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Surto de coronavírus é uma pandemia ‘em tudo, menos no nome’, diz especialista

Preocupante a possibilidade de uma Pandemia pelo Coronavirus.

Milão,Itália – Turistas em frente a Catedral de Milão -Foto: Andreas Solaro / AFP

A Organização Mundial da Saúde acredita que o vírus ainda pode ser contido, embora o CoronaVirus já esteja na Itália e no Irã.

A Organização Mundial da Saúde minimizou os temores de uma pandemia de coronavírus que varre o mundo, apesar de surtos sérios e sérios na Itália e no Irã, mas alguns especialistas disseram acreditar que agora é inevitável.

“Usar a palavra pandemia agora não se encaixa nos fatos, mas certamente pode causar medo”, disse o diretor geral da OMS, dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, em um briefing.

Ainda não estamos lá, disse Tedros. “O que vemos são epidemias em diferentes partes do mundo, afetando diferentes países de diferentes maneiras”.

O vice-ministro da Saúde do Irã tem resultados positivos

A palavra pandemia é usada para descrever uma doença grave que está se espalhando de maneira descontrolada pelo mundo. A China, ele apontou, parecia ter contido. A equipe internacional enviada pela OMS, que está prestes a relatar sua descoberta.

O mais preocupante é a chegada do coronavírus na Itália e no Irã sem aviso prévio, presumivelmente espalhado por pessoas que eram portadoras assintomáticas. A Itália agora tem 219 casos e sete pessoas morreram. Os números no Irã são contestados, mas alguns relatos alegam que houve 50 mortes na cidade de Qom, que é um local de peregrinação.

Um turista usando uma máscara facial visita o Coliseu em Roma, Itália, em 24 de fevereiro. Fotografia: Antonio Masiello / Getty Images

Outros especialistas disseram que é difícil acreditar que o Covid-19 agora não se espalhe pelo mundo.

“Agora consideramos que isso é uma pandemia, com exceção do nome, e é apenas uma questão de tempo até que a Organização Mundial da Saúde comece a usar o termo em suas comunicações”, disse Bharat Pankhania, da Faculdade de Medicina da Universidade de Exeter.

“Isso nos dá foco e nos diz que o vírus agora está aparecendo em outros países e transmitindo para longe da China. No entanto, isso não muda nossa abordagem no monitoramento do surto. No Reino Unido, não há necessidade de avançar em direção a estratégias de mitigação, pois até agora nossas políticas de contenção estão funcionando. Temos apenas 13 casos, e eles são contidos e controlados. Espero que continuemos com essa estratégia de contenção enquanto for bem-sucedida. “

Irã, Putin e o enterro do dólar

Tapete persa para dólar: te pego na saída!Tapete persa para dólar: te pego na saída!

 

Recentemente, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, encontrou-se com o presidente Vladimir Putin e explicou ao líder russo como isolar os Estados Unidos.

Segundo o líder iraniano, os dois países podem isolar Washington de várias maneiras, inclusive, eliminando o dólar através de sua substituição “por moedas nacionais em transações bilaterais ou multilaterais”.

O aiatolá também sublinhou que a cooperação de Moscou e Teerã na Síria mostra que os dois países conseguem “atingir objetivos comuns em situações desafiadoras”.

Como os futuros livros de história lembrarão a guerra da Síria?

Recentemente, um parlamentar britânico comparou o bombardeio russo a um comboio da ONU na cidade de Aleppo, na Síria, aos ataques nazistas na Espanha durante os anos 1930.

Olhando para trás, a ascensão de Hitler ao poder parecia óbviaOlhando para trás, a ascensão de Hitler ao poder parecia óbvia
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Andrew Mitchell, do Partido Conservador, disse que a Rússia está matando civis na Síria da mesma maneira como a Alemanha nazista se comportou em Guernica durante a Guerra Civil espanhola, ataques que inspiraram o pintor Pablo Picasso a criar a obra Guernica.

A declaração foi recebida com controvérsia, mas, ao comparar dois momentos distintos da história, ensejou uma questão: como a guerra na Síria será descrita e contextualizada nas escolas no futuro?

Atualmente, aprendemos nas aulas de história que o assassinato do arquduque Franz Ferdinand foi um dos gatilhos para a Primeira Guerra Mundial. E que a ascensão de Hitler ao poder contou com vários fatores, incluindo a situação econômica na Alemanha, assim como suas habilidades como orador público.

Guerra na Síria certamente será tópico de muitas redações. A questão é: como?Guerra na Síria certamente será tópico de muitas redações. A questão é: como?
Image copyrightASSOCIATED PRESS

Com a ajuda de especialistas, fizemos algumas previsões sobre os tópicos que, que como os acima, serão cobrados dos estudantes nos próximos 50 anos.

O começo: a invasão ao Iraque em março de 2003

Soldado americano faz patrulha no deserto do Iraque
Soldado americano faz patrulha no deserto do Iraque

“Se eu estivesse dando uma aula, eu iria para março de 2003, quando Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países decidiram invadir o Iraque”, diz o professor Tim Jacoby, especialista em conflitos e professor da Universidade de Manchester.

“Mas você também poderia argumentar que para entender o que aconteceu na Síria você precisa entender a decisão de Saddam Hussein de invadir o Kuwait em 1991. Ou você pode ir um pouco além”, afirma.

Homem tira foto dos destroços resultantes de um ataque em Damasco com seu celularHomem tira foto dos destroços resultantes de um ataque em Damasco com seu celular – Image copyrightREUTERS

Michael Stephens, pesquisador de Oriente Médio do Instituto Real de Serviços Unificados (Royal United Services Institute), um think tank de segurança, concorda que 2003 é um bom começo para entender a guerra na Síria, mas há também outras datas cruciais.

