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Maduro reprime protesto da oposição na Venezuela

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Polícia reprime protesto e impede apoiadores de Guaidó de montar palanque

Manifestação convocada pelo líder opositor, Juan Guaidó, foi dispersa com gás lacrimogêneo pela polícia em Caracas. União Europeia poderá endurecer sanções contra Nicolás Maduro, diz ministro alemão.

A polícia venezuelana utilizou gás lacrimogêneo para dispersar uma manifestação convocada para este sábado (09/03), em Caracas, pelo líder da oposição e autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó.

Os manifestantes recuaram, mas optaram por permanecer nas imediações do local marcado para a realização da concentração, na Avenida Victoria.

Anteriormente, a equipe de Guaidó havia denunciado que não tiveram permissão para instalar um palanque na área, e que três pessoas que transportavam as estruturas foram detidas e o material confiscado.

Guaidó reagiu no Twitter afirmando que o governo de Nicolás Maduro terá “uma surpresa”, já que os opositores continuarão na rua.

“Pretendem gerar desgaste, mas já não têm como conter um povo que está decidido a acabar com a usurpação. E hoje o vamos demonstrar nas ruas”, acrescentou o opositor no Twitter.

A manifestação, convocada em todo o país, faz parte da pressão cada vez maior para forçar Maduro a deixar o poder, que ocupa desde 2013. Além disso, ela acontece depois de um apagão que deixou a maioria dos venezuelanos sem luz.

A eletricidade foi restabelecida na madrugada deste sábado em algumas zonas de Caracas, porém, alguns bairros da capital venezuelana e mais de metade do país continuam sem energia há mais de 40 horas.

Maduro também convocou para este sábado uma concentração na capital venezuelana. Vários apoiadores do presidente em exercício ocuparam as ruas de Caracas, vestidos de vermelho, cor associada à revolução.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando o opositor e presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente interino e declarou que assumiria os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó contou de imediato com o apoio dos Estados Unidos, prometeu formar um governo de transição e organizar eleições livres. Cerca de 50 países, incluindo o Brasil e a maioria dos países da União Europeia reconheceram Guaidó como presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, afirmou neste sábado que a União Europeia (UE) está disposta, caso necessário, a endurecer as sanções contra o governo de Nicolás Maduro.

“Na União Europeia estamos dispostos a impor sanções adicionais se for necessário”, disse o ministro em entrevista ao jornal berlinense Tagesspiegel.

Maas acrescentou que “é importante que a pressão internacional se mantenha elevada” e afirmou que a UE não participará da tática dilatória usada por Maduro. O apoio da UE ao líder da Assembleia Nacional venezuelana, Juan Guaidó, é “irrefutável”, assegurou.

Guaidó havia exigido um endurecimento das sanções contra Maduro, depois que este declarou “persona non grata” o embaixador da Alemanha na Venezuela, Daniel Kriener.

CA/efe/lusa

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Crise na Venezuela: Quais são os interesses da China no país latino-americano?

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A relação entre Xi e Maduro remonta à época de Chávez, quando o atual presidente venezuelano era titular da pasta de Relações Exteriores

Mesmo a milhares de quilômetros de distância, a China não perde de vista o que está acontecendo na Venezuela.

Ao lado da Rússia e Turquia, o país asiático tem sido um dos maiores defensores de Nicolás Maduro na crise política, social e econômica que se agravou depois que o líder da oposição Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela.

Embora Pequim não tenha sido tão direta quanto a Rússia de Putin, as declarações do governo chinês são interpretadas por especialistas como um endosso a Maduro, cuja reeleição tem a legitimidade contestada pelos opositores.

“A China apoia os esforços realizados pelo governo da Venezuela para manter a soberania, a independência e a estabilidade nacional”, declarou Hua Chunying, porta-voz do ministério das Relações Exteriores, em entrevista realizada um dia após a autoproclamação de Guaidó em Caracas.

Hua também enfatizou que Pequim “se opõe à interferência estrangeira nos assuntos da Venezuela”, em uma mensagem indireta aos Estados Unidos, o primeiro país a reconhecer Guaidó e a estimular uma pressão internacional contra Maduro.

Fiel à sua política de não interferir em assuntos internos, a China se limitou a pedir calma aos envolvidos, mas sua preocupação com o resultado dessa situação tem crescido.

Pequim é o principal credor do governo venezuelano e tem muitas fichas no país sul-americano, conforme explicaram especialistas consultados pela BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Um trunfo chamado petróleo

Chavez e Hu Jintao caminham em tapete vermelho com expressão facil séria, observados por militares em cerimôniaDireito de imagem GETTY IMAGES
Hu Jintao e Hugo Chávez; início da aproximação entre os dois países foi uma espécie de mutualismo

Os atuais estreitos laços entre China e Venezuela começaram a se formar no começo dos anos 2000.

Caracas, ainda sob Hugo Chávez, tentava diversificar os países para os quais exporta sua principal fonte de riqueza, o petróleo.

Pequim, em franco crescimento econômico desde sua abertura nos anos 1980, começava a procurar novas fontes de recursos para suprir a demanda de sua grande população.

Naquele momento, a China já era um dos principais importadores de petróleo do mundo.

“O petróleo é a razão mais fundamental para o encontro entre China e Venezuela. A China precisava de uma grande quantidade de petróleo, e a Venezuela tinha isso”, resumiu à BBC News Mundo Matt Ferchen, estudioso do papel da China em países em desenvolvimento no Centro Carnegie-Tsinghua de Políticas Globais.

A relação floresceu baseada principalmente em “acordos de financiamento pelo petróleo”, lembra Ferchen, que considera o laço cultivado com Caracas um erro de Pequim, diferente de outras aproximações com países produtores de petróleo.

De 2007 a 2018, Pequim emprestou ao país latino-americano mais de US$ 67 bilhões (cerca de R$ 256 bilhões, em valores não corrigidos), de acordo com os dados mais recentes do centro de estudos Diálogo Interamericano e da Universidade de Boston.

Nos primeiros anos, essa cooperação parecia beneficiar ambos os governos, mas a morte de Chávez em 2013 “mudou as coisas dramaticamente”, diz o analista do centro Carnegie-Tsinghua.

Na fase atual, os preços do petróleo caíram e a situação econômica da Venezuela piorou muito, chegando ao quadro atual em que sustenta o título de inflação mais alta do mundo e onde há sérios problemas de escassez de mercadorias, como remédios e alimentos.

A situação levou Caracas, agora com Nicolás Maduro no poder, a violar cláusulas acordadas com Pequim e solicitar maiores “períodos de carência”.

Dezenas de venezuelanos gritam e seguram bandeira do país em protesto na ruaDireito de imagem GETTY IMAGES
A crise se instalou na Venezuela há alguns anos, mas se agravou desde janeiro com uma enorme pressão internacional

Segundo diferentes fontes, o país sul-americano ainda deve à potência asiática quase US$ 20 bilhões.

“Há um grande risco (para a China na Venezuela)”, diz Cui Shoujun, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Renmin da China, um dos mais prestigiados do país.

Cui concorda que Pequim está preocupada com a situação e acredita que “ninguém pode garantir” o que acontecerá com os acordos entre os dois países se houver uma mudança de governo na Venezuela.

No entanto, Cui é um dos que pensa que Maduro está fazendo a coisa certa: “Diplomaticamente, a China deve apoiar Maduro – ele é o líder legítimo da Venezuela”, defende.

Do outro lado do tabuleiro, os EUA

Segundo os analistas, além do petróleo, há um quê a mais na relação da China com a Venezuela, à diferença de seus laços com outros produtores de petróleo.

Desde sua chegada ao poder em 2013, o presidente Xi Jinping expandiu a influência chinesa na América Latina, jogada vista por alguns especialistas como uma tentativa de contrabalançar a influência de Washington na região.

“Nos últimos quatro ou cinco anos, o presidente Xi tentou projetar o soft power (em tradução livre, algo como “poder sutil”, um conceito que indica formas de influência nas relações internacionais diferentes de outras mais contundentes, como ações militares e comerciais) chinês por todos os rincões do mundo e colocou um interesse em especial na América do Sul, porque é o quintal dos Estados Unidos”, avalia Willy Lam, um analista veterano da política chinesa.

“É uma maneira de intimidar Washington, dizendo algo como: avise aos americanos que a República Popular da China é capaz de influenciar países próximos aos EUA.”

Lam, professor da Universidade Chinesa de Hong Kong, também aponta semelhanças nas ideologias dos dois governos, um cenário que lembra os laços com Cuba.

Por anos, fontes próximas ao governo em Pequim negam que a ideologia tenha importância nas Relações Exteriores conduzidas por Xi, insistindo que o presidente age com pragmatismo.

De todo modo, a maioria dos entrevistados destaca o apoio mútuo que ambos os países sustentam na arena da política internacional, especialmente em um momento onde Pequim está tentando se projetar como líder da globalização.

