Economia. 35 milhões saem da pobreza no Brasil

Mais de 35 milhões saíram da pobreza, mas concentração de renda persiste

Mais de 35 milhões de pessoas ultrapassaram a faixa da pobreza no Brasil nos últimos 40 anos. O milagre econômico da década de 70, o aumento do nível educacional, o fim da inflação, os programas de transferência de renda e a valorização do mínimo fizeram a parcela de pobres baixar dos inacreditáveis 68,4% da população em 1970, com 61,1 milhões de pobres, para 14,1% nos dias atuais. Mas esse número poderia ser bem menor se não fosse a persistência da verdadeira chaga da sociedade brasileira: a extrema desigualdade de renda.

O modelo de crescimento dos anos 70, patrocinado pelo governo militar, aumentou a concentração de renda, e a hiperinflação cobrou dos mais pobres um imposto alto. Resultado: no século XXI ainda estamos correndo atrás dos indicadores de igualdade da década de 60. O Índice de Gini (quanto mais perto de zero, mais igualitário é o país), um dos principais medidores de desigualdade, mostra isso. Em 2009, a taxa estava em 0,543, ainda acima do índice de 0,537 encontrado em 1960.

Esse será um dos temas abordados no seminário “Cenários e Perspectivas para o Brasil”, realizado nesta segunda-feira no auditório do GLOBO, em comemoração aos 40 anos do caderno de Economia do jornal. O evento, que tem o patrocínio da CNI, será aberto pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e os governadores do Rio e de Minas Gerais, Sérgio Cabral e Aécio Neves. No encontro, haverá debates com economistas e empresários.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Em seu estudo sobre pobreza desde 1970, a economista Sonia Rocha, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), mostra que o aumento da desigualdade na década pôde ser constatado pela distância entre a renda dos não-pobres e dos pobres. Em 1970, a renda dos mais ricos equivalia a 2,83 vezes a dos pobres. Em 1980 sobe para 5,2 vezes. “Se o crescimento da renda tivesse sido neutro do ponto de vista distributivo, teria sido possível obter uma redução ainda mais acentuada da pobreza”, diz o estudo.

País mais inclusivo nos anos 80

Ana Saboia, chefe da Divisão de Indicadores Sociais do IBGE, lembra ainda o papel da queda da fecundidade, que mudou o perfil sócio-demográfico:

– Com a população crescendo mais devagar, as políticas de redução da pobreza e da desigualdade tornaram-se mais efetivas.

A desigualdade regional também se mantém elevada. O Nordeste, que tinha 90% da população abaixo da linha de pobreza, consegue reduzir o contingente para 28,3% em 2002. No entanto, a participação da região entre os pobres se mantém em 39% desde 70.

Segundo estudo do economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), a distribuição de renda está mais equânime hoje do que em 1970, medida pelo Índice de Gini:

– Houve crescimento forte da economia, mas não se investiu em educação. A demanda por profissionais mais preparados aumentou com a expansão econômica, e a diferença entre os rendimentos cresceu. Foi o efeito colateral negativo do milagre, desde os anos 60.

O economista Marcelo Medeiros, que foi coordenador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no Centro Internacional de Pobreza da ONU, afirma que somente no fim dos anos 80 o país começou verdadeiramente a se preocupar com os grupos mais pobres, com o marco da Constituição Cidadã de 1988:

– Houve a universalização do sistema educacional, de saúde e de acesso à energia elétrica. Melhorou muito também a infraestrutura de transporte. Houve um movimento claro do Estado, que ficou mais ativo para os pobres.

Mesmo com os ganhos na qualidade de vida dos brasileiros, a mobilidade social ainda é muito baixa no Brasil, de acordo com Medeiros.

– A chance de uma pessoa que vem de família pobre sair da pobreza ainda é pequena.

Ele cita os ganhos com a democracia. Foi possível, com o fim da ditadura, cobrar melhorias:

– E isso não foi o trabalho de um governo, mas de milhares de prefeitos e governadores também.

Para o sociólogo do Iuperj, Adalberto Cardoso, que acabou de concluir livro sobre a concentração de renda no Brasil, a desigualdade se mantém a mesma há 200 anos:

– O Brasil é assim há 200 anos. E a concentração é maior no topo da pirâmide de renda. Se tirássemos os 20% mais ricos, teríamos um Índice de Gini sueco, o país mais igualitário. Tirando os 10% mais ricos, o Gini seria europeu.

É fácil perceber isso nas estatísticas. Enquanto o 1% mais rico, que está em 560 mil domicílios, detém 12,5% da renda familiar, os 50% mais pobres, que representam 28 milhões de domicílios, ficam com só um pouquinho mais: 14,7% do bolo.

