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A guerra das culturas

Curitiba, apoiadores de Jair Bolsonaro arrancaram uma faixa com os dizeres Em Defesa da Educação da fachada da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Centenas de pessoas aplaudiram.

Ficou evidente que o Brasil vive uma guerra de culturas. As forças do obscurantismo estão atacando o iluminismo. Este mês, duas grandes manifestações levaram milhões de brasileiros às ruas. Elas não poderiam ter sido mais distintas.

Da primeira, participaram sobretudo pessoas jovens, que protestaram pela educação, há duas semanas. Eram negras e brancas e tudo o que há no meio. São o Brasil do futuro. E é por esse futuro que lutam. Porque, se há algo com que se pode solucionar quase todos os outros problemas do Brasil, é a educação.

Através dela, é possível conter as pragas da violência, da desigualdade, da destruição ambiental e da corrupção. Para fazer mudanças no Brasil, seria preciso começar por aí. Os verdadeiros patriotas, portanto, são os estudantes do ensino médio e universitários que vão às ruas contra os cortes do governo.

Também está claro o motivo pelo qual muitos brasileiros são contra a educação para todos. Esses participaram da outra manifestação outra manifestação, que aconteceu no último domingo (26/05), com o intento de apoiar o presidente Bolsonaro, cujo governo está ameaçado de acabar em fiasco. Mas os fãs dele só veem o que querem ver. Em vez de um homem medíocre, misantropo, intelectualmente e moralmente fraco, eles reconhecem um “mito”. Nos atos, houve até quem dissesse que Bolsonaro foi enviado por Deus. Que Deus cruel.

O ideal do movimento bolsonarista é um país no qual os papéis sociais (e sexuais) são claramente distribuídos. É um país onde há uma nítida definição de quem fica em cima e de quem fica embaixo. São os próprios apoiadores brancos de Bolsonaro que tiram proveito dessa desigualdade. Primeiro, por meio da legião de trabalhadores baratos e sem formação. E segunda, porque a existência dos pobres faz eles se sentirem superiores.

É assim que devem ser interpretadas as fotos sarcásticas tiradas com sem-teto pelos manifestantes. Eles lucram com as estruturas antigas do feudalismo, que ainda existem no Brasil e que só podem ser rompidas com a educação. Por isso, qualquer esforço de criar igualdade de oportunidades é chamado por eles de “socialismo”.

O conflito entre o pensamento esclarecido e o antiesclarecimento fica mais evidente quando se trata de religião e racionalidade. A questão fundamental se debruça sobre o que deve ter mais influência nas decisões políticas. Nas sociedades modernas, a resposta costuma ser: a razão. Os novos direitistas brasileiros acham que isso está errado – desde Olavo de Carvalho, o ideólogo do antiesclarecimento, passando pelos ministros Damares Alves e Ernesto Araújo, até o próprio presidente (“Deus acima de todos”).

Eles confundem sua fé com conhecimento. Por isso, desprezam o conhecimento dos outros e a ciência, que é complexa e cheia de nuances. Assim, pode-se explicar o fato de Bolsonaro acusar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de disseminar “fake news” – apesar de ele não ser um especialista em estatística. A ministra da Família, Damares Alves, afirma que a Teoria da Evolução é errada – mas não tem noção de biologia. E o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, acha que as mudanças climáticas não estão acontecendo – contra o consenso de pesquisadores no mundo todo.

Enquanto isso, nas ruas, os direitistas pedem “o fim de Paulo Freire”, que nunca leram. Esse desprezo por intelectuais e cientistas é uma característica fundamental de regimes autoritários. É ela, na verdade, que está por trás dos contingenciamentos financeiros na área da educação.

O cenário combina com a notícia de que o Brasil entrou para o grupo de 24 países no mundo que vivem uma “erosão” em suas democracias. A avaliação é do Instituto V-Dem (Varieties of Democracy, ou Variedades da Democracia), da Universidade de Gotemburgo, que tem o maior banco de dados sobre democracias no mundo. O Brasil, segundo os especialistas, está sendo afetado severamente por uma onda de autocratização.

