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Milícia no Rio de Janeiro: como é a vida em Rio das Pedras, bairro dos suspeitos da morte de Marielle

Rio de janeiro,Milícia,polícia,Violência,Crimes,Homicídio,Marielle,Blog do MesquitaDireito de imagem AFP
Rio das Pedras foi uma das primeiras áreas da cidade a ser controlada por milícias

Quando deixou sua cidade no Nordeste, ainda jovem, rumo ao Rio de Janeiro, Zélia (nome fictício) sabia da fama de perigosa que a cidade carregava, mas tinha ouvido falar que o lugar onde se instalaria, Rio das Pedras, perto da Barra da Tijuca, na zona oeste, era mais calmo.

Sua fama de “favela tranquila” não se deve à ausência de violência, mas à imposição de certa ordem pela força e pelo medo, não do tráfico, mas da milícia, grupo armado violento formado por integrantes e ex-integrantes de forças de segurança do Estado, como policiais, bombeiros e agentes penitenciários.

Apesar de ser a terceira maior favela da cidade, atrás de Rocinha e Maré, Rio das Pedras não costumava frequentar o noticiário nacional como as outras duas, marcadas por disputas entre facções criminosas e entre criminosos e policiais.

Nos últimos meses, no entanto, Rio das Pedras vem se tornando mais conhecida. Em janeiro, o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio prenderam lideranças de uma milícia que atua ali, no bairro vizinho de Muzema e adjacências.

Investigações mostraram que Rio das Pedras é a sede do chamado Escritório do Crime, suposto grupo de extermínio formado por policiais reformados ou na ativa que pode ter sido responsável pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, que aconteceu em março de 2018 e até hoje, 11 meses depois, não foi esclarecido.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
A população de Rio das Pedras cresceu atraída pelas oportunidades que surgiam na região da Barra da Tijuca, bairro próximo

A polícia encontrou imagens que mostram o carro usado pelos assassinos passando por um via que margeia a favela.

Outro motivo que fez país voltar o olhar para o lugar é por sua aparente conexão com o poder. Segundo o jornal O Globo, Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) – filho do presidente Jair Bolsonaro – ficou abrigado ali após vir à tona que ele fora citado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) devido a uma movimentação atípica de valores em sua conta.

Em 2005, o filho do presidente homenageou o policial suspeito de integrar a milícia, Adriano Magalhães da Nóbrega, entregando a ele a medalha Tiradentes, uma honraria concedida pelo Estado do Rio a pessoas que prestaram bons serviços públicos. Alvo da operação policial deflagrada em janeiro, Nóbrega está foragido.

Como é morar em Rio das Pedras hoje

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Hoje é a terceira maior favela do Rio, segundo estimativa da Prefeitura com base no IBGE de 2010. Tem 63.484 moradores, boa parte deles de origem nordestina

Desde 1951, quando começou a ser ocupada, a favela de Rio das Pedras cresceu muito, e rapidamente, acompanhando o desenvolvimento da cidade na zona oeste. Seu nome se deve ao rio que a atravessa, que nasce na floresta e deságua na Lagoa da Tijuca.

No início, era ocupada por pescadores, diz Jorge Jáuregui, arquiteto responsável pelo projeto de urbanização Favela-Bairro, implementado (mas não concluído) na década de 1990.

Sua população, esparsa durante a década de 1960, foi aumentando atraída especialmente pelas oportunidades que surgiam na região da Barra da Tijuca, bairro próximo e que passou por um boom de construção civil nas décadas seguintes. Muita gente veio também de outras favelas, numa época em que o poder público adotava uma política de remoção, segundo dissertação de mestrado em arquitetura pela USP de Izabel Mendes.

Cresceu até se tornar a terceira maior favela do Rio, segundo estimativa da Prefeitura com base no IBGE de 2010. Tem 63.484 habitantes, boa parte deles de origem nordestina. Moradores contam que até hoje há um ônibus que faz semanalmente viagens de e para o Ceará direto do bairro.

A presença nordestina é perceptível em qualquer ponto do bairro, nos sotaques das pessoas, no forró das caixas de som. As ruas são agitadas.

Rio das PedrasDireito de imagem TÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL
‘Os moradores daqui têm uma cultura de trabalho muito forte, e isso faz com que haja muito comércio e muita atividade, 24 horas por dia’, diz uma moradora

Marta (nome fictício) veio de um Estado do Nordeste depois de se casar com um homem que já morava em Rio das Pedras. Célia (também nome fictício) veio ainda adolescente, deixando para trás uma vida de doméstica pela qual ganhava R$ 150 por mês.

Elas e outros moradores com quem a BBC News Brasil conversou dizem que sabem que a região é controlada por milicianos, que isso é comentado em conversas, mas não lidam diretamente com eles e não têm sua vida afetada por suas atividades.

“Às vezes a gente fica sabendo que alguém fez alguma coisa errada – roubou, vendeu droga, algo assim -, e aí essa pessoa some”, diz uma delas.

“Uma vez, era cedo de manhã, vi dois homens numa moto atirarem nos pés de outro homem que estava em pé em frente a um bar. Aqui é assim, eles avisam uma vez, duas vezes, na terceira te pegam”, diz outro morador. “Você leva uma vida tranquila, mas não pode fazer coisas que eles acham ruins. Acostumar, a gente não se acostuma, mas vive um dia após o outro.”

A violência lá é presente, mas mais velada do que em outras favelas, dizem.

“Não tem gente armada na entrada e nas ruas que nem em outros lugares. Se pudesse, me mudaria para um bairro melhor, mas tenho amigos que moram em favelas como a Rocinha e sei que a vida deles é mais difícil. Eles passam noites em claro ouvindo tiroteio, às vezes não sabem se podem sair de casa para o trabalho. Aqui pelo menos não tem isso.”

