Ivan Lessa e a explosão populacional

Nós, 7 bilhões do planeta Terra, terceiro à direita de quem vem do Sol, gostaríamos de lavrar nosso protesto.

Nós, 7 bilhões, por uma vez estamos quase todos de acordo: não somos 7 bilhões e protestamos com veemência contra a arbitrariedade que não tem outro propósito a não ser nos assustar com a possibilidade de uma explosão populacional.

Nós, 7 bilhões, desconfiamos da data escolhida para marcar um evento sem fundamento científico: o dia em que também se comemora o Halloween, Dia das Bruxas e ainda “Raloim”.

Nós, 7 bilhões, questionamos a validade das pesquisas que indicam o nascimento de um de nós a cada 51 minutos.

Nós, 7 bilhões, perguntamos pelos dados referentes a quantos sobem, pedem o boné ou batem com as dez por minuto? Nós, 7 bilhões, consideramos a omissão um desrespeito aos mortos deste e de todos os tempos.

Nós 7 bilhões, insistimos em saber por que não 7.101.345.857 ou 6.978.502.231, com casa decimal para indicar evolução fracionária?

Nós, 7 bilhões, aceitamos o capricho numerológico, que não é mais que uma faixa a ser dada para o heptabilionésimo habitante desta bola achatado nos polos, que também está fichada e registrada como Mundo em estudos tidos como de séria metodologia. Nós, 7 bilhões, teríamos prazer em cumprimentar este cidadão, mas não acatamos como verdade a conta imaginada.

Nós, 7 bilhões, aceitamos, no entanto, as cifras, para não criar mais um caso entre as organizações que lidam com essas supostas verdades. Nós, 7 bilhões, reiteramos nossa boa vontade e disposição afim de não criar marolas, ondas ou tsunamis num planeta já caquético e manquitola.

Nós, 7 bilhões, agradecemos o fato de que ainda não fomos chamados de terráqueos. Quando, e se tal acontecer, nós, 7 bilhões, nos defenderemos com qualquer arma que estiver à mão, seja pedra ou engenho nuclear.

Nós, 7 bilhões, somos gente. Pobres, desgraçados, sofridos, humilhados, ofendidos, pisoteados, doentes, esfomeados e sedentos, mas gente. Não repararam nisso?

Nós, 7 bilhões, nos revoltamos com essa transformação em número a que nos impuseram. Nós, 7 bilhões, desconfiamos desse relógio empregado para nós e das motivações para seu uso.

Nós, 7 bilhões, não somos simbólicos. Nós, 7 bilhões, não fazemos parte de qualquer rede de comunicação social. Nós, 7 bilhões, estamos sós. Sós, sós, sós.

Nós, 7 bilhões, fedorentos e esfarrapados, pouco importa nosso verdadeiro número (que ninguém sabe e nunca saberá), já nos acostumamos, em nossa miséria, a canalhices e injustiças maiores.

Nós, 7 bilhões, empunhando cartazes imaginários porém eloquentes e cobertos de verdades, acampamos e ocupamos este planeta acusando que ele deveria ser nosso mas é de vocês, uma minoria que se recusa a ser contada em qualquer engenho informático.

Nós, 7 bilhões, não endossamos produto algum. Nós, 7 bilhões, não temos nada o que comprar e pouco para vender. Nós, 7 bilhões, vamos vivendo, por assim dizer.

Nós, 7 bilhões, sabemos ou assistimos ao que decidiram que é contagem: subiu um aqui agora, e outro ali e mais outro logo adiante.

Nós, 7 bilhões, apontamos para o fato com choro e vela. Nós, 7 bilhões, ouvimos o espoucar de vários chegando em seguida, os tais “51 por minuto”, e, apesar de todos os enganos, esperançosos, louvamos o fato.

Nós, 7 bilhões, observamos que eles já vêm brincando de onomatopeia, como se fossem essas, como serão, suas únicas chupetas: plop e plop e plop.

Nós, 7 bilhões, não somos 7 bilhões. Somos a quadratura do círculo, o número secreto que jaz por trás da construção das pirâmides, o pi em toda sua extensão.

Ninguém nos conhece, ninguém nos conhecerá. Fiquem descansados. Apesar de tudo, só chacinamos por uma questão de estética e equilíbrio. Mas chacinamos. Contem quantos somos, só não contem conosco.
Ivan Lessa/BBC Londres 

Ivan Lessa e a bacteria do Pepino

O humor refinado e a pena ferina de Ivan Lessa, temperam pepino com Hamlet.O Editor


Tudo mata

Ivan Lessa/Colunista da BBC Brasil

Primeiro, era para a gente não comer manteiga. Manteiga matava. Depois ovo. Ovo matava.