Nordeste, o retrato da desigualdade

Isso fica mais flagrante no Nordeste. De um lado, centros de tecnologias avançadas, como o Porto Digital, que oferecem soluções em informática para as maiores empresas de telecomunicações do mundo. Do outro, as sedes do poder, inclusive da prefeitura. No meio, a comunidade do Pilar é o retrato da desigualdade que separa bairros sofisticados como o de Boa Viagem (na Zona Sul) da favela do Rato, como é mais conhecida a Comunidade do Pilar. É nessa favela que mora Mariluce de Vasconcelos. Desempregada, só teve carteira assinada uma vez na vida e, foi há 15 anos. Desde então, vive de biscates. Tem oito filhos e netos. Dinheiro fixo, só o do Bolsa Família: R$ 102 mensais, que complementa fazendo faxinas.

– O máximo que consigo são dois trabalhos por mês, com diária entre R$ 30 e R$ 40.

Ela mora numa construção improvisada com madeiras velhas, sem água e sem banheiro. A exemplo dos irmãos sertanejos – que andam da roça até açudes distantes em busca de água -, Mariluce perde uma hora por dia abastecendo a casa. Lata na cabeça, vai até um cano quebrado que serve a toda comunidade. Luz vem de uma ligação clandestina. De acordo com um levantamento da prefeitura, na comunidade de Mariluce, 62% dos moradores vivem com menos de um salário mínimo, e a taxa de analfabetismo supera 23%.

Cássia Almeida e Letícia Lins – O Globo

Metade dos gastos de Dilma vai para programas sociais

Com o impulso do reajuste do salário mínimo e da reformulação do Bolsa Família, os programas sociais de transferência de renda alcançaram peso inédito no gasto público e na economia do país.

Recursos pagos diretamente a famílias representaram mais da metade –exatos 50,4%– das despesas do governo federal no ano passado, excluídos da conta os encargos da dívida pública.

Dados recém-apurados da execução orçamentária mostram que o montante chegou a R$ 405,2 bilhões, distribuídos entre o regime geral de previdência, o amparo ao trabalhador e a assistência.

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[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Trata-se de 9,2% do Produto Interno Bruto, ou seja, de todos os valores recebidos pela população e pelas empresas instaladas no país.

São proporções sem paralelo entre países emergentes, o que ajuda a explicar a também anômala carga de impostos brasileira, na casa de 35% da renda nacional.

Na maior parte das economias latino-americanas e asiáticas, a arrecadação dos governos varia entre 20% e 25% do PIB –apenas recentemente, a Argentina chegou aos patamares do Brasil.

A carga tributária dos dois sul-americanos é similar à média de 34 países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que reúne, na sua maior parte, nações desenvolvidas.

O aparato de seguridade social no Brasil é encabeçado pela previdência social urbana, cuja clientela cresce ano a ano em linha com o aumento da expectativa de vida da população.

As despesas recordes do ano passado foram alimentadas pelo aumento do salário mínimo de 7,5% acima da inflação, o maior desde o ano eleitoral de 2006.

Além das aposentadorias e pensões, os benefícios trabalhistas e assistenciais de caráter universal –direitos de todos os que preencherem os requisitos da legislação– também têm o piso salarial como referência.

Estão nessa lista o seguro-desemprego, o abono salarial e a assistência obrigatória a idosos e deficientes de baixa renda, todos com aumento de transferências em 2012.

O abono salarial cresce ainda com a formalização da mão de obra, uma vez que trabalhadores sem carteira não têm direito ao benefício.

Na quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou taxa de desemprego de 5,5% em 2012, a menor da série histórica anual iniciada em 2003.

Já no caso do seguro-desemprego, foi editado decreto destinado a conter o aumento de gastos, com a exigência de curso profissionalizante para os trabalhadores que ingressam pela terceira vez no programa.

Bolsa Família

A expansão mais aguda de despesas se dá no Bolsa Família, que paga benefícios não vinculados ao salário mínimo a uma clientela cadastrada pelo governo entre famílias pobres e miseráveis.

Principal marca da administração petista, o programa passou, na gestão de Dilma Rousseff, pela maior reformulação desde que foi criado há quase uma década.

Os benefícios foram reajustados e passaram a ser calculados para que as famílias com filhos possam ultrapassar a linha da miséria, fixada em R$ 70 mensais por pessoa.

Em consequência, a despesa com a clientela de 13,9 milhões de famílias saltou de R$ 13,6 bilhões, no fim do governo Lula, para R$ 20,5 bilhões no ano passado.

Editoria de Arte/Folhapress

Gustavo Patu, de Brasília/Folha de S.Paulo
Colaborou Gitânio Fortes, de São Paulo

Oito estados concentram 77,8% das riquezas nacionais

Fica cada vez mais patente a necessidade de um pacto federativo.

Por que será que o potencial da região amazônica não entra nessa estatística? As riquezas concentradas na região superam em muito o pré-sal.

