Pikitty e o velho novo Keynianismo

derivativos financeiros7

A imprensa burguesa especializada, a esquerda e as universidades têm divulgado, em larga escala, o livro do economista Thomas Piketty chamado “Capital no século XXI” que, apesar de apresentar muitas informações e dados, tenta apresentar mecanismos artificiais para conter o aprofundamento da crise capitalista. A tese central do livro é que o desenvolvimento do capitalismo, nos últimos dois séculos, teria apresentado a tendência à concentração da riqueza e a produzir níveis ainda maiores de desigualdade social. A demonstração é feita por meio de malabarismos estatísticos. A proposta central para “resolver” o problema seria o aumento da tributação sobre o capital.

A direita, que representa abertamente os interesses dos setores mais vinculados à especulação financeira, sustenta que “o capitalismo de livre mercado” distribui riqueza e é o grande baluarte para a defesa das liberdades individuais. Piketty diz que “o capitalismo de livre mercado”, não leva à redistribuição da riqueza pelo estado e que produz “oligarquias antidemocráticas”.

A chamada escola neokeynesiana, liderada por figurões como o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, apoiam as mesmas políticas propagandeadas por Piketty como panaceias para conter a crise do capitalismo. Os mais ousados chegaram a dizer que o livro supostamente seria o substituto para o nosso século de O Capital de Karl Marx que somente seria válido para o século XIX. Na realidade, o livro de Piketty simplesmente tenta apresentar fórmulas requentadas que não explicam a origem real do colapso capitalista de 2008, a disparada do endividamento público e agora da inflação, assim como a recessão industrial em escala mundial.

A demonstração da desigualdade provocada pelo capital é quase uma tautologia que somente consegue ser camuflada, medianamente, por causa da propaganda maciça promovida pela burguesia.

Karl Marx já tinha demonstrado as causas econômicas que levavam à acumulação da riqueza. Hoje, aproximadamente um bilhão de pessoas passam fome segundo dados das próprias Nações Unidas.

A tributação sobre as heranças, do imposto progressivo e de um imposto sobre a riqueza global não levarão a grandes alterações do desenvolvimento parasitário do capitalismo se não forem alteradas as relações de propriedade sobre os meios de produção. A queda dos lucros está levando os capitalistas ao desespero e a promover medidas de força para repassar o peso da crise sobre os trabalhadores.

O QUE É O CAPITAL?

De acordo com Piketty, o capital seriam todos os ativos em mãos de particulares, empresas e governos que podem ser negociados no mercado. Isso inclui terra, imóveis e direito de propriedade intelectual, assim como coleção de arte e de joias.

A taxa de retorno do capital, “r”, de Piketty, não considera a avaliação do capital inicial, que aparece como uma coisa semi-mística, e está baseada na premissa de que dependeria essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital se valorizaria por causa do que produz e não pelos componentes envolvidos na produção.

A explicação de Piketty para o aumento das desigualdades de riqueza e lucro não considera o lucro monopolista, que está influenciado em cheio pela especulação financeira, e, muito menos, o explica.

Karl Marx começou estudo do O Capital com a mercadoria, célula básica da riqueza social que se apresenta sob dois aspectos complementares e excludentes ao mesmo tempo: valor de uso e valor. O valor de uso, ligado aos aspectos físicos da mercadoria, é determinado pela sua utilidade. O valor é a cristalização do trabalho humano na mercadoria. Esta categoria abstrata, entretanto real, manifesta-se no cotidiano através do valor de troca, ou mais simplesmente por meio da troca entre mercadorias diferentes. A partir desta conclusão, Marx apresentou o desenvolvimento da forma valor até a forma dinheiro e, posteriormente, o capital.

Ao invés de apresentar a história do dinheiro, ele procura abstrair da aparência acidental deste desenvolvimento a lei interna deste movimento. Essas leis são a base do Livro que apresenta as leis gerais do desenvolvimento histórico sob as leis gerais do materialismo dialético. Em outras palavras, não se trata de uma racionalização da história, uma adaptação da realidade a uma teoria esotérica, mas de encontrar na própria realidade as contradições que a movimentam.

