Em batalha pelo patrimônio, México reivindica mais de 30 peças pré-colombianas que vão a leilão na França

Casa Christie’s oferecerá na próxima semana lotes com objetos das culturas asteca, maia e teotihuacana.

O México mantém sua luta para recuperar o patrimônio pré-colombiano exibido em acervos europeus, mas até agora obteve poucos resultados. Após tentar reaver o cocar de Montezuma, sob o poder de um museu austríaco, o país agora reivindica 33 objetos que a firma Christie’s leiloará no próximo dia 9 em Paris. O Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) solicitou ao Ministério Público mexicano que tome medidas legais contra a venda das peças e à Secretaria de Relações Exteriores (SRE) que empreenda ações diplomáticas para recuperar os objetos. “Determinou-se que o catálogo do leilão inclui peças que correspondem a culturas originárias do México, razão pela qual fazem parte do patrimônio da nação”, disse o Instituto em nota.

As peças correspondem a uma série de coleções exibidas no último século em países da Europa. Há esculturas, vasilhas, máscaras, pratos e estatuetas das culturas asteca, maia, tolteca, totonaca, teotihuacana e mixteca, provenientes de diversos Estados mexicanos. A maioria foi esculpida em pedra ou feita de barro. A Christie’s chamou o leilão de Quetzalcóatl, Serpente Emplumada, oferecendo suas peças por valores iniciais que variam de 4.000 a 900.000 euros (26.400 a 5,93 milhões de reais). A Christie’s garantiu a autenticidade dos lotes divulgando os acervos aos quais pertenciam as peças do catálogo.

No leilão, destacam-se dois objetos com o maior lance inicial. Por um lado, está uma máscara de pedra teotihuacana de 15 centímetros, do período clássico (450-650 d.C.), que foi chamada de Quetzalcóatl e cujo lance inicial deve se situar entre 350.000 e 550.000 euros (entre 2,3 e 3,63 milhões de reais). A Christie’s informa que a máscara pertenceu a Pierre Matisse, filho mais novo do pintor francês Henri Matisse, e foi exibida em duas ocasiões: em 2012, no Museu Quai Branly-Jacques Chirac, em Paris, e em 2018, no Palazzo Loredan, em Veneza. Não se sabe como a peça chegou à Europa. “Chamam-na Quetzalcóalt provavelmente porque acreditam que assim se venderá melhor. Esta venda é pouco ética, ilegal e muito sórdida”, escreveu no Twitter o arqueólogo Michael E. Smith, da Universidade Estadual do Arizona (EUA).

Também há uma escultura de pedra de Cihuatéotl, a deusa das mulheres que morrem no parto, achada no sítio arqueológico de Zapotal, em Veracruz (sul do México). A estatueta de 87 centímetros pertenceu à cultura totonaca no período clássico (600-1000 d.C.). A casa de leilões pede como preço inicial da disputa entre 600.000 e 900.000 euros (4 a 5,93 milhões de reais). A peça foi achada com outros 13 exemplares em um altar de adoração. A Christie’s diz que foi exibida ao público em duas ocasiões, em 1976 e 1982, em Bruxelas.

Há alguns anos, o México iniciou uma cruzada para recuperar o patrimônio histórico que se encontra em acervos privados no mundo. A França constantemente reluta em devolver as peças ao Governo mexicano, e a secretária de Cultura do país latino-americano, Alejandra Frausto, argumentou que a legislação francesa é “muito hostil” e impede a recuperação do patrimônio mexicano.

Em setembro de 2019, a diplomacia mexicana procurou deter a luta de 95 objetos pré-hispânicos leiloados pela casa francesa Millon. A SRE, através da Embaixada em Paris, reivindicou as peças, sem sucesso. Um mês mais tarde, a casa Sotheby’s ofereceu 44 peças pré-hispânicas que também foram reclamadas pelo Governo mexicano. A legislação mexicana estabelece que os achados de objetos das culturas antigas em território mexicano pertencem à nação, mas, uma vez que saem do país de forma ilegal, as autoridades perdem seu rastro. Nem todos os casos terminaram sem solução —uma exceção foi o baixo-relevo de Xoc, achado em Paris em 2015, num leilão da firma Binoche et Giquello, e que foi devolvido ao México dois anos mais tarde.

A verdade sobre o abuso de drogas na Antiguidade, revelada pela ciência

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Imagem de uma versão árabe do século 13 do livro ‘Materia Medica’, de Dioscórides, em que o médico, farmacêutico e botânico da Grécia antiga está com um discípulo segurando um mandrágora

As referências ao consumo de drogas na Antiguidade são escassas e isoladas. Quando aparecem, as drogas são mencionadas quase por acaso — e se concentram em aspectos medicinais e religiosos, deixando de lado qualquer alusão ao uso recreativo.

Há, no entanto, um comércio internacional de drogas desde 1000 a.C., e a arqueologia se juntou à ciência para desvendar a verdade que parece ter sido cuidadosamente ocultada por escritores antigos e seus subsequentes tradutores.

Havia várias maneiras de alterar a realidade nas civilizações antigas do mundo Mediterrâneo, mas duas drogas dominavam: o ópio e a maconha.

Uma pesquisa minuciosa, realizada nas últimas duas décadas, começou a revelar padrões no uso dessas drogas — até então desconhecidos inclusive pelos historiadores clássicos do século 20.

Aparecimento do ópio

Uma das primeiras pistas que os povos antigos consideravam a papoula muito mais do que uma planta bonita vem do seu uso frequente em estátuas e gravuras.

Escultura feminina descoberta na ilha de Creta, chamada de ‘a deusa da papoula’, devido aos ornamentos na cabeça — acredita-se se tratar de uma deusa minoica

Os arqueólogos descobriram que, já em 1600 a.C., eram fabricados pequenos frascos na forma de “cápsulas” de papoula, a esfera volumosa que fica sob as pétalas da flor que produz o ópio. O formato dessas cápsulas artificiais tornava razoável supor para que eram usadas, mas até recentemente era impossível ter certeza.

Em 2018, a revista científica Science divulgou que o uso de novas técnicas para analisar os resíduos das cápsulas encontradas em escavações revelou que o material de origem vegetal continha não apenas ópio — mas, às vezes, outras substâncias psicoativas.

Esses frascos e cápsulas foram encontrados em toda região do Levante, do Egito e Oriente Médio. A uniformidade dos recipientes sugere que faziam parte de um sistema organizado de fabricação e distribuição.

A planta feliz

Mesmo antes, o ópio era cultivado na Mesopotâmia. Alguns pesquisadores não duvidam que os assírios estavam cientes das propriedades da planta.

De fato, o nome assírio da papoula pode ser lido (dependendo de como as tabuletas cuneiformes que a mencionam são interpretadas) como Hul Gil, que significa ‘planta feliz’.

Também foram encontrados jarros contendo resíduos de ópio nas tumbas egípcias, o que não é surpreendente, uma vez que a papoula foi amplamente cultivada no Egito.

Na era clássica, o extrato da planta era conhecido como ‘Opium Thebiacum’, proveniente da cidade do Egito à qual os gregos deram o nome de Tebas. Outra versão era chamada de ‘Opium Cyrenaicum’, uma variação ligeiramente diferente da planta, cultivada mais a oeste, na Líbia.