O que é a milícia e por que Rio das Pedras é considerado seu ‘berço’

Rio das PedrasDireito de imagem NATASHA MONTIER/GOVERNO DO ESTADO DO RIO
Moradores com quem a BBC News Brasil conversou dizem que sabem que a região é controlada por milicianos. ‘É um lugar mais tranquilo, mas às vezes some alguém que fez algo errado’

É comum ouvir que Rio das Pedras é o berço das milícias do Rio. Ainda que não seja possível afirmar isso categoricamente, é consenso entre pesquisadores que esses grupos têm décadas de atuação no bairro. O modelo de poder paralelo, à margem do estado mas com a participação de membros dele, hoje é forte principalmente na zona oeste da capital e na Baixada Fluminense.

“Estes grupos podem ter 20, 30 ou até 40 membros. São pessoas que de alguma forma têm acesso privilegiado a armas e bons contatos na polícia, o que lhes confere proteção. Eles ocupam uma área sob a justificativa de que proporcionarão a segurança que o Estado não é capaz de fornecer, deixam um grupo armado no local e partem para outras áreas para invadi-las”, diz Michel Misse, diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

As milícias têm como objetivo principal o lucro, obtido a princípio pela cobrança da proteção oferecida nestes locais.

“Eles chegam dizendo que trarão a paz, mas isso tem um preço, que é a taxa de segurança imposta a moradores e comerciantes. Quem se opõe, é morto. Depois, as milícias percebem que podem criar um negócio mais amplo e ampliam o portfólio de suas atividades”, explica o sociólogo José Cláudio de Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

O pesquisador diz que atualmente as milícias estão envolvidas na oferta de uma variedade de serviços, como venda de água, gás e cestas de alimentos, transporte clandestino, TV a cabo e internet piratas, roubo e refino de petróleo cru para fabricação de combustível, coleta de lixo e também na apropriação de terras públicas e privadas abandonadas ou sem uso, que são loteadas e vendidas ilegalmente.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
O pesquisador Ignacio Cano diz que as eleições lá acontecem da mesma maneira que em outros territórios controlados por grupos armados: “faz campanha quem eles (milicianos) querem”

No início, esses grupos não eram chamados de milícia, mas de “polícia mineira”.

“Num primeiro momento, surgiram grupos que são protótipos de milícia, associados a ocupações urbanas de terra, liderados por civis. Eles constroem relações com a população e elegem lideranças, sempre matando e fazendo o uso da violência. A partir dos anos 2000, o modelo atual, liderado por pessoas ligadas às forças de segurança, começa a emergir”, diz Alves.

Seguindo linha parecida com a de Alves, o sociólogo Ignacio Cano, que também pesquisou milícias no Rio, diz que o modelo era um pouco diferente do de hoje. “Havia nas polícias mineiras não só forças de segurança mas também líderes comunitários que não eram policiais.” Um exemplo de Rio das Pedras era Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, candidato da associação de moradores eleito vereador em 2004 e assassinado em 2009.

Quando começou a fazer pesquisa em Rio das Pedras, na década de 1990, Cano diz já havia um grupo que controlava o território.

O tipo de atividade era diferente naquela época. “Não ia na linha de pagamento de taxas por serviços, como hoje, era mais um controle imobiliário. Controlavam todas as transações – quem podia construir onde etc. Hoje é um modelo mais invasivo, que lucra a partir de qualquer coisa”, diz Cano.

Esses grupos, diz Cano, impunham medo e criavam certa estabilidade na região. Não deixavam que traficantes de drogas se estabelecessem e eram a principal autoridade local.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Em 2002 e 2003 a associação de moradores fez uma campanha de regularização e transferência de títulos eleitorais dos moradores de Rio das Pedras

“O Nadinho dizia, ‘aqui o povo vem do Nordeste, é um povo ordeiro, que não gosta de tráfico’. Eles impunham ordem, expulsavam o tráfico, diziam o que podia ou não fazer, havia um projeto moral – decidiam se podia ouvir certas letras de música ou não, coisas assim. Diretores de escola, quando não conseguiam ônibus para os alunos, iam falar com a milícia e eles providenciavam. Há depoimentos que mostram que, quando crianças estavam aprontando na escola, chamavam a milícia para mandar uma mensagem.”

Problema crescente

Cano diz que havia também certa condescendência do poder público em relação a esses grupos. “O Cesar Maia (ex-prefeito do Rio) dizia que eram um mal menor.”

Depois que funcionários do jornal O Dia foram torturados por milicianos, essa postura mudou. Entre 2006 e setembro deste ano, 1.709 pessoas foram presas por ligações com milícias, e os milicianos foram obrigados a adotar um perfil mais discreto, diz Cano.

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Entre 1998 e 2002, a Prefeitura implementou, mas não concluiu, projeto de urbanização de Rio das Pedras

Alves acha que o fortalecimento da milícia em Rio das Pedras tem a ver com o acelerado crescimento populacional da favela e a demanda por terras.

“É uma comunidade que se expande muito rápido, tem um mercado imobiliário pujante. A milícia tem acesso ao mapa da região e começa a ver onde pode montar negócios, ocupar o solo urbano, é um grande negócio.”

Rio das PedrasDireito de imagem GABRIEL JÁUREGUI
Políticos foram, por muitos anos, condescendentes com a milícia, dizendo que ela era um ‘mal menor’ do que o tráfico

Segundo o estudo Favelas Sob o Controle das Milícias no Rio de Janeiro, de Alba Zaluar e Isabel Siqueira Conceição, em 2002 e 2003 a associação de moradores fez uma campanha de regularização e transferência de títulos eleitorais dos moradores de Rio das Pedras, já que boa parte deles vinha do Nordeste. A intenção era eleger Nadinho, o que deu certo.

