Pressão da concorrência e expectativa do consumidor ameaçam gigantes da tecnologia

Inovação deixou de ser diferencial para se tornar obrigação de qualquer negócio que pretenda sobreviver. A zona de conforto virou espaço proibido até para a maior e mais tradicional das companhias

 | Divulgação

“Vivemos a quarta Revolução Industrial e quem não entender a inovação como uma necessidade diária vai abrir caminho aos que fizerem isso”. A defesa é de Claudio Carvajal Júnior, coordenador do curso de Administração e Gestão da Tecnologia da Informação da Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Ele lembra que o tempo da inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, impressão 3D, internet das coisas, realidade aumentada e machine learning não sóchegou, como se consolidou e trouxe consigo novos modelos de negócios.

A expectativa do consumidor impulsiona o lançamento de soluções transformadoras. E o aumento da qualificação dos concorrentes – que, em pouco tempo, torna o novo defasado – não dão chances à acomodação. “Nem a maior das organizações está imune aos efeitos da concorrência, ou pode visitar a zona de conforto se quiser continuar competitiva”, pontua Carvajal.

Veja exemplos de empresas que, diante de alterações de cenários, mudaram a estratégia de atuação ou, ao esperarem demais para isso, amargaram algumas crises.

Netflix

Desafio enfrentado – Em 1997, o Netflix iniciou as operações como um serviço online de locação de filmes. Dois anos depois, lançou um plano de assinatura em que os títulos que o cliente queria assistir em casa chegava por correio mensalmente e, ao devolvê-los, outros eram enviados. Em 2002, a companhia já tinha 600 mil assinantes e um catálogo de 11,5 mil títulos. Ao perceber alterações no comportamento do consumidor, lançou em 2007 o serviço de streaming – quando a transmissão de dados acontece de forma instantânea por meio de redes.

Solução encontrada – De 2008 a 2010, a empresa firmou parcerias com fabricantes de eletrônicos para que os filmes que disponibilizava fossem transmitidos em TVs, mas também em tabletes, computadores, videogames e smartphones. Há seis anos, enquanto a rede de locação Blockbuster pedia falência nos Estados Unidos, o Netflix ganhava o mundo. Em 2011 chegou ao Brasil e em 2013 iniciou a produção de séries e conteúdos originais, entre eles, sucessos de audiência como House of Cards e Orange is the New Black. Pelo custo atual equivalente a R$ 17,90 ou R$ 26,90 por mês, 81,5 milhões de assinantes distribuídos em todo o mundo aproveitam a tecnologia.

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Positivo Informática

Desafio enfrentado – Em 2010, a empresa viu seu lucro líquido despencar 74,1% no terceiro trimestre do ano, em relação ao mesmo período de 2009. Na época, a queda nas vendas dos computadores da companhia foi motivada, em parte pelo aumento da concorrência, em parte pelo barateamento de aparelhos importados. Depois, os resultados continuaram caindo. No quarto trimestre do ano passado, a receita da empresa reduziu 19,7%. A retração econômica, o aumento das vendas promocionais de computadores e tabletes decorrentes do excesso de estoque, além da permanente concorrência com a importação estão entre os desafios principais. A dificuldade acompanha um cenário global. Segundo a consultoria IDC, 2015 foi o pior ano da história para a indústria de computadores. No mundo, o índice de vendas caiu 10,4% e, no Brasil, 37%.

Solução encontrada – Há seis anos, a organização trabalha para diversificar atividades. Em 2010, expandiu as operações para a Argentina em busca de maior ocupação geográfica. Em 2012, apostou no ramo dos celulares. No segundo trimestre deste ano, viu suas receitas na área mais que dobrarem, chegando a R$ 164,4 milhões. A boa aceitação pelos oito modelos de smartphones da marca representou 78% da receita da categoria. Eles são distribuídos em onze mil pontos de vendas por todo o país.

De acordo com Mauricio Roorda, vice-presidente de Marketing e Produto na Positivo Informática, parte do bom resultado se deve à parceria com a Quantum, uma unidade de negócios que funciona dentro da Positivo, mas com autonomia e equipe própria. “Os aparelhos da marca têm maior valor agregado e excelente desempenho”, diz.

