Filipe Martins e a rede de mentiras agonizam: um tuiteiro nocauteou a grana de sites de fake news

Uma reportagem do El País revelou como um perfil no Twitter virou a grande pedra no sapato da extrema direita americana. Com o nome de Sleeping Giants, o perfil criado em 2016 expôs ao escracho público as marcas que anunciavam em sites de fake news.

Filipi Martins e Steve Bannon – Reprodução: Twitter/Filipe G. Martins

O perfil informava ao público os nomes das empresas e compartilhava as capturas de tela dos anúncios nas suas redes oficiais. A tática foi um sucesso, e as empresas se viram obrigadas a anunciar publicamente o bloqueio dos anúncios.

O Breitbart News é um site de extrema direita famoso por inventar histórias contra adversários de Trump. Durante a eleição presidencial, o site publicou a história de que a então candidata Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia e promovia orgias sexuais com crianças no porão de uma pizzaria. Após a ação do Sleeping Giants, o site viu ir embora mais de 4,5 mil anunciantes — um golpe que significou uma perda de mais de 8 milhões de euros. Steve Bannon, o guru da extrema direita internacional, era o proprietário do site e, à época, chamou o Sleeping Giants de “a pior coisa que há”. Como se sabe, Bannon é o homem por trás da engenharia de desinformação dos extremistas de direita no mundo inteiro. As mentiras que ajudaram a eleger Trump foram uma inspiração para o surgimento das mamadeiras de piroca que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Um estudante que desenvolve pesquisas sobre fake news leu essa reportagem do El País e decidiu criar a versão brasileira do Sleeping Giants. Em apenas quatro dias, o perfil ultrapassou a marca de 200 mil seguidores e virou um movimento coletivo contra a propagação de mentiras. Para se ter uma ideia do sucesso brasileiro, o perfil americano juntou 270 mil seguidores em quatro anos. As marcas passaram a ser cobradas e quase todas empresas anunciaram o fim dos anúncios em sites que disseminam mentiras. O sucesso da tática enfureceu as hostes bolsonaristas, que imediatamente partiram para o contra-ataque.

Um dos que lideraram a manada foi Filipe Martins, esse projeto sorocabano de Steve Bannon. Ele é o bolsonarista mais próximo do americano e foi o responsável por aplicar o seu know-how de mentiras no Brasil. O jovem de 31 anos é, junto de Carlos Bolsonaro, um dos arquitetos por trás do “gabinete do ódio”, conhecido oficialmente como Assessoria Especial da Presidência. Nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, Martins também é o responsável por fazer o meio de campo entre o governo e as milícias virtuais bolsonaristas: youtubers, blogueiros e sites de notícias falsas. É ele quem organiza o ódio bolsonarista e municia a militância com conteúdo.

O assessor especial provocou o criador do Sleeping Giants americano, Matt Rivitz, que causou aquele prejuízo milionário ao seu guru americano. É que no fantástico mundo olavista de Martins parece óbvio que há “forças globalistas” por trás da versão brasileira. O aprendiz de Steve Bannon chamou de “censura” e “prática totalitária” uma ação feita por livre iniciativa das pessoas que protestaram e das empresas privadas que optaram por retirar os anúncios. Onde está a turma do ultraliberalismo sem freio nessas horas? Cadê seu deus livre mercado agora?

O Sleeping Giants brasileiro começou focando nos anunciantes do site Jornal da Cidade Online, que já foi alvo de processos por publicação de mentiras e está sendo investigado pela CPMI das Fake News. O relatório da comissão afirma que há “indícios da prática de condutas ilegais de José Pinheiro Tolentino Filho por meio de seu projeto de comunicação Jornal da Cidade Online”. O site já teve que pagar 150 mil em indenização para o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, pela publicação de uma mentira sobre ele. Não é uma coincidência o fato dessa mentira ter sido publicada justamente na época em que Santa Cruz protagonizou um bate-boca público com Bolsonaro.

Assim como a maioria de sites e blogs ligados ao bolsonarismo, o Jornal da Cidade Online consegue faturar com anúncios através do Adsense, um serviço da Google que os distribui automaticamente para sites assinantes. Nesse formato, as empresas não escolhem para quais sites irão seus anúncios. É o algoritmo do Google que os distribui nos sites. Ao serem expostas como patrocinadoras de sites que publicam mentiras, as grandes marcas imediatamente se posicionaram.

Sleeping Giants Brasil
Oii @DellnoBrasil, tudo bem? Realmente seus notebooks são incríveis, só não acho legal divulga-los em site famoso por espalhar Fake News e atacar constantemente a democracia. Pls considere bloquear✊🏽#SleepingGiantsBrasil@DellnoBrasil
Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.