O estudo sugere que teria sido a partir daí que começou “a grande expansão da milícia”. Elas assumiram controle territorial em outros bairros, às vezes tomando-os de traficantes. Também foi a partir de então que entraram de vez para a política – outras favelas dominadas por milícias começaram a eleger representantes para o Legislativo da cidade e do Estado.

Cano diz que as eleições lá acontecem da mesma maneira que em outros territórios controlados por grupos armados: “faz campanha quem eles (milicianos) querem”.

*Colaborou Rafael Barifouse

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Estudos mostram que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível

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Mortes envolvendo armas de fogo são a segunda maior causa de óbitos entre crianças nos EUA

Estudos que devem ser apresentados neste mês em evento da American Academy of Pediatrics, em Orlando, Flórida, vão mostrar que os casos de morte de crianças pelo uso de armas de fogo – corrigidas discrepâncias populacionais, econômicas e sociais – ocorrem duas vezes mais em Estados com legislação mais flexível do que em Estados em que o porte de arma é mais restritivo.

“Nossa principal conclusão é que os Estados com uma legislação mais rígida sobre armas de fogo tiveram menos crianças que morreram por armas de fogo. E as leis que mantêm especificamente as armas fora do alcance crianças também resultaram em menos mortes em geral entre as crianças, principalmente suicídios”, afirmou à BBC News Brasil a médica traumatologista Stephanie Chao, professora e pesquisadora do hospital infantil da Escola de Medicina de Stanford.

“Nossa pesquisa e pesquisas em geral mostram consistentemente que, quando as crianças têm mais acesso a armas de fogo, há taxas mais altas de lesões e morte”, frisou.

“Ações e leis que mantêm as armas longe das crianças, particularmente dentro das casas, estão correlacionadas a menos mortes.”

 

Três pesquisas que serão apresentadas no congresso pediátrico abordaram a questão das armas de fogo. Duas delas, complementares, partiram justamente da hipótese de que haveria uma variação entre o número de lesões infantis causadas por armas conforme as facilidades ou restrições de legislação – nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, são regras estaduais que definem a questão.

O tema da posse e do porte de arma vem sendo discutido nos dois países. Uma das propostas de campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), reforçada nos últimos dias, era revisar o Estatuto do Desarmamento para facilitar a compra de armamento pela população civil.

Crianças hospitalizadas

Um dos estudos analisou todas as admissões hospitalares do país em 2012 e cruzou os dados com o índice Brady, que avalia o rigor da lei de armas por Estado – trata-se de um valor calculado a partir de características que vão da limitação quantitativa à compra de munições a permissão ou não da compra da arma, especificamente.

No ano analisado, 6.941 crianças e adolescentes foram hospitalizados em decorrência de armas de fogo nos Estados Unidos. Desses, 36% dos casos ocorreram em estados da região Sul, onde as leis são mais flexíveis para o assunto, 22% no Oeste, 25% no Centro-Oeste e 17% no Nordeste.

Ilustração mostra dezenas de rostos de pessoas com cores e características diferentesDireito de imagemGETTY IMAGES
Alguns grupos de crianças, condicionadas por fatores como renda e escolaridade, são mais vulneráveis

Quando os pesquisadores aplicaram os ajustes matemáticos e estatísticos para compensar outras variáveis – condições de renda, tamanho da população, nível de escolaridade e taxas de desemprego -, chegaram à conclusão que, em Estados menos restritivos, ocorrem proporcionalmente o dobro de mortes infantis por causa de armas de fogo.

Crianças do sexo masculino, de baixa renda e aquelas de famílias negras ou hispânicas são desproporcionalmente mais afetadas.

“Lesões relacionadas com armas de fogo são a segunda maior causa de morte entre crianças nos Estados Unidos, mas encontramos uma clara discrepância no local onde essas mortes acontecem, o que corresponde à força da legislação estadual sobre armas de fogo”, disse Chao. “A cada ano, mais crianças morrem de lesões relacionadas a armas de fogo do que de câncer e doenças cardíacas combinadas.”

A médica ressalta que “todas e cada uma dessas mortes” seriam evitáveis. “Nosso estudo demonstra que a legislação pode impedir que crianças morram por causa de armas”, conclui.

Para o médico pediatra Jordan Taylor, coautor do estudo, uma melhor compreensão das diferenças regionais nas ocorrências de casos com armas de fogo pode ajudar nos esforços de prevenção de cada lugar – bem como provocar debate acerca das políticas públicas.

Da média anual de 2.715 mortes de crianças por armas de fogo nos Estados Unidos, 62,1% dos casos são de homicídios e 31,4% de suicídios – muitas vezes involuntários.

Diversas armas de fogo sobre mesaDireito de imagemGETTY IMAGES
Pesquisadores alertam que crianças têm dificuldade em diferenciar armas verdadeiras e de brinquedo

Identificação

Outro estudo que vai ser apresentado no mesmo congresso pediátrico nos Estados no início deste mês mostra que crianças e adolescentes têm dificuldade em distinguir uma arma de fogo verdadeira de uma de brinquedo – o que pode aumentar ainda mais o risco de acidentes.

Quando expostas a duas armas lado a lado, uma verdadeira e outra de brinquedo, 41% das crianças e adolescentes de 7 a 17 anos tiveram dificuldades de discernir entre uma e outra. Foram entrevistadas 297 crianças e seus respectivos responsáveis, todas na região sudeste dos Estados Unidos, ao longo de três meses em 2017.