A contradição fundamental do capital, uma lei estatística?

A lei estatística que supostamente explicaria o aumento contínuo da acumulação de riqueza teria como base que a taxa de retorno sobre o capital sempre excederia a taxa de crescimento do rendimento, o que representaria “a contradição central” do capital.

Os capitais têm a tendência a serem remunerados pela taxa de lucro média conforme a lei estudada detalhadamente no Livro III do O Capital de Karl Marx.

Os economistas burgueses vulgares não conseguem compreender as leis de funcionamento do capitalismo devido à classe social que representam. O reconhecimento de que o verdadeiro gerador de valor é a força de trabalho da classe operária implicaria em reconhecer o caráter histórico desse sistema social. As categorias genéricas de “valor de trabalho” e “preço natural do trabalho”, entre outras, impediram à economia clássica avançar no entendimento das leis do capitalismo.

Para os economistas vulgares serviram com “uma base segura de operações para a sua superficialidade, que somente venera as aparências”. Trata-se de uma operação de camuflagem porque a transformação do valor e preço da força de trabalho em salário “torna invisível a relação efetiva e precisamente mostra o oposto dessa relação, [nela] se fundamentam todas as noções jurídicas tanto do operário como do capitalista, todas as mistificações do modo capitalista de produção, todas as ilusões de liberdade, todos os absurdos apologéticos da economia vulgar”. (Karl Marx, O Capital, Livro 1, Cap. 17)

QUAL FOI A BASE DO “ESTADO DE BEM ESTAR SOCIAL”?

De acordo com Piketty, o “estado social” teria sido promovido pela aplicação de políticas keynesianas que, após a Segunda Guerra Mundial, teria levado à redução das desigualdades de rendimento (nem tanto da riqueza), por causa do aumento da procura que levou ao crescimento. O financiamento teria acontecido por causa da taxação progressiva.

“Tudo dito durante o período de 1932-1980, durante cerca de meio século, o imposto de rendimento federal mais alto, nos Estados Unidos, era em média 81%.”

A concorrência entre os capitalistas conduz à procura pelo aumento da produtividade e à redução de custos, mediante a implementação de novos processos e a automação industrial, em cima de máquinas mais modernas, o que leva à redução do número de trabalhadores. Por esse motivo, a mais-valia extraída apresenta a tendência a cair o que provoca a queda dos lucros que representam o motor da economia capitalista.

Na tentativa de conter a ação da lei, os capitalistas aumentam a intensidade do trabalho, reduzem os salários, por meio de processos de terceirizações,  promovem ataques por meio dos programas de austeridade e usam trabalho escravo em proporções nunca antes vistas nos últimos séculos.

Mas todas essas tentativas não conseguem abortar a ação da lei, apenas a contem temporariamente. Ela provoca o aumento das lutas operárias. Na China, por exemplo, o salario médio dos trabalhadores passou de US$ 30 na década de 1980, para US$ 230, e no Vietnam, que se pretendia que substituísse, parcialmente, à China, nos últimos cinco anos, os salários passaram de US$ 45 para US$ 90. Agora, as multinacionais tentam, sempre com “mais do mesmo”, a mesma operação na Birmânia.

A tentativa de agilizar os processos de vendas e a diminuição dos estoques, para acelerar a rotação do capital, tem se chocado com o crescente empobrecimento das massas. A crise de superprodução está na base da crise capitalista atual. O aumento exponencial do crédito, em cima de recursos públicos, está levando o mundo inteiro a enormes bolhas financeiras. No Brasil, o “modelo de crescimento Lula” se esgotou e deixou como saldo a disparada da inadimplência em níveis históricos, com o governo fomentando-o ainda mais devido à falta de alternativas.

