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Martha Medeiros – Entre amigos

Entre Amigos
Arte,Fotografia,Sarolta Bán,Blog do MesquitaPara que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, “A Identidade”, que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.

Martha Medeiros

Elisa Biagini – Versos na tarde – 13/01/2017

De uma ranhura
Elisa Biagini ¹

escrevo-me entre as
ranhuras, nos nós
do lenho, com a
sujeira embaixo do tapete:
o escuro, que espera
entrar, gruma-se
de olheiras.

como na folha
enrrugada
que se alisa
resta a
marca
ranhura
que nos colore
a tinta.
(nós nos encharcamos
de infinitas arestas)

só me avistam
em contraluz,
matéria como
clara de ovo,
pátina através dos poros
pelo entalhe:
um alfabeto braille
de ossos sequiosos
por sair.

e o dorso
ranha-se, estojo
de sementes
que empurram,
apartam-se em galhos,
moita de dedos
que nunca toca,
corta o ar a unhaço.

Tradução: Aurora Bernardini e Régis Bonvicino

¹ Elisa Biagini
* Florença, Itália – 1970

Formada em História da Arte Contemporânea. Mudou-se para os Estados Unidos para estudar e escrever uma tese de doutorado em Literatura Italiana Contemporânea. Trabalhou como professora em universidades norte-americanas, onde viveu por cinco anos. Seus poemas têm sido publicados em revistas literárias italianas importantes. Elisa Biagini publicou dois livros de poemas: Questi nodi (1993) e Uova (1999), este em versão bilíngüe italiano/inglês. Além disso, é tradutora da poesia de Sharon Olds e de Alicia Ostriker.


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Arentino – Versos na tarde – 04/01/2017

Soneto
Pietro Arentino¹

Amemo-nos sem termo nem medida,
pois que só para o amor temos nascido…
Vive por nosso amor! – é o meu pedido,
pois sem tal bem, que valeria a vida?

E se depois da vida já perdida
ainda se amasse. . . Eu, tendo já morrido
pediria outro amor – o bem querido –
para poder seguir gozando a vida.

Gozemos pois, tal como certamente
o primeiro casal no éden, ao ser
aconselhado assim pela serpente.

Que nos perdemos por amar se diz…
Tolice! Outra é a verdade, podes crer:
Só quem não ama sente-se infeliz!
Trad. de J. G. de Araújo Jorge

¹Pietro Aretino
* 1492 – + 1557 d.C

Compôs sonetos, embora mais festejado como autor das Cartas” (6 vols.) e dos “Diálogos”.
De Veneza, dominou príncipes, fidalgos, imperadores, cardeais e papas, que precisavam comprar, com ouro, o seu silêncio.
Além de livros de prosa satírica, escreveu “Sonnetti lussuriosi” (“Sonetos voluptuosos”), com 16 produções licenciosas (1525), compostos para os desenhos pornográficos de Giulio Romano.
Seu, cinismo e seu talento fizeram com que fosse chamado, ora o infame, ora o “Flagelo dos Príncipes”, ora “o divino Aretino”.


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Propércio – Versos na tarde – 22/02/2016

Elegia 1.1
Propércio ¹

Cíntia, com seu olhar, foi a primeira que me enfeitiçou
(infeliz, não tocado anteriormente por nenhuma forma de paixão).
O Amor, então, abateu-me a usual altivez dos olhos,
dominou minha cabeça, calcando os pés sobre ela,
e ao mesmo tempo me ensinou, falso que é,
a ter ódio das moças honestas e a viver sem pensar.
Tal loucura não me abandonou ainda, durante todo este ano,
e, no entanto, sou forçado a ter os Deuses como contrários a mim.
Milanião, Tulo, por não se esquivar a nenhum esforço,
pôde enfrentar a dureza da cruel filha de Iásio.
Quando vagueava, desatinado, nas grutas do monte Partênio,
e se defrontava com animais ferozes, de pêlo hirsuto,
foi atingido pelo golpe da clava de Hileu
e gemeu, cheio de dores, nos rochedos de Arcádia.
Mas conseguiu, dessa forma, dominar a donzela veloz:
só têm valia, no amor, as súplicas e os favores.
Em relação a mim, o Amor é vagaroso, não pensa em artifícios conhecidos
nem se lembra, ao menos, de percorrer os caminhos costumeiros.
Vós, porém, que conheceis as bruxarias para dominar a lua
e a arte de fazer sacrifícios em altares mágicos,
eia, vamos, transformai o coração da minha amada
e fazei que ela se torne mais pálida ainda que meu próprio rosto.
Aí, então, eu poderia crer que vos é possível dominar
os astros e os rios com os encantamentos da mulher de Citas.
Vós, meus amigos, que procurais levantar tardiamente o que caiu,
buscai auxílio para um peito doente.
Com intrepidez saberei sofrer o ferro e o ardor do fogo
para que haja liberdade de dizer o que a ira desejar.
Levai-me por entre os povos mais distantes, levai-me por entre as ondas,
para que mulher alguma possa conhecer meu caminho.
Quanto a vós, a quem um Deus de ouvido benevolente se mostrou propício,
permanecei aqui, e que estejais sempre juntos, na segurança do amor.
Vênus me atormenta nas noites amargas
e o Amor desocupado não me abandona em momento algum.
Por isso aconselho-vos: evitai este mal. Que cada um permaneça
junto ao objeto de seu cuidado e não mude o lugar do amor usual.
Se alguém fizer ouvidos moucos aos meus conselhos,
ai dele! com que dor relembrará as palavras que eu disse.

