Fatos & Fotos – 17/02/2021

Boa noite.
Identidade
Mia Couto

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

no mundo que combato
morro
no mundo que luto
nasço

Fotografia de Beatriz Imizcoz


Que safado. Conje virou homem de negocio… Empresa que contratou Conje é controlada por holding em paraíso fiscal americano. Está claro agora, Brasil?

– Priorizamos bares e não escolas
– Priorizamos aparelhamento e não especialistas
– Priorizamos cura mágica e não vacinas
– Priorizamos aglomeração e não pesquisa
Educação, ciência, saúde e vidas não são prioridades no Brasil.


Rodrigo Maia cometeu um grande erro político ao se negar a liberar pedidos de impeachment e apostar em sua reeleição, ainda que negue. Quis contemporizar com o fascista e agradar os neoliberais e agora corre o risco de voltar à irrelevância.


Gravura – Xilogravura de Xiang-Silou


Vamos esclarecer. Bolsonaro não é louco. O “louco” é aquele que sofre de uma psicose, delira e alucina porque rompe com a realidade. Essa trupe que nos “governa” é perversa. O perverso não perde o senso de realidade, mas a distorce a seu bel prazer, conscientemente. Um sociopata.


Pazuello falando sobre o plano de vacinação extrapola a incompetência. De tão simplórios os argumentos do ministro, a impressão é de extrema má-fé e descaso com a gravidade da pandemia.


Sobre o arrependimento do Gabeira? Quero mais que ele e o arrependimento vá pra PQP! Não tenho empatia pelos arrependidos! A gente tá na vala da humanidade por causa desse povo que se dizia intelectual mas não escolheu um professor e sim um asno pra Presidente!


Da série:”o Brasil para principiantes”.
Antes de ser preso a PF deixou o deputado gravar um vídeo. Seria o mesmo que deixar um bandido terminar o assalto para depois prender. Não tem lógica isso.


Senador Pacheco (quem?), sobre deputado: “Não elevaremos episódio à crise institucional”.
Um bundão. Mole!


Daniel Silveira: resumo de um Brasil doente. Pretensioso, afetado, desrespeita gente viva, gente morta, acha que entende de liberdade, bajulador de Jair Bolsonaro, desconhece valores republicanos, democracia. Gente ruim por inteiro. Quem ele representa? Os que compartilham do mesmo perfil.


Desenho de Ivan Shishki


Por que não prendem o Ratinho? Liberdade de expressão não dá direito a pregar a ditadura, fuzilamento evasão do país, por se pensar diferente.


Arquitetura – Das Park Hotel Linz, Austria


Daniel Silveira cometeu crimes? A menos que se ache que a liberdade de expressão e a imunidade abrigam ameaçar um Poder da República, a resposta é “sim”. Mais: ameaça a próprio Poder e os ministros tomados individualmente.


Essa gentalha e quadrilhas não querem cultura, não querem arte. Não entendem, são toscos. Está além de sua compreensão. Consideram desperdício de tempo e de dinheiro. Só entendem o consumo e o prazer hedonista, mas sem qualquer sensibilidade ou poesia. Um doce pra quem souber de quem estou falando.


Design – Aldravas e Puxadores#Design #Aldrabas #Puxadores #Portas #Blogdomesquita


Escultura de Marc Perez


Escrúpulos? Não bastasse o engulho da cloroquina, Bolsonaro vai enviar comitiva a Israel para comprar spray nasal anticovid. Mas a mãe dele ele já vacinou.


O Brasil não é para iniciantes.
Deputado Daniel Silveira preso por elogiar o AI-5 e pedir o fechamento do STF.
A prisão é baseada na Lei de Segurança Nacional, entulho autoritário da ditadura.
E se defende com base na #imunidade parlamentar prevista na Constituição, que chamou de merda.


Georges Croegaert –  Al Cafe de la Paix 1883


O Direito à Liberdade de Expressão não é absoluto. O Código Penal Brasileiro baliza esses limites no Capítulo que trata dos Crimes Contra a Honra. No âmbito constitucional, doutrina Norberto Bobbio que a consequência lógica da liberdade de expressão ser um princípio é a sua inerente possibilidade de colisão com outros direitos fundamentais. Isso quer dizer que ela não é absoluta, e que ao mesmo tempo em que é importante resguardar a liberdade de expressão, também é necessário que se tenha uma proteção a outros direitos fundamentais igualmente resguardados constitucionalmente.