A desvalorização do capital constante empregado (principalmente, as máquinas e equipamentos) e, fundamentalmente, a crise capitalista, que leva à destruição em larga escala das forças produtivas permitem, junto com superexploração dos trabalhadores, que os mecanismos capitalistas não engripem. Ao mesmo tempo, as crises aumentam as compras e consolidações, reforçando ainda mais a monopolização da economia. O grosso da competição agora se processa em escala mundial por grandes multinacionais imperialistas que, na disputa do mercado mundial, levam o parasitismo a níveis absurdos, além de impulsionarem o militarismo e as guerras.

POR QUE O “KEYNESIANISMO” ENTROU EM COLAPSO?

A crise do keynesianismo para o neoliberalismo teria acontecido a partir dos de 1960 devido ao “excessivo poder do trabalho”. O Estado social e as forças do trabalho teriam começado a “ser descontruídos”. Depois de 1980, houve uma queda nas taxas mais altas de imposto e os ganhos do capital tiveram a tributação hiper reduzida. Segundo Piketty, o ritmo do crescimento da economia teria continuado bom. Na realidade, a mudança não foi realizada por causa de leis estatísticas e matemáticas.

Na segunda metade da década 1960, os chamados “anos dourados do capitalismo”, dos quais os beneficiários foram fundamentalmente os países imperialistas, chegavam ao fim.

Os movimentos estudantis de 1968 foram um claro sinal de que as coisas não estavam indo bem. No final da década, a economia começou a apresentar problemas no coração do capitalismo mundial, os EUA. Pressionado pelos gastos militares da Guerra do Vietnam e o aumento da concorrência das multinacionais imperialistas europeias e japonesas, que tinham se recuperado da devastação da Segunda Guerra Mundial, o imperialismo norte-americano passava por sérias dificuldades na tentativa de conter o aumento do desemprego e a disparada da inflação.

A crise de 1974 representou o ponto final definitivo dos chamados “anos dourados do capitalismo” e o início do fim do chamado estado de bem-estar social, pois evidenciou o fracasso da contenção da crise por meio da escalada do gasto público. O mundo caminhava para a depressão econômica e a hiperinflação.

A desgraça dos keynesianos e o ascenso dos neoliberais se acentuou com a Revolução Iraniana de 1979, a Revolução na Polônia em 1980, a recessão nos países desenvolvidos e a crise das dívidas públicas de 1982, cuja ponta do iceberg apareceu no México. O mundo capitalista avançava aceleradamente à bancarrota.

POR QUE O “NEOLIBERALISMO” ENTROU EM COLAPSO?

 A formulação matemática de Piketty camufla os fatores envolvidos no colapso capitalista de 2008.

O neoliberalismo promoveu gigantescos ataques contra as massas trabalhadoras, o que acabou enfraquecendo os mecanismo de contenção do regime burguês. O colapso capitalista de 2007-2008 representou a derrota das políticas neoliberais, a bancarrota da direita neoliberal, deixou a burguesia sem uma política para enfrentar a crise e abriu caminho para uma nova ascensão das massas.

POR QUE O “NEOKEYNESIANISMO” ENTROU EM COLAPSO?

Perante o colapso das políticas neoliberais a partir de 2007-2008, a ala esquerda do imperialismo passou a propor a implementação de políticas keynesianas no lugar dos desastrosos planos de austeridade neoliberais. O prêmio Nobel de economia Paul Krugman e Nouriel Roubini são dois dos mais importantes representantes dessa corrente.

Na Grã Bretanha, o Partido Trabalhista contrapõe às desastrosas políticas do governo conservador, com o objetivo de conter a crise capitalista, as seguintes políticas – taxar os lucros dos banqueiros, investimentos públicos a longo prazo, reduzir os impostos sobre o consumo, o IVA, e isentar de impostos trabalhistas às pequenas empresas.

O PSF (Partido Socialista Francês) conseguiu eleger o presidente François Hollande e obter a maioria no parlamento em cima das políticas de “crescimento”, que em apenas alguns meses tiveram que ser deixadas de lado, abraçando em cheio as políticas de austeridade promovidas por Angela Merkel.