Dados irrefutáveis mostram a imensa quantidade de minérios que temos no Pará, Amazonas e Amapá. Naquela região há minerais,líquidos, plantas, folhas, madeiras e muitas outras riquezas exploradíssimas pelos ladrões do Brasil.

Se é para dividir royalties para os estados produtores, como se discute agora, por que não discutir o quanto que o Pará (e a região amazônica como um todo)é rico?

O general Augusto Heleno, quando comandou a Amazônia, disse que a política brasileira para a região era um caos.
Foi afastado!

José Mesquita – Editor


Oito estados concentram 77,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2010, informa o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Apesar do aumento da participação das regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste no PIB, os estados da região Sudeste continuam concentrando mais da metade (55,4%) das riquezas do país.

“Acredito que mudar os cinco primeiros estados no ranking do PIB é muito difícil porque a diferença para os colocados seguintes é muito grande”, disse o gerente de Contas Nacionais do IBGE, Frederico Cunha, sobre a estrutura do PIB nacional em 2010.

De acordo com dados divulgados hoje pelo IBGE, os estados com maior participação percentual no PIB do país são São Paulo (33,1%), Rio de Janeiro (10,8%), Minas Gerais (9,3%), Rio Grande do Sul (6,7%), Paraná (5,8%), Bahia (4,1%), Santa Catarina (4%) e Distrito Federal (4%).

Já os estados com menor participação se concentram no Norte e Nordeste. São eles, Rio Grande do Norte (0,9%), Paraíba (0,8%), Alagoas (0,7%), Sergipe (0,6%), Rondônia (0,6%), Piauí (0,6%), Tocantins (0,5%), Acre (0,2%), Amapá (0,2%) e, por fim, Roraima (0,2%). Os nove estados restantes somam 16,9% do PIB, com participações que variam entre 2,6% e 1,2%.
Isabela Vieira/Agência Brasil

Eleições 2012: pesquisas e metodologia

Depois de tantos furos e erros sucessivos, eleição após eleição, a gente acaba chegando à conclusão de que as pesquisas eleitorais se originam de três vertentes:

1-    São compradas pelo político patrocinador interessado na pesquisa;

2-    São favoráveis à linha política do(s) pesquisador(es), que escamoteiam os dados;

3-    São resultado de metodologias suspeitas ou errôneas;

Presume-se que todas as pesquisas colham a intenção de voto diretamente com os eleitores, em entrevistas individuais. Existem, porém, métodos diferentes para escolher quem e onde entrevistar.

O mais utilizado hoje no Brasil é o chamado método de cotas, adotado por três dos principais institutos de pesquisa de opinião do país: Ibope, Vox Populi e Sensus.

No Ibope, inicialmente, são feitos dois sorteios. O primeiro seleciona os municípios que comporão a amostra. O segundo elege setores censitários (unidade usada pelo IBGE, que corresponde a bairros ou regiões de, em média, 1 100 habitantes).[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Com esses dados em mãos, os entrevistadores saem pelas ruas com a obrigação de cumprir cotas proporcionais a sexo, idade e escolaridade dos eleitores.

Segundo uma diretora do Ibope, em São Paulo “o que importa não é o tamanho da amostra e sim sua representatividade: todos os grupos sociais e regiões geográficas devem aparecer em proporção próxima à da população pesquisada”. Só que as distorções nas pesquisas do Ibope falam por si; alguma coisa deve estar muito errada nesta metodologia.

Já o instituto Datafolha prefere a “pesquisa por fluxo de ponto”, em que os entrevistadores passam horas num local de grande movimento de pedestres. Esse é o método mais rápido, porque não exige visitas a endereços específicos, mas requer um número maior de entrevistas.

Aqui já dá para desconfiar: o patrocinador classe A da pesquisa, por exemplo, em São Paulo, manda os pesquisadores estacionarem na frente do Shopping Center Iguatemi e o candidato popular Classe D manda estacionar na frente da favela de Heliópolis. A metodologia estaria correta, mas os resultados…

Para montar o universo a ser pesquisado, o Datafolha utiliza informações sobre eleitores, obtidas do Tribunal Superior Eleitoral e dados sobre sexo e faixa etária com base no IBGE. O Datafolha não leva em conta, porém, dados sobre escolaridade ou renda familiar mensal.

Já o Vox Populi usa dados censitários do IBGE e realiza um roteiro aleatório para escolha dos domicílios. O Ibope, por sua vez, seleciona probabilisticamente os municípios e leva em conta variáveis como sexo, idade, grau de escolaridade e dependência econômica.

A ordem das perguntas também distingue a forma como os entrevistados são abordados. Para não influenciar as respostas, o Datafolha evita perguntas que estimulem nomes de candidatos, partidos ou avaliações de governo antes das questões sobre em quem o eleitor pretende votar.

