Fernando Pessoa – Reflexões

Aprenda para que não pensem por você.
Somos Vítimas de uma Prolongada Servidão Coletiva

Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão coletiva. Fomos esmagados (…) por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reacionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, de maçons para quem a Maçonaria (longe de a considerarem a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbonária ritual. Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores.
Fernando Pessoa

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Afonso Duarte – Provençal – Poesia

Provençal
Afonso Duarte

Em um solar de algum dia
Cheiinho de alma e valia,
Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi

Como dantes inda vasto
Agora
Não tinha pombas nem mel.
E à opulência de outrora,
Esmoronado e já gasto,
Pedia mãos de alvenel.

Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi.

O seu chapéu, que trazia
Do calor contra as ardências,
Era o que a pena daria
Num certo sabor e arrimo
Com jeitos de circunferências
A morrer todas no cimo.

Davam-lhe franco nos ombros
As pontas do lenço branco:
E sem que ninguém as ouça,
Eram palavras da moça
Com a voz alta de chamar;

Palavras feitas em gesto,
Igualzinho e manifesto,
Como um relance de olhar.

E bela, fechada em gosto,
Fazia o seu rosto dela
A gente mestre de amar.

Foi num solar de algum dia,
Cheiinho de alma e valia,
Que eu disse de mim para ela
Por este falar assim:

Vem, meu amor!

E os dois iremos juntos pelos montes;
E o Sol abençoará, nosso tesoiro,
A seara, o pão da terra, o trigo loiro,
E como nós hão-de falar as fontes.

Vem, meu amor!

E terás os meus cantos, o que eu valho;
Vem: serás do meu sangue e meu suor!
Dê-me beijos e graça o teu amor
E encherás de ternura o meu trabalho.

Vem, meu amor!

E o fim do nosso dia, o sol poente,
Sem más obras na mente e coração,
Há-de sorrir à nossa casa, à gente.

Vem, meu amor!

Vem como o Sol doirado quando brilha
De juntinho da terra e em devoção
Ele a beija e fecunda à maravilha.

Pintura de Èduard Manet

Biblioterapia: A cura pela leitura

Literatura: Um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia, a biblioterapia vem ganhando adeptos no Brasil.
Mariane Morisawa/Valor, de São PauloLiteratura,Leitura,Livros

Um relacionamento que termina é sempre um motivo de tristeza ou de pausa para repensar a vida. Para superar a fase difícil, que tal um bom livro? “Flashman”, de George MacDonald Fraser, sobre um soldado britânico pouco recomendável, condecorado por heroísmo, pode distraí-lo de sua autopiedade. “Do Amor”, de Stendhal, pode auxiliá-lo a lidar com a melancolia, e “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton, pode servir mesmo de consolo. Acabou de perder o emprego?

Dureza, mas não se desespere! Uma boa pedida é rir com o conto “Bartleby”, de Herman Melville, sobre um empregado que recebe a solicitação para fazer uma coisa e diz preferir não fazer, mas estranhamente continua dia e noite no escritório. Já quem sofre pelo luto pode encontrar suporte em “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, de Dave Eggers, baseado na história do próprio autor, que perdeu os pais jovem e precisou cuidar do irmão, ou “Metamorfoses”, de Ovídio, que descreve as transformações de todas as coisas, da vida à morte.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Essas são indicações genéricas de Ella Berthoud, da School of Life de Londres, fundada em 2008. Na prática, as “receitas” são individualizadas. O interessado pode marcar uma consulta pessoalmente, por telefone ou Skype. Depois de responder a um questionário sobre suas preferências literárias e conversar com a especialista, recebe uma lista de livros mais adequados às suas aflições. Usar literatura para ajudar a superar alguma dificuldade ou dor tem nome: biblioterapia.

Desde a Antiguidade há relatos de prescrição de livros para enfrentar problemas cotidianos, mas só no século passado a prática ganhou esse nome e os primeiros estudos sobre seus benefícios, principalmente para doentes e presidiários. No Brasil, ela começa a ser difundida, com trabalhos principalmente em hospitais, ainda que não haja grupos fixos até o momento.

A biblioterapia pode ser um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia. A bibliotecária Clarice Fortkamp Caldin, autora de “Biblioterapia: um Cuidado com o Ser”, prefere fazer a distinção. “Biblioterapeuta é o psicanalista que se vale da leitura como uma das terapias, pois desenvolve a biblioterapia clínica com o intuito de cuidar das patologias psíquicas”, diz.

