“Estamos na véspera de um genocídio”: o Brasil pediu para salvar as tribos amazônicas da Covid-19

Carta aberta do fotojornalista Sebastião Salgado e figuras globais alertam que doença pode dizimar povos indígenas.

Os líderes do Brasil devem tomar medidas imediatas para salvar os povos indígenas do país de um “genocídio” do Covid-19, afirmou uma coalizão global de artistas, celebridades, cientistas e intelectuais.

Em uma carta aberta ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, figuras como Madonna, Oprah Winfrey, Brad Pitt, David Hockney e Paul McCartney alertaram que a pandemia significava que comunidades indígenas na Amazônia enfrentavam “uma ameaça extrema à própria sobrevivência”.

“Cinco séculos atrás, esses grupos étnicos foram dizimados por doenças trazidas pelos colonizadores europeus … Agora, com esse novo flagelo se espalhando rapidamente pelo Brasil … [eles] podem desaparecer completamente, pois não têm como combater o Covid-19”, escreveram eles.

O organizador da petição, o fotojornalista brasileiro Sebastião Salgado, disse que invasores, incluindo garimpeiros e madeireiros ilegais, devem ser expulsos imediatamente de terras indígenas para impedir a importação de uma doença que já matou mais de 240.000 pessoas em todo o mundo, incluindo 6.750 no Brasil.

“Estamos às vésperas de um genocídio”, disse Sebastião Salgado, que passou quase quatro décadas documentando a Amazônia e seus habitantes.

Mesmo antes de Covid-19, os povos indígenas do Brasil estavam presos no que os ativistas chamam de luta histórica pela sobrevivência.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 0

Críticos acusam Bolsonaro, um populista de extrema direita no poder desde janeiro de 2019, de estimular a invasão de reservas indígenas e desmantelar as agências governamentais que deveriam protegê-las.

“As comunidades indígenas nunca foram tão atacadas … O governo não tem nenhum respeito pelos territórios indígenas”, disse Sebastião Salgado, apontando para cortes orçamentários incapacitantes e o recente saque de vários dos principais funcionários ambientais que tinham como alvo garimpeiros e madeireiros ilegais.

Mas a carta dizia que a pandemia tinha uma visão já sombria de Bolsonaro ainda pior, paralisando os esforços de proteção restantes.“Como resultado, não há nada para proteger os povos indígenas do risco de genocídio causado por uma infecção introduzida por estrangeiros que entram ilegalmente em suas terras”, argumentaram os signatários, que também incluem as supermodelos Gisele Bündchen e Naomi Campbell, autor Mario Vargas Llosa, o artista Ai Weiwei, o arquiteto Norman Foster e o ator Meryl Streep.

Sebastião Salgado, que documentou o genocídio de Ruanda em 1994, alertou que os 300.000 indígenas da Amazônia brasileira enfrentam aniquilação.

“Em Ruanda, vimos um genocídio violento, um ataque, onde as pessoas foram mortas fisicamente. O que acontecerá no Brasil também significará a morte dos indígenas ”, disse o homem de 76 anos que passou os últimos sete anos fotografando a região para seu grande projeto final.

“Quando você endossa ou encoraja um ato que você sabe que irá eliminar uma população ou parte de uma população, esta é a definição de genocídio … [Será] genocídio porque sabemos que isso vai acontecer, estamos facilitando … entrada de coronavírus … [e, portanto] está sendo dada permissão pela morte desses povos indígenas. ”

“Isso significaria a extinção dos povos indígenas do Brasil”, acrescentou Sebastião Salgado.

O medo de que o Covid-19 pudesse devastar as comunidades indígenas cresceu no mês passado, quando a morte de um adolescente Yanomami reviveu memórias horríveis de epidemias causadas por construtores de estradas e garimpeiros nas décadas de 1970 e 1980.

Sebastião Salgado – FacebookTwitterPinterest

 Sebastião Salgado: ‘[Permitir que o coronavírus entre nas comunidades amazônicas] significaria a extinção dos povos indígenas do Brasil’ ‘. Foto: David Fernandez / EPA
“Em algumas aldeias, eu sabia que o sarampo matou 50% da população. Se Covid fizer a mesma coisa, seria um massacre ”, disse Carlo Zaquini, um missionário italiano que passou décadas trabalhando com os Yanomami.

A cidade brasileira até agora mais afetada pelo coronavírus é Manaus, capital do Amazonas, estado onde parte da reserva Yanomami está localizada.