Donald Trump olha para o lado durante reunião em ambiente internoDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente do EUA, Donald Trump; a disputa entre a China e os EUA não é apenas comercial mas também por influência

Próximos passos

A crise na Venezuela continua e a pressão internacional para que Nicolás Maduro deixe o poder, também.

O presidente venezuelano afirma ser alvo de uma tentativa de golpe de Estado orquestrada por Washington e refuta a convocação das eleições presidenciais, como pede a oposição.

A China, por outro lado, parece começar a se mover.

No início de fevereiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, disse que Pequim “tem mantido estreita comunicação com todas as partes de diferentes maneiras sobre a situação na Venezuela”.

“Independente de como a situação vá evoluir, a cooperação China-Venezuela não deve ser prejudicada”, afirmou, sem mais detalhes.

Montagem mostra fotos de Guaidó e MaduroDireito de imagem GETTY IMAGES
O enfrentamento liderado por Guaidó (na foto, à esq.) e Maduro expõe os riscos dos investimentos chineses na Venezuela, segundo analistas

Segundo o pesquisador Cui Shoujun, há evidências de que as autoridades chinesas têm se aproximado da oposição venezuelana, tentando abrir uma espécie de canal de diálogo.

O jornal americano The Wall Street Journal publicou reportagem em que relata reuniões em Washington entre diplomatas chineses e representantes da oposição venezuelana.

Nesses encontros, segundo uma fonte próxima, houve menções a “períodos de prorrogação” para pagamento de dívidas e também a uma maior transparência nos acordos – algo que não costuma soar como uma postura do regime chinês.

Confrontada com esta informação em uma entrevista, uma representante do Ministério das Relações Exteriores da China a classificou de “notícia falsa”.

Na opinião de Margaret Myers, diretora no centro de estudos Diálogo Interamericano, Pequim continua apoiando Maduro simplesmente por causa da estabilidade e para “proteger seus próprios bens”.

Segundo ela, as autoridades chinesas tentaram recentemente se envolver mais no setor de petróleo da Venezuela.

Myers lembra a visita de Maduro à China no ano passado e afirma que, então, Pequim concordou em conceder outro empréstimo de US$ 5 bilhões para “incrementar a produção de petróleo”, conforme confirmou o centro de estudos.

Nas palavras de Myers, “a maior parte do que a China está fazendo ultimamente é para tentar garantir o fornecimento de petróleo e o pagamento dos empréstimos existentes”.

“Não é um sinal de apoio político.”

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Venezuela; a caminho de ser uma nova Síria?

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Apoiadores do líder da oposição venezuelana Juan Guaido passam para o lado colombiano da Ponte Internacional Francisco de Paula em Cucuta, durante confrontos com as forças de segurança venezuelanas em Urena, Venezuela, em 25 de fevereiro de 2019. Foto: Raul Arboleda/AFP/Getty Images
HUGO CHÁVEZ PRESIDIU a Venezuela entre 1999 e 2013, tornando-se provavelmente o líder latino-americano mais icônico desde Fidel Castro. Ao chegar ao poder, em 1999, Chávez prometia não só reverter o movimento de privatizações sugeridas pelo Consenso de Washington, mas instaurar o que chamava de “socialismo do século 21”. Não conseguiu. Nenhum governo daquele país, seja “neoliberal-entreguista” seja “bolivariano”, conseguiu transformar as riquezas naturais da Venezuela em um alto nível de educação médio de seu povo e na alavanca para a sofisticação e modernização da economia nacional.

O colapso econômico da Venezuela não é culpa apenas da queda do preço do petróleo. É resultado também de políticas econômicas temerárias, como fixação de preço de diversas mercadorias a um valor abaixo do de mercado, ameaças e prisões de empresários e expropriação de companhias que não obedecessem às ordens do governo. Hoje, a participação do setor de manufaturados no PIB da Venezuela é inferior ao registrado em 1999. Houve não apenas uma queda em termos relativos, mas também em termos absolutos, ou seja, a Venezuela tem hoje uma produção industrial menor do que a de 1999. Em 2016, a queda da produção industrial venezuelana foi da ordem de 19%; no ano seguinte, mais 15%. Em 2002, havia por volta de 830 mil empresas na Venezuela, em 2017 o número havia caído para 250 mil. Por fim, entre 2013 e 2017, o PIB da Venzeuela encolheu em 37%.

Ascensão e queda do chavismo

Militar de carreira, Chávez começou a aparecer na cena política em fevereiro de 1992, quando foi um dos responsáveis por uma tentativa de golpe de estado contra o então presidente Carlos Pérez. Seu plano fracassou. Chávez, então, concedeu entrevista pedindo que seus companheiros deixem as armas, para evitar um “banho de sangue” no país. Durante o processo, 49 pessoas foram mortas.

Ainda preso, foi figura importante de uma outra tentativa de golpe, em novembro daquele mesmo ano. Em vídeo divulgado pela TV estatal, controlada pelos golpistas, o futuro presidente louvava o movimento revolucionário bolivariano. O golpe de novembro também fracassou, deixando 171 mortos pelo caminho.

Com a eleição de Rafael Caldera para presidente do país em 1994, Chávez e os demais conspiradores bolivarianos foram soltos da prisão. Quatro anos depois, aos 44 anos, com o apoio do Partido Comunista Venezuelano, do Movimiento al Socialismo, entre outros, Chávez saiu vitorioso das eleições presidenciais com 56% dos votos válidos.

No Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo trazia a reportagem em 7 dezembro de 1998, com o título “Eleição venezuelana consagra o golpista Chávez”. Nesse mesmo dia, o NY Times trazia uma pequena nota com o título: “Venezuelanos elegem um ex-líder golpista como presidente”.

Os golpes de 1992 tinham como alvo as políticas “neoliberais” então implementadas na Venezuela. Prometendo evitar os erros cometidos pelos soviéticos e sentado sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, Chávez deu início ao seu reinado. E petróleo é a variável-chave para compreender a dinâmica política e econômica da Venezuela. Em 2017, por exemplo, algo como 95% das exportações venezuelanas se constituíam de petróleo bruto, refinado e derivados. Sendo assim, quando o preço do petróleo aumenta, a Venezuela enriquece. Quando cai, empobrece.

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados.

Fonte: The Observatory of Economic Complexity/MIT.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

Gráfico: InflationData.com

Quando Chávez assumiu, o preço do barril estava próximo de US$ 25, entrando numa trajetória quase linear de alta, atingindo o valor recorde de US$ 103 em 2008. Com o preço real médio multiplicado por quatro em menos de uma década, Chávez pôde implementar uma série de políticas sociais que o transformaram em um líder extremamente popular. Ao controlar o Exército e o principal setor da economia – já que a estatal PDVSA é a grande empresa da área –, Chávez tornou-se o líder inconteste daquele país.

Em 2009, em consequência da crise americana, o preço do petróleo cai abruptamente, mas logo se recupera, atingindo US$ 95 em 2013, ano da morte de Chávez. A partir daí, entra em cena Nicolás Maduro, ex-motorista de ônibus que havia servido como Ministro das Relações Exteriores e vice-presidente. Sem o mesmo carisma de seu antecessor e sofrendo com nova queda do preço do petróleo, Maduro redobrou as apostas no autoritarismo e no populismo econômico.

Com a queda nas receitas do petróleo e como forma de continuar financiando os gastos do governo, só sobrou a Maduro o velho e ineficaz remédio de imprimir dinheiro, fazendo com que a inflação na Venezuela explodisse. Para este ano, o FMI espera uma taxa de inflação acima dos 10.000%.

Com a queda no valor das exportações, a Venezuela se viu sem dinheiro para financiar suas importações, fazendo com que o abastecimento de produtos básicos e insumos industriais e agrícolas entrasse em colapso. Não há comida, não há peças de reposição, não há remédios, pois não há dinheiro. A fome, a doença, o desemprego e a desesperança têm sido o motor da migração em massa de venezuelanos, algo que se denomina diáspora bolivariana. Mais de 2 milhões de venezuelanos saíram do país desde 2014.

Nova liderança instiga guerra civil

A catástrofe econômica não é inteiramente conhecida, pois não há estatísticas confiáveis. É provável, porém, que seja uma das maiores crises econômicas já registradas por um país que não atravessou uma guerra ou uma catástrofe natural de grande escala. A Venezuela entrará de modo negativo para os anais da história econômica do mundo.

A crise agora se agrava graças às questões geopolíticas. A decisão de parte importante da comunidade internacional (EUA, Canadá, União Europeia e o grupo de Lima, por exemplo) em reconhecer Juan Guaidó como presidente da Venezuela é algo grave. Um país com dois presidentes em exercício e reconhecidos por superpotências econômicas e militares (China e Rússia, por exemplo, apoiam o regime de Maduro) faz com que as possibilidades de guerra civil e/ou secessão cresçam.

