juntar dinheiro para comprar uma dentadura, com a qual nunca se adaptou.

Maria migrou para São Paulo com os três filhos, priorizando dar o melhor de saúde e educação para eles com as suadas economias do salário de auxiliar de serviços gerais. Ela nunca tirava foto. Dizia que era infeliz com sorriso e que seu sonho era fazer um tratamento dentário. Em 2015, conseguiu fazer implantes com a poupança de muitos anos. Hoje, não coloca mais a mão na boca para sorrir.

A história de Maria, contada a mim por sua filha Maya, é um pouco da história de dezenas de milhões de brasileiros que têm suas vidas atravessadas por dores de dente e falta de autoestima — quadro que só muda quando as famílias experimentam alguma mobilidade social.

Mas o desfecho positivo do caso de Maria, hoje com 47 anos, é incomum. Os problemas relacionados à saúde bucal tornam miserável o cotidiano de pessoas pobres. A dor física latejante e constante se soma à dor moral – o sentimento de vergonha, a humilhação e o trauma por não conseguir sorrir.

Apesar da onipresença desse sofrimento do cotidiano brasileiro, surpreende o quão invisível é o apartheid bucal que divide o país.

Este texto começou há dez anos, quando vi um estudante rico debochar de um porteiro que se queixava de dor de dente. “Que coisa mais jurássica! Isso ainda existe?”, ele disse. Naqueles dias, eu e a antropóloga Lucia Scalco começávamos nossa pesquisa etnográfica sobre consumo e política na periferia do Morro da Cruz, Porto Alegre. Recém havíamos conhecido Juremir, hoje com 52 anos, que não teve dinheiro para pagar um dentista, e a solução encontrada foi colocar álcool na boca para lidar com a dor até o nervo necrosar.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, quatro a cada dez brasileiros perdem todos os dentes depois dos 60 anos. O país que tem mais dentistas no mundo é também o país dos banguelas. Na terra em que ricos pagam o preço de um apartamento para colocarem facetas reluzentes, milhões de pessoas ainda praticam métodos da Idade Média para lidar com a dor. Como afirmam os pesquisadores Thiago Moreira, Marilyn Nations e Maria do Socorro Alves, nesse mundo de abismos, a questão dentária é chave para compreender a desigualdade social e a pobreza no Brasil.

O país que tem mais dentistas no mundo é também o país dos banguelas.

A pobreza é constituída multidimensionalmente por meio de uma combinação de renda e acesso à educação e à saúde. A condição dental precária é exemplar da pobreza porque é resultado de uma falência de uma série de eixos, como a condição financeira, o local de residência e o acesso à informação e à odontologia.

Se a saúde bucal é um fato social por excelência, não é raro escutar profissionais da saúde culparem as vítimas por sua situação. Durante a apuração que fiz para a elaboração deste texto, ouvi coisas como “pobre é acomodado”, “eles têm valores errados, preferem pagar por um tênis a ir ao dentista”, “hoje em dia qualquer pessoa consegue escova de dente de graça em uma universidade”. Individualizar a responsabilidade é uma falácia conveniente.

É difícil pensar a longo prazo quem tem que viver com o imediatismo da sobrevivência. Muitos sujeitos quando conseguem dinheiro precisam comprar comida. Outras vezes, optam por se dar a um pequeno luxo.

Em nossa pesquisa, coletamos infindáveis casos de pessoas que disseram que, em meio a uma existência precária marcada pela dor e sofrimento, permitir-se um pequeno ato hedonista significava uma espécie de “último desejo”– um prazer que será lembrado na memória para sempre. Podia ser um estrogonofe com batata palha, um book fotográfico ou um tênis de marca. Curiosamente todos esses auto-presentinhos foram comprados por pessoas que, aos 40 anos, já não tinham mais nenhum dente na boca.

Muitas crianças crescem em ambientes onde é comum o compartilhamento de escova de dentes. “Meu sonho é ter uma só para mim e não ter que dividir com meus sete irmãos”, escreveu uma menina em uma cartinha ao Programa Papai Noel dos Correios.

Adolescentes pobres saem da infância acumulando histórias dramáticas, que os prejudicam na socialização. Wellington, oito anos, morador do Morro da Cruz, tinha oito cáries em dentes de leite. “Podre” foi como a a dentista definiu a boca do menino. Ele não comia e não tinha mais alegria de viver. Ainda que existam serviços baratos e até gratuitos oferecidos por universidades e ONGs, famílias como de Wellington não sabem sequer como encontrar esses serviços. Minha colega Lúcia fez a mediação e agora ele está recebendo tratamento.