O problema prático para a implementação dessas políticas é o contexto histórico, que está muito longe de permitir a recuperação do sistema capitalista, em cima da visão infantil de que ao se produzirem empregos, os trabalhadores irão gastar mais e fazer girar a economia.

A economia capitalista ainda não engripou como aconteceu nos anos de 1930, mas está caminhado a passos largos nessa direção, em condições muito mais explosivas. Os estados burgueses estão falidos devidos aos trilhões que têm sido destinados a salvar as multinacionais imperialistas e a manter em pé a especulação financeira, de onde proveem, quase que exclusivamente, os lucros, devido ao esgotamento da economia real por causa de decadência histórica do sistema capitalista.

As alternativas para salvar o capitalismo são muito poucas, pois não dependem das soluções brilhantes de um prêmio Nobel de economia ou de um professor de economia promovido pela imprensa burguesia a sábio de plantão. Como pode ser visto na prática em escala mundial, até na própria França, a alternativa tem sido “mais do mesmo” – mais políticas neoliberais, que implicam em planos de austeridade para a maioria da população e keynesianismo para os especuladores financeiros.

A única alternativa real é a expropriação do punhado de parasitas que domina o mundo por meio da revolução proletária mundial que passa pela destruição da casca, que protege um conteúdo cada vez mais podre, o estado burguês.

Delfim Neto, Marx e Keynes

Karl Marx,Blog do Mesquita,EconomiaKeynes e Marx
por Antonio Delfim Neto

MARX E KEYNES têm pelo menos três curiosos paralelismos.

Primeiro, um bando de fanáticos dogmáticos que pretendem ter o monopólio do entendimento de suas teorias transformaram-se em sacerdotes de suas igrejas. Dizem (e, quando têm poder, fazem!) as maiores barbaridades em nome dos seus deuses, comprometendo as suas memórias.

Segundo, a relação dos dois com economistas que os precederam envolve um considerável cinismo e a sutil apropriação de ideias que reconhecem muito mal.

Os dois foram, obviamente, fatos novos. O problema é que se pretendem sem raízes.

A relação de Keynes com Marx é das mais ambíguas.

As referências a Marx na “Teoria Geral” (1936) ou são inócuas ou depreciativas. Ainda em 1934, ele diz a Bernard Shaw que “meus sentimentos em relação ao “Das Kapital” é o mesmo que tenho em relação ao Alcorão…”, reafirmando o que já havia dito em 1925: que não podia aceitar uma doutrina fundada numa “bíblia acima e além de qualquer crítica, um livro-texto obsoleto de economia que eu sei que é cientificamente errado e sem interesse de aplicação no mundo moderno”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O enigma (o “conundrum”, como diria um velho ex-quase “maestro” do Fed que ajudou a meter o mundo na confusão em que se encontra) é que em 1933 Keynes estava elaborando a sua revolucionária Teoria Monetária da Produção. Nela, a moeda produz efeitos reais sobre a produção e o emprego, ao contrário do que supõe, até hoje, a maioria dos economistas, para os quais a moeda é neutra no longo prazo.

De acordo com notas publicadas por alguns alunos, ele se referia nas aulas ao famoso problema da “realização”, isto é, a possibilidade de vender a produção para “realizar” o seu valor em moeda, e dizia que “em Marx há um núcleo de verdade”!

Chegou a utilizar a conhecida fórmula de Marx em que este havia mudado a ênfase de uma economia de trocas: trocar bens (“commodities” em inglês) por moeda, para comprar bens (C-M-C), para uma economia da produção, onde a moeda compra bens para a produção e esta é vendida por moeda (M-C-M). Esta mudança na forma de ver o mundo é uma das bases da construção keynesiana.