O companheiro completava 18 anos e saía sem dar a menor pelota de casa e ia às ruas. Nunca lhe avisaram que as ruas matavam. Continuam matando. Viver é morrer.

Uma coisa está embutida na outra e é preciso que alguém nos dê um guia para não morrer antes do tempo. Se é que há um tempo para morrer.

Fato é que a vida é um conjunto de superstições, com avanços e recuos científicos. Para cada caneta esferográfica (uma das grandes invenções da humanidade) há uma bomba atômica pronta para explodir nas 32 esquinas que nos cercam.

Por falar em superstição, lembro que Carlito Rocha, durante os anos 40 um alto e pitoresco dirigente do Botafogo (foi o responsável pela adoção oficial pelo time do Biriba, um cachorro que entrou em campo um dia e nunca mais abandonou a equipe da estrela solitária), adotou a política de fazer com que os jogadores, antes de entrar em campo, chupassem uma manga. Isso porque era voz corrente – leia-se superstição – o fato de que “manga com cachaça mata”. Não mata nada. Mas era uma maneira de evitar que o pessoal tomasse umas e outras em dia de jogo.

Carlito Rocha também cismou com calção preto e uma beleza de camisa de mangas compridas e abotoada na frente, que, em 1948, a equipe usou por um ou dois jogos até levar uma tunda de um Bonsucesso ou Olaria. Coisas que só aconteciam com o Botafogo, conforme o bordão da época.

Morre-se de bomba, homem-bomba e carro-bomba no Iraque e no Afeganistão. Acham muito natural.

Nenhum cientista procurou estudar a sério esse fenômeno dos homens terem mania de matar outros homens, em vez, coisa muito melhor, de ficar tomando cachaça e chupando manga (a melancia seguida de álcool também mata, segundo o lendário popular).

É esperado, é natural, é lógico.

Agora, bota um surto de infecções intestinais, mortes e gente vomitando a alma e voando para os banheiros, tudo por causa do danado do pepino, e a notícia abafa qualquer outra.

Até o momento em que escrevo 18 já “subiram” graças ao pepino, que a princípio achavam que fosse o espanhol. A Espanha é um país orgulhoso e zela por suas tradições, tais como a Inquisição, o ditador Francisco Franco e as equipes do Real Madrid e do Barcelona.

Ficaram uma fúria e, em protesto contra o que chamaram até mesmo de “má fé” dos cientistas alemães, que deram o “primeiro a piar”, desandaram a devorar o insinuante legume na natural, sem vinagre ou azeite nem nada (aliás o azeite espanhol, há tempos já foi tido como responsável pela morte de algumas dezenas ou mais de pessoas, mas disso já se esqueceram) só para mostrar que a bactéria do E. Coli não tinha sotaque nem de Castilha nem da Galiza (e não Galícia, friso).

En passant, eu que sou mal-informado, desatento e pouco sério, sempre achei que o tão falado E. Coli era um atacante veterano do Barça ou do Real Madrid. E que o E era apenas a inicial de Eduardo. Eduardo Coli, vulgo Coli, cujo passe, comprado do Bahia FC, custara uma pequena fortuna. Os fatos, esses chatos, indicam que me enganei, mais uma vez.

Não foi o Coli o responsável pelos 1.169 casos registrados, até esta quinta-feira, na Europa. Alemanha, Suécia, foram todos de Escheverichia coli, pois esse o nome do bacilo ou da bactéria simbiente em questão.

Há outros suspeitos na fila, depois da Espanha: Holanda e Dinamrca entre eles.

Seria engraçado, num sentido macabro, se a Dinamarca fosse a responsável pelo assustador surto. Só porque proibiu a venda, em todo o território nacional, da pasta Marmite (“Você Ama ou Odeia” é seu slogan) noticiado aqui com pesar na seção BBC à Mesa, servida pelo Thomas Pappon.

A Dinamarca já proibira anteriormente o nosso Ovomaltine (ou Ovaltine por aqui) e o Horlicks, um ingrediente à base do malte, frio ou quente, que eu amo e pode ser preparado (duas colheres e leite) tanto no inverno quanto no verão. Agora segurem essa, dinamarqueses, mais chatos e pouco melancólicos, perdendo longe para o malfadado e doce príncipe Hamlet.

