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Lendo uma carta de Em Busca do Tempo Perdido de Albert Camus

Alguns escritores nos falam
pela janela de seu tempo

Precisamos voltar para onde eles pertenciam para realmente focar na forma de suas idéias – e alguns nos falam permanentemente, pulando, com fluidez de buraco de minhoca, de seus tempo para o nosso.

Os últimos são um grupo imprevisível, e sua presença não parece depender de uma certa qualidade de pensamento tanto quanto de uma espécie de lucidez de espírito. Temos que trabalhar duro, por exemplo, para entender os escritos filosóficos de Jean-Paul Sartre, com sua mistura estranha da teoria alemã e da política francesa contemporânea. Lê-los é um trabalho (gratificante).

Mas Albert Camus, o grande colega e rival de Sartre, ainda nos fala diretamente, embora seu tempo seja tão distante do nosso quanto o de Sartre. Camus não era um pensador amplo – ou mesmo, em certo sentido, um original -, mas ganhou a qualidade que as crianças costumavam descrever, admiradamente, como “profunda”. (Como em “Leonard Cohen é profundo.”) O que ele dizia sobre todo assunto era sempre simples e profundo, e geralmente correto. Nós o lemos como nosso contemporâneo, e ele raramente nos decepciona. Ele ainda é imensamente popular, como disse sua filha Catherine há pouco tempo, porque escreve não na tentativa de encontrar o enredo na história e entrar no lado direito, mas em nome das vítimas da história.

Esse pensamento é desencadeado pela descoberta, no ano passado, na França, de uma carta anteriormente desconhecida de Camus, encontrada nos arquivos de Charles de Gaulle pelo biógrafo e estudioso Vincent Duclert, que Camus havia enviado de Paris a Londres em algum momento em 1943. Não assinado, mas instantaneamente identificável pelo tom e pelo contexto, é intitulado “De um intelectual resistente” e foi extraído pelo jornal Le Figaro no mês passado; com o acordo de Catherine Camus, também aparece em um novo livro, de Duclert, sobre seu pai.

É uma carta estranha e muito francesa: um relato filosófico sonoro da crise da resistência francesa e seu futuro, percorrendo delicadamente vários campos minados de solidariedade entre resistências, e ainda uma carta que, embora intensamente enraizada em seu próprio tempo, ainda assim administra , com estranha presciência, para falar sobre algumas das nossas disputas.

Camus, um franco-argelino de nascimento, passou a guerra primeiro em Lyon, onde escreveu rascunhos de seu romance “The Stranger“, e depois em Paris, onde escreveu editoriais para o jornal de resistência underground Combat. (De fato, o tom e o estilo da carta são tão próximos dos editoriais que instantaneamente se destacam como os dele.) A forma da circunstância é bem conhecida.

A Resistência, num padrão complicado, foi ostensivamente liderada em Londres por um líder militar de direita, De Gaulle, mas lutou na França por uma coalizão de forças conservadoras, católicas, patrióticas e ferozmente anti-nazistas – junto com forças inquietas e hostis. assembléia suspeita de forças “liberais” republicanas, incluindo socialistas dos velhos tempos, apoiada por um forte componente de comunistas que, tendo ficado de fora do início da guerra, na época do pacto de Stalin-Hitler, entraram feroz e bravamente em resistência armada uma vez que a União Soviética foi invadida.

Na carta, Camus escreve primeiro a fundação da “elite” – a classe intelectual e administrativa e até militar que eram o orgulho da meritocracia francesa. Ele começa com uma nota de visão equilibrada que, difícil de manter na melhor das hipóteses, era heroicamente difícil de manter em um momento de estresse tão existencial. “Aqui, muito brevemente, resumi os sentimentos de um intelectual francês”, escreve ele, “diante da situação atual, como pode ser observado de dentro para fora. Em outras palavras, os primeiros sentimentos seriam de angústia. Minha profunda convicção é que a forma de guerra adotada pela região metropolitana da França e na qual estamos todos envolvidos pode levar ao renascimento desse povo ou à sua queda definitiva.”

As falhas dessa elite foram, ao que parecia, responsáveis pela “estranha derrota” da França, como colocou o historiador Marc Bloch. (Como Picasso comentou com Matisse, os generais franceses eram “os professores de Belas-Artes” – ou seja, parte do mesmo quadro administrativo cego.)

Como alguém pode pensar nessa elite agora, a carta pergunta, e como ela deve reconstituir depois que a guerra foi vencida – se foi vencida? Camus escreve que uma nação morre, porque sua elite derrete literalmente. Mas essa elite pode ser refeita não da classe tradicional de examinadores administrativos, mas de uma nova elite dos resistentes, cuja experiência está enraizada na “experiência real” e que mantêm sua realidade sobre eles.

Ele reclama que a resistência direta e armada dentro da França ainda não recebeu ação militar externa – superestimando, talvez, os recursos do Exército francês no exílio, mas impaciente pela “segunda frente” que há muito foi prometida, mas que foi entregue apenas em junho de 1944.

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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

O fascismo por ele mesmo: Benito Mussolini

Em entrevista concedida em 1932, questionado sobre se um ditador poderia ser amado, Mussolini disse: ‘Pode. Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.’

Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano, nasceu na província de Romagna. Cedo, tornou-se jornalista e responsável por uma publicação socialista, o Avanti. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, fundou um semanário de direita, o Popolo d’Italia, e passou a dirigir o agrupamento dos Fascisti. Em 1921, foi eleito para o Parlamento e fundou o Partido Nacional Fascista. No ano seguinte, liderou os chamados camisas-negras na grande Marcha sobre Roma, que levou o rei Vittorio Emmanuel III a convidá-lo para formar o governo italiano. Em 1928, “II Duce”, como era conhecido, aboliu o Parlamento e, em 1929, decretou o Vaticano um Estado independente da Itália.

Em 1940, a Itália do Duce alinhou-se à Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Teria início aí sua decadência política. As tropas italianas foram derrotadas na Grécia e no norte da África. Sua popularidade despencava à medida que perdia as batalhas. O rei o depôs e mandou aprisioná-lo. Liberado pelos alemães, Mussolini foi capturado pelos partisans, morto a tiros e exposto em praça pública nas cidades de Como e Milão.

Emil Ludwig (1881-1948), biógrafo e jornalista alemão, era filho de Hermann Cohn, professor de oftalmologia. Formado em direito pela Universidade de Heildelberg, depois da Primeira Guerra tornou-se representante de diversos periódicos dos países aliados à República de Weimar.

A entrevista “teve lugar no Palazzo di Venezia, em Roma, entre 23 de março e 4 de abril de 1932, com encontros diários de quase uma hora”. Os dois homens falaram em italiano. Ludwig traduziu a conversa para o alemão e Mussolini checou os originais nessa língua. “Não havia secretário dele na sala tomando notas, ele não pediu revisão dos originais. Tratava-se apenas de uma questão de confiança mútua”, disse o jornalista.

Alguém havia me presenteado com a édition de luxe de Maquiavel, que a organização editorial do Estado fascista dedicou, com excesso de lisonjas, ao Duce. Mesmo assim, é sem dúvida melhor que um governo ditatorial reconheça as próprias dívidas para com o instrutor dos ditadores do que agir secretamente de acordo com suas teorias, utilizando, entretanto, o termo maquiavélico como abusivo. Quando Frederico, o Grande, ainda era príncipe, escreveu o moralizante O anti-Maquiavel. Mais tarde, ele se tornou mais direto, governando abertamente de acordo com os princípios de Maquiavel.

“O senhor se familiarizou desde cedo com O Príncipe de Maquiavel?”, perguntei a Mussolini. “Meu pai costumava ler o livro em voz alta à noite, enquanto nos aquecíamos perto do fogo da ferraria e bebíamos o vin ordinaire produzido no nosso próprio vinhedo. O livro me impressionou muito. Quando, aos 40 anos, li Maquiavel outra vez, o efeito foi reforçado.”

“É estranho”, eu disse, “como um homem como Maquiavel teve seu trabalho reconhecido em uma certa época, depois foi esquecido e agora é ressuscitado. Parece existir uma variação periódica.”

“O que o senhor disse é, com toda certeza, verdadeiro em se tratando de nações. Elas têm primaveras e invernos. Com o tempo, elas passam.”

“Como as estações na vida nacional se repetem, nunca fiquei muito alarmado com o inverno que domina a Alemanha no momento”, eu disse. “Há mais de cem anos, quando a Alemanha passou por maus momentos, Goethe ridicularizou aqueles que falaram da nossa decadência. O senhor já estudou qualquer um dos personagens importantes da nossa vida política?”

“Bismarck”, respondeu de imediato. “Do ponto de vista dos acontecimentos políticos, ele foi o homem mais importante do seu século. Nunca pensei nele meramente como a figura cômica com três fios de cabelos na cabeça e passos pesados. O livro escrito pelo senhor confirmou a minha impressão do quanto ele era versátil e complexo. Na Alemanha, as pessoas estão bem informadas sobre Cavour?”

