Poesia – José Régio – 20/07/2021

Boa noite
Poema do Silêncio
José Régio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
– Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição…)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista…

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá…

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio, in ‘As Encruzilhadas de Deus’

Poesia – Miguel Torga – 12/07/2021

Boa noite.
Ajuda
Miguel Torga

Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!

Poesia – Júlia Cortines – 11/07/2021

Interrogação
Júlia Cortines

Contemplo a noite: a cúpula estrelada
do firmamento sobre mim palpita;
meu olhar, que a interroga, embalde fita
o olhar dos astros, que não vêem nada:

— Nessa amplitude lôbrega e infinita
que inteligência ou força inominada
numa elipse traçou a vossa estrada,
estrelas de ouro, que o mistério habita?

Dizei-me se, transpondo a imensidade,
alguma coisa a vós minha alma prende,
um vínculo de amor ou de verdade.

Dizei-me o fim da nossa vida agora:
para que serve a luz que em vós resplende,
e a oculta mágoa que em meu seio mora?…

Blog do Mesquita,Literatura,Livros

Educação e leitura; Substituir José de Alencar, por exemplo

Artigo de Paulo Raviere

O assassínio de potenciais leitores
Em tempos de perseguição aos professores é uma afirmação um tanto incômoda, mas se existe uma função que as aulas de literatura vêm cumprindo com eficiência industrial em nosso país é a de assassinar potenciais leitores. Não é preciso uma pesquisa formal para intuir que a maioria dos estudantes que volta e meia escapam ilesos dessa chacina conhecida como Ensino Médio o conseguem exatamente por evitar o conteúdo que lhes foi empurrado goela abaixo. Talvez em algum momento até leiam Gregório de Matos, Graça Aranha ou Euclides da Cunha, mas muito provavelmente não é por conta deles que desenvolvem gosto pela leitura. Para alguns, grande parte dos clássicos permanecem indigestos mesmo após anos devorando livros, por conta do modo como lhes foram apresentados.

Nas escolas, a leitura é desvinculada da vida: martela-se por anos a importância de certos nomes e da leitura como um todo, mas não seu interesse. O foco está em nomes próprios, títulos, sinopses, cronologias, contextos, escolas literárias, gêneros, generalizações e sentenças deslocadas que haverão de substituir obras inteiras. Há pouco conteúdo específico, pouca legibilidade e liberdade, muita homogeneização. O problema não é a leitura programática, estudada, objetiva, mas ensinar esse método como o único possível. Assim, Memórias Póstumas de Brás Cubas pode ser lido porque vai cair numa prova, mas raramente o será por alguém bem deitado, sem prazos ou objetivos bem definidos, que preferiu ignorar o celular por alguns minutos.

O fetiche da leitura
A leitura, no Brasil, é um fetiche. Grande parte dos agentes fomentadores da importância dos livros – pais, educadores, livreiros, celebridades, políticos – não são, eles próprios, leitores. Essas pessoas alardeiam essa importância – pior, a anunciam com certa pompa – mas, por favor, jamais lhes deem livros como presente de Natal, pois elas nunca têm tempo para ler. Seus argumentos em favor da leitura são válidos: o desenvolvimento do pensamento crítico, a empatia, a alteridade, a diversidade e por aí vai, porém sugerem que o hábito em si é uma qualidade moral. E, acima de tudo, a leitura é vendida como a forma definitiva de aquisição de conhecimento.

A experiência também é indispensável: um estudante pode mergulhar em bibliotecas à procura de tratados sobre as propriedades dos sólidos na água e ainda assim afundar como uma bigorna ao saltar numa piscina. Lemos por toda a vida a respeito do amor e acreditamos compreendê-lo, até o inevitável momento em que nos afogamos em seus dissabores pela primeira vez, lição que nenhuma leitura minuciosa de Proust poderá ensinar tão bem. Há outros meios, e nem sequer a fruição é garantida. O que nenhum desses agentes alardeia é que a leitura pode ser um fim em si. E embora realmente gere seres empáticos, críticos e cosmopolitas, às vezes também produz monstros.

