Andreazza: desconhecido e injustiçado

Um dos grande nomes da história recente brasileira.

Injustiçado, esquecido e difamado. Apesar das acusações de corrupção, em vida, morreu pobre, as denúncias de corrupção se mostraram infundadas e mentirosas. No final da vida precisou da ajuda de amigos para fazer face aos custos hospitalares tendo os amigos “passado o chapéu” para pagar seu enterro. Um homem que deveria ser saudado e homenageado pela sua obra foi defenestrado pelos amestrados de sempre.

O dono de uma empresa, um grande estaleiro, apostou tudo na sua candidatura indireta para presidente da república tendo ele perdeu a “convenção” para o Maluf que, por sua vez perdeu para o Tancredo.

José Mesquita – Editor


O desconhecido Andreazza (1)

Carlos Chagas

(Prefácio do jornalista Carlos Chagas para o livro sobre o ministro Mário David Andreazza, elaborado e editado pela família.)

Sem ser engenheiro, por haver optado pela Escola Militar das Agulhas Negras, mesmo depois de aprovado no vestibular para a Faculdade de Engenharia do Rio de Janeiro, Mário David Andreazza inscreve-se na relação dos maiores realizadores de obras públicas que o Brasil já teve, em toda a nossa História.

Importa pouco, neste prefácio, falar da ação do ministro dos Transportes e, depois, do ministro do Interior, nos anos em que o país mais se desenvolveu materialmente. Nos capítulos seguintes, o leitor encontrará provas e evidências das centenas de realizações responsáveis pela nossa inclusão no rol das nações que romperam o desenvolvimento atormentado da primeira metade do século XX para chegar à afirmação real de nossas potencialidades.

Da multiplicação da malha rodoviária que chegou ao asfaltamento da Belém-Brasília à implantação da Transamazônica, da Cuiabá-Santarém aos milhares de quilômetros retirados das pranchetas para o solo fértil do Sul e do Sudeste, essas foram apenas uma parcela do espírito criador do ministro.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Reúnem-se à ponte Rio-Niterói e à recuperação das ferrovias desmanteladas nos anos anteriores à sua gestão. Completam a mutação verificada nos portos e a solidificação da indústria naval, com a batalha naqueles idos vencida contra a exploração do transporte marítimo pelos abomináveis navios de terceira bandeira, que estrangulavam nossa economia.

As hidrovias romperam território a dentro através de um sadio nacionalismo gerado nos tempos em que, como instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, depois da Escola Superior de Guerra, comprovou na prática a teoria do apoio do Brasil nas próprias forças, antes que o deletério neoliberalismo nos envolvesse, como ainda hoje acontece.

Ser humano

Andreazza era nacionalista de verdade, sem necessidade de ser radical, mas é hora de nos afastarmos de um reconhecimento óbvio de sua capacidade administrativa e gerencial para mergulhamos no ser humano, razão destas linhas.

Ao contrário das primeiras impressões determinadas por seu otimismo e sua capacidade de gestor de obras, é preciso abrir espaço para alguém atormentado. Sua imagem de realizador conviveu, no íntimo, com a desconfiança permanente de chegar a bom termo em cada uma de suas iniciativas. Transmitia aos auxiliares aquela caraterística dos grandes comandantes, mas, na intimidade, duvidava. Junto aos amigos mais chegados, buscava apoio, na véspera, para os passos a ser dados no dia seguinte. Apesar da certeza de estar no caminho correto, sofria diante das incompreensões previstas frente às barreiras que romperia com consciência.

Nenhum documento exprime com mais densidade esse sofrimento permanente, assim como sua determinação inflexível de seguir adiante, do que a carta reservada enviada ao secretário-geral do ministério dos Transportes, logo depois de empossados os dois. Desconhece-se, até hoje, a reação do fidelíssimo coronel Rodrigo Ajace, diante de parágrafos como:

“(…) Administração é sobretudo coragem. Coragem de arriscar calculadamente e ficar indiferente aos medíocres enfurecidos que não perdoam o sucesso de ninguém. Até de ladrão seremos chamados.”