Tradução: Zélia de Almeida Cardoso

¹ Sextus Aurelius Propertius
* Umbria, Itália – 43 a.C.
+ Umbria, Itália – 17 d.C.

Poeta elegíaco e mitógrafo, representante da antiga escola de Calímaco e o mais característico da poesia elegíaca latina.

Filho de pais ricos, porém órfão paterno quando ainda era menino, recebeu da mãe uma boa educação. Mudou-se para Roma com a mãe (34 a. C.) e sem interesse pela vida administrativa ou a política, escolheu dedicar-se à poesia. Escreveu quatro livros de Elegias. O primeiro deles a ser publicado foi Cíntia, também conhecido como Monobiblos (28 a.C.). Essencialmente uma temática amorosa, teve tamanho sucesso que lhe possibilitou ingressar no círculo de Mecenas, do qual faziam parte Virgílio e Horácio. Esses dois poetas constituíram a principal influência da sua arte. No livro IV, publicação póstuma (16 a. C.), descrevia sobre lendas das fundações das cidades e a instituição dos ritos romanos. Pela riqueza estilística e hábil síntese de motivos estéticos, psicológicos e filosóficos, as elegias do livro quarto, são consideradas o ápice do gênero na poesia romana. Seus versos, muito traduzidos no Renascimento, inspiraram as Römische Elegien (Elegias romanas) de Goethe. Morreu em Roma e, apesar de sua linguagem vaga e obscura, poucos autores romanos são comparados a ele pelo seu poder de imaginação, força e calor erótico.


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Dante Alighieri – Versos na tarde – 16/06/2014

Soneto
Dante Alighieri ¹

Tão discreta e gentil se me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai, sentindo-se louvada,
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal dulçor,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração: Suspira!

¹ Dante Alighieri
* Florença, Itália – 1265 d.C
+ Ravena, Itália – 1321 d.C


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Vittoria Colonna – Versos na tarde – 17/08/2013

Quando me oprime…
Vittoria Colonna¹

Quando me oprime o peso do pecado,
Confusa, o olhar não ergo ao Criador;
Levanto o coração fiel, Senhor,
A Vós, por nosso amor crucificado.

Escudo em Vossas chagas tenho achado
Contra a ira divina e seu rigor;
Segura estou em Vós de que o temor
Em esperança e paz será mudado.

Em Vossa última noite suplicastes:
“Une, ó Pai, lá nos céus, quem em mim crê”.
Foi por nós Vossa prece derradeira.

Sem medo, pois, e (glória a Vós) com fé
Minh’ alma louva o zelo em que abrasastes
Com Vossa vida, minha culpa inteira.

¹Vittoria Colonna
* Nápoles, Itália – Abril de 1490 a.C
+ Itália – 25 de Fevereiro de 1547 a.C

Marquesa de Pescara, filha de Fabrízio, condestável do reino de Nápoles. Poetisa excelente e inteligência marcante do século XVI. Em 1509, casou-se com Fernando d’Avalos, marquês de Pescara, morto em combate, em 1525. Era uma apaixonada pelo marido, cuja morte chorou em poemas considerados admiráveis. Tem um lugar de destaque no quadro da poesia feminina da Itália.

Grande amiga de Miguel Ângelo, mas as relações, entre ambos, não ultrapassaram as raias do amor platônico. Ela definiu assim os seus contatos com o grande artista: “amizade estável e firmíssimo afeto”.

Escreveu 352 sonetos.


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Vittoria Colonna – Versos na tarde – 11/07/2013

“Quando o Grão Lume surge do Oriente…”
Vittoria Colonna¹

Quando o Grão Lume surge do Oriente
e o negro manto desta noite afasta,
quando na terra o gelo se desgasta,
dissolvido ao calor de um raio ardente,

a minha dor, que o sono suavemente
anestesiara, acorda mais nefasta.
E, quando aos outros o prazer se gasta,
é que revive o meu, mais docemente.