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Beto, 17 anos, não tinha amigos e sofria bullying dos próprios irmãos por causa dos dentes. Hoje com o sorriso reabilitado, Beto tem uma nova vida social. Antes e depois de Beto encontrar a equipe do SAS Brasil.Fotos: Reprodução/SAS Brasil

William Estevesom, 34 anos, trabalha como técnico bucal do bairro mais pobre do município de Alvorada, um dos mais violentos e estigmatizados da Região Metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ele relata que, nas segundas-feiras de manhã, os pacientes chegam no posto para pegar ficha no SUS depois de um final de semana de tormenta em que já tentaram de tudo para passar a dor, como passar perfume e creolina nos dentes.

As técnicas para lidar com a dor que eu e Lúcia ouvimos nos últimos anos são muitas. Álcool, sal, cravo, pomada de procedência duvidosa e até “sangria”: furar o própria gengiva com uma faca para sangrar e deixar a infecção vazar. Também é comum que as pessoas extraiam seus próprios dentes, pois pensam que, em última instância, é isso que muitos postos de saúde irão fazer. Na comunidade de Dendê, em Fortaleza, os recursos são rezar pelo dente para Santa Apolônia, além de cachaça, óleo de coco e líquido de bateria para diminuir a dor. Muitas dessas técnicas trazem riscos graves à saúde. São fruto do desespero. Como disse Juremir: “não é dor, é uma tormenta, uma angústia”.

Com a ajuda pessoal de Lúcia, Juremir conseguiu colocar uma prótese nos dentes. Voltou a sorrir depois de muitos anos e não parava de postar fotos no Facebook. Mas após cinco anos, o dente que segurava a prótese infeccionou, sua cara inchou e ele recorreu a quase todos os caminhos acima.

Essas experiências vividas vão deixando marcas que deterioram a identidade do sujeito. O processo pode ser encarado como parte da vida: a “sofrência do pobre”. Para muitos, o sofrimento bucal atravessa a vida toda. É uma “sina, um karma de outra vida”, como disse uma interlocutora. Isso porque, mesmo depois de colocar prótese, a alegria pode durar pouco. Sem acompanhamento, muitos não se adaptam e voltam a ser desdentados. “Essa desgraça fica solta, caindo, me machuca gengiva. Só coloco para tirar selfie,” brincou Rosi, 56 anos, também do Morro da Cruz.

Ter os dentes da frente é um requisito estético exigido pela maioria dos empregadores.

Colocar a mão na boca para sorrir é uma cena cotidiana que revela a vergonha sentida por quem tem uma falha na dentição. Por outro lado, percebemos o orgulho que as pessoas têm de mostrar os dentes saudáveis que restam: “esse e esse são bons”.

O técnico do SUS William Estevesom também narrou que, há poucos dias, uma senhora chegou no posto implorando para colocar um dente na frente, alegando que precisava trabalhar já que o inverno estava chegando. Ter os dentes da frente é um requisito estético exigido pela maioria dos empregadores.

Uma amiga, quando soube que eu ia escrever esta coluna, pediu-me para contar a história de sua mãe. Rosana, uma psicóloga que teve uma trajetória de sucesso e ascensão social no norte do país, passou a vida se escondendo das filhas para escovar os dentes. Minha amiga só descobriu que a mãe usava prótese quando tinha 12 anos. Demorou muito tempo para que a mãe se sentisse à vontade para comprar Corega na frente dela. Quando ela faleceu, as filhas tiveram o cuidado de colocar a prótese para velar seu corpo: “ela não gostaria de ser vista de outra forma”.

As filhas de Rosana passaram a vida cuidando excessivamente dos dentes – algo que escutei de muitas pessoas cujas famílias ascendem socialmente. O trauma da dor e a vergonha social de não poder sorrir é uma ferida que deixa marcas familiares profundas. Portanto, o cuidado com a saúde bucal passa a ser uma questão de dignidade, uma herança que essas mães, como Maria e Rosana, deixam para seus filhos.

A estética e a saúde dos dentes dizem muito sobre mobilidade social. Uma das primeiras medidas que muitas pessoas tomam quando conseguem um emprego é colocar aparelho nos dentes. Quando eu a Lúcia pesquisávamos os jovens que davam “rolezinhos” nos shoppings, percebíamos que eles sonhavam em usar aparelho: era uma marca de distinção tal como um tênis da Nike. Eles nos contaram que aparelhos dentários falsos eram vendidos na comunidade para eles irem “bonitos ao baile funk”. Nunca encontramos esses tais aparelhos falsificados, mas a existência dessa história já diz muito sobre as aspirações e desejo de status social da juventude das periferias.

