Cinema: Meu Amigo Nietzsche: uma história sobre a filosofia de potência

Meu Amigo Nietzsche (2012) é um curta-metragem dirigido por Fáuston da Silva filmado na Cidade Estrutural, região administrativa localizada na periferia do Distrito Federal. Essa região, inicialmente, era formada por uma comunidade de catadores de material devido à proximidade do aterro sanitário de Brasília, na época conhecido como “Lixão da Estrutural”, hoje desativado. No meio deste “lixão” o jovem Lucas, aluno com dificuldades de aprendizagem, encontra o livro Assim Falava Zaratustra, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. A partir de então, o “amigo Nietzsche” passa a lhe ensinar o caminho da superação.

Apesar da impressionante melhora na aprendizagem, sua professora, preocupada, parafraseia Nietzsche para referir-se a Lucas: “ele não é mais um garoto, é uma dinamite”.

A narrativa oscila entre situações divertidas e cenas poéticas. Dirigido com sensibilidade, o curta-metragem é uma breve apresentação da filosofia de Nietzsche, que exorta o homem a abandonar sua condição de fraqueza, pavimentando o caminho que leva ao super-homem — um dos conceitos fundamentais do filósofo.

O local onde ocorre a história, bem como seus personagens, representam a condição que, segundo o filósofo, a própria humanidade se colocou: pobreza, impotência, fanatismo religioso e vigilância moral são elementos que surgem para contrastar com a “filosofia de potência” de Nietzsche.

O fato do livro Assim Falava Zaratustra ser encontrado no “lixão” é o simbolismo mais forte do curta-metragem.

Meu Amigo Nietzsche recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior, entre eles o prêmio Youssef Chahin de melhor curta-metragem no Festival Internacional do Cairo.

Os parágrafos seguintes são comentários sobre o final da história. Assista ao curta-metragem antes de prosseguir.

Ao voltar para o lixão em busca do livro perdido, Lucas encontra outro livro, o Manifesto do Partido Comunista, sugerindo que agora o jovem leitor tem novo mestre: Karl Marx. Entretanto, Nietzsche não se alinha a qualquer doutrina política, social ou econômica. Seja progressista ou liberal. Para ele, tudo isso é “lamentável palavrório feito de política e egoísmo dos povos”.

Nietzsche não acredita no Estado, na política ou na democracia, que seriam decadentes devido à atual condição miserável do homem. Nas palavras dele, “socialismo é inveja, é antibiológico, uma tirania da impotência. Não existe igualdade, em nada somos iguais”. Sobre as elites econômicas, escreveu: “são vítimas dos negócios, suas casas nunca são lares, seu luxo é vulgar, adquirem riquezas e se tornam mais pobres. Pensar é tabu entre eles”.

A filosofia de Nietzsche representaria a superação desta “tragédia”, sendo o único mérito da humanidade ser “uma ponte entre o macaco e o super-homem”.

Contudo, essa incompatibilidade entre Nietzsche e Marx não tira o mérito de Meu Amigo Nietzsche, pelo contrário, é um convite à leitura de todos os filósofos.

Pikitty e o velho novo Keynianismo

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A imprensa burguesa especializada, a esquerda e as universidades têm divulgado, em larga escala, o livro do economista Thomas Piketty chamado “Capital no século XXI” que, apesar de apresentar muitas informações e dados, tenta apresentar mecanismos artificiais para conter o aprofundamento da crise capitalista. A tese central do livro é que o desenvolvimento do capitalismo, nos últimos dois séculos, teria apresentado a tendência à concentração da riqueza e a produzir níveis ainda maiores de desigualdade social. A demonstração é feita por meio de malabarismos estatísticos. A proposta central para “resolver” o problema seria o aumento da tributação sobre o capital.

A direita, que representa abertamente os interesses dos setores mais vinculados à especulação financeira, sustenta que “o capitalismo de livre mercado” distribui riqueza e é o grande baluarte para a defesa das liberdades individuais. Piketty diz que “o capitalismo de livre mercado”, não leva à redistribuição da riqueza pelo estado e que produz “oligarquias antidemocráticas”.

A chamada escola neokeynesiana, liderada por figurões como o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, apoiam as mesmas políticas propagandeadas por Piketty como panaceias para conter a crise do capitalismo. Os mais ousados chegaram a dizer que o livro supostamente seria o substituto para o nosso século de O Capital de Karl Marx que somente seria válido para o século XIX. Na realidade, o livro de Piketty simplesmente tenta apresentar fórmulas requentadas que não explicam a origem real do colapso capitalista de 2008, a disparada do endividamento público e agora da inflação, assim como a recessão industrial em escala mundial.

A demonstração da desigualdade provocada pelo capital é quase uma tautologia que somente consegue ser camuflada, medianamente, por causa da propaganda maciça promovida pela burguesia.

Karl Marx já tinha demonstrado as causas econômicas que levavam à acumulação da riqueza. Hoje, aproximadamente um bilhão de pessoas passam fome segundo dados das próprias Nações Unidas.

A tributação sobre as heranças, do imposto progressivo e de um imposto sobre a riqueza global não levarão a grandes alterações do desenvolvimento parasitário do capitalismo se não forem alteradas as relações de propriedade sobre os meios de produção. A queda dos lucros está levando os capitalistas ao desespero e a promover medidas de força para repassar o peso da crise sobre os trabalhadores.

O QUE É O CAPITAL?

De acordo com Piketty, o capital seriam todos os ativos em mãos de particulares, empresas e governos que podem ser negociados no mercado. Isso inclui terra, imóveis e direito de propriedade intelectual, assim como coleção de arte e de joias.

A taxa de retorno do capital, “r”, de Piketty, não considera a avaliação do capital inicial, que aparece como uma coisa semi-mística, e está baseada na premissa de que dependeria essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital se valorizaria por causa do que produz e não pelos componentes envolvidos na produção.

A explicação de Piketty para o aumento das desigualdades de riqueza e lucro não considera o lucro monopolista, que está influenciado em cheio pela especulação financeira, e, muito menos, o explica.

