Nicolau Maquiavel,Filosofia,blog do Mesquita

Maquiavel – Conquista e governação

Conquista e GovernaçãoNicolau Maquiavel,Filosofia,blog do Mesquita

Quando os estados que se conquistam têm a tradição de viver segundo as suas leis e em liberdade, para a sua conservação existem três opções: a primeira é a sua destruição; a segunda é ir para lá viver o príncipe conquistador; e a terceira consiste em deixá-los viver de acordo com as suas leis, mas exigindo-lhes um tributo e criando no seu seio uma oligarquia que vos garanta a sua fidelidade. Porque, sendo este novo poder uma criação daquele príncipe, sabem os seus mandatários que não podem sobreviver sem a sua amizade e apoio, tudo havendo de fazer para manter o novo regime. E mais facilmente se conserva uma cidade habituada a viver livre através do consenso dos seus cidadãos do que de qualquer outro modo.

(…) Na verdade, o único modo seguro de conservar uma cidade conquistada é a sua destruição. Quem se torna senhor de uma cidade habituada a viver livre e a não desfaça, pode preparar-se para ser por ela desfeito, porque sempre encontrarão grande receptividade no seio da rebelião a recordação da liberdade e das antigas instituições, as quais nem pela ação do tempo nem pela concessão de benesses se apagarão da sua memória. O que quer que se faça ou se disponha, se não se dividirem e dispersarem os habitantes, fará reviver a ideia de liberdade e a antiga ordem, pois logo as evocam a cada incidente que ocorra. (…)

No entanto, quando as cidades estão acostumadas a viver sob o domínio de um príncipe e o seu sangue tenha sido extinto, verifica-se que os habitantes – habituados a obedecer, não existindo mais o antigo príncipe nem logrando um acordo para escolher outro – não sabem viver em liberdade, de modo que são mais demorados a pegar em armas, pelo que um príncipe mais facilmente os conseguirá aliciar e conquistar a sua confiança. Mas nas repúblicas há mais vitalidade, mais ódio, mais desejo de vingança, o que não permitirá que os seus cidadãos apaguem a memória da antiga liberdade. De modo que a maneira mais segura de as dominar é destruí-las ou ir para lá residir.

Nicolo Maquiavel, in ‘O Príncipe’

A presença eterna de Maquiavel

Foto Info/Abril
Foto Info/Abril

O artigo “Florença e os Drones”, do colunista David Brooks (New York Times) demonstra a importância do estudo da Filosofia e do pensamento de seus mais importantes formuladores, notadamente do renascentista Maquiavel.

O jornalista participa de um Curso denominado Grande Estratégia na Universidade de Yale. Todos são obrigados a ler Péricles, Sun Tzu e Maquiavel. Depois debatem as ideias dos pensadores focados nos fatos que atormentam o mundo global, especialmente a onda terrorista que abateu a América em 2001 com a destruição das torres gêmeas.

David Brooks parece fascinado pelas ideias do florentino Nicolau Maquiavel, ao discorrer sobre o amor que ele tinha por Florença, seu viés moralista e principalmente sobre a visão dos defeitos do homem, os quais, segundo ele, são geralmente brutos, ingratos, volúveis, dissimulados, cruéis, covardes, invejosos, ávidos por lucros, e quando a oportunidade aparece praticam maldades sem fim, agravadas quando estão em grupos.

Sobre o Poder, Maquiavel entendia que o governante deveria ser bom, caridoso, benevolente, editar pacotes do bem, no entanto se contradiz ao afirmar que nem sempre isso é possível no mundo da realidade fática, pela simples razão de que, para manter a ordem na sociedade e derrotar a oposição anárquica e feroz, o líder virtuoso tem que praticar medidas duras, calcadas nos maus atos, que invariavelmente produzem bons resultados. E que o governante deve se aliar as massas como antídoto contra a aristocracia empresarial. Tudo pelo amor pelo povo, que deve vir na frente de seu próprio amor.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O ápice da esperteza política se insere na afirmação maquiavélica de que o bem deve ser concedido à conta gotas, enquanto o mal deve ser praticado prontamente e de uma única vez. Lembrem-se da frase: Só tenho uma bala na agulha.

Paralelo

Brooks traça um paralelo entre a Florença do século 16, os ancestrais que criaram a América em meio a conflitos e guerras entre o Norte e o Sul e os Estados Unidos de hoje. Neste aspecto da segurança dos americanos e na guerra ao terror é que entram os drones (aviões não tripulado e altamente letais contra os inimigos). O governante fica diante da opção maquiavélica dos fins que justificam os meios. Ao utilizar uma arma que mata terrorista, mas por falta de precisão cirúrgica atinge e mata também pessoas inocentes em hospitais e as crianças nas escolas, sob a ótica de que assim agindo, estará protegendo a sociedade americana.