Oii @ClaroBrasil, tudo bem? Realmente é muito mega hein mas não acho legal encontrar esse anúncio em uma postagem que chama o @felipeneto de “imbecil,lixo, ícone da canalhice e verme”. Por isso pedimos: PLS BLOQUEIE!✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@ClaroBrasil
Olá! Nós não compactuamos com a disseminação de notícias falsas, temos o compromisso ético com a transparência da informação. Por isso, todos os nossos anúncios automáticos estão passando por monitoramento, em conjunto com as plataformas parceiras, que distribuem tais conteúdos.

Oii @iFood, tudo bem? Realmente o app quebra um galho na hora de pedir um @McDonalds_BR quando bate aquela fominha, mas acreditamos que eles não gostariam de saber que seu lanche está ajudando a financiar um site divulgador de Fake News! ✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@McDonalds_BR
Nosso time já retirou do ar nossa mídia vinculada a esse site e a qualquer outro que compactue com notícias falsas. Obrigado!

@fastshop @fastshop_sac vocês também tem anuncio lá, vamos tomar providências?

@fastshop
Informamos que não temos vínculos com nenhum portal jornalístico. Estamos analisando os anúncios com nosso nome e removendo das plataformas que anunciam de forma automática através de sites de busca. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas. Agradecemos por nos avisar.

Philips BrasilSegundo levantamento do UOL, o Jornal da Cidade Online contava com 903 anunciantes. Durante pouco mais de um ano, todas essas empresas fizeram juntas 1.987 anúncios diferentes no site. O maior anunciante foi o Banco do Brasil que, ao ser confrontado no Twitter, também informou que retiraria os anúncios:

Oii @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas não precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear!✊🏽#SleepingGiantsBrasil

@BancodoBrasil
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Foi aí que o gabinete do ódio pegou fogo. Filipe Martins e Carlos Bolsonaro acionaram a rede virtual bolsonarista, que reagiu em peso junto com políticos e outros expoentes da extrema direita. A deputada bolsonarista Carla Zambelli, doPSL paulista, e o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, também foram escalados para repudiar o episódio. Wajngarten, que cuida das verbas publicitárias do governo, disse que o governo irá “contornar a situação”e garantir a “defesa da liberdade de expressão”. Afirmou ainda ter certeza que o Jornal Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”.

Para os padrões de seriedade de Wjangarten, que é investigado pelos crimes de corrupção, peculato e advocacia administrativa, a análise faz sentido. O Jornal da Cidade Online é um veículo tão sério que alguns de seus repórteres e colunistas não existem. O site publicava textos assinados por repórteres com identidades falsas para poder atacar ministros do STF e adversários políticos de Bolsonaro. O site também está sendo processado por atacar desembargadores do Rio de Janeiro e o ministro Gilmar Mendes com ofensas e mentiras usando esses perfis falsos.

Leandro Ruschel
@leandroruschel
Caro @jairbolsonaro e @secomvc , há um banco estatal discriminando site jornalístico, com inclinação conservadora, seguindo mera denúncia sem provas de perfil anônimo, aparentemente ligado à esquerda. É preciso rever essa decisão. https://twitter.com/BancodoBrasil/status/1263126286484082691 … Banco do Brasil
@BancodoBrasil
Respondendo a @slpng_giants_pt
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Logo após o resmungo de Carluxo no Twitter, o Banco do Brasil, cujo gerente executivo de Marketing e Comunicação é filho do vice-presidente da República, voltou atrás da decisão e manteve os anúncios no site de fake news. Ou seja, um vereador carioca, lotado não oficialmente no gabinete do ódio, interferiu na política de anúncios de uma estatal. O filho do presidente da República conseguiu manter as verbas públicas que irrigam um site que defende o bolsonarismo espalhando fake news. É o dinheiro do povo brasileiro sendo usado para financiar a rede de mentiras que sustenta o governo.

Parece que finalmente estamos tomando um bom caminho para combater a máquina de propaganda fascistoide do bolsonarismo. A tática de constranger marcas que apoiam iniciativas se mostrou importante e eficaz, mas o Google, que gerencia a maior partes dos anúncios na internet, também deve ser cobrado. É ela quem controla o algoritmo que ajuda a financiar esses sites. Em novembro do ano passado, o Intercept revelou como o Google ofereceu treinamentos grátis para ensinar blogueiros bolsonaristas e antipetistas a faturarem com Adsense. Muitos desses blogueiros eram notórios criadores de fake news. Não adianta a empresa lavar as mãos.

O criador do Sleeping Giants brasileiro pretende se manter no anonimato porque viu o criador da tática sofrendo sérias ameaças de morte nos EUA. Mexer com a extrema direita é sempre perigoso. E, quando seu núcleo central mantém ligações políticas e financeiras com as milícias, todo cuidado é pouco.