“O bibliotecário, a seu turno, desenvolve a biblioterapia de desenvolvimento, quer dizer, cuida do ser na sua totalidade, sem fazer julgamento do que é ou não normal. Costumo chamá-lo de ‘aplicador da biblioterapia’. Não é um título tão charmoso quanto o primeiro, mas me parece mais justo.”

Clarice começou a se interessar pelo assunto quando percebeu que o bibliotecário estava muito preso às funções técnicas, esquecendo-se do lado humanista da profissão. Em 2001, defendeu dissertação sobre a leitura como função pedagógica, social e terapêutica. Depois, elaborou um curso de 80 horas na Universidade Federal de Santa Catarina. Na sua opinião, a eficácia vem da falta de cobranças. “O aplicador de biblioterapia não prescreve uma norma de conduta nem um remédio a ser tomado em horários determinados.

Dela participa quem quiser, quem tiver vontade de escutar uma história”, afirma. “Essa história agirá no ouvinte do jeito que ele achar melhor ou mais conveniente naquele instante de sua vida. Será digerida lentamente, ficará na sua mente ou no seu subconsciente por tempo indeterminado e poderá ser retomada a qualquer momento.” E, como é grátis, não precisa ser interrompida se o dinheiro estiver curto.

Em sua experiência de quatro meses na ala pediátrica de um hospital em Santa Catarina, na qual se executou a biblioterapia por meio de leitura, contação, dramatização de histórias e brincadeiras, as crianças, segundo ela, esqueceram-se de que estavam em um hospital. Os familiares também se beneficiaram com o alívio do estresse. Num presídio feminino, as sessões de contos e poesias ajudaram as participantes a superar a sensação de impotência e a saudade dos maridos e filhos. Elas saíram do estado de prostração e chegaram até a escrever um jornalzinho interno.

Normalmente, a biblioterapia se dá em grupo.

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Guilherme Pavarin – Farol do sono

Farol do sono
Guilherme Pavarin

lua oculta, novo enigma:
entre os calos das falhas
as valas das dúvidas
desacatam o agora

na forja das grutas
cubro com dorflex e saliva
a coceira de lapidar
uma nova pedra bruta

hoje não há saída:
vedam-se os vagões
o aquário das intuições
partidas, bebidas

amanhã — torço —
os trilhos estarão a postos
um farol iluminará o fosso
a bússola virá como sopro

que a noite germine o ócio
da carne, cresçam os ossos
e o impensável
se torne óbvio

Foto de Gilbert Garcin

Como a literatura muda o mundo

Afinal, qual o papel da literatura?
Esta é uma pergunta feita dezenas de vezes a escritores por jornalistas e mediadores de festivais literários.

“Qual o papel”, neste caso, sendo uma tucanada da real provocação – “afinal, para que serve a literatura?”. Não é uma pergunta injusta. Em um mundo com tantos e tão crescentes problemas, porque alguns de nós nos apegamos tanto aos livros e às histórias?

De certa forma, O mundo da escrita, de Martin Puchner, ajuda a responder essa questão. Publicado em 2019 pela Companhia das Letras, o livro já foi comparado ao best seller Sapiens, do historiador israelense Yuval Harari em sua proposta de apresentar um passeio pelos textos fundadores de várias civilizações do mundo. O que é um ponto de partida bem interessante: terminei esse livro com uma vontade absurda de ler pelo menos cinco outros.

“Textos fundamentais alteram a maneira como vemos o mundo e também como atuamos nele”, explica o autor logo nas primeiras páginas. É uma definição simples, mas eficiente para o efeito que ele busca ao longo do livro. Puchner elenca textos promotores de mudanças estruturais na sociedade e que também foram acompanhados por saltos técnicos – difícil dizer na maior parte dos casos quem veio primeiro.

O livro é organizado em capítulos para cada texto abordado, e eles entre si ordenados de forma mais ou menos cronológica. Puchner teve a preocupação de apresentar diversidade, trazendo para sua lista tanto os clássicos da literatura ocidental como os do Oriente; tanto textos da Antiguidade quanto contemporâneos. Assim, começamos a jornada com a Ilíada, de Homero, a e terminamos com a série Harry Potter, de J.K. Rowling.