“Até 2001, as pessoas na Síria tinham apenas duas estações de TV, ambas controladas pelo Estado. Quando as pessoas tiveram acesso à internet, elas puderam se comunicar com o mundo todo e as pessoas foram incentivadas a querer mais para elas mesmas. A crise econômica de 2007-2008 teve um impacto econômico gigante no mundo árabe, o que levou à Primavera Árabe”, explica.

Mais de mil diferentes grupos são contrários ao governo sírio

Bashar al-Assad, presidente da SíriaImage copyrightEUROPEAN PHOTOPRESS AGENCY
Image captionBashar al-Assad, presidente da Síria

Michael Stephens e Tim Jacoby concordam com a alta probabilidade de que este será considerado um dos mais complexos conflitos em décadas, se não o mais complexo.

Alguns dos principais grupos atuando no conflito são:

– Presidente Bashar al-Assad, líder do governo sírio, e seus apoiadores;

– Rebeldes que se opõem à liderança de Assad, lutando contra o Exército do governo;

– Partidos políticos que dizem que Assad é responsável por fraudar as eleições, garantindo sua permanência no poder;

– O grupo extremista que se intitula Estado Islâmico, que usou a violência contra grupos como cristãos e Yazidis.

Segundo estimativas, existem mais de mil grupos diferentes se opondo ao governo desde que o conflito começou, com 100 mil soldados.

EUA, Rússia e Irã são alguns dos grandes jogadores internacionais

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente dos Estados Unidos, Barack ObamaO presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama – Image copyrightREUTERS

Esta é mais uma questão de “grande complexidade”, segundo Jacoby. Segundo o especialista:

– A Rússia sempre foi uma aliada da Síria e continua a ser, principalmente porque ela continua a ser sua principal aliada no Oriente Médio;

– O Irã teve uma grande influência na região como consequência da invasão ao Iraque em 2003. São aliados próximos;

– Para a política americana, um grande elemento do envolvimento dos Estados Unidos na Síria é garantir a segurança de Israel, seu aliado próximo.

O chamado Estado Islâmico quer dissolver as fronteiras entre Síria e Iraque

Soldados americanos fazem patrulha em BagdáSoldados americanos fazem patrulha em Bagdá – Image copyrightGETTY IMAGES

“A invasão ao Iraque é a primeira vez em um bom tempo em que a coalizão internacional invadiu um país soberano e o subjugou a um período prolongado de ocupação”, diz Jacoby.

“Desestabilizou muito os regimes tirânicos e despóticos que existiam na região há décadas. O conflito na Síria é um resultado direto dessa desestabilização, eu diria.”

Mapa mostra perda de território do Estado Islâmico
Mapa mostra perda de território do Estado Islâmico

E nem todo mundo pensa que Iraque e Síria são duas nações separadas.

“Aquela fronteira que desenhamos no mapa entre esses povos nunca foi aceita na mente dessas pessoas”, explica Jacoby.

“As pessoas que vivem no deserto e transpõem aquela fronteira são as mesmas. Então o que o Estado Islâmico quer de alguma maneira é dissolver aquela fronteira – e é exatamente isso o que eles fizeram.”

É difícil saber exatamente quantas pessoas morreram na Síria

Homem reage à morte de familiares após um ataque aéreo das forças de Assad em AlepoHomem reage à morte de familiares após um ataque aéreo das forças de Assad em Alepo – Image copyrightREUTERS

“A conta de mortes no Iraque é apenas uma estimativa”, diz Jacoby. “Comparado com o Vietnã, onde os corpos eram contados e as mortes publicadas, há pouquíssima informação.”

Jacoby afirma que essa era uma “política deliberada” por parte da coalizão de governos como Estados Unidos. Um resultado, diz ele, é que o movimento antiguerra não tinha esses dados pra ajudar na sua causa.

O que nós sabemos é que milhões de pessoas deixaram a Síria durante os últimos anos como refugiadas.

O número de refugiados varia muito

Mulher síria refugiada e seus filhos em campo de refugiados em Atenas, GréciaMulher síria refugiada e seus filhos em campo de refugiados em Atenas, Grécia
Image copyrightASSOCIATED PRESS

As redes sociais e a internet tiveram um papel importante em não apenas permitir um experiência melhor de mundo às pessoas que estão dentro da Síria, mas também dar a elas uma plataforma para noticiar o que acontece em suas vidas.

“Da perspectiva do Oriente Médio, eu acho que a onda de debates nas redes sociais foi bastante polarizador”, diz Stephens.

“É um pouco como quando Alan Kurdi (o menino de três anos na fotografia considerada hoje icônica) apareceu na praia. É mesmo necessário que uma criança seja levada pelo mar até uma praia para as pessoas se importarem?”

O corpo de Alan Kurdi é carregado por soldado
O corpo de Alan Kurdi é carregado por soldado – Image copyrightAFP

“Talvez a crise síria de refugiados tenha nos levado a pensar um pouco mais criticamente sobre nosso papel no resto do mundo”, disse Jacoby.

Ele destaca que o número de refugiados sírios vivendo em diferentes países varia muito. “A Turquia por exemplo tem provavelmente três milhões de refugiados sírios”, diz ele, comparando com os poucos milhares que vieram à Inglaterra.

“E depois de passar por todo aquele sofrimento e privação, eles serem submetidos ao racismo endêmico na Grã-Bretanha é absolutamente imperdoável”, diz.

Menina síria em campo de refugiados na TurquiaMenina síria em campo de refugiados na Turquia – Image copyrightASSOCIATED PRESS

Michael Stephens acredita que esse será o conflito definitivo até a metade desse século, acrescentando: “pode ser tão importante quanto foi a Primeira Guerra”. Ambos os especialistas preveem que o futuro será castigado pela forma como o conflito sírio tem ocorrido.

