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Arte: Ex-Libris

Se você recebeu um livro para o Natal, como vai marcá-lo como seu?

Como a maioria de nós, você provavelmente não vai se incomodar, mas se você o recebeu antes do século 20, pode ter colocado um livro na frente da capa.

 

Uma história das Capas de Livros

Lembra das capas de livros? Se você era uma criança vagamente estudiosa, provavelmente recebeu um livro personalizado de uma tia em algum momento. Talvez tivesse um gato ou uma criança sentada à janela, um livro grande no colo.

Os Ex Libris eram uma maneira particularmente passivo-agressiva de indicar que você possuía algo: uma bela obra de arte escondia uma demarcação rígida entre o que era meu e o que era seu.

Ex Libris é latim para “mãos livres!”A variedade de estilos é ampla – desde uma capa de livro ornamentada e enfeitada com acanto de Newman Erb, a simples cabeça de lobo de Jack London até desenhos abstratos, como a paisagem urbana cubista de Bella Landauer com uma mensagem embutida.

De acordo com um artigo de Allison Meier sobre Hyperallergic, os Ex Libris foram desenvolvidos a partir de formas mais mágicas de proteger os livros:

Antes disso, havia a rima do livro, que era um poema expressivo que advertia o quão doloroso seria roubar o livro, que seguia coisas como maldições medievais de livros que faziam a mesma coisa de uma maneira mais ameaçadora e antagônica.

A Biblioteca do Congresso do Estados Unidose outras bibliotecas digitalizaram muitos de seus livros, que às vezes confirmam e às vezes subvertem as idéias de seus proprietários. Adolf Hitler, por exemplo, tem uma capa de livro exatamente tão bombástica quanto o esperado, com uma águia, uma suástica e uma coroa de flores e seu nome em uma espécie de cruz profana entre o roteiro gótico e o art déco.

Como em muitos casos, os proprietários não são nomes conhecidos, seus livros também convidam a especulações.

Embora os manuscritos antigos também apresentassem marcas de propriedade, o costume de afixar capas de livros nos livros começou na Alemanha em meados do século XV. Um dos primeiros livros que sobreviveu é o de Hilprand (ou Hildebrand) Brandenburg de Biberach, um monge em um mosteiro cartuxo em Buxheim, Alemanha.

Muitos livros antigos exibem um brasão porque a posse de livros era em grande parte um privilégio aristocrático e o dispositivo heráldico era suficiente para fins de identificação.

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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

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Os e-books não mordem

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Éramos seis naquela mesa redonda. Editores, romancistas, críticos literários, consultores. Tema da conversa: «Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?» Como se o fato de podermos trazer centenas de romances num aparelho fininho implicasse necessariamente uma guia de marcha para as estantes lá de casa. Quando me deram a palavra, pousei no colo os vários gadgets pelos quais distribuo as minhas leituras digitais (Kindle, iPad e iPhone), o que me fez sentir uma espécie de José Magalhães nos seus tempos de guru da pré-história da internet em Portugal (lembram-se?), e sublinhei uma evidência: o e-book não vai assassinar o livro em papel (pelo menos nas próximas décadas), nem substituir a experiência da leitura tradicional.

Mas os dois suportes podem perfeitamente coexistir, com as respectivas vantagens e limitações. Pela minha parte, a adaptação foi imediata e leio agora e-books naturalmente, como se eles sempre tivessem existido. Uma das vantagens, para além de os poder descarregar no próprio instante em que estão a ser lançados nos EUA ou no Reino Unido, é o acesso instantâneo ao dicionário de inglês, ao Google e à Wikipedia. Basta carregar na palavra que nos suscita dúvidas e a definição correspondente aparece na base do ecrã (ou o link para os sites referidos). E uma pessoa habitua-se tão depressa que já me aconteceu, ao ler livros em papel, sentir o impulso de carregar numa palavra que desconheço ou no nome de alguém que gostaria de pesquisar.