Barack Obama mergulhou no mundo maquiavélico ao ser eleito presidente, autorizando os bombardeios dos drones no Afeganistão, no Paquistão, no Sudão ou onde houver células de grupos terroristas que ameacem os cidadãos americanos. Para o público interno, Obama afirma que os aviões tem matado menos inocentes, do que se fossem ataques terrestres com tropas da Infantaria, mas faltam relatórios independentes que comprovem os fatos narrados.

O mais importante do arrazoado de Brooks se traduz na transcrição de que os fundadores da América, ao obterem a percepção de que os homens são venais e não confiáveis como qualquer outra pessoa comum, montaram um sistema constitucional de freios e contrapesos de modo a impedir a hegemonia de grupos ou partidos políticos.

E aqui no Brasil?

Enquanto os americanos estudam estratégia lendo e debatendo sobre os pensadores gregos, chineses, italianos e os grandes líderes mundiais, nós brasileiros vamos levando, que aqui tem samba, carnaval e futebol, big brother e novelas sem fim.

O Instituto Superior de Altos Estudos Brasileiros, que ensinava estratégica para um Brasil grande, que tinha sua sede na Rua do Pasmado em Botafogo/RJ, em um ato de insanidade somado a burrice congênita e adquirida, agravada pela de falta de amor pelo Brasil, foi fechado, em um dos primeiros atos do governo militar, nos primeiros dias de abril.

Seu presidente, Roland Corbisier, o maior filósofo do Brasil foi cassado sumariamente. Uma pena. Poderíamos estar em melhores condições no cenário mundial, se não tivessem sido cassados as nossas maiores inteligências.

Que fazer?
Por: Roberto Nascimento/Tribuna da Imprensa

Bento XVI, Richelieu e Maquiavel

Religiões Inquisição Blog do MesquitaFoi eleito para impedir reformistas.

Desfez cientificamente os poucos ‘avanços’ que João Paulo II conseguiu.

Morto, Herr Ratzinger, não poderia interferir na eleição do sucessor, que poderia vir a ser um reformista.

Aposentado, mas, mais vivo que nunca, irá ser tal e qual um Richelieu redivivo, a eminência parda que decidirá quem será eleito sucessor.

Outro conservador, claro. Maquiavel ainda é aprendiz.
Nada se move, em nenhum aspecto de nenhuma instância de poder, que seja de forma aleatória e/ou casual.

“Entre a notícia e o boato, a diferença é que a notícia pode ser forjada.”
Teodoro Wanke


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Economia: Dona Europa e suas duas filhas

Dona Europa puxou o tapete dos nobres, deu um chega pra lá no papa e elegeu governos constitucionais que trocaram a permuta pela moeda, evitaram fazer uso de mão de obra escrava, transformaram antigos camponeses em operários merecedores de salários.

Dona Europa passou a nutrir ambições desmedidas. Fitou com olho gordo o imenso mapa-múndi que enfeitava a sala de sua casa. Quantas riquezas naquelas terras habitadas por nativos ignorantes! Quantas áreas cultiváveis cobertas pela exuberância paradisíaca da natureza!

Dona Europa lançou ao mar sua frota em busca de ricas prendas situadas em terras alheias. Os navegantes invadiram territórios, saquearam aldeias, disseminaram epidemias, extraíram minerais preciosos, estenderam cercas onde tudo, até então, era de uso comum.

Dona Europa praticou, em outros povos, o que se negava a fazer na própria casa: impôs impérios, reinados e ditadores; inibiu o acesso à cultura letrada; implantou o trabalho escravo; proibiu a industrialização; internacionalizou normas econômicas que lhe eram favoráveis, em detrimento dos povos alhures.

Um dos povos de além-mar dominados por Dona Europa ousou rebelar-se em 1776, emancipou-se da tutela e se tornou mais poderoso do que ela – o Tio Sam.

O professor Maquiavel ensinou à Dona Europa que, quando não se pode vencer o inimigo, é melhor aliar-se a ele. Assim, ela associou-se a Tio Sam para exercer domínio sobre o mundo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Dona Europa e Tio Sam acumularam tão espantosa riqueza, que cederam à ilusão de que seriam eternos o luxo e a ostentação em que viviam. Tudo em suas casas era maravilhoso. E suas moedas reluziam acima de todas as outras.

Ora, não há casa sem alicerce, árvore sem raiz, riqueza sem lastro. Para manter o estilo de vida a que se acostumaram, Dona Europa e Tio Sam gastavam mais do que podiam. E, de repente, constataram que se encontravam esmagados sob dívidas astronômicas. O que fazer?

A primeira medida foi a adotada em turbulência de viagem de avião: apertar os cintos. Não deles, óbvio. Mas de seus empregados: despediram alguns, reduziram, os salários de outros, deixaram de consumir produtos importados. Assim, a crise da dupla se alastrou mundo afora.

Dona Europa e Tio Sam não são burros. Sabem onde mora o dinheiro: nos bancos. Tio Sam, ao ver o rombo em sua economia, tratou de rodar a maquininha da Casa da Moeda e socorreu os bancos com pelo menos US$ 18 trilhões.

