João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 30/03/2018

O Cão Sem Plumas.
João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 07/11/2017

Ode Mineral
João Cabral de Melo Neto ¹

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.

¹ João Cabral de Melo Neto
* Recife, PE. – 9 de Janeiro de 1920
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de Outubro de 1999

João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 15/09/2017

Poema
João Cabral de Melo Neto¹

O amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro

ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos

¹João Cabral de Melo Neto
* Recife, Pernambuco – 9 de janeiro de 1920
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de outubro de 1999
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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 27/08/2017

Ode Mineral
João Cabral de Melo Neto¹

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.

¹João Cabral de Melo Neto
* Recife, Pe. – 9 de Janeiro de 1920
+ Rio de Janeiro, Rj. – 9 de Outubro de 1999


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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 24/07/2016

A Educação pela Pedra
João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

*João Cabral de Melo Neto
* Recife,PE. – 9 de janeiro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de outubro de 1999 d.C


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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 15/09/2014

Poema
João Cabral de Melo Neto ¹

Belo porque tem do novo
A surpresa e a alegria
Belo como a coisa nova
Na prateleira até então vazia

Como qualquer coisa nova
Inaugurando o seu dia
E belo porque o novo
Todo o velho contagia

¹ João Cabral de Melo Neto
* Recife, PE. – 9 de Janeiro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de Outubro de 1999 d.C


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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 20/08/2014

Morte e Vida Severina – extrato
João Cabral de Melo Neto ¹

“… E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”

¹ João Cabral de Melo Neto
* Recife, PE. – 9 de Janeiro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de Outubro de 1999 d.C


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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 09/07/2014

Tecendo a Manhã
João Cabral de Melo Neto ¹

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
inA Educação pela Pedra

¹ João Cabral de Melo Neto
* Recife, PE. – 9 de Janeiro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de Outubro de 1999 d.C


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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 15/02/2014

O artista inconfessável
João Cabral de Melo Neto ¹

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e difícil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

¹ João Cabral de Melo Neto
* Recife, PE. – 9 de Janeiro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de Outubro de 1999 d.C


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João Cabral de Melo Neto – Versos na tarde – 25/10/2013

Pequena Ode Mineral
João Cabral de Melo Neto¹

Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.
Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,
informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.
Tua alma foge
como cabelos,
cunhas, humores,
palavras ditas
que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.
Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.
Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.
Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.
Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,
pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.
Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silêncio puro.
De pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausência
que as vozes ferem.

¹ João Cabral de Melo Neto
* Recife, PE. – 9 de Janeiro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de Outubro de 1999 d.C


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