As sanções econômicas impostas por Trump tornam a situação fiscal da Venezuela ainda mais desesperadora, implicando na piora da fome e da mortalidade. Apoiado por gestos e palavras de insanos como Trump e Bolsonaro, Guaidó publicou em seu twitter uma mensagem que parece um apelo à invasão estrangeira e/ou à guerra civil.

Há chances reais e efetivas de a Venezuela se tornar um novo Afeganistão, Iraque, Síria ou Líbia. Não há mocinhos nessa história. Os países nos quais os EUA estimularam ou provocaram a queda de ditadores – inclusive durante o governo Obama – caíram numa espiral de caos político e econômico. Se Trump decidir armar a oposição, China e Rússia tampouco ficarão sem apoiar seus aliados. Seria uma tragédia sem paralelos na história recente da América Latina um novo episódio da nova guerra fria travada por essas três potências.

Nenhum desses países tem real interesse pelo bem-estar dos venezuelanos. Suas preocupações são mesquinhamente econômicas e geopolíticas. Nenhum desses países se guia pelos princípios humanitários da Carta das Nações Unidas, mas pelo poder e pela baixa política do Conselho de Segurança.

Ainda que não haja uma invasão estrangeira imediata, cada uma dessas potências pode armar e estimular setores do Exército e da sociedade civil, arrastando a Venezuela para um conflito ao estilo da Síria. Estamos vendo um palco de guerra sendo montado em nossas fronteiras estimulado pelas palavras e gestos de dois despreparados que nos governam: Bolsonaro e Ernesto Araújo. Ou pior: pelos tuítes nada diplomáticos de um dos filhos do presidente.

Vídeo incorporado

Mourão, o adulto na sala

Numa clara sinalização de guerra de atrito entre o Itamaraty olavista e as Forças Armadas, Mourão participou da última reunião do grupo de Lima, posando para fotos oficiais ao lado do chanceler Ernesto. O vice-presidente parece mesmo condenado a desempenhar o papel do adulto na sala.

A declaração final do grupo de Lima foi surpreendentemente serena. Ainda que condene as ações do “regime ilegítimo de Nicolás Maduro” e enfatize o reconhecimento de Guaidó como único presidente legítimo do país, o documento afirma que “a transição para a democracia deve ser conduzida pelos próprios venezuelanos e sob o marco da Constituição e do direito internacional”. Frase em plena consonância com os princípios elencados no artigo 4° de nossa Constituição, entre os quais estão o respeito à “autodeterminação dos povos” e a “não intervenção”.

Permitir a entrada de tropas americanas via solo brasileiro para atacar um país vizinho (numa manobra ilegal, que não seria aprovada pelo Conselho de Segurança, graças ao veto de Rússia e China) seria uma mancha em nossa história e um crime grave o suficiente para determinar a saída de Jair Bolsonaro do palácio do Planalto. Por meio de gestos e frases descuidadas, Bolsonaro pode provocar a primeira guerra entre o Brasil e um de seus vizinhos desde a Guerra do Paraguai (1867-1870) – sempre bom não perder de vista que a Venezuela já gastou desde meados dos anos 2000 algo como US$ 10 bilhões apenas com armamentos russos.

Ainda que o cenário de um confronto direto entre Brasil e Venezuela seja pouco provável, um governo sensato mediria as palavras e buscaria agir como mediador na crise daquele país. Mas uma retórica bélica, nacionalista e inflamada como a dos Bolsonaro, ensina a história, é um convite à violência.

Que Mourão seja mesmo “o adulto na sala”, tenha ouvido moucos para os idiotas, e costure uma saída pragmática para o Brasil.
Alexandre Andrada/TheIntercept

Venezuela,América Latina,Ditadura,Maduro,Blog do Mesquita

Venezuela – Isso é crime, e não ajuda humanitária

Venezuela,América Latina,Ditadura,Maduro,Blog do MesquitaVenezuelanos atravessem a fronteira para chegar a Cúcuta, na Colômbia

Vamos deixar uma coisa bem clara: a população da Venezuela precisa de ajuda humanitária. O número de pessoas que luta pela simples sobrevivência aumenta a cada dia, e o fornecimento de alimentos e medicamentos é uma catástrofe no país.

Tanto pior, portanto, que o autointitulado presidente interino Juan Guaidó e seus apoiadores abusem da ajuda humanitária e a usem como instrumento de poder. Aparecer do lado de pacotes de comida para bebê rende boas imagens para a televisão, mas pouca credibilidade política.

Pior ainda é o presidente Nicolás Maduro. O sucessor de Hugo Chávez arruinou economicamente o país, e de forma sistemática. Ele mandou prender os adversários políticos, tirou poder do Parlamento, que é dominado pela oposição, e abandonou a população à própria sorte.

Agora, a ajuda humanitária deve servir, para os dois lados, de cobertura para o fracasso político. As sanções contra o regime de Maduro, impostas desde 2015 pelos Estados Unidos, não tiveram o “sucesso” esperado, ou seja, a queda do “Socialismo do Século 21”.

Elas apenas aceleraram o declínio da Venezuela e empurraram Maduro cada vez mais para os braços de Moscou e Pequim. Na semana passada, Maduro falava que não havia fome na Venezuela. Agora, ele anuncia, às vésperas do embate de 23 de fevereiro, que 300 toneladas de ajuda humanitária estão chegando da Rússia.

A Rússia é o principal aliado da Venezuela. Já nos tempos de Chávez, o Kremlin enviava armas para as Forças Armadas venezuelanas. Além disso, Caracas deve 12 bilhões de dólares para Moscou – como garantia para empréstimos, a Venezuela empenhou nada menos que a metade das ações da Citgo, uma rede de postos de gasolina nos Estados Unidos que pertence à estatal petrolífera PDVSA.

A Rússia tem, com isso, dois trunfos contra o presidente Donald Trump: por meio da Citgo, pode influenciar o abastecimento de combustíveis nos Estados Unidos; e, por meio da presença na Venezuela, se estabeleceu como importante ator internacional, ao lado da China e dos EUA, na América Latina.

O mais novo exemplo é o veto da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, na semana passada. À resolução dos EUA que exigia novas eleições e ajuda humanitária, Moscou contrapôs seu próprio projeto de resolução.

O imbróglio deixa antever um retorno à Guerra Fria. Que ela tenha como palco justamente a América Latina é especialmente trágico. Afinal, a confrontação entre os Estados Unidos e a Rússia foi oficialmente encerrada apenas em 2014, com a normalização das relações diplomáticas entre EUA e Cuba.

Se houvesse um real interesse em enviar ajuda humanitária para a população da Venezuela, agências da ONU, como o Programa Alimentar Mundial, poderiam levar alimentos para o país – se necessário, com um mandato do Conselho de Segurança. Organizações de ajuda humanitária americanas e russas, bem como doadores de todo o mundo, poderiam entregar suas remessas para a ONU em vez de usá-las para elevar a divisão política dentro do país.

E ainda mais importante: o governo da Venezuela poderia, ele mesmo, pedir ajuda à comunidade internacional. Ajuda humanitária também poderia ser transportada a pé, por voluntários, por outros pontos da fronteira além de Cúcuta – sem toda essa cobertura midiática.

O atual uso político da ajuda humanitária é tudo menos humanitário. Ele faz uma população inteira refém e transforma quem presta ajuda humanitária em cúmplice de uma acirrada disputa política de poder. Isso é um crime.
DW

Armamentos,Venezuela,Maduro,América Latina,Brasil,Trump,Usa

Crise na Venezuela: Qual é o tamanho real do poderio militar do país?

Armamentos,Venezuela,Maduro,América Latina,Brasil,Trump,UsaExército venezuelano teve papel fundamental no conflito político e social dos últimos anos

A ameaça de um conflito armado paira sobre a Venezuela.

O presidente americano, Donald Trump, afirmou que não descarta uma opção militar para tirar do poder o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e que o Exército da Venezuela deveria apoiar o governo do presidente autoproclamado da Venezuela, o oposicionista Juan Guaidó.

Em resposta, Maduro e seu ministro da Defesa disseram que os venezuelanos lutariam até as últimas consequências caso haja uma intervenção militar.

A tensão em torno de um conflito tem aumentado por causa da ajuda humanitária enviada por países que declararam apoio a Guaidó. Este anunciou que, a partir deste sábado, esses mantimentos começariam a entrar no país, numa estratégia que busca fazer frente a uma crise socioeconômica que o governo chavista nega.

Isso, entretanto, não aconteceu. Nesta manhã foi anunciado fechamento de três pontes na fronteira com a Colômbia e houve enfrentamento entre manifestantes e forças policiais.

