FBI: Crimes de ódio nos EUA crescem e atingem principalmente negros e judeus

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No mês passado, 11 pessoas foram mortas no ataque mais letal contra judeus na história dos EUA
O número de casos classificados pelo FBI como crimes de ódio nos Estados Unidos cresceram 17% em 2017, na comparação com 2016. De acordo com os dados da polícia federal americana, é o terceiro ano consecutivo em que há aumento neste tipo de incidente, definido por ser motivado por preconceito.

Órgãos oficiais registraram 7.175 crimes de ódio no ano passado, contra 6.121 em 2016. O aumento destes crimes é atribuído em parte à adição de cerca de mil departamentos de polícia que passaram a registrar esses incidentes.

Por que este professor americano sustenta que é mito o discurso de que armas são eficazes para defesa pessoal.

O relatório constatou que o crescimento de casos afetou especialmente negros e judeus.

Dos ataques registrados em 2017, aqueles motivados por questões raciais (um total de 4.131) concentram-se em incidentes envolvendo vítimas negras (2.013).

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O procurador-geral interino dos EUA, Matthew Whitaker, caracterizou o relatório como um “apelo à ação” e condenou os crimes como “violações desprezíveis de nossos valores centrais como americanos”.Comportamento,Racismo,Negros,Judeus,América

O que mais o relatório mostra?
Segundo o relatório, 59,6% dos incidentes foram motivados por preconceito contra raça, etnia ou ascendência.

Crimes de ódio religioso constituíram 20,6% dos ataques; aqueles contra orientação sexual representaram 15,8%.

O FBI define crimes de ódio como uma “ofensa criminal contra uma pessoa ou propriedade motivada, no todo ou em parte, por um preconceito contra uma raça, religião, deficiência, orientação sexual, etnia, gênero ou identidade de gênero”.

Os dados de 2017 apontam que 5 mil ataques registrados foram feitos por meio de intimidação ou agressão.

Cerca de 3 mil tinham como alvo propriedades, o que inclui vandalismo e roubo.

Crimes de ódio contra judeus tiveram um aumento de 37% em relação a 2016.

A publicação vem um mês depois que 11 judeus foram mortos por um atirador que invadiu uma sinagoga em Pittsburgh, fazendo deste o ataque mais mortífero contra judeus na história dos EUA. O suspeito foi acusado de dezenas de crimes de ódio.

Crimes contra afroamericanos tiveram um aumento de 16%.

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Cartaz em protesto nos EUA pede união de pessoas com origens étnicas diferentes na defesa dos direitos humanos

Como foram as reações aos dados?
Defensores dos direitos civis dizem que os números são subestimados, já que muitas vítimas optam por não apresentar denúncias; além disso, estas organizações apontam que muitas corporações não mantêm estatísticas precisas ou confiáveis.

Jonathan Greenblatt, da Liga Judaica Antidifamação, disse que o relatório “acrescenta evidências de que mais deve ser feito para enfrentar o clima divisivo do ódio na América.”

“Isso começa com líderes de todas as esferas da vida e de todos os setores da sociedade condenando vigorosamente o antissemitismo, o fanatismo e o ódio sempre que ele ocorre”.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) classificou os dados como “estarrecedores” e apontou que eles deveriam exigir “atenção total do Congresso”.

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Nazismo: “Noite dos Cristais” e o silêncio dos alemães

O pogrom contra os judeus da Alemanha nazista completa 80 anos. Sabendo que o episódio teve muitos espectadores passivos, o jornalista Felix Steiner se questiona, como muitos alemães: como minha família reagiu na época?Noite dos Cristais,Direitos Humanos,História,Alemanha,Pogroms,Hitler,Judeus,Nazistas,Genocídio,Crimes contra a humanidade,Solução Final

Judeus são forçados a carregar estrela de Davi no pogrom de 1938:na Alemanha
Pogroms de 1938: mandantes, agressores e espectadores

Meu pai era uma enciclopédia ambulante da história local e sabia tornar emocionantes as suas histórias. O que eu sei sobre a minha terra natal e as minhas origens aprendi com ele.

Ele também me contou várias vezes como vivenciou os pogroms, em nível nacional, de novembro de 1938. Na cidadezinha do sudoeste alemão em que eu cresci, a violência contra os judeus não começou na noite de 9 de novembro, mas no início da tarde do dia seguinte.

Na época, meu pai frequentava o primeiro ano primário, e no fim da aula o professor aconselhou as crianças a evitarem a sinagoga e as casas dos judeus, no caminho de casa. Melhor dar a volta nesses lugares, pois poderia ficar perigoso.

Naturalmente, como seria de se esperar de meninos de 6 ou 7 anos, meu pai e os amigos tomaram o aviso protetor como um convite para conferir o que poderia haver de tão perigoso, no meio do dia, num lugarzinho provinciano.

Eles se depararam com uma sinagoga em chamas, que o corpo de bombeiros não foi apagar, vitrines destroçadas e as lojas devastadas dos comerciantes judeus. E testemunharam como toda a mobília de uma família judaica foi jogada na rua, pela janela do primeiro andar.

O que aconteceu na cidadezinha com menos de 30 habitantes judeus está hoje perfeitamente documentado e registrado em livros. Mas o que eu gostaria de perguntar mais uma vez ao meu pai é como os meus avós reagiram ao relato do filho mais velho sobre o que acontecera ali, em plena luz do dia.

Será que tentaram explicar aquilo que, do ponto de vista atual, é inexplicável? Como comentaram o fato de que, a menos de 300 metros da nossa casa, mulheres e crianças tiveram a porta de entrada posta abaixo e todo o mobiliário feito em pedaços?

Os homens judeus, por sua vez, já haviam sido presos na madrugada do 10 de novembro e enviados num trem para o campo de concentração de Dachau.

Sendo honesto comigo mesmo, eu nem quero saber de nada disso. Nem preciso perguntar, porque, em princípio, já sei as respostas. Não, meus avós não eram nazistas convictos, disso eu tenho certeza. Mas eles olharam para o outro lado e se calaram, assim como milhões de outros alemães. É raro pais de quatro crianças pequenas se tornarem mártires.

E da existência do campo de Dachau e do que acontecia lá, eles sabiam desde que, em 1933, o prefeito e vários conselheiros municipais social-democratas foram presos, ao longo de semanas. Além disso, tratava-se de judeus: o que nós, católicos, tínhamos a ver com eles? Arriscar-nos por causa deles?

A exclusão e privação dos judeus de seus direitos não começou só em novembro de 1938. Já algumas semanas antes da tomada de poder por Adolf Hitler, pichava-se “Não comprem dos judeus” nas vitrines dos negociantes semitas; funcionários judeus foram demitidos; médicos, advogados e jornalistas foram proibidos de trabalhar. Além disso, vieram as leis raciais de Nurembergue, desapropriação e muitas outras coisas.

O 9 e 10 de novembro de 1938 foi a transição para o terror declarado, diante dos olhos de todo o povo. E também a minha família assistiu calada. Isso me aflige e envergonha. Mesmo 80 anos depois.
DW

Antisemitismo,Judeus,Preconceito

O anti-semitismo coloca em risco todos nós. Não podemos nos dar ao luxo de ser complacentes

Sábado – exatamente uma semana após o terrível ataque em Pittsburgh – Eu tive o privilégio de assistir um serviço de Shabat em uma sinagoga em Londres para mostrar solidariedade com a comunidade judaica, tanto aqui como em todo o mundo. Oramos por todos os afetados – as famílias, os amigos e a comunidade judaica em geral. Hoje à noite, também me orgulho de estar falando no jantar anual do Conselho dos Deputados dos Judeus Britânicos – uma grande organização que faz um trabalho incrível em defesa da comunidade judaica em nosso país.