Karl Marx começou estudo do O Capital com a mercadoria, célula básica da riqueza social que se apresenta sob dois aspectos complementares e excludentes ao mesmo tempo: valor de uso e valor. O valor de uso, ligado aos aspectos físicos da mercadoria, é determinado pela sua utilidade. O valor é a cristalização do trabalho humano na mercadoria. Esta categoria abstrata, entretanto real, manifesta-se no cotidiano através do valor de troca, ou mais simplesmente por meio da troca entre mercadorias diferentes. A partir desta conclusão, Marx apresentou o desenvolvimento da forma valor até a forma dinheiro e, posteriormente, o capital.

Ao invés de apresentar a história do dinheiro, ele procura abstrair da aparência acidental deste desenvolvimento a lei interna deste movimento. Essas leis são a base do Livro que apresenta as leis gerais do desenvolvimento histórico sob as leis gerais do materialismo dialético. Em outras palavras, não se trata de uma racionalização da história, uma adaptação da realidade a uma teoria esotérica, mas de encontrar na própria realidade as contradições que a movimentam.

A contradição fundamental do capital, uma lei estatística?

A lei estatística que supostamente explicaria o aumento contínuo da acumulação de riqueza teria como base que a taxa de retorno sobre o capital sempre excederia a taxa de crescimento do rendimento, o que representaria “a contradição central” do capital.

Os capitais têm a tendência a serem remunerados pela taxa de lucro média conforme a lei estudada detalhadamente no Livro III do O Capital de Karl Marx.

Os economistas burgueses vulgares não conseguem compreender as leis de funcionamento do capitalismo devido à classe social que representam. O reconhecimento de que o verdadeiro gerador de valor é a força de trabalho da classe operária implicaria em reconhecer o caráter histórico desse sistema social. As categorias genéricas de “valor de trabalho” e “preço natural do trabalho”, entre outras, impediram à economia clássica avançar no entendimento das leis do capitalismo.

Para os economistas vulgares serviram com “uma base segura de operações para a sua superficialidade, que somente venera as aparências”. Trata-se de uma operação de camuflagem porque a transformação do valor e preço da força de trabalho em salário “torna invisível a relação efetiva e precisamente mostra o oposto dessa relação, [nela] se fundamentam todas as noções jurídicas tanto do operário como do capitalista, todas as mistificações do modo capitalista de produção, todas as ilusões de liberdade, todos os absurdos apologéticos da economia vulgar”. (Karl Marx, O Capital, Livro 1, Cap. 17)

QUAL FOI A BASE DO “ESTADO DE BEM ESTAR SOCIAL”?

De acordo com Piketty, o “estado social” teria sido promovido pela aplicação de políticas keynesianas que, após a Segunda Guerra Mundial, teria levado à redução das desigualdades de rendimento (nem tanto da riqueza), por causa do aumento da procura que levou ao crescimento. O financiamento teria acontecido por causa da taxação progressiva.

“Tudo dito durante o período de 1932-1980, durante cerca de meio século, o imposto de rendimento federal mais alto, nos Estados Unidos, era em média 81%.”

A concorrência entre os capitalistas conduz à procura pelo aumento da produtividade e à redução de custos, mediante a implementação de novos processos e a automação industrial, em cima de máquinas mais modernas, o que leva à redução do número de trabalhadores. Por esse motivo, a mais-valia extraída apresenta a tendência a cair o que provoca a queda dos lucros que representam o motor da economia capitalista.

Na tentativa de conter a ação da lei, os capitalistas aumentam a intensidade do trabalho, reduzem os salários, por meio de processos de terceirizações,  promovem ataques por meio dos programas de austeridade e usam trabalho escravo em proporções nunca antes vistas nos últimos séculos.

Mas todas essas tentativas não conseguem abortar a ação da lei, apenas a contem temporariamente. Ela provoca o aumento das lutas operárias. Na China, por exemplo, o salario médio dos trabalhadores passou de US$ 30 na década de 1980, para US$ 230, e no Vietnam, que se pretendia que substituísse, parcialmente, à China, nos últimos cinco anos, os salários passaram de US$ 45 para US$ 90. Agora, as multinacionais tentam, sempre com “mais do mesmo”, a mesma operação na Birmânia.

A tentativa de agilizar os processos de vendas e a diminuição dos estoques, para acelerar a rotação do capital, tem se chocado com o crescente empobrecimento das massas. A crise de superprodução está na base da crise capitalista atual. O aumento exponencial do crédito, em cima de recursos públicos, está levando o mundo inteiro a enormes bolhas financeiras. No Brasil, o “modelo de crescimento Lula” se esgotou e deixou como saldo a disparada da inadimplência em níveis históricos, com o governo fomentando-o ainda mais devido à falta de alternativas.

A desvalorização do capital constante empregado (principalmente, as máquinas e equipamentos) e, fundamentalmente, a crise capitalista, que leva à destruição em larga escala das forças produtivas permitem, junto com superexploração dos trabalhadores, que os mecanismos capitalistas não engripem. Ao mesmo tempo, as crises aumentam as compras e consolidações, reforçando ainda mais a monopolização da economia. O grosso da competição agora se processa em escala mundial por grandes multinacionais imperialistas que, na disputa do mercado mundial, levam o parasitismo a níveis absurdos, além de impulsionarem o militarismo e as guerras.

POR QUE O “KEYNESIANISMO” ENTROU EM COLAPSO?

A crise do keynesianismo para o neoliberalismo teria acontecido a partir dos de 1960 devido ao “excessivo poder do trabalho”. O Estado social e as forças do trabalho teriam começado a “ser descontruídos”. Depois de 1980, houve uma queda nas taxas mais altas de imposto e os ganhos do capital tiveram a tributação hiper reduzida. Segundo Piketty, o ritmo do crescimento da economia teria continuado bom. Na realidade, a mudança não foi realizada por causa de leis estatísticas e matemáticas.

Na segunda metade da década 1960, os chamados “anos dourados do capitalismo”, dos quais os beneficiários foram fundamentalmente os países imperialistas, chegavam ao fim.

Os movimentos estudantis de 1968 foram um claro sinal de que as coisas não estavam indo bem. No final da década, a economia começou a apresentar problemas no coração do capitalismo mundial, os EUA. Pressionado pelos gastos militares da Guerra do Vietnam e o aumento da concorrência das multinacionais imperialistas europeias e japonesas, que tinham se recuperado da devastação da Segunda Guerra Mundial, o imperialismo norte-americano passava por sérias dificuldades na tentativa de conter o aumento do desemprego e a disparada da inflação.