Ainda por cima o Coli (peguei intimidade) já chegou aos Estados Unidos e, para mostrar sua isenção, Rússia. Audácia do bofe.

Mais: volta à tona, para pegar ar, na certa, a discussão em torno dos celulares.

Um lado diz que sua radiação dá câncer, outro diz que não dá. Ambos citam estudos científicos, quando não emitido por um cientista.

No que as pessoas continuam falando e textando pelas ruas de todas as cidades do mundo. Sem parar. Sem rebater com um pepinozinho ou chupando uma carlotinha “daquelas”depois de umas e outras.

Agora, concerto de Ringo Starr, como está tendo, ou vem aí, pode. Esse não faz mal à saúde, ainda não vi ninguém reclamar. Durma-se com um barulho desses.


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Ivan Lessa: Os homens que deixei para trás

Novamente a pena afida de Ivan Lessa acerta o alvo.

Ivan Lessa – Colunista da BBC Brasil

A três por dois sinto falta dos homens que deixei para trás no Brasil. Saudades mesmo. Feito tenho do xarope de groselha e da cocada da baiana.

Os homens que deixei para trás. Aspeêmo-los que é para dar um pouco mais de dignidade para um senhor de minha idade. Os “homens” que deixei para trás. No Reino Unido, há uma grande falta de “homem”.

Falaram do multiculturalismo, que isso tem que acabar, mas ninguém ousou falar na adoção de “homens” para os diversos afazeres diários e necessários para a boa sobrevivência nestas ilhas.

Todos os homens (deixemos as aspas de lado por uns momentos) da Grã-Bretanha têm uma profissão definida, à exceção dessa gentarada toda que vai se cobrir de arminho e joias de fantasia de luxo, todas dignas de pelo menos uma menção honrosa nos velhos bailes de Carnaval no Municipal, no decorrer do acontecimento do ano, da década, do século, exageram os monarquistas mais exaltados.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Tudo porque vai haver casamento, digo, Casamento.

Quem nunca viu um monarquista exaltado ainda não viu nada. Mais engraçado que foca equilibrando bola no nariz em jardim zoológico ou filme do Gordo e do Magro.

Tudo porque um príncipe vai se casar com uma moça. Plebeia, além do mais. Como no filme do Gregory Peck com a Audrey Hepburn, embora o casal, e todos os filhos que terão, não possuam, em conjunto, 0.5 % do charme e talento da hollywoodesca dupla.

Gozado, e bom mesmo, seria se o nobre levasse para o altar outro homem (mas sem aspas).

Queria ver se ia haver essa quantidade brutal de quinquilharias que os mais sofisticados, aqueles com terceiro ano ginasial e que depositaram ursinhos e flores pela cidade inteira quando da morte de Diana, a Princesa de Gales, chamam de souvenires.

O inédito do enlace entre cavalheiros do mesmo sexo daria, ao menos, mais graça e vida, aos comentários que as pessoas que ligarem a televisão serão obrigadas a ouvir no dia – não há outra palavra – fatídico.

Afastei-me do meu tema. Como me afastei há mais de 33 anos de… sim, claro, como eu ia dizendo antes de tergiversar, meus “homens”.

Lá, eu e meus familiares (parece Fala do Trono) tínhamos “homens” para todas as ocasiões. Ocasiões periclitantes. A pia estava entupida, alguém dava a sábia sugestão:

– Tem que chamar o “homem” da pia!

Problemas com a antena de televisão?

– O telefone do “homem” da antena está naquele caderninho perto do telefone!

Doenças, sempre resolvidas com antibiótico, ligar para a farmácia e pedir para o “Zé da Farmácia” dar um pulinho aqui!

E assim por diante. Nada se resolvia sem um “homem”. “Homem” era profissão, e não essa besteira de administrador de empresas, torneiro-mecânico, otorrinolaringologista e por aí afora. Todos eram “homens”.

Como tínhamos “homens”! Disso e daquilo outro. Para todas as horas e circunstâncias. Bom mesmo era “homem”, não importa o que digam.

Nós dávamos com o Zé no botequim da esquina tomando sua pinga e nos cumprimentávamos cordialmente. Ele dava um jeito (nem sempre grande coisa) em nossos problemas, nós retribuíamos com uns trocados extras para a cerveja. Não eram caros nossos “homens”.

E deles me aposso de novo e digo, com todo o orgulho e a plenos pulmões fraquinhos, meus “homens”.

Aqui, acabou-se o que era doce ou dulcíssimo. Refresco de groselha, cocada e “homem”. Todos aqui nesta terra, mesmo os desempregados, vivem de benefícios sociais, são homens e homens profissionais.