Dona Europa tem várias filhas. Segundo ela, algumas não souberam administrar bem suas fortunas. A formosa Grécia parece ter perdido a sabedoria. Gastou muito mais do que podia. Os mesmo aconteceu com a sedutora Itália, a encantadora Espanha e a inibida Irlanda.

Como o cofre da família é de uso comum, Dona Europa se cobriu de aflições. Puniu as filhas gastadoras e apelou à mais rica de todas, a severa Alemanha, para ajudá-la a socorrer as endividadas.

A Alemanha é manhosa. Disse que só socorre as irmãs se puder controlar os gastos delas. O que significa cortar as asinhas das moças – o que em política equivale a anular a soberania.

Soberana hoje, na casa de Dona Europa, só a pudica Alemanha. O resto da família é dependente e está de castigo. A mais cheirosa das filhas, a França, anda rebelde. Após aparecer de mãos dadas com a Alemanha, agora que arrumou namorado novo encara a irmã com desconfiança.

Nós, aqui do sul do mundo, que ainda não cortamos o cordão umbilical com Tio Sam e Dona Europa, corremos o risco de ficar gripados se Dona Europa continuar a espirrar tanto, alérgica ao espectro de um futuro tenebroso: a agonia e morte do deus Mercado, cujos fiéis devotos mergulharam em profunda crise de descrença.
por Frei Beto 

Federalismo brasileiro é só para inglês ver

Montesquieu ensinou o modo pelo qual os estados modernos poderiam praticar a democracia, mas advertiu: ela só era viável em países de reduzidas dimensões. Os EUA contornaram o óbice, dividindo-se em vários estados, unidos.

O filósofo francês Gabriel Bonnot de Mably (cit. Bobbio, 1987: 103) reconheceu de imediato a eficácia da solução em “Observações sobre o Governo e as Leis dos Estados Unidos da América” (1784): “Somente através da união federativa a república, que durante séculos após o fim da república romana foi considerada uma forma de governo adequada aos pequenos Estados, pode tornar-se a forma de governo de um grande Estado como os Estados Unidos da América.”[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Os norteamericanos retalharam o poder, intrínseca e espacialmente, relacionando-o num sistema de terminologia mecânica – “freios e contrapesos” – porém não estanques, e sim desse modo relativizados, ensejando combinações equilibradas e impedindo o crescimento de qualquer hegemonia, para completa admiração do historiador francês Alexis de Tocqueville:

“Vejam com que arte, na comuna americana, tomou-se o cuidado, se assim posso me exprimir, de espalhar o poder, a fim de interessar mais gente pela coisa pública. O poder administrativo nos Estados Unidos não oferece em sua constituição nada central nem hierárquico; é isso que o faz não ser percebido. O poder existe, mas não se sabe onde encontrar seu representante.”

O notável cientista político e senador italiano Norberto Bobbio neste ponto também foi enfático. “O federalismo é o princípio mais profundamente inovador da era contemporânea… Quando se diz que o federalismo marca o rumo da história contemporânea, no sentido de uma efetiva ação de liberdade, significa dizer que o federalismo executa, no âmbito da sociedade civil, o acordo entre o poder central e os grupos periféricos, com um maior respeito às autonomias das partes individuais do que se refere ao todo, e com um menor fortalecimento do todo no que se refere às partes, levando-se em conta o que ocorreu nos sistemas históricos até aqui conhecidos.”

D.Pedro II nos USA

Dom Pedro II viajou a Washington, de lá trazendo a fórmula completa, mas o golpe militar fez o país se prostrar de joelhos à nova “classe política”. Na geração seguinte, coube a Getúlio a extrema-unção do federalismo, queimando as bandeiras estaduais. E a Revolução de 64 colocou a pá-de-cal no regime que permitiu aos colonos do Mayflower o impressionante desenvolvimento. A Constituição de 88 aperfeiçou a tolice, ao gáudio dos incontáveis mensaleiros.

O Brasil sempre se mostrou federativo apenas “para inglês ver”. Nenhum político tem fito de repartir o poder. E quanto mais competente, quanto mais forte sua vontade de poder, menor o apreço ele tem à liberdade. A negação total do valor da liberdade, a maximinização do domínio – eis ai a idéia de autocracia e o princípio do absolutismo político – o poder do Estado concentrado em um único indivíduo, caso do Príncipe, de Maquiavel, ou num grupo, caso do Príncipe, de Gramsci.

A implementação do regime federativo somente será possível através de completa reformulação constitucional, iniciativa impossível de ocorrer por parte do Congresso, ou do Executivo. Significa retirar o poder da impostura, devolvendo ao povo o que lhe pertence. Ela, naturalmente, jamais concordará.

Para mim, existe apenas uma chance quase insignificante à reversão. Ela passa pela conscietização dos governadores, já comprovados alienados ao desdenharem, e até condenarem à heróica atuação de Itamar Franco. S. Exas. preferem deixar que a riqueza produzida em seus territórios seja surrupiada ao centro, onde repartem o gigantesco butim.
Cesar Ramos/Tribuna da Imprensa