No debate, havia quem estivesse disponível para experimentar, mas também quem jurasse a pés juntos que desta água não há-de beber. O discurso típico de quem só vê na emergência do digital os seus perigos (que existem, entre eles o da rápida obsolescência tecnológica) mas nenhuma das suas virtudes. A questão, porém, é que os e-books não são uma fantasia futurista. Eles são a realidade de hoje. Ou, para os mais renitentes, de amanhã. Foi aliás muito curiosa a resposta que obtive à pergunta: «Mas algum de vocês já leu um e-book?» Pois.

Nenhum dos outros cinco participantes no debate tinha alguma vez lido um e-book. Ou seja, estiveram duas horas a falar de uma coisa que nunca experimentaram. Daqui a um ano ou dois, acreditem, a proporção vai inverter-se. Recordam-se da resistência inicial aos telemóveis? Alguns dos que se riam da hipótese de vir a andar com um aparelhômetro colado ao ouvido, que horror, agora não prescindem dos modelos de última geração, com internet e tudo. Mais: daqui a vinte anos o título do debate («Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?») vai parecer tão anacrônico como um debate que há vinte anos tivesse discutido «Vem aí o e-mail… Deito fora os meus postais?».

Parte do preconceito contra o livro digital nasce do facto de muita gente pensar que este é um mero clone dos livros em papel. Nada mais errado. Embora ainda só estejamos no início, já começam a aparecer livros-aplicação (a pensar nos tablets) que levam a literatura digital para outros patamares. Veja-se o caso da versão para iPad do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, nascida da parceria entre uma editora de vanguarda tecnológica (a Touch Press) e a prestigiadíssima Faber & Faber (detentora dos direitos). O resultado é avassalador.

Além dos versos, com as anotações de Eliot integradas, podemos ver em sincronia a interpretação do poema pela atriz Fiona Shaw, registos áudio de outras leituras (Ted Hughes, Viggo Mortensen, o próprio Eliot), vídeos com comentários de várias personalidades (de Jeanette Winterson a Seamus Heaney) e imagens da versão original com notas manuscritas de Ezra Pound. No momento em que escrevo, acabo de comprar outra aplicação igualmente espantosa: a «edição amplificada» do On the Road, de Jack Kerouac (Penguin), com mapas das suas viagens pelos EUA, biografias dos escritores da Beat Generation, documentos de arquivo, comparações entre rascunhos e versão definitiva, capas das edições internacionais (incluindo a da Ulisseia), etc. Já imaginaram o que se pode fazer com o Ulisses, com a Divina Comédia, com os livros do Pynchon, com os do Georges Perec? As possibilidades são infinitas. E eu mal vejo a hora de as poder desfrutar.

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

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Netflix vai lançar série baseada em “Cem anos de solidão”

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Plataforma anuncia primeira adaptação à tela do famoso romance do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Série será rodada na Colômbia, e estreia está prevista para meados de 2020.

A Netflix anunciou que vai produzir uma série baseada na obra Cem anos de solidão, do escritor colombiano e vencedor do Prêmio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez. Esse será o terceiro grande projeto em espanhol da plataforma, depois da série Narcos e do filme Roma, vencedor do Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro.

A série baseada na obra de García Márquez, que está em fase inicial e será filmada majoritariamente na Colômbia, terá os filhos do autor, Rodrigo e Gonzalo García, como produtores executivos da adaptação. Segundo a Netflix, a equipe do projeto será formada apenas por profissionais latino-americanos.

A plataforma comemorou “a primeira e única vez em mais de cinquenta anos que a família permitiu que o projeto seja adaptado à tela”. Em vida, García Márquez sempre se opôs à adaptação do livro para as telas.

“Durante décadas, nosso pai se mostrou reticente em vender os direitos cinematográficos de Cem Anos de Solidão porque acreditava que não podia ser feito com as limitações de tempo de um longa-metragem, ou que produzi-lo em um idioma diferente do espanhol não faria justiça a ele”, disse Rodrigo García em comunicado.

Para o filho do autor, este é um bom momento para realizar a adaptação para uma audiência global. “Com o alcance da Netflix, acredito que o trabalho, o autor, a Colômbia e o mundo de Macondo chegarão a um público mais vasto”, disse ao jornal colombiano El Tiempo. Ele também adiantou que a série deve estrear em meados de 2020.