“Uma das descobertas mais dramáticas foi a facilidade com que as crianças podem confundir armas reais com as armas de brinquedo realistas de hoje”, afirma a pediatra Kiesha Fraser Doh, professora e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Emory.

Dos participantes da pesquisa, 25% tinham pelo menos uma arma de fogo em casa. Estes eram mais propensos a permitir que seus filhos tivessem armas de brinquedo – 51% responderam que sim, contra 26% dos adultos que não possuíam armas.

Os pesquisadores perguntaram aos pais se eles achavam que seus filhos eram capazes de conseguir uma arma de verdade. Apenas 5% disseram acreditar que isso pudesse acontecer dentro de 24h. Entretanto, quando as crianças e adolescentes foram submetidas ao mesmo questionamento, 14% dos filhos de pais com arma garantiram que conseguiriam – e 4% dos filhos de pais sem arma.

Dos proprietários de armas de fogo, apenas 34% disseram armazená-la conforme recomendações da American Academy of Pediatrics – ou seja: fechada, descarregada e separada da munição. Crianças que vivem em casas onde há pelo menos uma arma revelaram, em 53% dos casos, que sabiam onde ela ficava guardada – e 45% delas sabiam também onde estava a munição.

“Especialmente considerando que os proprietários de armas pesquisados tinham quase duas vezes mais chances do que os donos de armas de fogo de deixar seus filhos brincar com armas de brinquedo, o armazenamento seguro de armas de fogo em casas onde as crianças brincam é crítico”, avalia Doh.

A execução da vereadora e do seu motorista foi um recado para o xerife do Rio de Janeiro

Por conta da intervenção das Forças Armadas, hoje o Rio de Janeiro é o pedaço do Brasil mais vigiado e guarnecido.

A vereadora virou alvo por defender os interesses dos favelados. (Foto: Mídia Ninja/Creative Commons)

Por que, dentro de um ambiente desses, uma organização criminosa iria fazer um acerto de contas com a vereadora Marielle Franco (PSOL)? Mais ainda: a ação da vereadora, denunciando as arbitrariedades policiais contra os favelados, vem desde 2013. A execução da parlamentar e do seu motorista Anderson Pedro Gomes traz uma mensagem muito clara: alguém está avisando que ainda manda no Rio Janeiro. E esse nome só irá surgir no final dessa investigação. Por conta da pressão popular e do número de agentes disponíveis, equipamentos e informações dos serviços de inteligência, a investigação está caminhando bem. A maneira como foi feita a execução e os vestígios deixados na cena do crime apontam na direção de que os assassinos eram profissionais.

E o estilo da execução lembra os milicianos — gangues de policiais militares que disputam território com os traficantes nas favelas. Há ainda outros dois grupos que usam um estilo semelhante: Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. A favor dessas organizações, existe o fato que, sempre que as Forças Armadas ocupam o Rio de Janeiro, e foram muitas vezes na última década, elas não vão para o enfrentamento porque sabem que a ocupação é por tempo limitado. A briga não vale a pena. Esperam as tropas saírem e voltam aos seus negócios. Tem sido assim nos últimos anos. Portanto, é real a possibilidade de que o grupo que executou a vereadora e o seu motorista ter sido formado apenas para fazer “a parada”, usando o jargão dos matadores de aluguel para definir a situação.

Quem apertou o gatilho a polícia vai descobrir. Nós, repórteres, podemos avançar nos lugares escuros desse episódio em busca de pistas de quem é esse alguém que está mandando o aviso de que ainda manda no Rio de Janeiro. Primeiro, é uma pessoa que sabe o que significa o Rio de Janeiro. Um lugar que, por conta de suas belezas naturais, seus poetas, botecos e o carnaval, é um endereço conhecido no mundo. Qualquer coisa que acontece lá é notícia mundial. A intervenção federal foi noticia ao redor do mundo. Aqui é o seguinte. Até o governo do presidente da República Michel Temer (MDB – SP) decretar intervenção federal no Rio, ele era coadjuvante no combate da violência. A intervenção o tornou o ator principal, ou usando o jargão das redações, puxou a bronca para o seu colo. Quem é o governo Temer? Ele é formado por um grupo político que está envolvido em vários escândalos de corrupção, há vasta documentação na Operação Lava Jato. É um fato importante. Na medida em que o grupo foi se consolidando no poder, ele vai se livrando de antigos aliados que são abandonados à própria sorte. Muitos deles foram presos e estão encarcerados no sistema penitenciário.

A execução da vereadora é um recado muito claro para Temer: ele manda no Brasil, não no Rio de Janeiro. Aqui quero refletir com os meus colegas repórteres calejados e os novatos. Até agora, as execuções do Rio de Janeiro têm seguido um roteiro conhecido. Elas acontecem por vingança, queima de arquivo ou briga por território. O caso da vereadora e do seu motorista tem vestígios do que pode ter acontecido por motivos diferentes. Nos últimos 40 anos, tenho trabalhado com reportagem investigativa e aprendi que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. O certo é que a pouca credibilidade que resta ao governo federal pode ir para o espaço com o caso da vereadora. A intervenção tornou Temer o xerife do Rio de Janeiro, o responsável pela segurança. E também criou a oportunidade para a execução da vereadora que devido ao seu trabalho sempre foi um alvo das gangues infiltradas na polícia militar.

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Carlos Wagner é jornalista, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, entre eles “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017.

Violência no Rio fura maior esquema de segurança da história

Especialistas alertam que o registro de crimes nas áreas das competições é preocupante.

