Fernando Pessoa – Poesia

Poema
Fernando Pessoa

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.

Florbela Espanca – Versos na tarde – 03/11/2017

Que importa?…
Florbela Espanca ¹

Eu era a desdenhosa, a indiferente,
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violência de paixão,
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as asas loiras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso e é frescura e graça!

Nela refresca a boca um só instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…

¹ Florbela De Alma Conceição Espanca
* Vila Viçosa, Portugal – 1894
+ Matosinhos, Portugal – 1930

Albano Martins – Poesia – Versos na tarde – 26/04/2017

Dois Poemas
Albano Martins ¹

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?
Como o calarei?

É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.

(in «Outros Poemas», 1951/52;
«Vocação do Silêncio», Poesia – 1950-1985)

¹ Albano Dias Martins
* Fundão, Portugal – 6 de agosto de 1930


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Fernando Pessoa – Versos na tarde – 25/03/2017

Ficções do Interlúdio – extrato
Fernando Pessoa¹

Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver
Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é
Mas porque não posso viver figuradamente
E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar
A condição da poesia é ignorar como se pode senti-la
Há coisas belas que são belas em si
Mas a beleza íntima dos sentimentos espelha-se nas coisas
E se elas são belas nós não as sentimos.

¹ Fernando Antonio Nogueira Pessoa
* Lisboa, Portugal – 13 de Junho de 1888
+ Lisboa, Portugal – 30 de Novembro de 1935

->>biografia


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Maria Augusta Ribeiro – Versos na tarde – 15/01/2017

Poema
Maria Augusta Ribeiro ¹

Se tu fosses ferro
Moldava-te ao lume
Se tu fosses onda
Fazia-te cais
Se tu fosses ouro
Não tinha ciúme
Se fosses pátria
Amava-te mais
Se tu fosses gente
Só por ti orava
Se tu fosses vida
Dava-te valor
Se fosses enfermo
Curava-te a dor
Se fosses impuro
Eu te protegia
Se tu fosses noite
Abria-te os braços
Abria-te o dia
Assim, como és sonho,
Faço-te em pedaços
E, com toda a calma,
Lanço-te na vala
Do lixo da alma.

¹ Maria Augusta Ribeiro
* Mirandela, Portugal – 1 de março
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Alexandre O’Neill – Versos na tarde – 27/12/2016

Gaivota
Alexandre O’Neill ¹

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

¹ Alexandre Manuel Vahía de Castro O’Neill
* Lisboa, Portugal – 19 de dezembro de 1924
+ Lisboa, Portugal – 21 de agosto de 1986
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Descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.

Autodidata, O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias.

Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua ação à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política portuguesa nos tempo da ditadura de Salazar, a PIDE.


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Nicolau Sião – Versos na tarde – 20/12/2016

Relíquia
Nicolau Sião ¹
(ao Le Clézio, c/ o velho abraço)

Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?
Não neste braço sujo cortado
Não neste tapete espesso neste bloco de apontamentos
onde se cruzam insultos rimas
Não no pequeno perímetro das veias

– afinal tudo tudo entre nuvens de carbono
semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve
onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo
O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.

Onde em que ilha de desolação
sufocado incerto esse silêncio soberano
onde jaz cerzido por traços de faca de pedra
Não não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto
saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem
Brilhante como celofane

O silencio que respira
Sim o silêncio morno de quem procura o vazio
ou de quem busca uma cor imersa na carne recordada
da mão faminta de muitos negrumes alheios
O silêncio que se recolhe
que se desdobra
que nos relembra de momentos e perdas
O silêncio que permutamos
O silêncio para além da luz entre os olhos de uma fera morta.

¹ Nicolau Sião
* Monforte do Alentejo, Portugal – 1946
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Poeta, pintor, publicista e ator/declamador. Publicou Os Objectos Inquietantes, Flauta de Pan, Assembleia Geral e Os Olhares Perdidos (poesia), Passagem de Nível e O desejo dança na poeira do tempo (teatro). Editada pela paulistana Ed. Escrituras/IPLB saíu no Brasil a antologia de poesia e pintura Olhares perdidos, organizada por Floriano Martins. Em Moçambique, pela mão de António Cabrita, publicou O armário de Midas e está programado Poemas dos quatro cantos(poesia).

Tem para sair As Vozes Ausentes (prosa diversa), Nigredo/Albedo – o livro das translações, Cantos do deserto, Escrita e o seu contrário (poesia), As estrelas sobre a casa(teatro), Em nós o céu (policial).

Traduziu Vestígios, de Gérard Calandre e Fungos de Yuggoth, de H. P. Lovecraft (publicado por Black Sun). É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. A Ass. Port. Escritores atribuiu-lhe em 92 o Prémio Revelação/Poesia. Vive em Atalaião, agregado populacional a nordeste de Portalegre.


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Sophia Andresen – Versos na tarde – 03/12/2016

Data
Sophia Andresen¹

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.

¹Sophia de Mello Breyner Andresen
* Porto, Portugal – 6 de Novembro de 1919
+ Lisboa, Portugal – 2 de Julho de 2004
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Melo e Castro – Versos na tarde – 18/11/2016

Arremesso
E.M.Melo e Castro ¹

a palavra é de PEDRA
a palavra é PEDRA
a palavraPEDRA
a palaPEvraDRA
a paPElaDRAvra
a PEpaDRAlavra
a PEDRApalavra
a PEDRA é palavra
a PEDRA é de palavra
A PEDRA É DE PEDRA

¹ Ernesto Manuel de Melo e Castro
* Covilhã, Portugal – 1932 d.C

Poeta, crítico, ensaísta e professor universitário português.
Formado em Engenharia Têxtil, em Bradford (1956), foi professor de Design Têxtil no Instituto Superior de Arte, Design e Marketing. Em 1998 obtém o grau de Doutor, em Letras, pela Universidade de São Paulo, onde é, hoje, Professor Catedrático.

À sua iniciativa se ficou devendo a publicação, no Jornal do Fundão e no Notícias de Luanda, de páginas especiais dedicadas à poesia experimental, sendo também um dos organizadores do segundo caderno de Poesia Experimental e de outras publicações como Hidra e Operação I.

 


Fernando Pessoa – Versos na tarde – 09/11/2016

Se tudo que há é mentira
Fernando Pessoa¹

Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.

¹ Fernando Antônio Nogueira Pessoa
* Lisboa, Portugal – 13 de junho de 1888
+ Lisboa, Portugal – 30 de novembro de 1935
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