“Não muito”, respondi. “Elas sabem muito mais sobre Mazzini. Há pouco tempo, li uma carta de Mazzini para Carlo Alberto, escrita, acho eu, em 1831 ou 1832; a súplica de um poeta a um príncipe. O senhor concorda com o fato de Carlo Alberto ter dado ordens para a prisão de Mazzini caso este cruzasse a fronteira?”

“A carta”, disse Mussolini, “é um dos documentos mais esplêndidos já escritos. A personalidade de Carlo Alberto ainda não se tornou muito clara para nós italianos. Seu diário foi publicado há pouco tempo e é bastante esclarecedor sobre a sua psicologia. É claro que, no início, ele inclinou-se para o lado dos liberais. Quando em 1832 – não, em 1833 –, o governo sardo sentenciou Mazzini à morte in contumaciam, tal fato ocorreu em uma situação política peculiar.”

A resposta pareceu-me tão cautelosa que, na minha determinação persistente, mas inconfessa, de comparar o presente ao passado, achei necessário falar com maior clareza.

“Naqueles dias, A Jovem Itália era publicado ilegalmente. O senhor não acha que esses periódicos surgem sob qualquer censura? O senhor teria prendido Mazzini?”

“Claro que não”, respondeu. “Se um homem tem ideias, que venha a mim e nós vamos discuti-las. Mas, quando Mazzini escreveu aquela carta, ele estava mais tomado pelos sentimentos do que pela razão. Naquela época, o Piemonte tinha apenas quatro milhões de habitantes e era impossível que formasse uma frente contra a poderosa Áustria com seus trinta milhões.”

“Bem, Mazzini foi preso”, recomecei. “Logo depois, Garibaldi foi sentenciado à morte. Duas gerações depois, o senhor foi preso. Não deveríamos concluir que um governante deve pensar duas vezes antes de punir seus adversários políticos?”

“O senhor quer dizer que nós não pensamos duas vezes aqui na Itália?”, perguntou com certa veemência.

“O senhor reintroduziu a pena de morte.”

“Há pena de morte em todos os países civilizados; na Alemanha, assim como na França e na Inglaterra.”

“Ainda assim, foi na Itália”, insisti, “na mente de Beccaria, que a ideia da abolição da pena de morte surgiu. Por que o senhor a reviveu?”

“Porque li Beccaria”, respondeu Mussolini sem ironia. Continuou com a maior seriedade: “O que Beccaria escreveu é o oposto do que a maioria das pessoas acredita. Além disso, depois que a pena de morte foi abolida na Itália, houve um terrível aumento no número de crimes graves. Se comparado à Inglaterra, o total na Itália era de cinco para um. Nesse assunto, leve em consideração apenas a questão social. Não foi Santo Tomás que disse que seria melhor decepar um braço gangrenado para que o resto do corpo pudesse ser salvo?

De qualquer forma, procedo com a maior cautela. Apenas os casos de assassinato excepcionalmente brutal e confesso são punidos com a pena de morte. Há pouco tempo, dois malandros violentaram e assassinaram um jovem. Os dois foram condenados à morte. Acompanhei o julgamento com muita atenção. No último momento, a dúvida tornou-se persistente. Um dos acusados era um criminoso comum que havia confessado seu crime; o outro, um homem bem mais jovem, havia se declarado inocente, e não havia nenhuma acusação anterior contra ele. Seis horas antes da execução, suspendi a sentença do mais novo.”

“O senhor poderia colocar esse fato no capítulo Vantagens de uma ditadura”, disse. A resposta dele foi rápida e feita em tom de zombaria:

“A alternativa é uma máquina estatal que funcione sem que ninguém tenha o poder de pará-la.”

“O senhor gostaria de abandonar esse assunto controvertido e falar sobre Napoleão?”

“Continue.”

“Apesar da nossa conversa anterior, não sei se o senhor o considera um modelo ou um aviso.”

Ele reclinou-se na cadeira sombrio e disse em tom comedido:

“Um aviso. Nunca tive em Napoleão um exemplo, já que não posso ser comparado a ele em nenhum aspecto. As atividades dele diferiam muito das minhas. Ele acabou com uma revolução enquanto eu comecei uma. A história da vida de Napoleão me fez perceber erros que não são fáceis de evitar.” Mussolini enumerou-os com os dedos: “O nepotismo. Uma disputa com o papado. A falta de compreensão da vida financeira e econômica. Ele não via nada além do aumento dos títulos públicos após as suas vitórias.”

“O que determinou o seu fracasso? Os especialistas dizem que ele naufragou ao chocar-se contra os ingleses.”

“Isso é bobagem”, respondeu Mussolini. “Napoleão fracassou, como o senhor mesmo disse, por causa das contradições da sua personalidade. No final, isso é o que leva um homem à ruína. Ele queria usar a coroa imperial! Queria fundar uma dinastia! Como primeiro-cônsul, estava no auge da própria grandeza. O declínio teve início com o estabelecimento do império. Beethoven estava certo quando retirou a dedicatória da Eroica. Foi o uso da coroa que envolveu o corso em contínuas guerras. Compare-o a Cromwell. Este teve uma ideia esplêndida: poder supremo sobre o Estado sem guerra!”

Tinha levado Mussolini a um tema de importância extraordinária. “Pode então haver imperialismo sem império?”

“Há meia dúzia de tipos diferentes de império. Não há necessidade dos brasões do império. Na verdade, eles são perigosos. Quanto mais vasto for o império, mais ele perderá sua energia orgânica. Apesar de tudo, a tendência ao imperialismo é uma das inclinações básicas da natureza humana, uma expressão do desejo de poder. Hoje, vemos o imperialismo do dólar. Há também o imperialismo religioso e o artístico. De qualquer forma, eles são indícios da energia vital humana. Enquanto um homem viver, ele será um imperialista. Quando morrer, o imperialismo estará terminado para ele.”

Nesse momento, Mussolini pareceu extraordinariamente napoleônico, lembrando-me a gravura de Lefèvre de 1815. Então a tensão de seus traços foi relaxada e, em tom mais tranquilo, ele continuou: “É claro que todo império tem seu apogeu. Como ele é sempre a criação de um homem excepcional, carrega dentro de si a semente da própria decadência. Como tudo que é excepcional, ele tem elementos efêmeros. Pode durar um ou dois séculos, ou menos de dez anos. O desejo de poder.”

“Ele só pode ser levado adiante por meio da guerra?”, perguntei.

“Não”, respondeu. “Não há dúvidas sobre isso.” Ele se tornou um tanto didático. “Os tronos precisam de guerras para se manter, mas as ditaduras às vezes podem sobreviver sem elas. O poder sobre uma nação é o resultado de inúmeros elementos, e eles não são apenas militares. Ainda assim, devo admitir que, até agora, na opinião geral, a posição de uma nação dependeu da sua força militar. As pessoas consideram a capacidade para a guerra como a síntese de todas as energias nacionais.”

“Até o momento”, interrompi. “Mas e de agora em diante?”

“De agora em diante?”, reiterou com ceticismo. “É verdade que a capacidade para a guerra não é mais um critério seguro de poder. Em relação ao futuro, portanto, existe a necessidade de algum tipo de autoridade internacional. Pelo menos, da unificação de um continente. Agora que a unidade dos Estados foi atingida, será feita uma tentativa de unificação do continente. Mas no que se refere à Europa, isso será muito difícil, já que cada nação tem suas próprias características, costumes, símbolos e língua. Para cada nação, uma certa porcentagem dessas características (digamos, x por cento) permanece imutável, e isso induz à resistência a qualquer tipo de fusão. Nos Estados Unidos, sem dúvida, as coisas são mais fáceis. Há 48 Estados, de mesma língua e história muito breve, que podem manter a união.”

“Mas, com certeza”, interrompi, “cada nação possui y por cento de características que são puramente europeias.”

“Essas características ficam de fora do poder de cada nação. Napoleão queria estabelecer a unidade na Europa. A unificação da Europa era sua principal ambição. Hoje em dia, essa unificação talvez tenha se tornado possível, mas mesmo naquela época, ela só era possível no plano ideal, como Carlos Magno ou Charles V tentaram fazer do oceano Atlântico aos Urais.”

“Ou, talvez, só até o Vístula?” “É, talvez, só até o Vístula.”

“A sua ideia é que essa Europa poderia ficar sob a liderança fascista?”

“O que é liderança?”, objetou. “Aqui na Itália, o nosso fascismo é o que é. Talvez ele tenha alguns elementos que outros países possam adotar.”

“Sempre acho o senhor mais moderado do que a maioria dos fascistas”, eu disse. “O senhor ficaria surpreso se soubesse o que um estrangeiro é obrigado a ouvir em Roma. Talvez tenha ocorrido a mesma coisa no auge da carreira de Napoleão. A propósito, o senhor poderia me explicar por que o imperador nunca se uniu à sua própria capital, Paris, por que se limitou ao noivado, sem com ela contrair casamento?”