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Anna Borges Louzada, 51 anos, trabalha em um centro de especialidades odontológicas (CEO) em Manaus. Defensora do SUS e preocupada com o governo atual, ela se dedica ao tratamento de pessoas com necessidades especiais.

Foto: Reprodução/Instagram

Apesar do cenário dramático, não são poucas as conquistas individuais e coletivas dos últimos anos. Houve uma significativa expansão das universidades do Brasil — que oferecem serviços a preço muito baixo à comunidade — e a proliferação de clínicas populares que foram impulsionadas pela inclusão financeira da Era Lula. A criação do Programa Brasil Sorridente, que chega a 90% dos municípios brasileiros, já atingiu 100 milhões de pessoas pelo atendimento básico do SUS. Há também, por todos os lados, profissionais que fazem trabalhos na ponta do sistema, superando a falta de recursos de norte a sul do país, em comunidades ribeirinhas ou em favelas.

Se as conquistas sociais aconteceram a duras penas, o cenário de cortes públicos do atual governo alerta para uma situação de calamidade. Quem começou a sorrir nos últimos anos pode voltar a se esconder.

Mastigar, gargalhar e ter uma vida sem dor são direitos humanos fundamentais. Sorrir é o gesto que expressa a felicidade. Por isso, a inclusão bucal, associada a um projeto de transformação social, deve ser uma pauta prioritária em qualquer projeto de reconstrução do campo progressista.

*Os nomes dos personagens deste texto foram omitidos para preservar sua identidade.

Câncer,Google,Tecnologia,Informática,Ciências,Saúde,Medicina,Blog do Mesquita

O programa do Google que diagnostica câncer de pulmão ‘com mais eficiência que médicos’

A inteligência artificial poderia melhorar a detecção de câncer em 5%. Será que a Inteligência Artificial (IA) pode ser mais eficiente que os médicos no diagnóstico do câncer de pulmão? É o que indica um estudo recente realizado por cientistas da Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, em parceria com o Google, que esperam aumentar com esta tecnologia a eficácia do diagnóstico da doença.

A identificação de tumores em estágio inicial facilitaria o tratamento do câncer.

A equipe responsável pela pesquisa afirmou que a inteligência artificial terá um papel “enorme” no futuro da medicina, mas o software ainda não está pronto para uso clínico.

O estudo se concentrou no câncer de pulmão, que mata mais pessoas (1,8 milhão por ano) do que qualquer outro tipo de tumor.

É por isso que os EUA recomendam a realização de exames para identificar a doença a pacientes considerados de alto risco devido a um longo histórico de tabagismo.

No entanto, esses exames podem resultar em biópsias invasivas para pessoas que não têm câncer, além de não conseguirem detectar alguns tumores.

Como foi o estudo?
O estudo utilizou inteligência artificial para determinar se a análise de tomografias computadorizadas poderia ser aprimorada.

O primeiro passo foi treinar o software por meio de 42.290 imagens de tomografias de pulmão de quase 15 mil pacientes.

Os pesquisadores não indicaram à inteligência artificial o que procurar, apenas quais pacientes tinham câncer e quais não.

Em seguida, o software foi testado contra uma equipe de seis radiologistas especializados na interpretação de tomografias.

O programa foi mais eficiente que os radiologistas ao examinar uma única tomografia computadorizada, e foi tão eficaz quanto quando havia várias tomografias para serem interpretadas.

Os resultados, publicados na revista científica Nature Medicine, mostram que a inteligência artificial poderia aumentar a detecção do câncer em 5%, e ao mesmo tempo reduzir os falsos positivos (pessoas diagnosticadas erroneamente com câncer) em 11%.

“O próximo passo é aplicá-la a pacientes em um ensaio clínico”, afirmou Mozziyar Etemadi, da Universidade Northwestern, à BBC.

Segundo Etemadi, a inteligência artificial às vezes “sinaliza um nódulo pulmonar que, em todos os aspectos, parece benigno, mas o programa acredita que não é. E eles geralmente estão certos”.

“Uma área de pesquisa científica é descobrir por quê”, acrescentou.

O estudo se concentrou no câncer de pulmão, que é o que mata mais pessoas no mundo
Etemadi afirma que, se for realizado um trabalho conjunto entre a inteligência artificial e os médicos, o resultado seria ainda mais eficaz – e a IA poderia ter um grande papel na medicina.

Rebecca Campbell, do instituto de pesquisa Cancer Research, do Reino Unido, diz que é animador ver inovações tecnológicas que possam um dia ajudar a detectar câncer de pulmão em estágio inicial.