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Matéria publicada nesta quarta-feira (10) pelo jornal alemão Deutsche Welle conta que em apenas cinco dias houve ao menos duas mortes relacionadas a assaltos em áreas estratégicas para os Jogos Olímpicos no Rio: uma durante a cerimônia de abertura, próximo ao Maracanã, e outra na região portuária, perto do Boulevard Olímpico.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Além disso, uma bala perdida atingiu a sala de imprensa do Centro Olímpico de Hipismo, em Deodoro, o ministro da Educação de Portugal foi assaltado em Ipanema e um ônibus oficial da Rio 2016 foi alvo de tiros de baixo calibre quando passava pelo bairro de Curicica, no início da noite desta terça-feira (09/08).

Os incidentes mostram que nem mesmo o maior esquema de segurança da história do país é capaz de conter a violência urbana do Rio. Segundo o governo federal, são pelo menos 88 mil agentes empregados na operação – entre eles 41 mil soldados das Forças Armadas.

Apresentação de tropas do exército que atuarão nos jogos olímpicos Rio 2016
Apresentação de tropas do exército que atuarão nos jogos olímpicos Rio 2016
“É inevitável, esses casos vão acontecer e haverá muito mais até o final da competição. Não há como as forças de segurança impedirem isso, o alcance do policiamento é limitado”, afirma o consultor José Vicente, ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança.

De acordo com a reportagem do Welle, especialistas alertam que o registro de crimes nas áreas das competições é preocupante, mas deve ficar abaixo do considerado normal para a cidade. “A presença maciça das Forças Armadas e de policiais deve diminuir as ocorrências, mas não impede que delitos ocorram nas áreas mais vigiadas”, afirma o antropólogo e analista de segurança pública Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais do Rio (Bope).

Falhas nos preparativos

Os especialistas consideram que o registro de crimes não significa necessariamente uma falha no esquema de segurança e está relacionado sobretudo com problemas estruturais. “Da forma como a violência está no estado do Rio, não adianta colocar mais e mais policiais na rua. Faltou prevenção”, diz o professor de sociologia Dorian Borges, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, os indicadores de violência dispararam no estado. Em junho, os roubos a pedestres subiram mais de 80% em relação ao mesmo mês de 2015. No período, os homicídios dolosos (com intenção de matar) aumentaram cerca de 38%, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP). “O Rio passa por um momento crítico, os índices de violência cresceram às vésperas dos Jogos Olímpicos, quando deveriam estar caindo”, afirma Vicente.

Para Storani, o Rio viveu o seu melhor momento em termos de indicadores de violência, principalmente em redução de homicídios e latrocínios, há três anos. “Houve falha nos preparativos para os Jogos Olímpicos, já que isso deveria ter sido continuado”, diz.

Falta de investimentos

Os especialistas criticam a falta de investimentos no setor e a escassez de efetivo policial. Em junho, o Rio decretou estado de calamidade pública e deixou de pagar o salário de servidores, incluindo policiais.

Para Storani, houve também um esgotamento do modelo das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), que teria se expandido para além das possibilidades do Estado. “Não era sustentável. Todo efetivo que era formado era destinado para as UPPs, e os batalhões que cuidam da área urbana ficaram sem efetivo para o policiamento ostensivo”, diz.

Ele critica também a falta de investimentos sociais nas áreas ocupadas pela polícia. “Teve um resultado positivo no primeiro momento, mas depois deixou de surtir efeito, porque os criminosos retornaram e começaram a promover ataques aos policiais que permaneceram.”

Coordenação e treinamento

Na opinião de Vicente, a organização de longo prazo da segurança dos Jogos deixou muito a desejar. Ele lembra que o Rio recebeu uma série de grandes eventos internacionais, como os Jogos Pan-Americanos, os Jogos Mundiais Militares, a Rio+20, a Copa das Confederações, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa do Mundo, e as autoridades poderiam ter aproveitado essas oportunidades para treinar policiais e integrar os órgãos de segurança.

“Um ano antes de um evento como esse, todos os protocolos e agências da polícia civil, militar e federal deveriam estar coordenados. Precisava ter um banco de dados único, um sistema de inteligência compartilhado com as Forças Armadas”, afirma. “Um mês antes, eles ainda não conversavam entre si. O planejamento final da segurança foi feito em junho”, diz.

Vicente defende que o país deveria ter investido em inteligência e em sistemas de segurança, como softwares de controle e monitoramento do crime e do trabalho policial. “Nada disso aconteceu. E, nos últimos três anos, fizemos uma formação ruim e atropelada de policiais”, afirma.

Borges acrescenta que seria necessário implementar políticas preventivas, de desarmamento e de policiamento estratégico. “Não adianta só ter uma presença ostensiva, o policiamento tem que ser orientado por informações e ser eficiente. A atuação tem sido só repressiva.”

Itália: Deportação de Battisti une políticos de esquerda e direita nas redes sociais

Juíza federal ordenou deportação de Cesare Battisti.

A decisão pela deportação de Cesare Battisti do Brasil, tomada por um tribunal em Brasília, está causando muita polêmica na Itália e inundando as rede sociais com comentários pró e contra expulsão.

Battisti fora condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos que teriam sido cometidos por ele na década de 1970, quando integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC). Ele fugiu para o Brasil em 2004, onde foi preso em 2007.

A Itália pediu sua extradição, que foi concedida pelo Supremo Tribunal Federal. No entanto, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tinha a última palavra no caso, revogou a medida, argumentando que o italiano era alvo de perseguição.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O governo italiano ainda não se pronunciou sobre o assunto, mas a grande maioria das reações, nesta terça-feira, de políticos nas redes é favorável à medida, que acabou unindo oponentes de esquerda e de direita.