Com raríssimas exceções. Eu só consigo chamar o pequeno armazém da esquina, que fica aberto até meia-noite de “o indiano da esquina”, embora o dono seja bengalês.

E, last but not least, Norman.

Que, no último sábado do mês, vem e limpa mais ou menos direitinho as 5 janelonas vitorianas de meu flat, a 3 libras cada uma. Não é caro.

Também não cedo o telefone de seu celular.

Sobrou, pois, para mim, um “homem”: Norman, o “homem das janelas”. Vive-se do que resta da vida e que alguém decidiu que seja nosso quinhão. Que assim seja e continue.

Celebridade boa é celebridade morta

Mais uma contundente crônica do excepcional Ivan Lessa. Junto com Millor Fernandes, os dois únicos egressos do Pasquim que fazem do ofício de escrever um exercício de inteligência.

O Editor


Rica listinha de mortos
Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil

Celebridade boa é celebridade morta. Um ditado popular que acabo de cunhar. Dessas inspirações que batem na gente às vésperas de eleições. Assanhamentos aspiracionais.

Os fatos não me desmentem. Toda a mídia global noticiou o espetacular evento: Michael Jackson é a celebridade morta mais lucrativa. Quem o afirmou, com sua habitual autoridade, foi a revista Forbes, que se ocupa de coisas e causos dos muito ricos. E nós, pobretões ou remediados, queremos saber de tudo.

A Forbes, versão mulher, dita Forbes Woman, ainda recentemente criou manchetes ao noticiar que Monique, digo, Michelle Obama, é a “mulher mais poderosa do mundo”. À frente de presidente alemã, industrial americana, secretária de Estado Hillary Clinton e por aí afora. Bem afora mesmo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O que a faz a mulher mais poderosa do mundo? A revista não entrou em detalhes, porque detalhes não há. Resta o único fato concreto e plausível: Michelle Obama é a mulher mais poderosa do mundo porque dorme com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ponto.

Assim caminha a Humanidade. Não se abana mais com a célebre Revista do Rádio, conforme queria Nelson Rodrigues, mas com a revista Forbes, versão para homens e versão para mulheres, como banheiros lá no fundo do restaurante, sempre à esquerda da caixa e pouco antes da cozinha.

Queremos saber dos ricos. Que são muito diferentes da gente. Exatamente como disse e escreveu Scott Fitzgerald, o que lhe mereceu uma boa gozada por parte do sacana do Ernest Hemingway, que comentou, “São diferentes, sim. Têm mais dinheiro.” Hemingway não entendia nada de rico e nem de dinheiro. Talvez por isso mesmo tenho botado a espingarda na boca e apertado o gatilho alguns depois de mexer com o pobre do Fitzgerald.

Abro de novo, e como a moçoila do Nelson Rodrigues, me abano depois de ler a principal manchete. Lá está, em furo de repórter rico: “Michael Jackson é a celebridade morta mais lucrativa.” No miolo do texto, os dados relevantes. Só este ano o astro, que tão cedo se apagou deixando-nos numa noite artística, poetizo para melhor poder digerir o malogrado fato, teve um faturamento de produtos que levantou, para seus herdeiros e gestores de seu legado, perto de US$ 275 milhões.

A Forbes, que sabe das coisas, não nos deixa em dúvida: essa cifra já supera os lucros de Madonna, Jay-Z e Lady Gaga juntos. E prossegue fuçando figurativamente as contas bancárias e carteiras de notas de outros mortos célebres (falar nisso: quem é e o que quer Jay-Z?).

Lá estão, devidamente listados, Elvis Presley, em segundo lugar, que bateu as botinas em 1977. Logo depois – vejam que estranho – um escritor: J.R.R. Tolkien (1892-1973, aquele da trilogia O Senhor dos Anéis, que levantou uma nota de 50 milhões de dólares, que, não é nada não é nada, dá ao menos para quem ficou com seus direitos autorais se assenhorar não só de anéis como de bijuterias várias, inclusive um bom número desses relógios Rolex que vivem tentando me vender pela internet.

Em quarto lugar, outro que não cantava nem sacudia as cadeiras: Charles Schulz (1922-2000), aquele cara sensacional que bolava e desenhava a tira que já foi batizada por nós de Minduim, e que vocês conhecem muito bem – a turma do Charlie Brown, da Lucy e daquele cachorro genial, o Snoopy.

