Franz Kafka,Literatura

Kafka – Literatura

Vivemos presos ao nosso passado e ao nosso futuro

Franz Kafka,Literatura

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos.

em, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distração, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes atuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

Franz Kafka, in ‘Diário (1910)’

Arte – Pintura – Sofia Gandarias

Sofia Gandarias – Exposição “Kafka o Visionário”
Haus am Kleistpark de Berlim
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Texto de José Saramago para o catálogo da exposição

À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”.

É evidente que Deus não leu Kafka e, pelos vistos, Ratzinger também não. Não leram nem sequer Primo Levi, que está mais perto do nosso tempo e nunca se serviu de alegorias para descrever o horror.

Se se me permite a ousadia, eu aconselharia ao papa que visitasse, com tempo e olhos de ver, esta exposição de Sofía, que escutasse com atenção as explicações que lhe fossem dadas por uma pintora que, sabendo muito da arte que cultiva, muito sabe também do mundo e da vida que nele temos feito, os que crêem e os que não crêem, os que esperam e os que desesperam, e os outros, os que fizeram Auschwitz e os que perguntam onde estava Deus.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Melhor seria que nos perguntássemos onde estamos nós, que doença incurável é esta que não nos deixa inventar uma vida diferente, com deuses, se quiserem, mas sem nenhuma obrigação de crer neles. A única e autêntica liberdade do ser humano é a do espírito, de um espírito não contaminado por crenças irracionais e por superstições talvez poéticas em algum caso, mas que deformam a percepção da realidade e deveriam ofender a razão mais elementar.

Acompanho o trabalho de Sofía Gandarias desde há anos. Assombra-me a sua capacidade de trabalho, a força da sua vocação, a maestria com que transfere para a tela as visões do seu mundo interior, a relação quase orgânica que mantém com a cor e o desenho.

Sofía Gandarias é, toda ela, memória.

Memória de si mesma, como qualquer, em primeiro lugar, mas também memória do que viveu e do que aprendeu, memória de tudo o que interiorizou como algo próprio, memória de Kafka, de Primo Levi, de Roa Bastos, de Borges, de Rilke, de Brecht, de Hanna Arendt, de quantos, para tudo dizer numa palavra, se debruçaram do poço da alma humana e sentiram a vertigem.

Paul Auster – Versos na tarde – 09/10/2013

Poema
Paul Auster¹

Leve-me com você,
e de nossas duas misérias
faremos talvez
uma espécie de felicidade.

¹Paul Benjamin Auster
* Newark, Usa – 3 de Fevereiro de 1947 d.C

Escritor, filósofo e poeta norte-americano autor de vários best-sellers como Timbuktu, O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso.

Frequentou a Universidade de Columbia e viveu durante quatro anos em França. A sua proximidade à literatura francesa haveria de marcá-lo para sempre. Foi confesso admirador de André Breton, Paul Éluard, Stéphane Mallarmé, Sartre e Blanchot, alguns dos quais traduziu para língua inglesa. O seu gosto pela tradução é muitas vezes referido pelo próprio, que aconselha os jovens escritores a traduzir poesia para entenderem melhor o significado intrínseco das palavras. Além destes autores, Paul Auster refere ainda como suas influências Dostoiévsky, Ernest Hemingway, Fitzgerald, Faulkner, Kafka, Hodërlin, Samuel Beckett e Marcel Proust.

Em 1998, realizaria o seu primeiro filme, “Lulu on the Bridge”. Nos seus livros é evidente a influência cinematográfica norte-americana e as suas histórias desenrolam-se numa sucessão que faz lembrar um thriller, usando igualmente o método da “caixa chinesa”, sucessão de histórias no interior umas das outras. A sua obra parece ser mais apreciada na Europa do que no seu país natal. Atualmente vive em Brooklyn, Nova Iorque.

Boa parte da sua história ele conta no que parece ser uma autobiografia. “Da mão pra boca” reúne relatos de sua vida, um jogo criado pelo escritor chamado action baseball, e mais três peças do autor, consideradas por ele mesmo como fracas.


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Privatização dos portos e Kafka

Kafka portos privatizações Blog do MesquitaBrasil: da série “Kafka aqui não daria nem pro começo”

1. O PT desde a era pós-Noé que açoita os vendilhões das privatizações, mais precisamente o lombo de FHC.
2. As oposições desde a era pós-Noé que bradam pelo Estado mínimo e pela redução do custo Brasil.
3. O governo do PT envia MP para privatizar os Portos.
4. As oposições votam contra.