O terceiro ponto é que a conclusão da obra de ambos não deixa de ser paradoxal e frustrante. Marx comprometeu sua vida estudando o capitalismo e, por isso, não teve tempo de nos ensinar como construir o socialismo; Keynes construiu uma teoria para salvar o capitalismo e terminou com uma receita (“a coordenação estatal dos investimentos para manter o pleno emprego”) que não conseguiu explicar como realizar sem levar a alguma forma de socialismo…

Muita atenção para o embate entre Thomas Piketty e Yanis Varoufakis

É raro economistas de esquerda serem ouvidos pela grande mídia, mas dois deles conseguiram essa façanha nos últimos meses e ambos estão entrando em rota de colisão. Varoufakis vs. Piketty: um embate para prestar atenção.

thomas piketty Yanis Varoufakis marxismo
Thomas Piketty e Yanis Varoufakis

É raro economistas de esquerda serem ouvidos pela mídia, quanto mais levados a sério, mas dois deles conseguiram essa façanha nos últimos meses: o francês Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI e o grego Yanis Varoufakis, novo ministro da Fazenda de seu país. Ambos estão conquistando fã-clubes que não se resumem a colegas de profissão e despertam o interesse de políticos e militantes de esquerda em todo o mundo.

Seria de se esperar que suas ideias fossem semelhantes ou complementares. Mas não os convide para a mesma mesa: o ministro grego é um crítico duríssimo do professor francês. Em artigo publicado na Real-World Economics Review, chega a chamá-lo de “O último inimigo do igualitarismo”.

Que as esquerdas não precisam de muitos motivos para se dividir é um clichê fácil, mas as razões da divergência são importantes e interessantes. Não há dúvidas sobre a importância da pesquisa inédita de Piketty sobre mais de duzentos anos de história da concentração de renda e riqueza e da importância das heranças no capitalismo.

Nem sobre a “curva em U” que estas variáveis desenharam ao longo do século XX, de maneira a chegar a um mínimo depois da II Guerra Mundial e retornar hoje a um nível quase igual ao do século XIX – ou pior ainda, no caso dos Estados Unidos. O problema está em como o francês analisa teoricamente seus achados, propõe modelos e chega a conclusões sobre recomendações políticas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A primeira dificuldade é que Piketty, embora reivindique com o título e a introdução de sua obra certa pretensão de atualizar e corrigir Karl Marx, sua conceituação está na prática muito mais próxima de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, pois não distingue riqueza de capital e exclui apenas os bens móveis de consumo (tais como automóveis e eletrodomésticos). Moradias, obras de arte e barras de ouro não fazem diferença para o processo de produção, mas ele os trata da mesma maneira que tratores e robôs.

Isso torna duvidosa qualquer tentativa de estudar e prever o crescimento e o desempenho da economia a partir dessa massa de “pseudocapital” da qual cerca da metade nada tem a ver com produção. Dificuldade análoga é tratar como “salários” os ganhos astronômicos de altos executivos, parte nada desprezível da renda nacional em países como os EUA, mesmo se são explicitamente vinculados ao lucro e constituídos de bonificações e opções de compra de ações.

Valores de mercado são governados por expectativas e pela taxa de remuneração do capital, mas Piketty considera essa taxa e o montante do “capital” como variáveis independentes, o que é inconsistente e conduz a um círculo vicioso. Ainda mais problemático do ponto de vista político é tratar a participação do trabalho e do capital na renda como resultado mecânico das suas leis da acumulação e do efeito de impactos externos, principalmente as guerras mundiais do século XX.

O modelo de Piketty supõe que toda poupança se transforma em riqueza (logo capital, em sua definição) e não há formação de riqueza se não for por meio da poupança. Isso tem pouco a ver com o mundo real, como mostra a formação da bolha imobiliária, durante a qual o valor de ativos cresceu aos trilhões com poupanças líquidas nulas ou negativas, ou a situação atual na Europa, onde altas taxas de poupança se combinam com falências e destruição ou desvalorização dos ativos.

Implicitamente, Piketty adere à “mão invisível” de Adam Smith e à desacreditada lei de Say, segundo a qual a oferta cria a demanda sem que haja desperdício, desemprego ou superprodução e a poupança se torna investimento sem ser absorvida por entesouramento improdutivo.