Depois, um músico, ou como tal tido, John Lennon, que tinha mania de parar na rua para autografar LP de fã aloprado armado. Deixando o mundo da música, mas sempre no mundo dos mortos, segue-se Yves Saint Laurent, estilista que já era, em todos os sentidos. Ou seja, liderava a lista até ano passado, quando grande parte de seu espólio foi vendida por US$ 350 milhões. Agora, babau, mon cher Yves. Vai, ou fica, com Deus.

Nosso bom e grande Ziraldo não foi chamado para os trabalhos, uma vez que tem a desvantagem de ainda estar vivo. Fica para outro ano.

Encerro os trabalhos por aqui, já que uma voz, lá no fundo, me sussurra o lugar-comum que o dinheiro é a raiz de todos os males, ao mesmo tempo que outra voz insiste em me lembrar que a inveja matou Caim. Dissonâncias a que todos estamos sujeitos graças a essa sempiterna guerra dos cifrões.

Ditados populares e besteirol

Do infinito besteirol dos ditados populares
por: Ivan Lessa

“O que arde cura, o que aperta segura”, repete o Zé Povão há séculos. Todos os provérbios populares não passam da maior besteira possível.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Sejamos francos, por um instante, e deixemos a máscara da hipocrisia de lado. O povo não entende bulhufas dessas coisas que aprenderam no colo de alguma tia ou ouviram da boca de uma pessoa com mais de um sapato no pé e camisa com quase todos os botões.

Basta parar e pensar um pouco, disciplina das mais árduas para quem nasceu para acreditar em saci e mula-sem-cabeça. O Zé Povão é bom de escalar a seleção brasileira ideal e votar naqueles candidatos que fizeram uma mediazinha com eles. De resto, vou te contar.

Dissequemos o provérbio citado mais acima. Em primeiro lugar, o que arde cura. É mesmo? Feito água-viva? Pimenta nos olhos? Tãotá. O que aperta segura. Sem dúvida. Feito o guarda que tacou algemas no malfeitor atravessador de maconha e o encaminha para a viatura policial.

Ninguém me fale em iodo na ferida ou torniquete no braço atingido por bala. Nenhuma das duas coisas pegou Ibope nos meios a que convencionamos chamar de “populares”, que é para não despertar a ira dos politicamente corretos e dos poucos membros da classe de Zé Povões que conseguiram, até um certo ponto (tudo é “até um certo ponto” com os pobres de espírito; logo acrescentando que há muito pobre riquíssimo de espírito entre eles), não embarcar nessa canoa furada dos provérbios.

E olha outro lugar-comum, suplicando para virar provérbio: canoa furada. Só o perfeito imbecil, de que tanto tratou o fabuloso Nelson Rodrigues, entraria numa canoa sem antes conferir sua navegabilidade, mesmo sem fazer parte de flotilha a caminho de uma ajuda humanitária a Israel.

Outras besteiras que ouvi a vida inteira e que sempre me irritaram, pois nasci cético e desconfiado de frase feita ou remendada:

* Quem ri por último, ri melhor. (Uma inverdade das mais flagrantes. Qualquer hora é hora de se rir de nosso semelhante até cair no chão.)

* Quem tem telhado de vidro não atira pedra no vizinho. (Tolice da grossa. Basta atirar a pedra na moita e se mandar, esperando que a culpa caia em outra pessoa, como é sempre o caso.)

* Cão que ladra não morde. (Ah, é, bebé? Então vai lá e dá um pontapé no traseiro do bicho, pra você ver uma coisa.)

* Homem prevenido vale por dois. (Tolice da grossa. É mais um a ser assaltado na subida do morro. E assaltado possivelmente por esse segundo homem prevenido. Pensem bem nisso.)

* De pequenino é que se torce o pepino. (Torcer pepino é das ocupações mais inúteis de uma pessoa é capaz. Experimente, hoje mesmo, pegar um pepino pequeno e torcê-lo. Não dá, não é mesmo? Só vira uma porcaria dos diabos.)

* Não conte com o ovo dentro da galinha. (Conto, sim. Esse é que o bom, o quente, o orgânico. Omelete baveuse só com o ovo que o galináceo ainda não pôs.)

* Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. (Não se mete a colher em briga de dois marmanjos armados de navalha. Em se tratando de homem e mulher, não tem por onde: é ficar do lado dele, repetindo, “É isso mesmo, Eudócia, foste uma leviana!”.)

* Quem tudo quer, tudo perde. (Experimente dizer isso para qualquer chefe de estado ou bem-sucedido empresário. Ele vai rir às bandeiras despregadas.)