Ele também conta que uma parceria firmada com a VAIO no ano passado para produzir e comercializar computadores da marca no Brasil e a fabricação de aparelhos na África para um projeto de educação em Ruanda, em conjunto com a BGH, também devem trazer bons resultados. “Em abril deste ano, ainda entramos para a área de tecnologia aplicada à saúde”, lembra Roorda. A Positivo comprou 50% da startup curitibana Hi Technologies (HiT), que desenvolve soluções para monitoramento remoto de pacientes.

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Apple

Desafio enfrentado – O tempo áureo dos celulares da Apple pode estar chegando ao fim. Pelo menos, é o que sugerem números da companhia. No Brasil, no primeiro trimestre deste ano, as vendas de IPhones caíram 40% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram comercializadas 489 mil unidades. É a segunda forte retração trimestral. Segundo dados da consultoria Gartner, a condição foi sentida por quase todos os fabricantes de celulares. Juntos, eles venderam 25% a menos do que nos três primeiros meses do ano passado. O problema para a Apple foi que ela perdeu mais que a média. Sua queda só foi menor que a da LG, cujas vendas desabaram 58,4%. Por outro lado, as vendas da sul-coreana Samsung, concorrente direta da empresa, caíram apenas 15%. Globalmente, os resultados também não foram positivos. A comercialização de IPhones diminuiu 16% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. A falta de um lançamento realmente original e com alto valor agregado pelo ineditismo, é o que vem tornando o cenário difícil para a gigante.

Solução encontrada – Na busca por seguir faturando, a empresa declarou algumas vezes a intenção de apostar em realidade aumentada – quando informações do mundo real são exibidas em telas de aparelhos, como smartphones – e inteligência artificial. Apesar dos anúncios, nenhuma divulgação mais transparente das soluções foi feita até agora, o que motiva críticas e até dúvidas sobre a existência de estratégias reais. Por enquanto, a Apple contorna críticas que sugerem que ela possa ser ultrapassada por empresas como Amazon, Google e Facebook e jura trabalhar duro para não perder a “majestade”.

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Nokia

Desafio enfrentado – A Nokia chegou a ser líder global em celulares, mas foi ultrapassada por concorrentes como Apple e Samsung. Em 2007, quando o IPhone chegou ao mercado, ela detinha metade do mercado mundial de smartphones. Seis anos depois, o índice caiu para 3%. A empresa chegou ter valor de mercado de 200 bilhões de euros, mas, por não conseguir se adaptar à rápida ascensão dos smartphones, vendeu em 2013 suas operações de celulares à Microsoft por US$ 7,2 bilhões.

Solução encontrada – Em 2015, a Nokia renovou a estratégia de atuação ao entrar no ramo de fabricação de equipamentos para redes telecomunicações de operadoras globais como Deutsche Telekom e a China Mobile. Em maio deste ano, deu outra reviravolta e anunciou o retorno ao mercado de smartphones e tablets. Ela disponibilizou seus direitos e patentes à finlandesa HMD Global, que vai assumir a tarefa de criar as novidades e reconquistar o mercado.

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Kodak

Desafio enfrentado – Fundada em 1888 e criadora do filme fotográfico, a empresa não conseguiu acompanhar a transição do mercado para as máquinas digitais. Em 2012, pediu concordata e fez um empréstimo de US$ 950 milhões. Executivos que trabalharam na companhia chegaram a dizer que imaginaram um período de dez anos para que a transição para a realidade digital acontecesse. Mas ela veio em menos tempo. A Kodak chegou a investir no segmento de impressoras, só que a estratégia não compensou do ponto de vista econômico.

Solução encontrada – Em 2013, a Kodak anunciou sua saída da concordata e a conclusão do processo de reestruturação pelo qual passou. No ano passado, lançou na Europa e nos Estados Unidos o primeiro smartphone, feito em parceria com a inglesa Bullit. A Kodak Alaris, criada após a aquisição da marca pelo grupo inglês KPP, identificou que a produção de scanners e softwares para o mercado corporativo poderia ser um bom negócio. E a estratégia vem mantendo a sobrevivência da empresa, que continua na ativa, mas ainda longe de aproveitar a relevância de antigamente.
Com dados da GazetadoPovo/Claudia Guadagnin

Gigantes no passado, empresas lutam para se manter no topo

Elas já foram gigantes. Dominaram o mercado internacional em setores como tecnologia, internet e comunicação. Mas, ao longo dos anos, perderam espaço e tamanho e se tornaram empresas quase comuns. Algumas não conseguiram lidar com a concorrência, outras perderam a batalha da constante inovação para sobreviver ou manter o status.