Compreensivelmente, muitos londrinos judeus – e comunidades judaicas em todo o mundo – não estão apenas lamentando as vítimas do terrível ataque em Pittsburgh, mas preocupados com o que isso significa para sua própria segurança. Uma sinagoga deve ser sempre um santuário, um lugar onde você se sinta seguro para adorar e praticar sua fé em paz.

O perverso ataque terrorista teve como alvo inocentes americanos judeus, mas pareceu um ataque a todos nós – ao nosso modo de vida e às liberdades que nos são caras. A luta contra o anti-semitismo não é apenas proteger a comunidade judaica; é uma luta em nome de todos. O anti-semitismo é uma ameaça aos nossos valores, à coesão de nossas comunidades e a toda a nossa sociedade.

Infelizmente, o aumento do anti – semitismo e da extrema direita não pode ser tratado simplesmente como uma tendência passageira. O Community Security Trust informou que os incidentes antissemitas em todo o Reino Unido estão em um nível recorde, com o número de casos registrados em Londres aumentando em quase 200% desde 2011.

Sabemos de nossa história que ignoramos esses incidentes por nossa conta e onde o anti-semitismo, deixado para apodrecer, pode levar. E sabemos de nossa história que um aumento do anti-semitismo e do extremismo de direita geralmente vem com o aumento de outras formas de crime e divisão de ódio – coincidindo com um cenário de dificuldades econômicas, populismo nacionalista e incerteza política.

Antissemitismo,Judeus,Preconceito
 “Os políticos, neste país e em todo o mundo, devem abster-se de usar a linguagem da divisão para promover suas causas políticas.” Foto: Frank Mattia / ZUMA Wire / REX / Shutterstock

Preocupante, todos os sinais de aviso estão aqui novamente, por isso é vital que tomemos medidas agora.

Em Londres, estou fazendo tudo o que posso para combater o anti-semitismo. Sob minha liderança, a polícia do Met está adotando uma abordagem de tolerância zero ao antissemitismo , onde quer que ocorra. Isso inclui dentro do Partido Trabalhista , não importa o quão estranho os outros possam achar isso. Eu também criei um programa contra o extremismo violento na Prefeitura, que está trabalhando para impedir a disseminação de ideologias extremistas de todos os tipos.

Mas devemos também encorajar a todos, de todas as fés e de todas as origens, a desempenhar seu papel na derrota desse aumento do ódio. Isso inclui políticos, neste país e em todo o mundo, abstendo-se de usar a linguagem da divisão para promover suas causas políticas. Veja como o presidente Trump está usando a imigração como forma de aumentar o medo dos imigrantes e dar credibilidade às teorias da conspiração antes das eleições parlamentares americanas desta semana. Este é um dos piores exemplos nos últimos tempos deste tipo de comportamento irresponsável e prejudicial.

Também tem revelado quantas pessoas da comunidade judaica em Pittsburgh criticaram Trump após o ataque – porque sabem que sua retórica e ações nos últimos anos têm facilitado a ascensão da extrema direita em todos os EUA , o que encorajou alguns que desejam semear as sementes do ódio.

Depressivamente, visões extremas agora estão se infiltrando no mainstream, com os partidos populistas nacionalistas ganhando força nos EUA, em toda a Europa e agora no Brasil . Precisamos despertar para essa ameaça da extrema direita e da política de culpa e recriminação que está se infiltrando em nossos debates nacionais.

Uma grande parte de qualquer solução será atacar as causas profundas de por que mais e mais pessoas estão se sentindo deixadas para trás pela globalização, levando-as a culpar “o outro” por seus males. Mas também precisamos agir imediatamente para consertar as crescentes divisões em nossa sociedade.

Tenho orgulho de representar uma cidade global tão voltada para o futuro. No geral, não apenas toleramos as diferenças em Londres , nós as respeitamos e as celebramos. Mas ainda estamos longe de ser perfeitos – nossas comunidades vêm mudando rapidamente e nosso senso de coesão social está sendo testado como nunca antes.

Uma das lições de todo o mundo é que uma abordagem de “mãos livres” para a integração social simplesmente não funciona. E sem ação, a situação só piorará. É por isso que acredito que uma das tarefas mais importantes agora é tomar medidas proativas para construir comunidades mais fortes e mais integradas. Isso significa que precisamos começar a encorajar e facilitar uma integração social maior, sempre que pudermos – para fortalecer laços sociais e laços de confiança entre pessoas de todas as fés, raças, idades e origens.

Não vai haver uma solução rápida para este problema: é um dos desafios que definem o século XXI. Mas eu ainda estou otimista de que se nós tratá-lo com a seriedade que merece, podemos reprimir o anti-semitismo, deter a marcha do populismo extrema direita e nacionalistas e fazer uma diferença real na formação de comunidades mais fortes – mostrando que a esperança, unidade e amor sempre pode superar o medo, a divisão e o ódio.

 Sadiq Khan é o prefeito de Londres

Alerta contra a intolerância

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, ocorre algo contrário aos direitos humanos e aos preceitos constitucionais.

Com base na Lei da Transparência, sindicatos e uma associação de apoio à causa palestina exigiram da Reitoria que indicasse projetos ligados à defesa militar supostamente estabelecidos com o Estado de Israel.

Roberto Romano¹

Mas no mesmo átimo foi exigida a identificação de mestres e discentes israelitas (Memorando Circular 02/2015, Pró-Reitoria de Pós-Graduação). O requerimento proclama a “covardia” israelense e tem como base falas e atos da presidente Dilma Rousseff, que, diante do “massacre” (os próprios autores põem o termo entre aspas) dos palestinos, “chamou nosso embaixador naquele país, para consultas”.

Fosse o desejo conhecer supostos ou reais convênios bélicos entre a universidade e o Estado de Israel, o escrito enviado ao reitor limitar-se-ia aos projetos, documentos e dados. Mas o texto está embebido em ódio ideológico e conduziu o pró-reitor ao indigitamento de israelenses. Ao ler a ordem reitoral recordamos a estrela de Davi nas lapelas dos “perniciosos judeus covardes” e os massacres de hebreus aos milhões na 2.ª Guerra Mundial.

Aliás, o documento da Pró-Reitoria realiza em pequena escala o veiculado pela propaganda odienta da Rádio Islam: a nomeação dos judeus no Brasil (http://www.radioislam.org/islam/portugues/poder/lista_judeus_brasil.htm). O Ministério Público tem o dever de interpelar aquela estação de rádio, pois ela declaradamente pratica o ódio racial, com injúrias e difamação de judeus. [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Dado o teor do requerimento, prudente seria o gabinete reitoral devolvê-lo aos signatários, exigir a retirada do viés panfletário e do grave ataque aos direitos humanos. Um texto sem aquelas marcas seria de análise possível pela autoridade acadêmica, se redigido no respeito à lei. Da maneira como agiu, a Reitoria, infelizmente, avalizou intolerantes que, em nome de causas, fazem das normas legais letra morta.

Como a vida ética não foi totalmente corroída, instituições condenaram os militantes e as autoridades universitárias que cederam ao ditado das seitas. Em nota oficial o Ministério da Educação advertiu a Universidade de Santa Maria, verberando a discriminação empreendida. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência levantou-se contra o absurdo. Parte da imprensa exigiu explicações dos responsáveis.