‘Poções sutis e excelentes’

Há uma passagem muito sugestiva na Odisseia, de Homero, em que Helena de Troia mistura uma droga no vinho que afasta as memórias tristes, a dor e a raiva. “Quem a tomava, naquele dia seria incapaz de derramar lágrimas, mesmo que lhe morresse o pai ou a mãe, mesmo que lhe matassem um irmão ou um filho diante de seus próprios olhos.”

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‘Os Amores de Paris e Helena’, de Jacques Louis David (1748-1825)

Helena, disse Homero, tinha essas “poções sutis e excelentes” pois havia ganhado de Polidamna, esposa de Tom, uma mulher proveniente do Egito, “cuja terra, fértil em trigo, produzia inúmeras drogas, muitas, quando misturadas, eficazes para a cura e muitas para a morte.”

O nome Tom é significativo, uma vez que os egípcios acreditavam que o deus chamado Thoth havia ensinado à humanidade o uso do ópio, de acordo com Galeno, filósofo e médico da Grécia Antiga.

Sonho eterno

Dioscórides — médico, farmacêutico e botânico da antiga Grécia, autor do livro De Materia Medica (uma enciclopédia da fitoterapia) — descreveu a técnica de colheita:

“Aqueles que produzem ópio devem esperar até o orvalho secar para cortar levemente com uma faca ao redor da parte superior da planta. E tomar cuidado para não cortar o interior.”

“Na parte externa da cápsula, faça um corte para baixo. Quando o líquido sair, use o dedo para colocá-lo em uma colher. Ao retornar mais tarde, é possível colher mais resíduos após engrossar e ainda mais no dia seguinte.”

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O termo ‘ópio’ deriva do grego ‘oppion’, que significa ‘suco’, uma referência ao látex que sai quando se corta a papoula

Dioscórides também alerta sobre a overdose. “Mata”, diz ele sem rodeios.

Na verdade, muitos romanos compravam ópio exatamente por esse motivo. O suicídio não era pecado no mundo romano, e muitas pessoas que sofriam com doenças e a velhice optavam por tirar a própria vida com uma onda suave de ópio.

Não é muito provável que seja coincidência que as divindades gregas Hipnos — deus do sono — e Tânatos — seu irmão gêmeo, o deus da morte sem violência — sejam representadas com coroas ou ramos de papoulas.

BIRMINGHAM MUSEUM OF ART
Observe o que Hipnos, deus do sono, tem na mão

O ópio era um sonífero comum, ao mesmo tempo em que o filósofo grego Teofrasto dizia: “do sumo da papoula e da cicuta vem a morte fácil e indolor”.

Em tablete

Os romanos tomavam uma espécie de vinho à base de ópio para combater a insônia e ‘mêkonion’, uma bebida de folhas de papoula, que era menos potente.

O ópio podia ser comprado na forma de pequenos tabletes em postos especializados na maioria dos mercados. Na cidade de Roma, Galeno recomendava um varejista localizado a poucos passos da Via Sacra, perto do Fórum Romano.

Na próspera Cápua, os vendedores de drogas ocupavam uma área conhecida como Seplasia — mais tarde, “seplasia” se tornou um termo genérico para drogas, perfumes e cremes que alteravam a mente.

Cícero, filósofo romano, faz uma referência irônica a esse fato ao comentar sobre dois dignatários: “Eles não mostraram a moderação geralmente consistente com nossos cônsules… seu andar e comportamento eram dignos da Seplasia”.

Fábricas de drogas

A cannabis tem uma história ainda mais antiga que o ópio. Chegou à Europa antes mesmo de começarem seus primeiros registros, junto com o misterioso povo Yamna, proveniente da Ásia Central. No norte e centro da Europa, a planta está presente há mais de 5 mil anos.

Sem dúvida, era apreciada por seu uso na fabricação de cordas e tecidos — mas foram encontrados braseiros contendo cannabis carbonizada, o que mostra que aspectos menos práticos da planta também foram explorados.

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Uma planta com múltiplos usos e uma longa história.

Sabe-se que os chineses cultivavam uma cannabis significativamente mais forte que a planta selvagem há pelo menos 2,5 mil anos — e tanto o produto quanto o conhecimento de como produzi-lo teriam percorrido a Rota da Seda.

Na cidade de Ebla, localizada onde hoje é a Síria, os arqueólogos descobriram o que parece ter sido uma grande cozinha não muito longe do palácio da cidade, com oito fogões e panelas com capacidade para até 70 litros.

Mas não havia vestígios de restos de comida, como costuma acontecer em cozinhas antigas.

A análise dos recipientes encontrados deixa poucas dúvidas de que o local era utilizado apenas para a fabricação de produtos farmacêuticos psicotrópicos.

MARINA MILELLA / DECARCH
Ebla foi um dos primeiros reinos da Síria, estabelecido pela primeira vez por volta de 3.500 a.C.

Em outras palavras, o mundo antigo possuía fábricas de drogas em larga escala há 3 mil anos.

Algumas menções

Dioscórides estava familiarizado com a maconha e relatou que o uso excessivo tendia a sabotar a vida sexual do usuário, a ponto de recomendar o uso da droga para reduzir o desejo sexual em indivíduos ou em situações em que esses impulsos poderiam ser considerados inadequados.

O filósofo romano Plínio, o Velho, também fala sobre a “erva do riso”, que ele diz ser “intoxicante” quando adicionada ao vinho, ao enumerar as propriedades de muitas plantas em seu livro História Natural.

Galeno descreve, por sua vez, como a maconha era usada em reuniões sociais para ajudar a trazer “alegria e riso”.

Meio milênio antes, o historiador grego Heródoto havia escrito sobre algo semelhante.

Por que não aparecem nos textos?

Parece que os citas, que viviam perto do Mar Negro, combinavam negócios com prazer.

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A ‘erva do riso’ levava alegria, mas, ao que tudo indica, também prejudicava a vida sexual se usada em excesso

Heródoto, que foi um antropólogo extraordinariamente competente, assim como o primeiro historiador do mundo, comenta que eles faziam roupas de cânhamo tão finas que era impossível diferenciá-las das feitas com linho.

“Depois, os citas pegam as sementes de cannabis e jogam sobre pedras quentes, onde [queimam] e levantam fumaça”, escreveu Heródoto.

“Armam uma tenda e ficam embaixo dela, enquanto a fumaça emergia tão densamente que nenhum banho de vapor grego seria capaz de produzir mais. Os citas uivavam de alegria em seu banho de vapor”.

Essa é uma típica passagem sobre o uso de drogas no mundo antigo.

Heródoto era realmente tão ingênuo que não reconheceu a influência da droga? Ou seria um tabu discutir sobre o tema — no mundo clássico ou nos mosteiros, onde os textos antigos eram copiados e preservados?

Parece estranho que, embora as descobertas arqueológicas sugiram que o uso recreativo de drogas estava longe de ser incomum na Antiguidade, as referências a essa prática tendam a ser escassas em número e conteúdo.

É difícil de encontrar, inclusive, referências ao uso medicinal da cannabis em textos antigos.

Mas agora os arqueólogos sabem o que procurar.

Por exemplo, uma tumba romana do século 4 d.C. de uma menina de 14 anos que morreu ao dar à luz foi encontrada na década 1990, perto da cidade de Beit Shemesh (próximo a Jerusalém).