A crise de 1974 representou o ponto final definitivo dos chamados “anos dourados do capitalismo” e o início do fim do chamado estado de bem-estar social, pois evidenciou o fracasso da contenção da crise por meio da escalada do gasto público. O mundo caminhava para a depressão econômica e a hiperinflação.

A desgraça dos keynesianos e o ascenso dos neoliberais se acentuou com a Revolução Iraniana de 1979, a Revolução na Polônia em 1980, a recessão nos países desenvolvidos e a crise das dívidas públicas de 1982, cuja ponta do iceberg apareceu no México. O mundo capitalista avançava aceleradamente à bancarrota.

POR QUE O “NEOLIBERALISMO” ENTROU EM COLAPSO?

 A formulação matemática de Piketty camufla os fatores envolvidos no colapso capitalista de 2008.

O neoliberalismo promoveu gigantescos ataques contra as massas trabalhadoras, o que acabou enfraquecendo os mecanismo de contenção do regime burguês. O colapso capitalista de 2007-2008 representou a derrota das políticas neoliberais, a bancarrota da direita neoliberal, deixou a burguesia sem uma política para enfrentar a crise e abriu caminho para uma nova ascensão das massas.

POR QUE O “NEOKEYNESIANISMO” ENTROU EM COLAPSO?

Perante o colapso das políticas neoliberais a partir de 2007-2008, a ala esquerda do imperialismo passou a propor a implementação de políticas keynesianas no lugar dos desastrosos planos de austeridade neoliberais. O prêmio Nobel de economia Paul Krugman e Nouriel Roubini são dois dos mais importantes representantes dessa corrente.

Na Grã Bretanha, o Partido Trabalhista contrapõe às desastrosas políticas do governo conservador, com o objetivo de conter a crise capitalista, as seguintes políticas – taxar os lucros dos banqueiros, investimentos públicos a longo prazo, reduzir os impostos sobre o consumo, o IVA, e isentar de impostos trabalhistas às pequenas empresas.

O PSF (Partido Socialista Francês) conseguiu eleger o presidente François Hollande e obter a maioria no parlamento em cima das políticas de “crescimento”, que em apenas alguns meses tiveram que ser deixadas de lado, abraçando em cheio as políticas de austeridade promovidas por Angela Merkel.

O problema prático para a implementação dessas políticas é o contexto histórico, que está muito longe de permitir a recuperação do sistema capitalista, em cima da visão infantil de que ao se produzirem empregos, os trabalhadores irão gastar mais e fazer girar a economia.

A economia capitalista ainda não engripou como aconteceu nos anos de 1930, mas está caminhado a passos largos nessa direção, em condições muito mais explosivas. Os estados burgueses estão falidos devidos aos trilhões que têm sido destinados a salvar as multinacionais imperialistas e a manter em pé a especulação financeira, de onde proveem, quase que exclusivamente, os lucros, devido ao esgotamento da economia real por causa de decadência histórica do sistema capitalista.

As alternativas para salvar o capitalismo são muito poucas, pois não dependem das soluções brilhantes de um prêmio Nobel de economia ou de um professor de economia promovido pela imprensa burguesia a sábio de plantão. Como pode ser visto na prática em escala mundial, até na própria França, a alternativa tem sido “mais do mesmo” – mais políticas neoliberais, que implicam em planos de austeridade para a maioria da população e keynesianismo para os especuladores financeiros.

A única alternativa real é a expropriação do punhado de parasitas que domina o mundo por meio da revolução proletária mundial que passa pela destruição da casca, que protege um conteúdo cada vez mais podre, o estado burguês.

Sob as barbas de Marx – Cinema

Exibido pela primeira vez no Festival de Cinema de Berlim, filme “O jovem Karl Marx” mostra o curto, mas intenso período que antecedeu à publicação do Manifesto Comunista no ano de 1848.

defaultJovens querem mudar o mundo: Marx (August Diehl, dir.) ao lado de Friedrich Engels (Stefan Konarske)

A barba tem de ser cortada, ao menos simbolicamente. Essa foi uma exigência do diretor haitiano Raoul Peck. E a barba em questão é a de Karl Marx. Peck é o diretor de O jovem Karl Marx, filme sobre a juventude do filósofo alemão cuja estreia mundial aconteceu no último domingo (12/02) na 67ª Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

“A velha barba encobre não somente o rosto de Marx. No ano de 2017, ela também obscurece a possibilidade de uma discussão e uma reflexão cuidadosa”, diz Peck, para quem, diante da arrebatadora barba de Karl Marx, esqueceu-se do cerne de sua mensagem. “Isso impede de descobrir a real contribuição deste pensador científico e político, seu extraordinário poder de análise, seus esforços humanísticos, suas preocupações legítimas.”

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Briga entre esquerdistas: sociais-democratas, socialistas e comunistas em “O jovem Karl Marx”

No filme, Peck mostra o curto, mas intenso período que antecedeu à publicação do Manifesto Comunista no ano de 1848. Na época, com pouco mais de 20 anos, Marx conheceu em Paris Friedrich Engels, o filho de um industrial de Wuppertal, que trazia consigo uma rica experiência da Inglaterra. Em Manchester, seu pai tinha uma tecelagem.

Marx e Engels ficaram amigos. Junto a Jenny, esposa de Karl Marx, os jovens desenvolveram o Manifesto Comunista. O texto deveria reunir tudo o que os três consideravam importante observar numa época de grandes mudanças sociais.

“O filme acompanha a juventude de Marx e Engels, delineia a amizade inabalável entre os dois e mostra como um trio único nasce a partir das dificuldades que eles viveram durante a sua turbulenta juventude”, descreve Peck a sua obra.

O diretor recriou a atmosfera do período febril da industrialização na Europa dos anos 1840: “Fábricas da indústria pesada na Inglaterra, a miséria extrema e a sujeira nas ruas de Manchester e, em contraste, o calor dourado dos palácios parisienses, a energia de uma juventude que quer mudar o mundo.”

defaultJenny Marx (Vicky Krieps) coescreveu o “Manifesto Comunista”, ao lado de Marx e Engels

Paris e Manchester como cenários

Peck rodou um filme histórico. Karl Marx é interpretado pelo ator alemão August Diehl; Friedrich Engels, por Stefan Konarske, e Jenny Marx, por Vicky Krieps. A Paris do século 19, como também a tecelagem na Inglaterra, servem de cenário para um filme encenado de forma um pouco antiquada, em estilo televisivo excessivamente impecável.