E depois:

“Sofreremos muitas restrições, em particular de nossos colegas, e mais ainda dos generais que verão sempre em nós os meninos que há pouco se perfilavam e faziam continência. Poderão se transformar nos nossos maiores adversários. (…) Para começar, temos que passar por malucos. (…) Engolir sapos e trabalhar. Terminaremos nos impondo. Temos capacidade e imaginação. Lutaremos contra a vaidade. Sei que é difícil, mas venceremos a tentação, pois a vaidade gera ódio e sentimentos mesquinhos.”

As metas

Tudo isso foi escrito como preâmbulo para anunciar as primeiras metas: “a duplicação da via Dutra, os estudos de viabilização da ponte Rio-Niterói, a navegação em decadência, a vergonha da Rede Ferroviária, o sistema portuário em decadência, o déficit cada vez maior na questão dos fretes marítimos, a desmoralização do DNER”…

Havia um universo a construir mas o perfil começava a ser desenhado a partir das dificuldades a enfrentar. E elas surgiram nas primeiras semanas de sua atuação. Companheiros de farda, em especial generais, mas montes de coronéis, seus colegas, viram-se tomados por aquele sentimento por ele detectado anteriormente, da inveja. Porque alguém como eles, ou até, hierarquicamente inferior, ousava investir contra imutáveis moinhos de vento, sem prestar atenção a estrelas e continências?

Juntaram-se os contrários, desde os primeiros meses. Os adversários do governo Costa e Silva, sem coragem para atingir o velho marechal, fizeram de Andreazza o alvo imediato. Exatamente como ele previra na carta ao coronel Ajace. Carlos Lacerda abriu a fila, sugerindo, mas sem afirmar, que aquele conjunto de iniciativas anunciadas por Andreazza encobria a corrupção. No fundo, elas contrariavam interesses internos e externos, estes das multinacionais, às quais muita gente do governo Castello Branco servia.

Se é verdade que o MDB do dr. Ulysses negou-se a integrar a corrente de desmoralização do ministério dos Transportes, no reverso da medalha partiram de civis e militares ressentidos com os rumos do movimento de 1964 os primeiros petardos contra o próprio movimento que integraram. Veio desses ultrapassados, entre eles os generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, sem perder de vista o ex-ministro Roberto Campos, então no ostracismo, a catarata de meias suposições e incompletas ilações destinadas, menos do que atingir Costa e Silva e Andreazza, a interromper o fluxo de uma política nacionalista e contrária aos interesses externos que a retomada do desenvolvimento brasileiro obstruiria. Com a óbvia colaboração da parte mais forte da mídia, que até hoje o invencível Hélio Fernandes chama de “amiga e amestrada”.

Mesmo assim, com o apoio de Costa e Silva, resultados começaram a aparecer. Como a amargura encoberta de Andreazza tornava-se visível apenas para seus amigos mais chegados. Houve um momento em que a aliança entre ressentidos e interesseiros chegou a limites extremos, em veladas acusações até sobre a honestidade do ministro.

Ninguém assumia mas muitos se aproveitavam para denegri-lo, a ponto dele ter procurado o então chefe do SNI, general Garrastazu Médici, pedindo-lhe para indicar um oficial de informações capaz de ocupar a chefia de seu gabinete. O indicado foi o coronel Rocha Maia, de toda confiança, que nunca mais deixou Andreazza, aval de sua honestidade junto à comunidade de informações.