Será que as pessoas que aplaudiram quando a faixa a favor da educação foi arrancada em Curitiba aplaudiriam amanhã, se os livros de Paulo Freire, Jorge Amado e Chico Buarque fossem queimados? Temo que a resposta seja “sim”. Essas pessoas acreditam que sua ignorância vale mais do que o conhecimento dos outros. O Brasil está num caminho escuro e perigoso.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

342agora.org.br – O movimento virtual para afastar Temer

342 Agora, o movimento virtual contra Temer que sonha em acordar as ruas342 Agora, o movimento virtual contra Temer que sonha em acordar as ruas

Mobilização de artistas faz campanha para pressionar deputados a aceitar denúncia. Pressão popular ainda não é significativa para votação decisiva, que ficou para agosto.

Antes mesmo da vitória do presidente Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara na última quinta-feira, um grupo de artistas já mirava o passo seguinte: a votação no plenário da Casa, onde 342 votos são necessários para que a denúncia de corrupção contra Temer seja aceita, e de fato o Supremo Tribunal Federal possa decidir ou não tirar-lhe do cargo. Nas redes sociais, o movimento 342.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Agora, liderado por vários artistas, tenta furar a polarização ideológica PT e anti-PT e reavivar uma mobilização que ainda não existe nas ruas, apesar da baixíssima aprovação popular do presidente. Fazem parte do movimento, por exemplo, tanto o ator Marcelo Serrado, que se posicionou a favor do impeachment de Dilma Rousseff e fez campanhas na rede no ano passado pela sua queda, como o músico Tico Santa Cruz, identificado com a esquerda, e que na ocasião buscou denunciar “um golpe” e pede por “Diretas já”. Mas tem também Caetano Veloso, Marisa Monte, e outros famosos globais, como Adriana Esteves, ou Fabio Assunção.

O “Fora, Temer” virou o ponto de concordância que tenta fazer ebulição até 2 de agosto, para quando está marcada a votação decisiva. “Sempre que os artistas se mobilizam, a repercussão nas redes é grande. Mas a Internet, apesar de conseguir cultivar uma ideia entre a audiência, não é capaz por si só de transformar isso em manifestações de rua”, diz Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório de estudos sobre Internet e Cultura (LABIC). “Nem direita e nem esquerda conseguem dialogar com conjunto da população, que nega esse sistema político. Por isso há esvaziamento nas ruas. A população não quer fazer papel de isca, de bobo, e legitimar candidato A ou B. Sabe que em determinada manifestação podem pedir a volta do Lula ou querer entregar o poder para outra pessoa”.

Os artistas começaram a se unir em torno do “Fora, Temer” no final de maio, quando muitos deles se apresentaram na praia de Copacabana e pediram por “Diretas Já”. Depois, houve também ato em São Paulo. Paula Lavigne – dona da Uns Produções e Filmes, que gerencia a carreira de Caetano Veloso e Teresa Cristina, entre outros – transformou seu apartamento em uma espécie de QG das “Diretas Já”, num movimento ao que também se engajaram o deputado Alessandro Molon (REDE), o senador Randolfe Rodrigues (REDE) e o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Lavigne chegou a dizer que o encontro foi feito para “acima de tudo para sinalizar a sociedade que precisamos deixar esse racha ideológico de lado e voltarmos a conversar de forma respeitosa para pensamento junto o Brasil que queremos”.

Apesar da natureza pretensamente supraideológica, foram os movimentos mais à esquerda que abraçaram a mobilização. Ao entrar no site 342agora.org.br, criado pela Mídia Ninja, um órgão claramente alinhado à esquerda, o usuário se depara com o placar dos deputados que são a favor da investigação, que são contra e que estão indecisos. Algo semelhante havia sido feito durante o impeachment por grupos à direita. Clicando no nome do parlamentar é possível enviar mensagens para ele ou ela através do e-mail, Facebook, Twitter, entre outros canais. No site estão dezenas de pequenos vídeos nos quais os artistas pedem: “Vamos pressionar para que os deputados aceitem a denúncia contra Temer”. Caetano Veloso, Glória Pires, Martinho da Vila, Karol Conka, Wagner Moura, Criolo, Adriana Esteves e Maria Padilha são alguns dos muitos que deixaram suas mensagens.