“Do mesmo modo que aprendemos com a experiência, esses algoritmos executam uma tarefa repetidamente, e cada vez ela é ajustada um pouco para melhorar a precisão”, diz ela.

“Detectar o câncer precocemente, quando é mais provável que o tratamento seja bem-sucedido, é uma das formas mais poderosas de melhorar a sobrevivência, e o desenvolvimento de uma tecnologia que não seja invasiva poderia ter um papel importante”, completa Campbell.

“Os próximos passos serão testar essa tecnologia ainda mais para ver se ela pode ser aplicada com precisão a um grande número de pessoas”

Fumo,Saúde,Medicina,Câ,cer,BlogdoMesquita,Tabaco,Ciências,Medicina

Fumo, uma droga. Literalmente.

Fumo,Saúde,Medicina,Câ,cer,BlogdoMesquita,Tabaco,Ciências,MedicinaFabricantes de cigarros, sonegadores e contrabandistas serão desmascarados eletronicamente.

As fábricas de cigarros, (que produzem uma das drogas mais destruidoras do mundo, e agem como se fossem criadoras de perfumes) estão em pânico.
Motivo: a Receita Federal vai instalar nessas indústrias (?) um dispositivo especial de “selos eletrônicos”. Esse dispositivo foi desenvolvido num trabalho conjunto da Receita com a Casa da Moeda.

Esse equipamento revolucionário tem capacidade para decifrar o código digital invisível. E será inserido no selo colado nas carteiras de cigarro.

Esse selo já é fabricado pela Casa da Moeda mas continua sujeito a falsificações. Duas grandes fábricas já foram submetidas a testes, que funcionaram muito bem.
O projeto da Receita é instalar com URGÊNCIA, esse equipamento moderníssimo em 19 fábricas da droga chamada cigarro.

Dessa forma a Receita poderá seguir a trajetória dos maços de cigarro, da produção ao último revendedor. Com isso a eficiência da fiscalização, importantíssima.

Com a nova tecnologia a Receita localizará, instantaneamente, carregamentos destinados à exportação e que tenham sido desviados. Servirá também para monitorar e acompanhar, cargas transportadas de um estado para outro. Além da evasão de tributos federais é muito grande a sonegação de impostos estaduais.

Cigarros e bebidas, (dois crimes contra o cidadão, que é seduzido desde menino pela propaganda e o fascínio de beber e fumar, como se isso fosse demonstração de independência, masculinidade e maturidade) estão, disparados entre os maiores sonegadores. No varejo e no atacado.

No caso de bebidas, um medidor de vazão já foi instalado nas fábricas, tendo como resultado imediato aumento na arrecadação. A Receita calcula que a sonegação no setor da droga chamada cigarro alcance o total de 2 bilhões de reais. Que é faturada “por fora”, para satisfação e enriquecimento.

Só que a própria Receita considera que essa estimativa é muito pequena. Como são insistentes sonegadores, os fabricantes de cigarros são incansavelmente multados pela Receita. Normalmente essas multas atingem o total de 4 bilhões. Que esses fabricantes da morte pagam com tranqüilidade, pois a diferença entre o que pagam de multa e o que sonegam diariamente, é enorme e proveitosa.

A entrada em vigor desse “selo eletrônico” será um festival Wagner para a arrecadação. Pois nem é segredo (já escrevi muito sobre isso) que as multinacionais de cigarros, (TODAS SÃO) são campeões não só de sonegação mas de contrabando.

Existem informações provadas e comprovadas que essas multinacionais de cigarros são donas ou sócias majoritárias de fábricas instaladas em países vizinhos, como Paraguai e Uruguai.
Essas empresas gritam que são vítimas de contrabando praticado pelos chamados “sacoleiros”.

Ora, o contrabando é tão grande que não cabe nem caberia na bagagem desses pobres “contrabandistas”.
Esses miseráveis cidadãos que vivem de atravessar a fronteira em Ciudad Del Este, são ludibriados e acusados injustamente. Esse “contrabando”, quase sempre é produzido e vendido aqui mesmo, sem nota nem imposto.

Esses SONEGADORES, falsamente acusam os outros do CONTRABANDO que praticam, querem até desmoralizar a Justiça, pedindo INDENIZAÇÃO MORAL.