Acreditava-se que uma substância achada na área abdominal do esqueleto fosse incenso, até que análises científicas revelaram se tratar de tetra-hidrocanabinol (THC), um componente da cannabis. Parece provável que a droga tenha sido usada para aliviar a dor do parto e, finalmente, para ajudá-la a morrer.

Quando se trata de drogas no mundo antigo, precisamos ler nas entrelinhas, como é o caso de grande parte da história.

Outras seis maneiras como os povos antigos alteravam a realidade
Cravagem ou Esporão do centeio

Conhecido desde o ano 600 a.C., não era consumido voluntariamente. O fungo era comum no centeio e, às vezes, encontrado em outros cereais. Causava delírio, alucinações e, frequentemente, a morte.

Lótus azul

Foi imortalizada no livro Odisseia, de Homero, em que Ulisses deve levar sua tripulação à “terra dos comedores de lótus”. O alcaloide psicoativo da flor de lótus azul causa leve euforia e tranquilidade, combinadas com um aumento da libido.

Mel

O mel das flores de rododendro contém neurotoxinas que causam alteração da consciência, delírio e náuseas. Era consumido recreativamente na antiga Anatólia e ocasionalmente por apicultores descuidados em outros lugares.

Meimendro-negro

Plínio descreveu os efeitos desta planta como semelhante à embriaguez, quando inalada como fumaça ou ingerida. Em geral, era usada como parte de um coquetel alucinógeno para fins mágicos ou medicinais.

Beladona

Poetas como Ovídio indicam que as bruxas usavam beladona em feitiços e poções. Embora o resultado mais comum após o consumo seja a morte, doses cuidadosamente calculadas podem provocar alucinações que duram dias.

Peixe dos sonhos

Originário do Mediterrâneo, o Sarpa salpa, também chamado de peixe dos sonhos, é uma espécie de peixe capaz de causar alucinações vívidas, e é possível que tenha sido consumido na Roma antiga.

* Philip Matyszak tem doutorado em história romana pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e é autor de vários livros sobre civilização clássica.

A pré-história da internet – e a palavra bíblica que deu seu pontapé inicial


O Pentágono nos anos 60; a partir dali, nasceu a rede precursora da internet

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Na década de 1960, Bob Taylor, um engenheiro que já havia estudado psicologia, trabalhava no Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA na capital, Washington DC.

Ele ficava no terceiro andar, perto do secretário de Defesa e do chefe de uma agência fundada em 1958 como parte desse setor: a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (Darpa, na sigla em inglês).

Estava agência tinha entrado inicialmente na corrida espacial, mas a Nasa, criada alguns meses depois, a eclipsou.

Tudo parecia indicar que a Darpa não tinha futuro, mas ela se reergueu e teve um papel fundamental em tecnologias transformadoras.

Bob Taylor – CRÉDITO,GARDNER CAMPBELL/WIKIPEDIA

Taylor estudou psicologia na universidade antes de trabalhar como engenheiro aeronáutico, passar pela Nasa e chegar à Darpa

Três terminais espalhados pelos EUA

A ressurreição começou em 1966, quando Taylor e a Darpa plantaram a semente de algo grande.

Ao lado do escritório do engenheiro, havia uma sala de terminais, um pequeno espaço no qual havia três terminais de acesso remoto com três teclados diferentes, um do lado do outro.

Cada terminal permitia que Taylor emitisse comandos para um computador mainframe (de grande porte, responsável por processar um volume grande de informações) distante.

Um deles estava no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a mais de 700 km de distância dali.

Outros dois estavam do outro lado do país, na outra costa: um na Universidade da Califórnia e o outro no Comando Aéreo Estratégico de Santa Mônica (também na Califórnia), chamado AN / FSQ32XD1A — ou Q32, para abreviar.

Cada um desses enormes computadores exigia um procedimento de login e uma linguagem de programação diferente.

Era, como definiram os historiadores Katie Hafner e Matthew Lyon, como “ter uma sala lotada de várias televisões, cada uma dedicada a um canal diferente”.

Ainda que Taylor pudesse acessar esses computadores remotamente por meio de seus terminais, eles não podiam se conectar facilmente entre si ou com outros computadores financiados pela Darpa nos Estados Unidos.

Era quase impossível compartilhar dados, fazer conjuntamente um cálculo complexo ou até enviar uma mensagem entre esses computadores.

‘Comece, você terá US$ 1 milhão a mais’

O próximo passo era óbvio, diz Taylor.

“Tínhamos de encontrar uma maneira de conectar todas essas máquinas diferentes”, propôs Taylor.

Taylor falou com o então chefe da Darpa, Charles Herzfeld, sobre seu plano.

“Já sabemos como fazer isso”, assegurou ele, embora não estivesse claro se alguém realmente sabia como conectar uma rede nacional de computadores mainframe.

“Ótima ideia!”, exclamou Herzfeld. “Comece. Você terá US$ 1 milhão a mais em seu orçamento.”

A reunião levou 20 minutos.

Desafio formidável

Havia algo nascendo, só talvez não se sabia o quão grandioso
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Larry Roberts, do MIT, já havia conseguido que um de seus computadores mainframes compartilhasse dados com o Q-32: dois supercomputadores conversando por telefone.

Chegar a isso foi um processo lento e desafiador.

Mas Taylor, Roberts e seus colegas visionários tinham algo muito mais ambicioso em mente: uma rede à qual qualquer computador pudesse se conectar.

Como Roberts disse na época, “quase todos os elementos concebíveis de hardware e software de computadores estarão na rede”.

Foi uma grande oportunidade, mas também um desafio enorme.

Motor de Ferrari para aquecer… um bife?

Os computadores eram raros, caros e frágeis para os padrões de hoje.

Geralmente, eram máquinas programadas manualmente pelos cientistas que as usavam.

Quem convenceria aqueles poucos privilegiados a deixar de lado seus projetos para escrever um código a serviço da troca de dados com outras pessoas?

Era como pedir ao dono de uma Ferrari que desligasse o motor para aquecer um bife que o cachorro de outra pessoa iria comer.

Felizmente, outro pioneiro da computação, o físico Wesley Clark, surgiu com uma solução.

Desenhos feitos por Larry Roberts em 1969 projetando a Arpanet

Novas oportunidades com os minicomputadores

Clark vinha acompanhando o surgimento de uma nova geração de computadores.

O minicomputador era modesto e econômico em comparação com os mainframes do tamanho de uma sala instalados nas universidades dos EUA.

Clark sugeriu a instalação de um minicomputador em cada ponto desta nova rede.

O mainframe local, o enorme Q-32, por exemplo, se comunicaria com um minicomputador perto dele.

O PDP-8, o primeiro minicomputador, fabricado pela DEC
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O minicomputador ficaria encarregado de se comunicar com todos os outros minicomputadores da rede. Ele seria responsável também pelo novo e interessante desafio de transportar pacotes de dados de forma confiável para que chegassem a seu destino.

Todos os minicomputadores funcionariam da mesma maneira; portanto, se você escrevesse um programa de rede para um, ele funcionaria em todos.

Adam Smith, o pai da economia, teria ficado orgulhoso da maneira como Clark estava se aproveitando da especialização e divisão do trabalho.

Os mainframes existentes continuariam a fazer o que já faziam bem. Já os novos minicomputadores seriam otimizados para gerenciar a rede de maneira confiável, sem falhas.

À prova de estudantes

A beleza da ideia de Clark era que cada unidade central local tinha que simplesmente se comunicar com a pequena caixa preta ao lado: o minicomputador local.