Para Maduro, apoiado por Rússia e China, seus opositores tentam “fabricar uma crise humanitária que não existe na Venezuela” para justificar uma intervenção estrangeira. Por isso, ele anunciou o fechamento da fronteira com o Brasil e estuda fazer o mesmo na região fronteiriça com a Colômbia.

O impasse na fronteira e os confrontos deixam o Exército venezuelano sob os holofotes.

Como as Forças Armadas do país vão reagir à pressão internacional? Qual é o poder de fogo delas ante um eventual ataque dos EUA?

Nicolás MaduroDireito de imagem REUTERS
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tem apoio das Forças Armadas do país

Qual é o tamanho do efetivo das Forças Armadas da Venezuela?

De acordo com dados do Ministério da Defesa do país, a Força Armada Nacional Bolivariana tem entre 95 mil e 150 mil integrantes, número que não inclui os membros da Milícia Nacional Bolivariana, um grupo paralelo descrito como paramilitar pelos críticos do governo e formado por voluntários que assumem várias funções a serviço do Estado.

Esses milicianos recebem treinamento no manejo de armas e usam rifles antigos que pertenciam anteriormente ao Exército.

A Milícia Nacional baseia-se na premissa da “união cívico-militar”, cunhada pelo presidente Hugo Chávez, morto em 2013, pela qual toda a sociedade deve complementar o esforço do Exército na “defesa da nação”.

Maduro manteve seu compromisso com a milícia, apesar das acusações de militarização da vida civil e anunciou, em janeiro deste ano, que o corpo de segurança está próximo de atingir 2 milhões de integrantes.

Soldados da Venezuela em desfileDireito de imagemGETTY IMAGES
Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, pediu apoio dos militares

Não há informações precisas, no entanto, sobre o número real de integrantes e a qualidade de seu armamento e treinamento militar.

Também formam as Forças Armadas os integrantes da Guarda Nacional, um corpo militar responsável pela ordem pública e pela proteção dos cidadãos. Conhecida por todos os venezuelanos, uma de suas atribuições mais comuns é fazer o policiamento das ruas e das rodovias do país.

Nos últimos anos, a Guarda Nacional vem ganhando maior destaque pela repressão violenta contra os manifestantes de oposição, especialmente durante os protestos de 2017, e sua conduta tem sido objeto de polêmica. Também não há informações precisas sobre o tamanho do efetivo da Guarda Nacional.

Foi ela que, na manhã deste sábado, bloqueou a passagem na fronteira entre Venezuela e Colômbia em Ureña, no Estado de Táchira.

Tanque do Exército da VenezuelaDireito de imagem GETTY IMAGES
Estimativas oficiais indicam que Forças Armadas venezuelanas contam com 95 mil a 150 mil integrantes

Poderio renovado por Rússia e China

Após a chegada de Chávez ao poder (1999), a Venezuela aproveitou o crescimento das receitas do petróleo na primeira década dos anos 2000 para dar início a uma renovação ambiciosa das Forças Armadas que teve a Rússia e a China como suas principais provedoras.

Desde então, os russos forneceram à Venezuela vários modelos de aviões, helicópteros, tanques e unidades de artilharia.

O apoio da Rússia voltou a se fazer presente em dezembro do ano passado, quando o governo de Vladimir Putin enviou à Venezuela dois modernos bombardeiros capazes de transportar armas nucleares, os Tu-160, para um exercício em conjunto com a aviação venezuelana. O episódio gerou duras críticas do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Mas a grande contribuição russa para a ampliação da capacidade militar venezuelana foi a venda de caças Su-30Mk2 que, segundo especialistas, são capazes de competir com os modelos americanos mais avançados graças a seu poder de fogo, manobrabilidade e desempenho.

Além disso, os russos repassaram à Venezuelana sistemas de mísseis antiaéreos e os chineses, radares que permitem estabelecer o que o portal especializado Infodefensa descreveu como “o melhor sistema de defesa aeroespacial da América Latina”.

Nos anos de chavismo, uma frota naval sediada na cidade de Puerto Cabello também passou por uma completa renovação.

Considerando todos os seus recursos humanos e técnicos, o site Global Firepower colocou a Venezuela na 46ª posição do ranking mundial de países com maior força militar no ano passado. O Brasil está na 14ª posição e os Estados Unidos, em primeiro lugar.

Homem é agredido por forças de segurançaDireito de imagem GETTY IMAGES
Participação de forças militares em atividades de ordem pública foi alvo de críticas

Qual é a capacidade operacional de fato desses armamentos?

Desde o início da última crise política, Maduro vem estreitando ainda mais os laços com os militares e elogia repetidamente a capacidade das Forças Armadas.

Coincidindo com a escalada da tensão diplomática com os Estados Unidos, o presidente venezuelano organizou exercícios militares em larga escala que descreveu como “os mais importantes da história” do país.

Trata-se de um esforço para dar destaque ao papel do Exército em um momento crítico.

Um especialista militar estrangeiro que vive em Caracas e que pediu para não a ser identificado disse à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, que “há muitas dúvidas sobre a capacidade operacional real do arsenal (da Venezuela), devido à falta de manutenção”, outra consequência da crise econômica grave que o país enfrenta.

John BoltonDireito de imagem AFP
Conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, John Bolton, disse que intervenção militar na Venezula não está descartada

A escassez de peças de reposição é visível mesmo na base aérea em La Carlota, no coração de Caracas, onde os helicópteros ali estacionados sofrem o que no jargão militar é conhecido como “canibalização”, ou seja, o uso de partes de aeronaves em bom estado para a reparação de outras danificadas.

“Nos últimos anos, eles tentaram convencer os russos e os chineses a se responsabilizarem pela manutenção, mas o problema é que agora eles não podem pagar ninguém”, diz o especialista. “Os russos investiram muito dinheiro na Venezuela, mas descobriram que nunca seriam pagos.”

Entre os projetos inacabados com a Rússia está a fábrica de fuzis Kalashnikov, que está em construção há anos na cidade de Maracay, no Norte do país. O governo planeja que dali saiam armas para militares e milicianos, mas nada disso foi concretizado até hoje.

A falta de reparo e de peças sobressalentes torna-se um problema particularmente sério para o arsenal mais antigo, como os helicópteros de transporte de fabricação francesa, os Super Puma, ou os caças americanos F-16, que foram adquiridos antes do triunfo da Revolução Bolivariana em 1998.

Avião Tu-160 em CaracasDireito de imagem GETTY IMAGES
Aviões russos Tu-160 fazem parte do arsenal militar da Venezuela

Apoio dos militares a Maduro

Desde que Juan Guaidó desafiou Nicolás Maduro pelo comando do país, a oposição venezuelana vem fazendo repetidos apelos aos militares para retirarem seu apoio ao governante socialista e “se colocarem do lado da Constituição”.

Embora a tropa sofra com a escassez de alimentos e medicamentos e a hiperinflação, assim como o restante dos venezuelanos, as deserções em cascata que parte dos oposicionistas e analistas previram não ocorreram.

Apesar de relatos não confirmados de alegadas prisões em massa de militares descontentes com a administração Maduro, as declarações de lealdade ao “presidente constitucional” são repetidas nas contas de Twitter do Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas e do Ministério da Defesa.

Embora muitos considerem, inclusive nos Estados Unidos, que o apoio do alto comando militar a Maduro está se rachando, tais rachaduras não são até agora perceptíveis.

Há razões que explicam o apoio militar ao governo. Observadores apontam que o chavismo é, desde o seu nascimento, um sistema político essencial e originalmente militar.

Seu próprio fundador, Hugo Chávez, era comandante do Exército.

Como escreveu a escritora venezuelana Cristina Marcano em um artigo recente no jornal espanhol El País, “o Exército não apenas apoia o regime; é um fator fundamental do regime”.

Ela lembrou que os militares passaram, quando Hugo Chávez chegou à Presidência, a ocupar os mais altos cargos na administração e nas empresas públicas.

O almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, disse a um comitê do Senado americano que a Venezuela tem cerca de 2 mil generais, número superior ao de todos os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) juntos.

Para Faller, “a maioria está a serviço de Maduro” e envolvida em negócios ilícitos, entre os quais tráfico de drogas e contrabando de gasolina, com os quais o líder bolivariano “compra sua lealdade”.

A verdade é que, como acontece em outros países onde a política tem um forte componente militar, como Cuba ou Egito, a instituição acaba controlando grande parte da economia venezuelana.

Quando se tornou presidente, Maduro criou o que chamou de um plano de desenvolvimento de negócios exclusivamente militar, que parecia imitar o modelo do Grupo de Administração de Empresas (Gaesa) em Cuba. Por meio desse sistema, as Forças Armadas cubanas se responsabilizam pela gestão de uma grande parte da arrecadação do Estado que o turismo e outras atividades geram na ilha.

Maduro também colocou um general no comando da principal estatal do país, a PDVSA, que responde por grande parte das receitas das exportações venezuelanas.