Sebastião Salgado – que está pedindo a criação de uma força-tarefa liderada pelo exército para despejar invasores de áreas protegidas – admitiu que Bolsonaro não agiria por sua própria vontade. Mas ele acreditava que a pressão internacional poderia forçar o governo a fazê-lo, como aconteceu no ano passado, quando a indignação global resultou na mobilização de militares para extinguir incêndios na Amazônia.

“Apenas na Amazônia brasileira, temos 103 grupos indígenas que nunca foram contatados – eles representam a pré-história da humanidade”, disse Sebastião Salgado. “Não podemos permitir que tudo isso desapareça.”

Mario Vargas Llosa: “Com o progresso, acreditamos que a natureza estava dominada”

O ganhador do Nobel de Literatura passa o confinamento lendo Galdós na sua casa de Madri, e alerta para os efeitos negativos de um retrocesso da globalização e de ter o Governo chinês como modelo.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa na sua casa, em Madri, em 2019. Foto SAMUEL SANCHEZ

“Acaba de sair o sol!”, dizia, às cinco da tarde do último sábado, Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura, com 84 anos recém-completados (em 28 de março). “Assim se levanta um pouco o ânimo.” O autor peruano passa o confinamento em sua casa de Madri, lendo Los Episodios Nacionales, de Benito Pérez Galdós (1843-1920).

Pergunta. Escute isto: “Fiquei sozinho como um cogumelo e tornei a fazer a vida monástica (…). Só continuarei aqui até o fim de mês, felizmente, porque é como viver na Lua (…). Sinto-me menos que um homem, que um animal ou que uma planta, um pedacinho de lixo, umas gotinhas de xixi, às vezes nem sequer isso. Não há um café, nem um cinema, e a ideia de fazer essa longa expedição até os lugares habitados me deprime…”.

Resposta. É a reflexão de um confinado, sem dúvida. De onde saiu isso?

P. É de uma carta que você escreveu ao seu amigo Abelardo Oquendo quando, em 12 de fevereiro de 1966, você estava escrevendo Conversa no Catedral. Como se sente agora?

R. Este confinamento é algo formidável para mim porque tenho um tempo para ler como nunca tive. Geralmente trabalho muito pelas manhãs, mas duas ou três tardes à semana tenho sempre algum encontro, alguma entrevista. Agora não vem ninguém! Posso ler dez horas por dia!

P. E está lendo Galdós.

R. Sim, praticamente já terminei Los Episodios Nacionales. Um trabalho gigantesco, em uma linguagem acessível, divertida. Ele se documentou, mas trabalhou com liberdade. Descreve o caos, as contradições, como são arbitrários alguns dirigentes partidários. E há esse personagem maravilhoso, Mosén Antón, que tem uma raivinha e passa para o lado dos franceses por mau humor. Imagine o que isso significa como caos.

P. Encontra nessa leitura algo que a relacione com a Espanha deste mês, por exemplo?

R. Sem dúvida nenhuma. Tínhamos a impressão de que, com o progresso e a modernidade, tínhamos dominado a natureza. Pois não! Uma grande idiotice. A prova é que isto pegou praticamente todos os países de surpresa. Nenhum estava preparado para um desafio assim. Um chinês come um morcego e isso provoca uma pandemia que aterroriza o mundo. Nenhum país estava preparado para um desafio semelhante. Isto significa como o progresso é relativo, como podemos ter surpresas muito desagradáveis com essa confiança. E uma das lições que será preciso tirar é que temos que estar mais bem preparados para o imprevisível.

P. O aspecto global também fica questionado.

R. Tudo tem um preço, e o preço negativo da globalização é este. Por outro lado, permite aos países pobres derrotarem a pobreza a grande velocidade, algo inesperado há poucos anos. Pela primeira vez hoje os países pobres têm possibilidades de saírem a uma velocidade impensável. Isso é algo que a globalização permite. Seria muito negativo que, como consequência desta pandemia, a globalização retrocedesse e voltássemos a levantar fronteiras que tanto trabalho custou diminuir.

P. Não lhe causa assombro que uma potência como os Estados Unidos seja atacada por um vírus e só possa ser defendida pela ciência, pelo acaso ou pela esperança?

R. Os Estados Unidos, que pareciam estar acima do bem e do mal, estava muito pouco preparados. Prova disso são as 2.000 mortes que ocorreram um dia destes. Havíamos confiado em que o progresso havia trazido tantos benefícios que já não haveria surpresas desagradáveis. Mas não! As surpresas desagradáveis estão à porta. É verdade que alguns países resistiram melhor que outros, mas não foi o caso dos países que acreditávamos estar na ponta do progresso, como os Estados Unidos.

