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Milícia no Rio de Janeiro: como é a vida em Rio das Pedras, bairro dos suspeitos da morte de Marielle

Rio de janeiro,Milícia,polícia,Violência,Crimes,Homicídio,Marielle,Blog do MesquitaDireito de imagem AFP
Rio das Pedras foi uma das primeiras áreas da cidade a ser controlada por milícias

Quando deixou sua cidade no Nordeste, ainda jovem, rumo ao Rio de Janeiro, Zélia (nome fictício) sabia da fama de perigosa que a cidade carregava, mas tinha ouvido falar que o lugar onde se instalaria, Rio das Pedras, perto da Barra da Tijuca, na zona oeste, era mais calmo.

Sua fama de “favela tranquila” não se deve à ausência de violência, mas à imposição de certa ordem pela força e pelo medo, não do tráfico, mas da milícia, grupo armado violento formado por integrantes e ex-integrantes de forças de segurança do Estado, como policiais, bombeiros e agentes penitenciários.

Apesar de ser a terceira maior favela da cidade, atrás de Rocinha e Maré, Rio das Pedras não costumava frequentar o noticiário nacional como as outras duas, marcadas por disputas entre facções criminosas e entre criminosos e policiais.

Nos últimos meses, no entanto, Rio das Pedras vem se tornando mais conhecida. Em janeiro, o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio prenderam lideranças de uma milícia que atua ali, no bairro vizinho de Muzema e adjacências.

Investigações mostraram que Rio das Pedras é a sede do chamado Escritório do Crime, suposto grupo de extermínio formado por policiais reformados ou na ativa que pode ter sido responsável pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, que aconteceu em março de 2018 e até hoje, 11 meses depois, não foi esclarecido.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
A população de Rio das Pedras cresceu atraída pelas oportunidades que surgiam na região da Barra da Tijuca, bairro próximo

A polícia encontrou imagens que mostram o carro usado pelos assassinos passando por um via que margeia a favela.

Outro motivo que fez país voltar o olhar para o lugar é por sua aparente conexão com o poder. Segundo o jornal O Globo, Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) – filho do presidente Jair Bolsonaro – ficou abrigado ali após vir à tona que ele fora citado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) devido a uma movimentação atípica de valores em sua conta.

Em 2005, o filho do presidente homenageou o policial suspeito de integrar a milícia, Adriano Magalhães da Nóbrega, entregando a ele a medalha Tiradentes, uma honraria concedida pelo Estado do Rio a pessoas que prestaram bons serviços públicos. Alvo da operação policial deflagrada em janeiro, Nóbrega está foragido.

Como é morar em Rio das Pedras hoje

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Hoje é a terceira maior favela do Rio, segundo estimativa da Prefeitura com base no IBGE de 2010. Tem 63.484 moradores, boa parte deles de origem nordestina

Desde 1951, quando começou a ser ocupada, a favela de Rio das Pedras cresceu muito, e rapidamente, acompanhando o desenvolvimento da cidade na zona oeste. Seu nome se deve ao rio que a atravessa, que nasce na floresta e deságua na Lagoa da Tijuca.

No início, era ocupada por pescadores, diz Jorge Jáuregui, arquiteto responsável pelo projeto de urbanização Favela-Bairro, implementado (mas não concluído) na década de 1990.

Sua população, esparsa durante a década de 1960, foi aumentando atraída especialmente pelas oportunidades que surgiam na região da Barra da Tijuca, bairro próximo e que passou por um boom de construção civil nas décadas seguintes. Muita gente veio também de outras favelas, numa época em que o poder público adotava uma política de remoção, segundo dissertação de mestrado em arquitetura pela USP de Izabel Mendes.

Cresceu até se tornar a terceira maior favela do Rio, segundo estimativa da Prefeitura com base no IBGE de 2010. Tem 63.484 habitantes, boa parte deles de origem nordestina. Moradores contam que até hoje há um ônibus que faz semanalmente viagens de e para o Ceará direto do bairro.

A presença nordestina é perceptível em qualquer ponto do bairro, nos sotaques das pessoas, no forró das caixas de som. As ruas são agitadas.