“O ventre imundo de onde surgiu a besta ainda é fértil.” E como, senhor Brecht! A união histórica de setores árabes com o nazismo é conhecida. O elo entre sectários de hoje e o discurso do neonazismo é patente (Gilbert Achcar, The Arabs and the Holocaust). Tais sintaxes e semânticas foram mantidas após a 2.ª Guerra para garantir a razão de Estado nas potências mundiais. Quem deseja conhecer os bastidores da infâmia pode ler dois livros importantes: de John Hawkins, The Nazy Hidra in America, e de Christopher Simpson, Blowback, the First Full Account of America’s Recruitment of Nazis. O sucedido nos Estados Unidos foi replicado na América do Sul, basta recordar o caso Mengele. Longo tempo de pregação antissemita intoxicou mentes brasileiras. Os frutos surgem agora, inclusive em grupos cristãos.

Antes da 2.ª Guerra muitos norte-americanos acreditaram em Hitler, e não nos judeus. O jornal The Christian Science Monitor, por exemplo, atacou os “que difundiam mentiras sobre a Alemanha”. No Brasil, a revista A Ordem, em editorial (Os horizontes clareiam, 1934) afirma que a caça aos judeus era “mistificação” e “conjura” contra Hitler para “impedir que o nacional-socialismo se mantivesse no poder”. Herdeiros de Gustavo Barroso e comparsas continuaram a militância, à socapa ou abertamente, contra judeus. As fontes da memória nacional estão envenenadas.

Num ambiente prenhe de antissemitismo, a imprudência da Universidade Federal de Santa Maria salta aos olhos. Se os reitores não partilham, como acredito, os dogmas dos que assinaram a petição, era seu dever exigir dos autores o respeito aos direitos constitucionais. Ao aceitar as fórmulas dos peticionários, com base nos atos da presidente Dilma Rousseff, eles abriram um precedente que pode voltar-se amanhã contra os próprios defensores da causa palestina. Se atos de terror ocorrerem no Brasil, nomes serão demandados aos reitores. Como os de Santa Maria autorizaram a devassa contra os israelenses, só lhes restará abrir nomes de reais ou supostos terroristas árabes. Eles serão magníficos auxiliares do policiamento territorial. E os defensores da causa palestina receberão o mesmo remédio que hoje tentam aplicar nos judeus.

Acima dos Poderes está a Constituição. Para definir o Estado brasileiro, ela o proclama “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. E também: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Exigir a Reitoria universitária a indicação de nacionais ou estrangeiros é operar em conformidade com o não direito, contra a nossa Lei Suprema. Brasileiros, judeus, palestinos ou pessoas de qualquer outra origem não podem ser alvo de indigitamento, privado ou público. Esperemos que a crise ensine aos militantes mais respeito ante outros seres humanos. E aos administradores dos câmpus, prudência no trato de questões delicadas, pois elas tocam em feridas dolorosas na consciência da humanidade.

¹Roberto Romano é professor da UNICAMP e autor de “Razão de Estado e de Outros Estados” (Perspectiva)
Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

Arte – Pintura – Sofia Gandarias

Sofia Gandarias – Exposição “Kafka o Visionário”
Haus am Kleistpark de Berlim
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Texto de José Saramago para o catálogo da exposição

À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”.

É evidente que Deus não leu Kafka e, pelos vistos, Ratzinger também não. Não leram nem sequer Primo Levi, que está mais perto do nosso tempo e nunca se serviu de alegorias para descrever o horror.

Se se me permite a ousadia, eu aconselharia ao papa que visitasse, com tempo e olhos de ver, esta exposição de Sofía, que escutasse com atenção as explicações que lhe fossem dadas por uma pintora que, sabendo muito da arte que cultiva, muito sabe também do mundo e da vida que nele temos feito, os que crêem e os que não crêem, os que esperam e os que desesperam, e os outros, os que fizeram Auschwitz e os que perguntam onde estava Deus.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Melhor seria que nos perguntássemos onde estamos nós, que doença incurável é esta que não nos deixa inventar uma vida diferente, com deuses, se quiserem, mas sem nenhuma obrigação de crer neles. A única e autêntica liberdade do ser humano é a do espírito, de um espírito não contaminado por crenças irracionais e por superstições talvez poéticas em algum caso, mas que deformam a percepção da realidade e deveriam ofender a razão mais elementar.

Acompanho o trabalho de Sofía Gandarias desde há anos. Assombra-me a sua capacidade de trabalho, a força da sua vocação, a maestria com que transfere para a tela as visões do seu mundo interior, a relação quase orgânica que mantém com a cor e o desenho.

Sofía Gandarias é, toda ela, memória.

Memória de si mesma, como qualquer, em primeiro lugar, mas também memória do que viveu e do que aprendeu, memória de tudo o que interiorizou como algo próprio, memória de Kafka, de Primo Levi, de Roa Bastos, de Borges, de Rilke, de Brecht, de Hanna Arendt, de quantos, para tudo dizer numa palavra, se debruçaram do poço da alma humana e sentiram a vertigem.

Quem matou Alberto Nisman?

Em janeiro deste ano, um promotor argentino foi encontrado sem vida ao redor de uma poça de sangue no banheiro de seu apartamento, dias antes de divulgar um relatório contra o governo da presidente Cristina Kirchner. O correspondente da BBC Wyre Davies foi até Buenos Aires para entender as circunstâncias dessa estranha morte que continua a abalar a Argentina.

(Reuters)

No início deste ano, em meio a um período crítico em que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, tentava recuperar a combalida economia do país, de olho nas eleições de outubro, um episódio atingiu o centro nervoso do governo.

Dentro de um luxuoso apartamento na área portuária de Buenos Aires, um promotor de 51 anos chamado Alberto Nisman se preparava para divulgar um relatório polêmico. Ele acusaria o governo argentino de ajudar a acobertar o pior ataque terrorista da história do país.

Horas antes de ele apresentar o relatório ao Congresso, Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, localizado no 13º andar de um prédio luxuoso da capital Buenos Aires, com um único disparo na cabeça. Rapidamente, os argentinos começaram a se questionar: foi um suicídio ou um assassinato?

E se realmente tiver sido um assassinato, quem estaria por trás de sua morte? A resposta a essa pergunta encontra-se em uma sucessão de fatos ocorridos há 21 anos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Leia mais: Promotor que acusou Cristina Kirchner é achado morto; entenda o caso

Atentado

(AFP)
Ataque a bomba destruiu a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em 1994

No dia 18 de julho de 1994, um ataque a bomba destruiu a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), o principal centro comunitário judaico do país. A explosão foi tão forte que o prédio ruiu, matando 85 pessoas.

Muitas das provas foram perdidas ou contaminadas, ora deliberadamente ou por incompetência, e nunca ninguém foi condenado pelo envolvimento no atentado.

O ataque atingiu o coração da comunidade judaica, com cerca de 400 mil integrantes, uma das maiores fora de Israel. O prédio foi então reconstruído sob forte esquema de segurança com altos muros que impedem qualquer nova ameaça.

Nisman, um promotor midiático e por vezes obsessivo, vinha investigando o atentado há mais de uma década, tentando solucionar um caso para o qual ninguém ainda havia conseguido encontrar respostas.

(AFP)
Explosão foi tão forte que o prédio ruiu, matando 85 pessoas

Mas, nos últimos meses, o promotor começou a angariar inimigos no alto escalão do governo argentino.

Alegando que houve uma tentativa de acobertar a suposta participação do Irã no atentado, Nisman abriu um processo criminal contra a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o chanceler do país, Hector Timerman.

O promotor confiava em poucas pessoas e ocasionalmente trabalhava de seu apartamento. Ele estava ali no dia 18 de janeiro deste ano quando foi encontrado morto.

Flagrado deitado em seu banheiro cercado de uma poça de sangue e com uma arma próxima a seu corpo, muitas pessoas com boas conexões na Argentina imediatamente presumiram que Nisman havia se suicidado. Até a própria presidente Kirchner, em sua página no Facebook, sugeriu que o procurador tinha ceifado a sua própria vida.