Jacques Taillefer, 1969


Por uma questão de coerência, os defensores do AI-5 e do fechamento do STF não deveriam evocar os direitos fundamentais ou o princípio da legalidade quando fossem presos..


Folha corrida de do Deputad Daniel Silveira:
-investigado por venda de anabolizantes em academias de Petrópolis.
– 4 anos como soldado da PM RJ, 80 dias preso, + de 70 punições por #indisciplina.
– obteve seguidas licenças médicas pra não ser expulso – eleito Dep. federal com 32 mil votos.
Foi Eleito pelo Rio de Janeiro, assim como Hélio Negão, Carlos Jordy, Flordelis, Márcio Labre e também responsável por eleger diversas vezes Jair Bolsonaro, mesmo ele nunca ter feito nada pelo estado, sempre foi reeleito! O problema não são os políticos safados, mas a sociedade. Fico me perguntando como nós, brasileiros, elegemos tantos bandidos, das mais diversas estirpes! Será que nós deixamos enganar coletivamente ou nosso sistema eleitoral e muito ruim?


Por que só agora a prisão deste deputado, se muito antes o filho n° 3 desfeiteou o STF e ameaçou reeditar o AI-5 e nada aconteceu? Cortina de fumaça para desviar a atenção do caos sanitário provocado pelo governo federal? Ou está em curso a ursupação do poder pela milícia?


A demora na vacinação em massa no país não é por acaso. Estamos sob o tacão uma necropolítica pentecostalibã que vem se instalando no Brasil, liderada pelo pior presidente da história.


Hugo Chaves – dezenas de vezes saudado e elogiado da tribuna da câmara pelo cramulhão – começou assim; afagou os militares, com poder e mordomias, com a maioria no congresso mudou a constituição aumentando número de juízes no Supremo da Venezuela. Com isso implantou a ditadura por lá. Aqui no Brasil, o cramulhão já conseguiu 50% dessas metas.


Ou a Câmara, Centrão incluído, cassa o mandato desse cafajeste Daniel cro magon Silveira, que fala com a linguagem de um miliciano, de um gangster, ou já não se terá controle de mais nada. Ou isso ou as milícias tomarão definitivamente o Poder



A “nova política” do eu faço e arrebento é fascista. Marombado acha que pode tudo. Querem uma terra sem lei. Ou melhor, que eles sejam a lei.


Foto do dia – Fotografia de Swede Johnson


Victor Órban, presidente da Hungria, extremista da direita, minou a imprensa e só ficou as que falam bem dele. Essas compraram a parte falida. Elegeu para o Congresso a maioria apoiadora dele, mudou leis, sufocou as esquerdas.Tudo dentro da democracia. Isso lembra o que está em curso em um certo país tropical?


Pintura de Gustave Leonard de Jonghe


A extrema direita no Brasil é de uma estupidez imensurável. É um estranho pais onde uma pessoa vai presa por pedir um novo AI-5 e o pessoal pede sua soltura alegando que é preciso respeitar a Constituição. É consequência de uma dieta de alfafa estragada ao molho de cocô de ameba.


Barroso, Fux e Fachin, são exatamente os três ministros que estão nos diálogos da Lava Jato. Fica claro porque eles continuam defendendo o indefensável. Resta saber se terão a dignidade de se considerar suspeitos para julgar qualquer coisa do processo.



Tudo que sei de Luciano Huck  sei dele na política é que torceu por Aécio e Bolsonaro. Mas a imprensa diz que ele estaria contratando um especialista em fake news – o cara que trabalhou pro Maurício Macri. A se confirmar, creio ele tem o dever de desmentir ou explicar. E aí, Huck, vai criar o Caldeirão do Ódio?


Alguém aí lembra do Queiroz, da sua mulher, do tal anjo? Quem tá preso? Como tiram um assunto de cena, né?

Macri e Bachelet aproximam o Mercosul e a Aliança do Pacífico em resposta a Trump

Os dois presidentes promovem uma grande reunião para coordenar os dois principais grupos latino-americano.