De qualquer forma, talvez o tema do filme seja mais importante que experimentos estéticos e a cinematografia. No 100° aniversário da Revolução Russa e num mundo vivendo um período entre a globalização e novos pensamentos nacionalistas, ocupar-se de Marx vem na hora certa. Mesmo sob a forma de um filme de apelo popular, que mostra a um grande público como se chegou ao famoso manifesto.

Após a estreia no 67° Festival de Cinema de Berlim, na série Berlinale Special, o filme de Raoul Peck poderá ser visto na Alemanha a partir do início de março. No Brasil, a estreia nos cinemas está prevista para meados de junho.

Absurdo: Presidente da CUT fala pegar em armas. E continua solto!

Platão,Blog do MesquitaIsso é abertamente um chamado para a guerra civil. E no Palácio do Planalto, na presença da Presidente da República, que se manteve silente, e quando interviu usou luvas de pelica.

Parece que os fanáticos – e o são muitos de ambos os loados da insanidade, mas quero me ater a esse fato específico – estão navegando sem ventos contrários. Ao contrário; seus “Incitatus” quadrupedes ideológicos galopam livres leves e soltos, sem brida e sem arreios, nas campinas da impunidade.

Se esse irresponsável dirigente da CUT – não darei o nome para não fornecer palanque para o idiota – acha que o que expele sua caixa craniana infestada de “Entamoeba histolytica” irá intimidar alguém para não ir participar das manifestações de domingo, enganou-se. Esse tipo de dialética somente municia a já aguerrida massa dos que desejam protestar no próximo domingo.

Há ódio de ambos os lados, é claro. Grupos, melhor dizendo, mentecaptos, ou em Cearencês, um “magote” de ruminantes de ambos os lados que instrumentalizam o ódio dos outros como arma política.

E é aí que aparecem políticos, e protótipos de políticos – em Fortaleza a manifestação é organizada por um pretenso aspirante a cargo eletivo, e ainda conta com a presença nefasta do deputado homofóbico (aquela “doçura” de ser humano, que afirmou preferir ver um filho morto em um acidente, do que o ver de mão dadas com um “bigodudo”. Mas isso é debate Freudiano para outra ocasião) – para aproveitarem a ribalta da massa insatisfeita com o governo.

Elite e anti-elite estão servindo de trampolim para esses grupos politiqueiros disfarçados de movimentos sociais, ou de bastiões da democracia. São ambos ainda mais catequizados e menos idealistas do que o “lumpenproletariat” que verbalizava Marx.

Quem toma a parte pelo todo… Quem generaliza… Quem não vê distinções… Não faz análise nenhuma.

Precisam todos – situação e oposição – deixarem a caverna de Platão para se civilizarem e aceitarem a divergência sem precisar desejar imolações pirotécnicas qual Torquemadas neo-medievais.

Eu escuto, não discuto, apenas dou risada.

Ps. Só existem duas trilhas, loucura ou hipocrisia, não consigo ver ninguém como inimigo ainda, pois não encontrei alguém importante o suficiente para isso.


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Delfim Neto, Marx e Keynes

Karl Marx,Blog do Mesquita,EconomiaKeynes e Marx
por Antonio Delfim Neto

MARX E KEYNES têm pelo menos três curiosos paralelismos.

Primeiro, um bando de fanáticos dogmáticos que pretendem ter o monopólio do entendimento de suas teorias transformaram-se em sacerdotes de suas igrejas. Dizem (e, quando têm poder, fazem!) as maiores barbaridades em nome dos seus deuses, comprometendo as suas memórias.

Segundo, a relação dos dois com economistas que os precederam envolve um considerável cinismo e a sutil apropriação de ideias que reconhecem muito mal.

Os dois foram, obviamente, fatos novos. O problema é que se pretendem sem raízes.

A relação de Keynes com Marx é das mais ambíguas.

As referências a Marx na “Teoria Geral” (1936) ou são inócuas ou depreciativas. Ainda em 1934, ele diz a Bernard Shaw que “meus sentimentos em relação ao “Das Kapital” é o mesmo que tenho em relação ao Alcorão…”, reafirmando o que já havia dito em 1925: que não podia aceitar uma doutrina fundada numa “bíblia acima e além de qualquer crítica, um livro-texto obsoleto de economia que eu sei que é cientificamente errado e sem interesse de aplicação no mundo moderno”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O enigma (o “conundrum”, como diria um velho ex-quase “maestro” do Fed que ajudou a meter o mundo na confusão em que se encontra) é que em 1933 Keynes estava elaborando a sua revolucionária Teoria Monetária da Produção. Nela, a moeda produz efeitos reais sobre a produção e o emprego, ao contrário do que supõe, até hoje, a maioria dos economistas, para os quais a moeda é neutra no longo prazo.

De acordo com notas publicadas por alguns alunos, ele se referia nas aulas ao famoso problema da “realização”, isto é, a possibilidade de vender a produção para “realizar” o seu valor em moeda, e dizia que “em Marx há um núcleo de verdade”!

Chegou a utilizar a conhecida fórmula de Marx em que este havia mudado a ênfase de uma economia de trocas: trocar bens (“commodities” em inglês) por moeda, para comprar bens (C-M-C), para uma economia da produção, onde a moeda compra bens para a produção e esta é vendida por moeda (M-C-M). Esta mudança na forma de ver o mundo é uma das bases da construção keynesiana.

O terceiro ponto é que a conclusão da obra de ambos não deixa de ser paradoxal e frustrante. Marx comprometeu sua vida estudando o capitalismo e, por isso, não teve tempo de nos ensinar como construir o socialismo; Keynes construiu uma teoria para salvar o capitalismo e terminou com uma receita (“a coordenação estatal dos investimentos para manter o pleno emprego”) que não conseguiu explicar como realizar sem levar a alguma forma de socialismo…

Eleições 2012, Platão, candidatos, e as promessas do paraíso na terra.

Assisti agora pela manhã reportagem sobre as diversas convenções partidárias nos municípios do Ceará.

Alvíssaras! Estamos salvos! Os pretendentes à ex-celências – a exemplo das já ficcionais publicidades oficias que nos bombardeiam, e esbanjam nossos impostos com delícias existenciais que nem a mítica Shangrilá possui – , também nos acenam, os candidatos, à pantomima de outubro, com o paraíso na taba dos Alencares.