Segundo postou a empresária Paula Lavigne, articuladora do movimento e companheira de Caetano Veloso, nas primeiras três horas online o site teve 250.000 acessos, 500.000 e-mails enviados a congressistas e um alcance de 10 milhões de usuários. Malini, do LABIC, explica não ser possível medir o desempenho no Instagram, onde os artistas costumam ter muita mais influência. Uma postagem de Marisa Monte sobre o 342 Agora teve, por exemplo, 8.011 curtidas até 17h40 desta quarta-feira. “Os artistas chegam à públicos que os movimentos não chegaram. Geralmente, muitos dos que seguem as celebridades não são apegados a temas políticos e estão fora a bolha ideológica”, argumenta Malini.

Tudo isso ocorre em um momento no qual Temer balança no cargo, com o PSDB dando sinais de que vai sair da base do Governo e classe política se reunindo em torno da figura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Também em um contexto de “aquecimento da esquerda, algo que inclusive o Datafolha reflete”, segundo Malini. A direita, explica o especialista, vem se mobilizando menos nas redes e o único tema que mais figura nas redes é “Bolsonaro 2018”. “A esquerda ainda tem uma hegemonia do PT, mas não tem a característica de criar uma central de mobilização nas redes sociais. Os movimentos da esquerda e as pautas são muito diversificadas, e a capacidade de influência é policentrada. Já a direita busca se afirmar como ser direita, algo muito novo. É uma relação é diferente. O MBL [Movimento Brasil Livre] e o Vem pra Rua têm hoje características de partido político”, explica o pesquisador sobre ciências de dados.

Uma análise dos movimentos pró-impeachment

Os movimentos que pediram pela queda de Dilma Rousseff tiveram uma queda de audiência e/ou mudaram de perfil. No dia 10 de abril de 2016, uma semana antes da Câmara autorizar a abertura do processo de impeachment, o Vem Pra Rua fez 10 postagens no Facebook que resultaram em 160.133 curtidas e 111.057 compartilhamentos. Em dia 11 de julho de 2017, quando a Câmara discute o caso de Temer e está prestes a definir seu destino, o grupo fez 17 posts que conseguiram 24.002 curtidas e 9.558 compartilhamentos. Os dados também são do LABIC de Malini, que contextualiza: “O Vem Pra Rua aumentou seu volume de publicações, mas desidratou de público. A manifestação que agendaram para o dia 28 muito dificilmente vai emplacar”. Em entrevista ao EL PAÍS, Rogério Chequer, principal liderança do Vem Pra Rua, defendeu a saída de Temer e uma transição rápida que não interfira não interferir na economia – que, para ele, vem sendo bem conduzida pelo presidente.

Com relação ao MBL, os dados são contraditórios. O especialista em redes explica que o grupo vem tendo “um crescimento incrível, atraindo mais pessoas para sua página”, mas os números também apontam para uma queda (menor que a do Vem Pra Rua): no dia 10 de abril de 2016, o grupo fez 21 posts, conseguindo 203.065 curtidas e 113.216 compartilhamentos; no dia 11 de julho de 2017, foram 69 posts, 172.661 curtidas e 77.510 compartilhamentos. Malini explica que o “MBL raramente pauta a questão do Temer, optando por uma ação mais institucional, ligada ao João Doria [prefeito de São Paulo] e a uma audiência antipetista”. O grupo, diz, “perdeu o apelo da mobilização de rua e virou um movimento institucional com uma base de eleitores”.

O especialista é taxativo sobre o que ainda une coletivos que pediram pela queda de Rousseff: “A defesa da Lava Jato virou meio que a tábua de salvação desses movimentos. Há um certo desinteresse pela queda do Temer. O antipetismo é uma causa com muita audiência, mas a defesa da Lava Jato é um mote muito difuso, sobretudo agora que os grandes processos estão em Brasília”.
ElPais

O que pode se esconder sob a crise do Brasil

PT PSDB Blog do Mesquita“Nas democracias, governantes não são ungidos por Deus, mas eleitos pela vontade popular”.

O Brasil atravessa uma grave crise que, segundo analistas, que não são poucos, é mais política do que econômica.

E por isso é mais difícil de resolver apesar da riqueza do país em recursos naturais, matérias primas e capacidade criativa.

A economia brasileira, além disso, não enfrenta um risco de quebra como o caso da Grécia ou Venezuela.