No caminho, passamos pela Epopeia de Gilgamesh, texto mesopotâmico de quase 4.000 anos; pelo primeiro registro do texto sagrado judaico pelo escriba Esdras (Babilônia, século IV a.C.); pelo Romance de Genjiescrito por uma japonesa mil anos antes de Dom Quixote – que também está na lista – fundando o que conhecemos hoje por romance literário. Há também o Popol Vuh dos maias e a Epopeia de Sundiata, sobre a fundação do império mali – história só registrada por escrito recentemente – e até o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.

Contando a história destas histórias, Puchner também vai registrando o surgimento das tecnologias que contribuíram para ou provocaram sua permanência ao longo do tempo. Por exemplo, é o surgimento do alfabeto fonético que permite o registro e a multiplicação da Ilíada, até então transmitida oralmente como um canto. Mas o poder, é claro, tem também o seu papel nessa sobrevivência.

A Ilíada era livro de cabeceira de Alexandre, o Grande, que ia para suas campanhas de conquista levando na bagagem a cópia anotada pelo seu mestre, Aristóteles. Alexandre também queria ser um herói digno de cânticos; guerreava à sombra de seus personagens favoritos, e espalhava cópias do texto em grego pelos lugares que conquistava, como forma de divulgar e estimular o aprendizado do idioma como a língua comum de seu vasto império.

História parecida é a da Epopeia de Gilgamesh e o rei assírio Assurbanípal. O texto remonta à própria criação da escrita, ainda em símbolos cuneiformes talhados em barro. Sua própria sobrevivência é quase um milagre: algumas tábuas em que a história estava registrada foram descobertas apenas no século XIX por exploradores ingleses, e incrivelmente preservadas, ainda que feitas de um material tão frágil.

Já a popularização do Romance de Genji é debitário da criação da imprensa na China, tecnologia que Gutenberg iria revisitar e melhorar séculos mais tarde na Alemanha, imprimindo outro texto fundamental para o Ocidente: a Bíblia traduzida pelo monge Martinho Lutero.

Embora pouco profundo, O mundo da escrita é um excelente panorama universal sobre as várias contribuições da literatura para a existência humana. Obviamente, nem todos os textos do mundo terão o papel fundamental quanto os mencionados aqui. Mas, como diz o próprio autor:

“A história da literatura é a história da queima de livros – um testemunho do poder das histórias escritas”.

Se não o tempo inteiro, a literatura serve periodicamente para mudar as estruturas da existência humana coletiva. E, no dia a dia, para divertir, instruir, emocionar ou no mínimo para incomodar uns bolsominions – o que também já está de ótimo tamanho.

Arte: Ex-Libris

Se você recebeu um livro para o Natal, como vai marcá-lo como seu?

Como a maioria de nós, você provavelmente não vai se incomodar, mas se você o recebeu antes do século 20, pode ter colocado um livro na frente da capa.

 

Uma história das Capas de Livros

Lembra das capas de livros? Se você era uma criança vagamente estudiosa, provavelmente recebeu um livro personalizado de uma tia em algum momento. Talvez tivesse um gato ou uma criança sentada à janela, um livro grande no colo.

Os Ex Libris eram uma maneira particularmente passivo-agressiva de indicar que você possuía algo: uma bela obra de arte escondia uma demarcação rígida entre o que era meu e o que era seu.

Ex Libris é latim para “mãos livres!”A variedade de estilos é ampla – desde uma capa de livro ornamentada e enfeitada com acanto de Newman Erb, a simples cabeça de lobo de Jack London até desenhos abstratos, como a paisagem urbana cubista de Bella Landauer com uma mensagem embutida.

De acordo com um artigo de Allison Meier sobre Hyperallergic, os Ex Libris foram desenvolvidos a partir de formas mais mágicas de proteger os livros:

Antes disso, havia a rima do livro, que era um poema expressivo que advertia o quão doloroso seria roubar o livro, que seguia coisas como maldições medievais de livros que faziam a mesma coisa de uma maneira mais ameaçadora e antagônica.

A Biblioteca do Congresso do Estados Unidose outras bibliotecas digitalizaram muitos de seus livros, que às vezes confirmam e às vezes subvertem as idéias de seus proprietários. Adolf Hitler, por exemplo, tem uma capa de livro exatamente tão bombástica quanto o esperado, com uma águia, uma suástica e uma coroa de flores e seu nome em uma espécie de cruz profana entre o roteiro gótico e o art déco.

Como em muitos casos, os proprietários não são nomes conhecidos, seus livros também convidam a especulações.