Um exemplo de empresa bem sucedida que já não vai bem das pernas é a finlandesa Nokia, símbolo do sucesso global no setor de celulares. A companhia perdeu a liderança mundial de venda de smartphones em 2011 e anunciou recentemente a demissão de mais de 10 mil funcionários. Agora, corre o risco de tomar o mesmo caminho de outras antigas potências do mercado. Abaixo, CartaCapital reuniu uma lista de megaempresas que atualmente passam por dificuldades. Confira:

Kodak

De inventora das câmeras de mão à falência? Foto: Viktor Nagornyy/Flickr

A Kodak é, talvez, o maior exemplo de empresa bem sucedida em apuros.

A centenária inventora das câmeras de mão, famosa também por ter milhares de filmes de Hollywood feitos com seus rolos de celulóide e por ter registrado as primeiras imagens da Lua, entrou com pedido de recuperação judicial no Tribunal de Nova York em janeiro deste ano.

O objetivo é reestruturar seus negócios, que perderam espaço para as câmeras digitais pessoais e no cinema.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A empresa recebeu 950 milhões de dólares em uma linha de crédito de 18 meses do Citigroup para se organizar. Seria tempo suficiente para vender algumas de suas 1,1 mil patentes digitais e remodelar os negócios para garantir o salário de 19 mil funcionários.

No auge, a Kodak chegou a empregar 60 mil pessoas e ter 150 bilhões de dólares em valor de mercado. Nos últimos 15 anos, porém, seu preço caiu para 31 bilhões. Desde 2007, não registra lucro, falhou em estancar a perda de recursos e na tentativa de entrar no mercado de impressoras pessoais e comerciais. Até o final de setembro de 2011, a companhia tinha um total de ativos de 5,1 bilhões de dólares, mas com passivos de 6,75 bilhões.

Nokia

A Nokia perdeu em 2011 a liderança mundial em fabricação de celulares. Foto: John.Karakatsanis/Flickr

 

A empresa finlandesa já foi a maior fabricante de aparelhos celulares do mundo, posto que perdeu para a Samsung Electronics no ano passado. E 2011 não foi o melhor momento da empresa. Após 15 anos, a Nokia deixou de ser a líder em vendas de smartphones – que criou em 1996 -, ultrapassada pela Apple e a Samsung.

Há cerca de um ano, atravessa uma profunda reestruturação. Venderá, inclusive, a divisão de telefones de luxo Vertu. Para competir em melhores condições no mercado dos EUA, precisou reduzir o preço de um dos seus aparelhos mais famosos.

Em busca de maior competitividade, a empresa anunciou em junho o corte de até 10 mil empregos até fim de 2013 para reduzir gastos. A ideia é economizar 1,6 bilhão de euros.

No setor de smartphones, a queda estaria relacionada à escolha do sistema operacional dos aparelhos. Enquanto o Android ganha mercado, a Nokia utiliza o criticado Windows Phone desde fevereiro de 2011. Nos últimos cinco anos, a empresa perdeu 90% em valor, dois terços desde o início do uso da nova plataforma.

No final de junho, a Nokia tinha valor de mercado de 9,3 bilhões de dólares. Se quisesse, o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, poderia comprar com folga a empresa com sua fortuna de 15,1 bilhões de dólares. Algo impensável em 2000, quando a companhia valia 269 bilhões.

Yahoo

Em crise, Yahoo tenta não perder mais espaço com as vendas publicitárias. Foto: Yodel Anecdotal/Flickr

O Yahoo já foi gigante e reinou nos primórdios da internet. Mas nos últimos anos perdeu espaço em inovação e disputa com o Google a liderança em publicidade. Chegou inclusive a considerar uma fusão com a AOL, outra gigante da web em decadência.

Com o avanço das redes sociais, o Yahoo sofreu grandes perdas. A companhia que já chegou a valer cerca de 80 bilhões de dólares está avaliada em 22 bilhões. A queda ocorreu conforme a empresa perdia milhões de usuários e receitas de publicidade para o Google e o Facebook.

Em 2008, a companhia, dona do segundo maior sistema de buscas do mundo, rejeitou uma oferta de 47,5 bilhões de dólares feita pela Microsoft ao dizer que a empresa de Bill Gates subestimava a “marca global” da empresa e seus 700 milhões de visitantes por mês.