Leia mais: Battisti lança livro e diz ter sorte de ter grandes amigos

A líder do partido de direita Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália), Giorgia Meloni, disse via Twitter que o Brasil “ordenou a expulsão de um criminoso e assassino”, e acresce: “O esperamos de braços abertos”.

O vice-presidente do Senado italiano, Mauro Gasparri, do partido de centro-direita Forza Italia, também exultou: “É uma boa notícia”, disse em um post em sua página de Facebook. “Não queremos só a deportação para outro país, mas sim que ele cumpra a pena aqui na Itália.”

Do outro lado do espectro político, Riccardo Nencini, líder do Partido Socialista Italiano, também saudou a decisão com um comentário no Twitter: “Esperamos que isso acabe de uma vez por todas com a ausência injusta de um homicida”.

Outros posts, como por exemplo na página de Facebook do jornal Corriere della Sera, dizem que “os esquerdistas vão organizar marchas de solidariedade” para Battisti, ou que “dentro de uma semana ele estará em liberdade”.

No entanto, Battisti também tem defensores na web. Vários deles mencionam erros e dúvidas relacionados ao julgamento de Battisti; outros veem uma relação entre a deportação de Battisti e a decisão da Justiça italiana de poucas semanas atrás de extraditar ao Brasil o ex-presidente do BB Henrique Pizzolato, que foi condenado por seu envolvimento no caso do mensalão.

Essa teoria é aventada por usuários de redes sociais tanto na Itália como no Brasil. “Quer dizer que um juiz mandou deportar o Cesare Battisti? Alguma relação com Pizzolato ou muita teoria da conspiração?”, pergunta um usuário via Twitter.

E o irônico colunista Tutty Vasques se pergunta de modo jocoso quem vai ser deportado primeiro: Cesare Battisti, Henrique Pizzolato ou Roman Polanski?

Na decisão divulgada nesta terça, a juíza federal de Brasília Adverci Rates Mendes de Abreu concordou com o argumento do Ministério Público Federal, segundo o qual o visto concedido a Battisti é inválido.

Ela determinou que a União deporte o italiano para o México ou a França, países pelo qual ele passou antes de chegar ao Brasil.

O advogado de Cesare Battisti – o qual alega perseguição política na Itália – diz que irá recorrer da decisão.
BBC

Matamos Amarildo

Tropa de Elite

Quando a plateia vibrou com a cena final de Tropa de Elite, ela autorizou a barbárie. Só não percebeu que a escopeta estava voltada para ela.

Quando o Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”, entregou a escopeta nas mãos do Soldado Mathias e determinou a execução do bandido com um balaço no rosto, as salas de cinema do Brasil vibraram como torcida em final de campeonato.
Como em uma arquibancada, houve quem se levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema. O Brasil que pedia direitos humanos para humanos direitos estava vingado.

José Padilha precisou praticamente desenhar, em Tropa de Elite 2, que aquela escopeta estava voltada, na verdade, para o rosto da plateia. Mas a plateia, em sua sanha punitiva, parecia incapaz de refletir e entender que a tortura, os sacos plásticos e a justiça por determinação própria eram a condenação, e não a redenção, de um país de tragédias cotidianas. Nos dois filmes, todos estavam de alguma forma envolvidos na criminalidade – corruptos e corruptores, produtores e consumidores, eleitos e eleitores – mas só alguns iam para o saco de tortura.

As consequências dessa indignação seletiva estavam subentendidas, mas muitos não as captaram: nas camadas superficiais da opinião pública, o apelo a soluções simples é sempre tentador. (Em uma das cenas do segundo filme, Nascimento é aplaudido de pé ao chegar a um restaurante de bacanas após comandar o massacre em um presídio. Padilha mostrava ali que a que violência denunciada em Tropa de Elite não era só caso de policia, mas uma chaga aberta e diariamente cutucada por quem recorre, no discurso ou na ação, a soluções arbitrárias contra um caos legitimado).

É possível que este mesmo Brasil que transformou em heroi um personagem complexo e vacilante como o Capitão Nascimento, personagem interpretado por Wagner Moura, não tenha sequer franzido a testa, na vida real, pelo sumiço do ajudante de pedreiro Amarido de Souza, de 47 anos. Para quem não sabe, Amarildo desapareceu no dia 14 de julho após ser levado para a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Ninguém sabe ninguém viu o que aconteceu desde então (repita-se: em uma unidade PACIFICADORA). Isso porque as câmeras de monitoramento da região, estranhamente, não registraram a movimentação. Segundo um inquérito aberto pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil fluminense (e encaminhado ao Ministério Público do Rio), Amarildo, que era epilético, foi torturado, morto e seu corpo, ocultado. Foram indiciados dez policiais militares lotados à época na UPP, entre eles o ex-comandante da unidade, major Edson dos Santos.

Na Justiça, todos terão direito a se defender, e é bom que assim seja. Direito que o ajudante de pedreiro não chegou a vislumbrar – seu erro fatal, segundo a investigação, foi ter se negado a fornecer informações sobre traficantes do morro, a quem supostamente preparava churrascos. Sua versão da história será sempre um mistério: no método de depoimento informal aplicado supostamente pelos PMs – com direito a choques elétricos, de acordo com o inquérito – a verdade dos fatos é a primeira a morrer sufocada.

Amarildo não foi a primeira e fatalmente não será a última vítima. Nem da violência nem do descaso nem da ignorância. Os aplausos da plateia abobada de Tropa de Elite são reforçados todos os dias, inclusive quando o governador diz: “E daí? Antigamente havia muito mais Amarildos do que hoje”. Tanto Amarildo como o governador não são pontos fora da curva. São uma legião, porque são muitos.