Seja sentimental, ideológico ou econômico, os laços do alto comando militar com o presidente foram, por enquanto, mais poderosos do que os chamados de seus rivais para mudar de lado.

Neste sábado, contudo, há notícias de que soldados venezuelanos na fronteira estão abandonando seus postos. Pelo menos três membros da Guarda Nacional teriam cruzado para o lado colombiano.

Soldados da Venezuela em desfileDireito de imagem GETTY IMAGES
Maduro diz que Venezuela pode fazer frente à possível intervenção militar dos EUA

Qual é a capacidade de resistência ante uma intervenção?

Ted Galen Carpenter, especialista em defesa e política exterior do centro de análise Cato Institute, sediado nos Estados Unidos, diz à BBC News Mundo que, “embora existam relatos que sugerem divisão interna, pelo menos algumas unidades combateriam uma intervenção americana.”

Mas qual seria o tamanho dessa resistência? “É isso é o que a inteligência americana certamente está tentando descobrir, mas não é tão fácil”, afirma Carpenter.

Ele alerta que, apesar da esmagadora superioridade dos Estados Unidos, o uso da força para acabar com a crise venezuelana pode custar muito dinheiro e muitas vidas americanas.

Vladimir PadrinoDireito de imagem GETTY IMAGES
Vladimir Padrino é o atual comandante das Forças Armadas da Venezuela

“Ninguém pode enfrentar os Estados Unidos em um confronto aberto, mas Maduro ainda tem um núcleo duro de apoiadores, e o que os venezuelanos podem fazer é uma guerra de guerrilha, o que pode ser muito eficaz”, afirma o especialista.

Declarações como as de Carpenter refrescam a memória dos americanos sobre a guerra do Iraque ou do Vietnã, nas quais o Exército americano sofreu milhares de perdas em sua tentativa de impor uma mudança política.

Mural de Hugo Chávez e soldadoDireito de imagem EPA
Hugo Chávez chegou a posto de tenente-coronel, mas era conhecido como ‘comandante’

O próprio Maduro vem fazendo alusão ao confronto no Vietnã em sua tentativa de dissuadir a Casa Branca de pegar em armas: “A Venezuela se tornaria um Vietnã se um dia Donald Trump enviar o Exército dos EUA para nos atacar”, ameaçou.

Até o momento, o cerco de Washington a Maduro vem sendo estritamente diplomático e Trump, apesar de suas declarações, continua relutante em envolver as tropas americanas em missões no exterior.

Se para muitos o Vietnã foi a eterna guerra dos Estados Unidos, a Venezuela é, por ora, a que nunca começou.

Conexão cubana

Pascal Fletcher, analista da BBC Monitoring

Desde o fracasso do golpe de 2002 contra o falecido presidente Hugo Chávez, tanto ele quanto seu sucessor expurgaram dissidentes do Exército e implantaram um modelo de doutrinação ideológica semelhante ao das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba.

O alto comando militar, liderado pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino, repetem, vez ou outra, alguns slogans que lembram a Cuba de Castro.

“Independencia y Patria Socialista” ou “Viviremos y Venceremos” são apenas alguns deles.

Com Chávez e Maduro, a Venezuela adotou outros elementos típicos da doutrina militar cubana, como a chamada “guerra popular”, pela qual grupos de milicianos se juntariam às forças regulares para responder no caso de um hipotético “ataque imperialista”.

Essa união de “exército e povo” foi experimentada em manobras militares que estão cada vez mais focadas nesse aspecto e nas táticas de guerrilha.

Comentados há anos, os laços militares entre Cuba e Venezuela permanecem envoltos em grande sigilo. Mas a imprensa estatal na ilha se referiu a um atual “acordo técnico militar”, que incluiria a formação de pessoal venezuelano por oficiais cubanos.

Vários analistas indicam que a colaboração de profissionais cubanos no campo da saúde e da educação foi acompanhada por assessores militares e de inteligência. Segundo informações publicadas na imprensa venezuelana, o ministro da Defesa venezuelano tem um assessor cubano.

Pouco depois de declarar-se “presidente interino” da Venezuela, Juan Guaidó afirmou que os cubanos deveriam deixar as Forças Armadas.
BBC

Brasil,Hamilton Mourão,Ditadura,Tortura,Blog do Mesquita

Mourão: “Há gente que diz que foi torturada e não foi. E outros que foram e não falam nada”

Brasil,Hamilton Mourão,Ditadura,Tortura,Blog do Mesquita

O vice-presidente, Hamilton Mourão, em seu gabinete, em Brasília. ROMERIO CUNHA VPR

Ao EL PAÍS, vice-presidente diz que militares estarão na reforma da Previdência e que crê que o termo “ditadura” será revisto pelos historiadores. Para ele, Governo não propõe “aliança cega com EUA”

O vice-presidente Hamilton Mourão (Bagé, 1953), general da reserva do Exército brasileiro, recebe cordialmente em um amplo gabinete em um dos anexos do Palácio do Planalto. É direto. Não faz rodeios. Pouco altera o tom de voz. Faz piadas sobre um antigo comandante, que diz ter “fumado maconha” quando avaliou que Mourão assumiria a Presidência por um longo período antes de 2022.
E quase não foge de perguntas, mesmo quando tratam de assuntos que os militares pouco gostam, como a ditadura brasileira ou torturas ocorridas naquele período. O único assunto que não quis comentar detidamente foram as críticas feitas pelo guru do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho. “(Ele) está nos Estados Unidos, que aproveite o inverno”, diz, depois de afirmar que nem vê essas queixas. Na entrevista que concedeu ao EL PAÍS nesta quinta-feira, o vice-presidente disse que ele e o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se complementam – ainda que reajam de maneiras bem distintas quando sob pressão da imprensa.
Afirmou que os militares estarão na reforma da Previdência, mas não na mesma proposta de emenda constitucional elaborada para os civis, e que as Forças Armadas da Venezuela acabarão por abandonar Nicolás Maduro. Diante de uma repórter espanhola e de um brasileiro, ele preferiu responder aos questionamentos em um castelhano fluente, fruto de sua passagem como adido militar pela embaixada do Brasil em Caracas, entre os anos de 2002 e 2004.

Resposta. Sim, tranquilo porque o presidente Bolsonaro e eu somos parceiros há muito tempo. Nos formamos na academia militar do Brasil com dois anos de diferença. Eu em 75, ele em 77. Há uma visão muito comum de muitas coisas. Uma das razões pelas quais ele me escolheu para ser seu vice-presidente foi porque eu sabia que ele teria paz de espírito todas as vezes que deixasse o Brasil, porque ele teria aqui uma pessoa de sua mais íntima confiança.

P. O senhor disse que não seria um vice-presidente decorativo. Qual é a sua função?

R. O papel do vice-presidente é muito peculiar no Brasil, é um baluarte da democracia. Por que digo que é o baluarte da democracia? Porque se toda vez que o presidente tiver que deixar o país, se não houvesse vice-presidente, o presidente da Câmara dos Deputados estaria em seu lugar. E isso muda a cada dois anos. O vice-presidente garante a continuidade do pensamento do Governo. Eu acho que isso é importante. A outra coisa é que estou aqui para aconselhar o presidente em todas as questões que ele considera necessárias, e para ser um companheiro, um amigo, que ele pode dividir suas ansiedades e aflições.

P. E ele o tem procurado frequentemente?

R. Sim. Ele me procura quando necessário.

P. O senhor foi adido militar na Venezuela. Certamente conhece bem esse estabelecimento militar. Agora eles apoiam o presidente Nicolás Maduro, mas acha que eles continuarão a apoiá-lo? E por quanto tempo?

R. O que acontece é que os militares venezuelanos se envolveram tanto com o bolivarianismo que hoje é um pouco difícil ficar longe disso. Mas acho que, por pior que seja a situação, em algum momento terão o que todos nós, militares, temos, que é [o compromisso de] o nosso país estar acima das paixões. Isso vai emergir e então eu acho que eles vão abandonar o senhor Maduro.

P. Acha que deveria haver uma mudança de regime? E como você acha que deveria ser feita?

R. O que acontece é que a Venezuela precisa recomeçar. O processo que aconteceu lá destruiu a economia, dividiu a população do país, um país que tem um enorme potencial por causa de suas riquezas naturais e sua posição geográfica e uma população que não é muito grande. Então tem todas as capacidades e esse processo acabou por derrubar a economia venezuelana. E quando a economia vai mal, o país vai mal. E é óbvio que a forma como as coisas foram conduzidas, a maneira como os instrumentos da democracia foram usados, em que um grupo toma o poder por tanto tempo, não é bom.  Eu acredito firmemente que uma das condições básicas para um país avançar e para uma democracia ser forte é fazer uma alternância no poder. E estão no poder desde 1999, são 20 anos do mesmo grupo no poder. Isso não é bom.

