Brecht – Nunca diga não

Nunca
Bertold Brecht

Nunca digam: isso é natural!
Diante dos acontecimentos diários
Numa época em que reina a confusão
Em que escorre o sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbitrário tem força d lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Nunca digam: isso é natural!

arte digital/colagem José Mesquita

Saramar Mendes – Teus lábios de navegar – Poesia

Teus lábios de navegar
Saramar Mendes

Refazem teus lábios
minha pele lassa
e rios traçam,
de sangue em rebuliço
de mar sem tempo marcado,
teus lábios de me tomar.

Tanto tempo desfazes
com teus beijos
e o sol tem outro alumiar
de passeio e pipa, no ar
e a pele que com teus beijos devassas,
são rosas avermelhadas
de amor, guardando o viço,
o fogo de me queimar.

Tanto tempo, tanto amor
e conheço a saudade de cada pedaço meu
de onde tua língua lenta e doce se vai,
barco de me singrar.

Tanto teus lábios levam de mim
para jardins no mar
o ruim, a escuridão, o siso
e deixam, longe, longe…
em meus delírios, teus risos
em meus rios,
teus lábios a navegar.

Pintura: Toulouse Lutrec,1892,Beijo na cama,Detalhe

Max Aub,Literatura,Filosofia,Blog do Mesquita

Max Aub – Da Imaginação

Max Aub,Literatura,Filosofia,Blog do MesquitaReflexão na noite
Da Imaginação
 
A origem da decadência humana tem – em parte – a sua base numa estranha faculdade anti-racional a que chamam imaginação e que consiste em supor coisas diferentes das que existem. Traçando quimeras, são capazes de negar a evidência e quando dela têm conhecimento e a reconhecem, é para melhor se perderem em novas elucubrações.
 
Radicou nisto a maior dificuldade que tive para me entender com eles. Encontrei alguns capazes de se glorificarem dos seus defeitos para os fazerem perdoar.
 
Vendo visões, passam o tempo enganando-se uns aos outros, de boa-fé e até de má-fé, porque, toldados por esse absurdo, não concebem limites para a sua ilusão. Chegam a pretender que nisso reside a sua grandeza.
 
Max Aub, in ‘Manuscrito Corvo’
Dylon Thomas,Poesia,Literatura

Dylan Thomas – Poesia

Deita tranquilo, dorme em paz
Dylan ThomasDylon Thomas,Poesia,Literatura

Deita tranquilo, dorme em paz, tu, com tua chaga
Que arde e se retorce na garganta. Por toda a noite,
Sobre o mar silencioso, escutamos os rumores
Que vêm da chaga envolta num lençol de sal.

Sob a lua, distante tantas milhas, estremecemos ao ouvir
O som do mar flutuando como o sangue da sonora chaga
E quando o lençol de sal se rasgou numa tempestade de canções

As vozes de todos os afogados nadaram sobre o vento.
Abre uma senda através da lenta vela taciturna,
Lança ao vento, na lonjura, as rotas do barco erradio
Para que se inicie a viagem ao fim de minha chaga,

Ouvimos ecoar o som das ondas e o que diz o lençol de sal.
Deita tranquilo, dorme em paz, esconde a boca na garganta,
Ou teremos de obedecer, e cavalgar contigo por entre os afogados.

Tradução de Ivan Junqueira

Fernando Pessoa – Versos na tarde – 07/03/2018

Não digas nada!
Fernando Pessoa

Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.

José Luis Peixoto – Versos na tarde 28/01/2018

Amor
José Luis Peixoto

Amor o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

Maiakóvski – Versos na tarde 24/01/2018 – Poesia

Em lugar de uma carta
Maiakóvski

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua .
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor, meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Claes Andersson – Versos na tarde – 01/09/2017

Não se preocupam com os meios
Claes Andersson ¹

Tem cuidado com aquele que diz representar
a voz de muitos.
Talvez seja verdade.

Tem cuidado com aquele que diz que fala
apenas em seu nome.
Talvez seja verdade.

Tem cuidado com aquele que se limita a consentir
com a cabeça.
Amanhã o consentimento pode afetar-te a ti.

Tem cuidado com aqueles que só querem viver
a sua vida em paz.
Não se preocupam com os meios.

¹ Claes Andersson
* Helsínquia, Finlândia – 30 de maio de 1937

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Sylvia Plath – Versos na tarde – 28/06/2017

Canção de Amor da Jovem Louca
Sylvia Plath¹

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Tradução de Maria Luíza Nogueira

¹ Sylvia Plath
* Boston,Massachusetts – 27 de outubro de 1932
+Londres, Reino Unido – 11 de fevereiro de 1963

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