Na tumultuada gestão de Carol Bartz – demitida em 2011 -, a empresa tentou se reestruturar por meio de cortes de gastos que resultaram em 1,2 mil demissões nos EUA e no debelamento de seu patrimônio, encerrando diversos produtos como o buscador AltaVista, Delicious e Yahoo Buzz. Os esforços, no entanto, não diminuíram os prejuízos.

Sob o comando do Bartz, as vendas publicitárias do Yahoo, carro chefe da empresa, registram perda de 60% no mercado. Além disso, um acordo com o Google para aumentar a receita com o sistema de buscas não teve os resultados esperados. Atualmente, os mercados mais fortes da empresa estão na Ásia.

AOL

Hoje, a marca Huffington Post vale mais que a sua dona, a AOL. Foto: Jason Persse/Flickr

A AOL também surfou nos primórdios da intenet e lucrou bilhões de dólares ao se transformar no maior serviço de provedor da web no mundo. Mas, após o rompimento da fusão com a Time Warner, a companhia perdeu quase 800 milhões de dólares. A junção, que havia ocorrido em 2000, foi considerada extremamente mal-sucedida pelos críticos e rendeu à TW a “obrigação” de sustentar a parceira durante a duração do acordo.

O Google chegou a ser dono de 5% da AOL em 2005. À época, a empresa valia 20 bilhões de dólares. No ano passado, o valor havia despencado para 1,6 bilhão de dólares.

Em 2010, a empresa anunciou ter obtido um prejuízo de 1,06 bilhão de dólares no segundo trimestre daquele ano, que estava relacionada à queda das ações e a venda da rede social Bebo. A renda com os provedores caiu 26%. Na época, era esperado um lucro de 602 milhões de dólares.

Nos anos seguintes, a AOL continuou sofrendo com problemas de receita e conseguiu lucros modestos. Apostou em uma parceria com o Google para dividir as receitas obtidas com as pesquisas e publicidade no conteúdo da AOL no YouTube – principalmente shows musicais, além da busca por novos assinantes.

Para estancar as perdas, em 2011 a empresa comprou o site de notícias Huffington Post por 315 milhões de dólares. O portal é o único de notícias voltado apenas para a internet entre os 10 maiores do mundo. Com cerca de 25 milhões de visitantes mensais, foi o primeiro a ganhar o conceituado prêmio Pulitzer de jornalismo. Mas a crise é tamanha que a marca Huffington Post vale 358,6 milhões de dólares, mais que os 156,3 milhões da AOL, sua dona.

Sharp

Nos anos 80, a fabricante japonesa de eletrônicos era sinônimo de prestígio e eficiência. Foto: Reprodução

Nos anos 80, a fabricante japonesa de eletrônicos era sinônimo de prestígio e eficiência. A empresa conseguiu a marca histórica de não ter sequer um prejuízo anual entre 1953 e 2009, quando já estava em crise há anos. Seu mercado encolheu devido à disputa com a Sony e outras empresas. O clima incerto fez com que a empresa demitisse 1,5 mil funcionários e fechasse duas fábricas de LCD no Japão e algumas linhas de produção, além do corte de salários dos executivos. O prejuízo, naquele ano, foi de 990 milhões de dólares.

A Sharp tenta reverter as perdas desde então, mas apresentou para o fechamento do ano fiscal de 2011 – que terminou em março deste ano – previsão de prejuízo líquido de 4,66 bilhões de dólares.

Para estancar as perdas, a empresa vendeu neste ano 9,9% de suas ações ao Hon Hai Group, grupo de Taiwan que detém o controle de companhias como a Foxconn, por 1,6 bilhão de dólares. O acordo prevê a aquisição por parte da Hon Hai Precision Industry de cerca de 46,5% da unidade de fabricação de painéis de LCD da Sharp, localizada na cidade de Sakai, por 797,7 milhões de dólares. Garante também a compra de até 50% dos painéis produzidos na unidade no prazo de três anos. Especulações apontam que o investimento seria para produzir as telas de uma futura TV da Apple.

Mesmo em crise, a Sharp é líder na produção de LCDs.  Valia, em 2010, 12 bilhões de dólares.

No Brasil, a empresa deixou as prateleiras no final dos anos 90. Retornou operações no País nos anos 2000, mas mantém atuação com impressoras empresariais e televisores de LED da linha Aquos.
Gabriel Bonis/Carta Capital

A ruína da Kodak na era digital

Robert Shanebrook estaciona seu Dodge diante do imenso edifício da Kodak, em Rochester, Nova York.