“Eu acho que permitir que milhares de homens, mulheres e crianças se afoguem no mar Mediterrâneo será visto como um dos maiores crimes do começo do século 21. É completamente escandaloso, acho que a história será extremamente crítica sobre nosso papel nisso, nossa capacidade de ignorar isso”, diz Jacoby.

“Aprender a lições da história será dolorido para todos. Eu acho que todo mundo (do Irã aos Estados Unidos e Europa) terão que jogar as mãos para o alto e dizer que poderiam ter feito algo diferente. Do jeito que a região está, acho que a situação ficará pior antes de ficar melhor”, completa Stephens.
Com dados da BBC

Republicanos cobram explicação sobre US$ 1,7 bilhão em espécie ao Irã

Pagamento em “dinheiro vivo” coincidiu com libertação de prisioneiros americanos, o que leva congressistas a questionar se foi entregue resgate. Casa Branca nega.

O pagamento de 1,7 bilhão de dólares em “dinheiro vivo” ao Irã, pelo governo dos Estados Unidos, no início deste ano, levou congressistas republicanos a novamente cobrar explicações à administração do presidente Barack Obama nesta quinta-feira (08/09).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O dinheiro foi entregue em três parcelas, nos dias 17 e 22 de janeiro e 5 de fevereiro. O pagamento da primeira parcela coincide com a libertação de quatro prisioneiros americanos, o que levou os republicanos a questionar se os Estados Unidos teriam pagado um resgate ao Irã.

Entre os libertados está o repórter Jason Rezaian, do Washington Post.

A Casa Branca argumentou que o valor de 1,7 bilhão de dólares foi alcançado num acordo extrajudicial referente a uma encomenda de armas feita pelo Irã no início de 1979, ainda nos tempos do xá.

Com a Revolução Islâmica, a encomenda nunca foi entregue, e o Irã levou o caso a um tribunal em Haia. O valor se refere aos 400 milhões de dólares da encomenda e mais 1,3 bilhão de juros.

Segundo autoridades americanas, as condições do acordo extrajudicial são melhores para os Estados Unidos do que as que seriam arbitradas pelo tribunal.

Elas também disseram que o Irã solicitou acesso imediato ao dinheiro, o que explica a inusitada operação de transferência.

Depois de serem depositadas pelos Estados Unidos num banco europeu, as três parcelas foram convertidas em euros, francos suíços e outras moedas e enviadas por avião, em espécie, de Genebra para Teerã.

As autoridades da administração Obama defenderam o procedimento, argumentando que as sanções internacionais isolaram o Irã do sistema financeiro internacional.

A Casa Branca ressalvou que o pagamento e a libertação dos reféns são casos separados, mas admitiu que reteve o dinheiro até que os americanos fossem libertados. A acusação de que houve pagamento de resgate, porém, foi descartada.

KG/ap/ots

Quem matou Alberto Nisman?

Em janeiro deste ano, um promotor argentino foi encontrado sem vida ao redor de uma poça de sangue no banheiro de seu apartamento, dias antes de divulgar um relatório contra o governo da presidente Cristina Kirchner. O correspondente da BBC Wyre Davies foi até Buenos Aires para entender as circunstâncias dessa estranha morte que continua a abalar a Argentina.

(Reuters)

No início deste ano, em meio a um período crítico em que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, tentava recuperar a combalida economia do país, de olho nas eleições de outubro, um episódio atingiu o centro nervoso do governo.

Dentro de um luxuoso apartamento na área portuária de Buenos Aires, um promotor de 51 anos chamado Alberto Nisman se preparava para divulgar um relatório polêmico. Ele acusaria o governo argentino de ajudar a acobertar o pior ataque terrorista da história do país.

Horas antes de ele apresentar o relatório ao Congresso, Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, localizado no 13º andar de um prédio luxuoso da capital Buenos Aires, com um único disparo na cabeça. Rapidamente, os argentinos começaram a se questionar: foi um suicídio ou um assassinato?

E se realmente tiver sido um assassinato, quem estaria por trás de sua morte? A resposta a essa pergunta encontra-se em uma sucessão de fatos ocorridos há 21 anos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Leia mais: Promotor que acusou Cristina Kirchner é achado morto; entenda o caso

Atentado

(AFP)
Ataque a bomba destruiu a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em 1994

No dia 18 de julho de 1994, um ataque a bomba destruiu a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), o principal centro comunitário judaico do país. A explosão foi tão forte que o prédio ruiu, matando 85 pessoas.

Muitas das provas foram perdidas ou contaminadas, ora deliberadamente ou por incompetência, e nunca ninguém foi condenado pelo envolvimento no atentado.

O ataque atingiu o coração da comunidade judaica, com cerca de 400 mil integrantes, uma das maiores fora de Israel. O prédio foi então reconstruído sob forte esquema de segurança com altos muros que impedem qualquer nova ameaça.

Nisman, um promotor midiático e por vezes obsessivo, vinha investigando o atentado há mais de uma década, tentando solucionar um caso para o qual ninguém ainda havia conseguido encontrar respostas.

(AFP)
Explosão foi tão forte que o prédio ruiu, matando 85 pessoas

Mas, nos últimos meses, o promotor começou a angariar inimigos no alto escalão do governo argentino.

Alegando que houve uma tentativa de acobertar a suposta participação do Irã no atentado, Nisman abriu um processo criminal contra a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o chanceler do país, Hector Timerman.

O promotor confiava em poucas pessoas e ocasionalmente trabalhava de seu apartamento. Ele estava ali no dia 18 de janeiro deste ano quando foi encontrado morto.

Flagrado deitado em seu banheiro cercado de uma poça de sangue e com uma arma próxima a seu corpo, muitas pessoas com boas conexões na Argentina imediatamente presumiram que Nisman havia se suicidado. Até a própria presidente Kirchner, em sua página no Facebook, sugeriu que o procurador tinha ceifado a sua própria vida.

Leia mais: Argentina: Atentado investigado por promotor morto segue impune; entenda

Outro lado

(BBC)
Ex-companheira de Nisman, juíza argentina Sandra Arroyo Salgado recusa-se a aceitar versão oficial sobre morte de promotor

Mas uma pessoa se recusa a acreditar nisso desde o início. Ex-companheira de Nisman, Sandra Arroyo Salgado viveu com o promotor por 17 anos e é mãe de suas duas filhas.

“Não tenho dúvida, de que por causa do jeito que ele era, sua personalidade, ele nunca tiraria a própria vida”, disse ela à BBC em uma entrevista exclusiva em sua casa, localizada em um subúrbio chique nos arredores de Buenos Aires.

“Ele era extremamente cuidadoso com sua saúde e tinha medo de morrer jovem. Por isso, quando me contaram que ele tinha sido encontrado morto e uma arma foi encontrada no local, sabia que alguém o havia matado”.

(BBC)
Polícia permitiu que mãe de Nisman lavasse pratos sujos que haviam sido deixados na pia

No momento da morte de Nisman, Salgado estava em viagem ao exterior e, quando voltou à Argentina, ficou surpresa com a rápida velocidade do exame post mortem e o insucesso em preservar as provas encontradas no apartamento do promotor.

Assim, embora ela e Nisman estivessem separados, Salgado ─ que é juíza ─ começou suas próprias investigações.

“A única coisa que estamos buscando é a verdade”, disse ela. “Minha equipe de investigadores analisou as fotos e o vídeo da autopsia oficial e chegou à conclusão que a morte de Alberto certamente não foi acidental”.

“É como se as autoridades responsáveis pela investigação estivessem ignorando completamente o fato de que Alberto foi encontrado morto apenas quatro dias depois de ter acusado a presidente do país de nada menos do que um possível acobertamento de um ataque terrorista que resultou na morte de 85 pessoas”.

Leia mais: Por que a morte do promotor argentino deixa tantas dúvidas

Provas

Arma que matou Nisman era uma antiga Bersa calibre 22

Dezenas de imagens foram registradas pela polícia argentina no apartamento de Nisman. Elas apontavam para uma total falta de preparo das autoridades.

Algumas imagens mostram várias pessoas andando pelo apartamento, sem qualquer roupa especial. As evidências foram inapropriadamente manipuladas. Por exemplo, em dado momento, a polícia permitiu que a mãe de Nisman lavasse os pratos sujos que haviam sido deixados na pia e que, muito possivelmente, teriam pistas que ajudariam a desvendar o mistério.

A equipe de Salgado também alega que as digitais não foram tiradas de provas consideradas “chave” como um computador que, segundo ela, investigadores ligaram sem a devida cautela.

A arma achada na cena também parece ter sido manipulada e deixada em outro lugar, de novo longe do procedimento padrão nesses casos.

Apenas depois da insistência de Salgado foi que um teste à base de Luminol (substância química que permite identificar vestígios de sangue) foi realizado semanas depois da morte de Nisman. O teste mostrou que houve uma tentativa de lavar o sangue de algum objeto na pia do banheiro.

Mas a mulher a cargo da investigação oficial sobre a morte de Nisman, a também promotora Viviana Fein, nega que tenha havido qualquer procedimento incorreto por parte da polícia.

“É comum na Argentina não usar essas roupas especiais”, disse Fein à BBC. “Já estive em muitas cenas como essa e não usei o tipo de roupa que os especialistas usam simplesmente porque não tocamos em nada. Não havia sangue em nenhum lugar fora do banheiro, o lugar onde Nisman morreu”.

A rivalidade entre as duas mulheres ─ Sandra Arroyo Salgado e Viviana Fein ─ atraiu as atenções do país. Acredita-se que investigação oficial conduzida por Fein provavelmente chegará à conclusão de que Nisman se matou, mas a equipe liderada por Salgado alega que as provas sugerem justamente o contrário.

Leia mais: Argentina: caso Nisman reacende desconfiança sobre agentes de inteligência

Ferimento

Uma das peças desse quebra-cabeças, contudo, é o ferimento causado pela bala que transpassou a cabeça de Nisman.

Muitos suicidas que se matam com armas de fogo efetuam o disparo posicionando a arma ao lado da cabeça ou de frente a ela. Mas a bala que matou Nisman entrou por cima, e por trás de sua orelha direita ─ um cenário não impossível, mas altamente improvável, dizem especialistas.

Outras dúvidas foram lançadas sobre a posição em que a arma foi encontrada. As fotografias tiradas de Nisman pela polícia mostram o corpo contorcido do promotor deitado em uma poça de sangue no banheiro, com a arma debaixo de seu ombro esquerdo, embora o disparo tenha perfurado o lado direito de sua cabeça.

“Uma possibilidade, se ele disparou contra si mesmo, seria que a arma tivesse caído, ou sido lançada para o lado”, diz Ignacio Prieto, um dos principais repórteres investigativos da Argentina. “Mas é difícil imaginar como a arma poderia ter feito uma trajetória de 180 graus; é muito estranho”.

Na opinião de Prieto, o cenário aponta para o envolvimento de outras pessoas na morte do promotor ─ uma teoria, diz ele, amparada por criminologistas da Interpol, a polícia internacional.

“Os especialistas dizem que a cena foi montada, eles colocaram o corpo de uma certa forma, a arma de outra e até usaram uma toalha para arrumar o corpo”.

Testes também não encontraram vestígios de pólvora na mão de Nisman.

Leia mais: ‘Não vão me intimidar’, diz Cristina em pronunciamento sobre Nisman

Revólver do qual partiu tiro que matou Nisman pertencia ao técnico de computador Diego Lagomarsino

Técnico de informática

A arma que matou Nisman era uma antiga Bersa calibre 22. O revólver pertencia a um técnico de computador de 38 anos, Diego Lagomarsino, que trabalhava com o promotor.

Em uma entrevista coletiva caótica depois que o corpo foi descoberto, Lagomarsino negou ser parte de uma conspiração para matar seu chefe. Posteriormente, ele contou à BBC sua versão dos acontecimentos ─ que Nisman lhe pediu a arma emprestada porque não confiava mais nos guarda-costas da polícia que o acompanhavam e queria proteger suas filhas.

“Eu não tinha escolha. Alberto era um homem difícil de dizer não”, conta.

Lagomarsino diz que levou a arma ao apartamento de Nisman na noite de 17 de janeiro, um sábado, e então saiu. Ele acrescenta que talvez tenha sido a última pessoa a ver o promotor vivo antes de sua morte por volta do meio-dia de domingo, tal como indica a autopsia.

Mas Sandra Arroyo Salgado diz que Lagomarsino tem mais explicações a dar depois que seus investigadores concluíram que Nisman morreu muito mais cedo, na noite de sábado.

Nisman vinha falando quase sem parar ao telefone com jornalistas e políticos nos dias anteriores a sua potencialmente explosiva acareação no Congresso ─ que deveria ocorrer na segunda-feira ─, mas na noite de sábado esse homem ativo permaneceu atipicamente em silêncio. O jornal de domingo permaneceu intocado do lado de fora de seu apartamento. Por quê?

“Acredito que a hora em que ele morreu foi quando ele parou de fazer telefonemas, porque ele era uma pessoa que falava constantemente ao telefone”, diz a ex-mulher.

“É inconcebível, inconcebível que ele não tenha feito uma única chamada por tantas horas. A primeira coisa que ele fazia de manhã, durante todo o tempo em que estivemos juntos, era pegar o jornal, lê-lo e era exatamente o que ele faria já que as notícias sobre ele pipocavam na imprensa”.

Leia mais: Investigação de morte de promotor argentino ganha ares de romance policial

Protestos

Um mês depois de Nisman ter sido encontrado morto, argentinos foram às ruas protestar contra impunidade

As dúvidas sobre se o caso está sendo investigado de forma imparcial e independente estão sendo sentidas por toda a sociedade argentina.

Exatamente um mês depois que o corpo de Nisman foi encontrado, centenas de milhares de argentinos caminharam sob chuva torrencial por Buenos Aires, protestando contra a impunidade ─ um sentimento de que, mais uma vez, outro crime de grandes proporções inevitavelmente permaneceria sem solução por causa da incompetência judicial e a interferência política.

Por outro lado, a presidente Cristina Fernandéz de Kirchner não parece se incomodar com as dúvidas sobre a isonomia do processo.

Conhecida pelo temperamento combativo, ela tem repetidamente ridicularizado manifestantes e críticos. Sugerindo, inclusive, que alguém tenha matado Nisman como forma de minar seu governo, Kirchner condenou o ex-promotor e seu relatório.

A tensão entre eles data de pelo menos janeiro de 2013, quando a Argentina assinou um acordo com o Irã, estabelecendo a criação de uma “comissão da verdade” para uma investigação conjunta do atentado à Amia. Nisman, que trabalhou sobre o caso por 17 anos e acusou formalmente várias figuras iranianas de alto escalão em 2006, não pôde conter sua raiva.

Tensão entre Nisman e Kirchner era antiga

No rádio e na TV, ele acusou Kirchner e seu chanceler, Hector Timerman, de agir inconstitucional e ilegalmente para interferir no processo judicial.

Nisman argumentaria mais tarde que o governo estava tentando firmar um pacto com Teerã como forma de aumentar o comércio bilateral entre os dois países e ajudar a combalida economia argentina.

Timerman, que tal como Nisman é judeu, disse à BBC ser “inconcebível” que ele, de todas as pessoas, trairia as memórias daqueles que morreram no atentado à bomba e disse que as acusações de Nisman contra ele e a presidente não tinham fundamento.

“Sei que ele rascunhou uma ordem de prisão contra mim e eu me defenderei no tribunal. Somente confio na lei, eu irei ao tribunal para provar minha inocência”, diz Timerman, para quem o relatório de Nisman é um documento juridicamente incorreto.

“Fizemos mais do que qualquer outro governo para buscar os culpados por esse terrível crime contra a Amia, mais do que qualquer outro governo”, retruca.

Sabe-se, por documentos liberados pelo Wikileaks, que Nisman visitava regularmente a embaixada americana em Buenos Aires. Ele teria tido acesso a briefings secretos de inteligência que provavelmente influenciaram sua investigação sobre o ataque. Nisman também teria ligações estreitas com o serviço secreto de Israel, a Mossad.

Depois que Nisman morreu, Timerman enviou cartas abertas a Washington e a Israel, alertando os dois países a não intervirem em assuntos internos da Argentina.

“Acredito que há países cujos serviços de inteligência operam em outros países sem a autorização desses últimos”, disse o chanceler argentino.

Questionado pela BBC sobre se o envio das cartas tem relação com o caso Nisman, Timerman foi lacônico.

“Não enviamos cartas sem provas”, retrucou.

Leia mais: Por que a morte do promotor argentino deixa tantas dúvidas

Agência de inteligência

Ex-diretor de operações de agência de inteligência da Argentina colaborava com Nisman; hoje ele está foragido

O que não está sob dúvida é o papel desempenhado pela agência de inteligência interna da Argentina na vida do promotor e, para alguns, em sua morte também.

Ao longo de décadas, o diretor de operações da SI, como a agência é conhecida, foi Antonio “Jaime” Stiuso, um homem tão esquivo quanto a única imagem que existe dele.

Ele trabalhou conjuntamente com Nisman no caso Amia, fornecendo ao promotor escutas telefônicas e outras informações sensíveis sobre o caso.

Assim como Nisman, Stiuso também caiu em desgraça com o governo após se opor ao controverso acordo com o Irã e quando as divisões chegaram à SI, ele foi demitido. Agora está foragido e acredita-se que tenha deixado o país.

Talvez Nisman tenha pagado um preço alto por tomar um lado num jogo perigoso.

Para célebre juiz argentino Luiz Moreno Ocampo, caso Nisman expôs lado negro do funcionamento do sistema de inteligência

O famoso juiz argentino Luis Moreno Ocampo tem um interesse especial na história. Ele diz que, durante a ressaca dos anos de chumbo da ditadura argentina, espiões exerciam um enorme poder sobre o sistema judiciário, do qual Nisman fazia parte.

“Nas décadas de 1970 e 1980, o nosso sistema de inteligência funcionava como um braço das atrocidades cometidas pela ditadura. Isso já acabou”, insiste Moreno Ocampo.

“Mas o caso Nisman expôs que governos democráticos não mudaram o funcionamento do sistema de inteligência. Eles não estão mais cometendo atrocidades, mas gerenciam dinheiro para fins políticos, espionam membros da oposição, controlam juízes e promotores que querem investigar o governo. É isso que temos aqui. E o caso Nisman expôs isso”, opina.

Segredos

Governo argentino quer engavetar caso Nisman

Numa cidade cheia de segredos e suspeitas, a única pessoa que realmente se aproximou de Nisman e, diz ele, deu ao promotor a arma da qual sairia o tiro fatal foi o técnico de informática Diego Lagomarsino. Mas alguns acreditam que ele também era um agente de inteligência.

Lagomarsino teve, como chegou a ser levantado, um papel na morte de Nisman?

“Não”, disse ele enfaticamente à BBC. Seu trabalho era meramente cuidar do computador do promotor argentino.

“Tenho a verdade ao meu lado, eu sei que não fiz isso e isso deixa a minha consciência livre. Deus sabe que eu não fiz isso. Eu sei que não fiz isso. E tudo será provado no final”, afirma Lagomarsino, com a voz embargada.

Integrantes do governo argentino iniciaram campanha de difamação de Nisman

“Quando tudo isso tiver terminado, eles pedirão perdão a mim. Eu os perdoarei”, acrescenta.

Esse assassinato vem chacoalhando a Argentina, mas em ano de eleição, o governo do país parece ansioso para encerrar o caso rapidamente e engavetá-lo para sempre.

Integrantes do governo se lançaram numa campanha de difamação de Nisman, acusando-o de ser mulherengo e desviar recursos públicos de seu gabinete. Fotos dele ao lado de jovens mulheres, aparentemente tiradas de seu telefone celular, foram vazadas à imprensa argentina.

Enquanto isso, a investigação de Nisman sobre o acobertamento do caso Amia foi oficialmente arquivada.

A ex-mulher do promotor relembra à BBC uma conversa entre ele e sua filha mais velha dias antes de sua morte, em que ele enfatizava a importância do relatório.

“Ele disse a ela: Eu estou trabalhando por algum tempo em algo muito importante. Você ficará orgulhosa do meu trabalho”, conta Salgado, repetindo a conversa entre pai e filha.

“Mas às vezes na vida não escolhemos os momentos em que as coisas acontecem, e tenho de apresentar esse relatório agora, é um grande projeto sobre o qual venho trabalhando por muito tempo e há um risco de que, se eu não o fizer agora, é possível que eu nunca consiga mostrá-lo para o Congresso, e que eu perca o meu emprego”, acrescentou Nisman à filha.

Nisman nunca chegou a apresentar o documento ao Congresso argentino. O relatório foi desacreditado por alguns, mas outros que conheciam Nisman dizem que ele estava convencido de que estava perto da verdade e certamente não se suicidaria.

Diante de tantas informações, sobram perguntas.

Caso Nisman talvez nunca seja solucionado

O petróleo despenca, e a Arábia Saudita sorri

Salman bin Abdulaziz Al-SaudO governo de Riad perde com a queda de preços, mas celebra instabilidade no Irã e teste à nova indústria petrolífera norte-americana

 Salman bin Abdulaziz Al-Saud, o príncipe-herdeiro do trono saudita, em evento na terça-feira 6. A família real depende do petróleo, mas por enquanto está disposta a encarar a queda.

Na terça-feira 6, o preço do petróleo nos mercados de Londres e Nova York, referências para o resto do mundo, ficou abaixo dos 52 dólares, menor valor desde 2009.

A brusca queda recente, de 55% desde a metade de 2014, é resultado de uma oferta elevada, marcada por picos de produção na Rússia, no Iraque e nos Estados Unidos, e demanda comprimida pela lentidão das economias de China, Japão e países europeus. O cenário deveria provocar preocupação na Arábia Saudita, maior exportadora e dona da maior capacidade de produção de petróleo do mundo, mas a monarquia se mostra tranquila. A queda de preços é ruim para o governo saudita, mas pior para seu maior inimigo, o Irã, e serve para testar a força da crescente produção norte-americana, que causa apreensão em Riad por minimizar a dependência que Washington tem do petróleo saudita.

Em 21 de dezembro, em reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) na Áustria, a Arábia Saudita revelou sua serenidade com o tombo do preço do petróleo. Sem conseguir um acordo com países de fora do cartel, como a Rússia e o México, a Opep decidiu não reduzir suas metas de produção, o que faria a cotação do barril crescer. A opção pela regulação do preço a partir da lógica do mercado foi um afastamento da tradição da Opep, comandada pelos sauditas.

Ao longo das últimas quatro décadas, o cartel petrolífero tirou e injetou barris no mercado sempre que os preços escaparam aos limites desejados, para cima ou para baixo. Desta vez, sem a mesma capacidade de influenciar o mercado, os sauditas aceitaram pagar para ver até onde a queda vai. O governo de Riad nega estar conspirando para prejudicar determinadas nações, mas parece óbvio que a família real observa o resultado de sua aposta com a expectativa de obter dividendos políticos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Não há dúvidas de que o petróleo em baixa prejudica a Arábia Saudita. A economia do país é pouco diversificada e muito dependente do setor petrolífero, responsável por 85% das exportações e 50% do PIB. Entre 2014 e 2015, a receita do petróleo deve cair 88%, sendo responsável por um déficit de 39 bilhões de dólares no orçamento saudita, o maior da história, o que acarretará cortes de gastos públicos e, possivelmente, alguma instabilidade política.

Ainda assim, a Arábia Saudita pode suportar o baque – além de reservas monetárias de 750 bilhões de dólares, o País tem o menor custo de produção de petróleo no mundo, de cerca de cinco dólares por barril. Se cortasse sua produção sem uma combinação prévia com países de fora da Opep e promovesse a elevação do preço do petróleo, a Arábia Saudita poderia perder cotas de mercado. Foi isso o que ocorreu nos anos 1980, quando o barril foi vendido a menos de 10 dólares e os sauditas perderam clientes ao cortar sua própria produção, enquanto outros países mantiveram-na, vendendo seu petróleo por um preço mais baixo.

Em um cenário de disputa por mercado, a Arábia Saudita poderia perder espaço para aliados, como os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait, mas também para países que vê como rivais. Um deles é a Rússia, que segue apoiando o ditador sírio Bashar al-Assad, o qual os sauditas tentam derrubar. Outro é o Irã, visto como o maior inimigo da Arábia Saudita. Além de apoiar Assad, o regime iraniano, visto como ameaça existencial, contrapõe os interesses sauditas em quase todos os pontos nevrálgicos do Oriente Médio.

O Irã como alvo

A queda atual do preço do petróleo atinge duramente as ambições de Teerã em um momento sensível. No próximo dia 15, negociadores iranianos vão se encontrar novamente com emissários de Alemanha, China, EUA, França, Reino Unido e Rússia para tentar chegar a um acordo sobre o programa nuclear. A Arábia Saudita jamais apoiou o diálogo com o Irã – ao contrário, o país árabe faz lobby para que os Estados Unidos resolvam a questão por meios militares, bombardeando as instalações nucleares iranianas para “cortar a cabeça da cobra”. Sem condições de direcionar a política externa dos EUA, a Arábia Saudita trabalha para desestabilizar o Irã.

O ímpeto pelo acordo nuclear é comandado por Hassan Rouhani, presidente do Irã. Rouhani trava uma batalha interna com setores linha-dura, contrários ao diálogo com os EUA, e tem vendido a ideia de que a solução para os graves problemas econômicos do país é o acordo nuclear e o fim das sanções impostas por EUA e Europa. Para manter o impulso pelo diálogo, Rouhani precisa de apoio popular e este depende significativamente da situação da economia.

Após um acerto provisório com as potências em novembro de 2013, algumas sanções contra o Irã foram aliviadas. Isso facilitou a recuperação econômica do país, marcada pela reversão da recessão e pelo fim da alta da inflação, mas a diminuição do lucro do petróleo provocará um duro impacto nas contas iranianas. Metade das receitas do país é oriunda do setor petrolífero, e Teerã precisaria, segundo o FMI, de um barril cotado a 136 dólares para ter um orçamento balanceado. Com o petróleo vendido perto dos 50 dólares, as dificuldades serão tremendas. Por isso, a partir de março, entrará em vigor no Irã um orçamento bastante austero, com aumento de impostos e redução de subsídios para alimentos e combustível. São medidas impopulares, que podem erodir o apoio a Rouhani e dificultar o diálogo, exatamente o que os sauditas desejam.

Os EUA como alvo

Além de ver o sofrimento do Irã, a Arábia Saudita espera obter um segundo dividendo político-econômico com a brusca queda do preço do petróleo: testar a resiliência da produção norte-americana do petróleo de folhelho (shale oil, em inglês), uma rocha sedimentar que é explorada por meio de técnicas conhecidas como fratura hidráulica e perfuração horizontal. Nos últimos anos, essa indústria se desenvolveu de forma impressionante nos EUA.

A revolução do folhelho é um fenômeno que dificilmente ocorreria em outro país que não os Estados Unidos. Graças a um sistema regulatório que permite um investimento rápido e a uma legislação que dá ao dono da terra (e não ao governo) os direitos de mineração, a produção nas formações de folhelho foi acelerada e hoje envolve 6 mil companhias diferentes disputando e aquecendo um mercado abastecido por 4 milhões de poços nos EUA. Neste cenário, a produção norte-americana de petróleo cresceu 60% desde 2008 e, até 2016, o país pode se tornar o maior produtor do mundo, ultrapassando a Arábia Saudita. Há tanto petróleo no mercado dos EUA que o país se tornou autossuficiente e, em junho, pela primeira vez em quatro décadas, o governo autorizou exportações de petróleo cru.

O folhelho colocou Washington na rota de uma independência energética que preocupa os sauditas, pois poderia minar a antiga parceria entre os dois países, baseada na troca de segurança militar pela segurança energética. Para a Arábia Saudita, o preço baixo do petróleo pode ser um obstáculo para a novata indústria norte-americana, uma vez que a maioria dos milhares de empresários envolvidos na produção tem grandes dívidas, feitas para financiar o início da exploração.

Está claro que a Arábia Saudita resolveu deixar arder um mercado em chamas. Encastelados em reservas gigantescas de petróleo e dólares e com a produção mais barata do mundo, os sauditas vão perder, mas menos do que seus rivais e até aliados. De quebra, vão ver alguns possíveis concorrentes saírem do mercado ou adiarem explorações consideradas demasiado caras, como no Ártico ou em águas profundas – caso do pré-sal da Petrobras, o que ajudar a explicar a queda nas ações da estatal brasileira.

O conforto saudita com a depreciação acelerada do petróleo é tão grande que, em 22 de dezembro, o ministro saudita do Petróleo, Ali al-Naimi, não colocou prazo para acabar com a estratégia de não interferir no mercado. Questionado pela CNN até quando seu governo manteria a produção constante, foi conciso: “para sempre”.
por José Antonio Lima

Irã. Burlando a censura na Internet

Censura Blog do MesquitaIranianos burlam censura na net com novo software

Programa desenvolvido por religiosos chineses permite acesso livre à rede

O governo iraniano, mais do que qualquer outro, determina pela censura o que os cidadãos podem ler online, usando tecnologia que bloqueia milhões de sites da internet que oferecem notícias, comentários, vídeo, música e, até pouco tempo atrás, o Facebook e YouTube. Se digitasse a palavra “mulheres” em farsi, o internauta receberia a mensagem: “Prezado assinante, o acesso não é possível.”

Em julho, em sites muito visitados que oferecem download gratuito de vários softwares, apareceu uma brecha: um programa que permitia aos iranianos contornar a censura.

O programa foi descoberto por estudantes universitários, que depois o divulgaram por e-mails e compartilhamento de arquivos. No final do ano, mais de 400 mil iranianos surfavam na internet sem censura.

O software foi criado não por iranianos, mas por especialistas chineses em computação que trabalham voluntariamente para o Falun Gong, movimento espiritual banido por Pequim desde 1999. Eles mantêm uma série de computadores em centros de dados de todo o mundo para atender às solicitações dos internautas, burlando os censores.

A internet deixou de ser apenas um canal essencial para o comércio, para o entretenimento e a informação, para se tornar o cenário tanto do controle estatal quanto da rebelião contra ele. Atualmente, mais de 20 países usam sistemas cada vez mais sofisticados para bloquear e filtrar o conteúdo da rede, diz o grupo Repórteres sem Fronteiras, que estimula a liberdade de imprensa.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Governos autoritários como o do Irã, China, Paquistão, Arábia Saudita e Síria instalaram sistemas de filtragem mais agressivos, mas algumas democracias ocidentais também começam a filtrar parcialmente o conteúdo, como a pornografia infantil e outros materiais de cunho sexual.

Em resposta à censura, uma aliança que abrange ativistas políticos e religiosos, defensores das liberdades civis, empresários e até militares de alta patente e agentes de inteligência contestam o crescente controle de conteúdo da rede.

Os criadores do software usados pelos iranianos são membros do Consórcio Global pela Liberdade na Internet, com sua principal sede nos EUA e afiliado ao Falun Gong. O consórcio é um dos vários grupos menores que criam sistemas para permitir que todos tenham acesso à internet aberta.

Em outra iniciativa, a do Projeto Tor, um grupo sem fins lucrativos oferece um software gratuito que pode ser utilizado para enviar mensagens secretamente ou chegar a sites bloqueados. O software, desenvolvido nos Laboratórios de Pesquisa Naval dos EUA, é utilizado por mais de 300 mil pessoas no mundo.

Cientistas políticos da Universidade de Toronto construíram outro sistema, chamado Psiphon, que possibilita a qualquer um burlar firewalls com apenas um browser. Percebendo uma oportunidade de negócios, eles criaram uma empresa que ganha um bom dinheiro permitindo que companhias de mídia transmitam conteúdo digital para usuários da rede passando por cima dos firewalls nacionais. Por causa do risco dessa silenciosa guerra eletrônica, há uma advertência no site do grupo: “Burlar a censura pode constituir um crime contra a lei. Cuidado com os perigos implícitos e suas possíveis consequências.”

A China admite que monitora o conteúdo da internet, mas afirma que seu objetivo é muito semelhante ao de qualquer outro governo: policiar o material perigoso, pornografia, propaganda enganosa, atividade criminosa e fraude. Segundo o governo chinês, o Falun Gong é um culto perigoso que destruiu a vida de milhares de pessoas.

Por sua vez, intensificando seus esforços contra a proibição oficial, o consórcio dessa seita organizou no ano passado um amplo lobby no Congresso dos EUA, que aprovou US$ 15 milhões para serviços que permitam burlar o sistema oficial. Mas o dinheiro não se destinou ao Falun Gong, e sim a Internews, uma organização internacional que financia grupos de mídia local.

Este ano, uma coalizão mais ampla está se organizando com a finalidade de pressionar o Congresso a conceder um financiamento maior para iniciativas que combatam a filtragem em benefício de dissidentes do Vietnã, Irã, Tibete, Mianmar, Cuba, Camboja, Laos e da minoria uigur, da China.

John Markoff, The New York Times