“Onde estão as mulheres que querem participar da política? As mulheres brasileiras têm outros interesses”

P. Essa mudança tem que ocorrer via eleições?

R. Sim, essa mudança ocorrerá através do processo eleitoral. O movimento que eu acho que precisa para que a coisa seja resolvida na Venezuela é que Maduro e seu grupo deixem o país.

P. Em quanto tempo?

R. Eu não sei, você não pode colocar tempo para isso, mas eu acho que tem que sair. Eles deixam o país e esse rapaz que agora é presidente da Assembleia Nacional (Juan Guaidó) convoca novas eleições em três meses, seis meses, em um momento em que as coisas são consertadas e depois a Venezuela recomeça porque a economia precisa ser reconstruída no país. As pessoas têm que aprender a se relacionar umas com as outras, parar de ter ódio umas pelas outras, que o país seja unido novamente.

P. Com relação à Venezuela, a mudança na política externa do Brasil é notável. Também em relação aos Estados Unidos. O que o Governo de Bolsonaro espera conseguir com essa mudança radical, da nova aliança que está sendo forjada com os EUA e Israel?

R. Eu não acho que haja uma aliança, acho que o que acontece é que o nosso Governo tem uma ideia muito próxima e muito clara dos valores que caracterizam a democracia americana, então há uma identidade com esses valores. Este é o ponto principal porque os últimos Governos não foram muito claros sobre isso. Eu não vejo hoje como uma aliança cega do Brasil com os EUA, eu vejo isso como uma aproximação para os valores que eu acredito serem importantes para a América como um todo. A América surgiu com as ideias da Revolução Francesa, com as ideias do Iluminismo. A América era uma terra de liberdade, a América como um todo.

“Eu acredito que eu e Bolsonaro nos complementamos.”

P. Direito a voto, liberdades, separação de Poderes.

R. Sim, isso mesmo.

P. Falando disso. Em setembro de 2018, o senhor declarou, segundo a Folha de S. Paulo, de que o Brasil precisava de uma nova Constituição, que não precisa ser redigida pelos eleitos pelo povo, que preferia que fosse redigida por um conselho de notáveis. Ainda mantém essa opinião?

R. Sim, minha opinião pessoal é que nossa Constituição é muito grande. Sou defensor de uma Constituição menor que é apenas sobre os valores da democracia e do Brasil como país. Mas a forma como é redigida, pode ser pelo próprio Congresso, por uma Assembleia Constituinte eleita para isso ou, como me arrisquei na época, por um grupo de pessoas que tem muito conhecimento para escrevê-la e submetê-la a uma votação do Congresso ou da população.

P. E que seja votada?

R. Sim, que seja votada.

P. Mas que seja votara a posteriori, que os deputados não participem de sua redação.

R. O que aconteceu com nossa Constituição que temos hoje? Foi feita pelos deputados, que foram eleitos para representar o povo e, ao mesmo tempo, para serem constituintes. Eles tinham dois papéis nisso. E o que aconteceu? Os diferentes grupos de pressão colocam suas pequenas coisas na nossa Constituição, então temos essa Constituição por tanto tempo. Você imagina, em 30 anos você tem cem emendas. A Constituição americana tem mais de 200 anos e possui 27 emendas. Então, algo não está certo nisso.

” Umas (pessoas) vão correr a maratona toda e outras vão ficar pelo caminho porque essa é a natureza humana.”

P. As Forças Armadas estão comprometidas com a democracia no Brasil?

R. Não há dúvidas sobre isso. Se existe uma instituição que é democrática no Brasil são as Forças Armadas devido às suas próprias características. São as Forças Armadas que não constituem um grupo especial, as pessoas que estão nelas vêm de todos os pontos de todas as classes sociais. Eu acho até que a maioria delas vem da classe média baixa, são pessoas que conhecem muito bem o país e com ideais muito firmes de que a democracia é a melhor coisa para o país.

P. Alguns observadores nacionais e internacionais o consideram uma pessoa mais moderada do que o presidente. O que acha? É mais moderado?

R. Eu não acho que seja uma questão de moderação. Acho que o presidente e eu tivemos trajetórias diferentes em nossas vidas. O presidente é um político há 30 anos. Eu fui um soldado a vida toda. Então, com isso, temos visões um pouco diferentes sobre a maneira como nos conduzimos, mas há uma identidade de pensamento entre os dois. E obviamente há uma maneira de se expressar.

P. É natural?

R. Acho que sim, que é natural.

Mourão: “Há gente que diz que foi torturada e não foi. E outros que foram e não falam nada”
VPR

P. A maneira de tratar a imprensa…

R. É a minha maneira natural de tratar. O presidente tem a sua. Eu acredito que nós nos complementamos.

P. O senhor entrou no Exército durante a ditadura militar. Como classifica esse período de 1964 a 1985?

R. Sou um crítico de chamar de ditadura esse período. Sou um crítico muito forte porque, chamar de ditadura um período que, a cada quatro anos, mudava o presidente é uma ditadura muito diferente. Eu costumo dizer que foi um período autoritário, de um Governo que tinha instrumento de exceção, que foi o ato institucional número cinco. Se vocês olharem, esse foi um instrumento que vigorou de 1968 a 1979. Nos últimos seis anos do período, no Governo do presidente [João] Figueiredo não havia nenhum instrumento de exceção em suas mãos. Não pode, de nenhuma maneira, ser qualificado como um período ditatorial. E, no período inicial, do presidente Castelo Branco até a morte do presidente Costa e Silva, não havia esse instrumento. Isso a história, no futuro, vai estudar de uma maneira melhor. Naquele período houve um grande progresso econômico no país. O Brasil foi levado adiante. Éramos uma economia rural, uma indústria precária e, em dez anos, avançamos para um país industrializado. Ao mesmo tempo, houve um enfrentamento fruto da Guerra Fria, que havia naquele período. Os grupos marxistas e leninistas que existiam no Brasil diziam que estavam enfrentando a ditadura, mas na verdade estavam lutando para impor outra ditadura, a ditadura do sistema comunista. Foi uma guerra muito pequena para um país de 90 milhões de habitantes [na época]. Dos dois lados, somando, morreram pouco mais de 400 pessoas. Hoje, matam 60.000 no Brasil por ano e ninguém fala sobre isso.

P. Mas as pessoas não podiam votar. Não era uma ditadura?

R. As pessoas não votavam para presidente, mas elegiam seus representantes para o Congresso. Nas eleições do ano de 74 a oposição, o MDB, venceu as eleições. Que ditadura é essa? Depois, no período do presidente Figueiredo, quando se voltou a eleger os governadores dos Estados, a maioria dos Estados caiu nas mãos da oposição.

P. Pode-se, ao mesmo tempo, admirar a democracia dos Estados Unidos e dizer que esse período do Brasil foi bom?

R. O período teve seus erros, como tudo na vida. Mas era um momento diferente, uma geração diferente. Há que se perguntar isso desde os primórdios da República no Brasil. A minha visão, como uma pessoa que estudou um pouco a história é que, 1964 foi o ponto final das intervenções militares no Brasil. Foi a intervenção última. A transição do período de 64 para o atual período foi a única pacífica, ou sem golpe, de nossa história republicana. A República se inicia no ano de 1889, em 1930 há uma revolução, em 1945 Getúlio [Vargas] cai por outro golpe, depois há a mudança pela tomada de poder pelos militares, mas em 1985 os militares entregam o poder de forma pacífica e ordeira aos civis. Então, foi um regime que se auto-extinguiu.

P. E quais foram esses erros?

R. Creio que foi uma estatização excessiva no período do presidente [Ernesto] Geisel, quando se criou uma quantidade de empresas estatais muito grande. Deixamos de ter um sistema econômico mais liberal, como vinha do período do presidente Castelo Branco, para um momento de intervenção do Estado na economia que depois nos mostrou que não era a melhor forma de conduzir o país.

P. E a tortura?

R. A tortura é uma questão de guerra. Na guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. Há muita gente que diz que foi torturada e não foi. E outros que foram e não falam nada.

P. Não nega que tenha havido.

R. Que houve, sim. Mas era guerra. Guerra é guerra. E houve dos dois lados. Ninguém fala do tenente da Polícia Militar assassinado por chutes em sua cabeça por [Carlos] Lamarca e seu grupo. Ninguém fala disso. Há que colocar os dois lados de sua história.

P. No conselho de ministros sentam-se vários militares e ex-militares [são sete]. Qual é o papel dos militares em um Governo civil?