* E por falar em bandeiras despregadas… Mas não, nessa eu não me meto. Ficarei em casa com a bandeira dos Camarões desfraldada e torcendo adoidado. A Copa é nossa. Ou deles.

BBC

Voo 447, imprensa e twitter

Um desastre e várias visõesQuando da tragédia com o voo 447 da Air France, todos os jornais do mundo deram o devido destaque em suas primeiras páginas. 228 vidas perdidas. Umas horas terríveis de suspense e indagações em várias partes do mundo, principalmente, claro, no Brasil e na França.

Na falta de informações mais precisas, as mais diversas suposições foram levantadas: turbulência, tempestade, raio e até mesmo bomba. Não se sabe ainda o que aconteceu. Iremos saber.

Nesta época em que a imprensa escrita vem sofrendo algumas quedas em suas vendas e publicidade, perdendo sua – digamos assim – atualidade, para não falar em autoridade, para os novos meios de comunicação, ou seja, a mídia eletrônica, seria uma boa tese para um mestrado ou doutorado jornalístico examinar mais de perto a questão através de um evento marcante, feito essa catástrofe. E o que houve com o Airbus da Air France não pode ser mais catastrófico.

Numa época em que o grande comunicador virtual é o ubíquo Twitter, personagem de matéria de capa, inclusive, da mais recente edição da revista Time, seria interessante saber como o evento foi “twitterado” (ou “gorjeado”, já que esta seria sua tradução literal) nos já famosos 140 caracteres em “tempo real”, uma vez que o “tempo tempo” passou a constituir praticamente um “tempo irreal”.

Isso me lembra um pouco quando o mundo se “CNNizou”, há coisa de uns 30 anos, quando nenhuma notícia transmitida podia ter mais que 3 minutos. Não devo ter sido o único a dar graças a Gutenberg pela lentidão e delongas dos jornais impressos.

Na questão do desastre aéreo, unanimidade de primeira página, para repetir, impressionei-me no que andei vendo: como cada veículo tratou a tragédia. Talvez o exemplo que mais me tenha marcado – assustado seria o verbo mais adequado – foi a matéria publicada na edição europeia do The Wall Street Journal de 2 de junho em sua página 6 do primeiro caderno. Lá estava, em reportagem assinada por John Lyons, ao que parece correspondente do jornal em São Paulo.

O título já entrava no espírito do veículo mencionando o fato de que, entre suas vítimas, estavam aqueles que afluíam para o Brasil a negócios. Também no título que a própria BBC Brasil noticiou a matéria estava encapsulado seu espírito: “Lista de passageiros mostra importância do Brasil no mundo dos negócios”. E no miolo, sempre transcrevendo o que foi publicado pelo WSJ, “as biografias dos passageiros… servem como um trágico testamento da crescente importância do Brasil no mundo global dos negócios”.

E mais adiante: “(a lista) deverá ser lida como uma relação de companhias de primeira-linha europeias e brasileiras, cujos executivos regularmente lotavam a primeira classe e a classe executiva do voo.”

Tinha mais informações o jornal favorito dos homens de negócios: “Não todos os passageiros estavam no avião para negócios” (…) “O Rio de Janeiro é um grande destino turístico global, e muitos passageiros provavelmente passaram os dias anteriores tomando banho de sol em suas famosas praias. Os passageiros incluíam sete crianças e um bebê.” (Reparem bem no “provavelmente”.)

Quer dizer, dava perfeitamente para pegar a matéria de capa de uma revista de turismo. Talvez até da Vida Doméstica, já que o jornalista mencionou a criançada e um bebê. A chiquíssima revista britânica Monarchy poderia dar destaque à presença, agora ausência, de um membro de uma família real entre os desaparecidos, já que no título original da reportagem o ilustre repórter mencionava ainda “um membro da realeza” juntamente com os homens de negócios: o príncipe Pedro Luiz de Orléans e Bragança, de 25 anos.

Qualquer publicação sobre entretenimento daria destaque ao trágico desaparecimento de Juliana de Aquino, cantora de 29 anos, nascida em Brasília e que alcançou o sucesso na Alemanha, onde chegou a fazer parte da produção local de O Rei Leão.

No mundo esportivo… Bem, acho que já deu para dar uma ideia do que se passou e se passa em matéria de imprensa. Coisa para bem mais que 140 caracteres.