Mussolini sorriu e começou a responder em francês:

“Ses manières n’étaient pas très parisiennes. Talvez houvesse uma violenta tensão sobre ele. Além disso, ele tinha muitos adversários. Os jacobinos se colocaram contra ele porque ele esmagou a revolução, aqueles que eram voltados para a religião, por causa de sua disputa com o papado. Só as pessoas comuns gostavam dele. Eles tinham muita comida durante o governo de Napoleão e se impressionam mais com a fama do que aqueles que pertencem às classes educadas. O senhor não deve esquecer que a fama não é uma questão de lógica, mas de sentimento.”

“O senhor fala de Napoleão com simpatia! Parece que o seu respeito por ele não diminuiu durante o seu próprio controle do poder, o que o tornou capaz de compreender a situação dele a partir da experiência pessoal.”

“Pelo contrário, meu respeito por ele aumentou.”

“Quando ainda era um jovem general, ele disse que sempre se sentia tentado a ocupar um trono vazio. O que o senhor acha disso?”

Mussolini arregalou os olhos, como sempre faz quando se torna irônico, mas, ao mesmo tempo, sorriu.

“Desde o tempo em que Napoleão era imperador”, disse, “os tronos se tornaram bem menos tentadores.”

“É verdade”, respondi. “Ninguém quer ser rei hoje em dia. Quando, há algum tempo, disse ao rei Fuad do Egito: ‘Os reis devem ser amados, mas os ditadores, temidos’, ele exclamou: ‘Como eu queria ser um ditador!’ A história tem registros de algum usurpador que tenha sido amado?”

Mussolini, cujas mudanças de expressão sempre são um prenúncio das respostas (a não ser que ele queira esconder seus pensamentos), ficou sério mais uma vez. A expressão de energia constante foi relaxada, o que fez com que ele parecesse mais jovem do que costuma aparentar. Após uma pausa, e mesmo assim com hesitação, ele continuou:

“Talvez Júlio César. O assassinato de César foi uma desgraça para a humanidade”, e acrescentou em voz baixa: “Adoro César. Ele era único na maneira de combinar a força de vontade de um guerreiro com a genialidade de um filósofo. No fundo, ele era um filósofo que via tudo sub specie eternitatis. É verdade que ele tinha paixão pela fama, mas a ambição não o isolou da humanidade.”

“Então, apesar de tudo, um ditador pode ser amado?”

“Pode”, respondeu Mussolini com determinação renovada. “Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.”

“Nos meus estudos sobre as grandes carreiras”, comecei, “sempre me preocupei em anotar um aspecto em particular do comportamento dos homens que deixaram o círculo em que cresceram: como se comportaram, por um lado, nas relações com os velhos amigos e, por outro, na solidão que a nova posição impôs aos mesmos. É aí que se revela a personalidade, ou parte dela. O que o homem faz em um conflito como esse entre a bondade humana e a autoridade? Não é natural que ele vá de um extremo a outro? Diga o que acontece quando um dos seus camaradas entra nessa sala! Como o senhor muda sem retomar uma das velhas discussões? Uma vez, o senhor escreveu (e essa é uma boa frase): ‘Somos fortes porque não temos amigos’.”

Quando se sentou à minha frente, Mussolini não fez nenhum gesto ou movimento, mas havia algo incomum, quase infantil, na expressão dele que me revelou que o assunto que eu havia abordado causara-lhe profunda agitação. Quando, por fim, ele respondeu, ficou claro que as suas palavras eram mais frias do que os seus sentimentos, e que ele não estava revelando todas as suas emoções e pensamentos.

“Não posso ter amigos. Não tenho amigos. Primeiro, por causa do meu temperamento, segundo, por causa da minha visão dos seres humanos. É por isso que evito tanto a intimidade quanto as discussões. Se um velho amigo me procura, o encontro é constrangedor para ambos e não dura muito. Só à distância acompanho as carreiras dos meus antigos camaradas.”

“O que acontece quando aqueles que foram amigos tornam-se adversários e o caluniam?”, perguntei, relembrando minhas experiências pessoais. “Qual dos seus velhos amigos permaneceu mais fiel ao senhor? Há algum antigo amigo cujo ataque violento ainda constrange o senhor?”

Ele permaneceu imóvel.

“Se aqueles que um dia foram meus amigos tornaram-se inimigos, o que me interessa saber é se são inimigos na vida pública. Se forem, eu os combato. Se não forem, eles não me interessam. Quando alguns antigos colaboradores me atacaram na imprensa, declarando que eu havia me apropriado de dinheiro pertencente a Fiume, isso, é claro, aumentou minha misantropia. Os meus amigos mais fiéis, eu guardo no fundo do coração, mas, em geral, eles mantêm distância. Justamente porque são leais! São pessoas que não buscam lucro ou ascensão e que, apenas em raras ocasiões, me fazem rápidas visitas.”

“O senhor confiaria a sua vida a eles ou a qualquer outro?”, perguntei. “O senhor tornou alguns deles membros do Gran Consiglio?”

“Três, e apenas por três anos”, disse ele secamente.

“Sendo essa a sua posição, sou levado a perguntar quando o senhor sentiu-se mais solitário. Foi na juventude, como no caso de D’Annunzio, quando estava fora em contato direto com os camaradas de partido, ou hoje em dia?”

“Hoje em dia”, respondeu sem um momento de hesitação. “Mas”, continuou após uma pausa, “mesmo no início, ninguém exercia qualquer influência sobre mim. Basicamente, eu sempre fui sozinho. Além disso, agora, embora não esteja preso, sou um prisioneiro de qualquer forma.”

“Como o senhor pode dizer isso?”, perguntei com considerável agitação. “Ninguém no mundo tem menos razões para fazer uma declaração dessas!”

“Por quê?”, perguntou, tendo a atenção concentrada na minha agitação.

“Porque ninguém no mundo pode agir com tanta liberdade quanto o senhor!”, continuei. Ele fez um gesto conciliatório e respondeu:

“Por favor, não pense que eu estou inclinando a lutar contra o meu destino. Ainda assim, até certo ponto, defendo o que acabo de dizer. O contato com assuntos comuns, uma vida espontânea no meio da multidão – para mim, na minha posição, essas coisas são proibidas.”

“O senhor só precisa sair para um passeio!”

“Eu teria que usar uma máscara”, respondeu. “Uma vez, quando, sem máscara seguia pela via Tritone, fui rapidamente cercado por uma multidão de trezentas pessoas, por isso não consegui dar um passo. Mas não acho minha solidão maçante.”

“Se a solidão lhe agrada”, eu disse, “como o senhor pode suportar os vários rostos que tem que ver aqui todo dia?”

“Percebendo apenas o que eles me dizem. Não deixo que entrem em contato com o meu interior. Não me emociono mais com eles do que com esta mesa e os papéis que estão sobre ela. No meio deles, conservo minha solidão intocada.”

“Nesse caso”, eu disse, “o senhor não tem medo de perder o equilíbrio mental? O senhor lembra como César, quando retornava de uma vitória no Fórum, trazia com ele na biga um escravo, cuja função era lembrá-lo continuamente da nulidade de todas as coisas?”

“Claro que lembro. O rapaz tinha de lembrar o imperador do fato de que ele era um homem e não um deus. Mas, hoje em dia, esse tipo de coisa é desnecessário. Da minha parte, de qual- quer maneira, nunca tive nenhuma inclinação para imaginar-me um deus, sempre tive profunda consciência de que sou apenas um mortal, com todas as fraquezas e paixões da mortalidade.”

Ele falou com óbvia emoção e depois continuou em tom mais calmo:

“O senhor está sempre preocupado com o perigo que pode resultar da falta de oposição. Esse perigo seria real se vivêssemos tempos tranquilos. Mas, hoje em dia, a oposição é representada pelos problemas que têm de ser resolvidos, pelos problemas econômicos e morais que sempre pedem uma solução. Isso é o suficiente para não permitir que um governante durma! Além disso, criei uma oposição dentro de mim mesmo!”

“Parece que estou ouvindo Lord Byron”, eu disse.

“Com frequência eu leio tanto Byron quanto Leopardi. E quando me canso dos seres humanos, eu viajo. Se pudesse fazer tudo o que quisesse, eu estaria sempre no mar. Quando isso é impossível, contento-me com os animais. A atividade mental deles se aproxima da humana, e, mesmo assim, eles não querem nada de nós: os cavalos, os cães e o meu favorito, o gato. Ou, então, eu observo os animais selvagens. Eles personificam as forças básicas da natureza!”

Essa confissão me pareceu tão misantrópica que perguntei a Mussolini se ele achava que um governante precisava se inspirar no desprezo pela humanidade e não nos sentimentos generosos.

“Pelo contrário”, disse enfático. “Uma pessoa precisa de 99% de generosidade e apenas 1% de desprezo.”

Partindo dele, a declaração me surpreendeu e, para certificar-me de ter entendido bem, perguntei-lhe mais uma vez: “O senhor realmente acha, então, que os seres humanos merecem mais compreensão do que desprezo?”