Embora os manuscritos antigos também apresentassem marcas de propriedade, o costume de afixar capas de livros nos livros começou na Alemanha em meados do século XV. Um dos primeiros livros que sobreviveu é o de Hilprand (ou Hildebrand) Brandenburg de Biberach, um monge em um mosteiro cartuxo em Buxheim, Alemanha.

Muitos livros antigos exibem um brasão porque a posse de livros era em grande parte um privilégio aristocrático e o dispositivo heráldico era suficiente para fins de identificação.

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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

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Os e-books não mordem

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Éramos seis naquela mesa redonda. Editores, romancistas, críticos literários, consultores. Tema da conversa: «Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?» Como se o fato de podermos trazer centenas de romances num aparelho fininho implicasse necessariamente uma guia de marcha para as estantes lá de casa. Quando me deram a palavra, pousei no colo os vários gadgets pelos quais distribuo as minhas leituras digitais (Kindle, iPad e iPhone), o que me fez sentir uma espécie de José Magalhães nos seus tempos de guru da pré-história da internet em Portugal (lembram-se?), e sublinhei uma evidência: o e-book não vai assassinar o livro em papel (pelo menos nas próximas décadas), nem substituir a experiência da leitura tradicional.

Mas os dois suportes podem perfeitamente coexistir, com as respectivas vantagens e limitações. Pela minha parte, a adaptação foi imediata e leio agora e-books naturalmente, como se eles sempre tivessem existido. Uma das vantagens, para além de os poder descarregar no próprio instante em que estão a ser lançados nos EUA ou no Reino Unido, é o acesso instantâneo ao dicionário de inglês, ao Google e à Wikipedia. Basta carregar na palavra que nos suscita dúvidas e a definição correspondente aparece na base do ecrã (ou o link para os sites referidos). E uma pessoa habitua-se tão depressa que já me aconteceu, ao ler livros em papel, sentir o impulso de carregar numa palavra que desconheço ou no nome de alguém que gostaria de pesquisar.

No debate, havia quem estivesse disponível para experimentar, mas também quem jurasse a pés juntos que desta água não há-de beber. O discurso típico de quem só vê na emergência do digital os seus perigos (que existem, entre eles o da rápida obsolescência tecnológica) mas nenhuma das suas virtudes. A questão, porém, é que os e-books não são uma fantasia futurista. Eles são a realidade de hoje. Ou, para os mais renitentes, de amanhã. Foi aliás muito curiosa a resposta que obtive à pergunta: «Mas algum de vocês já leu um e-book?» Pois.

Nenhum dos outros cinco participantes no debate tinha alguma vez lido um e-book. Ou seja, estiveram duas horas a falar de uma coisa que nunca experimentaram. Daqui a um ano ou dois, acreditem, a proporção vai inverter-se. Recordam-se da resistência inicial aos telemóveis? Alguns dos que se riam da hipótese de vir a andar com um aparelhômetro colado ao ouvido, que horror, agora não prescindem dos modelos de última geração, com internet e tudo. Mais: daqui a vinte anos o título do debate («Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?») vai parecer tão anacrônico como um debate que há vinte anos tivesse discutido «Vem aí o e-mail… Deito fora os meus postais?».

Parte do preconceito contra o livro digital nasce do facto de muita gente pensar que este é um mero clone dos livros em papel. Nada mais errado. Embora ainda só estejamos no início, já começam a aparecer livros-aplicação (a pensar nos tablets) que levam a literatura digital para outros patamares. Veja-se o caso da versão para iPad do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, nascida da parceria entre uma editora de vanguarda tecnológica (a Touch Press) e a prestigiadíssima Faber & Faber (detentora dos direitos). O resultado é avassalador.

Além dos versos, com as anotações de Eliot integradas, podemos ver em sincronia a interpretação do poema pela atriz Fiona Shaw, registos áudio de outras leituras (Ted Hughes, Viggo Mortensen, o próprio Eliot), vídeos com comentários de várias personalidades (de Jeanette Winterson a Seamus Heaney) e imagens da versão original com notas manuscritas de Ezra Pound. No momento em que escrevo, acabo de comprar outra aplicação igualmente espantosa: a «edição amplificada» do On the Road, de Jack Kerouac (Penguin), com mapas das suas viagens pelos EUA, biografias dos escritores da Beat Generation, documentos de arquivo, comparações entre rascunhos e versão definitiva, capas das edições internacionais (incluindo a da Ulisseia), etc. Já imaginaram o que se pode fazer com o Ulisses, com a Divina Comédia, com os livros do Pynchon, com os do Georges Perec? As possibilidades são infinitas. E eu mal vejo a hora de as poder desfrutar.