De educação em padrões Suíços, a hospitais para humilhar Suecos, tudo será possível.

Penso em convencer meus filhos a abandonar a “paleolítica” vida na Europa, e voltarem a habitar sob os coqueirais que um dia sombrearam o romance entre Ceci e Peri.

Continuo afirmando que não há diferença entre partidos e candidatos. É uma grande, enorme, descomunal pantomima.

A elite informada, e a mídia, que oscila entre o parcial e o venal – saliento aqui, contudo, que não existe lei em nosso ordenamento jurídico que obrigue a nenhum orgão de imprensa ser imparcial – sabem disso.

Assim mantêm essa alternância entre os mesmos, locupletam-se nas concorrências, e esbravejam indignação nos consvescotes sociais.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Quando o PT largar o osso, em quem irão colocar a culpa. Ou pensam que acabarão os Arrudas, Demóstenes e os Eduardo Azeredos, esse o criador do mensalão mineiro, apeado da presidência do PSDB por primeiro usuário do Marcos Valério?

Pelo que eu saiba, o bom Samaritano ficou na poeira bíblica. Não os há mais. Àquela época não havia clonagem. E Irmã Dulce, Madre Tereza e/ou Frei Damião, jamais se dariam ao emporcalhamento.

Mas estou aí para a política. É da minha natureza enfrentar moinhos, e não, aproveitá-los somente a brisa. Com podem ler constantemente em meus ‘posts’ nos blogs e em redes sociais, “resistir é preciso”. O PT, é apenas a cambada da hora, é o espelho do momento, mas somente há 10 anos. Eu caminho entre farsas, ancestralmente, desde o Baile da Ilha Fiscal patrocinado pela família imperial(sic) brasileira à época.

De Rousseau, com seu farsesco ‘Contrato Social’, a Lula, esse, invenção Maquiavélica – aqui o grande filósofo entre somente com adjetivação pejorativa – do Golbery, são todos mentirosos, despidos de compromissos com o povo, e imbuídos tão somente em realizarem seus próprios interesses, e retribuírem os financiamentos recebidos para suas eleições.

Lamento pelos que, não faço juízo de valor dos motivos que os impulsionam, pensam, ou melhor acreditam, defendem e propagam, que existe somente a dicotomia entre o claro e o escuro.

Todos, de Platão, com sua monumental, e literalmente, platônica defesa do homem cordial, a Marx, autor da surrealista ficção da possibilidade da existência de um coletivismo produtivo; de Adam Smith – esse parece não ter lido “O Mercador de Veneza” de Shakespeare, caso contrário sua obra “A História da Riqueza das Nações”seria mais realista e menos pragmática – , à “Mademoiselle Lagarde” são falaciosos, para ficar em um adjetivo mais ameno.

Bode Ioiô é a opção menos cínica.¹


1 Bode Ioiô foi um famoso bode que viveu na cidade de Fortaleza do início do século XX, mormente na década de 1920. Figura folclórica da cultura popular cearense, Ioiô costumava perambular pelas ruas centrais da cidade, na companhia de boêmios e escritores que freqüentavam os bares e cafés ao redor da Praça do Ferreira, antigo centro cultural da capital, e que lhe davam cachaça para beber. Segundo conta a história popular, recebeu o nome de “Ioiô” por percorrer sempre o mesmo trajeto, definido entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema.

Trazido a Fortaleza em 1915 por retirantes sertanejos, foi adquirido e mantido por José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente no nordeste da empresa britânica Rossbach Brazil Company, localizada na Praia de Iracema, da qual tornou-se uma espécie de mascote. Ioiô virou tema de documentários, histórias de cordel e livros infantis. É citado em obras de memorialistas cearenses como o poeta Otacílio de Azevedo e o historiador Raimundo Girão.[2] Recentemente foi eleito pelas crianças da capital cearense como o mascote de Fortaleza.

Ioiô foi imortalizado ao ser empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará, logo após sua morte, em 1931. Em 1996, teve o seu rabo roubado.
fonte: Wikipedia

Economia: Como manter o Euro no ar

Ninguém ousa dizer que na realidade há uma falta absoluta de alternativas de um lado ou do outro do Atlântico.
Desde Locke, e demais seguidores e teóricos do liberalismo absolutista, que se houve a cantilena ensaiada da “necessidade da privatização incontida e incondicional dos bens públicos capazes de tornar o Estado um vetor de desenvolvimento, pelo corte substancial nos investimentos, sobretudo os sociais, e pela dispensa e arrocho em relação aos trabalhadores e aposentados do setor.”

Emblemática é a declaração do ministro das finanças da Itália: “Não deve haver ilusões sobre quem será salvo. Como no Titanic, os passageiros da primeira classe também não serão capazes de se salvar”.
O Estado mínimo minguou de vez. Marx sorri na tumba.

O Editor


Por Martin Wolf/Valor Econômico

A aeronave da zona do euro foi criada “com uma asa e uma oração”. A asa caiu e os deuses não estão ouvindo as orações. Todo mundo está se concentrando em evitar uma queda. Mas é igualmente vital indagar: como pilotar com segurança?

E como foi que a zona do euro mergulhou em seu infortúnio? Parte da resposta é que não dispunha de mecanismos para enfrentar crises, que seus membros divergiram enormemente e que foi prejudicada por seus primeiros sucessos.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]As condições de crédito fácil e juros baixos na primeira década produziram bolhas no mercado imobiliário e crescimento explosivo na tomada de empréstimos pelo setor privado na Irlanda e na Espanha, captação exagerada de empréstimos pelo setor público na Grécia, declínios na competitividade externa da Grécia, Itália e Espanha, e enormes déficits externos, na Grécia, Portugal e Espanha. Quando os mercados financeiros entraram em pânico, os devedores sofreram uma “parada súbita”, o que causou crises de iliquidez e insolvência em cascata de países e bancos. A zona do euro está correndo para alcançá-las. Mas a crise é mais rápida. Quase metade da dívida soberana exibe elevado risco de crédito.