P. Você foi um dos primeiros a levantar a voz em relação à manipulação que a China fez de seu próprio caso.

R. O caso da China é muito interessante, porque tem muita gente surpresa com progressos que a colocavam agora como modelo: sacrificar as liberdades abrindo um mercado livre na economia. Agora ficou demonstrado que o progresso sem liberdade não é progresso, e o caso da China foi flagrante. Um país que se vê sacudido por uma pandemia como esta, que nasce em seu seio e diante da qual os próprios dirigentes agem de maneira autoritária, tentando esconder o que seus melhores médicos denunciaram que iria acontecer. Foi o típico reflexo de um sistema autoritário: negá-lo, obrigar esses médicos a se desmentirem. Muitas vidas poderiam ter sido salvas se um Governo como o chinês tivesse informado imediatamente.

P. Trump, Bolsonaro e Johnson resistiram a entender que isso também acontecia com eles…

R. Isso custou muitas vidas! Agiram de forma irresponsável, pensando que poderiam driblar a ameaça. Acredito que os eleitores dos países democráticos e livres os examinarão, sem dúvida pagarão por isso. Seguiram aquele reflexo autoritário de não dar importância quando se tratava de um perigo tão sério.

P. Como vê a situação da América Latina?

R. Felizmente a pandemia chegou lá no verão. E o calor é dissuasivo para o vírus [ainda não existem estudos concretos que apontem para esta relação]. Ele a está golpeando, mas muitíssimo menos do que se tivesse chegado no inverno [no Brasil e Equador o número de casos não para de aumentar]. Do contrário seria difícil explicar que o Peru, com uma infraestrutura que não está à altura do desafio, ainda não chegou a cem mortos. De qualquer forma, meu país respondeu vigorosa e rapidamente, de modo que o presidente Martín Vizcarra aumentou enormemente sua popularidade.

P. Compartilha as advertências sobre a possibilidade de que as normas para combater a pandemia firam as liberdades civis?

R. Sem dúvida. Infelizmente essa é uma das consequências do pânico generalizado causado pela pandemia… Estava em andamento um processo de dissolução de fronteiras. A globalização estava funcionando muito bem. No entanto, o terror dessa pandemia corre o risco de nos fazer retroceder a essa espécie de retorno à tribo, acreditando que essas fronteiras nos protegerão melhor contra a pandemia. Não é verdade. Acredito que hoje em dia a resposta generalizada da Europa à pandemia está poupando muitas vidas em relação com fatos do passado.

P. Como viu a atitude da Europa?

R. É um pouco injusto criticar os países que fizeram bem a lição de casa e estão expostos a demandas daqueles que nem sempre a fizeram. Finalmente, houve um acordo através de uma negociação difícil. Aceitaram fazer parte de uma unidade como a europeia e vamos compartilhar esse progresso graças à compreensão daqueles que fizeram bem a lição de casa.

P. No final do seu artigo de 18 de março no EL PAÍS [Retorno à Idade Média?], você diz: “O terror à peste é, simplesmente, o medo da morte que nos acompanhará como uma sombra”. Você teve medo?

R. Acredito que é impossível não ter medo da morte se você não estiver muito desesperado ou tiver uma vida demasiado trágica para desejar que ela acabe. Essa é a exceção à regra. O normal é ter medo da extinção. Em uma situação como a que vivemos agora, vendo amigos ou conhecidos que desaparecem arrastados por essa doença, é impossível que o medo da morte não se espalhe. É a reação saudável, natural. Além disso, graças à morte a vida é maravilhosa, tem essas compensações fantásticas, como a leitura, por exemplo. Espero que aumente graças à pandemia!Coronavirus,Blog do Mesquita,Epidemia,China

A Europa estará melhor

Não se pode aceitar, diz Vargas Llosa, que esta crise represente um retrocesso para a Europa. É preciso corrigir os defeitos, é claro, “mas os países da União Europeia estarão melhores”. Em primeiro lugar, “a paz na Europa continuará, uma realidade sem precedentes porque até agora as pessoas não fizeram nada além de se inimizar”. Essa é uma projeção que incentiva que o futuro “não seja de retrocesso, mas de avanço, com o desvanecimento total das fronteiras, para consolidar um projeto supraestatal que agora traz tantos benefícios”.