No país das indignações seletivas, a aceitação da tortura é a manifestação inequívoca de um estado de guerra e barbárie permanente no qual a convivência humana é simplesmente inviável. No filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick criou uma alegoria para ilustrar a origem deste estado: quando um grupo de macacos identifica em uma ossada um arsenal de guerra e provoca uma dissidência; com os ossos na mão, passam a agir como base na violência, na coação, na briga pelo território, pelo privilégio, pela dominação de uns pelos outros. É quando os animais se humanizam.

Ao longo dos anos, esta humanidade barbarizada caminhou em direção ao que se chama civilização, em que pese o fato de alguns dos maiores morticínios terem sido praticados nos séculos XX e XXI (a morte por gás sarin não é menos dolorosa que um golpe de machado). Em outros termos, significa que entre um símio e outro há uma regra de conduta, baseada em lei, que impede o uso dessa arma para a imposição da força. Essa lei, em tese, é o que evita o aniquilamento humano.

Inevitavelmente, esta cortina frágil é rasgada todos os dias por quem não consegue identificar a humanidade no outro. Voltamos um pouco ao estágio pré-civilizatório toda vez que testemunhamos um crime motivado por ciúmes, por território, por controle, por motivo fútil, por necessidade. Mas, em vez de distribuir ossos e oficializar o aniquilamento, optamos por criar o Estado, a legalidade e armamos a polícia, a detentora do monopólio legítimo da violência. Mais do que ninguém, ela é a força responsável por impedir que os símios espalhados pelo mundo ajam conforme seus instintos – e sejam punidos em casos de infração. Tem as armas para isso.

Quando aplaudimos a tortura policial, no entanto, a mensagem passada aos nossos supostos guardiões é que esta arma pode ser usada como bem entenderem. É como se a plateia exultante de Tropa de Elite, iguais aos macacos de 2001, dissesse: “danem-se as leis, somos todos neandertais”.

O apelo à tortura como consequência da segurança é, portanto, a confissão e a aceitação de uma incapacidade ancestral. Em vez de segurança, o que ela produz é pânico: aceitamos que a polícia se comporte não como o agente público a nos proteger de símios ensandecidos com ossos na mão, mas exatamente igual aos animais retratados no filme.

Nesses termos, o estado completo de vulnerabilidade está criado. Ontem, mais precisamente em 14 de julho de 2013, foi a vez de Amarildo. Amanhã pode ser eu. Ou você. Enquanto aplaudimos as soluções arbitrárias, que aniquilam tanto o bandido como o inocente, é a sorte, e não a lei, o elemento a impedir que um animal armado (fardado ou não) com arma na mão, pelo simples fato de acordar num belo dia de mau humor, coloque nossas cabeças em um saco plástico e nos sufoque até a morte.
Matheus Pichonelli/Carta Capital

Mizael Bispo, Mércia Nakashima e a impunidade criminal no Brasil

Impunidade Lei Penal Blog Lei&OrdemO advogado e ex-policial Mizael Bispo foi julgado culpado, e condenado a 20 anos de reclusão, pelo homicídio triplamente qualificado de Mércia Mikie Nakashima de 28 anos.

Fica a pergunta dos indignados: Só vinte anos?

Homicídio qualificado, por motivo torpe, por meio cruel – a vítima ainda estava viva quando o carro foi submergido na represa – e sem chance de defesa à vítima?

Irá cumprir 2/5 da pena e passa para regime semi-aberto.

Por essas e outras é que a impunidade criminal campeia nesse país. Que república!

Há algo muito mais entre o céu e a terra do que falava Hamlet.

O Marcos Valério não matou ninguém e pega 40 anos. Já esse sujeito pega 20.

Acho que não entendi, no curso de Direito, nada sobre os princípios da Proporcionalidade e da Razoabilidade.

A Lei Penal é falha. A Lei Penal é estupidamente falha e proporciona que a justiça não seja feita.

Os legisladores sabem disto, reconhecem todos os defeitos, mas, como todos os políticos – sem exceções – sabem que estão fora do alcance da lei. Por isso nada fazem para corrigir o que está errado.


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Em matéria de impunidade criminal, realmente não existe país como o Brasil

Impunidade Criminal no Brasil Blog do Mesquita

A Lei Penal é falha.

A Lei Penal é estupidamente falha e proporciona que a justiça não seja feita.

Os legisladores sabem disto, reconhecem todos os defeitos mas,como todos os políticos – em exceção – sabem que estão fora do alcance da lei. Por isso nada fazem para corrigir o que está errado.
José Mesquita – Editor


Uma impressionante reportagem publicada pelo site Yahoo mostra a que ponto chega a impunidade criminal em nosso país, amparada em lei, e sem que nenhuma autoridade realmente demonstre interesse em modificar a legislação e evitar que essa situação perdure, não apenas nos crimes de colarinho branco, mas até mesmo em homicídios.

Trata-se do caso do professor de matemática Claudemir Nogueira. Em 2010, detalhando todo o ocorrido, ele contou à polícia que, um ano antes, enforcara sua mulher, Mônica El Khouri, usando um fio para assassiná-la friamente em São Paulo, e depois simulou um suicídio.

O relato do crime foi espontâneo e Claudemir fez idênticas confissões à Justiça e a peritos do governo estadual.

Mesmo assim, nada lhe aconteceu, muito pelo contrário.

Como não foi apanhado em flagrante e ser réu primário, sem possuir antecedentes e (na avaliação da Justiça) não oferecer riscos à investigação, Nogueira não ficou um dia sequer preso desde que confessou o crime.[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]

RECEBENDO PENSÃO…

O mais incrível é o prêmio que o professor conquistou por ter matado a mulher.