Há mais de 40 anos, ele pôs os pés na empresa pela primeira vez, quando era ainda um jovem engenheiro.

Na época, a Kodak estava produzindo a câmera que iria captar as imagens da missão Apollo 11 e as fotos do primeiro homem na Lua.

Shanebrook continua ativo desde que se aposentou da Kodak, em 2003.

Por 35 anos, teve o privilégio de trabalhar – e viajar pelo mundo – para a empresa.

Ele estava na Kodak na década de 90, quando suas ações valiam US$ 70 cada.

Estava lá, nos anos 80, quando a companhia empregava 30 mil pessoas.

Nessa época, a maior preocupação dos funcionários era achar um lugar para estacionar.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Ele dirige seu carro pelo estacionamento coberto de neve, muito maior do que alguns campos de futebol, mas onde poucos carros estão estacionados. Hoje, a Kodak emprega menos de sete mil pessoas em Rochester, e as notícias que vêm da direção da empresa são devastadoras. Em 19 de janeiro, a Kodak viu-se obrigada a pedir recuperação judicial. “Devo chorar? Não. Estou surpreso? Sim. Tenho de me recuperar do choque.”

A medida adotada pela Kodak é considerada mais um símbolo da situação deprimente dos negócios nos Estados Unidos. Outros dizem que a Kodak é uma empresa que negligenciou os sinais dos tempos – e é a única culpada por ter cochilado no caminho em direção à ruína. Mas nenhuma dessas interpretações é correta. A Kodak simboliza as mudanças estruturais profundas que ocorreram em todo o mundo nos últimos anos.

Jobs

Nos 132 anos da Kodak, pessoas em todo o planeta se imortalizaram em Kodacolor, o primeiro filme em cores, lançado em 1942. Seu fundador, George Eastman, era aclamado como o Steve Jobs da sua época. Em 1900, Eastman deu aos consumidores a “Brownie”, primeira câmera fotográfica portátil que gerou uma nova ideia – fantástica e lucrativa – de negócio: a Kodak venderia câmeras e também ganharia dinheiro revelando os filmes usados nelas. O modelo durou mais de um século. Em 1999, a Kodak teve lucro recorde de US$ 2,5 bilhões.

A marca estava em toda parte. Entre 1928 e 2008, todos os filmes que ganharam o Oscar de melhor fotografia foram rodados com películas Kodak. Hoje, boa parte da produção de Hollywood é digital. Não era raro ver a empresa lançar até 30 novos produtos ao ano. Eram impressoras, fotocopiadoras, papel fotossensível e filmes de todos os tipos.

Shanebrook se pergunta: como a Kodak chegou à beira da falência? Como uma empresa que nos anos 70 produzia 90% de todos os filmes e 85% das câmeras nos EUA pode fechar? Como uma companhia tão inovadora podia implodir a ponto de o preço de sua ação cair até chegar ao nível de perder seu registro na Bolsa de Valores de Nova York? Se quer saber as respostas, prepare-se para surpresas.

Primeira digital

Para começar: quem acreditaria que foi a Kodak que criou a primeira câmera digital, em 1975? Era três vezes maior do que uma caixa de sapatos. Inventada pelo engenheiro da Kodak Steve Sasson, era simples e produzia imagens em preto e branco, com 0,01 megapixel. Por essas razões, a máquina não parecia um produto muito comercializável. Mas os técnicos da Kodak continuaram a aperfeiçoar os sensores que, mais tarde, foram parar nas câmeras Nikon e Leica. Na verdade, os executivos em Rochester não estavam dormindo. Estavam bem acordados – mas com um cenário de pesadelo à frente.

Larry Matteson, outro veterano da Kodak, também se lembra daqueles dias. Chegou a ser vice-presidente sênior. Hoje é professor na Universidade de Rochester. Quatro anos depois da invenção da câmera digital, Matteson foi incumbido de elaborar um relatório sobre o futuro da tecnologia digital para a diretoria da empresa. Seu relatório parece hoje profeticamente exato. Depois de décadas concentrada no setor da química orgânica e de filmes, provavelmente seria impossível – talvez insano em termos comerciais – a Kodak tentar se reinventar e transformar-se numa empresa de produtos eletrônicos. Além disso, suas operações com filmes ainda eram muito prósperas nos anos 70 e prometiam lucros durante muitos anos no futuro. E as magras margens do mercado digital nunca iriam se comparar às do filme analógico. Assim, há cerca de 30 anos, a Kodak viu-se diante de duas alternativas: cometer suicídio ou adiar sua morte.