Ele olhou-me com sua habitual expressão inescrutável e disse em voz baixa: “Mais compreensão e compaixão, muito mais compaixão.”

Essa declaração lembrou-me que, quando lia os discursos de Mussolini, fui surpreendido várias vezes pelo que parecia ser uma exibição de altruísmo. Por que ele, o condottiere, se referia com tanta insistência aos interesses da comunidade? Fui levado a perguntar-lhe:

“Repetidas vezes, em frases excessivamente graciosas, o senhor declarou que um aperfeiçoamento da sua própria personalidade era a meta da sua vida, dizendo: ‘Quero fazer da minha vida uma obra-prima’, ou ‘Quero tornar minha vida muito eficiente’. Algumas vezes, o senhor citou a máxima de Nietzsche: ‘Viva perigosamente!’ Como pode então um homem de natureza tão orgulhosa escrever: ‘Minha principal meta é a promoção do interesse público’? Não existe, aí, uma contradição?”

Ele ficou impassível.

“Não vejo nenhuma contradição”, respondeu. “É perfeitamente lógico. O interesse da comunidade é um assunto comovente. Estando a serviço dele, enriqueço minha própria vida.”

Fui pego de surpresa e não pude encontrar uma resposta efetiva, mas citei as próprias palavras do ditador: “Sempre tive uma perspectiva altruísta da vida.”

“Sem dúvida”, disse ele. “Ninguém pode isolar-se da humanidade. Aí temos algo de concreto – a humanidade da raça a qual pertenço.”

“A raça latina”, interrompi, “nela incluem-se os franceses.”

“Já declarei, ao longo de uma destas conversas, que não existe uma raça pura! A crença de que ela existe é uma ilusão da mente, um sentimento. Mas essa crença deixa de existir só por ser uma ilusão?”

“Sendo assim”, eu disse, “um homem pode escolher a raça a que deseja pertencer.” “Claro.”

“Bem, escolhi ser mediterrâneo e, nesse ponto, tenho um aliado formidável em Nietzsche.” O nome despertou na mente de Mussolini uma associação e, em alemão ele citou uma das declarações mais orgulhosas de Nietzsche: “Pareço esforçar-me para ser feliz? Eu me esforço no interesse do meu trabalho!”

Chamei a atenção para o fato de que aquela ideia, na verdade, se originara de Goethe e perguntei se ele concordava com a opinião de Goethe de que o caráter é moldado pelos revezes do destino.

Ele concordou com a cabeça: “Devo o que sou às crises que tive que superar e às dificuldades que tive que vencer. Portanto, todos devem correr riscos.”

“Por isso o senhor põe em jogo o seu trabalho e a si, correndo riscos desnecessários.”

“A vida tem seu preço”, respondeu. “Não se pode viver sem correr riscos. Hoje mesmo participei de uma luta mais uma vez.”

“Se a sua visão fosse coerente, o senhor não tentaria se proteger”, eu disse. “Eu não tento”, respondeu.

“O quê!”, exclamei. “O senhor não reconhece que várias vezes algum dos seus inimigos arrisca a própria vida na esperança de privá-lo da sua?”

“Eu entendo aonde o senhor está querendo chegar. Também sei dos rumores que correm. Dizem que sou vigiado por mil policiais e que toda noite durmo em um lugar diferente. Na realidade, durmo toda noite na Villa Torlonia e dirijo ou ando a cavalo quando e para onde quiser. Se tivesse de pensar constantemente na minha própria segurança, me sentiria humilhado.”

“Diga-me”, falei para concluir, “qual a importância da fama na sua vida? Não é essa a motivação mais forte para um governante? A fama não é a única maneira de escapar da morte? Ela não é a sua principal meta desde que o senhor era um menino? Todo o seu trabalho não é movido pelo desejo de se tornar famoso?”

Mussolini permaneceu imperturbável.

“A fama não me atraía quando eu era menino”, disse, “e não concordo que o desejo de se tornar famoso seja a mais forte das motivações. No que se refere à morte, o senhor tem razão; existe um certo consolo em saber que não se está completamente morto quando se é famoso. Mas meu trabalho nunca foi exclusivamente direcionado pelo desejo da fama. A imortalidade é garantida pela fama.” Ele fez um gesto largo em direção a um futuro remoto e incontrolável e acrescentou:

“Mas ela vem – mais tarde.”

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 135 e 143.
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Hitler,Fascismo,Nazismo,Ideologias,Guerra,Blog do Mesquita

Hitler: o fascismo por ele mesmo

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Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: ‘Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo’

Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.

George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.

Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.

“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”

Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.

Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.

O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.

Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.

“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”

“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”

O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.

“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”

Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”

“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”

“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”

“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”

Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.

“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.

“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.

“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”

“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”

Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.

No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.

“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”

“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”

“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.

“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.

“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”

Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.

Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.

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Biografia de Hitler lembra como uma democracia vira ditadura

Talento de ator, força como orador de massa, esperteza política são algumas das características pessoais que explicam o “caso Hitler”, diz biógrafo. Mas não eximem os alemães da culpa pelo Holocausto.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioFoto de Adolf Hitler
Características pessoais de Adolf Hitler foram essenciais para sua ascensão e queda

A cultura alemã da memória está sob ataque dos populistas de direita. Eles querem o fim da abordagem autocrítica da era nacional-socialista, declarando-a um mero interlúdio numa história, de resto, gloriosa. Exemplo disso foi a declaração do presidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, minimizando Adolf Hitler e os nazistas como um “cocô de passarinho em nossa história mais do que milenar”.

Para o historiador e jornalista Volker Ullrich, declarações como essa são perigosas do ponto de vista histórico-político: “Quem pratica esse tipo de manipulação eufemística da história deve saber que está balançando os fundamentos da república”, condena Ullrich, que acaba de publicar o segundo e último volume de sua biografia de Hitler.

Ele apresenta o “caso Hitler” como um exemplo cautelar, demonstrativo da rapidez com que a democracia pode ser desmontada e de quão fina é a camada separando a civilização da barbárie.

Já em seu primeiro volume, lançado em 2013, sobre os anos anteriores à eclosão da Segunda Guerra Mundial, Ullrich colocara a pessoa do ditador no centro de sua análise – na contramão da tendência predominante na pesquisa sobre o nazismo, há anos concentrada de forma crescente nas condições estruturais que levaram à ascensão e domínio nacional-socialista.

O historiador não deixa essas questões de fora, mas ao mesmo tempo enfatiza as características pessoais de Hitler que fizeram dele um “Führer” tão atraente para tantos alemães: seu talento de ator, sua força como orador de massa e organizador, assim como a esperteza em adaptar-se rapidamente a mudanças na situação política.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioNazistas tomam o poder no Reichstag de Berlim, em 30/01/1933

Hitler como pessoa

Nas 894 páginas do segundo volume, Adolf Hitler – Die Jahre des Untergangs 1939-1945 (literalmente: Os anos da queda), o biógrafo prossegue de forma consequente, sobretudo na avaliação do papel do líder nazista como supremo senhor da guerra e no Holocausto.

Sua tese é que se, por um lado, o assassinato dos judeus europeus não teria sido possível sem milhares de ajudantes, ele tampouco o seria sem a pessoa do ditador nascido na Áustria. Já na radicalização da política para com os judeus até 1939, ele detinha o controle sobre a sequência das ações, como última instância – um padrão que se repetiu nos tempos de guerra.

Ullrich mostra que o genocídio não foi precedido apenas pela declaração geral de intenção de Hitler pelo extermínio sistemático dos judeus europeus: em diversos casos foi necessária sua aprovação pessoal – fosse para obrigar os semitas a portar a estrela de Davi ou para deportá-los do território do Reich.

Foi no papel de supremo senhor da guerra que vieram à tona os déficits pessoais do ditador, acredita Ullrich. Entre eles, não só a propensão a subestimar o adversário, como a muito mais grave tendência de apostar tudo numa carta só.

Hitler reagiu com acessos de ira e ódio às derrotas no front oriental, achando que sabia tudo melhor e punindo também pessoalmente os membros do comando supremo da Wehrmacht. Contrariando o costume até então, nas reuniões estratégicas ele não dava mais a mão a nenhum dos presentes, e durante um tempo deixou de participar do almoço e jantar coletivos.

O autonomeado “Feldherr” (comandante de campo) possivelmente se envergonhava diante dos militares de carreira, supõe Ullrich: “Ele permanecia longe do alto escalão não só por seu ressentimento para com os militares, mas também por não mais poder se apresentar diante deles na pose superior de comandante-gênio.”

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioAdolf Hitler e outros oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nazista em 1936
Oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nacional-Socialista em 1936. A dír., Hilter

Sem desculpas para os alemães

Nascido em 1943, o historiador e jornalista Volker Ullrich dirigiu de 1990 a 2009 a seção “Livro político” no semanário hamburguês Die Zeit. Por sua atuação como publicista recebeu, entre outros, o Prêmio Alfred Kerr de 1992.

