Pablo Neruda – Versos na tarde – 12/09/2014

Soneto XXVII
Pablo Neruda ¹

Cantas e a sol e a céu com teu canto
tua voz debulha o cereal do dia,
falam os pinheiros com sua língua verde:
trinam todas as aves do inverno.

O mar enche seus porões de passos,
de sinos, cadeias e gemidos,
tilintam metais e utensílios,
chiam as rodas da caravana.

Mas só tua voz escuto e sobe
tua voz com vôo e precisão de flecha,
desce tua voz com gravidade de chuva,

tua voz esparge altíssimas espadas
volta tua voz pesada de violetas
e logo me acompanha pelo céu.

¹ Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 12 de Julho de 1904 d.C
+ Santiago, Chile – 23 de Setembro de 1973 d.C
Prêmio Nobel de Literatura em 1971


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Vicente Huidobro – Versos na tarde – 19/03/2014

O espelho de água
Vicente Huidobro ¹

Meu espelho, correndo pelas noites,
Torna-se arroio e foge do meu quarto.

Meu espelho, mais profundo que o orbe
Onde todos os cisnes se afogaram.

É um tanque verde na parede, e nele
Dorme tua desnudez ancorada.

Em suas ondas, sob uns céus sonâmbulos,
Os meus sonhos se afastam como barcos.

De pé na popa sempre me vereis cantando.
Uma rosa secreta intumesce em meu peito
E um rouxinol ébrio esvoaça em meu dedo.

(Tradução de Anderson Braga Horta)

¹ Vicente Huidobro
* Chile – 1893 d.C
+ Chile – 1947 d.C


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Juan Gélman – Versos na tarde – 28/08/2013

Arte Poética
Juan Gélman¹

Entre tantos ofícios exerço este que não é meu,
como um amo implacável
me obriga a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
sob a chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da
alma,
quando a enfermidade funde as mãos
a esse ofício me obrigam as dores alheias,
as lágrimas, os lenços saudadores,
as promessas no meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos do adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com
o sangue.
Nunca fui o dono de minhas cinzas, meus versos,
rostos escuros os escrevem, como atirar contra a
morte.

¹Juan Gélman
* Buenos Aires, Argentina – 1930 d.C


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Mario Vargas Llosa – Versos na tarde

Poema para a exorcista
Mario Vargas Llosa ¹

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.

Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras – cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão – trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.

Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.

Mas os combates nocturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afecto e de amizade.

¹ Mario Vargas Llosa
* Arequipa, Peru – 28 Março de 136 d.C


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Jorge Luis Borges – Versos na tarde

Elogio da sombra
Jorge Luis Borges¹

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.

Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

¹Jorge Luis Borges
* Buenos Aires, Argentina – 24 de Agosto de 1899 d.C
+ Genebra, Suíça – 14 de Junho de 1986 d.C

>> Biografia de Jorge Luis Borges

Pablo Neruda – Versos na tarde

Poema
Pablo Neruda¹

Ainda não estou preparado para perder-te
Não estou preparado para que me deixes só.
Ainda não estou preparado para crescer
e aceitar que é natural
para reconhecer que tudo
tem um principio e tem um final.
Ainda não estou preparado para não ter-te
e somente recordar-te.
Ainda não estou preparado para não poder ouvir-te
ou não poder falar-te,
não estou preparado para que não me abraces
e para não poder abraçar-te.
Ainda te necessito
e ainda não estou preparado para caminhar
pelo mundo perguntando-me… porque?
Não estou preparado hoje nem nunca estarei.
Te necessito.

¹Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 1904 | + Santiago, Chile – 1973
Prêmio Nobel de Literatura em 1971

Biografia de Pablo Neruda

Gabriel Garcia Marques – Escritor – Biografia

Retrato de Gabriel Garcia Marques

Gabriel José Garcia Marques
* Aracataca, Colômbia – 06 Março 1928 d.C
Prêmio Nobel de Literatura 1982

Gabriel José Garcia Márquez, a quem os amigos chamam de Gabo, nasceu às 9 horas da manhã do dia 6 de março de 1928 na aldeia de Aracataca na Colômbia, não muito distante de Barranquilla.

Seu pai, homem de onze filhos, tinha uma pequena farmácia homeopática, e seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias, cujas histórias encantavam o menino. Costumavam levar o neto ao circo; às vezes se detinha na rua, como se sentisse uma pontada, e com um sussurro, inclinando-se para ele, dizia: “Ay, no sabes cuánto pesa um muerto!” – referindo-se a um homem que matara. Gabo tinha 8 anos quando esse avô morreu: “desde então não me aconteceu nada de interessante.”

A família deixou então Aracataca (a macondo de seus livros) devido à crise da plantação bananeira, e Gabriel estudou em Barranquilla e no Liceu Nacional de Zipaquirá. Iniciou o curso de Direito em Bogotá entre 1947 e 1948, e nessa época publicou seu primeiro conto. Trabalhou como jornalista em Cartagena, Barranquilla e depois em El Espectador de Bogotá, onde fez grandes reportagens e críticas de cinema.

Em 1955 ganhou um concurso nacional de contos e foi enviado especial do jornal à Conferência dos Quatro Grandes, em Genebra; estudou no Centro Experimental de Cinema de Roma e fez uma viagem de três meses aos paises socialistas, radicando-se depois em Paris.

Em 1956 voltou à Colômbia para casar-se com Mercedes Barcha: tem dois filhos: Rodrigo e Gonzalo. Mais tarde trabalhou como jornalista em Caracas e em 1960 foi para New York como representante da Prensa Latina, agência cubana, nas Nações Unidas, indo em seguida para o México, onde viveu seis anos escrevendo roteiros para cinema.

Como influências que considera importante, Garcia Márquez indica as seguintes: Virgínia Woolf, Faulkner, Kafka e Hemingway, do ponto de vista técnico. Do ponto de vista literário, As Mil e Uma Noites, que foi o primeiro livro que leu aos 7 anos, Sófocles e seus avós maternos.