Desde então, ele recebe a pensão da esposa, além de seus vencimentos como professor da rede estadual, de R$ 2.509 ao mês, que o assassino continua recebendo, mesmo tendo sido afastado das salas de aula.

A situação causa revolta na família de Mônica, que luta para que ao menos a pensão deixe de ser dada ao professor e passe a ser depositada na conta da mãe da vítima.

O primeiro protocolo feito pela família da vítima no Ministério da Previdência Social completou dois anos em 2013 e até hoje não recebeu resposta.

Ah, Brasil!!! Que país é esse, Francelino Pereira, que dá pensão a quem mata a própria mulher? E a tal Lei Maria da Penha? É do tipo vacina, não pegou?
Carlos Newton/Tribuna da Imprensa

O goleiro Bruno, Marcos Valério e os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade

O médico e o monstro Jekyll Hyde Blog do MesquitaTerminou o julgamento do ex-goleiro Bruno, condenado pelo brutal homicídio de Eliza Samudio.

Não cumprirá 10 anos em prisão fechada. Se tanto. Infelizmente será beneficiado com a estupidez do regime de progressão de pena.

Caso para prisão perpétua que deveria ser implantada no Brasil para punir crimes hediondos como o desse monstro.

É uma besta fera que deveria habitar os subterrâneos de Hades.

O princípio Constitucional da Proporcionalidade e da Razoabilidade vai às calendas.

Esse Mengele Tupiniquim, esse Mr.Hyde sem Dr. Jekyll, pega 22 anos de prisão enquanto um marginal como Marcos Valério – não cometeu crime de sangue, e não o estou defendendo, Valério, nem fazendo juízo de valor – é apenado com 40 anos de prisão.

Como canta Caetano, o Veloso, “alguma coisa está fora de ordem”.


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Trânsito, feriadão, tragédias e cocaína

É mais que provável que amanhã, segunda feira, estejamos horrorizados, novamente, ante os números tétricos das vítimas dos acidentes de trânsito.

Esses “feriadões” parecem ser o campo ideal para os ‘kamikazes’ psicopatas do volante. É desproporcional e disseminada a imprudência ao volante nos quatro quadrantes dessa infelicitada nação, exposta à sanha dos motoristas irresponsáveis, que não têm a menor preocupação com a vida dos outros motoristas e também dos pedestres.

Cada vez é mais significativo o percentual dos motoristas brasileiros que não respeita às leis de trânsito, às leis da física, às leis da fisiologia do corpo humano (quando dirigem cansados ou sob efeito de drogas diversas) e tampouco ao próximo. Assim as consequências não poderiam ser outras: mais e mais colisões, com lesões graves e mutilações, e também óbitos.

José Mesquita – Editor


A real premonição da tragédia dos acidentes automobilísticos nos feriadões

Na próxima segunda-feira, 10 de setembro, será divulgada a estatística (macabra) do número de mortos e feridos, neste feriadão. Preciosas vidas terão sido perdidas e graves lesões adquiridas, em razão de acidentes em rodovias e vias urbanas, fruto da imprudência e da irresponsabilidade ao volante. Uma real e inevitável premonição que não haverá como se evitar.

Rotina macabra

Boa parte de nossos motoristas, infelizmente, têm o perfil de imprudência, hiperagressividade, deseducação e comportamento estressado no trânsito e não há disciplina consciente ao volante de um carro. Nem amam a vida própria, nem a dos demais usuários das vias públicas.

Os dados do seguro DPVAT, sobre indenizações pagas no primeiro semestre deste ano, por óbitos, lesões e incapacidades definitivas é suficiente para comprovar a barbárie e a carnificina no trânsito brasileiro.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Um quadro de guerra sem fim. Foram 216 mil indenizações pagas, contra 165 mil no mesmo período do ano de 2011. Os dirigentes do seguro obrigatório DPVAT observaram que o crescimento dos acidentes envolvendo motocicletas – a frota de motos cresceu enormemente na última década – é a principal causa do impressionante aumento de cerca de 75% no pagamento das indenizações.

Apostando Corrida

Se observarmos, num período recente, o relato de graves acidentes com inestimáveis perdas humanas, dá para comprovar o tamanho da imprudência e da violência sem fim. No domingo passado, na rodovia RJ 116 (Itaboraí, Friburgo), uma corrida (pega ou racha), entre dois motoristas sem carteira de habilitação, causou a morte de cinco pessoas, quatro delas da mesma família. O fato está sob apuração.

A mãe de um dos mortos revelou que o filho disputava um racha naquela estrada. Pai, mãe e duas crianças de 5 anos e de 3 meses morreram depois que o carro em que se encontravam bateu de frente com um dos veículos que estariam disputando o racha. Tragédia perfeitamente evitável. Toda uma família extinta pela irresponsabilidade de terceiros. Quádruplo homicídio doloso. Cena própria de um filme de terror.

Se associarmos as tragédias dos acidentes de trânsito a uma recente pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, em que concluiu que o Brasil é o 2º maior consumidor de cocaína e seus derivados no mundo, chegamos á conclusão que é cada vez mais real e inevitável a permanência de um quadro assustador de violência no trânsito, porque muitos usuários de drogas -sem falar na mistura álcool/energéticos- também assumem a direção de um veículo após o consumo.

Criminosos em potencial à solta, onde o uso de drogas ao volante ainda não é alvo de fiscalização em vias de trânsito. Os pesquisadores dizem, ainda, que é difícil chegar a um número aproximado de usuários de drogas, e que ele deve ser bem maior. Imaginem se a permissiva proposta de legalização de drogas for realmente aprovada no Brasil.
Milton Corrêa da Costa/Tribuna da imprensa