É o que diz o correspondente Juan Arias, do jornal espanhol El País, em artigo publicado nessa quarta-feira (26/08).

O problema é, acima de tudo, político. O povo das ruas o sabe.

O deixou claro em suas últimas reivindicações de protesto nas quais ressoaram mais os gritos contra os políticos e seus crimes de corrupção, do que sobre a inflação ou o desemprego, dois fantasmas que assustam cada vez mais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O que não funciona, e parece sem solução, é o enredo político com atores medíocres, mais burocratas que estadistas, que não conseguem recitar os grandes dramas e parecem conformar-se com resultados de opereta. Um papel que mal se conjuga com a democracia consolidada e moderna de um país continental como o Brasil.

Existem muitas explicações ao desafio que o Brasil enfrenta: o de conjugar uma política exercida por profissionais com o desenvolvimento de uma economia com grandes possibilidades e capacidades.

Talvez a menos prevista, e a razão pela qual os políticos se afogam e a recuperação econômica se atrasa, é a tentação latente de sacralizá-los ao mesmo tempo que se lhes outorga impunidade, como se não fossem cidadãos como os demais.

Se algo deveria distinguir as democracias modernas dos antigos regimes totalitários é de ter se libertado do perigo dos messianismos, seja religiosos ou ideológicos.

O Brasil não vive os tempos bíblicos em que foi necessário um Moisés messiânico para libertar o povo judeu da escravidão do Egito.

Nem vive os tempos das teocracias da Idade Média, durante as quais os reis governavam em nome de Deus, com quem não é possível discutir, só obedecer.

A modernidade é incompatível com dogmas políticos. Os governantes, nas democracias, não são ungidos por Deus e devem só responder às leis e à vontade de quem os elege livremente. E são proibidos de mentir.

Quanto mais perfeita é uma democracia, menos os políticos têm. Em um cenário assim, os representantes do povo chegam a confundir-se na rua com as pessoas comuns, sem privilégios. Essas democracias maduras não precisam de heróis, nem de messias, nem de salvadores da Pátria, nem de pais ou mães dos pobres.

A eles lhes é exigido apenas capacidade para governar com acerto e justiça, tendo em conta sempre, a hora de dividir os orçamentos, as necessidades mais urgentes, como reduzir as desigualdades sociais e alentar o crescimento do país.

Poderá parecer simples, mas na prática as coisas não são tão fáceis nem delicadas. Os que chegam ao poder se esquecem que não ganharam o posto por uma designação divina, mas pelo voto popular.

Inclusive nos países com Constituições democráticas existe a tentação, alimentada às vezes pela mesma sociedade, de sacralizar o poder.

Certos messianismos seguem ainda vivos, com sua nefasta carga antidemocrática e até ditatorial, em vários países da América Latina, onde uma mistura de fundamentalismo religioso, fomentado pelas Igrejas Evangélicas e de messianismo ideológico, herdado dos velhos socialismos totalitários, impede o desenvolvimento de democracias modernas e participativas.

Quando os governantes são divinizados, se tornam indispensáveis e insubstituíveis, até o ponto em que qualquer movimento de mudança política é visto como diabólico e contra os pobres.

No Brasil, um país com uma constituição democrática e separação entre a Igreja e o Estado, segue viva a tentação de querer levar Deus ao Congresso, ou aos bancos da Justiça, sacralizando a vida pública e com ela seus governantes, ainda que depois sejam denegridos e criticados.

Há até quem defende que se introduza na Constituição que o poder vem de Deus e não do povo. E há legisladores evangélicos que profetizam que, se um deles chega à presidência brasileira, seria por vontade divina. Dizem também que governariam consultando a Bíblia antes da Constituição.

Só quando a política se limita à arte de governar com capacidade e com ética, sem tentações messiânicas, pode-se falar de democracia.

Não existem políticos ungidos por Deus, insubstituíveis e eternos.

O poder deles é temporal. Só o da sociedade é permanente e inapelável. Eles estão a seu serviço e não ao contrário.

Esquecê-lo é abrir a porta a todo tipo de instabilidade que acaba, inexoravelmente, em crises econômicas e irritação popular.
El País/Juan Arias

Absurdo: Presidente da CUT fala pegar em armas. E continua solto!