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

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Netflix vai lançar série baseada em “Cem anos de solidão”

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Plataforma anuncia primeira adaptação à tela do famoso romance do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Série será rodada na Colômbia, e estreia está prevista para meados de 2020.

A Netflix anunciou que vai produzir uma série baseada na obra Cem anos de solidão, do escritor colombiano e vencedor do Prêmio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez. Esse será o terceiro grande projeto em espanhol da plataforma, depois da série Narcos e do filme Roma, vencedor do Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro.

A série baseada na obra de García Márquez, que está em fase inicial e será filmada majoritariamente na Colômbia, terá os filhos do autor, Rodrigo e Gonzalo García, como produtores executivos da adaptação. Segundo a Netflix, a equipe do projeto será formada apenas por profissionais latino-americanos.

A plataforma comemorou “a primeira e única vez em mais de cinquenta anos que a família permitiu que o projeto seja adaptado à tela”. Em vida, García Márquez sempre se opôs à adaptação do livro para as telas.

“Durante décadas, nosso pai se mostrou reticente em vender os direitos cinematográficos de Cem Anos de Solidão porque acreditava que não podia ser feito com as limitações de tempo de um longa-metragem, ou que produzi-lo em um idioma diferente do espanhol não faria justiça a ele”, disse Rodrigo García em comunicado.

Para o filho do autor, este é um bom momento para realizar a adaptação para uma audiência global. “Com o alcance da Netflix, acredito que o trabalho, o autor, a Colômbia e o mundo de Macondo chegarão a um público mais vasto”, disse ao jornal colombiano El Tiempo. Ele também adiantou que a série deve estrear em meados de 2020.

Publicado em 1967, Cem anos de solidão usa o estilo conhecido como realismo mágico, misturando fantasia e realidade ao contar a história de sete gerações da família Buendia, começando pelo patriarca José Arcadio Buendía e sua prima e esposa Úrsula Iguarán, no fictício povoado colombiano de Macondo.

A obra vendeu cerca de 50 milhões de exemplares e foi traduzida para 46 idiomas. Seu sucesso é considerado fundamental para o reconhecimento internacional do escritor, que foi um dos principais nomes do boom de autores latino-americano nos anos 1960 e 1970, ao lado do peruano Mario Vargas Llosa e do mexicano Octavio Paz.

Gabriel García Márquez, cujas obras incluem Crônica de uma morte anunciada (1981) e Amor em tempos de cólera (1985), morreu em abril de 2014 aos 87 anos. Ele recebeu o Nobel de Literatura de 1982 pelo conjunto de sua obra.

MO/afp/Lusa/efe

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O encontro que ajudou sem-teto a se tornar escritor best-seller após 27 anos nas ruas

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Roughol pedia esmola na avenida Champs-Élysées quando encontrou o político Jean-Louis Debré

Jean-Marie Roughol viveu nas ruas de Paris por 27 anos, até que um encontro casual mudou sua vida. De sem-teto, ele se tornou escritor de um best-seller.

Ele pedia esmola na avenida Champs-Élysées, próximo ao Arco do Triunfo, quando Jean-Louis Debré, ex-ministro do Interior e ex-presidente da Assembleia Nacional da França, chegou de bicicleta.

“Eu estava tomando conta da bicicleta dele”, contou Roughol ao programa Outlookda BBC. “A gente estava conversando, quando ouvimos algumas pessoas dizendo: ‘olha, é aquele político, o Jean-Louis Debré, e ele está conversando com um mendigo'”.

O tom do comentário não agradou o político, que reagiu com uma proposta que abriria um novo capítulo na vida de Roughol.

“Naquele momento, a expressão de Jean-Louis mudou. Ele não gostou da forma que se referiam a mim. Foi nessa hora que ele falou: Jean-Marie, por que você não escreve um livro sobre sua experiência? Aí as pessoas vão ver como é a vida sob sua perspectiva. Vamos publicá-lo”, relembra.

Jean-Louis Debré, ex-ministro do InteriorDireito de imagem KENZO TRIBOUILLARD/AFP/GETTY IMAGES
Jean-Louis Debré, ex-ministro do Interior, encorajou Roughol a escrever o livro

O livro, intitulado Je tape la manche : Une vie dans la rue (“Eu peço esmola: uma vida na rua”, em tradução livre para o português), já vendeu 50 mil cópias.

