Deputados oficializam a jogatina

Suas (deles) ex-celências depois, com a desfaçatez dos néscios, vão a tribuna reverberar a indignação dos justos, pobre justos, contra crime organizado, narcotráfico “et caterva!”
O Editor


Cortar o mal pela raiz

Coincidência ou maldade dos deuses, mas foi durante a celebração do Dia Nacional Contra a Corrupção, quinta-feira, que surgiu a denúncia da compra de votos de deputados pelo lobby dos bingos, visando aprovar projeto de lei liberando o jogo no país.

É preciso saber quem vende e quem compra para se estabelecer os padrões do relacionamento entre eles.

Porque se os interessados na reabertura das casas de bingo fossem apenas os que também pretendem a volta dos cassinos, seria possível concluir pela viabilidade da proposta.

Desde que, é claro, definidas previamente as poucas cidades onde a roleta poderia girar, de preferência estâncias hidrominerais.

Nessa hipótese, o lobby estaria botando dinheiro fora, desperdiçando recursos, já que a tendência majoritária no Congresso parece pela liberação limitada do jogo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O perigo da volta do bingo e dos cassinos está na simbiose dessas práticas com o crime organizado, em especial o narcotráfico.

Os proprietários são os mesmos.

Não se fala dos chefes de quadrilha instalados ou sendo postos para fora dos morros e periferias.

Estes são apenas casos de polícia.

Os verdadeiros barões da cocaína e sucedâneos deveriam ser objeto do Banco Central e da Receita Federal, para começar.

E se são eles que andam comprando deputados, é bom prestar atenção.

Estendendo seus tentáculos até a Câmara, por conta dos bingos e dos cassinos, na verdade estarão estabelecendo uma cabeça de ponte no Congresso para posteriores iniciativas relacionadas com a droga.

Seria bom cortar o mal pela raiz através da identificação dos vendedores e compradores agora genericamente denunciados.

Carlos Chagas/Tribuna da Imprensa

Lula, Sarkozy e a ‘vaguelette’

As águas da primavera
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
blog do Noblat

Nós não temos do que reclamar. A Internet passou incólume pela sanha legislativa do novo protagonista do cenário político nacional, apud Sarney. Ainda bem, só faltava esse bolivarianismo tosco vencer por aqui. Nós somos membros diletos do primeiro mundo, teremos aviões de caça do último tipo, submarino nuclear, seremos sede das Olimpíadas e da Copa do Mundo, com Guia Michelin sobre o Rio de Janeiro e tudo. O Brasil está bem na foto e não está prosa, só faltava não compreender que na Internet não adianta mexer. Passemos a outro assunto.

O Le Monde está super satisfeito com nosso presidente. Nossa marolinha foi chamada de vaguelette! Não foi gracioso? Tudo em francês fica mais bonito. Não sei, há qualquer coisa de mágico naquela língua, fica tudo mais suave, mais lírico, mais harmonioso.

Eu adorei a vaguelette. Só vou me referir às nossas crises, financeiras ou de qualquer tipo, como vaguelettes.

Por exemplo, a vaguelette que inunda o Senado Federal encobrindo coisas inacreditáveis, como um funcionário do gabinete do senador Marco Maciel, preso durante cinco anos, mas que continuou recebendo seu salário religiosamente. O caso foi descoberto em 1997 e nada aconteceu até agora nem com quem recebia o salário pelo preso, nem com quem acobertava a empreitada. O senador por Pernambuco, tipo do cavalheiro bom e justo, e não digo isso com ironia, gosto dele, não sabia de nada e com certeza teve a visão toldada por essa vaguelette senatorial.

As águas rolam tão suavemente que os bingos voltaram com toda a força! Não é sensacional? Eu só não compreendo uma coisa. Porque o bingo pode e cassino não? Não é engraçada essa preferência pela velha víspora (com as maquinetas junto, bien entendu)? Lá na França, terra para onde voa a maioria das nossas aves de arribação, afinal, Paris vale bem uma missa, tem cassinos, será que eles lá em Brasília não sabem disso? Precisam ser avisados…

Ou será implicância com os crupiês? Digo isso porque um dos argumentos que ouvi hoje é que o bingo traz muitos empregos. Acredito. Mas os cassinos trazem muito mais! Ou manejar aquelas maquinetas exige algum funcionário muito treinado? Não basta o pato sentar ali com moedas na mão e dar para a máquina?

Não é por mal, não, é por interesse mesmo: puxo a brasa para a sardinha dos músicos e artistas. Sinto saudade de uma coisa que não vi, nossos cassinos fecharam em 45, eu não tinha completado 8 anos, mas sempre ouvi falar maravilhas daqueles tempos, dos shows, das orquestras, dos artistas de fora que vinham se exibir aqui. O jogo é cruel? É. O jogo arruína um homem? Arruína. Mas então, merde alors, como dizem na terra do Sarkô, que proíbam todos os jogos, inclusive as corridas de cavalos. O esquisito, o que a vaguelette não esconde, é a preferência por um tipo de jogo, o mais burro e sem graça de todos, e não me refiro ao bingo que é divertido e bom passatempo para idosos aposentados, mas todos sabemos que esse é o nome que dão para as casas que abrigam a arapuca das maquinetas. O bingo entra de gaiato no navio para os donos das maquinetas enfrentarem com segurança as vaguelettes.

Mas como eu ia dizendo antes de nadar na vaguelette do Senado, o Le Monde anda encantado com o Lula. Aliás, a direita troglodita francesa em peso, os Dassault, os Lagardère, os grandes tycoons da indústria de armamentos da França estão apaixonados por M. Lula. E como parece que é amor correspondido, o tsunami deles vai virar uma toute petite vaguelette, graças ao pai dos pobres franceses.

E nós? Bem, para nós duas novidades: teremos uma geração de bebês chamados Rafale, disso vocês podem estar certos. E vamos poder cantar a Marselhesa enquanto as cores da França riscam nossos céus. Vai ser lindo. Só tenho pena do Zidane não poder participar da próxima Copa. Espero que ele tenha um filho ou sobrinho que venha em seu lugar. Se eu ainda estiver por aqui, gritarei, para entrar na onda das vaguelettes: Vive la France ! Vive la République!