Monstros geniais
O pedantismo é um produto do fetiche. Conhecemos alguns leitores, e a despeito do que leem, não são muito diferentes das outras pessoas: almoçam no quilo, assistem futebol, vão ao banheiro, amam, escutam rock, se embriagam, votam, postam vídeos, contam piadas ruins, cometem erros – a única diferença é que geralmente estão lendo enquanto fazem isso. Mas por ser tão propagada a importância da leitura, muitos se acham melhores apenas por gostarem de ler. Nem é preciso chegar a tanto, na verdade – basta possuir uma biblioteca.

Mas a prova escancarada desse risco é que dentre os próprios autores que forram nossas estantes vários foram pessoas detestáveis ou defenderam ideias infames. Borges saudou Pinochet, Pound apoiou os fascistas, Heidegger os nazistas. Monteiro Lobato e Lovecraft escreveram ficção racista, Céline panfletos antissemitas, Knut Hamsun um elogio a Hitler. Villon matou um homem, Norman Mailer esfaqueou a esposa, Burroughs atirou na cabeça da sua. Nabokov, Thomas Bernhard, Patricia Highsmith, Salinger, Naipaul, embora gênios, eram todos intratáveis no convívio. E a monstruosidade é ainda mais mesquinha entre os leitores anônimos – poetas ressentidos, loucos de palestra, acadêmicos vaidosos, eruditos que têm crises de apoplexia devido à ignorância de seus alunos de 18 anos que jamais abriram um exemplar de Paraíso perdido.

Nosso anti-intelectualismo atávico e cada vez mais evidente é uma reação a esse pedantismo. Ninguém é necessariamente melhor, mais inteligente ou mais generoso por ter lido bons livros. No Brasil esses valores parecem ter sido invertidos, e muitos se consideram melhores, mais inteligentes ou mais generosos exatamente por jamais terem aberto um livro na vida. Mas não há receita: se a leitura não é garantia de humanidade, tampouco seria a sua falta. Por via das dúvidas, são mais sólidos aqueles argumentos em sua defesa – melhor ler do que não ler, como dizia Calvino. Dito isso, permanece a pergunta: como propagar a leitura no Brasil?

Abraçando a geleia geral
É bem incômodo idealizar uma educação nestes tempos filisteus, em que o sucateamento das escolas é um projeto político e os professores, uma classe historicamente miserável, são perseguidos de forma abjeta e sistemática. Por outro lado, este problema persistiu em tempos mais estáveis: em vez de tentar formar seres humanos, há décadas a escola é uma fábrica de robôs programados para preencher gabaritos.

Ainda assim, muita gente que sempre detestou ler continua interessada em narrativa, montagem, composição de páginas de histórias em quadrinhos, em fazer pinturas e fotografias, na escrita de diálogos, em performances, no que há de inexplicável na arte. Nossa necessidade de expressão é latente. Uma proposta realizável, embora radical, seria abandonar de vez a pompa e os manuais de literatura, desistir de Antônio Vieira, Odorico Mendes e da Prosopopéia, evitar certos didatismos e, em conjunção com as disciplinas afins, estimular a percepção e a criação.

Quem lê por prazer frequenta ao mesmo tempo obras díspares: o Rubaiyat convive com os ensaios de Lamb, Charlie Chan Hock Chye e a nova temporada do Demolidor na Netflix. Assim seria possível misturar gêneros, mídias, lugares e épocas, conforme a conveniência. Aproximar o estranho do habitual, o erudito do popular – como na “vida real”. Talvez fosse mais interessante analisar, em vez de linhas do tempo, as diferentes representações dos escravos brasileiros nos quadrinhos de Marcelo D’Salete, os romances de João Ubaldo Ribeiro e a música de Rincon Sapiência. No lugar das resenhas, a importância dos cenários urbanos em Bulldogma e Baudelaire. Visões opostas da guerra em Kubrick e Homero. Transições, leituras de imagens, velocidades, ritmos, modos de ler, modos de criar. Não há limites, não há método fechado – leitor algum enfrenta os cânones de cabo a rabo.

Um devaneio, claro, ainda mais em nosso contexto. Mas não devemos jamais ignorar o alerta de Epicuro na Carta sobre a felicidade (em tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore): “quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz”. Leiamos, portanto, por prazer, e deixemos Iracema para os especialistas (e eventuais interessados).