Para sua apresentação sobre Hitler, erudita e de leitura fluente, o autor pesquisou numerosos documentos de arquivo. Com essa avaliação pessoal, contudo, ele não deixa nenhuma brecha para desculpas – nem para os generais, que depois de 1945 tentaram minimizar a própria participação na catástrofe moral e militar, apontando para Hitler.

E tampouco para os alemães, em si, que após o Holocausto pretenderam de nada saber: “Desse modo, procede que apenas alguns poucos alemães sabiam tudo sobre a ‘solução final’, mas também eram muito poucos os que não sabiam de nada.”Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioDW

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Nazismo: “Noite dos Cristais” e o silêncio dos alemães

O pogrom contra os judeus da Alemanha nazista completa 80 anos. Sabendo que o episódio teve muitos espectadores passivos, o jornalista Felix Steiner se questiona, como muitos alemães: como minha família reagiu na época?Noite dos Cristais,Direitos Humanos,História,Alemanha,Pogroms,Hitler,Judeus,Nazistas,Genocídio,Crimes contra a humanidade,Solução Final

Judeus são forçados a carregar estrela de Davi no pogrom de 1938:na Alemanha
Pogroms de 1938: mandantes, agressores e espectadores

Meu pai era uma enciclopédia ambulante da história local e sabia tornar emocionantes as suas histórias. O que eu sei sobre a minha terra natal e as minhas origens aprendi com ele.

Ele também me contou várias vezes como vivenciou os pogroms, em nível nacional, de novembro de 1938. Na cidadezinha do sudoeste alemão em que eu cresci, a violência contra os judeus não começou na noite de 9 de novembro, mas no início da tarde do dia seguinte.

Na época, meu pai frequentava o primeiro ano primário, e no fim da aula o professor aconselhou as crianças a evitarem a sinagoga e as casas dos judeus, no caminho de casa. Melhor dar a volta nesses lugares, pois poderia ficar perigoso.

Naturalmente, como seria de se esperar de meninos de 6 ou 7 anos, meu pai e os amigos tomaram o aviso protetor como um convite para conferir o que poderia haver de tão perigoso, no meio do dia, num lugarzinho provinciano.

Eles se depararam com uma sinagoga em chamas, que o corpo de bombeiros não foi apagar, vitrines destroçadas e as lojas devastadas dos comerciantes judeus. E testemunharam como toda a mobília de uma família judaica foi jogada na rua, pela janela do primeiro andar.

O que aconteceu na cidadezinha com menos de 30 habitantes judeus está hoje perfeitamente documentado e registrado em livros. Mas o que eu gostaria de perguntar mais uma vez ao meu pai é como os meus avós reagiram ao relato do filho mais velho sobre o que acontecera ali, em plena luz do dia.

Será que tentaram explicar aquilo que, do ponto de vista atual, é inexplicável? Como comentaram o fato de que, a menos de 300 metros da nossa casa, mulheres e crianças tiveram a porta de entrada posta abaixo e todo o mobiliário feito em pedaços?

Os homens judeus, por sua vez, já haviam sido presos na madrugada do 10 de novembro e enviados num trem para o campo de concentração de Dachau.

Sendo honesto comigo mesmo, eu nem quero saber de nada disso. Nem preciso perguntar, porque, em princípio, já sei as respostas. Não, meus avós não eram nazistas convictos, disso eu tenho certeza. Mas eles olharam para o outro lado e se calaram, assim como milhões de outros alemães. É raro pais de quatro crianças pequenas se tornarem mártires.

E da existência do campo de Dachau e do que acontecia lá, eles sabiam desde que, em 1933, o prefeito e vários conselheiros municipais social-democratas foram presos, ao longo de semanas. Além disso, tratava-se de judeus: o que nós, católicos, tínhamos a ver com eles? Arriscar-nos por causa deles?

A exclusão e privação dos judeus de seus direitos não começou só em novembro de 1938. Já algumas semanas antes da tomada de poder por Adolf Hitler, pichava-se “Não comprem dos judeus” nas vitrines dos negociantes semitas; funcionários judeus foram demitidos; médicos, advogados e jornalistas foram proibidos de trabalhar. Além disso, vieram as leis raciais de Nurembergue, desapropriação e muitas outras coisas.

O 9 e 10 de novembro de 1938 foi a transição para o terror declarado, diante dos olhos de todo o povo. E também a minha família assistiu calada. Isso me aflige e envergonha. Mesmo 80 anos depois.
DW

O quanto de Hitler há em Wagner?

Ditador nazista era fã ardoroso da música do compositor e presença constante no Festival de Bayreuth, que inicia série de simpósios destinados à análise crítica da obra de Wagner.

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Hitler entre Winifred e Wieland Wagner, na abertura do Festival de Bayreuth, em 24 de julho de 1938[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Na tela, um convidado simpático, gentil e elegante, trajando smoking e gravata borboleta, conversa de forma descontraída com a diretora do festival e com os netos de Wagner. De repente, um alerta interrompe a exibição: “Parem o filme! Desligue o celular! Gravações são estritamente proibidas!” Pouco depois, a exibição é retomada.

As gravações são proibidas durante a exibição dessa película histórica no Museu Richard Wagner, na Casa Wahnfried, em Bayreuth, porque uma possível difusão pela internet significaria uma infração aos direitos de imagem de uma das pessoas que aparecem nela: Verena Wagner, a última neta viva de Richard Wagner. O filme pertence ao espólio de um outro neto, Wolfgang Wagner, que o gravou quando tinha apenas 16 anos. A gravação foi exibida durante o simpósio Wagner no Nacional-Socialismo – sobre a questão do pecado original na arte.

O que se vê na tela são imagens do Festival de Bayreuth de 1936: a subida até o Teatro do Festival, no alto da colina; o diretor Heinz Tietjen; o ministro da Propaganda, Josef Goebbels; o dirigente Wilhelm Furtwängler; uma sorridente Winifred Wagner, a diretora do festival e mãe de Wolfgang. E, depois da apresentação, o Führer no palco, ao lado do coral e dos solistas, recebendo os aplausos da plateia. A saudação nazista é feita várias vezes. Quem assiste às imagens não consegue evitar o desconforto de ver Hitler ser apresentado como uma pessoa agradável e simpática.

Wagner no palco como antissemita

Já quem esperava que o simpósio sobre Wagner e o nazismo trouxesse revelações sensacionais saiu dele decepcionado. O tema também não é nenhuma novidade em Bayreuth, como lembra o diretor do festival, Sven Friedrich. Ao longo dos próximos anos, a temática deverá ser aprofundada, em seus vários aspectos, na série de simpósios “Discurso Bayreuth”, que integra a programação paralela do festival.

Richard und Cosima WagnerRichard e Cosima Wagner

Já nos anos 1980 e 1990 houve uma exposição e um simpósio com o nome Hitler e os judeus. Nas proximidades do busto de Richard Wagner, na Colina Verde, ainda pode ser vista a exposição Vozes caladas, de 2012, sobre os colaboradores judeus do Festival de Bayreuth e o que aconteceu com eles. E, desde a abertura do Museu Richard Wagner, em 2015, o local tematiza também a evolução das convicções ideológicas do compositor.

Mas o assunto está longe de ter se esgotado. Declarações como “mas Wagner não tem culpa disso” ou “vamos ignorar toda essa imundice que foi associada a Wagner” podem ser ouvidas ainda hoje. Friedrich lembrou a “dimensão metapolítica da obra de Wagner, que a tornou assimilável pelos nazistas”.

O simpósio começou com um debate intenso sobre a atual encenação de Os mestres cantores de Nurembergue, sob responsabilidade do dirigente australiano Barrie Kosky, que tem raízes judaicas. Ele apresentou Wagner no palco, pela primeira vez, como um antissemita e, com os seus cenários – por exemplo o salão dos Julgamentos de Nurembergue –, incluiu o histórico de encenações da obra na sua interpretação.

Para a autora alemã Irmela von der Lühe, a encenação de Kosky é a concretização de uma exigência que o escritor Thomas Mann fizera já em 1947. Ao palestrar sobre as relações entre Mann e Bayreuth, Von der Lühe lembrou que o Prêmio Nobel de Literatura de 1929, que então vivia no exílio californiano, rejeitou o convite para ser presidente de honra de uma planejada fundação para a reabilitação do desacreditado Festival de Bayreuth, ao menos “enquanto não estiver às claras tudo o que houver sobre o pecado original de Bayreuth”.

Encenação tematiza antissemitismo de Wagner

E em 2017 já está tudo às claras? O espólio de Wolfgang Wagner foi entregue ao arquivo histórico da Baviera em 2013 e levará anos para ser estudado. Outras fontes devem estar faltando, o que não se sabe exatamente. Mas uma encenação como esta de Kosky teria sido possível em 1951, na reabertura do Festival de Bayreuth? Em vez de uma enfrentamento crítico com o histórico da obra, o que se viu então foi uma encenação descompromissada e focada no aspecto mítico, a cargo de Wieland Wagner.