Bachelet e Macri em Colina, no Chile, durante a comemoração do 200º aniversário da batalha de Chacabuco.
Bachelet e Macri em Colina, no Chile, durante a comemoração do 200º aniversário da batalha de Chacabuco. PRESIDÊNCIA

A chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos está provocando um grande movimento de fundo em toda a América Latina. E Mauricio Macri, presidente da Argentina, parece estar no centro desse impulso.

Na semana passada, viajou para Brasília e afirmou, com Michel Temer a seu lado, que os dois gigantes sul-americanos dariam um “impulso histórico” ao Mercosul.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Na próxima semana irá à Espanha para, entre outras coisas, acelerar o acordo UE-Mercosul que está parado há 15 anos. Mariano Rajoy – presidente do Governo espanhol – está muito disposto a apoiá-lo nessa tarefa.

E na noite de domingo, para finalizar a jogada, Macri foi a Colina, perto de Santiago do Chile, para se encontrar com Michelle Bachelet e lançar a aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, o outro grande bloco econômico da América Latina liderado por México, Colômbia, Peru e Chile.

Enquanto os Kirchner estavam à frente da Argentina e o Partido dos Trabalhadores governava o Brasil, Mercosul e Aliança do Pacífico se olhavam com cautela. O segundo grupo era a estrela em ascensão da ortodoxia e do livre comércio contra o Mercosul mais protecionista. Mas a chegada de Macri, e mais recentemente de Temer, mudou as coisas.

O argentino já assistiu como observador a última cúpula, precisamente no Chile, onde foi a grande estrela com o peruano Pedro Pablo Kuczynski, que ainda não tinha assumido, e anunciou sua intenção de fortalecer os laços. A chegada de Trump acelerou os tempos e todos os países da América Latina, que em boa medida vivem da exportação de matérias-primas, buscam alternativas caso Trump cumpra suas promessas e comece a fechar suas fronteiras aos produtos de outros territórios.

Macri e Bachelet, que neste momento presidem as duas alianças centrais da América Latina, organizaram para abril uma reunião em Buenos Aires de chanceleres do Mercosul e da Aliança do Pacífico que será um marco e poderia abrir caminho para uma fusão no futuro. Ainda persistem muitas dificuldades pelas diferentes políticas econômicas – o Chile tem acordos de livre comércio com 180 países do mundo, algo semelhante acontece no Peru e na Colômbia, Argentina e Brasil são duas economias muito fechadas e os argentinos viajam a Santiago para comprar roupas mais baratas em redes internacionais, como H&M, que nunca se instalou em Buenos Aires – mas a vontade política de aproximação é muito evidente e a mudança ideológica na Argentina e no Brasil também.

Ninguém quer enfrentar diretamente Trump e, na verdade, Macri busca formalmente um bom relacionamento. Esta semana manteve conversas com o vice-presidente Michael Pence. Mas a preocupação é evidente.

A América Latina está em pleno giro para a abertura e Trump vai na direção oposta. A declaração conjunta deixa clara a rejeição às políticas dos EUA: “As tendências protecionistas observadas internacionalmente contradizem o esforço para alcançar um crescimento sustentável e o desenvolvimento inclusivo”. O Mercosul acaba de eliminar a única oposição real a essa aproximação com a mais liberal Aliança do Pacífico: a Venezuela de Nicolás Maduro foi suspensa do grupo com o apoio de Temer e Macri, embora o maior promotor de sua expulsão tenha sido o conservador paraguaio Horacio Cartes.

Macri e Bachelet se encontraram no Chile por uma questão especialmente simbólica: a comemoração dos 200 anos da travessia dos Andes de General San Martín, que primeiro liderou a liberação de Argentina e depois do Chile com uma ousada operação militar através de uma das cordilheiras mais altas do planeta.

Em Colina, onde aconteceu a batalha chave de Chacabuco, Bachelet lançou uma mensagem de unidade contra Trump: “Nos dias em que o planeta vive segregação, xenofobia e protecionismo, Chile e Argentina iniciam um caminho de colaboração”, concluiu.

Argentina e Chile são dois vizinhos com relações às vezes complicadas – tiveram disputas no passado pelos territórios na Patagônia – e com dois modelos econômicos quase opostos: o chileno, herdeiro de Pinochet, é muito liberal, com educação universitária pública paga – Bachelet está tendo dificuldades para cumprir sua promessa de aumentar a gratuidade –, aposentadorias privadas e sindicatos fracos.