Assim me impele uma inimiga sorte:
procuro a escuridão, fugindo à luz,
odeio a vida, desejando a morte.

O que ensombra outro olhar no meu reluz.
Se fecho os olhos, abre-se, num corte,
a dor profunda que a meu sol conduz.
Tradução de Delson Tarlé

¹Vittoria Colonna
* Nápoles, Itália – 1492 d.C
+ Nápoles, Itália – 1547 d.C

Poetisa marcante do século XVI.
Marquesa de Pescara, filha de Fabrízio, nobre do reino de Nápoles.

Em 1509, casou-se com Fernando d’Avalos, marquês de Pescara, morto em combate, em 1525. Apaixonada pelo marido, escreveu poemas memoráveis nos quais chora a morte do amado.

Grande amiga de Michelangelo, mas as relações, entre ambos, não ultrapassaram as raias do amor platônico. Definia sua relação com o gênio renascentista como uma “amizade estável e firmíssimo afeto”. Escreveu 352 sonetos.


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Maquiavel – Reflexões na tarde – 08/06/2013

Ao magnífico Lorenzo, filho de Piero de Médicis
¹Nicolau Maquiavel

As mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as graças de um príncipe trazer-lhe os objetos que lhes são mais caros, ou com os quais o vêem deleitar-se; assim, muitas vezes, eles são presenteados com cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos dignos de sua grandeza.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Desejando eu favorecer a Vossa Magnificência um testemunho qualquer de minha obrigação, não achei, entre os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido por uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande diligência, longamente cogitado, examinando-as, agora mando a Vossa Magnificência, reduzidas a um pequeno volume.

E conquanto julgue indigna esta obra da presença de Vossa Magnificência, não confio menos em que, por sua humanidade, deva ser aceita, considerando que não lhe posso fazer maior presente que lhe dar a faculdade de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo que, em tantos anos e à custa de tantos incômodos e perigos, hei conhecido.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou de palavras empoladas e floreios ou de qualquer outra lisonja ou ornamento extrínseco com que muitos costumam descrever ou ornar as próprias obras; porque não quis que coisa alguma seja seu ornato e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do assunto.

Nem quero que se repute presunção o fato de um homem de baixo e ínfimo estado discorrer e regular sobre o governo dos príncipes; pois os que desdenham os contornos dos países se colocam na planície para considerar a natureza dos montes, e para considerar a das planícies ascendem aos montes, assim também para conhecer bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer a dos príncipes é necessário ser do povo.

Tome, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com a intenção com que eu o mando. Se esta obra for diligentemente considerada e lida, Vossa Magnificência conhecerá meu extremo desejo que alcance aquela grandeza que a Fortuna e outras qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice da sua altura, alguma vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão suporto uma grande e contínua má sorte.

Nicolau Maquiavel¹
* Florença, Itália – 03 Maio 1469 d.C
+ Florença, Itália – 20 Junho 1527 d.C
=>Biografia de Maquiavel

Eugenio Montale – Versos na tarde

O Girassol
Eugenio Montale ¹

Traz-me um girassol para que o transplante
no meu árido terreno
e mostre todo o dia
ao espelho azul do céu
a ansiedade do teu rosto
amarelento

Tendem à claridade as coisas obscuras
esgotam-se os corpos num fluir
de tintas ou de músicas. Desaparecer
é então a dita das ditas

Traz-me tu a planta que conduz
aonde crescem loiras transparências
e se evapora a vida como essência
Traz-me o girassol de enlouquecidas luzes.

¹ Eugenio Montale
* Gênova, Itália – 12 de Outubro de 1896 d.C
+ Milão, Itália – 12 de Setembro de 1981 d.C


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Cesare Pavese – Versos na tarde

Passarei pela praça de espanha
Cesare Pavese ¹

O céu estará límpido.
As ruas abrir-se-ão
na colina de pinheiros e de pedra.
O tumulto das ruas
não mudará esse ar parado.
As flores das fontes
salpicadas de cores
abrirão os olhos como mulheres
divertidas. As escadas
os terraços as andorinhas
cantarão ao sol.
Abrir-se-á aquela rua,
as pedras cantarão,
o coração baterá em sobressalto
como a água nas fontes –
será esta a voz
que subirá as tuas escadas.
As janelas saberão
o odor da pedra e do ar
matinal. Abrir-se-á uma porta.
O tumulto das ruas
será o tumulto do coração
na luz extraviada.

Serás tu – quieta e clara.

¹ Cesare Pavese
* St. Stefano Belbo, Itália – 1908 d.C
+ Turim, Itália – 1950 d.C


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