Donald Trump e Putin: Conspiração?

Conspiração ou espionagem? O que se sabe sobre a acusação de que a Rússia interferiu na eleição de Trump

Trump sorrindo
Tuítes recentes de Trump ajudaram a inflamar ainda mais a polêmica sobre a suposta espionagem russa – Image copyrightAP

Com um tuíte, o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, inflamou ainda mais a polêmica sobre as suspeitas de que hackers russos influenciaram a eleição presidencial.

“Você consegue imaginar se o resultado da eleição fosse o oposto e NÓS estivéssemos tentando usar a carta da Rússia/CIA. Isso seria chamado de teoria da conspiração!”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

No fim de semana, as duas principais agências de segurança dos EUA – o FBI (Agência Federal de Investigações) e a CIA (Agência Central de Inteligência) – teriam descoberto intervenções da Rússia nas eleições do país para promover a vitória de Trump. As informações foram divulgadas em dois importantes jornais dos EUA com base em relatórios das duas agências.

Em outubro, o governo dos EUA já havia apontado a responsabilidade da Rússia nesses ataques e acusado o país de interferir na campanha do Partido Democrata. Mas, segundo as novas informações divulgadas pela imprensa americana, a Rússia tinha como motivação ajudar Trump.

Mas o que se sabe até o momento sobre a acusação de que Moscou, de fato, agiu para promover a vitória do bilionário?

O que diz Trump

Em entrevista à TV e também em seu Twitter, o republicano criticou e colocou em xeque as informações contidas nos relatórios do FBI e da CIA.

Falando à rede Fox News, Trump disse que os democratas estavam divulgando documentos “ridículos” porque estavam envergonhados com a escala da derrota que sofreram nas eleições.

Ele disse que a Rússia poderia estar por trás dos ataques, mas que era impossível saber. “Eles não fazem ideia se foi a Rússia, a China ou alguém sentado em uma cama em algum outro lugar.”

Trump caminhando ao lado de MelaniaTrump e sua equipe não pouparam críticas às agências de inteligência dos Estados Unidos – Image copyrightAP

A equipe do presidente eleito também criticou agências de inteligência dos Estados Unidos: “Essas são as mesmas pessoas que disseram que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa”.

O presidente eleito usou seu Twitter para questionar o porquê de as acusações não terem sido divulgadas antes da eleição.

“A não ser que você pegue os hackers no ato, é muito difícil determinar quem estava por trás da ação. Por que então isso não veio à tona antes?”, tuitou nesta segunda-feira.

O que dizem outros republicanos

Republicanos experientes têm se juntado aos democratas para pedir investigações sobre o caso. O senador republicano John McCain disse, em um comunicado conjunto com líderes democratas, que o relatório da CIA “deveria deixar qualquer americano alarmado”.

Ele afirmou que o Congresso deveria abrir uma investigação e que esta deveria ser ainda mais minuciosa do que a que será conduzida pela Casa Branca.

Nesta semana, o presidente Barack Obama, que deixa o cargo em 20 de janeiro, ordenou uma apuração sobre uma série de ataques cibernéticos que teriam sido promovidos pela Rússia durante a campanha eleitoral nos EUA.

De acordo com a Casa Branca, o relatório – que deve ser finalizado até o fim do mandato do democrata – será uma “sondagem profunda sobre um possível padrão de uma crescente atividade maliciosa na internet durante a temporada eleitoral”.

As acusações foram negadas por funcionários do governo russo.

O que dizem os relatórios, segundo a imprensa

De acordo com o jornal The New York Times, os dois órgãos concluíram que “seguramente houve uma participação russa para hackear essas informações”.

Segundo o jornal, entre os documentos obtidos pelos hackers estariam as contas de e-mails do Comitê Nacional Democrata e do presidente da campanha de Hillary Clinton, John Podesta.

O NYT afirma ainda que as agências de inteligência acreditam que essas informações teriam sido repassadas pelos russos ao WikiLeaks, que vazou o conteúdo.

O Washington Post afirma que um relatório da CIA chegou a informações parecidas. O jornal cita um oficial do governo dos EUA para afirmar que “a análise das agências de inteligência é de que o objetivo da Rússia era favorecer um candidato sobre o outro e ajudar na vitória de Trump”.

Hillary e Trump durante debateE-mails de Hillary Clinton e de seus assessores foram hackeados

Os novos detalhes teriam surgido durante a apresentação dos relatórios pelas agências de inteligência aos senadores na semana passada.

A reunião teria ocorrido com portas fechadas, mas, segundo o Washington Post, as informações teriam sido passadas por um funcionário do governo que não quis se identificar.