A Argentina tem ensino superior gratuito e aposentadorias públicas e sindicatos onipresentes. O Chile teve uma inflação de 3% em 2016 e a Argentina, de 40%. Mas ambos estão se aproximando gradualmente – o Chile aumenta lentamente o peso do Estado enquanto a Argentina reduz e inicia uma lenta abertura – e deram início a uma nova fase de aproximação. A chegada de Trump está fazendo com que o resto do mundo se una para combater o protecionismo.
ElPais

Lock, Smith e Hulme estouram “champã” nas respectivas tumbas

Temer faz de Macri seu grande aliado para uma guinada liberal.Michel Temer e Mauricio Macri, nesta segunda-feira.

Michel Temer e Mauricio Macri, nesta segunda-feira.
Foto: ENRIQUE MARCARIAN REUTERS

Michel Temer deixou claro: seu grande aliado na guinada liberal que busca dar ao Brasil é Mauricio Macri. O novo presidente brasileiro procura desde o primeiro momento a proximidade do colega argentino, fazendo de Buenos Aires o destino da sua primeira visita oficial a um país – e não a uma cúpula internacional – desde a destituição definitiva de Dilma Rousseff. Macri, enquanto isso, mantém certa ambiguidade.

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Por um lado, foi o primeiro a cumprimentar Temer pela efetivação no cargo, mas, por outro, tenta evitar comparações com o brasileiro, que prometeu uma onda de privatizações que Macri não tem margem para realizar. “Temer é mais de direita do que nós”, afirma um membro da cúpula macrista.

O argentino foge de definições ideológicas para ganhar espaço político, e a aliança com Temer o empurra para a direita. “Escolhi que o primeiro país ao qual viajaria seria a Argentina pelos laços históricos, mas sobretudo pela identidade de posições que encontramos com Macri”, disse o brasileiro, tendo ao seu lado o argentino, menos enfático.
Ambos, no entanto, demonstravam grande sintonia na aparição conjunta da residência presidencial de Olivos, nos arredores de Buenos Aires, para uma foto que coroa essa etapa da viagem. Há apenas um ano, eram Rousseff e Cristina Kirchner que comandavam seus respectivos países; antes delas, Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner, os protagonistas, ao lado de Hugo Chávez, da década dourada da esquerda latino-americana.

Durante a entrevista coletiva, Macri e Temer demonstraram grande concordância em dois assuntos cruciais: o Mercosul e a possível saída da Venezuela. “O Brasil é um país irmão. Temos um grande eixo que é reduzir a pobreza em nossos países. Valoramos muito a sua visita”, disse-lhe o argentino. Ambos expressaram “uma grande preocupação com os direitos humanos na Venezuela” e insistiram que, se Caracas não cumprir as exigências do bloco até 13 de dezembro, o país petroleiro será suspenso do Mercosul.

Os dois presidentes também exibiram sintonia no apoio à paz na Colômbia, depois da vitória do não no referendo deste domingo, mas sobretudo se mostraram a favor de revitalizar o Mercosul e acelerar os acordos com a União Europeia, negociados infrutiferamente há 20 anos. Temer, muito criticado internamente, também comentou que as eleições municipais deste domingo, com sua enorme abstenção, mostram que “há uma decepção com a classe política em geral”. Ambos evitaram qualquer polêmica pela chegada ao poder de Temer, sem o voto popular e depois de um processo de impeachment da titular.

“Para nós com o Brasil está tudo bem, tudo legal”, buscou descontrair Macri, em português, ao final da coletiva.

Vídeo do coletivo Passarinho, com protesto contra Temer na residência oficial da presidente argentino.

Temer teve na Argentina o primeiro cenário bilateral para se mostrar como presidente do Brasil depois da questionada destituição de Dilma Rousseff, em 31 de agosto. E seu interlocutor foi Macri, um presidente que, como ele, representa a guinada regional da América do Sul para a direita.

A rigor, a viagem de Temer a Buenos Aires não foi oficial, porque isso teria exigido uma visita do brasileiro ao Congresso. O Governo argentino quis evitar esse trâmite ao convidado, para que não precisasse enfrentar parlamentares kirchneristas e de outras correntes de esquerda que consideram que a interrupção do mandato de Rousseff foi um golpe de Estado.