Leia mais: Argentina: Atentado investigado por promotor morto segue impune; entenda

Outro lado

(BBC)
Ex-companheira de Nisman, juíza argentina Sandra Arroyo Salgado recusa-se a aceitar versão oficial sobre morte de promotor

Mas uma pessoa se recusa a acreditar nisso desde o início. Ex-companheira de Nisman, Sandra Arroyo Salgado viveu com o promotor por 17 anos e é mãe de suas duas filhas.

“Não tenho dúvida, de que por causa do jeito que ele era, sua personalidade, ele nunca tiraria a própria vida”, disse ela à BBC em uma entrevista exclusiva em sua casa, localizada em um subúrbio chique nos arredores de Buenos Aires.

“Ele era extremamente cuidadoso com sua saúde e tinha medo de morrer jovem. Por isso, quando me contaram que ele tinha sido encontrado morto e uma arma foi encontrada no local, sabia que alguém o havia matado”.

(BBC)
Polícia permitiu que mãe de Nisman lavasse pratos sujos que haviam sido deixados na pia

No momento da morte de Nisman, Salgado estava em viagem ao exterior e, quando voltou à Argentina, ficou surpresa com a rápida velocidade do exame post mortem e o insucesso em preservar as provas encontradas no apartamento do promotor.

Assim, embora ela e Nisman estivessem separados, Salgado ─ que é juíza ─ começou suas próprias investigações.

“A única coisa que estamos buscando é a verdade”, disse ela. “Minha equipe de investigadores analisou as fotos e o vídeo da autopsia oficial e chegou à conclusão que a morte de Alberto certamente não foi acidental”.

“É como se as autoridades responsáveis pela investigação estivessem ignorando completamente o fato de que Alberto foi encontrado morto apenas quatro dias depois de ter acusado a presidente do país de nada menos do que um possível acobertamento de um ataque terrorista que resultou na morte de 85 pessoas”.

Leia mais: Por que a morte do promotor argentino deixa tantas dúvidas

Provas

Arma que matou Nisman era uma antiga Bersa calibre 22

Dezenas de imagens foram registradas pela polícia argentina no apartamento de Nisman. Elas apontavam para uma total falta de preparo das autoridades.

Algumas imagens mostram várias pessoas andando pelo apartamento, sem qualquer roupa especial. As evidências foram inapropriadamente manipuladas. Por exemplo, em dado momento, a polícia permitiu que a mãe de Nisman lavasse os pratos sujos que haviam sido deixados na pia e que, muito possivelmente, teriam pistas que ajudariam a desvendar o mistério.

A equipe de Salgado também alega que as digitais não foram tiradas de provas consideradas “chave” como um computador que, segundo ela, investigadores ligaram sem a devida cautela.

A arma achada na cena também parece ter sido manipulada e deixada em outro lugar, de novo longe do procedimento padrão nesses casos.

Apenas depois da insistência de Salgado foi que um teste à base de Luminol (substância química que permite identificar vestígios de sangue) foi realizado semanas depois da morte de Nisman. O teste mostrou que houve uma tentativa de lavar o sangue de algum objeto na pia do banheiro.

Mas a mulher a cargo da investigação oficial sobre a morte de Nisman, a também promotora Viviana Fein, nega que tenha havido qualquer procedimento incorreto por parte da polícia.

“É comum na Argentina não usar essas roupas especiais”, disse Fein à BBC. “Já estive em muitas cenas como essa e não usei o tipo de roupa que os especialistas usam simplesmente porque não tocamos em nada. Não havia sangue em nenhum lugar fora do banheiro, o lugar onde Nisman morreu”.

A rivalidade entre as duas mulheres ─ Sandra Arroyo Salgado e Viviana Fein ─ atraiu as atenções do país. Acredita-se que investigação oficial conduzida por Fein provavelmente chegará à conclusão de que Nisman se matou, mas a equipe liderada por Salgado alega que as provas sugerem justamente o contrário.

Leia mais: Argentina: caso Nisman reacende desconfiança sobre agentes de inteligência

Ferimento

Uma das peças desse quebra-cabeças, contudo, é o ferimento causado pela bala que transpassou a cabeça de Nisman.

Muitos suicidas que se matam com armas de fogo efetuam o disparo posicionando a arma ao lado da cabeça ou de frente a ela. Mas a bala que matou Nisman entrou por cima, e por trás de sua orelha direita ─ um cenário não impossível, mas altamente improvável, dizem especialistas.

Outras dúvidas foram lançadas sobre a posição em que a arma foi encontrada. As fotografias tiradas de Nisman pela polícia mostram o corpo contorcido do promotor deitado em uma poça de sangue no banheiro, com a arma debaixo de seu ombro esquerdo, embora o disparo tenha perfurado o lado direito de sua cabeça.

“Uma possibilidade, se ele disparou contra si mesmo, seria que a arma tivesse caído, ou sido lançada para o lado”, diz Ignacio Prieto, um dos principais repórteres investigativos da Argentina. “Mas é difícil imaginar como a arma poderia ter feito uma trajetória de 180 graus; é muito estranho”.

Na opinião de Prieto, o cenário aponta para o envolvimento de outras pessoas na morte do promotor ─ uma teoria, diz ele, amparada por criminologistas da Interpol, a polícia internacional.

“Os especialistas dizem que a cena foi montada, eles colocaram o corpo de uma certa forma, a arma de outra e até usaram uma toalha para arrumar o corpo”.

Testes também não encontraram vestígios de pólvora na mão de Nisman.

Leia mais: ‘Não vão me intimidar’, diz Cristina em pronunciamento sobre Nisman

Revólver do qual partiu tiro que matou Nisman pertencia ao técnico de computador Diego Lagomarsino

Técnico de informática

A arma que matou Nisman era uma antiga Bersa calibre 22. O revólver pertencia a um técnico de computador de 38 anos, Diego Lagomarsino, que trabalhava com o promotor.

Em uma entrevista coletiva caótica depois que o corpo foi descoberto, Lagomarsino negou ser parte de uma conspiração para matar seu chefe. Posteriormente, ele contou à BBC sua versão dos acontecimentos ─ que Nisman lhe pediu a arma emprestada porque não confiava mais nos guarda-costas da polícia que o acompanhavam e queria proteger suas filhas.

“Eu não tinha escolha. Alberto era um homem difícil de dizer não”, conta.

Lagomarsino diz que levou a arma ao apartamento de Nisman na noite de 17 de janeiro, um sábado, e então saiu. Ele acrescenta que talvez tenha sido a última pessoa a ver o promotor vivo antes de sua morte por volta do meio-dia de domingo, tal como indica a autopsia.

Mas Sandra Arroyo Salgado diz que Lagomarsino tem mais explicações a dar depois que seus investigadores concluíram que Nisman morreu muito mais cedo, na noite de sábado.

Nisman vinha falando quase sem parar ao telefone com jornalistas e políticos nos dias anteriores a sua potencialmente explosiva acareação no Congresso ─ que deveria ocorrer na segunda-feira ─, mas na noite de sábado esse homem ativo permaneceu atipicamente em silêncio. O jornal de domingo permaneceu intocado do lado de fora de seu apartamento. Por quê?

“Acredito que a hora em que ele morreu foi quando ele parou de fazer telefonemas, porque ele era uma pessoa que falava constantemente ao telefone”, diz a ex-mulher.

“É inconcebível, inconcebível que ele não tenha feito uma única chamada por tantas horas. A primeira coisa que ele fazia de manhã, durante todo o tempo em que estivemos juntos, era pegar o jornal, lê-lo e era exatamente o que ele faria já que as notícias sobre ele pipocavam na imprensa”.

Leia mais: Investigação de morte de promotor argentino ganha ares de romance policial

Protestos

Um mês depois de Nisman ter sido encontrado morto, argentinos foram às ruas protestar contra impunidade

As dúvidas sobre se o caso está sendo investigado de forma imparcial e independente estão sendo sentidas por toda a sociedade argentina.

Exatamente um mês depois que o corpo de Nisman foi encontrado, centenas de milhares de argentinos caminharam sob chuva torrencial por Buenos Aires, protestando contra a impunidade ─ um sentimento de que, mais uma vez, outro crime de grandes proporções inevitavelmente permaneceria sem solução por causa da incompetência judicial e a interferência política.

Por outro lado, a presidente Cristina Fernandéz de Kirchner não parece se incomodar com as dúvidas sobre a isonomia do processo.

Conhecida pelo temperamento combativo, ela tem repetidamente ridicularizado manifestantes e críticos. Sugerindo, inclusive, que alguém tenha matado Nisman como forma de minar seu governo, Kirchner condenou o ex-promotor e seu relatório.

A tensão entre eles data de pelo menos janeiro de 2013, quando a Argentina assinou um acordo com o Irã, estabelecendo a criação de uma “comissão da verdade” para uma investigação conjunta do atentado à Amia. Nisman, que trabalhou sobre o caso por 17 anos e acusou formalmente várias figuras iranianas de alto escalão em 2006, não pôde conter sua raiva.

Tensão entre Nisman e Kirchner era antiga

No rádio e na TV, ele acusou Kirchner e seu chanceler, Hector Timerman, de agir inconstitucional e ilegalmente para interferir no processo judicial.

Nisman argumentaria mais tarde que o governo estava tentando firmar um pacto com Teerã como forma de aumentar o comércio bilateral entre os dois países e ajudar a combalida economia argentina.

Timerman, que tal como Nisman é judeu, disse à BBC ser “inconcebível” que ele, de todas as pessoas, trairia as memórias daqueles que morreram no atentado à bomba e disse que as acusações de Nisman contra ele e a presidente não tinham fundamento.

“Sei que ele rascunhou uma ordem de prisão contra mim e eu me defenderei no tribunal. Somente confio na lei, eu irei ao tribunal para provar minha inocência”, diz Timerman, para quem o relatório de Nisman é um documento juridicamente incorreto.

“Fizemos mais do que qualquer outro governo para buscar os culpados por esse terrível crime contra a Amia, mais do que qualquer outro governo”, retruca.

Sabe-se, por documentos liberados pelo Wikileaks, que Nisman visitava regularmente a embaixada americana em Buenos Aires. Ele teria tido acesso a briefings secretos de inteligência que provavelmente influenciaram sua investigação sobre o ataque. Nisman também teria ligações estreitas com o serviço secreto de Israel, a Mossad.

Depois que Nisman morreu, Timerman enviou cartas abertas a Washington e a Israel, alertando os dois países a não intervirem em assuntos internos da Argentina.

“Acredito que há países cujos serviços de inteligência operam em outros países sem a autorização desses últimos”, disse o chanceler argentino.

Questionado pela BBC sobre se o envio das cartas tem relação com o caso Nisman, Timerman foi lacônico.

“Não enviamos cartas sem provas”, retrucou.

Leia mais: Por que a morte do promotor argentino deixa tantas dúvidas

Agência de inteligência

Ex-diretor de operações de agência de inteligência da Argentina colaborava com Nisman; hoje ele está foragido

O que não está sob dúvida é o papel desempenhado pela agência de inteligência interna da Argentina na vida do promotor e, para alguns, em sua morte também.

Ao longo de décadas, o diretor de operações da SI, como a agência é conhecida, foi Antonio “Jaime” Stiuso, um homem tão esquivo quanto a única imagem que existe dele.

Ele trabalhou conjuntamente com Nisman no caso Amia, fornecendo ao promotor escutas telefônicas e outras informações sensíveis sobre o caso.

Assim como Nisman, Stiuso também caiu em desgraça com o governo após se opor ao controverso acordo com o Irã e quando as divisões chegaram à SI, ele foi demitido. Agora está foragido e acredita-se que tenha deixado o país.

Talvez Nisman tenha pagado um preço alto por tomar um lado num jogo perigoso.

Para célebre juiz argentino Luiz Moreno Ocampo, caso Nisman expôs lado negro do funcionamento do sistema de inteligência

O famoso juiz argentino Luis Moreno Ocampo tem um interesse especial na história. Ele diz que, durante a ressaca dos anos de chumbo da ditadura argentina, espiões exerciam um enorme poder sobre o sistema judiciário, do qual Nisman fazia parte.

“Nas décadas de 1970 e 1980, o nosso sistema de inteligência funcionava como um braço das atrocidades cometidas pela ditadura. Isso já acabou”, insiste Moreno Ocampo.

“Mas o caso Nisman expôs que governos democráticos não mudaram o funcionamento do sistema de inteligência. Eles não estão mais cometendo atrocidades, mas gerenciam dinheiro para fins políticos, espionam membros da oposição, controlam juízes e promotores que querem investigar o governo. É isso que temos aqui. E o caso Nisman expôs isso”, opina.

Segredos

Governo argentino quer engavetar caso Nisman

Numa cidade cheia de segredos e suspeitas, a única pessoa que realmente se aproximou de Nisman e, diz ele, deu ao promotor a arma da qual sairia o tiro fatal foi o técnico de informática Diego Lagomarsino. Mas alguns acreditam que ele também era um agente de inteligência.

Lagomarsino teve, como chegou a ser levantado, um papel na morte de Nisman?

“Não”, disse ele enfaticamente à BBC. Seu trabalho era meramente cuidar do computador do promotor argentino.

“Tenho a verdade ao meu lado, eu sei que não fiz isso e isso deixa a minha consciência livre. Deus sabe que eu não fiz isso. Eu sei que não fiz isso. E tudo será provado no final”, afirma Lagomarsino, com a voz embargada.

Integrantes do governo argentino iniciaram campanha de difamação de Nisman

“Quando tudo isso tiver terminado, eles pedirão perdão a mim. Eu os perdoarei”, acrescenta.

Esse assassinato vem chacoalhando a Argentina, mas em ano de eleição, o governo do país parece ansioso para encerrar o caso rapidamente e engavetá-lo para sempre.

Integrantes do governo se lançaram numa campanha de difamação de Nisman, acusando-o de ser mulherengo e desviar recursos públicos de seu gabinete. Fotos dele ao lado de jovens mulheres, aparentemente tiradas de seu telefone celular, foram vazadas à imprensa argentina.

Enquanto isso, a investigação de Nisman sobre o acobertamento do caso Amia foi oficialmente arquivada.

A ex-mulher do promotor relembra à BBC uma conversa entre ele e sua filha mais velha dias antes de sua morte, em que ele enfatizava a importância do relatório.

“Ele disse a ela: Eu estou trabalhando por algum tempo em algo muito importante. Você ficará orgulhosa do meu trabalho”, conta Salgado, repetindo a conversa entre pai e filha.

“Mas às vezes na vida não escolhemos os momentos em que as coisas acontecem, e tenho de apresentar esse relatório agora, é um grande projeto sobre o qual venho trabalhando por muito tempo e há um risco de que, se eu não o fizer agora, é possível que eu nunca consiga mostrá-lo para o Congresso, e que eu perca o meu emprego”, acrescentou Nisman à filha.

Nisman nunca chegou a apresentar o documento ao Congresso argentino. O relatório foi desacreditado por alguns, mas outros que conheciam Nisman dizem que ele estava convencido de que estava perto da verdade e certamente não se suicidaria.

Diante de tantas informações, sobram perguntas.

Caso Nisman talvez nunca seja solucionado

Humberto Eco: Do mosteiro ao picadeiro

Li “O Cemitério de Praga” logo quando do lançamento em língua portuguesa. Como tudo da lavra de Eco, o livro ganhou minha admiração logo nos primeiros capítulos. Boa literatura, prosa bem trabalhada e tramas elaboradas com o requinte de um “gourmet” das letras.

“O cemitério de Praga remete, sutilmente, mas não tanto, a uma das grandes falsificações da história: o embusteiro “Os protocolos dos sábios de Sião”, texto comprovadamente forjado pela polícia secreta do Czar Nicolau II da Rússia, uma farsa montada para justificar a perseguição aos judeus. Esses “protocolos”, que alguns estudiosos creditam ser derivados de um texto francês — Diálogos no inferno entre Maquiavel e Montesquieu — tratam um complexo plano que teria sido elaborado pelos judeus para dominar o mundo. Para alguns adeptos de teorias conspiratórias, teriam servido de mote inspirador para a criação dos campos de extermínios construídos pelos nazistas durante a segunda guerra mundial.
José Mesquita – Editor


“Todas as perguntas possíveis já me foram feitas”, diz Umberto Eco, após terminar o café, afundado numa poltrona da sala de visitas de sua casa, em Milão.

A cigarrilha apagada, hábito de ex-fumante, pende de um lado da boca. “Só não me perguntam, sei lá, quais são os sete anões. Eu responderia que, quando tento me lembrar, sempre são seis.”

Ao fundo, atrás de sua calva, vê-se, de um lado, uma coleção de conchas do mar, escrupulosamente organizadas; de outro, em atris, livros ilustrados do fim do século 19.

São alguns dos originais de onde saíram as ilustrações de seu mais recente romance, “O Cemitério de Praga” [Record, trad. Joana Angélica D’Avila Melo, 480 págs, R$ 49,90].

O “Cemitério” foi recebido como a volta de um mestre ao gênero que o consagrou (após um romance nostálgico e de fundo autobiográfico, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”): uma trama de mistério, com crimes sangrentos e um protagonista que chega a ser comovente em sua pusilanimidade.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A entrevista tem por mote o lançamento do livro no Brasil mas também os 80 anos do escritor, nascido em 5 de janeiro de 1932, na piemontesa Alessandria, cuja fama vem dele e dos chapéus Borsalino. Em várias fotos para a imprensa, ele ostenta, com elegância algo zombeteira, um modelo negro da marca.

ROMANCE

Eco, o romancista, nasceu em 1980, após sobrevir-lhe o desejo de envenenar um monge: assim o escritor define o motor inicial de seu “O Nome da Rosa“, best-seller de cifras milionárias, levado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater.

Àquela altura, o nome do professor italiano era já conhecido: foram muitos ensaios e títulos de teoria, da poética do escritor irlandês James Joyce (“Sou joyciano, não proustiano”, diz, e exibe uma estante forrada de primeiras edições de “Ulysses” em diferentes idiomas) a análises da comunicação de massa (seu primeiro emprego pós-doutoramento em filosofia, em 1954, foi como editor de cultura num dos canais da rede televisiva RAI).

O manual “Como se Faz uma Tese” (Perspectiva), de 1977, ainda hoje é referência em cursos de ciências humanas. Mas o currículo de Eco faz com que ele frequente as bibliografias de muitas disciplinas que não só as de metodologia.

Umberto Eco navegou nas principais ondas que atravessaram os estudos da linguagem na segunda metade do século 20, do estruturalismo à teoria da recepção e à narratologia, parando às margens do pós-estruturalismo; cobriu da filosofia às tirinhas do Snoopy.

Cunhou expressões que se tornaram muletas do discurso universitário: atire a primeira pedra quem nunca disse que toda obra é “uma obra aberta” ou aquele que não juntou numa frase, dita à mesa do bar, “apocalípticos” e “integrados”.

Foi a ficção, porém, que levou seu nome aos píncaros da cultura de massa.

No Brasil, “O Nome da Rosa” saiu em 1984 pela Nova Fronteira. A diretora editorial da casa, Leila Name, qualifica o livro como “uma bomba de sucesso” cujo efeito se multiplicou com o filme. Pelos registros da Nova Fronteira, a primeira investida de Eco na ficção teve no Brasil mais de 45 reimpressões e vendas acima de 600 mil exemplares.

Hoje, sua obra ficcional está toda na Record, que também lança alguns de seus livros de ensaios, como “A História da Beleza” e “A História da Feiura”, almanaques eruditos de popularização da história cultural. Somados, seus títulos na casa venderam cerca de 550 mil exemplares “”91 mil deles de “O Cemitério de Praga”.

Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, lembra a aquisição de “O Pêndulo de Foucault”, segundo romance de Eco, em um leilão “””via fax, telex””” comandado por seu pai, Alfredo Machado nos idos de 1988. A quantia acertada pelos direitos do segundo romance de Eco era uma cifra “inédita”, US$ 130 mil (cerca de US$ 237 mil, em números corrigidos, o equivalente a R$ 420 mil).

“Na época, US$ 20 mil eram um absurdo”, situa Machado. O editor se esquiva de fornecer valores atuais, mas diz que a soma paga por um livro de Eco “não anda para trás” e “vem subindo de forma consistente”.

Dali em diante, tudo o que Eco escreveu atingiu números superlativos –inclusive o que menos vendeu na Record, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, com “apenas” 48 mil exemplares. “Este foi um pelo qual a gente pagou mais do que devia”, diz o editor. “As pessoas querem mais do mesmo.”

Eco não discorda. “Todos falam que escrevo romances eruditos, difíceis”, diz o escritor. “Quando escrevi um fácil, que todo mundo entende, ‘A Misteriosa Chama da Rainha Loana’, foi o que menos vendeu. Dá para ver que sou um autor para masoquistas.”

DAN BROWN

Muitos intelectuais, porém, não engolem a combinação de sucesso comercial e erudição de Eco, tachando-o de uma espécie de Dan Brown mais cultivado. O raciocínio é um velho conhecido no Brasil, onde serve para desqualificar, por exemplo, os romances de Chico Buarque: se o autor vende bem e é pop, mau sinal –só pode ser um picareta.

“Ter Umberto Eco nas estantes da sala é, para muitos, inclusive os que jamais leram uma linha desses livros, uma questão de ‘status cult'”, diz a professora Lucia Santaella, da PUC-SP, colega em semiótica de Eco, a quem tece “críticas até mesmo bastante severas”. Para ela, o italiano é uma espécie de grife, que “compõe bem a pose dos pseudointelectuais que brilham nas grandes praças dos lançamentos do ‘big show business'”.

Um de seus detratores contumazes na Itália, o romano Alfonso Berardinelli, estrela da crítica italiana atual, diz –citando Kafka– que Eco está no centro do mundo, onde se acumula toda a sua imundície, “a prodigiosa escória”.

“Escrevi pelo menos quatro ou cinco artigos e ensaios contra Eco”, rememora à Folha. “Não posso dizer nada de novo; Eco me aborrece faz tempo, e o que eu tinha a dizer já disse há 20 ou 30 anos. Fico maravilhado em ver como agrada”, afirma o autor de “Da Poesia à Prosa” (Cosac Naify).

“Parece engraçado e brilhante, mas na realidade é um professor que não cessa de mesclar erudição e piadas com veia estudantil. E sem fazer rir. É quase uma ofensa à literatura italiana que ele seja seu autor mais notável.”

Berardinelli diz ainda não conhecer nenhum escritor –“nem na Itália, nem fora”– que goste mesmo de Eco. “Sua fama é puramente comercial. É um fenômeno de circo, um autor que impressiona professores de escola.”

PICADEIRO

No meio do picadeiro pós-lançamento, Eco segue imperturbável: profere pausadamente um discurso que soa familiar, pois volta e meia as palavras se repetem em manifestações públicas e entrevistas.

Pudera: a vida literária muitas vezes rivaliza com a de um roqueiro, com cansativas turnês de lançamentos (“Voltei dos EUA com o ombro arruinado, depois de autografar 3.000 livros”, conta) e solicitações para opinar publicamente sobre todo e qualquer fato relevante (menos sobre os sete anões).

Seu apartamento é uma grande biblioteca –são 30 mil volumes; outros 20 mil, estima, estão em sua casa de campo–, mas nada de labirintos compartimentados, apesar de o edifício ser um antigo hotel. À entrada, mapas antigos recebem o visitante; a sala é luminosa e ordenada, com móveis discretos e claros; nas paredes, arte contemporânea; pela janela vê-se a torre do castelo Sforzesco, famoso marco turístico milanês.

A antiga residência dos duques de Milão remonta à Idade Média, período dileto de Eco, que se doutorou pela Universidade de Turim em 1954 com uma tese sobre a questão estética em São Tomás de Aquino. Mas da fortaleza que foi, após múltiplos ataques e sucessivas reconstruções, praticamente nada de original resta.

“Os turistas vêm aqui ver o castelo, onde é tudo falso, e não vão a Brera, onde tem Rafaello, o Cristo de Mantegna, Piero Della Francesca”, lamenta o escritor.

FALSÁRIO

O falso e o verdadeiro são um tópico da obra de Eco. Simone Simonini, o protagonista de “O Cemitério de Praga”, é um falsário. Ou melhor, “o” falsário: Eco atribuiu a ele os grandes crimes contra a verdade que marcariam a virada para o século 20 e, mais que todos, os apócrifos “Protocolos dos Sábios de Sião”, conjunto de escritos antissemitas que teriam servido a Hitler para a fundamentação do nazismo.

“Havendo-me ocupado de problemas de linguagem e comunicação desde 1975, escrevi que o que caracteriza toda forma de signo e de linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente jamais. Quando late, é porque tem alguém lá fora: nunca aconteceu de um cão latir para que se pense que há alguém lá fora, sem que haja –o homem sim.”

“O problema da mentira implica o problema da falsificação. Entre as falsificações mais trágicas, eis os ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, aos quais dediquei vários escritos. Acho que fiz também algumas descobertas “”como a de que trata o romance, que uma das fontes era ‘Joseph Balsamo’, o livro de Dumas.”

O romance de Alexandre Dumas, pai, de 1849, se inicia com uma cena em que maçons entronizam o protagonista em sua seita secreta. A descrição teria inspirado a conspiração de rabinos dos “Protocolos”, forjada no cemitério judaico da capital tcheca, que se teriam congregado para tramar a dominação do mundo.

O “documento” (que difama os semitas “num patchwork contraditório que não se poderia levar a sério, mas que foi muito levado a sério”) justificaria o ódio aos judeus e seu extermínio preventivo.

“Ninguém sabe como surgem os ‘Protocolos’: como nasceram, quem os fez, em quantas fases. Por isso fiquei livre para atribuir tudo a Simonini”, diz. E explica que Simonini é o único personagem fictício no romance, um “feuilleton” oitocentista.
Ele frisa, porém que, Simonini, apesar de inventado, “é mais verdadeiro que os demais”.
“Eu estava sempre pensando em pessoas que conhecemos, falsários, jornalistas vendidos, que sabemos quem são, até o nome e o sobrenome. Minha ambição seria que os leitores usassem o livro como um guia para visitar o mundo dizendo ‘lá vai um Simonini’.”
Eco arrisca uma leitura psicológica das motivações para a obsessão central de Simonini, que é o ódio aos judeus fomentado nele pelo avô desde a infância.

“Descobri que algumas pessoas acabam odiando alguém porque lhe fizeram mal “”veja bem, não odeio alguém porque alguém me fez mal, mas porque eu lhe fiz mal e depois o odeio. Mas por quê? Porque tento esquecer que eu sou o culpado e tento me convencer de que ele merecia meu ódio.”

E garante: “Aconteceu comigo também: gente que aprontou comigo depois escreveu artigos contra mim. Mas entendi que tinham sido desrespeitosos comigo e depois precisavam se justificar”.

Como reza o título da mais recente coletânea de ensaios de Eco –o ainda inédito em português “Costruire il Nemico” (2011), no qual se reconhecem temas e aspectos de “O Cemitério de Praga”: é preciso construir o inimigo.

CRÍTICA

Eco diz “desconfiar muito da chamada crítica militante, a que se faz nos jornais, em comparação com a crítica acadêmica”.

“Antes, quando saía um livro, o diretor do jornal dava seis meses ao crítico para ler; não havia necessidade de falar dele no dia seguinte. Hoje o crítico lê sempre numa situação de pressa e fica sujeito à estação, à dor de cabeça, ao que comeu na noite anterior. Se tivesse tido seis meses, comendo cada dia algo diferente, a sua leitura seria mais equilibrada.”

E, como que a precaver-se de um ataque, emenda: “Note-se que eu acho desequilibradas não só as críticas que falam mal de meus livros mas também as que falam bem; elas às vezes me irritam porque falam bem pelos motivos errados.”

Ele se irrita, também, quando inquirido se existem de fato “motivos errados”. Parece condenado a relembrar que a obra é aberta, sim, mas que a interpretação tem limites: “A minha posição é muito clara: não sou um desconstrutivista que acha que um texto pode ter qualquer significado e que cada um pode ler como quiser. A liberdade da leitura é sempre determinada pelo objeto que está lá.”

SEMIÓTICA

Se a semiótica foi devorada por outros estudos e devolvida sob outros avatares acadêmicos, a culpa é em parte de Eco.

Com rara clareza numa ciência em que a obscuridade volta e meia era confundida com argúcia, o italiano aplicou conceitos da ciência dos signos em estudos amplamente difundidos e citados (mesmo que muitas vezes de orelhada) fora do âmbito dos semioticistas, alastrando-os para campos mais diversos e talvez menos cerebrais.

Sempre evocada quando se pensa em semiótica, sua produção, porém, não empolga seus pares. Para Lucia Santaella, o pensamento que ele produziu é “miscigenado”: “Ele mistura indiscriminadamente correntes, autores, teorias, criando uma salada complexa e difícil de entender.”

A professora não nega a Eco o papel de “intelectual engajado”, que, “alerta, marca sua posição acerca dos eventos”, “como um jornalista bem dotado”.

“Ele é escritor prolífico. Nos inúmeros congressos de que participei em que ele estava presente, comentava-se que ele escrevia até nos táxis. De fato, ele tem a veia dos gênios. Sua genialidade é a do discurso”, concede Santaella.

PARÓDIA

O discurso de Eco tem um aspecto brincalhão que parece atiçar parte da crítica contra ele e marca, por exemplo, seus dois “Diários Mínimos”, divertidas coletâneas de paródias e pastiches intelectuais, que em maio ganham nova edição [Record, trad. Joana Angélica D’Avila Melo e Sergio Duarte, 560 págs., R$ 62,90; leia trecho de “Nonita” à pág. 10].

A despeito do lado gracioso, Eco tem para sua literatura pretensões nada triviais. Seus diversos ensaios sobre a leitura, como “O Papel do Leitor”, e livros sobre o tema, como “A Obra Aberta” e “Lector in Fabula”, talvez sejam o retrato do que o Eco ensaísta esperava do Eco romancista: a forja, no mundo real, de um leitor modelo.

“Que leitor modelo eu queria quando estava escrevendo?”, inquire retoricamente Eco em seu “Pós-escrito a ‘O Nome da Rosa'” (Nova Fronteira, 1985). “Um cúmplice, claro, que entrasse no meu jogo. Eu queria tornar-me completamente medieval e viver na Idade Média como se esta fosse minha época (e vice-versa)”, escreve.

“Mas, ao mesmo tempo, eu queria, com todas as minhas forças, que se desenhasse uma figura de leitor que, superada a iniciação, se tornasse meu prisioneiro, ou melhor, prisioneiro do texto e pensasse não querer nada mais do que aquilo que o texto lhe oferecia.”

Questionado se o teórico transparece no romancista, ele nega. Diz que, se é que se encontram reflexos de sua teoria na sua ficção, é “porque evidentemente eu não sou esquizofrênico”: “Até os ginecologistas se apaixonam. Sustento que você pode ter a teoria que for, mas, quando lê, se aquilo o cativa, ao menos numa primeira fase da leitura esquece a teoria.”

Berardinelli, seu crítico mais feroz, faz uma descrição tão ácida quanto acertada do que é tentar definir a produção de Eco.

Assim diz, no texto “Umberto Eco e Seu Pêndulo”, publicado aqui em edição da revista “Remate de Males” organizada pela professora Maria Betânia Amoroso no primeiro semestre de 2005:

“Toda vez que se cai na armadilha de seguir enumerativamente a vertiginosa pluralidade da mente de Eco, se acaba por ter que desistir derrotado: estamos frente ao inesgotável […]. Se eu também me pusesse a enumerar tudo aquilo que ele enumera não faria nada mais do que lhe fazer eco.”
Francesca Angiolillo/Folha de S.Paulo

Google terá que excluir buscas contra judeus

Justiça argentina ordenou que empresa pare de sugerir termos antissemitas em seu sistema de buscas.

A Justiça argentina ordenou que Google elimine de suas buscas palavras que indiquem preconceito contra judeus.

A ordem acata um pedido interposto pela organização israelita Daia (Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas).

Segundo a ação da delegação, ao inserir o termo “judeu” no campo de buscas da ferramenta, o recurso autocompletar automaticamente sugeria termos antissemitas.

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De acordo com a Agência de Notícias do Poder Judicial da Argentina, o juíz Carlos Molina Portela também ordenou que o Google remova de seus resultados 76 sites apontados pela organização como racistas.

Outros 22 deles também estão proibidos de receber publicidade do gigante das buscas.

De acordo com a sentença do juiz, “a aquisição pelo réu de links para conteúdo existente em páginas de cunho racista e/ou a inclusão em seu diretório de tal conteúdo poderia ser classificado como atos de discriminação ou, pelo menos, de incentivo a ela”, proferiu ele na sentença.

Info OnLine


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Dilma Rousseff: não há diferença entre nazismo e ditaduras

“Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam”.
Edmund Burke

O discurso da Presidente Dilma Rousseff em Porto Alegre, em cerimônia em homenagem às vítimas do holocausto dos judeus pelos Nazistas na 2ª Guerra Mundial, soa como um alerta, em memória dos 6 milhões de judeus, 10 milhões de cristão, 1900 padres católicos, deficientes físicos, homossexuais, resumindo, seres humanos que foram assassinados, massacrados, violentados, queimados, mortos a fome e humilhados, enquanto Alemanha e Rússia olhavam em outras direções.

Acredito hoje que estou agindo de acordo com o Criador Todo-Poderoso.

“Ao repelir os Judeus estou lutando pelo trabalho do Senhor”
Adolph Hitler, Discurso, Reichstag, 1939

O Editor


Dilma compara, em discurso, o nazismo às ditaduras

Dilma Rousseff participou na noite passada, em Porto Alegre, de cerimônia em memória das vítimas do holocausto.

Ao discursar, a presidente fez uma analogia entre a barbárie imposta pelo nazismo aos judeus e a tortura infligida pelas ditaduras.

Torturada pelo regime militar, Dilma acomodou num mesmo balaio os campos de concentração e os porões dos regimes de exceção:

“Lembrar Auschwitz-Birkenau é lembrar todas as vítimas de todas as guerras injustas, todas as ditaduras que tentaram calar seres humanos”.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Minutos antes, fora ao microfone o presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Claudio Lottenberg. Voltando-se para Dilma, ele disse:

“A senhora, presidente, sabe melhor que todos o que significa ser torturada, […] o que este tipo de agressão pode significar para alguém, por mais que sobreviva”.

Dilma pronunciou uma frase que fez lembrar entrevista que concedera ao diário ‘Washington Post’, logo depois da posse.

Na ocasião, inquirida sobre a parceria que Lula estabelecera com o Irã, ela afirmara que não concordava com as violações aos direitos humanos patrocinadas por Teerã.

No discurso da capital gaúcha, sem mencionar o Irã, a presidente declarou coisa parecida:

“É nosso dever não compactuar com nenhuma forma, qualquer que seja, de violação de direitos humanos –em qualquer país, aí incluído o nosso”.

Em entrevista concedida antes do início da cerimônia, Lottenberg havia festejado a distinção entre Dilma e Lula em relação à matéria.

O presidente da Conib declarou-se “feliz em saber que a presidente [Dilma] tem posição diferente daquela que o presidente Lula manifestou no passado”.

Dilma desembarcou em Porto Alegre por volta das 20h, com atraso de cerca de uma hora. Falou para uma platéia eclética.

A audiência incluía de expoentes da comunidade judaica ao prefeito de São Paulo, o ‘demo’ Gilberto Kassab, na bica de filiar-se ao PMDB e de converter-se ao governismo.

->> aqui vídeo do discurso da Presidente Dilma Rousseff

blog Josias de Souza

Fidel Castro condena anti-semitismo do Irã

Irã deveria abandonar anti-semitismo, afirma Fidel Castro

Em entrevista a revista americana, ex-líder cubano diz que Ahmadinejad deveria tentar entender a perseguição aos judeus.

O ex-presidente cubano Fidel Castro disse em entrevista a uma revista americana que o Irã e o seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, deveriam abandonar o anti-semitismo e tentar entender os motivos pelos quais os judeus foram perseguidos em todo o mundo ao longo da história.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Castro convidou o jornalista Jeffrey Goldberg, da revista americana The Atlantic Monthly, para uma conversa em Havana, depois de ter lido um artigo seu sobre as relações entre Israel e Irã.

O ex-presidente cubano está afastado do poder desde 2006 devido a problemas de saúde. Ele renunciou ao cargo em favor do seu irmão, Raúl Castro, que hoje governa Cuba.

Nas últimas semanas, Fidel Castro tem demonstrado que seu estado de saúde melhorou. No mês passado, o líder fez seu primeiro discurso no Parlamento nos últimos quatro anos.

Na semana passada, ele falou a milhares de estudantes da Universidade de Havana. Nas duas ocasiões, Fidel abordou o risco de uma guerra nuclear envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.

Recado

Na entrevista para a Atlantic Monthly, cuja primeira parte foi publicada no site da revista na terça-feira, Fidel diz que nenhum povo foi tão perseguido na história quanto os judeus.

“Os judeus tiveram uma existência muito pior que a nossa. Não há nada que se compare ao Holocausto”, disse Castro a Goldberg, que é especializado em Oriente Médio. Em seguida, Fidel Castro pede que o jornalista passe o recado para Ahmadinejad.

Em um trecho da entrevista, Fidel faz uma autocrítica sobre a sua posição na crise dos mísseis, durante a Guerra Fria.

Em 1962, a União Soviética instalou uma base militar em Cuba para apontar mísseis para os Estados Unidos, no momento mais tenso da Guerra Fria, quando as duas superpotências quase entraram em guerra nuclear.

“Depois que eu vi o que eu vi, e sabendo o que eu sei hoje, eu sei que aquilo não valia a pena”, disse Fidel à revista.

BBC/Agência Estado