No essencial, seus dados  sobre o processo de concentração de renda nos países ricos são sólidos e irrefutáveis, mas as “leis” propostas para explicá-lo são frágeis. Isso torna igualmente questionável sua conclusão por teorema matemático, de que a tendência ao aumento da desigualdade é “natural” ao capitalismo, embora nessa conclusão ele esteja mais próximo de Marx do que de Smith.

Varoufakis argumenta que se renunciarmos às simplificações arbitrárias de Piketty e aplicarmos modelos realistas da economia, a participação do capital na renda e sua distribuição são fundamentalmente indeterminadas. Para o grego, não há nada de natural ou determinístico na concentração de renda e riqueza no capitalismo. A melhora temporária da distribuição de renda e propriedade durante o século XX não foi nem uma anomalia, nem um resultado inevitável das guerras, mas o resultado de uma intervenção política consciente para evitar a depressão econômica e salvar o capitalismo.

E a volta do processo de concentração nos anos 1970 também não foi o resultado de leis mecânicas, mas de outra política consciente dos EUA para atrair capitais e manter sua hegemonia quando sua competitividade ante Europa e Japão se reduziu e deixou de acumular superávits no comércio internacional.

Essa discordância teórica implica em grandes divergências práticas sobre o que fazer. Como Piketty considera a tendência à concentração de renda inerente ao processo de acumulação do capitalismo, propõe apenas soluções redistributivas, principalmente aumento das alíquotas progressivas de imposto de renda para até 80% e um imposto mundial sobre o capital/riqueza.

Varoufakis argumenta que um imposto sobre a riqueza, mesmo que seja factível, seria contraproducente e agravaria as dificuldades da economia. Considere-se uma família de desempregados que conserva sua residência, ou uma indústria sufocada por falta de demanda e crédito: uns e outros, mesmo sem dispor de renda, seriam obrigados a pagar um imposto elevado, o que apenas serviria para levá-los mais rapidamente à falência total. Para o grego, um combate eficaz à desigualdade deve atuar na formação de salários e demanda (por políticas keynesianas, por exemplo).

Ambos também divergem drasticamente quanto às propostas para a Zona do Euro. Piketty quer um Estado federal unificado para a Europa, cujas autoridades centrais tenham poderes suficientes para controlar e regulamentar o capitalismo financeiro. Varoufakis, em artigo escrito em parceria com o estadunidense James Galbraith, rejeita essa proposta que a seu ver apenas reforçaria e congelaria as atuais políticas e aprisionaria os países membros em uma “jaula de ferro” de desigualdade, dominação e austeridade perpétuas que impediria a evolução de uma verdadeira democracia europeia.

Defende, em vez disso, um misto de títulos do BCE, resolução caso-a-caso dos problemas bancários, um programa de investimentos e um fundo de solidariedade que conservariam as soberanias nacionais e a flexibilidade das políticas econômicas e poderiam ser aplicados de imediato e sem necessidade de alterar os tratados existentes. Em resumo, as opiniões são parecidas quanto ao diagnóstico, mas quase opostas quanto ao tratamento.
Antonio Luiz M. Costa/ CartaCapital

Economia: Paul Krugman e o estímulo do iPhone 5

Se você é louco por eletrônicos, deve saber que quarta-feira foi o dia do iPhone 5, quando a Apple revelou seu mais recente modelo para que as pessoas não precisem nem olhar para aqueles em sua companhia.
por  Paul Krugman ¹

Maravilhas do iPhone 5 à parte, o que me interessa, em lugar disso, são as sugestões de que o seu lançamento pode oferecer significativo estímulo à economia dos EUA pelo próximo trimestre ou dois.

Se você considera essa suposição plausível, tenho algo a dizer: você é keynesiano, e aceitou implicitamente o argumento de que o governo deve gastar mais, e não menos, em um período de depressão econômica.

Uma nota do JP Morgan diz que o novo iPhone pode elevar em 0,25% a 0,5% o crescimento do PIB americano no trimestre final de 2012.

O ponto crucial é que o JP Morgan crê que o iPhone 5 vá estimular a economia simplesmente porque induzirá as pessoas a gastarem mais.