A zona do euro não dispunha de mecanismos para o financiamento, entre países, dos tomadores de empréstimos que perderam acesso a recursos financeiros. Em tese, o ajuste deveria ter ocorrido por meio dos mecanismos clássicos: uma espiral de inadimplência de países, colapsos bancários, desaquecimento econômico, desemprego, salários em queda, austeridade fiscal e infelicidade generalizada. Ninguém preveniu a sociedade de que tal brutalidade está à espreita. Os políticos também não entenderam isso. Quando chegou a hora, todos hesitaram em agir.

Então, o que precisa ser feito? A resposta vem em dois pares: o primeiro é “estoques e fluxos”, o segundo é “financiamento e ajuste”. Estoques refere-se a zerar a herança do passado. Fluxos referem-se a necessidade de retomada do crescimento econômico sustentável. Financiamento e ajuste referem-se ao como e quando dos esforços para zerar os estoques e restaurar a sustentabilidade dos fluxos.

Vários membros da zona do euro saíram da crise com enorme excessos de dívida privada e soberana. Se esses estoques não puderem ser rolados, permanecerá uma mescla de financiamento e reestruturação. A reestruturação da dívida do setor privado que está sendo organizada não oferece praticamente nenhum alívio à Grécia, mas alívio substancial para antigos credores privados. No caso da Grécia, certamente (e, possivelmente, Portugal e Irlanda), é essencial uma redução substancial dos encargos do serviço da dívida.

Esse problema passa também pelos bancos, onde o estoque excessivo de empréstimos de qualidade duvidosa prejudica tanto a solvência como a liquidez. Novamente, nesse caso, a solução é financiamento – injeções de capital e apoio do banco central – e reestruturação – depreciação de ativos e de alguns passivos.

Lidar com os estoques é relativamente simples. Um desafio muito maior é conseguir fomentar fluxos sustentáveis de receitas e despesas a elevados níveis da atividade econômica. Isso significa muito mais do que a austeridade fiscal com a qual os europeus estão obcecados. Parafraseando o historiador romano Tácito, “eles criam uma depressão e a denominam de estabilidade”. Para que a atividade seja restaurada, os déficits estruturais externos precisam cair para níveis facilmente financiáveis por meio de mercados privados. A Grécia e Portugal têm grandes déficits externos, um indicador irrefutável de grave falta de competitividade. Isso é também um pouco preocupante para a Espanha e a Itália, mas o problema ali é menor. A Irlanda tem um superávit externo, o que é animador para seu futuro.

Ajustes desse tipo levam tempo: é preciso que ocorram grandes mudanças tanto nos preços relativos como nos investimentos em novas atividades. Em análise pessimista para a londrina Lombard Street Research, Christopher Smallwood argumenta que a Grécia e Portugal – e até mesmo Itália e Espanha – restabelecerão sua competitividade por meio de dolorosas quedas salariais e demissões em massa.*

O que torna ainda mais difícil o ajuste é que ele envolve dois lados. Para que os déficits externos diminuam, também deverão encolher os superávits no outro lado da equação. Isso tem implicações evidentes para a Alemanha e outros países centrais. Mas esses países não reconhecem a necessidade de se ajustarem. Eles acreditam que uma só mão é capaz de bater palmas. A natureza dúplice do ajuste pode não ser tão importante para países devedores de pequeno porte. Mas é bem mais relevante no caso dos países de maior porte.

Se o ajuste necessário revelar-se impossível dentro da camisa de força da zona euro, existirão duas alternativas: abandonar o euro, com os riscos que comentei duas semanas atrás ou financiamento permanente por meio de uma união fiscal, mantendo, assim, as economias moribundas na UTI. Essa opção pode ser viável para uma ou duas economias de pequena dimensão. Mas seria impossível, economica ou politicamente, para as maiores. É por isso que os elevados spreads atuais sobre a dívida italiana e espanhola são tão perigosos para o futuro da zona euro.

O problema está nos fluxos, idiota. Apenas reduzir a carga de endividamento não resolverá esse problema. Devemos temer que economias profundamente não competitivas, não serão financiadas, mas não conseguirão se ajustar. Se assim for, eles poderão simplesmente definhar. É por isso que algumas pessoas já afirmam que a solução poderá ter de incluir o abandono do euro por alguns países. Em casamentos desfeitos, argumenta Nouriel Roubini, da Stern School, em Nova York, “é melhor ter regras – leis de divórcio – que tornam uma separação ordenada e menos onerosa para as duas partes”.

O mínimo essencial com que a zona do euro precisa lidar em sua crise é um mecanismo eficaz para descontar as dívidas de endividados privados e soberanos evidentemente insolventes, como a Grécia; recursos financeiros suficientemente grandes para administrar os mercados ilíquidos de títulos de governos potencialmente solventes; e maneiras de tornar o sistema financeiro crivelmente solvente imediatamente. Os montantes necessários certamente serão várias vezes maiores do que os €440 bilhões do Fundo de Estabilidade Financeira Europeu existentes, como adverti na semana passada.

Infelizmente, porém, a zona do euro exige mais ainda: é necessário um caminho crível de ajuste, no fim do qual vejamos a restauração da saúde das economias mais fracas. Se esse caminho não for encontrado, a zona do euro, na forma em que existe hoje, será desagregada. A questão não é se, mas quando. Esse é o tamanho do problema.

* “The eurozone must shrink”, www.lombardstreetresearch.com (A zona do euro precisa encolher) www.lombardstreetresearch.com. (Tradução Sergio Blum)

¹ Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Economia: FHC pagava juros mais altos, mas a dívida cresceu mais com Lula

O artigo abaixo explica com alvar clareza, o ‘imbroglio’ da dívida mobiliária do governo brasileiro, dívida essa que está provocando o desequilíbrio macroeconômico.

Os Tupiniquins arquejam sob o cavalar ônus de dívida pública mobiliaria interna, algo em torno de 1,3 trilhão de reais. Esse ‘dragão’ é o pior mal da estratégia adotada desde a implantação do plano Real.

Apesar da louvável ‘performance’ referente ao ‘superavit’ nos últimos 8 anos, governo Lula, a contra partida do ‘déficit’ nas contas públicas não se mostra suficiente para um ajuste fiscal que o Brasil necessita para estabelecer sólidos e continuados fundamentos econômicos.

Ouço economistas e analistas financeiros repetirem o mantra: ” Com a estabilidade de preços e o aumento dos juros reais, o conceito de déficit nominal é que se faz relevante.”