Tancredo Neves, FHC, Lula e Caetano Veloso: alianças e analfabetos

As baionetas democráticas
por Hélio Chaves ¹

Servi à “pátria” em 1979, durante o crepúsculo do regime militar. Período em que manifestações despertavam alvoroços no governo de plantão. Naquele ano, centenas de jovens, como eu, pernoitavam nos quartéis com fuzis servindo como travesseiros. Sacos de areia perfurados por baionetas simbolizavam “os inimigos” que deveríamos combater nos verdes campos da Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Na década de 80, fui trabalhar na redação de um jornal onde respirei notícias e fatos políticos. Um deles, a emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, foi sepultada pela falta de 22 votos no Congresso Nacional. O Colégio Eleitoral passou a ser a alternativa para cerrar de vez as portas do autoritarismo. Mário Andreazza e Paulo Maluf digladiavam na convenção do PDS, no Centro de Convenções da capital. Maluf venceu. Na outra arena, Tancredo Neves fazia acordos até com “Judas” para ser o candidato contra o continuísmo do regime militar.

A batalha final sagrou Tancredo. A euforia tornou-se frustração com o anúncio de sua enfermidade. Foram dias e noites de expectativas até sua morte, em 21 de Abril de 1985 – data propícia para o anúncio. A comoção nacional que tomou conta das ruas prenunciava o que estava por vir. José Sarney assume e convoca seus fiscais. Os bois somem dos pastos. Vivemos a hiperinflação e o “badernaço” – ser intelectual foi insuficiente para resolver as mazelas do Brasil.

Após o fracasso do primeiro governo civil – pós ditadura – surge o jovem caçador de marajás Fernando Collor de Mello, que confisca economias populares e deu no que deu. A bola da vez é o vice Itamar Franco, que governa o que resta sobre o fio da navalha. O Plano Real surge como fada madrinha e coroa Fernando Henrique Cardoso como presidente. FHC governa os quatro anos – generosamente ampliados para oito num movimento oportunista que permitiu o continuísmo, hoje, tão combatido e criticado.

[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]Para a sucessão de FHC, surge uma nova modalidade eleitoral, a do “tenho medo artístico” não surte os efeitos esperados. Lula, o operário, sindicalista e “analfabeto” é eleito. Como um mandacaru que resiste a seca, ele também resiste aos terremotos que abalaram os quatro primeiros anos de governo. Reeleito, seguindo as regras estabelecidas, navega, hoje, nas ondas dos recordes de popularidade e índice de aprovação ao seu governo.

Mas isto não tem sido suficiente para apagar a mácula da falta de formação acadêmica. Num Congresso Nacional em ruínas, passeiam intelectuais e possuidores de diplomas, que pelo visto não servem sequer, como enfeites de parede. Ao chamar o presidente de “analfabeto”, mesmo com voz melodiosa, Caetano Veloso, o faz de forma pejorativa e preconceituosa. Críticas feitas sob o véu da fama – mas artista pode tudo, né?

Outro fato recente foi o artigo do ex-presidente “doutor”, que num passado próximo pediu “esqueçam tudo que eu escrevi”, mas que volta ao cenário com sua pena em forma de baioneta “democrática intelectual” afiada, na tentativa de sangrar… Defensores da liberdade de expressão e de manifestação, afirmam que tais manifestações devem ser respeitadas. Sendo assim, não se espantem se o “analfabeto”, contra-atacar com o ditado árabe – Os cães ladram e a caravana passa. O que, certamente, seria considerado como mais um impropério presidencial.

¹ Hélio Chaves é analista de suporte da Infoglobo.

Artigo – O desconhecido Andreazza

A história, é necessária que seja registrada para que os mais novos não se achem como importantes, por feitos que têem raízes nas ações de grandes brasileiros. O Jornalista Carlos Chagas, ao prefaciar um livro sobre Mário Andreazza, revela um lado deste cidadão que os brasileiros, precisamos conhecer.