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Mensalão: não cumprir sentença é crime – adverte Joaquim Barbosa

Ministro Lewandowski quer sustentar o insustentável.

Ora, é cristalino, ministro, não ser compatível o exercício de um mandato parlamentar, por um deputado condenado em ação penal, independente do que esteja grafado no art.55 da CF/88.

O ministro se aferrou ao grafado no art.55 da CF. Ora, nenhum artigo da CF é definitivo até que assim o seja decidido pelo STF, que é na essência o intérprete final, e definitivo da norma constitucional.

Assim se houver ação protecionista da Câmara Federal, mediante apelação qualquer o STF decidirá por interpretar o artigo conforme a decisão do julgamento.

Imagine-se o absurdo: um parlamentar condenado, cumprindo pena de prisão em regime fechado exercendo um mandato legislativo. Talvez somente o Gregor Samsa de Kafka entenderia.
José Mesquita – Editor


O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, deixa claro que a Câmara dos Deputados não tem opção a não ser cassar o mandato dos três deputados condenados no julgamento do mensalão: João Paulo Cunha (PT/SP), Valdemar Costa Neto (PR/SP) e Pedro Henry (PP/MT).

“Descumprimento de decisão judicial é crime” – adverte o ministro.

O Supremo decidirá a questão apenas na segunda-feira.

Depois de afirmar, em seu voto, que considera “inadmissível” compartilhar a decisão da cassação com a Câmara, Barbosa acabou admitindo que o Legislativo deve votar e formalizar da perda do mandato, mas não pode rever o mérito da sentença. Inicialmente, o ministro declarou:[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

“Acho inadmissível a hipótese desta Corte compartilhar com outro poder decisão que lhe é imanente. É o Estado, através do Judiciário, quem pronuncia a execução penal.”

Mais tarde, depois de longa argumentação contrária do colega Ricardo Lewandowski, o ministro passou a admitir a votação da cassação em plenário, desde que ela não reverta o resultado da decisão judicial.

“O que não pode é o STF dizer que perde o mandato, e o parlamento dizer o contrário. Aí, ele é que vai arcar com as consequências.”

O ministro deixou claro, em plenário, que não acredita que a Câmara afronte o Supremo:

“Duvido que o presidente de uma Mesa do Congresso tome decisão que contrarie o Tribunal.

Um congresso é composto de forças contrárias.

A condenação de um parlamentar traz a cobiça do suplente pela sua substituição.

É isso que nós temos que evitar. Não fomentar a luta interna, nem intra-poderes.”

Kafka e nossa irrealidade digital

No alvorecer do capitalismo moderno, Adam Smith cunhou a expressão “a mão invisível” para designar a força impessoal investida do poder de organizar os agentes do mercado.

Essa mão, que hoje meu ódio impotente gostaria de decepar, explicaria o funcionamento das forças econômicas que milagrosamente se coordenam — o jogo da oferta e da procura, por exemplo.

Como o gado errante tangido dos campos comunais para as fábricas, hoje da solidão física para as redes sociais, nada entendo disso.

Sei apenas que me tornei prisioneiro de carcereiros invisíveis.

A vetusta mão invisível de Adam Smith funciona hoje como a fantasmagoria de um processo kafkiano. Não cometi nenhum crime, o próprio poder digital e anônimo de nada me acusa, mas no fim do filme eu morro como um cão, como o anônimo esvaziado de humanidade da obra de Kafka.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O parágrafo acima traduz uma ironia atroz. Formei-me embalado pelo humanismo originário das Luzes do século 18. Formei-me acreditando no valor da liberdade humana, que decorreria das forças do progresso social, do desenvolvimento da democracia e das forças produtivas, e eis-me agora refletido no espelho de Kafka: o espelho que reflete um inseto chamado ser humano.

Miro esse inseto, que sou eu, e vejo apenas a irrealidade do labirinto digital em que as forças invisíveis do mercado me aprisionam. Um dos deuses dessa revolução da ciência morreu há pouco e é hoje celebrado no mundo como um Deus, um Deus mais poderoso e idolatrado que o deus (minúsculo) de qualquer religião. O nome desse Deus — mortal quanto eu e você, tanto que morreu num frenesi típico do mercado voraz — é Steve Jobs. O sobrenome é arrepiante, mas sigamos.