Já outros institutos têm como método técnicas para “esquentar” o entrevistado – caso do Ibope, que faz as chamadas perguntas “quebra-gelo” para introduzir o entrevistado ao assunto (no caso, as eleições).

Há empresas que optam em perguntar sobre a situação do País antes de aplicar os questionários da pesquisa. É comum entre institutos perguntas referentes ao grau de conhecimento sobre os candidatos citados nos formulários.

Donde se depreende que o melhor mesmo para o eleitor é ignorar os números das pesquisas, juntar o máximo de informações sobre os candidatos, tentar colocar a razão acima da emoção e no dia das eleições apertar o botão do candidato que mais se aproxime do seu modo de pensar, da sua linha ética e das suas convicções políticas.

E depois ficar rezando para que a urna eletrônica não esteja viciada, como naqueles jogos eletrônicos que a polícia anda recolhendo por todo o país.

Entre pesquisas eleitorais e urnas eletrônicas, há muito mais mistérios e artimanhas do que nossa vã imaginação possa alcançar.
do blog  bahr-baridades

Economia: Classe C troca geladeira por TV a cabo e poupança

Pode ser que seja mesmo um ranzinza e esteja sempre na contramão do oba-oba. Mas não me parece compatível com o que estudei de economia e sociologia, chamar de classe média o assalariado que ganha a porcaria de um salário mínimo e meio por mês.
Esse ‘novo’ consumidor, acredito, em breve estará trocando as delícias do consumo pelo inferno do Serasa.
José Mesquita – Editor


Após sucessivos estímulos do governo para baratear o preço de geladeiras, fogões, máquinas de lavar roupas – a chamada linha branca – e aumentar o consumo, esses produtos vêm deixando a lista de prioridades da nova classe média, mais disposta a poupar ou gastar com TV a cabo, telefonia e educação.

A renovação da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) foi uma das primeiras medidas anunciadas para tentar impulsionar a indústria e melhorar o desempenho da economia, considerado fraco neste ano.

Como esse instrumento vem sendo usado pelo governo desde 2009, sua eficácia começa a ser questionada.

Apesar de afirmarem que ainda há espaço para o consumo, especialistas creem que o ritmo de crescimento das vendas tende a ser menor, mesmo com incentivo fiscal.

Levantamentos do Data Popular, instituto com foco na nova classe média, público-alvo da medida, mostram que serviços – o que inclui o conserto de eletrodomésticos – representam a maior parte dos gastos das famílias.

O item “serviços”, que representava 49,5% dos gastos efetuados em 2002 por esse público, já responde por 65%, segundo a pesquisa do Data Popular, de setembro de 2011.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O trabalho, que indica também que as despesas com a compra de produtos caíram de 50,5% para 34,8% no período, é baseado em projeções feitas a partir do cruzamento de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), ambas do IBGE.

Para especialistas, não há dúvidas de que a nova classe média continua consumindo, mas o perfil está gradualmente mudando, pois a prioridade mudou. “Quem comprou uma TV nova quer TV a cabo; a máquina precisa de manutenção”, diz Renato Meirelles, dono do Data Popular.

Para o professor Luiz Alberto Machado, do Conselho Federal de Economia, o impacto inicial da redução do IPI foi absorvido e o nível elevado do emprego está garantindo renda para consumir.

“Ainda há espaço a ser explorado, mas o crescimento marginal desse consumo tende a ser cada vez menor.”

Professor de economia da UnB (Universidade de Brasília), João Carlos de Oliveira diz que a redução do IPI não terá impacto “para a vida toda”. Ele argumenta que o sucesso da medida também depende da oferta de crédito.

POUPANÇA

Recebendo R$ 800 mensais como diarista, Neide Batista de Moraes, 32, de Águas Lindas de Goiás, comprou um micro-ondas e uma TV nova recentemente.

Ainda quer trocar a geladeira, “que está bem velha, soltando os pedaços”. Mas, se recebesse dinheiro extra, diz que pouparia para comprar à vista.

“As lojas falam em redução de imposto, mas nem sempre vejo isso”, diz. “Anunciam a geladeira como se estivesse com preço menor, mas acompanho e o preço não mudou.

Com dinheiro na mão, tenho como negociar melhor.”
SHEILA D’AMORIM/FLÁVIA FOREQUE/Folha.com

Brasil. Economia: a consolidação da classe média

Uma economia impulsionada principalmente pelo consumo da classe média, um país dispondo da maior força de trabalho de sua história, mas também um país com uma população mais velha, mais rica e mais exigente, que consumirá novos produtos e serviços, de melhor qualidade, e demandará maior assistência do sistema de seguridade social.