Ivan Lessa – BBC Londres

Youtube e as Carmelitas descalças

Descalças na tela

Sou assíduo freqüentador do aprazível sítio YouTube. Lá estou cadastrado, possuo uma longa lista de clips favoritos que chega perto de uns 10 menos do que o permitido, que remonta a 500.
Não sou internauta de ficar procurando gatinhos brincando com cachorro, gente levando tombo ou pronunciamentos políticos. Trabalho com outras armas. As armas e os barões assinalados de cantores mortos, filmes antigos com atores mortos, desenhos animados com bonecos mortos. E por aí afora.

Ocasionalmente, desaparecem da lista de meus mortos favoritos alguns minutos deste ou daquele outro filme, desta ou daquela interpretação de algum músico (morto). Um excesso de mortos, digamos. Um massacre de Gaza de minhas predileções (mortas todas). Culpa do raio do problema dos direitos autorais que, este tempo todo, ainda não resolveram. Estou pouco ligando.

Há coisa de um ano, meu guru informático ensinou-me uma maneira, com o endereço do site direitinho, onde eu poderia guardar para toda a existência de meu computador e seu disco rígido a imagem e os sons dos mortos de minha preferência. Foi, para mim, a descoberta do caminho marítimo para as Índias.

Vocês todos, que a cada dia aumentam mais, devem estar cansados de saber dos macetes. Mas sou mau internauta. E como eu mesmo, num momento de grande criatividade, parafraseei, e sou muito citado nos mais cotados círculos cibernéticos, “para o mau internauta até o mouse atrapalha”.

Isso sou eu e o que de desinteressante comigo se passa.

Há situações, aplicações e soluções bem mais interessantes.

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Futebol e política. Viva a copa Viva

Viva a Copa Viva!

Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil

Foi uma chatice essa Eurocopa que, felizmente, terminou no domingo. Chatos os perdedores, chatos os vencedores, chatos os torcedores.
Nem tudo, no entanto, está perdido. Para apreciadores esotéricos do balipodal esporte, temos aí a Copa Viva 2008, que terá início logo agorinha no próximo no dia 7 de julho, com a butinada inicial marcada para as 11 horas da manhã em Sapmi, que fica, mais ou menos, na Lapônia.

O jogo que dará início aos complicados trabalhos é precisamente entre as seleções da (ou será do?) Sapmi contra a do Curdistão Iraquiano.

Não minto. Aviso logo que não sei se será televisionado, transmitido por rádio, visto ao vivo por gente ou até mesmo coberto pela imprensa. Torcerei espiritualmente, como sempre, dentro de meu melhor espírito olímpico, observando ainda minha praxe de, entre Davi e Golias, torcer sempre por nem um nem outro, mas sim por um ou outro camaradinha que nada tem a ver com o peixe e apenas deu uma paradinha no lugar da contenda para ver de que é que se tratava.

A Copa Viva. Trata-se de um gesto inútil de protesto contra a prepotência da Fifa. Representados apenas “países” (com legítimas aspas) que aspiram à condição de se tornarem nações. Ou ainda nações sem Estado. Países – laços e aspas fora! – que não receberam o aval de reconhecimento da Fifa. Sejamos sinceros. Países os quais nem mesmo o resto do mundo ouviu falar.

A Copa Viva 2008 deste ano não é a primeira. A primeira teve lugar há dois anos quando, devido a bate-boca político e dificuldades logísticas, o país – eu disse país – anfitrião teve de passar, à última hora, do Norte de Chipre para a Occitânia.

A Copa Viva 2006 passou por problemas de visto, o que, em si, já bastaria para transformar todos seus participantes à condição a qual aspiram: nações, Estados ou países independentes.

Foram apenas quatro sonhadoras seleções que participaram do primeiro torneio-segredo. Desta vez, a coisa cresce e a Fifa que vá anotando. São 5 os participantes. Além da Occitânia, lá estarão, claro, a rapaziada da “Syriac” e do Curdistão Iraquiano (googlando só encontrei a língua e não o país, mas parece que tem a ver com o aramaico e uma região da Mesopotâmia), mais a da Padania (fica no norte da Itália) e da nossa muito conhecida mais do que decantada Provença.

Não cessam aí as firulas.

Duas seleções femininas disputarão a Copa Viva. As do Sapmi e do Curdistão. Só. Duas. Seleções. Mulheres. Disputando Copa. Tadinhas.
As Copas Vivas – pois muitas virão – foram designadas pela Junta de Novas Federações, estabelecida com o único fito de se bater pelo pleno e mais do que justo, em sua opinião, direito de serem reconhecidas como Estados soberanos.

Há outros “países” (voltam as degradantes aspas) que fazem parte da organização, embora, por questões estratégicas e logísticas, não estejam participando da festiva competição.