Houve repetidas tentativas, não muito entusiasmadas, de reorganizar a empresa. Cada nova diretoria propunha uma estratégia diferente. A Kodak investiu em sua divisão de produtos químicos para entrar no campo farmacêutico. Também tentou dominar o mercado da impressão digital – plano implementado, abandonado e depois retomado.

O azar também contribuiu para a ruína. A Kodak reduziu a produção de filmes, ao mesmo tempo em que aumentou sua presença na área digital. Em 2005, chegou a ser a maior fabricante de câmeras digitais nos EUA. Mas, com smartphones substituindo câmeras digitais, caiu para sétimo lugar nos anos seguintes. Na rival Fujifilm, seus diretores tiveram a ideia de sair das operações na área química e partir para o setor de cosméticos.

A Kodak, se pretende sobreviver, vai precisar de um milagre. Como parte do seu processo de concordata, a companhia recebeu mais US$ 950 milhões em empréstimos do Citigroup para tentar colocar suas finanças em ordem dentro dos próximos 18 meses. A direção espera que a Kodak volte a prosperar com as impressoras, mas isso não convence muito, pois a empresa sempre esteve ligada a imagens. Não importa o quão maravilhosas elas sejam, as histórias sempre têm um fim. E talvez seja a mesma coisa com as empresas.

(Tradução de Terezinha Martino)
Estadão/Ulrich Fichtner, do Der Spiegeo

Apps facilitam edição de fotos em celulares e tablets; veja seleção

Nos anos 30 do século passado, a fotografia passou por uma revolução até então sem comparação, com a introdução das câmeras “rangefinders” (ou telemétricas).

Confira seleção de apps de fotografia; veja outros abaixo

Introduzidas por gigantes como a recém-quebrada Kodak e a alemã Leica, tinham como principais características a portabilidade e a capacidade de produzir ótimas fotos com discrição e agilidade em um mundo acostumado a trambolhos.

Hoje a revolução das câmeras digitais em dispositivos móveis é “giga” vezes maior e evolui de maneira sem precedentes.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O primeiro celular com câmera surgiu “ontem”, no ano 2000.

O grande destaque do momento já não são os aparelhos que fotografam, e sim os aplicativos, ou apps, que transformam o clique digital em arte viral.

A Folha escolheu alguns aplicativos para usar com uma foto simples, feita dentro da própria Redação.

A maior parte desses apps é gratuita ou custa em média US$ 1, e muitos são compatíveis com iOS e Android.

Os maiores pontos em comum entre todos são a aplicação de filtros e a possibilidade de compartilhar suas fotos em redes sociais.

Arte/Folhapress

Turbine suas fotos: clique para ver seleção de aplicativos para celulares e tablets e confira outros abaixo

Alguns, é claro, têm, além disso, a sua própria rede social, como é o caso do Instagram, o mais popular, que tem sido usado por artistas e até empresas em estratégias de marketing.

O Snapseed e o picfx têm destaque na aplicação de texturas sobre a imagem original, que pode deixar a foto com cara enferrujada ou de papel amassado.

A aplicação de múltiplos filtros, como o HDR (High Dynamic Range), que sobrepõe as altas e baixas luzes, e o tilt-shift, que manipula a profundidade de campo e simula miniaturas, é destaque no Camera+ e no Big Lens.

O tratamento da imagem é feito de maneira intuitiva, em um clique nos filtros ou no deslizar do dedo sobre a foto.

Os preferidos dos fotojornalistas e dos aficionados são o FilterStorm e o Hipstamatic, que apresentam recursos mais profissionais, como controles de nitidez e de curvas.

O Hipstamatic foi o único dos testados pela Folha que não manipula a foto criada anteriormente.

Ele é sua própria câmera e possui diversos filmes, flashes e lentes disponíveis para o fotógrafo optar como quer conceber a sua foto.

Ou seja, é preciso prever o resultado final, como se fazia com filtros coloridos em filmes de película tradicionais.

Talvez seja esse o motivo de ele ser o preferido dos puristas e o maior sinal de que, mesmo com o avanço da tecnologia, sempre é possível voltar ao passado e resgatar as caraterísticas originais da arte da fotografia.
Gustavo Roth/Folha de S.Paulo