Rio das PedrasDireito de imagem TÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL
‘Os moradores daqui têm uma cultura de trabalho muito forte, e isso faz com que haja muito comércio e muita atividade, 24 horas por dia’, diz uma moradora

Marta (nome fictício) veio de um Estado do Nordeste depois de se casar com um homem que já morava em Rio das Pedras. Célia (também nome fictício) veio ainda adolescente, deixando para trás uma vida de doméstica pela qual ganhava R$ 150 por mês.

Elas e outros moradores com quem a BBC News Brasil conversou dizem que sabem que a região é controlada por milicianos, que isso é comentado em conversas, mas não lidam diretamente com eles e não têm sua vida afetada por suas atividades.

“Às vezes a gente fica sabendo que alguém fez alguma coisa errada – roubou, vendeu droga, algo assim -, e aí essa pessoa some”, diz uma delas.

“Uma vez, era cedo de manhã, vi dois homens numa moto atirarem nos pés de outro homem que estava em pé em frente a um bar. Aqui é assim, eles avisam uma vez, duas vezes, na terceira te pegam”, diz outro morador. “Você leva uma vida tranquila, mas não pode fazer coisas que eles acham ruins. Acostumar, a gente não se acostuma, mas vive um dia após o outro.”

A violência lá é presente, mas mais velada do que em outras favelas, dizem.

“Não tem gente armada na entrada e nas ruas que nem em outros lugares. Se pudesse, me mudaria para um bairro melhor, mas tenho amigos que moram em favelas como a Rocinha e sei que a vida deles é mais difícil. Eles passam noites em claro ouvindo tiroteio, às vezes não sabem se podem sair de casa para o trabalho. Aqui pelo menos não tem isso.”

O que é a milícia e por que Rio das Pedras é considerado seu ‘berço’

Rio das PedrasDireito de imagem NATASHA MONTIER/GOVERNO DO ESTADO DO RIO
Moradores com quem a BBC News Brasil conversou dizem que sabem que a região é controlada por milicianos. ‘É um lugar mais tranquilo, mas às vezes some alguém que fez algo errado’

É comum ouvir que Rio das Pedras é o berço das milícias do Rio. Ainda que não seja possível afirmar isso categoricamente, é consenso entre pesquisadores que esses grupos têm décadas de atuação no bairro. O modelo de poder paralelo, à margem do estado mas com a participação de membros dele, hoje é forte principalmente na zona oeste da capital e na Baixada Fluminense.

“Estes grupos podem ter 20, 30 ou até 40 membros. São pessoas que de alguma forma têm acesso privilegiado a armas e bons contatos na polícia, o que lhes confere proteção. Eles ocupam uma área sob a justificativa de que proporcionarão a segurança que o Estado não é capaz de fornecer, deixam um grupo armado no local e partem para outras áreas para invadi-las”, diz Michel Misse, diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

As milícias têm como objetivo principal o lucro, obtido a princípio pela cobrança da proteção oferecida nestes locais.

“Eles chegam dizendo que trarão a paz, mas isso tem um preço, que é a taxa de segurança imposta a moradores e comerciantes. Quem se opõe, é morto. Depois, as milícias percebem que podem criar um negócio mais amplo e ampliam o portfólio de suas atividades”, explica o sociólogo José Cláudio de Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

O pesquisador diz que atualmente as milícias estão envolvidas na oferta de uma variedade de serviços, como venda de água, gás e cestas de alimentos, transporte clandestino, TV a cabo e internet piratas, roubo e refino de petróleo cru para fabricação de combustível, coleta de lixo e também na apropriação de terras públicas e privadas abandonadas ou sem uso, que são loteadas e vendidas ilegalmente.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
O pesquisador Ignacio Cano diz que as eleições lá acontecem da mesma maneira que em outros territórios controlados por grupos armados: “faz campanha quem eles (milicianos) querem”

No início, esses grupos não eram chamados de milícia, mas de “polícia mineira”.