Publicado em 1967, Cem anos de solidão usa o estilo conhecido como realismo mágico, misturando fantasia e realidade ao contar a história de sete gerações da família Buendia, começando pelo patriarca José Arcadio Buendía e sua prima e esposa Úrsula Iguarán, no fictício povoado colombiano de Macondo.

A obra vendeu cerca de 50 milhões de exemplares e foi traduzida para 46 idiomas. Seu sucesso é considerado fundamental para o reconhecimento internacional do escritor, que foi um dos principais nomes do boom de autores latino-americano nos anos 1960 e 1970, ao lado do peruano Mario Vargas Llosa e do mexicano Octavio Paz.

Gabriel García Márquez, cujas obras incluem Crônica de uma morte anunciada (1981) e Amor em tempos de cólera (1985), morreu em abril de 2014 aos 87 anos. Ele recebeu o Nobel de Literatura de 1982 pelo conjunto de sua obra.

MO/afp/Lusa/efe

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O encontro que ajudou sem-teto a se tornar escritor best-seller após 27 anos nas ruas

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Roughol pedia esmola na avenida Champs-Élysées quando encontrou o político Jean-Louis Debré

Jean-Marie Roughol viveu nas ruas de Paris por 27 anos, até que um encontro casual mudou sua vida. De sem-teto, ele se tornou escritor de um best-seller.

Ele pedia esmola na avenida Champs-Élysées, próximo ao Arco do Triunfo, quando Jean-Louis Debré, ex-ministro do Interior e ex-presidente da Assembleia Nacional da França, chegou de bicicleta.

“Eu estava tomando conta da bicicleta dele”, contou Roughol ao programa Outlookda BBC. “A gente estava conversando, quando ouvimos algumas pessoas dizendo: ‘olha, é aquele político, o Jean-Louis Debré, e ele está conversando com um mendigo'”.

O tom do comentário não agradou o político, que reagiu com uma proposta que abriria um novo capítulo na vida de Roughol.

“Naquele momento, a expressão de Jean-Louis mudou. Ele não gostou da forma que se referiam a mim. Foi nessa hora que ele falou: Jean-Marie, por que você não escreve um livro sobre sua experiência? Aí as pessoas vão ver como é a vida sob sua perspectiva. Vamos publicá-lo”, relembra.

Jean-Louis Debré, ex-ministro do InteriorDireito de imagem KENZO TRIBOUILLARD/AFP/GETTY IMAGES
Jean-Louis Debré, ex-ministro do Interior, encorajou Roughol a escrever o livro

O livro, intitulado Je tape la manche : Une vie dans la rue (“Eu peço esmola: uma vida na rua”, em tradução livre para o português), já vendeu 50 mil cópias.

“Eu jamais poderia imaginar que o livro seria um sucesso. Achava que se conseguisse vender 50 cópias, seria um milagre. E, de repente, eu estava concedendo um monte de entrevistas”, conta.

Era a primeira vez que Roughol se aventurava no mundo da escrita.

“Não comecei imediatamente. Se passaram 6 meses até eu pegar papel e caneta. Jean-Louis me encorajou a escrever quando eu pudesse, aos poucos. Eu sempre carregava um caderninho comigo e ia preenchendo com a minha história”, relata.

Jean-Louis Debré, que foi um político de perfil conservador e ministro durante a Presidência de Jacques Chirac, fez questão de se envolver pessoalmente na revisão da obra.

“Ele (Debré) achou uma editora para mim e fazia as correções”, relata Roughol. “Eu cometia muitos erros, já que não terminei a escola. Mas ele dizia: ‘não se preocupe, escreva o que você quiser e eu dou uma olhada”, diz.

Infância conturbada

O livro relata a trajetória de Roughol, que tem origem em uma infância conturbada.

“Eu era maltratado. Não tínhamos o suficiente para comer. Natal simplesmente não exisita. Aniversários nunca eram comemorados. Eu chorava no meu quarto. E uma vez, pensei em me matar”, conta.