E para acreditar que mais gastos estimularão a economia, é preciso acreditar que a procura, e não a oferta, é o que bloqueia o crescimento.

Não temos alto desemprego porque os americanos não querem trabalhar. São os empregadores que não estão produzindo o suficiente para justificar contratá-los.

E a solução é encontrar alguma maneira de elevar os gastos gerais.

As empresas dispõem de caixa, mas, em geral, não veem motivos para investir.

E porque não investem, a renda, a demanda e as vendas se perpetuam baixas.

Mas as depressões um dia terminam, mesmo sem políticas governamentais para salvá-las. Por quê? Muito tempo atrás, John Keynes sugeriu que a resposta era “uso, desgaste e obsolescência”.

Mesmo em uma economia deprimida, em dado momento as empresas começam a substituir equipamentos antigos; e, então, a economia se reanima.

Mas por que passar anos de depressão enquanto esperamos a obsolescência chegar? Por que o governo não gasta mais em, digamos, educação e infraestrutura e ajuda no mau momento?

Mas, longe de usar os gastos públicos para dar apoio à economia, nosso sistema político vem agindo para agravar a depressão. Sim, os gastos com auxílio-desemprego e assistência alimentar estão em alta.

Mas o número de pessoas empregadas pelo governo despencou, bem como o investimento público.

Apesar disso, nós nos recuperaremos, um dia. Com o tempo, haverá mais equipamentos necessitados de troca, mais inovações como o iPhone e, em longo prazo, conseguiremos escapar dessa armadilha econômica.

Mas, como apontou Keynes: “No longo prazo estaremos todos mortos”. Ou, em uma de minhas próprias expressões, por que não pôr fim à depressão já?

Tradução de PAULO MIGLIACCI

¹ Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados. Escreve às segundas, no site da Folha, e aos sábados, na versão impressa de “Mundo”.

Economia: a Europa perde o sono

A partir da quebra do banco Lehman Brothers, verifica-se uma espécie de efeito-dominó sobre um conjunto de instituições bancárias e de crédito em diversos países.

Passados menos de dois anos do início da atual crise de liquidez, principalmente de títulos bancários, a realidade dos países e economias afetadas mundo afora é bastante complexa e desconcertante.

A discrepância se acentua quando olhamos para setembro de 2008, onde a situação das instituições financeiras norte-americanas revelava-se insustentável. É o que foi intitulado de crise do “sub-prime”, consequência direta da irresponsabilidade do mercado hipotecário nas áreas imobiliárias e da construção civil.

Mesmo sem que não se queira cogitar dos aspectos sociais na crise atual, voltam ao cenário ambulatorial macroeconômico as paleolíticas propostas do FMI no que concerne a retomada das políticas públicas de caráter keynesiano e desenvolvimentistas.

O Editor


Nessun dorma…
Por Antonio Delfim Netto ¹/VALOR

É um fato conhecido que os competentes economistas alemães representam a fina flor do mais extremo monetarismo ao qual somam uma boa dose de conservadorismo. Foram ferozmente contra as concessões (com implicações econômicas) feitas por Helmut Kohl, quando aproveitou uma janela semiaberta e teve a coragem de reunificar a Alemanha, objetivo político de longo prazo absolutamente desdenhado pelos “puristas econômicos”.

Quando a Alemanha decidiu participar do euro, 150 dos seus mais reconhecidos acadêmicos publicaram um célebre manifesto contra, com bons argumentos, mas que de novo ignorava solenemente o objetivo político de longo prazo, que era a pacificação de um continente que durante os últimos mil anos foi atormentado por guerras.

Os argumentos eram respeitáveis e mostravam que o sucesso do euro dependia de um rigoroso controle da situação fiscal de cada país, preliminar para a construção de uma área monetária ótima: absoluto controle fiscal, liberdade de movimentos da mão de obra e de capitais e a cessão da emissão das moedas nacionais a um banco central autônomo, com uma nova unidade monetária, com relação à qual as taxas de câmbio de cada país seriam irrevogavelmente fixadas.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Nem o Fed, nem o BCE sabem, até agora, o que fazer.