Este deverá ser o Brasil em 2020, de acordo com projeções baseadas na mudança dos padrões demográficos observada nos últimos anos e na evolução das condições sociais e econômicas da população constatadas por diferentes estudos e estatísticas oficiais.

Será um país com oportunidades mais amplas para as famílias e para as empresas, mas que exigirá do Estado decisões e soluções mais rápidas e eficazes para problemas que já causam preocupação e que poderão se tornar mais prementes, como o financiamento do sistema de previdência social.

Este Brasil do futuro próximo foi desenhado pelo estudo A evolução da classe média e o seu impacto no varejo, elaborado pela equipe técnica da Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio), com base em trabalhos do IBGE como a Pesquisa de Orçamentos Familiares, a Pesquisa Anual do Comércio, o Censo Demográfico e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A consolidação de uma classe média numerosa, pujante e com maior nível de renda e mais acesso ao crédito é uma das grandes transformações socioeconômicas do País nos últimos anos – contrastando nitidamente com a tendência de redução desse segmento social do início da década de 1980 até meados da década seguinte – e que deverá, segundo o estudo da Fecomércio, se manter daqui para a frente, para moldar um novo mercado interno, estabelecer novos padrões de gosto e de qualidade para os bens e serviços e, por seu alto poder de consumo, determinar o ritmo do progresso do País.

Os próximos dez anos constituirão um período de mudanças estruturais significativas na sociedade brasileira, em razão de um novo padrão demográfico que já se vislumbra e da manutenção dos avanços sociais e econômicos registrados no passado recente.

A expectativa de vida do brasileiro, que era de 70,48 anos em 2000, alcançou 73,17 anos em 2009, e continuará a aumentar. Por isso, a Fecomércio projeta que os brasileiros com mais de 60 anos, que eram 18 milhões em 2010, serão 22 milhões em 2015 e 26 milhões em 2020. O envelhecimento da população afeta diretamente as contas da previdência e, por isso, o estudo adverte que “temos de chegar a um denominador comum que seja funcional e viável”, para atender ao aumento mais rápido do número de aposentados do que o de trabalhadores da ativa.

Do ponto de vista da renda, o estudo prevê que, em 2020, as classes A (renda familiar mensal acima de R$ 11 mil), B (renda entre R$ 7 mil e R$ 11 mil) e C (renda de R$ 1,4 mil a R$ 7 mil), que hoje representam 49% das famílias, serão 61% do total. Isso tornará o Brasil um dos maiores mercados de consumo e uma das maiores economias do mundo. O consumidor brasileiro, diz a Fecomércio, “que já evolui do consumo básico para um patamar mais sofisticado, vai demandar cada vez mais serviços e produtos de qualidade”.

E que bens e serviços esse consumidor desejará adquirir? Entre os bens de consumo, a Fecomércio supõe que a demanda será por artigos de grande valor agregado, como equipamentos para o lar, automóveis e acessórios pessoais. Entre os serviços, os novos gostos serão determinados pela rápida evolução da tecnologia, que permitirá maior fluxo de dados e imagens pela internet e a ampliação da cobertura de serviços como de telefonia e televisão por cabo e fibras ópticas.

Se o País – governantes, empreendedores e a sociedade em geral – souber se preparar adequadamente para essas transformações, que continuarão intensas, mas são previsíveis, elas não gerarão tantas surpresas quanto geraram as mudanças ocorridas no passado recente.
O Estado de S.Paulo

Tópicos do dia – 23/01/2012

08:47:27
Lamento, mas você foi enganado. A verdade sobre a saúde é outra.
A inverdade do dia na Saúde
por Paulo Moreira Leite ¹

A noticia do dia é que o brasileiro gasta mais com saúde do que o governo. Falso.
Os dados do IBGE informam que se o Estado tem um dispêndio de R$ 645,27 por pessoa, as famílias gastam R$ 835,65 com cada um de seus membros.
Cada centavo que o brasileiro gasta com saúde pode ser deduzido do imposto de renda. Isso vale para plano de saúde, consulta fora do convenio e até remédios. A condição é ter comprovantes para incluir na declaração. Isso quer dizer o seguinte: você gasta hoje e deduz a despesa a amanhã. Quanto mais você gasta, mais diminui seu imposto.

Se você ficar internado num hospital cinco estrelas de São Paulo, assina a cheque na hora de ir embora e deduz na próxima declaração de renda. Idem para o médico fora do convenio que cobra R$ 900 por consulta.
É um sistema que beneficia quem tem mais e pode pagar na frente.
Também prejudica aqueles assalariados que vivem na informalidade e não têm como justificar rendimentos.
A turma de cima que vive no Caixa 2 também não pode abater o que nunca paga mas dessa gente não é preciso sentir pena.

Outra distorção: você paga o médico privado e deduz a receita no IR. Mas sua cirurgia — quando grave e complicada — é feita pelo SUS. Resultado: você deduz o plano no IR e ainda recebe o serviço do Estado.
Na pura contabilidade, é como se tivesse recebido dinheiro para ser operado.
Quem paga a conta?
O Estado brasileiro, que fica sem recursos para investir em escolas, em infraestrutura e na própria saúde pública.
Isso quer dizer que o dinheiro que falta no posto de saúde do seu bairro pode ter voltado, antes, para o bolso de quem ficou internado num hospital muitas estrelas.
¹ Jornalista desde os 17 anos, foi diretor de redação de ÉPOCA e do Diário de S. Paulo. Foi redator chefe da Veja, correspondente em Paris e em Washington.

08:57:36
Nepotismo irrigado. Ministro da integração integra a fazenda da família.
Canal exclusivo leva água até fazenda de irmão do ministro da Integração.
Duas placas, uma apontando a concessão de incentivos fiscais do Ministério da Integração Nacional, e outra, com o nome da empresa UPA – Umbuzeiro Produções Agrícolas Ltda., marcam a entrada da fazenda de propriedade de Caio Coelho, irmão do ministro Fernando Bezerra Coelho, no Perímetro de Irrigação Nilo Coelho. Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, um canal exclusivo de irrigação serve a fazenda de Caio Coelho no local. A propriedade da UPA guarda também uma das 39 estações de bombeamento do maior projeto de irrigação do País, o Nilo Coelho – nome de um tio do ministro da Integração Nacional. O investimento é comandado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), presidida interinamente pelo irmão Clementino Coelho até 12 dias atrás, e subordinada a outro irmão, o ministro.

09:21:44
Ufa!!! Nem tudo é notícia ruim.
Somos uns sortudos! Olhem só que notícia reconfortante:
“A Câmara dos Deputados vai gastar menos com reformas este ano: R$135 milhões. A ONG Contas Abertas apurou que só a ampliação do Anexo IV poderá custar R$95 milhões. O Tribunal de Contas da União reservou R$14 milhões para reformar sua sede em Brasília.”
Perceberam: MENOS R$135 MILHÕES. Ainda bem. Né não?

09:32:02
Areia no Ventilador. Grande oportunidade para fabricantes de lamparinas!
A Justiça do Ceará paralisou a construção da Central Eólica Trairi, sob pena de multa de R$ 500 mil diários, por prejudicar o “pôr do sol” nas dunas da praia de Flecheiras.


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Tópicos do dia – 28/12/2011

08:08:31
Trabalho infantil. É vergonhoso!
Brasil ainda tem 1 milhão de crianças que trabalham.
Apesar dos avanços registrados na década passada, mais de 1 milhão de crianças de 10 a 14 anos, ou 6% do total, ainda trabalhavam no Brasil em 2010.
Tabulações feitas pela Folha no Censo do IBGE mostram que o problema é mais grave no Norte, onde praticamente uma em cada dez crianças exerce atividade econômica remunerada ou não.
Folha de São Paulo

15:03:26
Samba e contravenção.
Neguinho da Beija-Flor lançou um disco com o singelo título de “Menino pobre sonhador”.
O cantor revela ser “uma homenagem a Anísio Abraão David“.
Abaixo um trecho da letra:
“Anísio é simplicidade/Tem dignidade (bis)/Anísio é samba, amor e amizade.”

15:23:03
Justiça no Chile.
Quem disse que por lá só tem terremoto, precisa conhecer o portal da Justiça Chilena.
No endereço www.poderjudicial.cl dá-se um clique no nome de uma província – como são denominados os entes federados no Chile – depois é só escolher uma instância do judiciário e escolher o nome do juiz.
O cidadão verá o nome do juiz, foto e dados sobre seu patrimônio.
Que maravilha viver seria se esse modelo de transparência fosse implantado aqui na Taba dos Tupiniquins.
Né não?


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IBGE mostra aumento de acesso à web no Brasil, mas desigualdade ameaça inclusão

Como fica evidente no texto abaixo, os dados do IBGE se referem ao período entre 2005 e 2008.
Em 2010, o número de internautas, no Brasil, ultrapassou 80 milhões de conectados.
O equivalente à população inteira da Alemanha ou duas vezes a da Argentina!
O Editor


O número de usuários de internet cresceu 75,3% no Brasil entre 2005 e 2008, e boa parte dos novos incluídos na rede pertencia à baixa renda, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados nesta sexta-feira.

A desigualdade social e educacional, no entanto, ainda prejudica a inclusão digital no país.

Mais da metade dos brasileiros tem celular
40% dos estudantes não têm acesso à internet
Acesso à web aumenta 75,3% entre 2005 e 2008

Em 2008, 56,4 milhões de brasileiros com dez anos ou mais acessavam a internet (34,8%), contra 31,9 milhões em 2005.

O aumento no acesso à internet ocorreu tanto entre os homens — de 21,9% em 2005 para 35,8% em 2008 — como entre as mulheres — de 20,1% para 33,9%.

Os jovens são a maioria dos usuários –o maior percentual foi registrado na faixa etária entre os 15 e os 17 anos (62,9%).

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Enquanto isso, o ranking da Internet World Statis coloca o Brasil atrás de países da América do Sul como Argentina (48,9 por cento), Chile (50,4), Uruguai (38,3) e Colômbia (45,3).

“Os avanços de 2005 a 2008 foram fantásticos, mas ainda vivemos uma apagão digital que está ligado aos níveis de educação e distribuição de renda”, afirmou o coordenador de um suplemento da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE.

Na Europa, o nível de acesso atinge 52%; na Oceania, 60,4%; e na América do Norte, 74,2% da população. A média da América Latina ficou em 30,5%, contra 19,4% na Ásia.

Do total de novos usuários no Brasil, 17 milhões ganham até dois salários mínimos per capita ao mês. “O acesso à internet está mais democratizado no Brasil”, disse o coordenador da pesquisa, Cimar Pereira Azeredo.

De acordo com o IBGE, 40% dos estudantes brasileiros não tinham acesso à internet no ano passado. Segundo pesquisadores do instituto, o dado impressiona porque a rede é usada com foco no estudo por 90% dos estudantes.

Acessos

A maioria dos usuários (83,2%) acessou a internet em 2008 para se comunicar com outras pessoas. Os dados apontam uma mudança no uso da web, que, em 2005 era acessada, principalmente, para fins educacionais e de aprendizado.

De acordo com o instituto, também aumentaram os acessos para atividades de lazer. Além disso, 48,6% das pessoas acessaram a internet para ler jornais e revistas.

Segundo o IBGE, no entanto, o país ainda tinha no ano passado 104 milhões de pessoas que não acessavam a internet, mas o contingente diminuiu em relação a 2005, quando eram 120,3 milhões de brasileiros sem acesso à web. Entre os motivos apresentados estão: não achavam necessário ou não queriam (32,8%), não sabiam utilizar a web (31,6%) e não tinham acesso a computador (30,0%).

Os maiores percentuais de usuários de internet estão na região Sudeste (40,3%), Centro-Oeste (39,4%) e Sul (38,7%), já nas regiões Norte (27,5%) e Nordeste (25,1%) têm os menores percentuais. A pesquisa aponta ainda que no Norte e Nordeste, os centros públicos de acesso pago lideraram a navegação entre pessoas com acesso à internet em diferentes lugares. No Norte a porcentagem chegou a 56,3%, enquanto no Nordeste chegou a 52,9%. Nessas regiões, o uso da web residencial ficou em 34,1% e 40%, respectivamente.

LAN houses

Nas regiões consideradas mais pobres do país, o acesso ganhou velocidade, de acordo com a pesquisa. Na região Norte, o total de usuários passou de 12% para 27,5% da população com dez anos ou mais de estudo. No Nordeste, passou de 11,9% para 25,1%.

“Vários fatores explicam o maior acesso entre os mais pobres. O acesso está mais barato e as LAN houses estão mais espalhadas pelo país. Além disso, a renda do brasileiro e a escolaridade aumentaram em reação a 2005”, disse o coordenador do IBGE.

A pesquisa mostra que as residências superam locais de trabalho no acesso à web no Brasil. Em 2008, 51,7% dos internautas do país acessaram a rede mundial de computadores de casa e 35,2% a partir de LAN houses, contra 49,9% e 21,9% em 2005, respectivamente. Nas regiões mais ricas do Brasil, os percentuais de acesso são bem mais elevados. como na região Sudeste, em que o índice foi de 40,3%.

“O Brasil tem uma das piores distribuições de renda no mundo e não é novidade que essa diferença social tenha reflexo também no acesso à internet. A desigualdade de renda é um empecilho para um maior acesso”, disse Azeredo.

Rendimento

O levantamento revelou que as pessoas que apresentaram os mais altos rendimentos médios mensais per capita de R$ 1.900 foram as que acessaram à internet para fazer compras e pagar contas. Já as pessoas de renda baixa (cerca de R$ 1.000) entram para se comunicar com outros internautas e para lazer.

Ainda de acordo com a pesquisa, o rendimento per capta das pessoas que acessaram a web no trabalho foi de R$ 1.523, enquanto o dos internautas domésticos ficou em R$ 1.336 (os mais elevados). Os menores rendimentos per capta foram os dos usuários de centros públicos de acesso gratuito (R$ 825) e de LAN houses (R$ 536).
Reuters/Folha Online

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Reservas indígenas chegam a 13% do território, mas não reduzem conflitos

De 2006 a 2010, o governo concluiu os processos demarcatórios de 35 terras indígenas no País e entregou aos índios um total de 8,9 milhões de hectares. No mesmo período, a Fundação Nacional do Índio (Funai) oficializou e pôs em andamento um conjunto de processos fundiários que pode acrescentar outros 3 milhões de hectares, o que elevaria as reservas a 13% do território nacional. Apesar disso, os conflitos da questão fundiária indígena aumentaram nesses cinco anos, revela um estudo que será lançado hoje.