Com essa providência, a Receita Federal jogou os fabricantes de cigarros na vala comum dos criminosos. Os que asfixiam a população e querem asfixiar também a ARRECADAÇÃO.
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Rio dos bois, uma cidade que vive à espera de um médico

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Moradores em uma região de Rio dos Bois, onde quase metade da população vive com menos de meio salário mínimo. PREFEITURA DE RIO DOS BOIS

A cidade de Rio dos Bois, no Tocantins, revive uma situação que parecia ter superado há cinco anos: a falta de um médico fixo e o atendimento diário. Localizada a 123 quilômetros da capital Palmas, o município ganhou seu primeiro médico na atenção primária ao aderir ao Mais Médicos e, com o programa federal, passou a ofertar atendimento nos cinco dias úteis da semana para seus 2.800 habitantes no único posto de saúde da cidade. Foi uma conquista, embora o município seguisse distante de atingir o parâmetro de atenção considerado ideal pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de um profissional para cada mil habitantes.

Quando Cuba decidiu encerrar a cooperação com o Brasil, em novembro passado, a cidade perdeu o médico cubano que atendia no posto, mas chegou a ter a vaga substituída por uma profissional brasileira. Três meses depois de começar a trabalhar, a médica renunciou ao programa, segundo funcionários da saúde do município, porque passou em um concurso em Goiânia — abriu-se, assim, uma das 1.052 vagas ociosas por desistências no Brasil que foram anunciadas pelo Ministério da Saúde. A vaga ainda não foi reposta, e já faz dois meses que Rio dos Bois oferece atendimento médico apenas dois dias na semana. Isso porque o município, que já financiava um plantonista para atender no único dia útil em que o profissional “titular” era liberado para atividades de formação previstas no programa, dobrou a carga horária dele.

“Como tem dia que não tem médico aqui, quando a gente tem uma dor mais forte vai mais é pra Miracema [a cidade vizinha, que fica a 47 quilômetros de Rio dos Bois]. Lá é mais certo ter médico, e eles passam um remédio pra passar a dor”, diz o morador Milton Medeiros de Morais, 27 anos, que trabalha na limpeza de um posto de gasolina do município. Ele conta que os profissionais do posto de saúde atendem bem aos pacientes, mas lamenta que só tenha médico nas quartas e quintas. “O atendimento  um pouco apertado depois que a médica saiu, mas pelo menos o município de referência fica perto”, afirma uma funcionária da saúde municipal, que não quis ser identificada, ao explicar que Rio dos Bois disponibiliza ambulâncias e carros pequenos para levar até Miracema os pacientes cujos casos não podem ser resolvidos ali. “Graças a Deus pelo menos ambulância a gente tem e basta ligar que a gente consegue ir [para Miracema]. Por que médico aqui não é todo dia”, declara Milton.

Ainda assim, ele conta que só se submete a esta viagem — que dura em média 45 minutos — em casos mais graves e que se acostumou a usar plantas medicinais e chás para cuidar da própria saúde.  “Eu tomo mais é remédio do mato. Todo dia eu faço uma garrafadinha [com mel e plantas] e tomo um pouquinho. Tem uns pezinhos de planta na minha casa, pense como é bom”, diz. O morador tem uma doença nos rins, mas diz que reduz as idas ao médico porque pode comprar os remédios que toma regularmente na farmácia com o salário que ganha na limpeza do posto de gasolina. Algo que nem todos da cidade podem fazer, já que quase metade da população (46%) vive com menos de meio salário mínimo — 499 reais — por mês, segundo dados do IBGE.

Os indicadores de saúde de Rio dos Bois também não são animadores. A taxa de mortalidade infantil média na cidade — de 22,73 óbitos para 1.000 nascidos vivos — é bem maior que a média nacional — de 14. Além disso, as condições urbanas não ajudam: apenas 2,5% dos domicílios têm esgotamento sanitário adequado, uma estrutura importante para evitar doenças como diarreia, hepatite A e verminoses, que são enfermidades geralmente tratadas e prevenidas justamente com a ajuda dos profissionais da atenção básica.

Moradores de Rio dos Bois em uma ação da Secretaria de Saúde do município.
Moradores de Rio dos Bois em uma ação da Secretaria de Saúde do município. ARQUIVO PREFEITURA DE RIO DOS BOIS

O EL PAÍS entrou em contato com a Secretaria de Saúde de Rio dos Bois para saber os impactos da ausência de médico fixo na cidade, mas a secretária Maria Vitalina não quis dar entrevista, afirmando que havia outros municípios na mesma situação. Ela se limitou a explicar que seria mais adequado conseguir as informações com a coordenação do Mais Médicos no Tocantins. Esta, por sua vez, afirmou que havia previsão de a vaga de médico ser ocupada na próxima semana por um profissional remanejado de outra cidade, mas não especificou qual era. O Ministério da Saúde também não confirmou essa reposição.