“Num primeiro momento, surgiram grupos que são protótipos de milícia, associados a ocupações urbanas de terra, liderados por civis. Eles constroem relações com a população e elegem lideranças, sempre matando e fazendo o uso da violência. A partir dos anos 2000, o modelo atual, liderado por pessoas ligadas às forças de segurança, começa a emergir”, diz Alves.

Seguindo linha parecida com a de Alves, o sociólogo Ignacio Cano, que também pesquisou milícias no Rio, diz que o modelo era um pouco diferente do de hoje. “Havia nas polícias mineiras não só forças de segurança mas também líderes comunitários que não eram policiais.” Um exemplo de Rio das Pedras era Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, candidato da associação de moradores eleito vereador em 2004 e assassinado em 2009.

Quando começou a fazer pesquisa em Rio das Pedras, na década de 1990, Cano diz já havia um grupo que controlava o território.

O tipo de atividade era diferente naquela época. “Não ia na linha de pagamento de taxas por serviços, como hoje, era mais um controle imobiliário. Controlavam todas as transações – quem podia construir onde etc. Hoje é um modelo mais invasivo, que lucra a partir de qualquer coisa”, diz Cano.

Esses grupos, diz Cano, impunham medo e criavam certa estabilidade na região. Não deixavam que traficantes de drogas se estabelecessem e eram a principal autoridade local.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Em 2002 e 2003 a associação de moradores fez uma campanha de regularização e transferência de títulos eleitorais dos moradores de Rio das Pedras

“O Nadinho dizia, ‘aqui o povo vem do Nordeste, é um povo ordeiro, que não gosta de tráfico’. Eles impunham ordem, expulsavam o tráfico, diziam o que podia ou não fazer, havia um projeto moral – decidiam se podia ouvir certas letras de música ou não, coisas assim. Diretores de escola, quando não conseguiam ônibus para os alunos, iam falar com a milícia e eles providenciavam. Há depoimentos que mostram que, quando crianças estavam aprontando na escola, chamavam a milícia para mandar uma mensagem.”

Problema crescente

Cano diz que havia também certa condescendência do poder público em relação a esses grupos. “O Cesar Maia (ex-prefeito do Rio) dizia que eram um mal menor.”

Depois que funcionários do jornal O Dia foram torturados por milicianos, essa postura mudou. Entre 2006 e setembro deste ano, 1.709 pessoas foram presas por ligações com milícias, e os milicianos foram obrigados a adotar um perfil mais discreto, diz Cano.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Entre 1998 e 2002, a Prefeitura implementou, mas não concluiu, projeto de urbanização de Rio das Pedras

Alves acha que o fortalecimento da milícia em Rio das Pedras tem a ver com o acelerado crescimento populacional da favela e a demanda por terras.

“É uma comunidade que se expande muito rápido, tem um mercado imobiliário pujante. A milícia tem acesso ao mapa da região e começa a ver onde pode montar negócios, ocupar o solo urbano, é um grande negócio.”

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Políticos foram, por muitos anos, condescendentes com a milícia, dizendo que ela era um ‘mal menor’ do que o tráfico

Segundo o estudo Favelas Sob o Controle das Milícias no Rio de Janeiro, de Alba Zaluar e Isabel Siqueira Conceição, em 2002 e 2003 a associação de moradores fez uma campanha de regularização e transferência de títulos eleitorais dos moradores de Rio das Pedras, já que boa parte deles vinha do Nordeste. A intenção era eleger Nadinho, o que deu certo.

O estudo sugere que teria sido a partir daí que começou “a grande expansão da milícia”. Elas assumiram controle territorial em outros bairros, às vezes tomando-os de traficantes. Também foi a partir de então que entraram de vez para a política – outras favelas dominadas por milícias começaram a eleger representantes para o Legislativo da cidade e do Estado.

Cano diz que as eleições lá acontecem da mesma maneira que em outros territórios controlados por grupos armados: “faz campanha quem eles (milicianos) querem”.