Bárbara Lia – Versos na tarde

Mar/absinto
Bárbara Lia

Nossos olhos de dezoito anos
acomodaram o mar
Sobrou a maré em torno
um sussurro de conchas
a nos acordar nas noites brancas

Nossos olhos de dezoito anos
beberem do mar/absinto
como ao vinho santo.

Nossos olhos embriagados.
Nossos olhos negros e azulados.
Uma sereia recolhendo a rede
os corações de dois poetas ali
enredados

Nossos olhos de dezoito anos.
Nossas almas milenares.
Nossos amores fracos à soleira da incerteza.
Tanta beleza em ti, Rimbaud!
Tanta ausência em mim!

E nas marquises
bêbados ainda caminham
buscando o sol
que você guardou prá mim

Pintura – Pablo Picasso “A bebedora de absinto”,1901

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Myriam Fraga – A Casa – Poesia

A Casa
Myriam FragaFotografia,Blog do Mesquita,Flickr

Pedra sobre pedra
Construí esta casa:
Tijolo, sonho e argila.

Custaram-me os alicerces
A metade da asa
Direita,
A outra metade,
Serviu de escora
Às traves que a sustentaram.

A asa esquerda perdeu-se
Na argamassa.

Esta casa, para fazer,
Levou-me anos
De solidão e fomes
Aplacadas.

Uma casa tão clara,
Aberta aos ventos,
E a cada dia sempre
Renovada.

Aqui plantei minha vida,
Nos esquadros
E soleira das portas.
Ancoradouro e barco,
Minha casa.

Daqui se ouvia o mar
E o canto das sereias,
Se nostálgico das janelas
O olhar se alongava.

Mas o perfume do incenso
Rolava nos altares, deuses lares,
E eu ficava e fui sempre
A guardiã da casa.

Pássaro do abismo,
Mensageiro da desgraça,
Meus olhos marinheiros
Pressentiram o desastre.

Ventos do sul sopraram
Sobre a casa. Marés de março
Enormes, com suas vagas,
Submergiram e arrasaram
Da soleira aos telhados.

Olho de furacão,
Espiral de sargaços,
Conheci o sumidouro,
A fúria da voragem.

Sobrevivente do escarcéu
Hoje, náufraga, na casa,
Sei que as paredes permanecem
Intactas, com suas marcas,
E novamente, aos poucos,
Com meus dedos quebrados,
Vou recompondo lentamente
A cumeeira arrasada.

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Hilda Hilst – Ama-me

Ama-me
Hilda Hilst

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Arte,Blog do Mesquita,P

Anibal Beça – Poesia – Literatura

Quinta Estação
Anibal BeçaArte,Blog do Mesquita,P

Não há recomeço possível.
Senão um olhar para trás.
A flor que murcha cai
não torna para o galho.

Por cima dos ombros
o outono perde a primavera
e as folhas secas
são tapetes grados
para amaciar pegadas.

Um murmúrio bate à nossa porta
e o vento inexorável
escarifica cicatrizes
no exato arrepio.

No pressentido encontro
– bandido convicto –
assalto o canteiro
dessa noite insone
e agasalho a alba
na gruta do sésamo.

 

Gerson Valle – Poesia

Fala das melodias
Gerson Valle

Chegávamos ao ponto
de falarmos por melodias,
enquanto nossos olhares
davam-se as mãos, percorrendo
um possível horizonte de encontros.
Que palavras haveriam de se formar
na dimensão pura de nosso olhar?
Escapa a emoção dos momentos,
forçando-nos a procurá-los
por cima dos armários,
pelas penas dos pássaros que passam,
ou condensá-los na forma de poesia,
que não devia estar aqui,
ser escrita ou pensada,
por ser poesia em si,
e mais nada.

Mas, não querendo esquecer a melodia,
escrevo e reescrevo a mesma poesia,
com medo que ela caia e se esvaia
como as folhas no outono,
e assim a retenho guardada
para os possíveis tempos mais duros
imprevisíveis do futuro.

Pintura de Paul Artot

Catulo da Paixão Cearense – Poesia

Tu passaste por esse jardim
Catulo da Paixão Cearense

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de amoras pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo nas rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se os íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansas nos leitos
Deste lindo amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sangüíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão.