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Portugal, um bocadinho de Brasil

Com a crise no Brasil, Portugal virou um pedaço brasileiro dentro da Europa. Que bom que passou o tempo em que emigrar era uma decisão definitiva, escreve a colunista Astrid Prange.Portugal,Lisboa,Brasil,Imigrantes,Economia

Portugal Lisbon (picture-alliance/blickwinkel/S. Oehlschlaeger)

A história pode ser um pêndulo. Brasil, país colonizado pelos portugueses, está pronto para recolonizar a pátria colonizadora. E isso não é uma notícia ruim, não!

Ao contrário dos portugueses, os brasileiros não chegam com navios e armas, e não procuram ouro. Tampouco querem conquistar novos terrenos. Simplesmente querem construir uma vida nova fora do seu país.

A emigração atual rumo a Portugal é tão visível, que não me parece exagerado dizer que o país tem grandes chances de se tornar o 27º estado brasileiro. Na minha última visita a Portugal, me senti quase como no Brasil. Peço um cafezinho e um pão de queijo na padaria na esquina. Ouço português do Brasil e ando no calçadão feito de pedras portuguesas como se estivesse em Copacabana.

E vejo pessoas do mundo inteiro. Chineses, cabo-verdianos, angolanos, turcos, russos, gregos e sul-africanos. Essa mistura se reflete nas estatísticas do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Portugal, que antigamente era um dos países mais pobres da Europa e fez milhares de portugueses emigrarem, inclusive para Alemanha, virou um país de imigração.

Desde 2000, a população estrangeira em Portugal aumenta continuamente. De 200.000 pessoas, ela pulou para 420.000 residentes em 2017. O pico foi em 2009 com mais de 450.000 estrangeiros residentes no país. A partir daí, por causa da crise econômica e do desemprego, muitos imigrantes saíram de Portugal. Mas nos últimos três anos, a migração voltou a subir novamente.

Os brasileiros fazem parte deste desenvolvimento. Entre 1999 e 2010, o numero de residentes brasileiros em Portugal aumentou de 20.000 para quase 120.000 pessoas. A partir de 2011, muitos voltaram para o Brasil, que na época vivia um boom econômico.

Atualmente moram mais de 100.000 brasileiros com passaporte português e 85.000 brasileiros com residência legal em Portugal. Com isso, a população brasileira em Portugal é maior que a população portuguesa no Brasil, que conforme informações do Itamaraty era de 137.937 cidadãos em 2010.

Claro que, nessa estatística, não está incluído o grande número de descendentes de portugueses no Brasil. Segundo o IBGE, cerca de 10% dos brasileiros têm ascendência portuguesa, o que representaria cerca de 20 milhões de luso-brasileiros.

A imigração do século 21 é diferente: é global, individual, financeira e digital. A pátria é longe e ao mesmo tempo perto. E Portugal entendeu isso. Com a nova Lei dos Estrangeiros, a partir de 1 de outubro, a entrada de estudantes, empreendedores e trabalhadores qualificados ficou mais fácil.

Com isso, o Brasil ficou mais perto de Portugal. Será que agora Portugal vira o “melting pot” que o Brasil sempre foi? Será que poderia até se transformar num “melting pot” político onde inimizades políticas podem ser superadas?

Para aqueles brasileiros que, por exemplo, reclamam da falta de segurança, de repente seria interessante saber que Portugal é um país pioneiro no combate às drogas. Desde a descriminalização do uso, em 2001, caiu o nível de criminalidade, e também o número de dependentes que morrem por causa do uso de drogas.

Para aqueles que sofreram com a derrota do PT nas eleições, talvez seja um alívio saber que o atual governo português, composto por uma coalizão de esquerda, é bastante popular. O primeiro-ministro António Costa, do partido socialista PS, conseguiu um balanço entre politicas sociais e programas de ajuste que a Comissão Europeia exige.

Pode ser um pequeno consolo que a crise politica e econômica no Brasil tenha levado o país um pouco mais para perto da Europa. Mesmo que o Brasil não vá fazer parte da Comunidade Europeia, muitos brasileiros naturalizados portugueses o fazem. Mesmo que Portugal não se torne o 27º estado brasileiro, é um pedaço de Brasil dentro da Europa. Que bom que passou o tempo em que emigrar era uma decisão definitiva.

Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.

Trump age conforme o prometido em palanque

Trump abre caminho para deportação maciça de imigrantes irregularesDonald Trump nesta segunda-feira

Donald Trump nesta segunda-feira MIKE THEILER / POOL EFE

Governo dos EUA pretende expulsar quase todos que estejam há menos de três anos no país

Donald Trump abriu o caminho para as deportações maciças. As novas diretrizes do departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgadas nesta terça-feira, enterram de vez o legado de Barack Obama e amplificam a perseguição a quase todos os imigrantes irregulares (ainda sem documentos) que vivem no país.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Não se trata apenas de que os funcionários atuais ampliem as suas atribuições ou da contratação de 15.000 novos agentes. O centro da nova ofensiva migratória está na possibilidade de executar a expulsão imediata de praticamente todos os que estão há menos de três anos no país.

Trata-se de uma virada radical. O país que se tornou grande a partir da imigração agora dá as costas a 11 milhões de sem-documentos, metade deles mexicanos. Até agora, o objetivo prioritário dos agentes era deter todos aqueles que tivessem cometido algum crime grave. Com as novas diretrizes, o foco se amplia e os casos que não se enquadram nelas se reduzem a “exceções extremamente limitadas”.

“Todos que não cumprem as leis de imigração podem estar sujeitos aos novos procedimentos, incluindo a expulsão dos Estados Unidos”, afirma a nova diretriz.

Também será restringida a prática de outorgar liberdade condicional para os que forem detidos. “Esta medida será usada excepcionalmente e apenas nos casos em que, após minucioso estudo das circunstâncias, se a considere necessária por razões de ordem humanitária ou por conta um benefício público significativo”, determina a nova norma.

O objetivo, agora, é devolver os imigrantes o quanto antes aos seus países de origem. Para isso, quebram-se os entraves que havia para a realização do processo judicial de expulsão imediata. Esta modalidade era aplicada até hoje aos imigrantes que tivessem passado menos de duas semanas no país e estivessem a não mais do que 160 quilômetros da fronteira.

Com a nova diretriz, os limites geográficos são anulados e sua aplicação passa ase estender para todos aqueles que estiverem há até dois anos em território norte-americano. Ficam de fora apenas os menores de idade, os pensionistas que têm asilo e aqueles que puderem comprovar a legalidade de sua situação como imigrante.

Neste plano, o grande alvo é o México. O Governo de Trump considera prioritário garantir a sua fronteira do sul. Para isso, está realizando em caráter de urgência a busca de fundos para “projetar, construir e manter o muro”. Nessa mesma direção, ele abriu um processo para “identificar e quantificar todas as fontes diretas ou indiretas de ajuda federal e de assistência ao Governo mexicano”.

A finalidade dessa iniciativa é conhecer qual é a quantia que o país vizinho recebe de Washington e usá-la para forçar o México a pagar o muro, um dos princípios defendidos pelo presidente dos Estados Unidos.

Fica fora desses planos, segundo os textos, o programa criado por Obama para proteger os dreamers, como são chamados os menores escolarizados que entraram nos EUA sem documentos. Um sistema que permitiu a outorga de licença de trabalho para 750.000 imigrantes e com o qual o próprio Trump reconheceu, em tom melodramático, que seria complicado acabar.

“A situação desses menores é muito difícil para mim, muito… Porque eu gosto de todas essas crianças; eu mesmo tenho filhos e netos, e acho muito, muito difícil fazer nesse caso o que a lei determina. E todos sabem que a legislação é muito dura”, disse o presidente na semana passada.
Juan Martinez

“Merkel tem sangue nas mãos”

Cerca de mil alemães protestam em frente à sede do Governo federal, acusando a chanceler de responsabilidade pelo atentado em Berlim

Cartaz do partido AfD pedindo a renúncia de Merkel, em frente à Chancelaria, em Berlim.
Cartaz do partido AfD pedindo a renúncia de Merkel, em frente à Chancelaria, em Berlim. MARKUS SCHREIBER AP

De um lado, o gabinete onde Angela Merkel despacha. Do outro, cerca de mil alemães indignados com a chanceler da Alemanha. Sentem que o atentado da última segunda-feira em Berlim lhes dá a razão.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Os riscos sobre os quais advertiram por tanto tempo finalmente chegaram ao coração do país. E a grande responsável, pensa a esmagadora maioria entre estes manifestantes, é a mulher que permitiu a entrada na Alemanha de centenas de milhares de imigrantes muçulmanos.

“É triste que tenhamos precisado passar por algo assim para que muita gente se dê conta. Mas acredito que agora vão prestar mais atenção em nós. Um país que não protege suas fronteiras não pode ser um país em paz”, diz o aposentado Peter, que não revela seu sobrenome ao jornalista.

Os organizadores da concentração realizada na tarde de quarta-feira em frente à sede da Chancelaria diziam que o objetivo era homenagear as vítimas atropeladas na segunda-feira por um caminhão numa feira de Natal na parte ocidental da capital alemã, num ataque que deixou 12 mortos e dezenas de feridos. As velas nas mãos de alguns participantes podiam sugerir uma vigília como outra qualquer.

Mas a mensagem política é evidente. Por todo lado há cartazes de “Fora Merkel” e “Proteja as fronteiras”. Aqui ninguém estranha que líderes ultradireitistas de meia Europa tenham responsabilizado a chefa do Executivo alemão por esse ataque jihadista. “Claro. Ela tem as mãos manchadas de sangue”, diz Daniel, que também se nega a informar seu sobrenome e prefere abreviar ao máximo a conversa.

Os jornalistas não são os profissionais mais queridos por aqui. “Talvez não seja a única culpada, mas certamente é cúmplice”, observa Stephan Schmidt, que trabalha como assessor do partido xenófobo Alternativa para a Alemanha (AfD).

A crise dos refugiados dividiu a sociedade alemã em três grupos: os que se manifestam a favor da integração; os que defendem o fechamento de fronteiras e expulsões em massa; e uma grande maioria que fica num meio termo.

Uma cena reflete com perfeição essa polarização crescente. “Perpetradores de cadáveres”, grita um homem, do outro lado do cordão policial, aos manifestantes anti-Merkel, que são, em sua grande maioria, simpatizantes da AfD. “Protetor de terroristas”, responde outro, que porta a bandeira vermelha com uma cruz amarela e preta, símbolo dos militares alemães que atentaram contra Hitler em 1944 e que foi adotada nos últimos anos por manifestantes de movimentos ultraconservadores.

O protesto, que teve o apoio de líderes relevantes da AfD, não foi um sucesso. O partido, que aspira a ser decisivo depois das eleições do ano que vem, só consegue mobilizar cerca de mil cidadãos numa cidade de 3,5 milhões de habitantes.

O frio de quase zero grau não ajuda. Muitos dos manifestantes ouvidos procedem de Dresden, a cidade da antiga Alemanha Oriental que é o berço do movimento islamofóbico Pegida e capital da Saxônia, Estado líder em ataques contra centros de refugiados. “Sim, venho de Dresden, o centro da resistência patriótica”, responde, orgulhoso, o aposentado Peter.
ElPais

Reino Unido anuncia muro para barrar migrantes em Calais

Construção de barreira de quatro metros de altura no norte da França faz parte de pacote de segurança firmado entre Londres e Paris. Cidade francesa abriga milhares de migrantes que esperam cruzar o Canal da Mancha.

Em Calais, migrantes tentam se esconder em caminhões para atravessar o Canal da Mancha em direção ao Reino UnidoMigrantes tentam se esconder em caminhões para atravessar o Canal da Mancha em direção ao Reino Unido

O Reino Unido afirmou nesta quarta-feira (07/09) que terá início neste mês a construção de um muro ao longo da estrada de acesso ao porto de Calais, no norte da França, para impedir que migrantes atravessem o Canal da Mancha.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A barreira de concreto deve ter quatro metros de altura e ser erguida em ambos os lados de um trecho da estrada com um quilômetro de extensão.

A medida faz parte de um pacote de segurança de 23 milhões de dólares acordado entre Londres e Paris em março.

Segundo o ministro do Interior britânico, Robert Goodwill, a obra deve começar “em breve”. “Nós fizemos a cerca e agora vamos erguer o muro”, afirmou.

“Selva de Calais” com os dias contados

Milhares de migrantes que vivem no acampamento ilegal no norte da França, a maioria do Oriente Médio e do norte da África, tentam diariamente entrar em caminhões ou trens para atravessar o Canal da Mancha em direção ao Reino Unido.

Muitos vivem num acampamento improvisado e superlotado conhecido como “Selva de Calais”.

Na semana passada, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, prometeu remover completamente o acampamento.

Apesar de repetidas promessas de ministros franceses de evacuar o local, a “Selva” ainda abriga em torno de 7 mil pessoas.

As autoridades já reforçaram a presença policial na região e instalaram cercas de arame farpado para impedir que os migrantes cheguem aos trens que trafegam no Eurotúnel, ao porto e à estrada.

Em desespero, migrantes tentam formas cada vez mais perigosas de atravessar o Canal da Mancha.

Segundo a ONG Albergue dos Migrantes, ao menos 11 pessoas morreram neste ano, sete deles nas ferrovias.

Nesta segunda-feira, caminhoneiros, agricultores e empresários locais bloquearam uma importante rodovia na região de Calais, em protesto contra as tentativas dos migrantes de se esconderem nos caminhões para atravessar o Canal da Mancha.

KG/ap/rtr

Votação a favor do ‘Brexit’ anima os xenófobos europeus

A francesa Le Pen, o holandês Wilders e o italiano Salvini reagem com euforia.

Marine Le Pen, nesta sexta-feira. AFP

Se existem ganhadores claros da vitória do não britânico à União Europeia são os partidos da extrema direita europeia. A eclosão do ceticismo europeu britânico ocorre em um momento de profundo desencanto e renovados sentimentos nacionalistas no Velho Continente que as forças xenófobas souberam explorar com eficiência.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

MAIS INFORMAÇÕES

O júbilo dos radicais se traduziu desde o começo da manhã de sexta-feira em exigências concretas. “A Liberdade venceu”, publicou no Twitter Marine Le Pen, presidenta da Frente Nacional francesa. “Como peço há anos, agora é preciso convocar um plebiscito na França e nos outros países da UE”.

O holandês Geert Wilders pediu a mesma coisa, o político de cabeleira oxigenada que lidera as pesquisas de seu país com um projeto político abertamente anti-imigração. “Queremos ser donos de nosso próprio país, de nosso dinheiro, nossas fronteiras e nossa política imigratória”, disse em um comunicado.

“Nós holandeses precisamos ter a oportunidade de expressar nossa opinião sobre nossa permanência na UE o quanto antes”, acrescentou agitando o fantasma do chamado Nexit, uma hipotética saída da Holanda do bloco comunitário que hoje se mostra mais possível do que nunca. Os dois países são membros fundadores da União.

Na Itália, Matteo Salvini, da Liga Norte, felicitou “os cidadãos livres” que não sucumbiram “à chantagem, às mentiras e às ameaças”.

Wilders é junto com Le Pen a grande referência dos partidos xenófobos bem-sucedidos na Europa continental e que mostram uma crescente coordenação e assertividade, conscientes de que o vento sopra a seu favor.

O Brexit é o grande suporte a seu ideal, cuja espinha dorsal é composta pela xenofobia, o recuo identitário, o binômio povo-elite e o protecionismo econômico. Ou seja, a recusa de tudo o que venha de fora de suas fronteiras, com as políticas europeias na cabeceira.

A crise econômica, os refugiados, o islã… vale tudo para transformar Bruxelas no perfeito bode expiatório. O Brexit é o ponto de inflexão que esperam há anos e agora acreditam que será o início do fim do projeto europeu. São respaldados por milhões de eleitores aborrecidos com a UE.

Os holandeses expressaram claramente sua ira no começo do ano, no plebiscito contra o acordo de associação da UE com a Ucrânia vencido por larga margem pelos contrários à União. Em 2005, os holandeses já refutaram o projeto de Constituição Europeia, depois rebaixado no formato do Tratado de Lisboa. “Se eu me tornar primeiro-ministro, ocorrerá um plebiscito para deixar a UE”. As eleições estão previstas para o começo de 2017 e Wilders arranca como franco favorito nas pesquisas. O boicote dos outros partidos prejudica, entretanto, suas possibilidades de Governo.

Seis dias antes do plebiscito, os críticos à UE realizaram uma reunião em Viena, batizada de “a primavera dos patriotas”. Era um respaldo aos partidários do Brexit, mas também para demonstrar seu crescente poderio pan-europeu como membros de um grupo na Eurocâmara, de onde destroem por dentro o projeto comunitário. Lá, Le Pen – que será o principal nome da Frente Nacional nas eleições presidenciais em 2017 – defendeu uma Europa por conta própria, que cumpra os desejos e exigência de cada país membro.

O líder da também bem-sucedida ultradireita austríaca, Heinz Christian Strache, enfatizou a democracia direta e a conveniência de se consultar a população sobre seu futuro, tal como os britânicos acabaram de fazer. Disse que a Suíça é seu modelo. Seu partido, o FPÖ, acaba de perder as eleições presidenciais por muito pouco e agora disputa o resultado nos tribunais. O cansaço dos austríacos com o bipartidarismo e a busca de uma identidade que acreditam que corre o risco de se diluir com a chegada de 90.000 asilados ao país, impulsionaram os radicais no país centro-europeu.

O timing do Brexit, como dizem os britânicos para se referir ao momento dos fatos, não poderia ser melhor para os populistas de direita. Sabem que o caldo de cultura é propício para seus interesses e acreditam que os partidos tradicionais e Bruxelas serão incapazes de reagir a tempo e de acordo com as regras. Sentem que seu momento chegou.
Ana Cabajosa/ElPaís

Eleições USA: Trump revela como pretende forçar o México a pagar por muro na fronteira

Pré-candidato republicano diz que pretende cortar fluxo de dinheiro enviado ao México por mexicanos que moram nos EUA.

Trump revela como pretende forçar o México a pagar por muro na fronteira
Medida pode gerar crise com um aliado diplomático crucial para os EUA 

O pré-candidato republicano Donald Trump anunciou que, se for eleito presidente, vai forçar o México a construir um muro na fronteira com os Estados Unidos sob a ameaça de cortar o fluxo de dinheiro que imigrantes mexicanos enviam aos familiares no México.

A medida pode dizimar a economia mexicana e criar uma crise sem precedentes com um aliado diplomático crucial para os EUA.

Em um comunicado de duas páginas enviado ao jornal Washington Post, Trump detalhou, pela primeira vez, seus planos para a criação de uma barreira de 1.600 km na fronteira entre os dois países, uma de suas maiores promessas de campanha ridicularizada por várias lideranças mexicanas antigas e atuais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

No comunicado, intitulado “Obrigando o México a pagar pelo muro”, Trump diz que basearia a medida no Ato Patriota, lei estabelecida após o 11 de setembro para reforçar medidas de segurança antiterrorismo.

Desta forma, ele cortaria parte dos fundos enviados ao México via transferência bancária por mexicanos que moram nos Estados Unidos.

O corte seria suspenso caso o governo mexicano pagasse uma cota única de US$ 5 bilhões aos EUA destinados a construir um muro na fronteira entre os dois países.

“É uma decisão fácil para o México”, diz Trump no comunicado, cujo papel continha seu lema de campanha “Make America Great Again” (Faça a América Grande Novamente).

No comunicado, Trump diz que após a construção do muro, “as transferências voltarão a ser liberadas para entrar no México ano após ano”.

Segundo o banco central mexicano, quase US$ 25 bilhões foram enviados ao México em 2015 por cidadãos do país que moram no exterior.

Em seu comunicado, Trump diz que “a maior parte desta soma é proveniente de imigrantes ilegais”, embora a quantia represente a verba enviada por mexicanos residentes em vários países do mundo, não apenas nos EUA.

O comunicado de Trump é o mais recente esforço do pré-candidato republicano para detalhar suas propostas no momento em que enfrenta duros obstáculos em sua campanha, incluindo a ameaça de perder as primárias republicanas no estado de Wisconsin para o adversário Ted Cruz nesta terça-feira, 5.

Fontes:
The Washington Post-Trump reveals how he would force Mexico to pay for border wall

O ciclo do ódio

Ciclo do ódio,Blog do MesquitaConta-se que Albert Einstein teria dito ser mais fácil desintegrar o átomo do que acabar com os ódios na sociedade.

Basta atentar para os primeiros sete meses de 2015 para lhe dar razão.

Sobre o tráfico de desesperados migrantes para a Europa, comove o relato do sírio Eyas Hasoun, dado ao jornal Corriere della Sera após a morte da sua filha Raghad, de 11 anos.

A menina sofria de diabetes. A esperança do pai era operá-la na Alemanha, onde ambos pretendiam chegar. Viajantes de um barco precário saído da Líbia, destinado ao tráfico de seres humanos e operado por uma das dezenas de organizações criminosas que passaram a deter parte do controle territorial e social do país depois da queda de Muammar Kaddafi, assassinado em 20 de outubro de 2011.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Segundo programado pelos traficantes de seres humanos, o barco chegaria à ilha siciliana de Lampedusa e Hasoun e Raghad fugiriam da Itália para a Alemanha. Pai e filha enferma pretendiam manter a clandestinidade e, para isso, tentariam evitar o obrigatório registro imigratório, medida geradora de proibição de ingresso em país da União Europeia diverso daquele do desembarque.

A esperança de Hasoun virou pó ao cabo da aventura vivida para deixar uma Síria em guerra, evitar as tropas fiéis a Bashar el-Assad e as decapitação por “soldados” fanáticos do Estado Islâmico. Em alto-mar, o traficante no comando da embarcação atirou a mochila de Raghad às águas, embora sabedor de conter toda a medicação necessária a mantê-la viva. Pela falta de insulina, Raghad agonizou e morreu no curso da travessia, sem largar a mão do pai, desesperado e sem alternativas.

Nem essa tragédia conseguiu abrandar a xenofobia europeia, encabeçada por líderes populistas-fascistas, como a francesa Marina Le Pen e o italiano leghista Matteo Salvini. Em cena, na Europa de hoje, duas posturas opostas. De um lado o papa Francisco, que recomenda priorizar o ser humano.

Do outro, o odioso discurso da direita europeia pelo fim da migração continental, e a sustentar o enganoso discurso do “ajudar nas próprias casas, nos seus países”, como se fosse possível dissuadir fugitivos e enviar ajuda do Chifre da África à Guiné Equatorial e aportes à Ásia. Fora isso, até a esfinge de Gizé sabe que dirigentes africanos gostam de embolsar ajuda internacional e manter na miséria os seus povos.

Nesta semana, dois barcos saídos da Líbia, ambos à deriva e um deles a fazer água, emitiram o SOS, captado por portos italianos. Houve pronta ajuda e 700 fugitivos foram salvos. Esse episódio, na esteira da tragédia da menina Raghad, reabre, desta vez com o secretário da CEI (a CNBB da Itália), monsenhor Galantino à frente, a repisar o pensamento do papa Francisco na condenação do ódio aos imigrantes, enquanto a direita europeia, clama contra a “invasão” da Europa. No pobre e falso discurso do “salvar as pessoas nas suas casas e nos seus países”, embarcou Beppe Grillo, ex-cômico, populista e líder do Movimento 5 Estrelas.

A solução possível e realista em face do fenômeno imigratório e do combate ao tráfico e exploração de seres humanos ainda não foi encontrado pela União Europeia. O recente sistema de cotas, pelo qual cada país haveria de receber um número determinado de imigrantes, está à beira da falência pelo simples fato de que chega mais gente do que o planejado. Nada melhor para a direita radical à busca de votos. O ódio assumia uma função cada vez mais decisiva no mundo, ao sabor do preconceito e da intolerância.

Em matéria, pontifica a Alemanha, tão desmemoriada em relação ao seu próprio passado: campeão na liga, o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, de fé luterana, protagonista do episódio do “GreExit”.

E Schäuble até esqueceu ter sido a reconstrução da Alemanha pós-Hitler bancada pelos vencedores da Guerra. Para o ministro, o caso da Grécia continua sendo de simples condomínio. E a condômina da União Europeia que não cumpre as regras e deixa de pagar os débitos sujeita-se ao despejo. Enquanto isso, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, proclama o “erro histórico” do acordo com o Irã.
Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

A intolerância é geral

A intolerância com o que é diverso se espalha como epidemia. A Taba dos Alencares já foi um dia um terreiro mais acolhedor.
O Editor
Intolerância Religiosa,Imigrantes,Islamismo,Fortaleza,Preconceito,Blog do MesquitaVítimas do extremismo. Atentados geram hostilidades contra muçulmanos
Foto: Camila de Almeida/O Povo


Ação extremista do Estado Islâmico cria um ambiente de intolerância e hostilidade contra comunidade religiosa. O POVO apresenta relatos e discute a situação com especialistas.

Na tarde quente de novembro em Fortaleza, três mulheres andam com a cabeça, o colo e o pescoço cobertos. São muçulmanas e vestem o véu (chamado hijab), conforme a religião orienta. “Vamos sair daqui que essas aí são do Afeganistão”, dizem dois homens que passam por elas. Eles riem. Elas não.

As mulheres não discutem. Seguem, apenas. Colocam óculos escuros e tentam abstrair os insultos, ali na região da Maraponga. Uma delas é a síria Motiaa Halabieh, de 40 anos, que vive no Brasil há 25 anos, os últimos seis em Fortaleza.

“Vem dizer na minha cara, seu velho! Anda, fala na cara!”, grita a mulher na sala de espera de um órgão estadual. É o segundo constrangimento em menos de meia hora. Ela conta ter sido chamada de “terrorista” por um homem, em meio à sessão de fotos para O POVO. Acuado, o suposto agressor sai sem dar explicações.
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“Moro há muitos anos no Brasil e nunca tinha passado por isso”, relata Motiaa, com mãos e lábios trêmulos. “Acho que andam ouvindo muita bobagem. Nunca tive problemas antes, não com essa agressividade”, narra. Por 15 anos, ela viveu em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde a comunidade árabe é grande. Agora, ela quer voltar para lá, um lugar com clima mais amigável para islamitas.

O episódio ocorreu na última semana, poucos dias após os atentados na França, no Líbano e na Nigéria, que juntos deixaram mais de duas centenas de mortos. Ainda que esteja a quilômetros do foco dos ataques de extremistas religiosos, que usam o Islã para defender seus ideais, a população não-muçulmana no Brasil anda desconfiada.

O receio se espalha pelo mundo. Na Internet e na política, surgem os que condenam todos que seguem o Islã como se fossem uma legião de fanáticos. Mas o medo justificaria as ofensas?

Para a advogada do Escritório de Direitos Humanos Frei Tito, Luanna Marley, esse tipo de comportamento é considerado discriminação e está passível de punição já que a Constituição Federal garante liberdade religiosa.

“Ainda tem o fato de atribuirem falsamente um crime a alguém que não cometeu. E isto é calúnia. Nosso código penal é bem preciso quanto a este tema”, afirma, sobre os que acusam pessoas de “terrorismo”. Segundo a especialista, a pena para os crimes de xenofobia (discriminação de origem) e intolerância religiosa varia de um a três anos de prisão.

Outras histórias
Convertida há três anos, a cearense Aminah Sales também teve sua cota de discriminação após os atentados. “Já tinha ouvido muito no ônibus, mas depois dos ataques, perto da minha rua passaram no carro e gritaram “terrorista’”, narra. Ela costumava trabalhar como professora, mas decidiu deixar a profissão após ser proibida de usar o véu nas dependências da escola.

O estudante de química Yahya Simões, de 27 anos, conta que tem sido mais difícil achar emprego desde que se converteu e passou a usar vestes islâmicas. “As pessoas não gostam de você parar para fazer oração ou manter a barba longa. Há falta de entendimento e de abertura”, diz. Ele também enfrenta resistência da família que, segundo afirma, não entende sua religião.

Um migrante africano muçulmano, casado com uma brasileira, desistiu de dar entrevista. Segundo ele, a família evangélica da mulher não aceita a união e, portanto, não quer expor a história na mídia.

Nas próximas páginas, são abordadas ações de muçulmanos para tirar a má impressão deixada pelos extremistas. As consequências da intolerância são analisadas por especialistas. E por fim, relatos comparam a situação do Brasil à de países que fazem parte da lista de alvos potenciais dos terroristas.
Fonte: Jornal OPovo

Nova política de fronteiras impede que crianças refugiadas entrem nos EUA para pedir asilo e se reunir com familiares

Impedir as crianças de alcançarem o solo americano libera os EUA da responsabilidade em relação a sua segurança e bem estar; por estarem fora da jurisdição do país, deixam de ser sua responsabilidade.

Com a recente divulgação da polícia americana da fronteira de que o número de crianças migrantes desacompanhadas e capturadas na divisa dos Estados Unidos com o México diminuiu dramaticamente, pode parecer que a crise acabou. A queda de 51% desde o ano passado é significante, certamente, e algumas fontes da imprensa elogiaram os esforços colaborativos do governo americano em resolver o que o presidente Barack Obama chamou de “situação humanitária urgente”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]
Porém, depois de conversar com alguns jovens migrantes desacompanhados nos centros de detenção de imigrantes no México neste verão, não estamos convencidos. Na verdade, a “situação humanitária urgente” não está perto de ser resolvida, mas está meramente deslocando-se para o lado sul da divisa, onde crianças continuam a ser presas e deportadas em um ritmo alarmante. Em vez de resolver a “crise na fronteira”, os Estados Unidos decidiram terceirizar o policiamento da imigração para o México.
Encontramos Oswaldo, um hondurenho de 16 anos, num centro de detenção para jovens do México a menos de um quilômetro da fronteira com os Estados Unidos. Como uma equipe de pesquisadores binacionais, estamos conduzindo entrevistas, pesquisas e oficinas participativas em centros de detenção mexicanos para imigrantes, no estado de Tamaulipas, para termos uma melhor compreensão sobre as experiências da juventude com migração, detenção e deportação.

A juventude de Oswaldo foi moldada pela morte, violência e, agora, pela migração; ainda assim a sua linha do tempo não é divergente da de seus companheiros. Muitas de suas linhas também destacam migração, morte e violência como os temas dominantes de suas vidas jovens. Evelin, por exemplo, deixou Honduras porque está grávida de sete meses e o pai de sua filha ameaçou matá-las.

Ela tem 15 anos de idade. Daniela é uma radiante garota de 13 anos que fugiu de El Salvador porque a gangue MS-13, um dos grupos organizados mais notoriamente violentos das região, está agressivamente recrutando-a. Além disso, sua mãe, seu pai e sua irmã de seis anos vivem em Baltimore. Quando perguntamos sobre sua família, ela disse: “Eu só os conheço por fotos”.

Ela gostaria de conhecê-los pessoalmente. César, 9, deixou El Salvador depois que seus pais foram mortos e sua avó foi diagnosticada com câncer terminal. Ele estava viajando para a fronteira dos Estados Unidos com seu primo de 11 anos quando foi pego. César acreditou estar em detenção porque “não há ninguém que me ame”.

Se estas histórias soam semelhantes, é porque são. Assim como as crianças migrantes da chamada onda de migração que houve na fronteira no verão passado, menores de idade da América Central continuam a fugir da violência excepcional e da pobreza conforme migram para o norte com o objetivo de reunir-se às suas mães, seus pais e membros da família estendida nos Estados Unidos.

Obama determina que EUA recebam pelo menos 10 mil refugiados sírios no próximo ano

Ainda que a crise na América Central não esteja perto de terminar, a situação mudou para estas crianças. Ao longo do último ano, tornou-se cada vez mais difícil chegar ao solo americano. Não importa que estas crianças tenham casos convincentes para asilo ou para reencontrarem suas famílias, tem sido negada a elas até mesmo a chance de chegar à fronteira para apresentarem seus casos aos policiais americanos.

Isso ocorre porque, em junho do ano passado, o presidente Obama encontrou-se com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, para desenvolver um plano de segurança imigratória colaborativo, fortalecendo o policiamento imigratório mexicano. Em julho de 2014, o México implantou o programa Frontera Sur, uma estratégia abrangente para aumentar a segurança fronteiriça, especialmente nos estados do sul do México.

Para apoiar o policiamento imigratório mexicano intensificado, os Estados Unidos doaram milhões de dólares em equipamentos móveis de segurança e vigilância, assim como equipamento de comunicação, treinamento e apoio.

Os trens também aceleraram. Num esforço para deter os migrantes, as companhias ferroviárias comprometeram-se a triplicar a velocidade dos trens. Não precisamos soletrar o que isso significa para as crianças dispostas a encarar riscos enormes para alcançar os Estados Unidos.

Como um impedimento além, agora há fileiras de pilares de concreto ao longo das áreas populares para o embarque, prevenindo os migrantes de correr ao lado dos trens para tentarem pegar carona. Ainda mais ameaçador, guardas armados ficam em cima dos vagões para procurar possíveis migrantes. A Polícia Federal, junto com agentes de imigração mexicanos, também patrulham os trens, prendendo ou, em alguns casos, extorquindo qualquer um que não tiver os documentos legais.


Em agosto do ano passado, o senador Henry Cuellar denunciou que crianças estariam sendo mantidas em “gaiolas” na fronteira – Agência Efe

Para evitar a captura, alguns migrantes estão escolhendo rotas cada vez mais remotas e possivelmente mais arriscadas. Assim como aconteceu com a operação Gatekeeper (guardião do portão, em tradução livre) nos Estados Unidos, quando o aumento da fortificação na fronteira empurrou as pessoas mais e mais para os desertos e as montanhas onde encaram riscos maiores de morte e exposição, o programa Frontera Sur está empurrando os centro-americanos mais e mais para as regiões mais complicadas do México.

Algumas das crianças com as quais conversamos disseram que andaram por horas para evitar os cada vez mais numerosos postos de segurança. Elas disseram que caminharam por montanhas e atravessaram desertos, geralmente andando sem água ou sem comida. Quando perguntamos a Oswaldo se ele teve qualquer ajuda em sua viagem, ele respondeu enfaticamente que não, ele não recebeu ajuda de ninguém.

Mas, apesar da maior fortificação da fronteira e do aumento do policiamento imigratório através do programa Frontera Sur, algumas crianças conseguem atravessar a fronteira norte do México. A maior parte desses jovens vem de famílias que podem pegar dinheiro emprestado para pagar um guia, ou um coiote, para levar suas crianças através da fronteira.

Quanto maior o preço, mais rápida e mais confortável é a viagem. De fato, alguns chegam a pagar 10 mil dólares por criança, um preço que geralmente inclui diversas tentativas de atravessar a divisa. Viagem de ônibus, van e carro são as mais populares, apesar de algumas crianças, como Scarlet e Ysis, ainda serem colocadas em caminhões de carga.

Scarlet e Ysis, hondurenhas de 15 e 16 anos de idade, descreveram sua viagem para a fronteira dos Estados Unidos com o México em detalhes. Apesar de não ter sido difícil cruzar a borda entre México e Guatemala, elas disseram que o número de postos imigratórios aumentava ao longo de sua viagem para o norte em direção ao estado de Chiapas.

Ter dinheiro definitivamente ajudou em seu deslocamento. Apesar de terem subornado a Polícia Federal nas duas primeiras paradas, o coiote disse para escaparem dando uma volta ao redor do terceiro posto a pé. Quando elas foram encontradas por agentes imigratórios, tiveram sorte: apesar dos agentes exigirem suborno, Scarlet e Ysis disseram-lhes que estavam com pouco dinheiro. Por algum motivo, os agentes deixaram-nas passar só com as palavras “Vayan com Dios” – vão com Deus.

Mas, infelizmente, elas não andaram muito antes de cruzar outro posto da Polícia Federal, logo depois. Houve mais suborno. O próximo posto foi na Cidade do México. Mais dinheiro para outras mãos. Na próxima perna da jornada, elas viajaram nos fundos de um caminhão com um grande grupo de migrantes por todo um dia (sem comida e nem água).

Quando chegaram perto de Reynosa, andaram por entre arbustos de cactus para fugir do que seria o último posto antes de cruzarem a fronteira do México com os Estados Unidos. No fim, quase que do lado da divisa, Scarlet e Ysis foram pegas pela polícia estadual, federal e imigratória em uma grande ofensiva antimigratória. A extensão total da viagem de Scarlet e Ysis foi de quase 3 mil quilômetros.

Assim como Scarlet e Ysis, a maioria dos jovens com os quais falamos reportaram o pagamento de suborno atrás de suborno à Polícia Federal e, em alguns casos, aos agentes de imigração para passarem pelos postos de segurança ao longo de suas viagens ao norte. Ainda assim, seus subornos pararam de funcionar assim que chegaram a quilômetros da fronteira do México com os Estados Unidos. Com a exceção de alguns casos, a maioria foi capturada em ônibus noturnos.

Alguns expressaram profundo pesar ao dizerem que simplesmente não tinham dinheiro suficiente para subornar os agentes imigratórios. O comentário de Oswaldo foi, talvez, o mais esclarecedor. Ele disse que os agentes imigratórios riram do suborno oferecido por ele, respondendo-lhe: “Os gringos pagam-nos para capturar você”.

Depois de pegos, os jovens da América Central são presos em centros de detenção do governo para menores de idade migrantes, enquanto as autoridades imigratórias mexicanas iniciam os procedimentos de deportação. Agora, o México detém mais migrantes da América Central do que os Estados Unidos.

Os números recentes revelam que, enquanto os Estados Unidos detiveram 70.226 migrantes “não-mexicanos” (a maioria da Guatemala, Honduras e El Salvador), o México aprisionou 92.889 centro-americanos entre outubro de 2014 e abril de 2015. Esta é uma inversão dramática em relação aos anos anteriores, graças à pressão dos Estados Unidos sobre o México.

As condições em alguns centros são melhores do que em outros. Originalmente estabelecidos pelas agências de serviço social mexicano para atender às necessidades da juventude vivendo na área da fronteira, os centros de detenção para crianças migrantes descompanhadas são desenhados para serem administrados como albergues. Alguns possuem programas direcionados à juventude e serviços, como arte e conselho psicológico.

Outros não oferecem muita coisa. Num dos abrigos que visitamos, as crianças nunca tinham permissão para ir à área externa e eram confinadas em apenas dois cômodos por meses. De acordo com os funcionários do abrigo, as razões para essa forma extrema de detenção é a segurança. De fato, observamos evidências de atividade criminal organizada do lado de fora das instalações em mais de um dos locais.

Para aqueles que estão em locais sem programas voltados à juventude, o tempo na detenção pode ser bem dormente. E a detenção sem nenhum tipo de serviço social ou psicológico pode ser extremamente danosa para crianças que acabaram de sofrer traumas antes ou durante a migração.

Alguns dos menores entrevistados estavam na detenção há semanas e enfrentavam, mental, emocional e psicologicamente, poucas opções para ocupar seu tempo além da televisão. Também precisavam lidar com o fato que, no fim das contas, retornariam para as situações que tentaram muito deixar para trás. Ao final, todas as crianças perfiladas nesta reportagem foram deportadas do México.

Num dos centros de detenção, conduzimos uma oficina com jovens entre 13 e 17 anos na qual lhes pedimos para listarem os riscos que encararão depois de serem deportados de volta para casa. Trabalhamos com seis garotas e cinco meninos de Honduras e El Salvador. Três grupos pequenos montaram a seguinte lista de riscos compilados:

Um grupo de três meninos também escreveu que podem ser mortos por seus inimigos ao voltarem para casa ou, ao voltarem, podem descobrir que um de seus parentes foi morto. O grupo de quatro meninas – o único grupo só de mulheres – incluiu estupro em sua lista.

Estes são graves riscos para os quais retornar e, infelizmente, seus medos não são infundados. Na verdade, no fim de julho, um hondurenho de 14 anos foi morto três dias depois de sua deportação do México. O centro de repatriação El Eden, em Tegucigalpa, deixou-o na casa da sua mãe mais cedo no mesmo dia; às 11h45 da noite, dois homens encapuzados arrombaram a porta para atirar diversas vezes em Gredys Alexander.

Também perguntamos ao jovens o que planejavam fazer depois da deportação. Enquanto muitos disseram que ficariam felizes em ver alguns de seus amigos e familiares outra vez, 78% contaram que pretendem fazer as malas para voltar aos Estados Unidos/México quase que imediatamente.

Na verdade, alguns dos que conhecemos já estavam na segunda ou terceira tentativa de cruzar a fronteira. Em entrevistas e nas oficinas, muitos jovens insistiram que vão continuar tentando chegar ao solo americano para pedir asilo ou obter status de imigrante legal, não importam os riscos no caminho. Para essas crianças, os perigos em casa são muito maiores.

Oswaldo explicou o impulso para continuar seguindo para o norte: “Olha, você passa vários dias sofrendo com fome, congelando, morrendo de sede. Mas você está tão animado em ir para o norte. Não importa que você esteja sofrendo com o frio, fome, nada importa.

Você está animado, você está indo para os Estados Unidos!” Essas são crianças, muitas das quais não veem suas mães e seus pais há anos, muitas das quais sofreram tragédias terríveis, e muitas das quais estão, talvez, fatalmente otimistas de que suas vidas melhorarão exponencialmente quando chegarem em solo norte-americano.

Outras, cansadas e desencorajadas, resignaram-se aos riscos de ficar em casa e encarar a violência da qual fugiram. O salvadorenho Yoshua, de 17 anos, explicou que, depois de ficar na detenção, “eu não tenho vontade de tentar de novo. E se eles [as gangues] me matarem lá, pelo menos morrerei em meu país”.

Em junho de 2014, quando o presidente Obama falou sobre esta “situação humanitária urgente”, ele disse que os Estados Unidos estavam comprometidos a “cumprir nossas obrigações legais e morais para garantir que cuidemos de forma apropriada das crianças desacompanhadas que capturamos”. Mas no último ano, os Estados Unidos conseguiram terceirizar o policiamento da imigração ao México para manter crianças migrantes fora do solo americano.

A grande maioria das crianças da América Central detidas com as quais conversamos em Tamaulipas descreveram temores fundados de perseguição que poderiam torná-las elegíveis ao status de refugiadas sob a Convenção de Refugiados dos Estados Unidos. Mas, por causa do elevada fiscalização imigratória no México, apoiada pelos Estados Unidos, muitas dessas crianças não conseguem chegar ao país para pedir asilo ou requerer status de imigrante legal.

Impedir as crianças migrantes de alcançarem o solo americano libera os Estados Unidos da responsabilidade em relação a sua segurança e bem estar, mesmo que sua situação continue precária. Eles estão fora da jurisdição dos Estados Unidos, então não são mais sua preocupação.

As crianças migrantes poderiam tentar pedir asilo político ao México, mas, na prática, fazer isso é complicado. Para começar, os casos de asilo levam tempo para serem processados, e os jovens devem esperar em detenção até que seus casos sejam resolvidos, o que é uma dificuldade significativa. Também são poucas as aprovações.

De acordo com dados recentemente divulgados pela COMAR (Comissão Mexicana de Ajuda aos Refugiados), apenas 21% dos requerentes receberam asilo em 2014. Os jovens nos contaram sobre crianças que ficaram na detenção por meses esperando as audiências para a concessão de asilo, para simplesmente serem negadas e, então, deportadas. Scarlet deixou Honduras porque seu ex-namorado, membro de uma gangue, tentou sequestrá-la.

Ela explicou: “Tenho medo de voltar para casa, mas não queria dizer nada [aos agentes imigratórios]… Eu não gosto daqui. Prefiro estar com a minha família”. Em vez de arriscar uma longa detenção, com uma pequena chance de realmente ganhar asilo, muitos jovens escolhem deportação imediata para que possam viajar rapidamente de volta à fronteira americana.

Ao terceirizar o policiamento da imigração ao México, os Estados Unidos podem ter “resolvido” a crise urgente da administração pública na fronteira, mas a “situação humanitária urgente” continua. Os Estados Unidos não podem ignorar a sua cumplicidade na crise migratória da América Central.

Através de décadas de intervenção econômica e política na região, os Estados Unidos contribuíram para uma vasta desigualdade que moldou todos os aspectos das vidas das crianças da América Central. Ao mesmo tempo, o consumo de drogas nos Estados Unidos estimula e financia grande parte do crime organizado e da violência na região.

A detenção das crianças não é uma solução efetiva para os jovens que fogem de situações desesperadoras, ao contrário, apenas serve para traumatizar ainda mais a juventude. Além disso, deportar menores de idade para situações inseguras não pode ser considerado um sucesso. Fazer isso apenas os leva à ciclos de migrações repetitivas ou, ainda pior, às mãos de seus tormentadores.

Recentemente, ao delegar a fiscalização para o México, os Estados Unidos estão fechando os olhos para as milhares de crianças que buscam asilo e continuam a fugir da violência em Honduras, El Salvador e Guatemala. Isso não faz nada para abordar as raízes dos problemas de migração, e levanta sérias preocupações sobre os direitos e o bem-estar das crianças refugiadas.

Tradução: Jessica Grant
Texto publicado originalmente pela Revista Nacla

Quando os refugiados da Europa construíram o mundo

Brick Lane é uma rua do leste de Londres, famosa por seus restaurantes bengalis, que pouco a pouco vai sendo tomada peloshipsters.

No número 59 está amesquita Jamme Masjid. Esse edifício de ladrilhos vermelhos resume a complexa, dura e rica história dos movimentos de refugiados da Europa.

<<= Mesquita de Brick Lane, em Londres. / HEMIS.FR 

Esse mesmo lugar foi fundado em 1743 como templo protestante por huguenotes, calvinistas franceses, que fugiam da perseguição de Luís XIV.

Em 1898, transformou-se na grande sinagoga de Spitafields: os judeus escapavam dos pogroms na Rússia e Polônia e chegavam à Inglaterra em um ritmo de quase seis barcos por dia.

Brick Lane, perto do porto de Londres, era o lugar indicado para encontrar um trabalho duro e mal pago, mas um trabalho, afinal.

Quando os judeus prosperaram, chegaram os bengalis que fugiam da violência étnica. Compraram o edifício e o transformaram em mesquita em 1975.

Agora domina o aroma de curry e os tours que seguem os rastros de Jack, o Estripador, que agia nesses sórdidos rincões de Londres. Os pesquisadores Ian Goldin, Geoffrey Cameron e Meera Balarajan descrevem em Exceptional people. How migration shaped our world and will define our future (Pessoas excepcionais. Como a imigração moldou nosso mundo e definirá nosso futuro, em tradução livre), publicado em 2011 pela Universidade de Princeton, a origem desta migração —“o anti-semitismo crescente no Leste da Europa”— e também a contribuição dos refugiados para a história do Reino Unido.

“Ainda que em princípio muitos tenham sofrido discriminações e punições, entre os indivíduos que fugiram havia pessoas que se tornaram ícones do establishment britânico, como Michael Marks (o fundador da Marks and Spencer) e o banqueiro Samuel Montague”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Quando a Europa se vê diante da maior onda de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, em meio a demonstrações de solidariedade emocionante e de egoísmo indignante, é interessante lembrar o gigantesco papel que os refugiados desempenharam na construção de nosso mundo.

“As populações se movem constantemente, devido à guerra, aos desastres, à fome, à pobreza; alguns são refugiados políticos, outros viajam de uma parte do país para outra, como aconteceu nos EUA, do sul para o norte”, afirma Herbert J. Gans, professor da Universidade de Colúmbia e autor nos anos sessenta de um estudo sobre ítalo-americanos que se tornou um clássico, The Urban Villagers. O próprio Gans nasceu na Alemanha no seio de uma família judaica que teve de fugir para os EUA em 1938.

 MAIS INFORMAÇÕES

Os exemplos são infinitos: centenas de milhares de húngaros fugiram de seu país em 1956 durante a invasão soviética, entre 2 e 3 milhões de pessoas saíram da Rússia depois da Revolução de Outubro. Os pesquisadores de Princeton estimam em 60 milhões o número de europeus que viajaram para a América entre 1820 e 1920.

Desastres como a Grande Fome da Batata na Irlanda do século XIX ou os conflitos do séculos XX colocaram milhões de pessoas na estrada: aguerra civil espanhola, os enormes movimentos populacionais depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os 3 milhões de vietnamitas e cambojanos que escaparam no genocídio nos anos sessenta, os 1,2 milhões de bósnios…

A pesquisadora francesa Catherine Wihtol de Wenden, autora do Atlas das migrações, explica que apenas o retorno dos alemães étnicos a partir de 1945 movimentou 12 milhões de seres humanos. “A diferença do que acontece agora é que na época ninguém acreditava que voltaria, porque ninguém pensava na desaparição do bloco comunista. Agora a maioria tem a intenção de voltar, de voltar a sua vida quando aguerra na Síria acabar”, explica a professora de Ciências Políticas.

O argentino José Emilio Burucúa, historiador do Renascimento, escreveu um maravilhoso livro sobre pessoas que atravessam mundos em uma longa fuga, Enciclopedia B-S, o relato da história de sua própria família e da de sua mulher. “É inimaginável a sociedade argentina sem as imigrações do final do século XIX e início do XX”, explica, de Buenos Aires.

“Enquanto italianos e espanhóis fugiam das más condições econômicas, os judeus da Polônia, Rússia ou Bessarábia e os sírio-libaneses chegavam a nosso país fugidos dos pogroms, das guerras coloniais e dos conflitos suscitados pelo fim do Império otomano. As contribuições demográficas e culturais dessas pessoas foram um fator decisivo para que a Argentina se transformasse em uma nação moderna”.

Na fachada da mesquita de Brick Lane ainda se mantém um relógio de sol de seus primeiros construtores com uma citação de uma ode de Horácio, “Umbra Sumus”. O verso completo diz “Somos sombras e pó”. Certamente os calvinistas que procuraram refúgio perto do Tâmisa não sabiam que aquele edifício e aquelas palavras se tornariam a metáfora da interminável fuga do ser humano que nos transformou no que somos.
El País