Bárbara Lia – Versos na tarde

Mar/absinto
Bárbara Lia

Nossos olhos de dezoito anos
acomodaram o mar
Sobrou a maré em torno
um sussurro de conchas
a nos acordar nas noites brancas

Nossos olhos de dezoito anos
beberem do mar/absinto
como ao vinho santo.

Nossos olhos embriagados.
Nossos olhos negros e azulados.
Uma sereia recolhendo a rede
os corações de dois poetas ali
enredados

Nossos olhos de dezoito anos.
Nossas almas milenares.
Nossos amores fracos à soleira da incerteza.
Tanta beleza em ti, Rimbaud!
Tanta ausência em mim!

E nas marquises
bêbados ainda caminham
buscando o sol
que você guardou prá mim

Pintura – Pablo Picasso “A bebedora de absinto”,1901

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Myriam Fraga – A Casa – Poesia

A Casa
Myriam FragaFotografia,Blog do Mesquita,Flickr

Pedra sobre pedra
Construí esta casa:
Tijolo, sonho e argila.

Custaram-me os alicerces
A metade da asa
Direita,
A outra metade,
Serviu de escora
Às traves que a sustentaram.

A asa esquerda perdeu-se
Na argamassa.

Esta casa, para fazer,
Levou-me anos
De solidão e fomes
Aplacadas.

Uma casa tão clara,
Aberta aos ventos,
E a cada dia sempre
Renovada.

Aqui plantei minha vida,
Nos esquadros
E soleira das portas.
Ancoradouro e barco,
Minha casa.

Daqui se ouvia o mar
E o canto das sereias,
Se nostálgico das janelas
O olhar se alongava.

Mas o perfume do incenso
Rolava nos altares, deuses lares,
E eu ficava e fui sempre
A guardiã da casa.

Pássaro do abismo,
Mensageiro da desgraça,
Meus olhos marinheiros
Pressentiram o desastre.

Ventos do sul sopraram
Sobre a casa. Marés de março
Enormes, com suas vagas,
Submergiram e arrasaram
Da soleira aos telhados.

Olho de furacão,
Espiral de sargaços,
Conheci o sumidouro,
A fúria da voragem.

Sobrevivente do escarcéu
Hoje, náufraga, na casa,
Sei que as paredes permanecem
Intactas, com suas marcas,
E novamente, aos poucos,
Com meus dedos quebrados,
Vou recompondo lentamente
A cumeeira arrasada.

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Hilda Hilst – Ama-me

Ama-me
Hilda Hilst

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Arte,Blog do Mesquita,P

Anibal Beça – Poesia – Literatura

Quinta Estação
Anibal BeçaArte,Blog do Mesquita,P

Não há recomeço possível.
Senão um olhar para trás.
A flor que murcha cai
não torna para o galho.

Por cima dos ombros
o outono perde a primavera
e as folhas secas
são tapetes grados
para amaciar pegadas.

Um murmúrio bate à nossa porta
e o vento inexorável
escarifica cicatrizes
no exato arrepio.

No pressentido encontro
– bandido convicto –
assalto o canteiro
dessa noite insone
e agasalho a alba
na gruta do sésamo.

 

Gerson Valle – Poesia

Fala das melodias
Gerson Valle

Chegávamos ao ponto
de falarmos por melodias,
enquanto nossos olhares
davam-se as mãos, percorrendo
um possível horizonte de encontros.
Que palavras haveriam de se formar
na dimensão pura de nosso olhar?
Escapa a emoção dos momentos,
forçando-nos a procurá-los
por cima dos armários,
pelas penas dos pássaros que passam,
ou condensá-los na forma de poesia,
que não devia estar aqui,
ser escrita ou pensada,
por ser poesia em si,
e mais nada.

Mas, não querendo esquecer a melodia,
escrevo e reescrevo a mesma poesia,
com medo que ela caia e se esvaia
como as folhas no outono,
e assim a retenho guardada
para os possíveis tempos mais duros
imprevisíveis do futuro.

Pintura de Paul Artot

Catulo da Paixão Cearense – Poesia

Tu passaste por esse jardim
Catulo da Paixão Cearense

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de amoras pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo nas rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se os íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansas nos leitos
Deste lindo amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sangüíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão.

 

J.G de Araújo Jorge – Versos na tarde – 30/08/2018

Quando chegares
J.G de Araújo Jorge¹

Não sei se voltarás
sei que te espero.

Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.

A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé…

Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós…

Almandrade – Versos na tarde

Ponto de fuga
Almandrade ¹

Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?

Intimidade
sensualidade.

Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

¹ Antônio Luiz M. Andrade
* Salvador,BA.

É arquiteto, poeta e artista plástico baiano. Como artista plástico já participou de quatro bienais internacionais em São Paulo, além de várias outras exposições no país e no exterior. Editou em 74 a revista “Semiótica” e, seus poemas procuram dar às palavras intensidade plástica, forma. Publicou os livros “O Sacrifício dos Sentidos”, “Obscuridade do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno,” “Arquitetura de Algodão”.

Heriqueta Lisboa – Versos na tarde

Os lírios
Henriqueta Lisboa¹

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos – perfeitos! –
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei pergunta à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada entre lírios
adormecerei tranquila.

¹Henriqueta Lisboa
* Lambari, MG. – 15 de Julho de 1904
+ Belo Horizonte, MG. – 9 de Outubro de 1985

Escritora brasileira. Considerada pela crítica uma das poetas mais bem-sucedidas da moderna literatura do país.

Pouco conhecida do público, a mineira Henriqueta Lisboa foi consagrada por críticos do porte de Antônio Cândido e Alfredo Bosi como uma das poetisas mais bem-sucedidas da moderna literatura brasileira.
Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari MG em 15 de julho de 1904. Estudou no Colégio Sion da cidade de Campanha MG e dedicou-se ao magistério. Estudou línguas e letras no Rio de Janeiro e, em Belo Horizonte, lecionou literatura nas universidades locais. Desde o segundo livro, Enternecimento (1929), recebeu vários prêmios literários, inclusive a Medalha da Inconfidência de Minas Gerais, com Madrinha Lua (1952), e o Prêmio Brasília de Literatura (1971) pelo conjunto de sua obra.

Inicialmente identificada com o simbolismo, Henriqueta Lisboa aceitou a influência do modernismo, mas permaneceu fiel aos temas de sua terra e de sua gente. A partir de Prisioneira da noite (1941) atingiu um lirismo que, nas palavras de Alfredo Bosi, distingue-a como “sutil tecedora de imagens capazes de dar uma dimensão metafísica a seu intimismo radical”. Autora ainda de A face lívida (1945), seu livro mais importante, Flor da morte (1949), Lírica (1958) e outras obras.

J.G de Araújo Jorge – Versos na tarde

Quando chegares…
J.G de Araújo Jorge ¹

Não sei se voltarás
sei que te espero.

Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.

A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé…

Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós…

José Guilherme de Araújo Jorge
* Tarauacá, AC. – 20 de Maio de 1914
+ Rio de Janeiro, RJ. – 27 de Janeiro de 1987