Aos 12 anos, ele foi morar com o pai. Mas o ambiente tampouco era acolhedor.

“Meu pai era alcoólatra. Quando estava bêbado, me batia muito. Foi quando comecei a fugir de casa e matar aula. Minha infância foi um inferno. Foi uma época terrível. E isso eventualmente me levou a viver nas ruas.”

“Se eu tivesse pais normais e cuidadosos, minha vida seria bem diferente. Meu sonho na infância era ser arqueólogo. Eu era apaixonado por história”, relata.

Ele tinha 19 anos quando dormiu na rua pela primeira vez.

“Foi no dia seguinte que terminei de servir o Exército. Só tinha 200 francos comigo. Passei a noite no metrô. Esperei o último trem partir e passei a noite na estação”, recorda-se.

‘Um dia de cada vez’

Sem endereço fixo, Roughol não conseguia arrumar emprego. E, para completar, teve os documentos roubados.

“Eu pedia esmola então. Há alguns anos, as pessoas eram bem generosas. Eu passava de três a quatro horas por dia pedindo esmola e era suficiente para o dia. Recentemente, ficou mais difícil. Eu tinha que passar 15 horas por dia pedindo dinheiro. Quando se mora na rua, você vive um dia de cada vez”, afirma.

Além de lutar pela sobrevivência, ele convivia constantemente com o medo de ser roubado.

“É muito difícil encontrar lugares seguros para dormir. Você não quer ficar sozinho para não ser um alvo fácil para assaltantes. Já roubaram meus sapatos enquanto eu dormia. Na primeira noite, você dorme com um olho aberto. Na segunda noite, também. Na terceira, você está tão cansado que nada é capaz de te acordar. É nesse momento que os ladrões te atacam e roubam seus pertences”, afirma.

Apesar da fama repentina, Roughol continuou dormindo na rua por um período, até receber o primeiro pagamento pelo livro.

“Eu continuei pedindo esmola por um tempo. As pessoas eram mais generosas. Me viam na TV e vinham me dar dinheiro. Isso foi antes de eu receber os royalties pelo livro. Quando recebi o dinheiro, consegui meu próprio apartamento, onde vivo há um ano”.

Lar, doce lar

Da solidão das ruas para o conforto do lar, houve um processo de adaptação. A primeira noite em casa foi comemorada com uma bela refeição.

“No início, eu andava pelo apartamento, sem saber o que fazer. Na primeira noite, decidi fazer um bife. Nas ruas, você só come comida barata – sanduíche, kebab, pizza… Então na minha primeira noite no apartamento, eu queria comer algo bem bacana. Foi um momento incrível para mim”, diz.

Roughol se dedica agora a escrever seu segundo livro, uma adaptação da obra para o teatro. E espera que sua história inspire uma mudança de comportamento nas pessoas.

“O importante é não julgar as pessoas que vivem nas ruas. Todo mundo pode acabar na rua. Até mesmo CEOs de grandes empresas. Eu só espero que as pessoas se esforcem mais para falar com moradores de rua. Mesmo que você não dê dinheiro, converse com eles”, sugere.

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Brasil, um país do passado – Philipp Lichterbeck

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.Jared Diamond,Colapso,Literatura,LivrosÉ sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.

No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.

Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.

No Brasil atual, não se grita “herege!”, mas “comunismo!”. É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!

Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.

Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, “alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”, segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.

A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como “Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT”. Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.

Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a “musa do veneno” (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos).

Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.

O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.

Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.

Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.

Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.

Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo “criminalizados”. Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam.

Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A “Escola Sem Partido” tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como “asneira sem tamanho”.

A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão.

Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.

É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.

E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou “convexa”, e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.Jared Diamond,Colapso,Literatura,Livros,Brasil,Marxismo,Escola sem partido,Bolsonaro

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

Amazon entra no mercado de compra e venda de livros usados

Agora todo mundo pode vender livros novos ou usados na Amazon

Amazon: pessoas físicas e jurídicas podem vender livros dentro da Amazon.com.br (Chris Ratcliffe/Bloomberg)

Amazon: pessoas físicas e jurídicas podem vender livros dentro da Amazon.com.br (Chris Ratcliffe/Bloomberg)

Com novo marketplace na Amazon.com.br, sebos, editoras, livrarias e mesmo pessoas físicas podem vender livros novos ou usados pelo site da varejista

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]A Amazon está a caminho de se tornar a melhor amiga de sebos e de quem tem muitos livros encalhados em casa. Isso porque a empresa lança hoje seu marketplace para a venda de livros.