Pelo menos outras 18 cidades, localizadas em nove Estados diferentes, estão sem médicos na atenção básica por conta da desistência dos brasileiros que substituíram os cubanos no programa federal. Os dados são de um levantamento feito pelo EL PAÍS ao cruzar a lista de municípios com desistência disponibilizada pelo Ministério da Saúde com a lista de cidades que dependem exclusivamente do programa feita pelo Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems). A estimativa do Conselho considera municípios que têm apenas uma Equipe de Saúde da Família (ESF) participante do programa cujo médico responsável por ela até novembro era cubano.

O presidente do Conasems, Mauro Junqueira, diz que o provimento das vagas está garantido por lei e que o ministro Luiz Henrique Mandetta teria prometido a reposição nas cidades vulneráveis ainda no mês de abril. “A ideia é que seja já dentro do [novo programa] Mais Saúde, mas ainda não conhecemos a proposta como um todo”, afirma. Mandetta anunciou que enviaria ao Congresso uma nova proposta para substituir o Mais Médicos ainda neste mês.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que lançará o Mais Saúde “em algumas semanas”, mas ressaltou ter publicado uma portaria estendendo para seis meses o prazo de pagamento da verba para custeio de outros profissionais das unidades básicas de saúde para que os municípios não perdessem verba após dois meses sem médico, como determinava a portaria anterior. O Ministério paga 11.800 reais de salário dos médicos pelo programa e repassa 4.000 para ajudar no custeio das equipes que contam com esses profissionais. “Essas localidades que perderam profissionais do Mais Médicos poderão utilizar os recursos também para contratar seus próprios médicos”, sugere a pasta.

Uma conta difícil de fechar

Mas a desistência dos brasileiros não é o único buraco no programa. Antes de o Governo cubano retirar os médicos do país, descontente com as condições impostas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), já havia vagas ociosas. Além disso, a finalização de contratos anteriores também abriu novas vagas, já que o Governo federal renovou os contratos apenas dos profissionais das cidades mais vulneráveis — uma política que pretende seguir na reposição daqui em diante. Os cerca de 1.400 brasileiros formados no exterior que escolheram as vagas do último edital deveriam ser homologados a última sexta.

O Conasems estima que, considerando apenas os cenários das desistências dos brasileiros e das vagas que já estavam ociosas antes da saída dos médicos cubanos, há mais de 2.000 vagas desassistidas em todo o país. “É natural isso de o profissional assumir o compromisso e mudar de ideia. Faz parte, mas o Ministério está discutindo um novo formato de chamamento público, em que seja possível ter tipo um cadastro reserva, para chamar outro profissional mais rápido, sem a necessidade de um novo edital. Isso vai nos dar mais tranquilidade”, explica Junqueira.

Há um impasse no debate entre os municípios e o ministro sobre a reposição: Mandetta já afirmou que só vai chamar médicos para as cidades que se enquadrarem nos níveis de maior vulnerabilidade porque entende que capitais e cidades da região metropolitana não necessitariam do programa. Os dirigentes municipais não concordam. “O direcionamento do Mandetta está correto dentro dos parâmetros desenvolvidos por lei, de repor em áreas mais vulneráveis. Mas as capitais têm sim áreas de muita vulnerabilidade. Estamos tentando convencê-lo de que devem ser observadas os bolsões de pobreza desses locais”, afirma Junqueira.

CIDADES SEM MÉDICO FIXO NA ATENÇÃO BÁSICA

Moiporá (GO)
Albertina (GO)
Carmésia (MG)
Wenceslau Braz (PA)
Frei Martinho (PB)
João Costa (PI)
Carlos Gomes (RS)
Doutor Ricardo (RS)
Eugênio de Castro (RS)
Sério (RS)
Alto Bela Vista (SC)
Maracajá (SC)
Rancho Queimado (SC)
Charqueada (SP)
Dumont (SP)
Oscar Bressane (SP)
Ipueiras (TO)
Santa Maria do Tocantins (TO)
Rio dos Bois (TO)

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Mal de Parkinson: o marcapasso cerebral que promete acabar com tremores e convulsões causados pela doença

Parkinson,Medicina,Blog do Mesquita,TecnologiaDireito de imagem GETTY IMAGES
Aparelho monitora a atividade cerebral em 128 pontos ao mesmo tempo, o que o diferencia de dispositivos existentes hoje

No mundo, mais de seis milhões de pessoas sofrem de Parkinson, cujo sintoma mais visível são os tremores. É a segunda doença neurodegenerativa mais frequente após o mal de Alzheimer.

Outros 50 milhões têm epilepsia, que é caracterizada por convulsões. É, segundo a Organização Mundial de Saúde, um dos distúrbios neurológicos mais comuns.