“[Olavo de Carvalho] está nos Estados Unidos, que aproveite o inverno”

R. Eles estão como civis. São ministros e atuam como civis. Óbvio que trazem sua bagagem, todo o seu conhecimento que tiveram no decorrer da vida das Forças Armadas. Mas há uma visão um tanto distorcida. O General [Augusto] Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional ocupa um cargo que é de militar, sempre foi. Quem são os diferentes? O general Santos Cruz, na secretaria de Governo, o almirante Bento [Albuquerque], no ministério de Minas e Energia, o senhor Tarcísio [Freitas, da Infraestrutura] foi militar, saiu do Exército há muito tempo. O Wagner [Rosário, da Controladoria Geral da União] também. Ele saiu como capitão. Então não são aquelas pessoas que tiveram toda a sua vida dedicada às Forças Armadas. Eu os considero distintos. Já eram civis e estavam nessa situação há algum tempo.

P. Acredita que os militares devam estar na reforma da Previdência?

R. Sim. E eles estarão.

P. Mas já nesse primeiro momento?

R. Está havendo uma confusão porque não há um sistema de previdência dos militares nos moldes do sistema bismarckianos, como conhecemos. São regimes distintos. O que acontece é que as mudanças para os militares podem ser feitas por meio de um projeto de lei, normal. É diferente da emenda constitucional que precisa ser feita para o regime geral. A visão do grupo militar é essa: uma vez que alguma coisa tem mais dificuldade, como uma emenda constitucional, ela tem de avançar. Quando ela for aprovada em primeiro turno, entra o projeto de lei dos militares, para que cheguem os dois juntos ao final.

P. Porque na prática esse projeto de lei é mais simples de se aprovar.

R. Sim, mais simples. Então, a preocupação dos militares é que se aprove o projeto de lei dos militares e a emenda constitucional, não é. Aí, só eles ficam nessa situação. Essa é a visão que eles têm e eu concordo com eles.

P. E haverá uma idade mínima para os militares?

R. Não. Para os militares não é o caso. Haverá o aumento do tempo de permanência no serviço ativo.

P. Pergunto porque, para nós, civis, soa estranho ver uma pessoa com 47, 48 anos se aposentando.

R. São situações distintas porque a carreira militar também impõe alguns tipos de dificuldades para a vida da pessoa, tem uma carga de trabalho que cada um tem de cumprir. Mas também não sou defensor que uma pessoa se aposente aos 47, 48 anos porque hoje um homem ou uma mulher com essa idade, ainda tem muito para fazer. Inclusive na parte física. Eu creio que, em um primeiro momento, vai avançar até os 35 anos de idade de serviço ativo e, talvez, em um futuro próximo, até mais. Quanto mais vivamos.

P. O que falhou para que, em três anos, acontecessem duas catástrofes similares como a de Brumadinho e a de Mariana? No caso de Brumadinho com um dano humano muitíssimo maior porque, agora há 110 mortos.

R. Vai ter mais de 300. O que acontece é que nós somos muito bons em legislação, mas péssimos em fiscalização. Há que fiscalizar, é isso. Não há muito o que argumentar. A lei existe, então, há que impor a lei. Na reunião do Conselho de Ministros, na terça-feira passada, eu citei uma frase do general [George] Marshall, que foi o chefe do Estado Maior do Exército americano na Segunda Guerra Mundial. Ele dizia que para cada dólar de soldo de um militar profissional, dez centavos correspondem às ordens dadas. E noventa centavos, à fiscalização. No Brasil é isso. Tem de fiscalizar.

“Somos muito bons em legislação, mas péssimos em fiscalização”

P. Como vê as críticas de Olavo de Carvalho aos militares que atuam no Governo Bolsonaro?

R. Não as vejo (risos).

P. Mas ele é tido como o guru do presidente Bolsonaro.

R. Nãaaao. Olavo de Carvalho não é… Deixa ele. Onde ele está? Na Pensilvânia que ele vive?

P. Não sei ao certo, sei que é nos Estados Unidos.

R. Está nos Estados Unidos, que aproveite o inverno.

P. O programa de governo não inclui propostas para a minorias, como as mulheres, os negros, os indígenas, a comunidade LGBT. Acredita que esses grupos não precisam de políticas específicas?

R. Acredito que é preciso ter políticas específicas para tirar as pessoas da pobreza. Existem pobres brancos, pobres negros, pobres indígenas. Então, se você tem políticas para tirar as pessoas da pobreza, que lhe dê empregos, que lhes dê educação, acesso à saúde e melhores condições de vida.  Que tenham uma habitação segura, com água, com tudo o que é necessário, independentemente da cor da pessoa. Há muito essa questão dos negros, há brancos e negros nesta situação. Se você vai em qualquer favela de nossas grandes cidades vai ver pessoas de todos os tipos. Óbvio que nas regiões de Sudeste e Nordeste há mais pessoas negras. Mas os pobres da região Sul são brancos. Há que tirar as pessoas da pobreza.

P. Uma vez que elas saiam da pobreza, entende que a igualdade está garantida?

R. Na minha visão de igualdade você tem de colocar todos juntos na linha de partida. E para colocá-los juntos você dá educação, saúde e segurança. A partir daí, você sabe que todas as pessoas são distintas. Umas vão correr a maratona toda e outras vão ficar pelo caminho porque essa é a natureza humana. O grande papel do Governo é que todas as pessoas comecem da mesma maneira. E não umas que conseguirão começar porque outras ficaram para trás porque não têm acesso a nada.

Mourão: “Há gente que diz que foi torturada e não foi. E outros que foram e não falam nada”

P. O ponto de partida em diversos países há quase cinquenta anos é quase igual ao dos homens. Todas recebemos a mesma educação que nossos irmãos, ou nossos namorados e maridos, mas não chegamos ao mesmo ponto. Somos mais da metade da população e estamos pouco representadas neste Governo, por exemplo. Isso porque não corremos bem a maratona ou porque o sistema não ajuda?

R. As mulheres são diferentes em todos os países. Aqui se fala muito disso, da representação política das mulheres. Olhe o Parlamento. Há uma legislação que obriga o partido político a ter três mulheres candidatas para cada dez homens. É difícil. Onde estão as mulheres que querem participar da política? Há muitas que não desejam. É complicado isso. As mulheres brasileiras têm outros interesses. Há grupos em que você vai encontrar pessoas que estão olhando para a política, mas a grande maioria não está. Esse é um avanço que o país terá de viver. Acredito que hoje a força da mulher no Brasil é muito ampla. Porque um grande número de mulheres administra suas casas sozinhas, por si próprias, um grande número de mulheres ocupa posições importantes em empresas privadas, em empresas públicas. Então, acredito que é um processo. E eu tenho toda a tranquilidade para falar isso porque minha mãe era uma mulher nascida nos anos 1920 e era uma pessoa que trabalhava, foi diretora de escola. Ela era uma pessoa à frente do seu tempo. Aprendi isso em minha casa.

“Minha visão de igualdade, você tem de colocar todos juntos na linha de partida”

P. Por que recebe tantos diplomatas? Em um mês foram quase dez.

R. Acho que eu os encanto (risos). Acredito que eles vêm aqui para fazer visitas de cortesia, para apresentar suas ideias de intercâmbios que podemos ter e manter o que há. São coisas de cortesia.

P. Seu amigo e ex-comandante, o general Paulo Assis, que foi o responsável por sua filiação ao PRTB, disse ao site Intercept que o via ocupando a presidência antes de 2022 de uma maneira mais longa do que ocupou recentemente. Como se sentiu ao saber disso?

R. Uma coisa que se fala na Venezuela… o general Paulo Assis, quando disse isso, fumou uma “lumpia” [um termo coloquial para dizer que “fumou maconha”]. (Risos). Quando cheguei ao PRTB disse ao presidente do partido Levy [Fidelix] que entrava no partido por uma única situação. Caso Bolsonaro necessitasse de nós, na posição de vice-presidente, nós iríamos com ele. Somente isso, nada mais.

P. Não tem pretensão de se tornar presidente?

R. Jamais tive. Minha pretensão foi a que logrei, de ser presidente do Clube Militar [no Rio de Janeiro]. Eu estaria tranquilamente na praia, sem problemas.

P. Quando diz nós, em quem estava pensando?

R. Nós, somos o partido. Eu e o PRTB.

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Venezuela: cerca de 3 milhões fugiram da crise política e econômica desde 2015, diz ONU

Êxodo impulsionado pela violência, hiperinflação e escassez de alimentos e medicamentos equivale a cerca de um em 12 da população do paísONU,Nações Unidas,Migração,Venezuela,Economia,Maduro,América Latina,Refugiados

Imigrantes venezuelanos viajam a bordo de um caminhão em Tumbes, Peru, perto da fronteira com o Equador, em 1º de novembro. Fotografia: Juan Vita / AFP / Getty Images

O êxodo dos venezuelanos que fogem da crise econômica e política em sua terra natal acelerou dramaticamente, alcançando um total de cerca de 3 milhões desde 2015, anunciou a ONU .

Os novos números mostram que cerca de um em cada 12 da população deixou o país, impulsionado pela violência, hiperinflação e escassez de alimentos e remédios.