Eram contra, porque não acreditavam que os países se submeteriam a tal disciplina. Para impô-la, foi formalmente estabelecido e aprovado no acordo de Maastricht, que precedeu a introdução do euro, que: 1) nenhum país poderia ter déficit nominal superior a 3% do PIB; e 2) uma relação dívida/PIB maior do que 60%.

Por que não funcionou? Porque os governos de vários países (em particular da Grécia) mentiram, como suspeitavam os economistas alemães! Iludiram aquelas condições com a conivência do sistema financeiro internacional e das agências de risco. Tudo veio à tona depois da “quebra” do Lehman Brothers, quando a “rede de patifarias” escondida nos derivativos tóxicos explodiu na cara dos bancos centrais, sob o nariz dos quais ela se realizara. É cada vez mais evidente que esses não se recuperaram do choque: nem o Federal Reserve dos EUA, nem o BCE da Eurolândia sabem, até agora, o que fazer.

Nos EUA, parece que começa a haver uma mudança. Mais de uma dezena de instituições financeiras, que ativamente (com a conivência das agências de risco) assaltaram os incautos aplicadores, começam a ser investigadas e, seguramente, algumas serão responsabilizadas criminalmente. Trata-se de um problema moral, que não pode mais ser escondido pelo governo Obama como foi até agora.

Tardiamente, ele propõe ao Congresso um novo pacote de estímulos para diminuir o sofrimento de 25 milhões de honestos trabalhadores (15 milhões com desemprego aberto e 10 milhões semiempregados), que acabaram desempregados com a política econômica (inspirada por distintos acadêmicos comprometidos com o sistema financeiro) que “salvou” os desonestos administradores.

Até agora, o presidente do Fed, Ben Bernanke, não disse a que veio: apenas repete, repete e repete o velho refrão, “farei o que tenho de fazer”. Continua indeciso sobre como atender ao seu duplo mandato: manter alto o nível de emprego e manter baixa a taxa de inflação.

O sinal de que ainda resta vida inteligente nos EUA veio num artigo no “Financial Times”, do secretário do Tesouro, Tim Geithner, onde afirmou que é hora dos governos deixarem de lado a paralisia política e esquecerem os medos infundados com a inflação.

No fundo, ele está transmitindo aos bancos centrais, que continuam mesmerizados pelos seus modelitos, que a taxa de juros nominal já é nula e que a taxa de inflação está na “meta”, mas a taxa de desemprego é quase o dobro da famosa Nairu (a taxa de desemprego que não acelera a inflação). Logo, é uma eficaz política fiscal que deve ser ativada.

É por isso que ele afirma que os EUA resistirão a um rápido ajuste fiscal em 2012 e recomenda a todos os países em dificuldades que façam o mesmo. Essa coordenação, se realizada, tornará mais potente e mais veloz os resultados.

No Banco Central Europeu (BCE), a situação se agrava. Enquanto Trichet aguarda sua substituição formal por Mario Draghi, os representantes alemães (diante do iminente desastre político da chanceler Merkel) abandonam o barco, alegando “razões pessoais”. Primeiro foi Alex Weber (presidente do Bundesbank). Agora foi Juergen Stark, o que aperta ainda mais a “saia justa” de Merkel.

Se não bastassem esses problemas, o ministro das Finanças da Holanda, Jan Kees de Jager, sugere claramente a expulsão da Grécia, a pedido: “Quando não conseguimos respeitar as regras do jogo, devemos deixá-lo”. O FMI, por sua inexperiente diretora-gerente, Christine Lagarde, lança dúvidas sobre a higidez dos bancos europeus que têm em carteira títulos gregos. Como todos sabem que ela conhece apenas os bancos franceses, produziu uma corrida sobre eles.

Parece óbvio que ninguém se entende. Tem razão o dr. Tombini. Vamos pôr nossas barbas de molho e nos proteger da provável desintegração da economia mundial.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. 
E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br