Platão,Blog do MesquitaIsso é abertamente um chamado para a guerra civil. E no Palácio do Planalto, na presença da Presidente da República, que se manteve silente, e quando interviu usou luvas de pelica.

Parece que os fanáticos – e o são muitos de ambos os loados da insanidade, mas quero me ater a esse fato específico – estão navegando sem ventos contrários. Ao contrário; seus “Incitatus” quadrupedes ideológicos galopam livres leves e soltos, sem brida e sem arreios, nas campinas da impunidade.

Se esse irresponsável dirigente da CUT – não darei o nome para não fornecer palanque para o idiota – acha que o que expele sua caixa craniana infestada de “Entamoeba histolytica” irá intimidar alguém para não ir participar das manifestações de domingo, enganou-se. Esse tipo de dialética somente municia a já aguerrida massa dos que desejam protestar no próximo domingo.

Há ódio de ambos os lados, é claro. Grupos, melhor dizendo, mentecaptos, ou em Cearencês, um “magote” de ruminantes de ambos os lados que instrumentalizam o ódio dos outros como arma política.

E é aí que aparecem políticos, e protótipos de políticos – em Fortaleza a manifestação é organizada por um pretenso aspirante a cargo eletivo, e ainda conta com a presença nefasta do deputado homofóbico (aquela “doçura” de ser humano, que afirmou preferir ver um filho morto em um acidente, do que o ver de mão dadas com um “bigodudo”. Mas isso é debate Freudiano para outra ocasião) – para aproveitarem a ribalta da massa insatisfeita com o governo.

Elite e anti-elite estão servindo de trampolim para esses grupos politiqueiros disfarçados de movimentos sociais, ou de bastiões da democracia. São ambos ainda mais catequizados e menos idealistas do que o “lumpenproletariat” que verbalizava Marx.

Quem toma a parte pelo todo… Quem generaliza… Quem não vê distinções… Não faz análise nenhuma.

Precisam todos – situação e oposição – deixarem a caverna de Platão para se civilizarem e aceitarem a divergência sem precisar desejar imolações pirotécnicas qual Torquemadas neo-medievais.

Eu escuto, não discuto, apenas dou risada.

Ps. Só existem duas trilhas, loucura ou hipocrisia, não consigo ver ninguém como inimigo ainda, pois não encontrei alguém importante o suficiente para isso.


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Ecos do protesto: A mídia sem filtro

Surdos Blog do MesquitaOs jornais de quinta-feira [4/7] seguem produzindo a crônica da súbita vontade política que se apossou de Brasília depois das grandes manifestações do mês passado.

Essa avassaladora vontade política está fazendo andar, por exemplo, a Proposta de Emenda à Constituição que elimina quase todas as hipóteses de voto secreto no Congresso.

No entanto, nem tudo é eficiência no Senado e na Câmara, e o noticiário explora a queda-de-braço entre o Parlamento e o Executivo, que resulta num boicote à proposta de submeter a reforma política à decisão direta da população.

Cada vez mais se consolida, na imprensa, a interpretação segundo a qual a presidente da República agiu rápido demais, assumindo algumas das bandeiras das ruas, e, como é de seu temperamento, personalizou determinadas questões que a política de alianças tem transformado em longas negociações, quase sempre resolvidas com a sangria dos cofres públicos.

Então, arma-se o jogo no qual os líderes dos partidos fingem que concordam com as mudanças exigidas pela onda de manifestações enquanto, das sombras, mandam recados para a chefe do governo.

A imprensa parece, subitamente, ter perdido o apetite para influenciar a disputa e se limita a selecionar declarações.

Há claramente um contingente de senadores e deputados que agem para reduzir ao mínimo possível as concessões às reivindicações da sociedade.

Ainda que as palavras de ordem tenham soado difusas e eventualmente contraditórias, há um núcleo fácil de identificar nos protestos: o que se quer é justamente a mudança nos procedimentos da política.

Entre esses temas têm papel central a questão do financiamento de campanhas, a representatividade dos partidos, a profusão de cargos de suplente e as ações entre amigos escondidas sob votações secretas.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O problema do voto secreto está sendo encaminhado pelo próprio Congresso, que age como quem aceita entregar alguns anéis – de preferência a bijuteria do poder. Mas o ponto fundamental segue sendo objeto de enrolação.