Mario Vargas Llosa: Delações premiadas

Delações da Odebrecht abrem oportunidade a países latino-americanos de advertirem presidentes corruptos.

O ex-presidente peruano Alejandro Toledo
O ex-presidente peruano Alejandro Toledo EFE

Algum dia será preciso erguer um monumento em homenagem à empresa brasileira Odebrecht, porque nenhum Governo, empresa ou partido político fez tanto quanto ela na América Latina para revelar a corrupção que corrói seus países nem, é claro, trabalhou com tanto empenho para fomentá-la.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A história tem todos os ingredientes de um grande thriller. O veterano empresário Marcelo Odebrecht, dono da empresa, condenado a dezenove anos e quatro meses de prisão juntamente com seus principais executivos, depois de passar um tempinho atrás das grades anunciou à polícia que estava disposto a contar todas as malandragens que havia cometido para ter sua pena reduzida. (No Brasil, isso é chamado de “delação premiada”).

Ele começou a falar e de sua boca – e das bocas de seus executivos– saíram cobras e peçonhas que estremeceram todo o continente, começando com seus presidentes atuais e passados. O senhor Marcelo Odebrecht me recorda o tenebroso Gilles de Rais, o bravo companheiro de Joana d’Arc, que, chamado pela Inquisição da Bretanha para ser perguntado se era verdade que havia participado de um ato de satanismo com um comediante italiano, disse que sim, e que, além disso, havia estuprado e esfaqueado mais de trezentas crianças porque só perpetrando esses horrores sentia prazer.

A Odebrecht gastou cerca de 800 milhões de dólares em propinas a chefes de Estado, ministros e funcionários para ganhar licitações e contratos que, quase sempre escandalosamente superfaturados, permitiram-lhe obter lucros substanciais. Isso vinha ocorrendo há muitos anos, e talvez nunca tivesse sido punido se entre os seus cúmplices não estivesse boa parte da diretoria da Petrobras, a companhia petrolífera brasileira, que, investigada por um juiz fora do comum, Sergio Moro – é um milagre que ele ainda esteja vivo–, abriu a caixa de Pandora.

Até agora, são três mandatários latino-americanos envolvidos nos sujas maracutaias da Odebrecht: do Peru, Colômbia e Panamá. E a lista está apenas começando. Quem está na situação mais difícil é o ex-presidente peruano Alejandro Toledo, a quem a Odebrecht teria pago 20 milhões de dólares para garantir contratos de dois trechos da Rodovia Interoceânica, que liga, pela floresta amazônica, o Peru ao Brasil.

Um juiz decretou contra Toledo, que está fora do Peru, na condição de fugitivo, uma prisão preventiva de dezoito meses, enquanto o caso é investigado; as autoridades peruanas notificaram a Interpol; o presidente Kuczynski telefonou ao presidente Trump pedindo que o extradite para o Peru (Toledo tem um emprego na Universidade Stanford), e o Governo israelense fez saber que não o admitirá em seu território enquanto sua situação jurídica não for esclarecida. Até agora, ele se recusa a voltar, alegando que é vítima de uma perseguição política, algo que nem mesmo seus mais ardorosos partidários –já restam poucos– podem acreditar.

Estou muito triste com o caso de Toledo porque, como lembrou Gustavo Gorriti num de seus excelentes artigos, ele liderou com grande carisma e coragem, dezessete anos atrás, a formidável mobilização popular no Peru contra a ditadura assassina e cleptomaníaca de Fujimori e foi um elemento fundamental para sua queda.

Não só eu; toda a minha família se dedicou a apoiá-lo com denodo. Meu filho Gonzalo gastou as economias que tinha na grande Marcha dos Quatro Suyos [termo inca para designar os pontos cardeais], na qual milhares, talvez milhões, de peruanos se manifestaram em todo o país em favor da liberdade.

Meu filho Álvaro deixou todos os seus empregos para apoiar em tempo integral a mobilização pela democracia e, com a queda de Fujimori, sua campanha presidencial até o primeiro turno, e foi um dos seus colaboradores mais próximos. Então algo estranho aconteceu: rompeu com ele, de maneira precipitada e ruidosa.

Alegou que tinha ouvido, numa reunião de Toledo com amigos empresários, algo que o alarmou muito: Josef Maiman, o ex-potentado israelense, disse que queria comprar uma refinaria que era do Estado e um canal de televisão (Maiman, segundo os relatos da Odebrecht, foi o testa de ferro do ex-presidente e serviu como intermediário fazendo chegar a Toledo pelo menos 11 dos 20 milhões recebidos por baixo dos panos para favorecer essa empresa). Quando aquilo aconteceu, pensei que a susceptibilidade de Álvaro era exagerada e injusta, e até nos distanciamos. Agora, peço desculpas a ele e exalto suas suspeitas e seu olfato justiceiro.