Trata-se de repressão do passado? Uma coisa é certa: havia muitos convidados do exterior na reinauguração, sobretudo da França, e entre eles muitos judeus que sobreviveram ao Holocausto e eram admiradores fervorosos de Wagner. O reinício do Festival de Bayreuth foi acompanhado com interesse em todo o mundo.

Uma questão de música ou ideias?

Em 1949, Thomas Mann escreveu, numa carta:  “Está lá – na fanfarrice, no eterno ficar dando discurso, na necessidade de falar mais alto que os outros, de querer dar palpite em tudo – uma inominada imodéstia que serviu de modelo a Hitler – com certeza, há muito ‘Hitler’ em Wagner.”

Ainda assim, Mann via Wagner mais como um cosmopolita europeu do que como um proto-nazista. E muito antes da catástrofe da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, esse crítico de primeira hora de Hitler escreveu: “A ideia de que esse velhaco idiota por lá desfrute de um romantismo heroico-açucarado é repulsiva para além de todas as medidas.”

Com frequência se constata que o espírito no qual Wagner escreveu suas obras é, desde o início, racial e antissemita. Esse aspecto foi abordado na palestra Hitler e sua Bayreuth à parte: Richard Wagner como analista do século 20, da escritora suíça Micha Brumlik. Segundo ela, no artista há “processos pré-conscientes e inconscientes que se incorporam em seu trabalho, e o que se manifesta é mais do que o autor pretendia.”

O uso que os nazistas fizeram de Wagner e a bajulação do Festival de Bayreuth em torno de Hitler costumam ser apresentados como mal-entendidos ou relativizados com o argumento do distanciamento histórico, afinal Wagner morreu em 1883.

Em 1923, porém, o genro de Wagner, Houston Stewart Chamberlain, e a nora do compositor, Winifred Wagner, saudaram Hitler como o novo Parsifal e o novo messias da Alemanha.

Já em 1925, o Festival de Bayreuth foi politizado com a presença de Hitler. O historiador e nacionalista Chamberlain era considerado um “precursor de Hitler” e justificava suas teses racistas com a superioridade da música alemã. Nesse sentido, ele argumentava que, como os alemães eram gigantes na música, também deveriam ser gigantes na política.

Foi o discurso inflamado de Wagner ou a sua aversão a judeus que inspiraram Hitler? O simpósio tocou apenas de leve nessa questão central. Sabe-se que Wagner tornou o antissemitismo socialmente palatável nos círculos burgueses com seu panfleto O judaísmo e a música.

Mas ele também elogiou os judeus, chamando-os de “os mais nobres entre nós”. O que Cosima Wagner, que sobreviveu ao marido em quase meio século e que agrupava nacionalistas germanófilos em torno de si, assimilou diretamente de Richard Wagner? O quanto ela selecionou entre as inúmeras declarações contraditórias do compositor? Esse seria um tema para um próximo simpósio.

Presidente filipino se compara a Hitler e diz que gostaria de ‘matar milhões de viciados em drogas’

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, voltou a criar polêmica nesta sexta-feira, ao comparar a si mesmo com o líder nazista Adolf Hitler.

Presidente filipino Rodrigo Duterte em 30 de setembro de 2016Rodrigo Duterte afirma que quer “salvar” a próxima geração das Filipinas
Image copyrightREUTERS

Durante uma entrevista coletiva, o controverso presidente traçou um paralelo entre a violenta política antidrogas do seu governo e a política sistemática de extermínio de judeus pelo Nazismo.

“Hitler massacrou três milhões de judeus. Há três milhões de viciados em drogas (nas Filipinas). Eu ficaria feliz em matá-los”, disse Duterte.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Se a Alemanha teve Hitler, pelo menos as Filipinas têm…”, prosseguiu, apontando para si mesmo.

Pelo menos seis milhões de judeus, bem como vítimas de outras minorias – entre elas negros e ciganos -, morreram nas mãos dos nazistas.

‘Retórica repugnante’

Desde que tomou posse em junho, o filipino linha-dura supervisiona uma violenta repressão contra usuários de drogas e traficantes. Números oficiais contabilizam mais de 3 mil pessoas mortas em operações policiais.

Os corpos dos mortos são muitas vezes deixados ao ar livre, para exposição pública, com sinais listando os crimes de que foram acusados.

O presidente abertamente já declarou que queria “matar 100 mil criminosos” para reduzir a violência nas Filipinas.

As mais recentes declarações foram feitas na cidade de Davao, onde o presidente desembarcava após fazer uma visita ao Vietnã.

Foi ali que, quando prefeito, Rodrigo Duterte implementou duras medidas anticrime, sendo acusado inclusive de autorizar a ação de esquadrões da morte para matar criminosos.

Parentes de uma vítima acusada de ser ladrão e traficante choram sobre o caixão durante um funeralMuitas das vítimas de assassinatos extra-judiciais nas Filipinas são acusados de tráficos de drogas ou de crimes de baixo potencial ofensivo
Image copyrightGETTY IMAGES

Os comentários foram prontamente criticados e classificados como “ultrajantes” por grupos judaicos, segundo a agência de notícias Reuters.

“Duterte deve às vítimas [do Hocausto] um pedido de desculpas por sua retórica repugnante”, disse o rabino Abraham Cooper, do Centro Simon Wiesenthal, com sede nos EUA.

O grupo judaico Liga Antidifamação, também dos EUA, disse que os comentários foram “inapropriados e profundamente ofensivos”.

“É desconcertante que qualquer líder deseje se modelar pela figura um monstro”, disse o diretor de comunicações da entidade, Todd Gutnick.

Mais polêmicas

Essa não é a primeira declaração controversa de Rodrigo Duterte.

Quando a União Europeia pediu que seu governo investigasse denúncias de violações de direitos humanos, ele disparou um discurso cheio de obscenidade e não hesitou em brandir o dedo médio para Bruxelas, sede do bloco europeu.

Ele descreveu os membros da UE como hipócritas e questionou como o Reino Unido e a França tinham “a ousadia” de criticá-lo, quando seus antepassados coloniais mataram “milhares de árabes”.

No início de setembro, Duterte não mediu palavras e chamou o presidente Barack Obama de “filho da p…” quando lhe perguntaram sobre suas expectativas para um encontro com o líder norte-americano.

O presidente dos EUA, Barack Obama, e o filipino Rodrigo DuterteObama cancelou encontro com Duterte depois que o filipino o chamou de “filho da p…” Image copyrightAFP

Obama havia dito que tocaria na questão da politica antidrogas de Duterte quando os dois se reunissem em caráter bilateral às margens da cúpula da Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático) em Laos.

“Você deve ser respeitoso. Não basta lançar perguntas e declarações. Filho de uma p…, vou te amaldiçoar nesse fórum”, disse Duterte.

Obama acabou cancelando o encontro, dizendo que preferia ter conversas construtitivas e produtivas com seus interlocutores.
BBC

E se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial?

AmazonNa série da Amazon, avanço atômico nazista foi mais rápido que o americano

Essa especulação voltou com força total recentemente graças ao lançamento da série americana The Man in he High Castle, em que os Estados Unidos e os aliados perdem a Segunda Guerra Mundial para Alemanha e Japão.

Mas a prática de imaginar cenários é milenar: ainda no Império Romano, o historiador Tito Lívio fez, em sua coleção de livros sobre a fundação da cidade, conjecturas sobre o que teria acontecido se as conquistas de Alexandre, o Grande, tivessem expandido seu império para o oeste em vez do leste.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Milenar

No século 19, o escritor Nathaniel Hawthorne escreveu o conto P’s Correspondence, em que reimagina o ano de 1845 sem a morte de uma série de políticos e outras personalidades.

Este é também o mote para A Felicidade Não Se Compra, um dos filmes de Natal mais famosos da cultura anglófona, em que o personagem George Bailey vê um mundo alternativo em que ele jamais nasceu.

AmazonA famosa Times Square, em Nova York, aparece bem diferente em uma realidade alternativa – Image copyright Amazon
Mas The Man in the High Castle adota tons mais ousados. Exibido apenas em serviço de streaming pela Amazon Video, a série é baseada em um livro de Phillip K Dick, o venerado autor de ficção científica também conhecido por Blade Runner – O Caçador de Androides.

Na série, os são EUA “loteados” entre alemães e japoneses. Já no primeiro episódio, que se passa no ano de 1962, um dos personagens principais é visto caminhando por uma Nova York repleta de símbolos nazistas, incluindo uma versão da bandeira americana adornada por uma suástica.

Em outra, a Estátua da Liberdade está vestida como se fosse comparecer a um dos notórios comícios de Adolf Hitler – e “faz” a saudação com o braço direito erguido. As imagens causaram controvérsia e o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, ordenou a remoção da anúncios da série dos trens do metrô.