São eles: Mônaco, Tibete, Zanzibar, Somalilândia, Moluccas do Sul (as do norte estão noutra), Rijeka (a terceira maior cidade da Croácia que, nos anos 20, foi estado livro por brevíssimo tempo), as Ilhas Chagos e a Nação Romani, que eu e você, beirando a incorreção política, costumamos chamar de “ciganos”.

Interessante é o caso das Ilhas Chagos. Trata-se, na verdade do arquipélago de Chagos, dependente da Grã-Bretanha, com toda sua população de perto de duas mil pessoas exiladas e que, se você bater uma bola aqui mesmo no site em inglês da BBC, verá contada toda a saga sob o título de “Uma história sórdida”.

Os habitantes de Chagos, juntamente com todos aqueles de Diego Garcia, a maior ilha do arquipélago, foram discretamente expulsos de suas terras para Seichelles e Maurício e de nativos só lá ficaram as suas famosas tartarugas gigantes. Motivo: bandidagem americana, para variar.

A Grã-Bretanha, mais uma vez, não se fez de rogada: se ofereceu. Botou todo mundo pra fora. E rolou o tapete vermelho para os americanos se instalarem. Na ocasião, década de 60 para 70, os americanos queriam lá instalar uma base para bombardear quem fosse necessário bombardear – na região ou mais além, onde desse. De lá partiram, para dar uma chegadinha à história atual, os primeiros ataques contra o Iraque e o Afeganistão.

Bacaninha, né? Futebol e política. Cada um dos irreconhecidos da Copa Viva tem suas histórias para contar. Todas tendo a ver com política. Como tudo tem a ver com política.

Se São Paulo voltar a encucar e cismar de se tornar nação soberana, aí está a Copa Viva na boca da espera. A seleção da bandeira listrada e tetra-estrelada, só ganhará de lavagem. Feito em 2006, quando no final da Copa Viva, Sapmi ganhou de 21 a 1 de Mônaco, sagrando-se assim a primeira campeã do abusado, e desconhecido, torneio.

Avante, São Paulo! Todos lá e caiam fora desse tal de Brasil que vos cerca!

Ivan Lessa mentiu sobre eleições em Londres

Ivan Lessa, um dos fundadores do Pasquim e há vários anos radicado em Londres, onde é articulista da BBC, em crônica recente sobre as eleições para a Prefeitura Londrina, distorceu os fatos. A contestação, sobre o artigo do Ivan Lessa, eu pincei do blog Lobo Frontal:

Ivan Lessa está “equivocado” sobre as eleições em Londres
por Antônio T. Praxedes

Ivan Lessa mentiu em sua coluna. Ou mentiu ou esteve (completamente e deliberadamente) “equivocado”. As eleições para prefeito em Londres foram, antes de tudo, muito barulhentas – e digo isso porque eu estive lá entre os dias 26 e 29 de Abril.

Se Ivan Lessa não tomou conhecimento dos protestos claros contra o racismo na composição da venerância daquele Município, isso é um problema pessoal (ou anti-social) dele. Mas dizer que as eleições passaram “em branco” é uma grave mentira e mais um ataque contra o espírito democrático. Não só haviam protestos, como haviam pessoas gritando nas ruas em defesa dos partidos que defendiam (na Liverpool Street, por exemplo?).

E houve mais. Embora o autor tenha declarado que esteve entretido com os canais de televisão (o que demonstra o grau de alienação desse indivíduo “livre”), carros de som faziam propaganda eleitoral (no centro de Londres e, por exemplo, em frente à Charing Cross Station) a favor deste ou daquele candidato. Eu mesmo estive preso no trânsito londrino por mais de 2 horas (e posso provar com meu passe de ônibus!), por conta dos inúmeros protestos e passeatas políticas que ocorriam na cidade. Porém, é claro, como o autor estava assistindo passivamente a “tele”, não tomou consciência desses fatos.

Só um estúpido imagina que os assuntos políticos numa capital global passam ao largo da vida sócio-econômica. Embora as pessoas estejam inseridas num contexto de alta competição (pela sobrevivência), elas também participam ativamente nos rumos políticos que definem o comportamento geral do civismo de sua polis. O senhor Ivan Lessa, naturalmente, esqueceu que não estava no Brasil…

Peço as devidas “desculpas”, mas ao contrário desse “neo-jornalista”, além de não mentir, eu não poupo o uso das aspas. Quem quiser ler a “reportagem” desse “autor”, clique aqui.