Mas agora um novo dispositivo, chamado WAND, traz esperança às pessoas afetadas por estas doenças neurológicas: ele promete ser “extremamente eficaz” para evitar tremores e convulsões.

Este neuroestimulador, desenvolvido por cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, é capaz de monitorar a atividade elétrica do cérebro e, simultaneamente, fornecer energia para estimular certas regiões do cérebro se detectar que há uma anormalidade.

Definido como um “dispositivo sem fio de neuromodulação sem artefatos” (“wireless artifact-free neuromodulation device”, do qual deriva a sigla que forma seu nome), o WAND monitora a atividade cerebral em 128 pontos ao mesmo tempo, algo que o diferencia dos aparelhos existentes até agora, que chegavam a detectar apenas oito sinais.

“Queremos que o chip saiba qual é a melhor maneira de estimular o cérebro em um determinado paciente. E isso só pode ser feito por meio do controle e gravação de sua atividade neural”, explica Rikky Muller, professor assistente de engenharia elétrica e ciência da computação na Berkeley.

Ajustes necessários

Encefalograma mostra traços de epilepsiaDireito de imagemGETTY IMAGES
No mundo, 50 milhões sofrem de epilepsia

Os sinais elétricos que precedem um tremor podem ser extremamente sutis, de modo que a frequência e a intensidade da estimulação elétrica necessária para evitá-lo são delicadas.

Para testar a eficácia do neuroestimulador, a equipe de pesquisa usou-o para identificar e atrasar o movimento de um braço em primatas.

O WAND é sem fio e autônomo, o que significa que, quando aprende a identificar sinais de tremor, ajusta os parâmetros de estimulação elétrica por conta própria para evitar movimentos involuntários.

“No futuro, nosso objetivo é criar dispositivos inteligentes que possam descobrir a melhor maneira de tratar o paciente e impedir que o médico tenha de intervir constantemente no processo”, disse Muller.

A equipe de engenharia espera trabalhar com médicos nos próximos passos para fazer “pequenos ajustes”, mas alerta que ainda pode levar anos para que o dispositivo seja vendido.

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O retrato de uma cidade para onde nenhum médico brasileiro quer ir

Sem conseguir atrair médicos para substituir cubanos, Guaribas, no Piauí, encaminha pacientes, que enfrentam viagem e estrada de terra para conseguir atendimentoMais Médicos,Piauí,Brasil,Medicina,Saúde,Blog do MesquitaEm Guaribas, 62% dos moradores dependem diretamente do Bolsa Família U. DETTMAR AGÊNCIA
O retrato de uma cidade para onde nenhum médico brasileiro quer ir A apreensão de cidades com a saída de cubanos

A “Diplomacia branca” com médicos rende 42 bilhões de reais a Cuba por ano.

Uma única estrada chega até a cidade de Guaribas, no extremo sul do Piauí. Pelo menos 50 quilômetros de terra batida separam o município — que estreou o Bolsa Família há 15 anos por ser na época o mais pobre do país — da vizinha Caracol. Com a dificuldade de acesso e a frágil economia interna comum às pequenas cidades do sertão nordestino, as poucas possibilidades de trabalho ali se resumem aos cerca de 400 cargos da prefeitura, ao modesto comércio local e à agricultura de subsistência. É significativa a importância do serviço público de saúde nesta comunidade onde 62% dos moradores dependem diretamente da média de 282 reais que o Governo federal transfere todo mês para cada família cadastrada no Bolsa Família.

Até duas semanas atrás, dois médicos cubanos se revezavam entre os três postos de saúde da cidade para garantir o atendimento a uma população de 4.401 habitantes. Junto com enfermeiros, técnicos e agentes de saúde, eles conseguiram assistir a 82% das 876 famílias que necessitam de acompanhamento periódico pelo Governo por terem crianças de até sete anos ou gestantes, um desempenho considerado “muito bom” no relatório publicado em outubro pelo Ministério do Desenvolvimento Social.

Os dados são positivos, mas a cidade ainda enfrenta uma série de desafios na atenção básica. A taxa de mortalidade infantil média na cidade — de 17 óbitos para 1.000 nascidos vivos — é superior à média nacional (14). Além disso, apenas um terço das casas tem esgotamento sanitário adequado, uma estrutura fundamental para evitar doenças como diarreia, hepatite A e verminoses, geralmente tratadas e prevenidas justamente com a ajuda dos profissionais da atenção básica.