E a imprensa tradicional, sempre cheia de adjetivos em outras questões, apenas registra o jogo de empurra.

Um novo modelo

Se os jornais não se empenham em cobrar uma aceleração do processo de reforma, é de se questionar por onde a sociedade irá se informar sobre o que anda acontecendo nos bastidores do poder. Os blogueiros independentes ainda não conseguiram formar um conjunto capaz de atrair grandes audiências e a agenda institucional segue dominada pelas corporações de mídia.

Durante a fase mais intensa das manifestações, iniciativas de estudantes, jornalistas e transeuntes permitiram acompanhar com detalhes o que acontecia nas ruas, suprindo as lacunas deixadas pela mídia tradicional, cujos representantes foram hostilizados por ativistas e agredidos pela polícia. Mas não se pode esperar que o jornalismo alternativo cubra com a mesma intensidade o jogo de sutilezas da política.

Durante os protestos, as emissoras de televisão foram obrigadas a encher seus noticiários com imagens feitas de helicópteros ou do alto dos edifícios, mas ao mesmo tempo colocaram nas ruas repórteres munidos de smartphones e pequenas câmeras para registrar os acontecimentos.

Coletivos de repórteres, como o do grupo Mídia NINJA, se destacaram por divulgar diretamente imagens das ruas, sem filtros e sem edição, o que permitiu desmascarar manipulações de algumas emissoras, como no caso da manifestação que ocorreu no domingo nas proximidades do estádio do Maracanã.

Embora, segundo a Folha de S. Paulo, a mídia tradicional tenha produzido o maior número de compartilhamentos nas redes sociais durante o período mais intenso das manifestações, é preciso registrar que uma proporção relevante dessas trocas era acompanhada por depoimentos de testemunhas que contestavam a versão dos fatos apresentada pelos jornais e emissoras de televisão.

Assim, ainda que a audiência seja massivamente dirigida ao mainstream da mídia tradicional, o fenômeno do jornalismo cooperativo ganha mais credibilidade, porque seus agentes atuam no meio da multidão, postando imediatamente as imagens e entrevistas, sem edição.

Essa “mídia sem filtro” tem como principal paradigma o movimento conhecido como NINJA – denominação para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação –, um coletivo de jornalistas, estudantes e outros profissionais que produzem documentários, reportagens e coberturas diretas de eventos que não estão necessariamente na pauta da imprensa tradicional.

O movimento, ainda recente, tem chamado a atenção de pesquisadores e representa um fenômeno a ser observado no contexto de mudanças trazidas pelo desenvolvimento das tecnologias digitais.
Por Luciano Martins Costa/Observatório da Imprensa

Notas de uma magra trincheira

As manifestações cujo término eu espero que seja o voto contra tudo isso que ai está, nas eleições, tem arcabouços bem marcados.
Roberto DaMatta ¹, O Globo

Não estamos mais diante de um movimento milenarista embandeirado nas chamadas “grandes ideias” que carimbaram o século 19 e pariram pogroms, holocausto, duas guerras mundiais e ditaduras no século 20, mas diante de um protesto pelo bom senso. Assistimos a uma convocação em rede para propor um novo estilo de governar.

O verdadeiro significado de um mundo em rede não é o seu lado formal, como enfatizam alguns dos seus teóricos, mas é o que as redes circulam como drama sem o teste dos preconceitos. Sobretudo dos tabus teóricos segundo os quais uma coisa deve vir depois da outra. Mentira.

O movimento mostra como coisas aparentemente pequenas servem de texto para grandes causas. A realidade de um mundo conectado não é a rede, é a impossibilidade de profetizar o futuro ao lado da certeza de que a política exige honradez para ser praticada. A rede somente revela que suportar a vida continua a ser — como dizia Freud — o primeiro dever dos vivos.

O que o povo quer é ônibus confiável e barato, se possível, gratuito; menos corrupção, segurança, saúde e educação. Ora, esse é o programa dos partidos no poder e, no entanto, é essa demanda que forma o centro das manifestações.

O que há de novo? Primeiro, como observa Elio Gaspari, a ausência dos famosos, dos santos e dos que sabem tudo. As passeatas que se alastram como um carnaval cívico não são englobadas por nenhuma organização poderosa: governo, partido político, sindicato, MST, movimento estudantil ou algum grupo cósmico-religioso clamando pelo fim do preconceito de gênero, do sofrimento ou do pecado.