Essa era a única coisa necessária para conectar-se a toda a rede.

As “pequenas caixas pretas” eram na verdade grandes e cinza e foram chamadas de IMP (Interface Message Processors).

Os IMPs eram versões personalizadas dos minicomputadores Honeywell, que tinham tamanho de geladeiras e pesavam mais de 400 kg.

Outro superlativo: custavam US$ 80 mil cada, cerca de US$ 500 mil em valores de hoje (cerca de R$ 2 milhões).

Os projetistas da rede queriam processadores de mensagens que trabalhassem em silêncio, com supervisão mínima e que resistissem à ação de calor ou frio, vibrações ou oscilações, mofo, ratos e, o pior, de estudantes curiosos armados com chaves de fenda.

Os computadores Honeywell, na época usados pelo setor militar, pareciam um ponto de partida ideal, embora a blindagem das máquinas fosse, talvez, um pouco excessiva.

‘Lo!’

Um mapa com pontos, destinos e conexões da Arpanet inicial
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O protótipo, IMP 0, estava pronto no início de 1969. Mas não funcionou.

Um jovem engenheiro tentou consertá-lo por meses, desenvolvendo e enrolando manualmente fios em torno de palitos de metal separados por uma distância de aproximadamente 1 milímetro.

Somente em outubro daquele ano, é que o IMP 1 e o IMP 2 estavam prontos para uso na Universidade da Califórnia e no Stanford Research Institute, a mais de 500 km de distância um do outro.

Em 29 de outubro de 1969, dois computadores centrais (mainframe) trocaram sua primeira palavra por meio de seus IMPs complementares.

A palavra foi: “Lo”, uma interjeição de supresa que significa algo como “veja!” e que aparece em traduções para o inglês da Bíblia.

A verdade é que a intenção inicial do operador era escrever “Login”, mas a rede caiu após as duas letras surgirem.

Um começo difícil, mas a Arpanet estava ligada.

Outras redes se seguiram, e o projeto da década seguinte foi interconectá-las em uma rede de redes, ou simplesmente a “internet” — “net” em inglês quer dizer “rede”.

Finalmente, os IMPs foram substituídos por dispositivos mais modernos chamados roteadores. No final dos anos 80, aqueles já eram peças de museu.

Mas o mundo que Roberts havia previsto, no qual “quase todos os elementos concebíveis de hardware e software de computadores estarão na rede” estava se tornando realidade.

E os IMPs abriram e mostraram o caminho.

E a Darpa? Graças ao sucesso desta missão, da qualidade de seus funcionários e à confiança em seus projetos, a agência continua hoje tendo papel fundamental no desenvolvimento tecnológico, como na criação do sistema de posicionamento global, o GPS e, mais recentemente, nos carros sem motorista.

Tim Harford escreve a coluna “Economista clandestino” no jornal britânico Financial Times. O Serviço Mundial da BBC transmite a serie 50 Things That Made the Modern Economy. Você pode encontrar mais informações sobre as fontes do programa e escutar todos os episodios, ou ainda al seguir o podcast da serie (em inglês).

Em todo o mundo em 6 objetos artesanais extraordinários

Cobra Azteca

Faz parte de um peitoral de duas cabeças em forma de cobra, feito de madeira de cedro e coberto com mosaico de conchas de ostras espinhosas turquesas e vermelhas. Os dentes nas duas bocas abertas também são casca de molusco.

Estes, e os que temos abaixo, são alguns dos trabalhos escolhidos por Neil MacGregor, diretor do Museu Britânico, para contar “Uma história do mundo em 100 objetos” e nos levar a uma jornada ao redor do mundo e no tempo.

Cada um evoca histórias fascinantes, sejam elas ferramentas mundiais ou obras de arte, todas feitas por mãos humanas em algum momento da história.

E agora que muitos de nossos encontros com o mundo exterior precisam ser virtuais, convidamos você a visitar o Egito antigo e o Império Romano, vislumbrar os tesouros da Turquia, prestar homenagem a um deus maia e se maravilhar com um capacete havaiano.

1. Moeda de Croesus (~ 550BC)
Mais de 2.500 anos atrás, o rei Croesus governou Lydia, um próspero reino no oeste da Turquia, de onde algumas das primeiras moedas do mundo entraram em circulação.

Embora as moedas feitas de eletro (uma mistura de ouro e prata) datem de cerca de um século antes do reinado de Croesus, acredita-se que os lidianos sejam as primeiras pessoas a usar uma moeda bimetálica.

O rio do qual os lidianos obtiveram o metal para suas moedas é aquele em que o rei Midas supostamente “lavou” sua capacidade de transformar em ouro tudo o que tocava.

O leão, um símbolo da realeza, e o touro foram esculpidos nesta linda moeda brilhante com um martelo.

2. Sino de bronze chinês (~ 500 aC)

Este sino de bronze intricadamente decorado é conhecido como bo, e é um instrumento muito sofisticado: levou um milênio inteiro para que sinos desse tamanho aparecessem na música ocidental.

Seu cabo tem a forma de dois dragões, e o corpo do instrumento é adornado com dragões que engolem gansos.

As duas notas produzidas por este bo teriam sido ouvidas na China há cerca de 2.500 anos atrás, e sua música pode até ter sido ouvida por contemporâneos do filósofo político chinês Confúcio.

A China da época era definida por distúrbios e fragmentação política, mas no meio dessa cacofonia, a mensagem de Confúcio era de paz e harmonia, a ser alcançada retornando aos valores tradicionais da virtude.

Confúcio não era apenas um filósofo de renome, ele também era um músico e sentia firmemente que o desempenho da música poderia alcançar a harmonia que ele queria ver na sociedade.

3. A pedra de Roseta (196 aC)

Copyright da imagem © OS TRUSTES DO MUSEU BRITÂNICO
Embora esse pesado pedaço de rocha cinza possa não ser muito atraente para os olhos, a Pedra de Roseta é sem dúvida um dos objetos mais famosos e controversos do Museu Britânico.

Está inscrito um decreto para marcar o status de deus do rei Ptolomeu V no primeiro aniversário de sua coroação em 196 a.C., quando ele tinha 13 anos.

Sendo tão jovem, Ptolomeu estava à mercê de seus sacerdotes, a quem apaziguava com alguns benefícios muito lucrativos, também imortalizados na pedra. Com certeza, ele estabeleceu seus incentivos fiscais.

Embora não seja uma leitura empolgante, o fato de o texto ter sido transcrito para três idiomas: grego, hieróglifos e egípcio demótico (o idioma do dia a dia) é extremamente significativo. O grego era a língua oficial da administração do estado, e permaneceu assim por um milênio.

Nos 500 anos seguintes, a linguagem sacerdotal dos hieróglifos deixou de ser usada, e essa antiga linguagem egípcia tornou-se incompreensível.

A presença do grego, que os estudiosos podiam ler, permitiu a interpretação dos hieróglifos, quando a pedra foi escavada durante a campanha de Napoleão no Egito.

O estudioso francês Jean-François Champollion percebeu que todos os hieróglifos eram pictóricos e fonéticos (eles funcionavam como imagens e sons), e ele finalmente decifrou a pedra de Roseta, tornando acessível o idioma do Egito Antigo pela primeira vez.