Carlos Chagas – Tribuna da Imprensa

Prefácio do jornalista Carlos Chagas para o livro sobre o ministro Mário David Andreazza, elaborado e editado pela família. Sem ser engenheiro, por haver optado pela Escola Militar das Agulhas Negras, mesmo depois de aprovado no vestibular para a Faculdade de Engenharia do Rio de Janeiro, Mário David Andreazza inscreve-se na relação dos maiores realizadores de obras públicas que o Brasil já teve, em toda a nossa História.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Importa pouco, neste prefácio, falar da ação do ministro dos Transportes e, depois, do ministro do Interior, nos anos em que o País mais se desenvolveu materialmente. Nos capítulos seguintes, o leitor encontrará provas e evidências das centenas de realizações responsáveis pela nossa inclusão no rol das nações que romperam o desenvolvimento atormentado da primeira metade do século XX para chegar à afirmação real de nossas potencialidades.

Da multiplicação da malha rodoviária que chegou ao asfaltamento da Belém-Brasília à implantação da Transamazônica, da Cuiabá-Santarém aos milhares de quilômetros retirados das pranchetas para o solo fértil do Sul e do Sudeste, essas foram apenas uma parcela do espírito criador do ministro. Reúnem-se à ponte Rio-Niterói e à recuperação das ferrovias desmanteladas nos anos anteriores à sua gestão.

Completam a mutação verificada nos portos e a solidificação da indústria naval, com a batalha naqueles idos vencida contra a exploração do transporte marítimo pelos abomináveis navios de terceira bandeira, que estrangulavam nossa economia. As hidrovias romperam território adentro através de um sadio nacionalismo gerado nos tempos em que, como instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, depois da Escola Superior de Guerra, comprovou na prática a teoria do apoio do Brasil nas próprias forças, antes que o deletério neoliberalismo nos envolvesse, como ainda hoje acontece.

Andreazza era nacionalista de verdade, sem necessidade de ser radical, mas é hora de nos afastarmos de um reconhecimento óbvio de sua capacidade administrativa e gerencial para mergulharmos no ser humano, razão destas linhas.

Ao contrário das primeiras impressões determinadas por seu otimismo e sua capacidade de gestor de obras, é preciso abrir espaço para alguém atormentado. Sua imagem de realizador conviveu, no íntimo, com a desconfiança permanente de chegar a bom termo em cada uma de suas iniciativas.

Transmitia aos auxiliares aquela característica dos grandes comandantes, mas, na intimidade, duvidava. Junto aos amigos mais chegados, buscava apoio, na véspera, para os passos a serem dados no dia seguinte. Apesar da certeza de estar no caminho correto, sofria diante das incompreensões previstas frente às barreiras que romperia com consciência.

Nenhum documento exprime com mais densidade esse sofrimento permanente, assim como sua determinação inflexível de seguir adiante, do que a carta reservada enviada ao secretário-geral do Ministério dos Transportes, logo depois de empossados os dois. Desconhece-se, até hoje, a reação do fidelíssimo coronel Rodrigo Ajace, diante de parágrafos como:

“(…) Administração é sobretudo coragem. Coragem de arriscar calculadamente e ficar indiferente aos medíocres enfurecidos que não perdoam o sucesso de ninguém. Até de ladrão seremos chamados.”

E depois: “Sofreremos muitas restrições, em particular de nossos colegas, e mais ainda dos generais que verão sempre em nós os meninos que há pouco se perfilavam e faziam continência. Poderão se transformar nos nossos maiores adversários. (…) Para começar, temos que passar por malucos. (…) Engolir sapos e trabalhar. Terminaremos nos impondo. Temos capacidade e imaginação. Lutaremos contra a vaidade. Sei que é difícil, mas venceremos a tentação, pois a vaidade gera ódio e sentimentos mesquinhos.”

Tudo isso foi escrito como preâmbulo para anunciar as primeiras metas: “A duplicação da Via Dutra, os estudos de viabilização da ponte Rio-Niterói, a navegação em decadência, a vergonha da Rede Ferroviária, o sistema portuário em decadência, o déficit cada vez maior na questão dos fretes marítimos, a desmoralização do DNER”…

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