Segundo informa a publicação Povos Indígenas no Brasil 2006-2010, o que se viu nos últimos cinco anos foi o agravamento das tensões e conflitos. Na maior parte das vezes, os problemas se devem à disputa pelo controle da terra com posseiros e fazendeiros. Mas também envolvem garimpo ilegal, avanço descontrolado de madeireiras e carvoarias e até tráfico de drogas. Há casos descritos pelo estudo em que há apoio ostensivo de líderes indígenas para a invasão das reservas, cooptados financeiramente por esses grupos.

Tudo isso é agravado pelo desenvolvimento econômico do País. Grandes projetos de hidrelétricas, de novas rodovias e no setor do agronegócio estão em andamento na Amazônia Legal, onde se concentram 98,6% das terras indígenas do País.

As terras homologadas e que se encontram em processo demarcatório atendem a boa parte das reivindicações dos 235 povos indígenas identificados no País. Fazem parte das 35 áreas com processo demarcatório concluído – equivalentes à soma dos Estados do Rio e do Espírito Santo – a emblemática Raposa Serra do Sol, em Roraima, com 1,7 milhão de hectares, cuja disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF); e a , que se destaca pela extensão: 4 milhões de hectares distribuídos entre Roraima, Amazonas e Pará. Se os demais 3 milhões de hectares forem agregados às terras indígenas, a área protegida passará de 108 milhões para 111 milhões de hectares, o equivalente a 13% do território brasileiro.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Casos críticos. Embora tenham significativa área demarcada, isso nem sempre garante proteção aos povos indígenas. Há regiões onde os índios não conseguem tomar posse das terras que, legalmente, pertencem a eles. Um exemplo é o dos índios guajás, no Maranhão: eles estão sendo obrigados a conviver com quase uma dezena de povoados, habitados por posseiros e espalhados pelos 116,5 mil hectares da terra Auá, que foi homologada e entregue àquele grupo indígena em 2005.

Em Mato Grosso, na região de São Félix do Araguaia, os xavantes enfrentam situação mais difícil. Após tomarem posse da área de 165 mil hectares entregue a eles em 1998, foram expulsos por criadores de gado e produtores de soja e agora tentam reaver o território. Por enquanto, conseguiram reocupar apenas 10% da área.

A publicação a ser lançada hoje foi planejada pela organização não governamental Instituto Socioambiental (ISA). É editada a cada cinco anos e conta com recursos provenientes do exterior. São citados como apoiadores a Embaixada da Noruega e a Cafod, agência católica de desenvolvimento, mantida com recursos do Reino Unido. Com 778 páginas, 166 artigos, uma seleção de notícias publicadas em jornais, fotos e mapas, oferece uma visão geral sobre a situação dos 817 mil índios que vivem no País, segundo dados do IBGE.

Fiscalização. Uma das constatações preocupantes envolve a terra ianomâmi, com 9,5 milhões de hectares, entre Roraima e Amazonas, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Segundo a antropóloga Fany Ricardo, coordenadora da publicação, a crise internacional provocou a valorização do ouro e, no rastro dela, uma incontrolável onda de invasões do garimpo ilegal na região. “Pelo fato de não dispor de estradas nem de muitos rios navegáveis, é uma terra difícil de fiscalizar”, explica a antropóloga.

Ainda segundo Fany, para conquistar apoio dos ianomâmis, garimpeiros distribuem armas de fogo entre os diferentes subgrupos indígenas da região. “Isso potencializa as tradicionais disputas que existem entre eles. Já se constatou que o número de mortos nesses conflitos aumentou.”

Na terra do Vale do Javari, com 8,5 milhões de hectares, na fronteira do Amazonas com o Peru, o maior problema é a precariedade dos serviços de saúde, que facilita o avanço de uma hiperepidemia de hepatites B e D entre os índios. Em algumas aldeias, foram constatados índices de até 14% da população afetada, segundo análise do Centro de Trabalho Indigenista incluída na publicação. O índice aceitável pela Organização Mundial de Saúde é de 2%.

“O Vale continua sendo palco de uma das maiores tragédias de assistência à saúde indígena no Brasil”, diz a análise. Seus autores também observam que o drama não decorre da falta de verbas, mas sim de esquemas de corrupção e desvio de dinheiro público, de interesses políticos locais e da falta de gestão competente dos recursos.

Roldão Arruda/O Estado de S. Paulo