Espero que Toledo volte ao Peru motu propio, ou que o façam voltar, e que seja julgado com imparcialidade, algo que, ao contrário do que acontecia durante a ditadura de Fujimori, é perfeitamente possível em nossos dias. E, se for considerado culpado, que pague por seus roubos e pela enorme traição que teria perpetrado aos milhões de peruanos que votaram nele e o seguiram em sua campanha a favor da democratização do Peru contra usurpadores e golpistas.

Eu tive muitos contatos com ele naqueles dias e me parecia um homem sincero e honesto, um peruano de origem muito humilde, que por seu esforço tenaz havia –como gostava de dizer– “derrotado as estatísticas”, e tinha certeza de que faria um bom governo. A verdade é que –pilantragens à parte, se as houve– o fez bastante bem, porque naqueles cinco anos as liberdades civis foram respeitadas, começando pela liberdade para uma imprensa que se enfureceu com ele, e pela boa política econômica, de abertura e incentivos ao investimento que fizeram o país crescer.

Tudo isso foi esquecido desde que foi descoberto que tinha adquirido imóveis caros e deu explicações –alegando que tudo aquilo tinha sido adquirido por sua sogra com o dinheiro de Josef Maiman!– o que, ao invés de inocentá-lo, aos olhos de muita gente pareceu comprometê-lo ainda mais.

As “delações premiadas” da Odebrecht abrem uma soberba oportunidade aos países latino-americanos de fazer uma grande advertência aos presidentes e ministros corruptos das frágeis democracias que substituíram na maioria dos nossos países (com exceção de Cuba e Venezuela) as antigas ditaduras.

Nada desmoraliza tanto uma sociedade quanto admoestar os governantes que chegaram ao poder com os votos das pessoas comuns e aproveitaram esse mandato para enriquecer, pisoteando as leis e degradando a democracia.

A corrupção é, hoje em dia, a maior ameaça para o sistema de liberdades que está abrindo caminho na América Latina depois dos grandes fracassos das ditaduras militares e dos sonhos messiânicos dos revolucionários.

É uma tragédia que, quando a maioria dos latino-americanos parece estar convencida de que a democracia liberal é o único sistema que garante um desenvolvimento civilizado, na convivência e na legalidade, conspire contra essa tendência a rapina frenética de governantes corruptos.

Aproveitemos as “delações premiadas” da Odebrecht para puni-los e demonstrar que a democracia é o único sistema capaz de se regenerar.

Sobre livros e leituras

Dramaturgos - Shakespeare Bloga do Mesquita PersonalidadesInfelizmente, não sabemos se Shakespeare foi um homem que viajou muito. Mas a Itália, com certeza, é um país que ele deve ter conhecido, tantas são as peças cujas narrativas ocorrem lá.

Essa paixão se deve ao esplendor artístico das cidades italianas durante o período do Renascimento.

Em verdade, a Itália sempre fascinou escritores e músicos, os artistas em geral, de Goethe a Freud (o escritor), de Mozart a Beethoven.

Shakespeare viveu o fim do Renascimento, movimento que durou em torno de três séculos. O mundo dos humanistas, homens de vastíssima cultura. O Renascimento europeu inicia-se no fim do século XIII e vai até as portas do século XVII. A Itália foi o berço e o principal recanto de prosperidade desse ressurgir cultural que mudou a história do ocidente e do mundo inteiro.

Lembro o Renascimento – o retorno ao ideal greco-romano – para tocar num assunto que muito me incomoda. É de o quanto a especialização está matando o humanismo que o Renascimento nos legou. Falar de humanismo é até mesmo um exagero, digamos que um pouco de informação sobre o passado e sobre o mundo que nos cerca.

Ler um bom livro, hoje, é uma tarefa hercúlea para médicos, advogados, engenheiros, professores, juízes etc. Todo pequeno ou grande profissional só conhece a matéria em que trabalha. Mesmo aqueles que pertencem à área de ciências humanas – Direito, Sociologia, História, Comunicação, Economia, que precisam escrever todos os dias – não conseguem opinar sobre nada que não pertença ao seu universo de estudo. Encontrar alguém com uma cultura diversificada é como encontrar um diamante na calçada!