Enquanto isso, Marx e John Lock, cada qual por razões diferentes e próprias, se reviram nas tumbas.

O Editor


Na edição de 9 de dezembro, quinta-feira, a Folha de São Paulo publicou importante reportagem de Eduardo Cucolo comparando os juros que o governo Fernando Henrique pagava para rolar a dívida mobiliária interna junto aos bancos e aqueles que o governo Lula paga, após reduzir substancialmente as taxas durante o percurso. Perfeito.

A matéria é muito boa, porém incompleta. Em primeiro lugar, porque não focaliza com o devido destaque os juros deixados por FHC em dezembro de 2002, no montante de 25% ao ano. Lula os foi reduzindo gradativamente e eles hoje encontram-se na escala de 10,75%.

Entretanto, o estoque da dívida (títulos federais em poder da rede bancária) atingia em torno de 750 bilhões de reais. Hoje, oito anos depois, de acordo com o que o Secretário do Tesouro, Hugo Arno Augustin, publicou no Diário Oficial de 30 de setembro, o endividamento alcançou mais de 2,2 trilhões.

Praticamente 60% do PIB. Como a taxa anual é de 10,75%, verifica-se que o dispêndio por doze meses eleva-se a algo em torno de 230 bilhões de reais.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Para se dimensionar bem o que tal desembolso sem volta representa, basta acentuar que a despesa total com o funcionalismo civil e militar é de 169,4 bilhões (está no mesmo Diário Oficial), a da Previdência, para pagar os 25 milhões de aposentados e pensionistas do INSS, soma 257,8 bilhões, a verba da Saúde fica em 65,4 bilhões, a destinada à Educação é de apenas 54,8 bilhões.

Adicionando-se a Saúde à Educação, constatamos que, juntas, absorvem 120,2 bilhões de reais. Setores essenciais à vida humana e à do país.

Muito bem. Notaram?

Significa em números redondos apenas a metade das despesas pouco produtivas com o pagamento de juros. Como o total da dívida é de 2,2 trilhões, cada ponto na escala da Selic representa 22 bilhões de reais. Cada ponto. O orçamento federal para este ano que se aproxima do final é de 1 trilhão e 766 bilhões.

Assim, o endividamento é maior do que o valor da própria lei orçamentária. O ministro Guido Mantega fala em cortes nas obras do PAC para enxugar 32 bilhões nas despesas públicas.

Bastaria que os juros recuassem de 10,75 para 9,2%. Porque não se faz isso? Para não contrariar os bancos que cobram dos clientes juros, em média de 4% ao mês, enquanto a inflação fica nos 5,3% ao ano.

Uma desigualdade flagrante. Os juros pagos à rede bancária promovem, sem cessar, forte concentração de renda no país. Exatamente a meta oposta àquela a que a presidente eleita Dilma Rousseff sustenta que deseja atingir.

O crescimento da dívida segue um ritmo impressionante. Itamar Franco a passou no montante de 62 bilhões a FHC. Confesso que me faltam números sobre quanto ele a recebeu de Sarney e Collor.

Mas Fernando Henrique, aceitando a política de Gustavo Franco de paridade entre o real e o dólar, paridade impossível, já que a inflação anual americana era – e é – muito mais baixa que a nossa, a entregou a Lula da Silva no patamar de 750 bilhões. Ganhou velocidade acumulada, foi crescendo sem parar e hoje chega, como disse há pouco, a 2,2 trilhões de reais. Impossível de resgatar aos juros de 10,75% ao ano.

Mas o problema não é só esse. Ao longo dos últimos 16 anos, quanto o Brasil pagou de juros? Um volume enorme de recursos, um Oceano Atlântico de dinheiro. E o drama não se limita só ao dinheiro.

O que deixou de ser feito nesse espaço de tempo por falta dele nos cofres públicos? O que está por ser feito no país, e não se fez, não tem preço. De outro lado, a população cresce 1,2% ao ano. A pressão por serviços aumenta.

Pedro do Coutto/Tribuna da Imprensa

Rio de Janeiro: é terrorismo mesmo

É terrorismo mesmo
Por Carlos Chagas

O que aconteceria caso os narcotraficantes estivessem vendendo livros de Marx e Lênin em vez de cocaína, pregando a ditadura do proletariado em lugar de dominarem comunidades cada vez maiores no Rio de Janeiro, onde pensa o leitor que estariam as Forças Armadas?

Claro que nas ruas, com todo o seu poderio, combatendo e esmagando a subversão.

Qual a diferença, se a antiga capital vive dias de guerrilha urbana explícita, com todo o horror e a bestialidade que mídia apresenta?

Nenhuma, porque metralhar postos policiais em nada difere de explodir quartéis, como queimar ônibus e carros particulares é a mesma coisa do que incendiar viaturas militares.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Com todo o respeito, as Forças Armadas já deveriam estar ocupando bairros e subúrbios do Rio, intimidando com sua presença a ação do terrorismo.

Invadir as bocas de fumo no alto das favelas difere em quê, das operações antes desencadeadas contra “aparelhos” no alto de edifícios?

À maneira dos paquidermes, o poder público arrasta-se no sentido de reconhecer a necessidade imperiosa de mobilizar Exército, Marinha, Fuzileiros e Aeronáutica.

Já era para o presidente Lula ter dado a ordem, com base na Constituição, mesmo sendo o bandido de bermudas e sandálias havaianas fisicamente distinto dos subversivos do passado, de calças jeans, camisas pólo e sapatos sem cadarço.

A pedido das autoridades fluminenses a Marinha saiu na frente, oferecendo viaturas de combate para a Polícia Militar invadir uns tantos morros.

Falta pouco, mas é um parto perigoso, significando perda de tempo por parte do poder público e ocupação de espaços, pela bandidagem.

O terrorismo tem muitas faces, mas Osama Bin Laden e Elias Maluco formam uma só pessoa.

Tribuna da Imprensa

Privatização: verdades e mentiras que enganam e conquistam corações e mentes

A discussão sobre privatizações no Brasil está presente em todos os segmentos populares e democráticos, sem permitir um debate lógico e técnico, uma vez que o viés puramente ideológico mascara o tema.

O pouco que restou do movimento nacionalista surgido há várias décadas – emblemática foi a campanha do “o petróleo é nosso” -, em que pese todos os protestos feitos, as privatizações avançam em todas as áreas da economia, sem que os que pensam a autonomia nacional possam ser ouvidos.