AmazonO uso da Estátua da Liberdade na divulgação da série criou polêmica nos EUAImage copyright Amazon

No universo de Dick, os cientistas alemães venceram a corrida nuclear contra os americanos, e as tropas de Hitler vencem a guerra após detonar um bomba atômica sobre Washington. A principal parte do território americano fica com Berlim enquanto o Japão assume o controle da Costa Oeste, incluindo a Califórnia.

Mas a trama gira em torno de um misterioso filme no qual imagens do mundo que conhecemos, em que os aliados venceram, são traficadas a pedido de um misterioso cineasta.

O mistério está em como essa realidade alternativa é possível e a razão pela qual autoridades nazistas e japonesas reprimem com extrema violência a circulação do filme, além de tentar a todo custo descobrir a identidade do homem que produziu as imagens.

Há também interessantes trama políticas envolvendo a sucessão de Adolf Hitler, que nessa realidade alternativa ainda está vivo e comandando suas tropas. E o crescimento de tensões políticas entre Berlim e Tóquio.

As reações no mundo real mostram o verdadeiro objetivo de histórias com uma linha temporal alternativa: elas são reflexo de nossos medos e de temores que surgem de ideias sobre outros rumos que a vida teria tomado.

O que o ressurgimento do fascismo pode nos ensinar

Fascismos,Hitler,Mussoline,Democracia,Blog do MesquitaPensamos que ele tinha desaparecido de vez. Foi um engano. Eis aqui por que.
Veja um pequeno exercício de reflexão.

Por Umair Haque¹

Publicado originalmente no site Bad Words, integrante da plataforma Medium.

Se no natal passado eu lhe tivesse dito que o principal candidato a presidente do país mais poderoso do mundo tivesse dito, abertamente, que concordava com a venda de armas, com campos de concentração, com proibições extrajudiciais e com direitos de sangue, a menos que você fosse um sócio atuante da Internacional dos Teóricos da Conspiração, você provavelmente teria dado uma gargalhada na minha cara.

E, no entanto… Aqui estamos nós, precisamente nessa realidade. E não se trata apenas de Donald Trump. O espectro mais tenebroso da política global, aquele que pensávamos ter sido exorcizado, de alguma maneira foi convocado e renasceu: é o ressurgimento do fascismo. Aquilo que chamarei, nesta pequena série de ensaios, de novo fascismo é um fenômeno global.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Marine Le Pen, a mais extremista dos políticos que contestam as lideranças nacionais desde Hitler… triunfou, com um terço dos votos, no primeiro turno das eleições de dezembro na França [1]. O mundo procura equilibrar-se à beira do precipício de uma Era das Trevas do Novo Fascismo – que se levanta, como um cérebro, da Escandinávia à Europa e da Turquia à Austrália.

Acredito que o Novo Fascismo, em sua individualidade, é o acontecimento político mais importante de nossas vidas. Trata-se de um momento crítico para a sociedade global – um momento decisivo. E, como todo momento decisivo, é um teste. Um teste que avalia o melhor de nós: se as sociedades civilizadas podem, de fato, continuar civilizadas, no sentido mais essencial dessa expressão – ou se corremos o risco de mergulhar, outra vez, numa era de guerra mundial e genocídio.

Isso lhe parece um exagero? Então, torne a ler o primeiro parágrafo deste ensaio e pergunte a si próprio se esperava que um possível presidente norte-americano defendesse campos de concentração… apenas um ano atrás. A primeira coisa que você precisa aprender sobre a ascensão do fascismo é que ele desafia suas expectativas de um mundo sensato. Ninguém espera – como na famosa frase do Monty Python – a Inquisição Espanhola.

Um produto de uma inconveniência econômica

Por conseguinte, eu irei discutir o Novo Fascismo nesta série de ensaios. No primeiro ensaio, explicarei sua ascensão; no segundo, a sua dinâmica: por que cresce tão rapidamente, pegando todo mundo de surpresa; no terceiro, discutirei como combatê-lo – se, na verdade, for possível combatê-lo.

Então, como ele surgiu? Minha explicação é simples – mas exigirá que você faça uma reflexão cuidadosa. Irei argumentar que o fascismo é um produto do extremismo – tanto de esquerda quanto de direita. Que o extremismo acabou com o centro – o que criou um vácuo no qual nasceram os Novos Fascistas, que combinam os piores elementos da esquerda e da direita.

Para começar, deixem-me dar uma ideia geral das quatro etapas pelas quais o fascismo cresce. Meu ensaio está incompleto e é simplificado em excesso, com certeza. Não pretendo escrever uma história definitiva do fascismo: simplesmente apresentar um retrato cru que possa ser usado para compreendermos em que etapa estamos.

Eis aqui a etapa incipiente do fascismo: vamos chamá-la estagnação.

O fascismo é sempre um produto de uma inconveniência econômica. A inconveniência cria uma sensação ardente de injustiça. O bolo da riqueza encolhe, desmorona e se deteriora. As sociedades começam a disputar a quem pertencem as fatias, que vão ficando cada vez mais finas, cada vez mais emboloradas.

Seres existencialmente inferiores

E aqui vem a segunda etapa do fascismo: vamos chamá-la demagogia.

Surge uma briga entre os líderes no sentido de fazer alguma coisa em relação ao problema da estagnação. Tanto a esquerda quanto a direita vão ficando mais extremadas. E aí acaba o centro. O vácuo que o centro ocupava dá espaço para um tipo de político inteiramente novo – um tipo de político que normalmente era freado pela esquerda em sua luta contra a direita, mas agora livre para combinar o que há de pior na esquerda e na direita.

Logo aparece um demagogo, que grita: o bolo pertence ao povo – e só ao povo! Ele sintetiza o que há de pior, tanto na esquerda quanto na direita. É um socialista, mas só para as pessoas certas. Mas também é um nacionalista e não reivindica apenas domínio e recursos, como terra: ele reivindica a superioridade, pelo sangue ou por deus, de um povo, para além dos recursos. Daí a expressão, paradoxal, “nacional socialismo”.

A perigosa apelação do demagogo é a seguinte: ele localiza a fonte de estagnação naqueles que não têm pertencimento, que são inferiores – não apenas moral, mas existencialmente – e os aponta com o dedo, aponta o veneno dentro da sociedade. É muito mais fácil acreditar que a sociedade está sendo envenenada por um conjunto de pessoas corruptas que não pertencem a ela, do que acreditar que o contrato social acabou e deve voltar a ser escrito – e assim se abre o caminho do demagogo para o poder.

E chegamos ao terceiro estágio do fascismo: a tirania.

Mas quem é “o povo”? Quem é, de fato, inferior e quem é superior? Quem merece os frutos do nacional socialismo – o direito a consumir fatias do bolo que encolhe, que é do que trata toda esta ideologia? E aí vem à tona a noção de volk: os verdadeiros moradores da terra, os herdeiros do destino, o direito de nascer, a superioridade. E como os definiríamos? Afinal, essa é uma pergunta traiçoeira, que não admite certezas óbvias. Você merece os recursos da Nação-Sociedade simplesmente por ter nascido ali? Ou porque você viveu ali? Ou seria porque seus avós já nasceram ali? É justamente a essas perguntas que a Nação-Sociedade, Na-Zi, começa a dedicar seus recursos. Imensas burocracias são organizadas, trilhas de papel são criadas, investigações são realizadas.

E aqui chegamos à última etapa: a autodestruição.

Busca-se saber quem é um “verdadeiro” cidadão. Depois, busca-se saber quem é um “verdadeiro” membro do volk [povo], por nascimento ou pelo sangue. E depois busca-se saber quem é “verdadeiramente” – e simplesmente – uma pessoa. Esse é o abismo. Isso porque, por essa lógica, se você não for um membro do volk, você deve ser subumano. É isso que significa não ser apenas moralmente, mas existencialmente inferior. Os subumanos, os não-volk, não são apenas o sorvedouro dos recursos minguantes da Nação-Sociedade, que não merecem qualquer fatia encolhida do bolo da Nação-Sociedade – na verdade, e em primeiro lugar, eles são o motivo pelo qual o bolo está encolhendo. Portanto, agora eles representam um problema. Um problema para o qual os volk precisam achar uma “solução”. Os líderes coçam a cabeça e chegam a uma conclusão. Soluções temporárias para problemas permanentes não são um bom negócio.

O que se precisa é de uma solução final.

Uma crença ideológica extremista

Agora, a sociedade está se destruindo a si própria. Isso porque nenhuma sociedade civilizada pode obedecer às ordens de expulsar, prender ou assassinar seus cidadãos por um motivo qualquer e continuar sendo civilizada. Mas isso é algo que os fascistas, que agora já compõem a maioria da população, dos volk, não conseguem ver. Eles só veem pureza, perfeição e um destino glorioso.

Tudo isso é o que Umberto Eco chamou o “fascismo eterno” – a dinâmica que cria qualquer fascismo, seja qual for a sociedade em que surge. Passemos, agora, a ser específicos. Onde se encaixa o Novo Fascismo no meu modelinho de fascismo eterno? Em que etapa nosencontramos?