Os livros mais lidos são pouco mais que caça-níqueis, não passam de temas repetidos à exaustão. Mesmo assim, são apresentados como grandes novidades. As editoras precisam faturar, lucrar. Daí “empurram” livros que dão calafrios no leitor mais exigente. Esses livros ou ‘mercadorias’ não ajudam ninguém a pensar.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Algumas vezes fico calado em rodas de conversa – algo torturante para mim, pois adoro conversar – tal é a quantidade de bobagens ditas por pessoas de formação educacional muito pra lá de “nível superior” em suas opiniões sobre questões mais sábias.

A conversa chega, às vezes, a ser tão despropositada que você passa por idiota, pelo simples fato de o mundo dessas pessoas girar em torno de suas profissões, do que veem na Internet, ou do que dizem os jornais do dia. Suas opiniões são centradas em um único conteúdo. Não há uma visão do todo. Sei que estou sendo muito duro. Mas, não estou pedindo a ninguém para citar clássicos em mesa de bar.

O que nos estarrece é ver bobagens esotéricas, auto-ajuda e pequenos dramas de natureza pessoal tratados como Literatura. Como é que pessoas pós-graduadas em universidades leem essas coisas? Mário Vargas Llosa, numa recente entrevista no Brasil, chamou essas pessoas muito “educadas”, bem empregadas e alheias ao mundo – que só conhecem o seu métier – de: “analfabetos funcionais”.

Gostaria de dizer que essa declaração é um exagero, mas, infelizmente, não é. Como também não precisamos ser tão duros quanto a Goethe, que disse: “Quem de cinco séculos não é capaz de dar conta, não merece estar por aqui”.

Leiam os Clássicos!

¹ Theófilo Silva é Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e Colaborador do blog do Moreno


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Controle social da mídia

Perigo de emboscada
Sandro Vaia ¹

Suspeite de pessoas quando elas se juntam para discutir “regulação” ou “controle social” da mídia.

Suspeite mais ainda quando elas se reúnem por iniciativa de um ministro da Comunicação que é ao mesmo tempo chefe de uma TV estatal, mantida à custa de 700 milhões anuais de dinheiro público para uma audiência traço, e que não se cansa de criticar a imprensa independente e profissional, como se fosse um ombudsman público.

Lula já disse que a única censura que ele admite é a do controle remoto e a sua sucessora eleita garante que a liberdade de imprensa será preservada durante o seu mandato.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Isso não deveria ser suficiente para tranqüilizar a todos os que defendem a liberdade de expressão e de imprensa no País?

Acontece que entre a palavra dos líderes e a leitura dos liderados existe uma camada de interpretações movediças e ambíguas que abrem fissuras pelas quais passam os preconceitos ideológicos construídos ao longo de anos. O próprio presidente fez questão de alimentar essa ambigüidade: sempre que apareceu uma oportunidade, principalmente durante a campanha eleitoral, ele alimentou seu rancor contra a imprensa, acusando-a de agir como um partido político, e dando à militância exaltada de sua base política razões para construir um edifício de mistificações ,que atribuem à imprensa profissional e independente um conspiracionismo fantasioso e alucinado.
O apelido PIG- Partido da Imprensa Golpista- é a exacerbação vulgar desse delírio.

A tentação do dirigismo, quer receba o nome de “controle social”, quer receba o nome de “regulação”, é um componente inato do DNA de partidos de vocação autoritária como o PT. Não passa um mês sem que alguma de suas instâncias não construa uma proposta aberta ou disfarçada para colocar alguma espécie de entrave ou rédea ideológica em qualquer das formas de expressão através das quais o espírito humano se manifesta. E isso vai desde a liberdade dos jornais até as peculiaridades da personalidade de Tia Nastácia e de sua desenvoltura para subir em árvores.

Por isso,mesmo quando o ministro Franklin Martins jura que está se preocupando apenas em modernizar o “marco regulatório” do setor de comunicações para adaptá-lo ao surgimento de novas mídias, e tenta dar uma roupagem técnica às suas preocupações, há motivos para desconfiar.O “marco regulatório” vai cuidar, enfim, de fazer valer a proibição da propriedade cruzada de meios de comunicação? Vai cuidar, enfim, de fazer valer a regra que proíbe políticos de serem donos de meios eletrônicos de comunicação? Ou o “marco regulatório” vai avançar sobre a área de conteúdo,impondo regras e restrições que sempre se sabe como começam, mas nunca como terminam ?