Com o marketplace, pessoas físicas e jurídicas poderão vender livros novos e usados dentro do site da Amazon. “Nosso foco neste lançamento é aumentar o nosso catálogo”, falou a EXAME.com o diretor para livros impressos da Amazon.com.br Daniel Mazini.

O resultado imediato deve ser bastante satisfatório para a empresa. Com alguns parceiros iniciais (que envolvem grandes sebos e até editoras), há um salto de 150 mil para 250 mil títulos em português sendo vendidos dentro do site—uma adição de 100 mil novos títulos portanto. Esse novos títulos são exemplares esgotados, raros, entre outros. A partir de hoje, o número de livros oferecidos deve aumentar com a abertura do cadastro de vendedores.

Para o consumidor, pouco muda. Ao entrar na página de um produto, o comprador poderá ver se aquele título é vendido por terceiros dentro do site. A listagem completa oferece informações sobre preço, estado do exemplar (caso não seja novo) e taxa de entrega. A partir disso, o cliente pode escolher se quer comprar da própria Amazon ou de algum outro vendedor.

Para quem vende

A Amazon oferece dois tipos de perfil de vendedores, o profissional e o não profissional. No profissional, é preciso pagar uma mensalidade (que não será cobrada nos primeiros 3 meses) de 19 reais que traz alguns benefícios (sobre os quais comento dentro de algumas linhas).

O não profissional não chega a ter limitações nas vendas, mas a depender do número de unidades de livros vendidos, acaba pagando mais do que a mensalidade dos profissionais. A cada livro vendido, uma taxa de dois reais deve ser paga para a Amazon. Além disso, a empresa fica com 10% do valor da transação–incluindo o preço do produto somado ao frete cobrado.

Por conta disso, a empresa aconselha que o vendedor assine a conta profissional caso tenha previsão de vender mais do que 10 livros ao longo do mês (10 x R$ 2 = R$ 20, número maior do que os 19 reais da assinatura). Toda a estrutura de pagamentos é gerenciada pela Amazon. O comprador pode, inclusive, escolher por pagar em vezes sem qualquer efeito para quem vende.

Outro benefício da novidade é a possibilidade de vender livros para o exterior—eles são Estados Unidos, Canadá e México (este último somente para os assinantes profissionais). “Finalmente poderemos concretizar um antigo sonho do nosso fundador, Sr. Messias A. Coelho: vender livros no exterior”, afirma em comunicado Cleber Aquino, gerente de e-commerce do Sebo do Messias, um dos parceiros iniciais da Amazon neste lançamento.

A assinatura da conta profissional ainda traz benefícios como atualização por API, criação de políticas de fretes diferenciadas por região do país, cadastro de múltiplos livros por tabela, entre outros.

Garantia Amazon

Tradicionalmente, a empresa fundada por Jeff Bezos tem uma obsessão de aliar preços baixos a uma experiência de alta qualidade para o consumidor.

Por conta disso, a Amazon ficará de olho em quem vende dentro de seu site. Reclamações constantes e problemas não resolvidos serão analisados e podem levar à remoção do vendedor do marketplace. Isso porque o comprador fica coberto pela Garantia de A a Z, da Amazon, ao efetuar uma compra no marketplace–seja a Amazon ou não o vendedor em questão.

Isso garante que o produto será entregue no estado de conservação cadastrado no site. Caso o vendedor não deixe o consumidor satisfeito, a Amazon entra em campo. A empresa poderá devolver o dinheiro integral do consumidor que se sentir lesado.

O marketplace para livros da Amazon entra no ar hoje. Você pode obter mais informações e se cadastrar como vendedor neste link.
Victor Caputo/Exame