O fim da cooperação de Cuba no programa Mais Médicos em novembro deixou a cidade, que dependia exclusivamente dos médicos cubanos, desassistida. Guaribas é um dos 31 municípios que não despertou o interesse dos profissionais brasileiros. Uma médica ainda chegou a ser selecionada para uma das vagas, mas informou a desistência à prefeitura dias depois da inscrição. A segunda vaga sequer chegou a ser cogitada por outro candidato. Catalogado na condição de extrema pobreza e 650 quilômetros distante da capital Teresina, o município segue com suas duas vagas no primeiro edital do programa, cujas inscrições se encerraram nesta sexta-feira. As condições urbanísticas da cidade não ajudam a atrair os profissionais: segundo o IBGE, as vias públicas não têm estrutura de urbanização mínima adequada, com a presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio.

“Aqui não tem mais médico, só enfermeiro. Tiraram os médicos. Por que fizeram isso? Aqui já é tudo tão difícil, aí ainda tiram o pouco que a gente tem”, se queixa a aposentada Amélia Alves Rocha, de 67 anos. Ela diz que nas últimas semanas acompanhou o marido Nilho Alves Rocha, de 75 anos, no posto para conseguir o remédio que ele toma para controlar a hipertensão, mas sem médico para dar a receita, não conseguiu a medicação gratuitamente.

O casal criou sete filhos graças ao Bolsa Família e hoje vive da aposentadoria e da mandioca que plantam na roça. Com a seca que historicamente assola a região — Guaribas é um dos municípios que decretaram estado de emergência por esse motivo neste mês — nunca houve muita expectativa de melhorar de vida. “Antes ninguém tinha nada aqui, aí Deus preparou esse Bolsa Família. O cartãozinho salvou a gente que tinha muito filho porque a vida aqui sempre foi muito complicada. As coisas são caras, ainda hoje a gente tem que completar o aposento com o pouco que planta na roça”, conta.

Amélia conta que a ausência de médicos na cidade é um problema, mas demonstra resiliência ao argumentar tempo pior era aquele em que a família dormia nos colchões que eles mesmos faziam com plásticos recheados do capim colhido na serra. “Perdi uma filha de seis anos e uma neta porque elas brincando tocaram fogo num colchão desses. Morreram as duas queimadas. Ruim mesmo era naquele tempo que a gente tinha que sair por aí no lombo de um jumento atrás de socorro nas outras cidades. Hoje tem até transporte pra levar”, conta.

Enquanto as vagas do Mais Médicos não são substituídas, enfermeiros e agentes de saúde das duas equipes de atenção básica prestam um atendimento mínimo à população. “A gente se vira como pode. Tem muita coisa que só o medico pode fazer, mas a gente segue acompanhando as crianças e as gestantes que fazem pré-natal, por exemplo. Nossa sorte é que temos aqui um serviço bem estruturado, então os prejuízos até diminuem, mas é complicado”, diz o enfermeiro que coordena a Atenção Básica no município, Francisco Júnior.

Três horas de viagem por um atendimento
Quando esses profissionais identificam serviço de urgência ou situações que não podem solucionar sem a presença do médico, os pacientes são encaminhados para a cidade que é referência para os 20 municípios da região da Serra da Capivara. Eles enfrentam quase três horas de viagem e percorrem mais de 100 quilômetros (a metade deles de estrada carroçal) até chegar ao Hospital Regional ou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Raimundo Nonato. “A situação é a seguinte: a gente já é acostumado. Médico é bom porque a gente se consulta, mas se não tem o jeito é ir pra São Raimundo quando o problema piora. É muito complicado, mas dá pra gente ir vivendo”, se conforma Amélia.

Outra opção, dizem moradores de Guaribas, é tentar atendimento em Caracol, cidade mais próxima, a 50 quilômetros do município. No entanto, moradores dizem que a situação lá também não está fácil. “Na região toda a situação tá horrível. Caracol perdeu três médicos, uma cubana e dois brasileiros que se inscreveram no programa e foram pra outras cidades”, conta o agricultor Raimundo Ribeiro. O EL PAÍS tentou confirmar os números com a Prefeitura de Caracol, mas não obteve resposta.

O fato é que a dificuldade de preencher as vagas deixadas pelos médicos cubanos e mesmo a migração de profissionais que já atuavam na atenção básica sob um regime de contrato com as prefeituras para outros municípios do programa Mais Médicos já repercute na UPA e no Hospital Regional de São Raimundo Nonato. “A demanda tem aumentado muito com essa dificuldade na atenção básica. Temos recebido muitos casos de gripe e febre que seriam facilmente resolvidos no posto de saúde”, afirma a diretora do hospital, Nilvania Nascimento. Na atenção básica, a cidade polo também sofre com a crise do Mais Médicos: teve seis vagas abertas no primeiro edital.