O Prêmio Nobel Mário Vargas Llosa, esta semana, ao receber,em Cádiz,na Espanha, um prêmio por sua defesa da liberdade de expressão, fez um alerta sobre os retrocessos da liberdade em alguns países da América Latina, como Cuba, Bolívia, Venezuela, Equador,Argentina,e “mais recentemente o Brasil”. Llosa disse:

“Sempre haverá perigos de emboscadas por trás dos poderes”.

¹ Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br

Eleições 2010: Serra e Dilma são candidatos a Papa?

Impressiona o descaramento – diria minha santa vó: “esse povo não teme a ira divina”? – dos dois candidatos a beatos que por via transversa, e cínica, fazem pregação falsa em busca da presidência da república dos infelicitados Tupiniquins.

Verdadeiros santos do pau oco, os farsantes neo-fundamentalistas passam a fazer pregação de religiosidade nos mais rasteiros moldes de lavagem cerebral própria dos egressos dos subterrâneos medievais da TFP.

Quem sabe conseguiriam mais adeptos às suas pregações se saíssem sertão a fora, de matulão ao ombro e vestidos como o beato Antonio Conselheiro?

Ambos, Serra e Dilma, descobriram agora que existe aborto?

O Editor


A madre Dilma e o padre Serra

Fascinantes, estressados, caóticos, surreais, hipócritas. Assim foram, não necessariamente nesta ordem, os primeiros movimentos dos partidos, dos candidatos, da imprensa, dos coordenadores de campanhas e marqueteiros esta semana.

Marcas mais visíveis noreagrupamento das tropas com vistas a disputa presidencial no segundo e decisivo turno entre a ex-ministra da Casa Civil, Dilma Roussef (PT), e o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB).

No centro de tudo o invencível exercício do dom de iludir, presença histórica e inevitável, há séculos, em eleições no País.

Marina Silva, digna e grande vitoriosa nas urnas do primeiro turno, é misturada com a sombra da cruz apontada na forma quase inquisitorial de estigmas e condenações as mais hipócritas e horrorosas sobre cabeças de candidatos e eleitores.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Em alguns casos, o símbolo religioso está nas mãos e nas palavras de crentes de ocasião, de vários credos. Verdadeiros “hereges” de batina, em hábitos de freiras ou de paletó e gravata a proclamar o santo nome de Deus em vão, como dizia em suas pregações o beato Antonio Conselheiro, em Canudos, no sertão da Bahia, no começo do século passado, naquele confuso e conturbado período de transição do Império para a República no Brasil.

“Gente estúpida, gente hipócrita”, diria o baiano Gilberto Gil em tempos mais contemporâneos, sobre esta explosiva mistura de interesses políticos e eleitorais com religião e seus dogmas, que marca os primeiros movimentos do segundo turno da eleição presidencial em pleno século XXI.

Em tudo, ou quase, ambientes estranhos e tonalidades surreais dignos de um conto do argentino Julio Cortazar, a exemplo da “Pequena História Destinada a Explicar como é Precária a Estabilidade dentro da qual Acreditamos Existir, ou seja, que as Leis Poderiam Ceder Terreno às Exceções, Acasos ou Improbabilidades, e aí é que eu Quero Ver”, que fala das incertezas quanto ao futuro quando “o Comitê se reúne e procede à eleição de novos membros do órgão”. Ciro Gomes, que entra na campanha de Dilma e Jorge Bornhausen, na de Serra, que o digam.

Ou a atmosfera de realismo histórico e fantástico de um romance de Mário Vargas Llosa, o notável escritor peruano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010 – para honra, gloria a afirmação cultural e política de um continente chamado América Latina.

Isso, apesar da envergonhada e pífia cobertura, factual e analítica, dada pela imprensa brasileira – de repente tomada por arroubos beatos na cobertura jornalística sobre a questão do aborto que virou prioritária na pauta dos diários e nos programas dos candidatos – à transcendente vitória do autor de “A Festa do Bode” e “A Guerra do Fim do Mundo”, entre outras obras primas da literatura do continente e mundial.

Que diferença da profusa, profunda e diversificada cobertura do fato mostrada na CNN, e lida nos diários argentinos e seus sites, no México, na França, na Espanha, para ficar em apenas alguns exemplos mais marcantes e significativos.

Fica patente, assim, o intrigante contraste com esta campanha eleitoral brasileira, na qual os temas culturais foram praticamente amputados dos discursos dos candidatos, dos programas de governo e das justas cobranças da imprensa.