4. Estátua Maia do Deus do Milho (~ 700 dC)

Quando as civilizações se tornaram dependentes da agricultura, há cerca de 9.000 anos, surgiram histórias de novos deuses: deuses que garantiam o ciclo das estações e o retorno das colheitas, e deuses da própria comida.

Esta estátua em particular é um deus do milho, uma cultura básica americana que floresceu quando a carne era escassa.

Para os maias, o milho tinha propriedades sagradas, pois os deuses acreditavam ter usado massa de milho para fazer seus antepassados ​​à mão.

No entanto, essa colheita prontamente disponível e adaptável foi um pouco branda, então os agricultores aprenderam rapidamente a cultivar pimentas saborosas para adicionar um pouco de sabor aos carboidratos opacos.

Acredita-se que esta bela estátua de calcário tenha 1.300 anos.

O busto é adornado com um toucado de espiga de milho. Sua cabeça enorme nem pode pertencer ao corpo, pois as estátuas do templo caíram e foram reconstruídas novamente.

Ele agora reside no Museu Britânico, mas foi encontrado nas ruínas de um templo de pirâmide em Copán, uma das principais cidades maias das atuais Honduras.

5. Pimenteira

 

 

Essa linda, ainda que surpreendida, mulher de prata é, de fato, uma pimenteira.

Descrita por Neil MacGregor como “um pouco de kitsch para os ricos”, a própria figura pode ter sido baseada em um rico aristocrata romano tardio, o tipo de mulher que usaria uma pimenteira.

Escavado de um local em Suffolk, Inglaterra, como parte do tesouro Hoxne, este utensílio ornamentado representa um caldeirão de culturas.

Seus proprietários viviam no final do domínio romano na Grã-Bretanha, quando os romanos se misturaram e até se casaram com os nativos. Os moradores se esforçaram para se comportar como os romanos, de suas escolhas de moda à comida que comiam.

Os romanos eram admiradores de comida e o tempero chave em seu arsenal era pimenta.

Mas esse tempero cobiçado não cresceu na Inglaterra, nem mesmo na Europa; os romanos o importaram da Índia.

Estima-se que um navio carregado de pimenta valha 7 milhões de sestércios. Para se ter uma idéia de quão caro era, na época, um soldado romano ganhava cerca de 800 sestércios por ano.

6. Capacete de penas havaianas (1778)

Este impressionante capacete vermelho e amarelo foi apresentado ao capitão Cook, ou a uma de sua tripulação, em 1778, quando ele e seus homens se tornaram os primeiros europeus a visitar o Havaí.

Adornado com as vibrantes penas de milhares de pássaros de gengibre, este capacete provavelmente teria sido usado pelo chefe havaiano de mais alto escalão para se comunicar com os deuses.

Os pássaros eram vistos como mensageiros espirituais, e suas penas eram pensadas para fornecer proteção e poder, de modo que a doação deste capacete teria sido uma grande honra.

Cook passou um período feliz no Havaí consertando seu navio e mapeando a ilha, mas um mês depois de embarcar em sua jornada para o norte, uma tempestade o forçou a voltar.

Dessa vez, os habitantes locais foram menos acolhedores quando entraram na temporada dedicada ao deus da guerra. Eles roubaram um dos barcos de Cook, que, na tentativa de negociar seu retorno, planejava manter um dos chefes, mas um combate corpo a corpo estourou e Cook morreu.

As pistas da mudança climática escondidas na história da arte

Os historiadores da arte estão explorando suas coleções através de lentes climáticas, revelando conexões esquecidas entre o passado e o presente.

Quando a década de 1850 estava chegando ao fim, o artista Frederic Edwin Church estava navegando na costa canadense de Terra Nova em preparação para sua próxima pintura. A busca pela Passagem Noroeste capturou a imaginação do público por grande parte daquela década e a Igreja – o pintor de paisagens mais conhecido da América – também foi atraída. Ele fretou uma escuna para se aproximar do gelo marinho e passou semanas entre os blocos congelados antes de retornar ao seu estúdio em Nova York com cerca de 100 esboços.

A pintura monumental da igreja The Icebergs foi apresentada em uma exposição em Nova York em 1861, apenas 12 dias após o início da Guerra Civil Americana. Seu nome original e mais politicamente carregado (O Norte) refletia as visões da época sobre o Ártico e sobre o próprio gelo.

Os Icebergs de Frederic Edwin Church – o pintor mais famoso da América – refletiam a visão da sociedade do século XIX sobre o Ártico (Crédito: Dallas Museum of Art)

Era sublime, indomável. As características afiadas dos icebergs não ofereceram resistência. Um livro publicado para coincidir com a exposição, por um amigo que foi ao norte com Church, martelou esse ponto: “Afinal, quão fraco é o homem na presença dessas maravilhas do Ártico”. Antes de a pintura ser exibida em Londres, dois anos depois, o artista acrescentou um mastro quebrado que dominava o centro da cena, um lembrete da fragilidade da humanidade.

“Isso é exatamente o oposto do que as pinturas modernas de gelo estão dizendo”, explica Karl Kusserow, curador de arte americana John Wilmerding no Museu de Arte da Universidade de Princeton. “Obras de arte posteriores são sobre o derretimento do gelo por causa do que fizemos com ele.”

Kusserow está falando de obras como Ice Watch, uma instalação do artista dinamarquês Olafur Eliasson, na qual mais de duas dúzias de blocos que já haviam sido perdidos do manto de gelo da Groenlândia foram colocados em Londres e deixados para derreter, para que os transeuntes fossem lembrados do ocorrido. Ártico frágil e derretido. “É uma espécie de flip-flop”, diz Kusserow, “usando o mesmo tipo de metáfora; esse elemento de gelo. ”

Nossa concepção da natureza foi dramaticamente alterada no século passado
Apenas um século e meio se passaram entre os dois pedaços – um piscar de olhos para uma espécie como a nossa e muito menos para a criosfera planetária – mas a relação entre humanidade e gelo é radicalmente diferente. Na época de Church, o efeito estufa mal havia sido sugerido por cientistas como Eunice Newton Foote e John Tyndall, que por coincidência compareceram à festa de estreia da pintura em Londres. Em 2020, temos certeza de que estamos literalmente derretendo o gelo do planeta.

Em Ice Watch de Olafur Eliasson, o gelo é uma metáfora dos danos que os humanos infligiram à Terra (Crédito: Olafur Eliasson / Minik Rosing)

Enquanto cientistas, formuladores de políticas e membros do público tentam entender a crise climática, os historiadores da arte debruçados sobre obras de arte encontram todo tipo de respostas (e várias perguntas novas) sobre como nossa relação com a natureza mudou, sobre o passado. e apresentar as idéias das sociedades sobre o clima e até sobre as mudanças físicas do nosso planeta.

Um relacionamento em mudança

Uma das conclusões centrais que os historiadores da arte tiraram é que nossa concepção da natureza foi dramaticamente alterada no século passado. Se você visitou o Museu de Arte de Princeton para sua exposição de 2018 Nature’s Nation: American Art and Environment, pode ter vislumbrado essa transição (embora seja uma bagunça, não linear e está longe de terminar) da natureza imutável para a fragilizada.

A exposição, co-curada por Kusserow, seguiu uma jornada de mais de três séculos de arte americana. A nação da natureza variou de obras como a panorâmica Bridal Veil Falls, Yosemite de Albert Bierstadt, uma celebração do poder da natureza nos EUA durante a década de 1870, a sua resposta do século XXI, a Fallen Bierstadt de Valerie Hegarty, que retrata uma paisagem monumental muito semelhante em decaimento, como se consumido pelo tempo ou pelo fogo.