*Colaborou Rafael Barifouse

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O elo entre Flávio Bolsonaro e a milícia investigada pela morte de Marielle

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Flávio Bolsonaro ao lado do pai. FOTO WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL

Flávio Bolsonaro e caso Fabrício Queiroz
Operação Intocáveis busca miliciano que tinha mãe e mulher lotadas no gabinete do então deputado estadual. Filho de presidente diz que nomeações foram feitas por Queiroz, que confirmou informação

Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega. As duas mulheres são o elo entre o senador eleito Flávio Bolsonaro e o grupo miliciano Escritório do Crime, um dos mais poderosos do Rio.

O grupo é também suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Segundo o jornal O Globo, Raimunda e Danielle são, respectivamente, mãe e mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, vulgo Gordinho, tido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das lideranças do Escritório do Crime. As duas foram lotadas no gabinete do então deputado estadual Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, mas o filho do presidente diz não ter sido responsável pelas nomeações.

Adriano, que está foragido, foi um dos alvos da Operação Intocáveis, realizada nesta terça-feira por uma força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público. Foram presos cinco suspeitos de integrar a milícia que agia nas comunidades de Rio das Pedras e Muzema. Além do suposto envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson, o grupo é acusado de extorsão de moradores e comerciantes, agiotagem, pagamento de propina e grilagem de terras.

Entre os detidos esta o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, vulgo Tartaruga, que irá a júri popular no caso da chacina da Via Show, ocorrida em 2003. Apesar disso, em 2004 o deputado Flávio Bolsonaro propôs uma “menção de louvor e congratulações” ao então capitão Pereira. Adriano também foi homenageado. Tanto Ronald como Adriano foram ouvidos em 2018 pela Delegacia de Homicídios como parte das investigações caso Marielle.

Apesar do foco da ação desta terça ser o combate às milícias, a operação deve desgastar ainda mais o primogênito do clã Bolsonaro no caso Queiroz. Isso porque, além do parentesco com um suspeito do envolvimento na morte de Marielle e Anderson, Raimunda é mencionada no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras como sendo responsável por parte dos depósitos feitos na conta do ex-motorista Fabrício Queiroz. Ela e Danielle foram exoneradas do gabinete de Flávio em 13 de novembro, segundo consta no Diário Oficial.

Em nota, Flávio afirmou ser “vítima de uma campanha difamatória com o objetivo de atingir o Governo de Jair Bolsonaro”. Segundo ele, “a funcionária que aparece no relatório do Coaf foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz”.

De acordo com o senador, ele não pode “ser responsabilizado por atos que desconheço”. Horas depois, o próprio Queiroz confirmou, por meio de nota divulgada por sua defesa, que veio dele a indicação para a contratação, um ato de solidariedade com a família, “que passava por grande dificuldade, pois à época ele [Adriano Nóbrega] estava injustamente preso, em razão de um auto de resistência”.

Não é a primeira vez que o clã Bolsonaro se vê envolvido na discussão sobre milícias. Em 2008, época em que ainda era deputado federal, Jair chegou a defender a atuação destes grupos criminosos no plenário da Câmara. “Existe miliciano que não tem nada a ver com ‘gatonet’ e venda de gás. Como ele ganha 850 reais por mês, que é quanto ganha um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade”, afirmou. Em outra ocasião, naquele mesmo ano, o capitão da reserva foi ainda mais direto: “Elas oferecem segurança e, desta forma, conseguem manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas”.

Queiroz é citado no relatório do COAF após ter sido identificada uma movimentação atípica no valor de 1,2 milhão de reais em sua conta entre 2016 e 2017, valor incompatível com seus vencimentos de assessor parlamentar segundo o órgão. De acordo com ele, o valor seria fruto de operações de compra e venda de carros usados. Depois que o caso veio à tona, o ex-motorista de Flávio desapareceu. Segundo o colunista do Globo, Lauro Jardim, ele ficou abrigado por duas semanas em uma casa na comunidade Rio das Pedras, onde a milícia alvo da Operação Intocáveis agia.