A chegada de Temer provocou um protesto na praça de Mayo, em frente à Casa Rosada, enquanto os mandatários estavam em Olivos, bem longe dali.  “Se consegui evitar os protestos, melhor para mim e para a democracia”, brincou Temer. Um grupo pequeno de um coletivo de manifestantes chamado Passarinho, porém, foi também a Olivos (veja o vídeo).

A estratégia da Casa Rosada foi transmitir a ideia de unidade entre os dois principais sócios do Mercosul, o contraponto político a um bloco bolivariano em declínio, sob a liderança da Venezuela.

Argentina e Brasil já se mostraram anteriormente dispostos a isolar Caracas após impedirem a tentativa venezuelana de assumir a presidência do Mercosul sem o consenso dos sócios. Nessa lista também está o Paraguai, país que Temer incluiu em sua primeira viagem regional, mas não o Uruguai, que ficou sozinho na sua defesa da transmissão automática da presidência à Venezuela, seguindo a ordem alfabética.

O encontro bilateral foi também uma demonstração do tom a ser adotado nas novas relações bilaterais. Falou-se muito de comércio e investimentos, e pouco de política, o eixo que estruturou os últimos 10 anos de desenvolvimento do bloco.

Tanto Néstor e Cristina Kirchner como Lula e Rousseff passaram por cima das respectivas chancelarias e assumiram como uma questão pessoal qualquer solução para os problemas bilaterais. Macri e Temer retrocederam nesse caminho para recuperar o espírito comercial do Mercosul.
Frederico Molina/ElPais

Sindicatos argentinos mostram seu poder com grande manifestação contra Macri

Se existe algo que diferencia a Argentina do resto da América Latina e até mesmo da Europa, é a enorme força de seus sindicatos.

Marcha das cinco centrais sindicais da Argentina.Marcha das cinco centrais sindicais da Argentina. Ricardo Ceppi

Líderes eternos, polêmicos, com passados obscuros, há 30 anos chefiando suas centrais, como Hugo Moyano, líder dos caminhoneiros. São tão fortes que todos os governos se aproximam deles.

É o que fez Mauricio Macri assim que chegou ao poder. Mas as boas relações iniciais de Macri com os sindicalistas acabaram. Os sindicatos peronistas, historicamente divididos (só a CGT, o mais importante, tem três versões, a CGT Azopardo, CGT Oficial, CGT Azul e Branca) se uniram temporariamente para realizar uma exibição de força em uma grande manifestação contra Macri com milhares de trabalhadores nas ruas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Protestam pelas demissões de funcionários públicos – o Executivo admite 20.000 – pela destruição dos empregos que começa a ocorrer no setor privado – o Governo nega – e os aumentos de tarifas em transporte, luz, gás, e a inflação disparada. Mas são movidos principalmente por um motivo político: lembrar Macri do que ele já sabia; que governar a Argentina não é nada fácil e eles estão ali para contestar o poder. Buenos Aires ficou completamente parada com sindicalistas vindos de todas as províncias.

A batalha de poder entre o Governo e os sindicatos peronistas acaba de começar. Não quiseram fazer uma greve, que poderia fracassar porque existe muita divisão sindical enquanto Macri ainda conserva muito apoio popular. Mas os sindicatos e a oposição perceberam que o humor da sociedade começa a mudar, e por isso prepararam essa exibição de força que, mais do que uma declaração de guerra, é um aviso.

Ao mesmo tempo em que uma lei antidemissões era aprovada no Senado, que irá proibi-las durante seis meses – se também for aprovada na Câmara dos Deputados Macri será obrigado a vetá-la – os sindicatos mobilizavam as ruas. Tudo coordenado. E também pensado para tomar o controle da oposição a Macri e não deixar todo esse espaço a Cristina Kirchner, que estava começando a lutar para ser a líder dos protestos.

“Nunca existiu uma lua-de-mel do sindicalismo com Macri. Existiam expectativas”, afirmou Hugo Yasky, rodeado de apoiadores, também eterno líder da CTA dos trabalhadores. “Agora pedimos a ele que aprove a lei antidemissões. Macri aprovou medidas para todos, menos aos trabalhadores. Espero que caiam os tampões que o presidente tem nos ouvidos. Macri falou sobre respeitar a independência dos poderes, se não cumprir com a palavra e vetar a lei respaldada pelas cinco centrais sindicais vamos dobrar a aposta”, disse.