Yosemite, de Albert Bierstadt, é uma celebração do poder da natureza na década de 1870 e fez parte de uma exposição de 2018 Nature’s Nation (Crédito: Museu de Arte da Carolina do Norte)

“Há uma mudança de 180 graus de um mundo sobre o qual não temos controle, para um no qual estamos realmente controlando o destino do planeta e reconhecendo que não estamos fazendo um trabalho muito bom nisso”, diz Kusserow.

Ele argumenta que uma transição perceptível, pelo menos nos EUA, ocorreu durante a década de 1960, impulsionada pelo movimento contracultural e livros como Silent Spring, de Rachel Carson – cujo primeiro capítulo também é um conto de ficção especulativa. Nas décadas seguintes, artistas produziram trabalhos autoconscientes sobre questões ambientais e foram além das representações românticas do mundo natural.

Uma dessas peças é a Ocean Landmark, uma instalação desafiadora de conceito de Betty Beaumont, construída entre 1978 e 1980. Ela se enquadra no campo relativamente compacto da ‘arte da terra’, que é feita diretamente na paisagem, esculpindo a própria terra.

Parcialmente patrocinado pelo Departamento de Energia dos EUA e pela Smithsonian Institution, Beaumont pegou 17.000 blocos de carvão neutralizado e despejou-os a 5 km da costa de Nova York. O carvão atingiu 21,3 m de profundidade e repousou no fundo do Oceano Atlântico, onde se tornou um híbrido entre escultura e recife artificial. No entanto, seu afastamento e a decisão de criar arte para a natureza também dizem algo sobre seu tempo.

Ocean Landmark, construído por Betty Beaumont entre 1978-1980, é uma abordagem ambientalmente mais consciente da arte da paisagem (Crédito: Betty Beaumont)

“A razão pela qual eu gosto desta peça é que é algo que você não pode acessar. Por estar debaixo d’água, sempre estará em outro lugar. Isso mostra que podemos nos conectar com o meio ambiente, mas sem reivindicá-lo como nosso ”, diz Francesca Curtis, que apresentará um artigo sobre essa peça em uma conferência sobre história da arte e mudanças climáticas, organizada pelo Instituto de Arte Courtauld em meados de -2020. “O espaço oceânico está lá e existe, mas não é para nós.”

O Ocean Landmark também desafia o conceito de natureza como algo oposto ou pelo menos diferente à cultura. A obra de arte é o recife, que agora é considerado um refúgio de peixes pelo governo dos EUA. “Você não pode separar a idéia de meio ambiente de todos os problemas políticos que existem hoje, precisamente por causa de mudanças climáticas”, diz Curtis, um estudante de doutorado no departamento de História da Arte da Universidade de York.

A ponta do iceberg?

À medida que o século XX apresentava desafios ambientais cada vez mais graves, e as ansiedades em torno do gerenciamento de resíduos, energia nuclear e ar, poluição da água e da química se multiplicaram, essa fronteira entre natureza e cultura ficou turva.

A metade do mundo de Ocean Landmark, um grupo de artistas indianos tem refletido e produzido trabalhos sobre um desses pontos de encontro entre o natural e o humano: os suicídios de agricultores. A historiadora e educadora de arte Preeti Kathuria acompanha o desenvolvimento desse campo desde o início dos anos 2000, incluindo o trabalho de artistas como Kota Neelima, o coletivo The Gram Art Project e a dupla Thukral e Tagra, e também apresentará seu trabalho na conferência de Courtauld .

A dupla indiana Thukral e Tagra cria obras de mudança climática há seis anos, incluindo uma série de casas voadoras, Dominus Aeiris (Crédito: Thukral e Tagra Studio)

Ela percebeu a transição mesmo nas últimas duas décadas. À medida que os impactos das mudanças climáticas se tornam mais impressionantes, o mesmo ocorre com as abordagens dos artistas. Kathuria sugere a poluição do ar como um exemplo no qual as mudanças na cidade estão forçando os artistas a reagir. “De repente, não podemos sobreviver sem purificadores de ar”, diz ela. “Nunca precisamos de purificadores de ar em Délhi. O problema agora está ficando cara a cara, então, naturalmente, a resposta do artista se tornou muito mais direta. ”

Cientistas e artistas também estudaram obras de arte para ajudá-los na reconstrução do tempo passado e das condições climáticas. Isso se deve em parte à “consciência climática” que os espectadores modernos têm, diz o historiador de arte Theo Gordon, pós-doutorado no The Courtauld Institute e organizador da próxima conferência.

Nós nos limitamos à intenção contemporânea de um artista ou tentamos ver outras coisas na obra de arte?
“A maneira como pensamos sobre o clima agora em termos cada vez mais alarmados é historicamente específica”, diz Gordon, referindo-se à maneira como as pessoas em 2020 interpretam informações relacionadas ao clima, incluindo arte. Ou seja, os contemporâneos da Igreja em 1860 não representariam a ideia de “clima” com a mesma bagagem emocional que nós, o que, por sua vez, suscita novas perguntas sobre como visualizar essas peças. Nós nos limitamos à intenção contemporânea de um artista ou tentamos ver outras coisas na obra de arte? Um iceberg é apenas um iceberg, ou é uma metáfora de como a sociedade vê o gelo?

Alguns campos fornecem respostas diretas. Pinturas e esboços permitiram aos pesquisadores da Suíça entender como o glaciar Lower Grindelwald, localizado nos Alpes, se comportou depois de 1600 e antes da fotografia ser inventada. Os pesquisadores concordaram alegremente em um artigo acadêmico publicado em 2018 que “com um grande número de documentos pictóricos de alta qualidade, é possível reconstruir a história (Pequena Era do Gelo) de muitas geleiras nos Alpes Europeus do século XVII ao XIX.”

Pinturas como esta de 1774 permitiram aos pesquisadores entender como o glaciar Lower Grindelwald se comportava antes de a fotografia ser inventada (Crédito: Alamy)

Simplificando, se você comparar a extensão anterior das geleiras em pinturas mais antigas com as observações atuais, poderá dizer quanto tempo durou uma geleira antes de começarmos a aquecer o planeta. Por sua vez, isso pode fornecer respostas sobre a rapidez com que poderemos perder gelo no futuro.

De maneira semelhante, estudiosos da Grécia e de outros países sugeriram em um estudo de 2014 que as cores do pôr do sol pintadas por artistas famosos podem ser usadas para estimar os níveis de poluição na atmosfera da Terra nos últimos cinco séculos.

“A natureza fala aos corações e almas dos grandes artistas”, disse o pesquisador Christos Zerefos, professor de Física Atmosférica da Academia de Atenas, na Grécia, quando a pesquisa foi publicada. “Mas descobrimos que, quando colorem o pôr do sol, é a maneira como seus cérebros percebem verdes e vermelhos que contêm informações ambientais importantes”.