Talvez as crises sistêmicas da economia, hoje globalizada, bem como a ineficiência do Estado, sejam parte dessa equação cujos parâmetros são as posições exacerbadas e o interesse puramente do lucro oriundo muitas vezes de tenebrosas transações. Por um lado acredita-se que o Estado, aliviado do ônus da administração ineficiente, estará liberto para se dedicar às questões que realmente afligem a população. Por outro lado, de forma exponencial, acumulam-se as reclamações dos consumidores contra ae denúncias de mau funcionamento e inoperância gerencial, quanto ao atendimento e ao modo como passaram a ser tratados.

Aí pode estar à explicação para a passividade com que o grosso da população aceite pacificamente, talvez como saldo de uma estratégia de se impor um pensamento único, a transferência de empresas estatais, algumas estratégicas para um futuro próximo, para a iniciativa privada.
O Editor


Privatização : verdades, mentiras e uma arguta observação de Francisco de Oliveira

por Bolívar Lamounier

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Uma coisa que me impressiona é a ira sacrossanta com que os anti-privatistas recheiam seus comentários. Quais são as raízes desse sentimento? Em que fontes eles vão buscá-las?

Ocorrem-me duas hipóteses diametralmente opostas (mas que não necessariamente se anulam uma à outra).

De um lado, interesses materiais direta e negativamente afetados: funcionários de estatais que perderam ou temem perder seus empregos, por exemplo.

Do outro, motivos ou crenças abstratas, descoladas de interesses materiais. Razões que chegam a soar até como religiosas.

Nessa ótica, tratar-se-ia essencialmente de uma luta do bem contra o mal. A empresa privada e a busca do lucro são vistas como uma encarnação do demônio, e por isso devem ser incessantemente combatidos pelo Estado, que corporifica o bem comum, quem sabe até a vontade de Deus neste nosso mundo terreno.

No pensamento de Marx & Engels, por exemplo, as desigualdades e injustiças devem-se à divisão da sociedade em classes sociais, que por sua vez se deve à propriedade privada dos meios de produção (fábricas, fazendas etc); com a estatização de tais meios, as desigualdades começam a desaparecer, dando lugar à “sociedade sem classes”, que seria uma espécie de céu na terra.

Reações dos dois tipos mencionados acima, eu compreendo (obviamente sem concordar com elas) sem nenhuma dificuldade. Quem teve interesses contrariados reage contra a política que os contrariou. Quem acredita que estatizar tudo é um atalho para a felicidade geral e eterna, também se opõe à privatização. Isto é óbvio.

Que dizer, porém de pessoas que não se situam naqueles dois extremos? Pessoas que tentam apreciar o assunto de uma forma não tão rente a seus interesses pessoais e sem abraçar o polo contrário – o do advento do paraíso socialista?

Entre os dois extremos indicados há espaço para várias posições que considero sensatas e realistas, ligadas seja à importância relativa da presença estatal em diferentes setores, seja à necessidade de alocar de forma adequada recursos públicos sabidamente escassos.

No Brasil, existe claramente um consenso ou uma forte maioria no sentido de manter a presença estatal no setor de petróleo; em todos os campos de atividade, um grande número de pessoas vê razões importantes para apoiar a Petrobrás. Em relação a outros setores, o consenso é muito mais baixo, ou não existe.

Pensemos na alocação de recursos públicos. Num país que precisa desesperadamente melhorar a educação, a saúde, a segurança etc., o governo deveria ter continuado a cobrir buracos em simples empresas siderúrgicas? Ou transferi-las ao setor privado, para que elas, modernizadas e lucrativas, passassem a gerar recursos públicos sob a forma de impostos?

Sobre a privatização das telecomunicações e da Companhia Vale do Rio Doce eu, francamente, não vejo razão para me estender. Só pessoas desinformadas ou acometidas de obtusidade ideológica podem negar os resultados obtidos.

Quem viveu ou leu alguma coisa sobre a situação da telefonia brasileira até três ou quatro décadas atrás, sabe que estávamos na idade da pedra. Até os anos 60, mesmo nas capitais, quem precisasse fazer um interurbano tinha de ir ao centro da cidade e enfrentar uma fila.

Os governos militares implantaram o DDD – sistema de discagem direta à distância -, um grande avanço. Mas a escassez de linhas permaneceu dramática ainda por muito tempo.

Até a privatização, existiam por toda parte empresas dedicadas ao rendoso negócio de alugar linhas. E quem possuísse alguma em geral a incluía entre os bens declarados anualmente à Receita Federal. E não sem motivo, porque uma linha valia alguma coisa entre 3 e 5 mil dólares .

Ah, me esqueci: empresas públicas foram vendidas na “bacia das almas”. Foi tudo uma grande “privataria”. Lula teve 8 anos para reverter ou pelo menos para fazer uma mísera auditoria nas privatizações realizadas pelo governo Fernando Henrique. Não fez uma coisa nem outra.

Mas repete, por motivos exclusivamente eleitorais, a encenação de 2006. Demoniza a privatização, em geral, e tenta utilizá-la contra o PSDB e José Serra.

Em vista disso, quero concluir este post citando uma entrevista do sociólogo Francisco de Oliveira, publicada hoje pelo Folha.com.

Chico de Oliveira, para quem não se lembra, foi um petista histórico. Mantém-se visceralmente anti-tucano, por razões que não vou tentar decifrar. Mas rompeu com o PT e com Lula em 2003.

Falando hoje à Folha, ele abordou especificamente a questão da privatização.

Lula, disse Chico de Oliveira,

“… é mais privatista que FHC. As grandes tendências vão se armando e ele usa o poder do Estado para confirmá-las, não para negá-las. Então, nessa história futura, Lula será o grande confirmador do sistema.

Ele não é nada opositor ou estatizante. Isso é uma ilusão de ótica. Ao contrário, ele é privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu. Essa onda de fusões, concentrações e aquisições que o BNDES está patrocinando tem claro sentido privatista.

Para o país, para a sociedade, para o cidadão, que bem faz que o Brasil tenha a maior empresa de carnes do mundo, por exemplo? Em termos de estratégia de desenvolvimento, divisão de renda e melhoria de bem-estar da população, isso não quer dizer nada”.