O que temos visto é a reunião na rua (não num palácio, universidade, assembleia e fórum político) de milhares de miniprotestos, os quais, mesmo quando escritos em linguagem pitoresca, falam de coisas práticas e são apresentados individualmente.

Há uma recusa significativa aos partidos políticos justamente porque eles são o sinal do imobilismo e do enriquecimento em nome da mudança. O movimento traz à tona lugares comuns esquecidos pelos políticos no poder (e hoje, com a tal coalizão, só há uma minoria fora dele).

A manifestação não é um manifesto contra a democracia liberal, mas ao estilo de como essa democracia tem se concretizado no Brasil. Ela denuncia a ausência de encontro da sociedade com o governo.

Governo que, no Brasil de Lula e Dilma, tem sido muito mais um instrumento de aristocratização do que de resolução de problemas, o próprio sucesso que o sistema tem apresentando como o do poder de compra e da estabilidade monetária.

O bom senso não tem partido. Ele é uma simples conta de chegar entre meios e fins. Não se impede uma guerra com missas do mesmo modo que não bastam leis, politicas públicas de redistribuição de renda e instituições, pois é preciso honestidade e motivação para fazê-las funcionar e, assim, torná-las um instrumento da sociedade como um todo.

Não adianta uma Constituição inspirada na gloriosa França da Bastilha sem franceses para colocá-la em prática! Por isso o bom senso faz parte das rotinas democráticas, conforme viu Tocqueville.

Segurança, educação, transporte confiável e cumprimento de promessas feitas pelo próprio governo petista que está — eis um ponto implicitamente lembrado pelos manifestantes — no poder e que governa o Brasil.

Não há mais como eleger um bode expiatório para incompetências (inflação, desmantelamento da Petrobras), escândalos, mensalão sem desfecho; obras superfaturadas de toda ordem, bem como os elos espúrios entre grandes empresários e políticos. De PECs que visam claramente a castrar o poder de apuração do povo, ampliando a zona cinzenta de uma intolerável impunidade, etc., etc., etc…

Quando uma coisa tão básica como a rua sai de sua função normal de trânsito entre o lar e o trabalho, percebemos a gravidade do problema. Ao lado da passeata, houve vandalismo. Mas, pergunto eu com meus companheiros de trincheiras magras, Jorge Moreno e Luiz Werneck Vianna, quem atirou a primeira pedra?

Quem disse que o “bicho ia pegar?” Quem errou ao mudar a data do Bolsa Família, levando milhares aos balcões da Caixa Econômica Federal no bojo do boato de que o beneficio ia acabar ou, pelo contrário — e isso não pode ser suprimido —, ia ser dado em dobro? A quem interessa impedir a criação de novos partidos e tem feito tudo para eles sejam legalmente sufocados?

O que ocorreu com os 1,3 milhão de votos no sentido de impedir a posse do atual presidente do Senado? Como lembra Jorge Moreno, 1,2 milhão saíram às ruas, mas quem jogou os votos legais na lata do lixo?

Quem vandaliza? Eis o que não pode calar se quisermos ter um mínimo de sinceridade quando, antes de dormir, nos olhamos no espelho. Quem, afinal de contas tem, como perguntou outro dia Dora Kramer, a faca e o queijo na mão?
¹ Roberto DaMatta é antropólogo.

Eleições 2014: oposição burra entrega bandeira para Dilma Rousseff

Leio:

“Dilma começa, amanhã, a ouvir a sociedade. Presidente quer transformar em ações concretas, já nesta segunda-feira, seu pronunciamento feito em rede nacional, cuja frase mais importante foi ‘estou ouvindo vocês e não vou transigir com a violência’.

Antolhos Blog do Mesquita

Oposição incompetente. Imóvel, de visão estreita e maniqueísta deu de bandeja uma bandeira para Dona Dilma para 2014.

Só D.Dilma se mexeu e vai empalmar as articulações sobre as reivindicações oriundas das manifestações. Chama-se inversão de expectativas. Quem deveria estar na linha de frente para dar paternidade às manifestações seriam os partidos de oposição. Mas esperar o que desses paleolíticos que fazem política com o fígado?


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