Um estudo de 2014 sugeriu que pinturas como The Scarlet Sunset, de JMW Turner, poderiam ser usadas para estimar os níveis de poluição nos últimos cinco séculos (Crédito: Alamy)

Se você voltar mais atrás, como o historiador alemão Wolfgang Behringer faz em seu livro A Cultural History of Climate, você perceberia que, antes do século XVI, havia muito poucas ocorrências de paisagens nevadas na arte da Europa Ocidental. Behringer sugere que as temperaturas mais baixas do que o normal durante a chamada Pequena Era do Gelo mergulharam artistas europeus como Pieter Bruegel, o Velho, em um novo ramo da pintura de paisagem: a paisagem de inverno.

Esse subgênero inclui obras como Os Caçadores na Neve, de Bruegel, uma representação detalhada de 1565 de óleo sobre madeira de uma cena idílica de inverno. Mas além da neve, são os pequenos detalhes que revelam as dimensões culturais e sociais de como as pessoas viviam com a ideia de mudanças no clima.

A arte oferece uma janela para o nosso passado, presente e futuro clima que a ciência sozinha nunca pode oferecer
“Os caçadores têm todos esses cães por trás deles”, diz George Adamson, historiador e geógrafo do King’s College London, que acredita que as obras de arte nos ajudam a entender como as sociedades do passado lidavam com eventos meteorológicos. “Conto 12 ou 13 cães com eles, então é óbvio que eles saíram para uma grande caçada, mas eles têm uma raposa nas costas”.

Essas paisagens de inverno deixaram uma impressão sombria nos anos 1500, diz ele. Mas observe a próxima vez que as temperaturas caírem levemente na Europa Ocidental, depois dos anos 1700, e você verá uma percepção diferente de um campo coberto. “Quando você vê cenas de neve novamente no século 19, elas tendem a não mostrar tanta dificuldade. De fato, você tem uma visão mais romantizada do campo ”.

Foi sugerido que a Pequena Era do Gelo de 1500 inspirou artistas a pintar paisagens de inverno, como Os Caçadores na Neve, de Bruegel (Crédito: Kunsthistorisches Museum)

Adamson apresenta um ponto crucial e diferenciado: os elementos que vemos em uma pintura não compõem um clima por conta própria. Estas são condições meteorológicas, imagens do tempo e uma hora e local. São as formas culturais pelas quais os seres humanos vivem nesses climas, e suas representações deles na arte, que devemos observar.

Por exemplo, a melhor representação de nossa emergência atual não está nas tabelas de temperatura ou na concentração crescente de carbono na atmosfera. A crise climática, e o que isso significa para nós em 2020, é melhor explicada com os sinais dos jovens atacantes, os restos deixados para trás após um ciclone e os esboços dos mapas de emergência de incêndios florestais. Para entender completamente o clima, mesmo em uma pintura, precisamos dos artefatos culturais; é preciso observar os sapatos e os cães.

“Esses elementos provavelmente podem lhe dizer mais sobre o clima do que um termômetro”, diz Adamson. A arte oferece uma janela para o nosso passado, presente e futuro clima que a ciência por si só nunca pode oferecer, precisamente porque reflete nossas frustrações, esperanças e ansiedades sobre a natureza. Isso ajuda a entender algo que uma pesquisa de iceberg sozinha nunca realizará: se o gelo é uma vítima ou um vilão.

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Hoje na História – Calígula

No dia de hoje em 37dC, o senado Romano proclama Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus, vulgo Calígula, Imperador.

“Sou o amanhecer do mundo e a última estrela que cai na noite. Assim como tomei a forma de Caius Calígula eu posso tomar a forma de qualquer um. Sou todos os homens e não sou nenhum. Portanto, sou um deus.”
Não imaginaria tal animalesca persona, que seus seguidores brotariam com ratos ao longo da história pelos tempos que viriam.

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Imagem e Comunidade: Representações de Santos Militares no Mediterrâneo Oriental Medieval

Imagem e Comunidade: Representações de Santos Militares no Mediterrâneo Oriental Medieval

Por Heather A. Badamo

Resumo: A devoção a santos militares floresceu no Egito e no Levante nos séculos XII e XIII, a era das Cruzadas. Durante este período de conquista e expansão, ícones de santos guerreiros foram feitos em grande número. Os criadores de imagens responderam às preocupações locais, descrevendo os santos como soldados ferozes: St. Mercurios podia ser visto matando um inimigo da fé, St. George realizando um milagre da salvação, ou St. Theodore brandindo uma espada. Os cultos floresceram em zonas fronteiriças, áreas contestadas de limites inconstantes, onde os santos guerreiros lutavam para se proteger contra aqueles que mantinham crenças rivais.

O foco desta dissertação, que se baseia em material visual e textual, é o culto aos santos guerreiros no Egito e no Levante, como praticado nas comunidades cristãs orientais que vivem sob o domínio muçulmano. Este estudo trabalha contra as geografias disciplinares tradicionais, considerando ícones do Egito, Levante e Bizâncio em suas inter-relações. No centro do projeto estão imagens em vários meios (pinturas de parede, pinturas em painel, fichas de peregrinação, ilustrações de manuscritos e selos), examinadas em relação a uma variedade de fontes textuais (paixões, relatos de milagres, homilias, hinos, epigramas). , geografias, apocalipses, livros sobre mosteiros, textos polêmicos, relatos de viajantes e crônicas).

Os capítulos quatro e cinco tratam o fenômeno da militarização como revelado em imagens e relatos de milagres. O capítulo seis oferece um estudo aprofundado de imagens e práticas religiosas no Levante, com foco em um conjunto de ícones no Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, e nas pinturas de parede em Deir Mar Musa, na Síria. Este capítulo revela a instabilidade de formas e significados iconográficos na área caracterizada pela mudança de fronteiras e populações. A dissertação termina com uma análise focada no extenso programa no mosteiro de Santo Antônio no Egito, que posiciona os mártires militares como os predecessores dos monges, travando batalhas espirituais. Este capítulo revela o papel das imagens sagradas no fortalecimento da fé e da coesão comunitária.

Clique aqui para ler esta tese da Universidade de Michigan

Imagem superior: Detalhe de um balão do século VI ou Sétimo, representando São Sérgio a cavalo, rodeado pela inscrição: “Bênção do Senhor de São Sérgio”. Imagem do Walters Art Museum

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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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Negligenciadas e subvalorizadas: roupas íntimas na Idade Média

Por Madeleine Colvin

Apesar de ser uma das roupas mais importantes, a roupa íntima é a parte de roupas medievais que é frequentemente ignorada e inexplorada na ficção histórica e no figurino. Os trajes modernos e a moda parecem ter um fascínio pelos espartilhos e crinolinas da era vitoriana, mas têm pouco interesse no que veio antes. O que podemos dizer sobre esse elemento da moda, que tem sido negligenciado por muito tempo?

Embora os espartilhos possam estar relacionados a roupas de baixo modernas, como “spanx” e outras engenhocas de treinamento da cintura e modelagem do corpo, e quanto às roupas íntimas anteriores, elas são totalmente ignoráveis? E as roupas de baixo dos homens? Este artigo é uma breve visão geral de como era a cueca na Idade Média e como ela se compara ao que provavelmente usaremos hoje. Embora as roupas íntimas modernas pareçam estar em busca de diminuir e ficar menos visíveis a cada ano, na verdade ela teve grandes começos!