Durante a semana inteira, inclusive nesta sexta-feira, 8, no recomeço do horário gratuito de propaganda na televisão e no rádio, o que ficou mais evidente foi o fato da candidata do PT, Dilma Rousseff, por exemplo, trocar o salto alto em que andava metida com os coordenadores e aliados, nas últimas semanas de sua campanha no primeiro turno, por hábitos e pregações de quase monja .

É verdade que, em lugar das modestas e tradicionais sandálias franciscanas, a petista optou pelas modernas mas não menos confortáveis Croc, aquelas de fibras sintéticas com furinhos em cima que os estilistas brasileiros, em geral, abominam e consideram a coisa mais feia do mundo, mas que caiu no gosto de norte-americanos e europeus, principalmente de seus dirigentes políticos e celebridades.

José Serra, o candidato do PSDB, ontem esteve no interior da Bahia, acompanhado de seus aliados do DEM, em pregação cerrada contra o aborto. “Parece todo o falecido monsenhor Magalhães ou o Frei Damião”, compara um antigo morador de nova Glória, no Vale do São Francisco, ao lembrar dos dois conservadores religiosos e seus amedrontadores sermões, em “santas missões” pelo Nordeste, na segundo metade do século passado. Motivo de enormes pesadelos deste jornalista quando jovem.

Só falta a batina preta, como a asa da graúna. Em outra época isso poderia ser ajuda providencial para virar eleição. Hoje, no entanto, é aposta arriscada, ainda mais para um candidato de perfil progressista como o do ex-presidente da UNE. Mas eleição é o diabo, dizem os mineiros. A conferir.

Enquanto isso, saudemos Vargas Llosa, que tanto nos ensina em seus escritos repletos de personagens notáveis, a exemplo do jornalista míope, de “A Guerra do Fim do Mundo” que, aparentemente perdido no sertão baiano, “resgata a experiência de Canudos, narrando-a”. E opinando, evidentemente.

Viva!!! Viva!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail; Vitor-soares1@terra.com.br

blog do Noblat

Mario Vargas Llosa – Versos na tarde

Poema para a exorcista
Mario Vargas Llosa ¹

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.

Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras – cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão – trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.

Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.

Mas os combates nocturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afecto e de amizade.

¹ Mario Vargas Llosa
* Arequipa, Peru – 28 Março de 136 d.C


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O fim moral da política israelense

por Mario Vargas Llosa – O Estado de São Paulo

Haverá alguma possibilidade de a invasão militar de Israel na Faixa de Gaza “destroçar a infraestrutura terrorista” do Hamas – objetivo oficial da operação – e pôr fim ao disparo de foguetes artesanais dos integristas palestinos de Gaza contra as cidades israelenses da fronteira? Acho que nenhuma. Ao contrário, essa operação militar, que até este exato momento deixou milhares de feridos e já matou quase 900 palestinos, entre eles um grande número de crianças e de civis, terá o efeito de um massacre de parte da comunidade palestina, da qual o Hamas sairá fortalecido, e o setor moderado, ou seja, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), liderada por Mahmud Abbas, será diminuída.

Para que o argumento usado por Ehud Olmert e seus ministros como justificativa do ataque tivesse uma aparência de realidade, Israel deveria voltar a ocupar Gaza com uma enorme força militar permanente ou perpetrar um genocídio que nem mesmo os mais fanáticos de seus falcões se atreveriam a assumir, e nem, esperamos, o resto do mundo toleraria, embora a opinião pública internacional tenha demonstrado – mais uma vez – uma total indiferença pelo destino dos palestinos.

A verdade dos fatos é que, por mais feroz que tenha sido o castigo infligido pelo Exército de Israel a Gaza, e precisamente em razão do sentimento de impotência e ódio pelo ocorrido com o 1,5 milhão de palestinos que vivem esfomeados e quase asfixiados nessa ratoeira, é provável que, uma vez que o Exército se retire da Faixa e a “paz” seja restabelecida, as ações terroristas se renovem com mais brio e um desejo de vingança alimentado pelos sofrimentos destes dias.

Os defensores dos bombardeios e da invasão respondem a seus críticos com a pergunta: “Até quando um país pode suportar que suas cidades sejam vítimas de foguetes terroristas disparados em suas fronteiras, durante dias, meses, por uma organização como o Hamas, que não reconhece a existência de Israel nem esconde seu propósito de acabar com o país?”A pergunta é muito pertinente e ninguém que não seja fanático ou terrorista pode justificar o assédio criminoso constante do Hamas contra as populações civis de Israel.

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