A taxa de migração acelerou nos últimos seis meses, disse William Spindler, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que apelou por maiores esforços internacionais para aliviar a pressão sobre os vizinhos da Venezuela.

A vida é uma luta à medida que a inflação na Venezuela se aproxima de um milhão por cento

A Venezuela, rica em petróleo, entrou em crise com seu presidente socialista, Nicolás Maduro, que tem lutado para controlar a hiperinflação e reprimir os opositores políticos.

Dados da ONU em setembro mostraram que 2,6 milhões haviam fugido para países vizinhos, mas os governos regionais estão lutando para lidar com as consequências humanitárias e políticas de uma das maiores migrações em massa da história da América Latina .

“Os principais aumentos continuam a ser relatados na Colômbia e no Peru”, disse Spindler.

A Colômbia está abrigando 1 milhão de venezuelanos. Cerca de 3.000 mais chegam a cada dia, e o governo de Bogotá diz que 4 milhões poderiam estar vivendo lá até 2021, custando quase US $ 9 bilhões.

Cerca de 300 refugiados, que chegaram com nada além do que podiam carregar, fizeram acampamento fora do terminal de ônibus em Bogotá, capital da Colômbia.

“Quando você não consegue encontrar comida, quando sua filha pode ficar doente a qualquer momento, é quando você sabe que tem que sair”, disse Lozada, agarrando o bebê ao peito. “Mas aqui não temos trabalho, não temos nada para fazer, então podemos ter que voltar.”

Outrora uma garçonete em um restaurante sofisticado em Valência, a terceira maior cidade da Venezuela, ela agora passa seus dias implorando por pequenas mudanças fora de um shopping center.

Sem nenhum dinheiro para o resto da jornada, eles percorreram as 345 milhas restantes até Bogotá na esperança de encontrar trabalho. Eles atualmente vivem em uma barraca improvisada, dormindo em um colchão de acampamento que os moradores locais doaram.

” Essa foi uma caminhada longa e cansativa”, disse ela. “Um dia espero voltar para terminar meus estudos, mas é difícil ver as coisas melhorando”.

Maduro rejeitou os números da migração da ONU como ” notícias falsas ” destinadas a justificar a intervenção estrangeira nos assuntos da Venezuela.

“Maduro só se preocupa”, disse Augustín Pérez, de 51 anos, de Caracas, agora acampando em Bogotá com sua esposa e quatro filhos. “Ele não se importa com as pessoas sem nada para comer … enquanto todos os seus amigos engordam.”

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o ACNUR disseram que o êxodo estava sobrecarregando vários países vizinhos, especialmente a Colômbia.

“Os países da América Latina e do Caribe mantiveram amplamente uma política louvável de portas abertas”, disse Eduardo Stein, representante especial da ACNUR-IOM para refugiados e migrantes da Venezuela . “No entanto, sua capacidade de recepção é severamente tensa, exigindo uma resposta mais robusta e imediata da comunidade internacional.”

Depois da Colômbia, o Peru recebeu o segundo maior número de venezuelanos, com mais de 500.000. O Equador tem mais de 220.000, a Argentina 130.000, o Chile mais de 100.000, o Panamá 94.000 e o Brasil 85.000.

A resposta dos países latino-americanos à crise migratória marca uma grande diferença nos esforços da administração Trump para demonizar uma caravana de 7.000 migrantes , a maioria de Honduras, que atualmente atravessa o México em direção à fronteira sul dos Estados Unidos, onde planeja procurar asilo.

Adam Isacson, analista do escritório de Washington na América Latina, twittou : “Um especialista com quem falei hoje pontuou: como é que a Colômbia está recebendo 5.000 venezuelanos todos os dias, mas o governo dos EUA está em pânico com 7.000 centro-americanos? ?

Autoridades do governo regional devem se reunir em Quito, no Equador, de 22 a 23 de novembro, para coordenar esforços humanitários.
Joe Parkin Daniels/TheGuardian

Maduro está podre

Maduro, através de uma Assembleia Constituinte Ilegal e fraudada, acaba de fechar o Congresso da Venezuela.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A última vez que um Congresso Nacional foi fechado na América Latina, foi o do Peru, sob a ditadura de ultra direita do ladrão Alberto Fujimori – Dissolveu o Congresso, fechou o Poder Judiciário, o Ministério Público, o Tribunal Constitucional e o Conselho da Magistratura
Derrubado e julgado – Ele foi acusado de perseguir, sequestrar e matar opositores com o aparato militar e uma rede de veículos de imprensa sensacionalistas, além de ter mandado esterilizar sem consentimento mais de 300 mil mulheres, a maioria indígenas – foi condenado a 25 anos de prisão e hoje está preso.
A vez do Maduro chegará. Não tem Narizinho nem Lindberg Farinha que impeçam.

Venezuela: Derrubando uma ditadura com cocô

As ‘bombas de cocô’ que se tornaram ‘último recurso’ de manifestantes contra Maduro na Venezuela

Coquetéis 'cocôtov'
Frascos, garrafas e sacolas plásticas com fezes viraram armas nas mãos dos manifestantes venezuelanos – Direito de imagem REUTERS

Em redes sociais e grupos de WhatsApp, os protestos de quarta-feira na Venezuela estão sendo chamados de “marcha da merda”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O motivo são os coquetéis “cocotov“, a mais recente invenção dos opositores que promovem uma onda de manifestações contra o presidente Nicolás Maduro no país.

Como o nome sugere, são potes, frascos, garrafas, latas e sacolas plásticas com fezes. Foi lançando esses projéteis que manifestantes reagiram às bombas de gás lacrimogêneo das forças de segurança.

Manifestante segura coquetéis 'cocôtov'
Invenção foi usada em protestos contra o governo de Nicolás Maduro na quarta-feira – Direito de imagem REUTERS
Manifestantes se preparam para lançar coquetéis 'cocôtov'
Os coquetéis ‘cocôtov’ são lançados em reação às bombas de gás lacrimogêneo lançadas por forças de segurança – Direito de imagem REUTERS

Entre os opositores, circulam mensagens com instruções detalhadas e conselhos sobre como preparar as “bombas de cocô”.

Algumas mensagens dizem para evitar frascos de vidro, para garantir que os coquetéis apenas “humilhem” – e não machuquem.

Marielys Valdéz, do Tribunal Supremo de Justiça, entretanto, alertou que os “cocotov” são considerados “armas biológicas” – e que quem for utilizá-los corre o risco de ser severamente punido.

“O uso de armas químicas, neste caso, fezes de pessoas ou animais, geram consequências não só para quem é o alvo da arma, mas para a população, pode contaminar as águas”, destacou.

A apresentadora do canal estatal VTV que entrevistava Valdéz qualificou o uso dos “cocotov” como “bioterrorismo”.

Coquetéis 'cocôtov'
Circulam pela internet conselhos e instruções de como fabricar os coquetéis – Direito de imagem REUTERS
Manifestantes se preparam para lançar coquetéis 'cocôtov'
Um dos conselhos diz para evitar frascos de vidro para que bombas só humilhem e não gerem ferimentos – Direito de imagem REUTERS

Há cerca de um mês e meio, o país tem sido palco de protestos diários contra o governo do presidente Nicolás Maduro. A oposição quer o adiantamento da eleição presidencial e a libertação de presos políticos. Eles também rejeitam a convocação de uma Assembleia Constituinte por Maduro em 1º de maio.

O governo acusa a oposição de tentar dar um “golpe de Estado” e realizar “atos terroristas”. Desde que começaram essas manifestações, ao menos 39 pessoas morreram.

As duas vítimas mais recentes morreram na quarta-feira, nos hospitais em que estavam internadas após serem feridas em protestos contra Maduro em duas cidades venezuelanas. As mortes de Miguel Castillo, de 27 anos, em Caracas, e de Anderson Dugarte, de 32 anos, no Estado de Mérida, no oeste do país, foram confirmadas pelo Ministério Público.

Coquetel 'cocôtov'
Há um mês e meio, a Venezuela vive uma onda de protestos contra o governo de Nicolás Maduro – Direito de imagem REUTERS
Coquetel 'cocôtov'Os opositores do presidente exigem nova eleição presidencial e a libertação de presos políticos – Direito de imagem REUTERS

Ao menos 177 pessoas ficaram feridas durante o ato promovido pela oposição em Caracas na quarta, segundo informaram as autoridades.

Ainda que tenham sido emitidas advertências no dia anterior quanto à ilegalidade dos coquetéis “cocotov”, jovens com os rostos cobertos e capacetes usaram elásticos para lançar “bombas de cocô”, pedras e coquetéis molotov.

“Estamos na rua e vamos ficar. Não sairemos até que isso acabe, até que Maduro deixe o governo”, disse Luis Orta, um empresário de 52 anos.

O influente apresentador da TV estatal Mario Silva disse em sua conta no Twitter que o uso dos “cocotov” é um “ato de desespero, (…) de loucura”.