As roupas de baixo vitorianas e a silhueta com espartilho costumam ser o que vem à mente quando alguém pensa em roupas íntimas históricas … “Catálogo de moda ilustrado: verão de 1890” por Internet Archive Book Images, via Wikimedia Commons

A roupa de baixo dos homens é muito mais prevalente nas fontes históricas da arte do que a das mulheres, possivelmente porque a idéia de um homem sem roupa era considerada humorística em oposição à obscena. Havia dois itens comuns de roupas íntimas na idade média: braies e sob túnicas. Se quisermos pensar no que os homens vestem hoje em dia, eles podem ser comparados às camisetas e boxers modernas.

Um undertunic do estilo do século XIV dobrado em braies. Braies medievais para homens de ArmStreet.

As roupas de baixo e as camisas dos homens modernos geralmente são feitas de uma mistura de algodão ou algodão / poliéster e são elásticas para permitir que elas se ajustem à forma do corpo e não sejam visíveis sob a roupa exterior. As roupas íntimas medievais eram um pouco diferentes – embora elas não fossem visíveis, não era um insulto parecer espreitando em lugares que suas roupas externas não cobrem. As túnicas eram longas e onduladas, às vezes até o chão ou o joelho, dependendo do comprimento das roupas externas. Geralmente, as túnicas eram geralmente colocadas nas roupas íntimas de um homem.

Na Idade Média, calças como as conhecemos hoje não estavam na moda.  As interpretações modernas de trajes costumam considerar as calças da Idade Média como “calças justas”, mas na verdade eram feitas de duas peças de tecido separadas e não se tornaram um item singular que se assemelha a “calças” até o final do século XV. Em vez disso, os homens usavam meias compridas e ajustadas que iam dos pés aos quadris e criavam uma aparência geral semelhante às calças justas. Eles estavam amarrados na cintura para amarrar as cuecas (roupas íntimas) ou a um cinto de pano separado, usado sob as roupas. Devido à natureza dessas “calças”, os braiestinha alguns desenhos diferentes, variando de cuecas boxer curtas e semelhantes a longas e penduradas frouxamente sob o joelho em montes ondulados de tecido. Alguns dos exemplos mais famosos podem ser encontrados na Bíblia Maciejowski (Bíblia Morgan), que apresenta um número de homens sem roupa, dando-nos uma maior compreensão do que o homem comum na idade média usaria sob sua roupa.

Homens em um pátio vestindo Braies medievais, da Bíblia Maciejowski

Então, a roupa íntima masculina era um pouco mais volumosa, mas não tão diferente da atual. O que aconteceu antes para as mulheres, antes da cintura apertada e das roupas íntimas estruturadas? É uma resposta bastante simples: gloriosa falta de forma. Nos dias de hoje, a mulher pode optar por atingir sua figura preferida através de roupas íntimas ajustadas, mas as roupas íntimas iniciais eram mais propensas a ser apenas um vestido de linho folgado. As imagens de referência de mulheres em roupas íntimas na Idade Média são poucas (é mais provável que sejam retratadas como completamente nuas ou totalmente vestidas), mas esse vestido largo é o mais comumente observado. Essa peça era frequentemente chamada de “bata” ou “camisa” e era a roupa mais comum para mulheres há mais de 500 anos, desde o início do período medieval até o Renascimento.

Uma reconstrução moderna de uma camisa do século XIV pelo fabricante de roupas ArmStreet.

Alguns designs e materiais diferentes podem ser observados com a camisa, sendo o material mais comum o linho. Os civis mais pobres podem usar roupas de baixo feitas de tecido de cânhamo, enquanto as mulheres nobres são conhecidas por usar avental de seda. As roupas de baixo sempre foram descritas em manuscritos como sendo brancas ou esbranquiçadas, feitas de tecido opaco ou de material mais transparente e transparente (que provavelmente era de linho ou seda muito, muito fino). Alguns vestidos, como os usados ​​pelo coloquialmente conhecido “Bohemian Bathhouse Babes” na Bíblia Wenceslas, usam vestidos com cintas de espaguete com um torso mais ajustado que parece fornecer algum suporte comparável ao sutiã moderno.

O conhecido “Bohemian Bathhouse Babes” da Bíblia de Wenceslaus IV

Com roupas tão folgadas, é fácil supor que a moda do dia deve ter sido de silhuetas semelhantes, mas esse não foi o caso! Particularmente nos séculos XIV e XV, a moda parecia favorecer o ajuste apertado sobre os vestidos de lã de seda, exibindo um peito apertado e cintura justa, brilhando em uma saia reta e cheia. Um exemplo pode ser retirado do Livro da Cidade das Senhoras (1405), onde podemos ver mulheres usando vestidos lisonjeiros e contornados.

O Livro da Cidade das Senhoras – século XV

Você também pode estar se perguntando o que as mulheres fizeram por roupas íntimas na parte inferior do corpo. A resposta para isso é… ninguém sabe! Não há fontes históricas confiáveis ​​sobre o assunto, e é uma conclusão comum que as mulheres não usavam cuecas de nenhuma variedade. Se o fizeram, podemos assumir que eles eram semelhantes aos dos homens, parecendo pequenos shorts. Os pesquisadores tendem a discordar sobre esse assunto, e atualmente não há resposta definitiva para essa pergunta.

Nos tempos modernos, pode parecer contraproducente usar uma camisa solta e ondulada sob uma roupa apertada, mas a roupa de baixo era usada para mais do que apenas apoio na Idade Média. Também fornecia uma camada extra vital de calor e protegia a pele sensível das roupas externas de lã com coceira. Também protegeu roupas caras do suor e de outros desgastes, prolongando sua vida útil e exigindo muito menos lavagem, o que era especialmente importante em materiais delicados, como a seda.

Toda vez que fazemos uma descoberta histórica, aprendemos cada vez mais sobre a vida cotidiana na Idade Média. Há apenas alguns anos, descobrimos uma série de roupas íntimas do século XV que se assemelham a sutiãs , mudando completamente nossa perspectiva sobre roupas íntimas históricas. Assuntos domésticos, como roupas íntimas, podem parecer banais, mas entender coisas assim ajuda a aprofundar nosso conhecimento do passado e a entender quem nos tornamos hoje. É fácil esquecer que os itens que são frequentemente negligenciados e subvalorizados são os mais essenciais.

Refletindo sobre tudo, fica claro que o verdadeiro uso utilitário de roupas íntimas realmente não mudou muito nos últimos 700 anos. No entanto, não se pode deixar de notar que, enquanto as roupas íntimas medievais eram largas e largas, as roupas íntimas modernas parecem estar ficando cada vez menores. Sem mencionar que roupas íntimas e tiras parecem ter saído de moda há alguns anos, reservadas para serem usadas apenas com o mais puro dos vestidos. Há muito a dizer sobre a diferença nos padrões de beleza da Idade Média até hoje – mas talvez eu guarde isso em outro momento. Espero que este artigo tenha trazido alguma clareza à questão da roupa íntima e tenha despertado interesse no que normalmente permanece oculto – depois de tudo isso, é apenas uma breve visão geral, há muito mais a ser descoberto!

Nossos agradecimentos a Madeleine Colvin e Mykhaylo “Miha” Skorobogatov, da ArmStreet, por este artigo. A ArmStreet é uma empresa internacional com escritórios nos EUA, Austrália e Ucrânia. Sediada em Milwaukee, WI, EUA, foi fundada como uma cooperativa de vários mestres e designers de jogos LARP, e agora é líder mundial em trajes medievais de alta qualidade. Clique aqui para visitar o site deles . Você também pode gostar deles no Facebook ou segui-los no Twitter @armstreet .v