O líder da outra CTA, Pablo Micheli, inimigo eterno de Yasky, estava no mesmo lugar com a mesma mensagem: “Essa união é para defender os trabalhadores. É preciso que nos juntemos para impedir esse enorme ajuste que está aumentando as tarifas, diminuindo os salários. O presidente diz que a inflação irá baixar, mas na realidade a economia vai de mal a pior. Isso não é um problema de fé. Se Macri vetar a lei antidemissões vamos direto a uma paralisação nacional”, ameaçou.

Macri deve lidar com um fardo muito importante. Nenhum presidente não peronista conseguiu terminar seu mandato desde o retorno da democracia em 1983. O radical Raúl Alfonsín sofreu 13 greves gerais e acabou adiantando as eleições e dando lugar ao peronista Carlos Menem em 1989. Fernando de la Rúa também sofreu a oposição dos sindicatos peronistas e acabou saindo de helicóptero da Casa Rosada em dezembro de 2001. Quando um peronista está no poder quase não ocorrem greves. Macri está convencido de que ele é diferente. E há pouco tempo parecia intocável. Um mês atrás recebeu Barack Obama, conseguiu a aprovação do pacto dos fundos abutres no Congresso, e o mundo o aplaudia. Agora o sindicalismo, uma de suas principais inquietações, tenta enfraquecê-lo.

A maioria dos sindicalistas admite que Macri não estava no céu há um mês e não está no inferno agora. Se for observada de certa distância, a situação argentina oscila muito, mas com linha de continuidade: se Macri conseguir resolver os problemas econômicos, parar a inflação, atrair investimentos e criar empregos, os sindicatos se submeterão ao seu poder. Se os problemas econômicos persistirem, agravados pela situação do Brasil, os sindicalistas atacarão cada vez mais forte. É a lógica que sempre moveu o poder na Argentina, onde ninguém sabe quanto os governos podem durar.

Tudo na marcha se refere a essa longa tradição de luta nas ruas. Do clássico cheiro de choripán (tradicional sanduíche argentino) e os bumbos de toda concentração peronista, até o cenário, muito planejado: de um lado, as letras da CGT, o grande sindicato, com a foto do general Perón. Do outro, as letras da CTA, outro dos grandes – também dividido – e a foto de Evita Perón. 70 anos depois da primeira vitória eleitoral do peronismo esse movimento, agora fora do poder, continua reivindicando sua força. Mas está dividido como sempre, e esse foi o ponto fundamental para a vitória de Macri e para que consiga governar. As duríssimas guerras internas do peronismo têm uma longa história de violência. O líder da CGT em 1973, José Ignacio Rucci, foi assassinado em plena rua por membros dos Montoneros, uma organização político-militar argentina e guerrilha urbana. Agora as divisões não chegam a tanto, mas persistem, por isso é tão significativo que todos tenham se unido contra Macri.

Enquanto os sindicalistas exibiam seu poder e Moyano avisava Macri – “o tempo está acabando”, disse mostrando sua impaciência – o presidente respondeu em um ato em Tucumán, no norte do país. Primeiro lhes mostrou respeito: “todo mundo tem o direito de se expressar”. Mas principalmente lhes pediu ajuda. “Temos os mesmos interesses. Trabalhamos todos os dias para baixar a inflação e recuperar os empregos”, afirmou.

Os sindicatos afirmam que foram perdidos mais de 100.000 empregos desde a mudança de Governo. O Executivo diz que não existe nenhuma crise mais grave e a Argentina está mais ou menos como o ano passado: sem criação de emprego, mas sem uma perda significativa. Mais uma vez a guerra de números é total. Mas existe algo que é um fato: isso é um aviso, se Macri perder de novo a votação na Câmara dos Deputados e for obrigado a vetar a lei antidemissões, o que hoje são protestos podem virar greves, como disse nas ruas Pablo Moyano, filho do líder dos caminhoneiros e herdeiro desse posto quase vitalício. Os governos passam na Argentina, os sindicalistas e suas famílias ficam.
Fonte:El País