Steve Jobs morreu, mas continua na rede, celebrado em imagens que o vendem e que ele vende. Ele posa como o gênio letal do mercado, mercadoria fundida na mercadoria, pois está sempre vendendo alguma coisa: vende a maçã paradisíaca, o Ipod, o Ipad, o Iphone,o Tephod, e outras siglas que me possuem e nos possuem. Mas o gado servil e ignaro, cego de ambição e desejo voraz de consumo, o idolatra como se fosse o bezerro de ouro da lenda bíblica.

O inseto se mira no espelho kafkiano e sabe que está completamente sozinho nesse mundo de forças onipresentes e invisíveis. Não tem um amigo. Não tem com quem compartilhar um sentido humano palpável de vida, de amor, de humanidade efetivamente compartilhada. Mas liga o computador, conecta-se na rede social e lá estão seus 900 amigos. Há quem tenha milhares.

Os famosos têm tantos que acionam um dispositivo digital para limitar o número de amigos que invadem sua página para tagarelar nossa futilidade, nossa insignificância digital. Lá estão os sites de relacionamentos: milhões de solitários vorazes esfomeados diante de fantasias devoradoras. Estamos todos sozinhos, dolorosamente sozinhos como nunca o fomos na história da nossa atormentada condição solitária, e no entanto saltamos como crianças insanas celebrando a beleza das nossas vidas invejáveis.

A revolução digital, a mão invisível e impiedosa do mercado, reduziu-me à condição de inseto. Mas eu pelo menos sei que fui esmagado por essa operação diabólica. Nas situações mais cotidianas, posso a qualquer momento ser reduzido a nada enquanto me debato, inseto cego e impotente, dentro da prisão que é a minha casa. Uma simples troca de operadora de telefonia suprime magicamente minha existência. Alguém, o burocrata da revolução digital, acionou indevidamente um dispositivo que não sei o que é, onde está, como funciona, e de repente suprimem o número do meu telefone, meus vínculos precários com o mundo humano, minha humanidade virtual, única que o admirável mundo novo da revolução digital me concede.

O que fazer para refazer meus elos com o mundo, ouvir uma voz humana através do fio? O fio de Ariadne que me resta, único que poderia libertar-me do labirinto digital, é a telefonista eletrônica, esse ser irreal e arrepiante. Como arrepiante, se é irreal? Ora, simplesmente porque tudo agora é irreal. Embora o mundo esteja cheio de mulheres lindas, gostosas e infelizes, tantas delas histericamente em busca de um homem que lhes dê prazer, o inseto, tão infeliz e solitário quanto elas, ama uma boneca inflável, como aquela do conto profético de Rubem Fonseca.

Mas o profeta supremo é Kafka. Ele intuiu de forma genial o mundo da irrealidade carcerária em que passaríamos a habitar. Como os carcereiros são agora invisíveis, a mão milagrosa do mercado foi convertida numa cadeia infinita de carcereiros que nos controla do berçário à UTI (U Teu Inferno, na minha tradução). O carcereiro é uma figura de mil faces, ou uma figura sem face, mas está investido do poder de nos acorrentar do útero ao túmulo. O nome genérico dessa figura sem face é a Dívida, a Conta imperiosa que estamos condenados a pagar aos poderes anônimos que nos dominam. Esse poder está em tudo e em tudo milagrosamente se transfigura.

Não sei que crime cometi. Não cometi nenhum crime. Estou apenas tentando sobreviver ao naufrágio que consome tudo que conferiu sentido à minha existência, tudo que procurei realizar como ideal de humanidade livre reconciliada com o outro que se tornou minha própria irrealidade. Não cometi nenhum crime, repete desesperado o inseto espelhado na invisível prisão kafkiana. Mas a voz inaudível da revolução digital, a mão assassina da revolução que produz deuses como Steve Jobs simplesmente afirma que não há crime nenhum, que nada fiz ou preciso fazer. O que há, o que existe é o poder invisível da máquina indomável e onipresente produzida pela diabólica inteligência humana.

Ela agora nos aprisiona e nos fiscaliza e pune do útero ao necrotério. E alguém tem que pagar a Conta, pois todos têm Dívida a pagar. Esta é a realidade tenebrosa da irrealidade digital que nos reduziu a insetos kafkianos: precisamos pagar nossa Dívida imposta por uma Culpa abstrata que para sempre me condena ao labirinto digital. Quero protestar, afirmar meu único e último direito humano, mas o operador invisível vai me deletar, vai me suprimir, vai me del… , vai me su…
Fernando da Mota Lima é professor da UFPE.