Nos últimos dias documentos do COAF divulgados pelo Jornal Nacional apontam que Flávio realizou um pagamento milionário de título bancário, além de ter recebido 96.000 reais pagos em espécie, em vários depósitos de 2.000 reais. Ele afirma que o título é referente ao pagamento de um imóvel adquirido na planta, e que os depósitos são fruto da venda de um apartamento – o comprador, Flávio Guerra, confirma a compra. Segundo ele, a opção por realizar vários depósitos no caixa eletrônico foi feita para evitar “pegar fila” na agência bancária.
ElPais/GilAlessi

A execução da vereadora e do seu motorista foi um recado para o xerife do Rio de Janeiro

Por conta da intervenção das Forças Armadas, hoje o Rio de Janeiro é o pedaço do Brasil mais vigiado e guarnecido.

A vereadora virou alvo por defender os interesses dos favelados. (Foto: Mídia Ninja/Creative Commons)

Por que, dentro de um ambiente desses, uma organização criminosa iria fazer um acerto de contas com a vereadora Marielle Franco (PSOL)? Mais ainda: a ação da vereadora, denunciando as arbitrariedades policiais contra os favelados, vem desde 2013. A execução da parlamentar e do seu motorista Anderson Pedro Gomes traz uma mensagem muito clara: alguém está avisando que ainda manda no Rio Janeiro. E esse nome só irá surgir no final dessa investigação. Por conta da pressão popular e do número de agentes disponíveis, equipamentos e informações dos serviços de inteligência, a investigação está caminhando bem. A maneira como foi feita a execução e os vestígios deixados na cena do crime apontam na direção de que os assassinos eram profissionais.

E o estilo da execução lembra os milicianos — gangues de policiais militares que disputam território com os traficantes nas favelas. Há ainda outros dois grupos que usam um estilo semelhante: Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. A favor dessas organizações, existe o fato que, sempre que as Forças Armadas ocupam o Rio de Janeiro, e foram muitas vezes na última década, elas não vão para o enfrentamento porque sabem que a ocupação é por tempo limitado. A briga não vale a pena. Esperam as tropas saírem e voltam aos seus negócios. Tem sido assim nos últimos anos. Portanto, é real a possibilidade de que o grupo que executou a vereadora e o seu motorista ter sido formado apenas para fazer “a parada”, usando o jargão dos matadores de aluguel para definir a situação.

Quem apertou o gatilho a polícia vai descobrir. Nós, repórteres, podemos avançar nos lugares escuros desse episódio em busca de pistas de quem é esse alguém que está mandando o aviso de que ainda manda no Rio de Janeiro. Primeiro, é uma pessoa que sabe o que significa o Rio de Janeiro. Um lugar que, por conta de suas belezas naturais, seus poetas, botecos e o carnaval, é um endereço conhecido no mundo. Qualquer coisa que acontece lá é notícia mundial. A intervenção federal foi noticia ao redor do mundo. Aqui é o seguinte. Até o governo do presidente da República Michel Temer (MDB – SP) decretar intervenção federal no Rio, ele era coadjuvante no combate da violência. A intervenção o tornou o ator principal, ou usando o jargão das redações, puxou a bronca para o seu colo. Quem é o governo Temer? Ele é formado por um grupo político que está envolvido em vários escândalos de corrupção, há vasta documentação na Operação Lava Jato. É um fato importante. Na medida em que o grupo foi se consolidando no poder, ele vai se livrando de antigos aliados que são abandonados à própria sorte. Muitos deles foram presos e estão encarcerados no sistema penitenciário.

A execução da vereadora é um recado muito claro para Temer: ele manda no Brasil, não no Rio de Janeiro. Aqui quero refletir com os meus colegas repórteres calejados e os novatos. Até agora, as execuções do Rio de Janeiro têm seguido um roteiro conhecido. Elas acontecem por vingança, queima de arquivo ou briga por território. O caso da vereadora e do seu motorista tem vestígios do que pode ter acontecido por motivos diferentes. Nos últimos 40 anos, tenho trabalhado com reportagem investigativa e aprendi que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. O certo é que a pouca credibilidade que resta ao governo federal pode ir para o espaço com o caso da vereadora. A intervenção tornou Temer o xerife do Rio de Janeiro, o responsável pela segurança. E também criou a oportunidade para a execução da vereadora que devido ao seu trabalho sempre foi um alvo das gangues infiltradas na polícia militar.

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Carlos Wagner é jornalista, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, entre eles “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017.