De 1950 a 1970, os Estados Unidos se encontravam numa Idade do Ouro. Não era apenas o país mais rico, mais seguro, mais tecnologicamente avançado e mais educado: em média, suas famílias também eram. Ou seja, tinha elaborado um contrato social historicamente único, em que o crescimento econômico era amplamente compartilhado pela média de seus cidadãos.

Mas aí, alguma coisa deu errado – muito errado. Os rendimentos começaram a estagnar. A média das famílias começou a sofrer e o país logo ficaria para trás dos restantes mais avançados do mundo em simples termos humanos, como saúde, educação e poupança.

Por que o padrão de vida começou a estagnar na década de 70 – e continuou por quase uma década? A explicação é a seguinte. Num caso único entre as economias mais avançadas, os Estados Unidos foram quase totalmente consumidos por uma ideologia econômica de extrema-direita. A ideia era simplesmente de que a prosperidade lá de cima caísse na forma de gotas de chuva para os que estavam mais em baixo. Portanto, fundamentalmente, a renda foi redistribuída de baixo para cima – com a crença de que amanhã os beneficiados seriam os de baixo. E como foi executada essa redistribuição? Simples: cortando, com austeridade, os impostos lá de cima, retalhando o poder de negociação dos de lá de baixo com o mesmo rigor e financeirizando a economia, isto é, desregulamentando o mercado de capitais para que os de cima pudessem investir os lucros que estavam colhendo.

Desnecessário dizer que tudo isso estava em desacordo com a realidade. A classe média e a de baixo nunca gozaram de benefício algum – e nunca houve um pingo de evidência que sugerisse que gozariam. Essencialmente, os Estados Unidos rasgaram o contrato social de sua Idade do Ouro em nome de uma crença ideológica extremista.

Neoliberalismo retirou milhões da pobreza

E quando a estagnação se impôs, as instituições e os líderes brigaram sobre a forma pela qual o contrato social deveria ser reescrito – mas não o reescreveram. Assim, a estagnação continuou, ganhou força e a classe média não só deixou de prosperar como passou a encolher.

Recentemente, os Estados Unidos chegaram a ponto crítico histórico: pela primeira vez, a classe média é minoria. Nem você nem eu podemos dizer que isso “prova”, em termos acadêmicos, que isso é uma causa para o fascismo. No entanto, podemos dizer, com confiança, o seguinte: o fascismo é sempre um produto da inconveniência. Nos Estados Unidos, a classe média e seu padrão de vida atingiram seu pico por volta de 1970. Desde então, a classe média vem encolhendo continuamente. E nos dias de hoje, o fascismo vem crescendo precisamente no momento em que a classe média chegou a um ponto crítico, passando de maioria para minoria.

Teria a classe média fracassado devido a seus líderes e instituições? Estaria angustiada com isso e desesperada pela prosperidade? Sim. Mas não se trata disso. A questão é simplesmente a seguinte: a classe média está reagindo a seu próprio declínio dando seu apoio aos Novos Fascistas.

Mas isso é apenas metade da história. Segue-se a outra metade.

Enquanto a direita não se limitava a divulgar uma crença econômica extremista e não comprovada, a esquerda nem sequer compreendia com o que lutava. Em vez disso, uma geração de esquerdistas decidiu que a verdadeira oposição não era uma economia de direita local – e sim, uma política global chamada “neoliberalismo”.

Mas boa parte do neoliberalismo, em completa oposição à economia segundo a qual a prosperidade lá de cima cairia na forma de gotas para os que estavam mais abaixo, retirou, na realidade, milhões de pessoas da pobreza, da miséria e do desespero pelo mundo afora. Por que? Porque o liberalismo, tenha ele a definição que tiver, não é uma economia de conta-gotas. É precisamente o contrário: investe em instituições, em pessoas e em sociedades para que o excedente não se acumule na parte de cima.

Já apareceu um líder demagogo

No entanto, a esquerda começou a manifestar-se e protestar justamente contra as instituições que defendiam o mundo da economia de conta-gotas – o Banco Mundial, o FMI e a ONU. É claro que tenho certeza de que aqueles de vocês que forem de esquerda irão se opor a mim com veemência e dirão que eu sou uma pessoa detestável. O fato, entretanto, é que o FMI e o Banco Mundial foram criados por Keynes justamente para evitar que a riqueza se acumulasse no topo [da pirâmide] – e foi precisamente isso que eles fizeram. Portanto, vocês, esquerdistas, estão simplesmente provando uma terrível e profunda ignorância da história econômica. Perdoem-me por ser duro, mas agora devemos falar verdades nuas e cruas.

E esse erro trágico, histórico e colossalmente imbecil – a confusão da política de conta-gotas com o liberalismo, da esquerda com a direita – condenou a esquerda a um caminho de total irrelevância. Ao invés de lutar contra a direita, a esquerda passou a lutar… contra si própria.

Se você não acredita, responda: onde está a esquerda agora? Trava uma nobre e valente luta em favor dos… transgêneros em videogamespronomes de gênerobanheiros para todos os gêneros. Mas não diz uma palavra sobre a questão do Novo Fascismo. Organiza manifestações, protestos e movimentos em defesa dos primeiros, mas nada em relação ao último. Entende o que eu digo? A esquerda está lutando contra si própria, trava uma luta cada vez mais extremada contra a esquerda. Mas não enfrenta a direita.

Pessoas de bom senso podem discordar a respeito de banheiros para todos os gêneros – mas pessoas de bom senso não podem discordar sobre campos de concentração. No entanto, enquanto a esquerda se deixa consumir pela política de identidade sexual, as ideias fascistas começam a assumir o controle das sociedades por atacado (por exemplo, 47% dos norte-americanos concordam com a proposta de Trump de “banir” os muçulmanos). Com que se pode comparar isso? É como se você quisesse uma pedicure enquanto uma gigantesca gangrena devora sua perna… porque você quer marcar um encontro.

Portanto, a causa concreta da ascensão do Novo Fascismo é o extremismo. De ambos os lados – esquerda e direita. Podemos chamar o extremismo de direita fundamentalismo e o de esquerda, narcisismo. Mas ambos são extremismos. Nenhum dos lados prioriza uma nova redação do contrato social – apenas disputam suas fatias minguantes de um bolo que encolhe cada vez mais.

Portanto, o crescimento do extremismo de ambos os lados provocou o fim do centro. Esquerda e direita já não evitam os piores excessos. Consequentemente, a doença que combina o pior deambos tem liberdade para crescer e o nome desse câncer é fascismo.

Respondendo à pergunta: em que etapa de meu modelinho nos encontramos? Eu diria que estamos mais ou menos em um terço do arco do fascismo. Já ultrapassamos as etapas iniciais. Considerando o que dissemos acima, já passamos a etapa da estagnação e estamos quase nofinal da etapa da demagogia – pois já apareceu um líder demagogo. Não estamos simplesmente correndo o risco de que “aconteça aqui” em algum tipo de futuro improvável.

A exaltação da destruição

Minha história tem sutilezas. Tentei fazer uma distinção entre uma causa imediata e a causa definitiva. A causa definitiva do fascismo é a direita – mas a causa imediata é a esquerda. Em termos simples, as origens do fascismo estão no extremismo de direita – mas foi a irrelevância que se auto-impôs a esquerda que permitiu sua ascensão, e talvez até lhe tenha dado um impulso. Você pode discordar de minha história. É apenas uma síntese entre tantas outras. No entanto, eu o previno contra o extremismo de opostos que define a nossa época. Para explicar plenamente a ascensão do fascismo – por ser a mais venenosa fusão de ambos os lados –, devemos falar aberta e honestamente dos erros da esquerda e da direita.

Na história da ascensão do Novo Fascismo vemos precisamente os mesmos elementos que funcionam no fascismo eterno. O bolo encolhe. Os líderes e as instituições brigam – enquanto o bolo encolhe. Então, o momento crítico, quando o centro desaparece. O demagogo fica desimpedido para cantar sua canção das trevas. Cai a noite. E começa a Idade do Ouro dos volk, a longa marcha rumo à terra prometida por entre vales de sangue e de desespero.

Escrevi demais. Fiquei cansado, assim como você. Portanto, vamos parar por aqui para dar uma pausa e refletir. O fascismo, a venenosa mistura do que há de pior na esquerda e na direita, é um câncer que pode ter infectado o corpo político quando este estava entorpecido e minimizado, adoecido e frágil devido à estagnação. E a obrigação de todas as pessoas de bom senso é enfrentá-lo. Não apenas porque ele destrói e classifica  a destruição como um destino glorioso, nem porque ele mata e considera o assassinato como uma forma nobre de justiça, e sim, porque a exaltação da destruição é o fim de tudo aquilo que representa a civilização. Não apenas o tecido de nossas sociedades, mas a própria sobrevivência da humanidade.

[1] O partido de Marine Le Pen foi no entanto derrotado no segundo turno das eleições, também em dezembro de 2015

¹ Umair Haque é escritor, economista e diretor do Havas Media Lab