“Eu jamais poderia imaginar que o livro seria um sucesso. Achava que se conseguisse vender 50 cópias, seria um milagre. E, de repente, eu estava concedendo um monte de entrevistas”, conta.

Era a primeira vez que Roughol se aventurava no mundo da escrita.

“Não comecei imediatamente. Se passaram 6 meses até eu pegar papel e caneta. Jean-Louis me encorajou a escrever quando eu pudesse, aos poucos. Eu sempre carregava um caderninho comigo e ia preenchendo com a minha história”, relata.

Jean-Louis Debré, que foi um político de perfil conservador e ministro durante a Presidência de Jacques Chirac, fez questão de se envolver pessoalmente na revisão da obra.

“Ele (Debré) achou uma editora para mim e fazia as correções”, relata Roughol. “Eu cometia muitos erros, já que não terminei a escola. Mas ele dizia: ‘não se preocupe, escreva o que você quiser e eu dou uma olhada”, diz.

Infância conturbada

O livro relata a trajetória de Roughol, que tem origem em uma infância conturbada.

“Eu era maltratado. Não tínhamos o suficiente para comer. Natal simplesmente não exisita. Aniversários nunca eram comemorados. Eu chorava no meu quarto. E uma vez, pensei em me matar”, conta.

Aos 12 anos, ele foi morar com o pai. Mas o ambiente tampouco era acolhedor.

“Meu pai era alcoólatra. Quando estava bêbado, me batia muito. Foi quando comecei a fugir de casa e matar aula. Minha infância foi um inferno. Foi uma época terrível. E isso eventualmente me levou a viver nas ruas.”

“Se eu tivesse pais normais e cuidadosos, minha vida seria bem diferente. Meu sonho na infância era ser arqueólogo. Eu era apaixonado por história”, relata.

Ele tinha 19 anos quando dormiu na rua pela primeira vez.

“Foi no dia seguinte que terminei de servir o Exército. Só tinha 200 francos comigo. Passei a noite no metrô. Esperei o último trem partir e passei a noite na estação”, recorda-se.

‘Um dia de cada vez’

Sem endereço fixo, Roughol não conseguia arrumar emprego. E, para completar, teve os documentos roubados.

“Eu pedia esmola então. Há alguns anos, as pessoas eram bem generosas. Eu passava de três a quatro horas por dia pedindo esmola e era suficiente para o dia. Recentemente, ficou mais difícil. Eu tinha que passar 15 horas por dia pedindo dinheiro. Quando se mora na rua, você vive um dia de cada vez”, afirma.

Além de lutar pela sobrevivência, ele convivia constantemente com o medo de ser roubado.

“É muito difícil encontrar lugares seguros para dormir. Você não quer ficar sozinho para não ser um alvo fácil para assaltantes. Já roubaram meus sapatos enquanto eu dormia. Na primeira noite, você dorme com um olho aberto. Na segunda noite, também. Na terceira, você está tão cansado que nada é capaz de te acordar. É nesse momento que os ladrões te atacam e roubam seus pertences”, afirma.

Apesar da fama repentina, Roughol continuou dormindo na rua por um período, até receber o primeiro pagamento pelo livro.

“Eu continuei pedindo esmola por um tempo. As pessoas eram mais generosas. Me viam na TV e vinham me dar dinheiro. Isso foi antes de eu receber os royalties pelo livro. Quando recebi o dinheiro, consegui meu próprio apartamento, onde vivo há um ano”.

Lar, doce lar

Da solidão das ruas para o conforto do lar, houve um processo de adaptação. A primeira noite em casa foi comemorada com uma bela refeição.

“No início, eu andava pelo apartamento, sem saber o que fazer. Na primeira noite, decidi fazer um bife. Nas ruas, você só come comida barata – sanduíche, kebab, pizza… Então na minha primeira noite no apartamento, eu queria comer algo bem bacana. Foi um momento incrível para mim”, diz.

Roughol se dedica agora a escrever seu segundo livro, uma adaptação da obra para o teatro. E espera que sua história inspire uma mudança de comportamento nas pessoas.

“O importante é não julgar as pessoas que vivem nas ruas. Todo mundo pode acabar na rua. Até mesmo CEOs de grandes empresas. Eu só espero que as pessoas se esforcem mais para falar com moradores de rua. Mesmo que você não dê dinheiro, converse com eles”, sugere.