O que dizem os democratas

Na época da campanha eleitoral, e-mails da candidata democrata Hillary Clinton e de seus assessores foram sido hackeados, e o conteúdo, enviado ao WikiLeaks e postado online.

A divulgação causou problemas à campanha dos democratas. A então candidata passou boa parte dos debates se explicando sobre os emails, especialmente a descoberta de que ela quebrou regras oficiais ao trabalhar com informações secretas usando um servidor privado em sua casa em Nova York quando ainda era secretária de Estado.

Hillary e sua equipe não se cansaram de acusar o rival republicano e de que os russos estavam por trás da invasão às contas de email dos democratas.

John PodestaPodesta fez duras acusações contra russos e a campanha de Trump
Image copyrightAP

Um dos críticos mais severos foi John Podesta, chefe de campanha de Hillary, cuja conta também foi invadida. Na época, ele acusou o governo russo de responsabilidade pelo vazamento e disse que a campanha de Trump já sabia a respeito.

O que diz analista da BBC

Para o correspondente da BBC em Washington, Anthony Zurcher, apesar de Trump dizer o contrário, ele entrará na Casa Branca em uma situação complicada – e a derrota na votação popular de 2,8 milhões de votos é apenas um dos fatores que colaboram para isso.

“Esse cenário provavelmente explica o porquê de a equipe de Trump estar respondendo de maneira tão incisiva as acusações de que hackers russos influenciaram a política americana em uma tentativa para favorecer o republicano. Assim como a recontagem dos votos, isso pode ser visto como outra maneira de minar a legitimidade da vitória de Trump”, afirmou o correspondente.

Para Zurcher, não importa que seja bem pouco provável que a recontagem altere os resultados das eleições ou que os ataques hackers estejam lá no fim da lista de motivos que causaram a derrota de Hillary.

“Os tuítes raivosos de Trump e a indignação de seus partidários são evidência suficiente de que o presidente eleito se sente ameaçado. No caso da Rússia, no entanto, os comentários raivosos de Trump podem custar um alto preço político.”

Notícias falsas: Como reconhecê-las antes de partilhar

Um passo a passo de checagem para não disseminar mentiras pelas redes sociais

Ron Burgundy’ (Will Ferrell) é que dava notícias confiáveis.
Ron Burgundy’ (Will Ferrell) é que dava notícias confiáveis.

As notícias falsas não são nenhuma novidade, mas nas últimas semanas falou-se muito sobre elas. Segundo alguns veículos de comunicação, esses boatos poderiam ter influenciado os resultados das eleições norte-americanas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Embora a afirmação seja discutível, é fato que a campanha foi muito polarizada e teve, além disso, um elevado componente emocional: poucas vezes os candidatos geraram sentimentos tão confrontados como Donald Trump e Hillary Clinton, o que teria contribuído para que as notícias fossem ainda mais comentadas e compartilhadas. As autênticas e as falsas.

Os sites que teriam criado e distribuído essas mentiras teriam agido por motivação política, mas também econômica: essas matérias chamam a nossa atenção por serem mais sensacionalistas (exemplo: Clinton vendeu armas ao Estado Islâmico) e, além disso, como a notícia é inventada, o título não precisa competir com os de outros veículos sobre o mesmo tema.

Identificar uma notícia falsa nem sempre é fácil. Em caso de dúvida, estes são seis sintomas que deveriam pelo menos nos fazer suspeitar.

1. A notícia é boa demais para ser verdade. Em abril circulou uma citação de Dom Quixote que parecia se adequar com perfeição àquilo que alguns pensam sobre o partido espanhol Podemos. Falava inclusive de marionetes e cavalgadas, como se Cervantes tivesse antevisto a polêmica do último 6 de janeiro. Obviamente, tratava-se de uma falsa citação.

Também parecia quase perfeita a história de uma caçadora que posava com um leão que havia abatido e que, em plena gravação do vídeo, era atacada por outro leão, no que parecia um ato de justiça animal. Era, na verdade, parte de um experimento.

Às vezes, estas histórias têm origem em piadas, como a frase de Fidel, também falsa, em que dizia que Cuba reataria com os Estados Unidos quando este país tivesse um presidente negro, e o Papa fosse latino-americano. E, não, Castro tampouco disse que só morreria depois de assistir à destruição dos Estados Unidos.

De fato, e numa linha muito similar, muitas vezes são levadas a sério publicações assumidamente satíricas. A intenção de veículos como Sensacionalista e The Onion não é, nem de longe, enganar ninguém, e sim parodiar a atualidade (e seu tratamento jornalístico). Mas se não conhecermos o site, ou, pior, se for difundido em outro veículo sem perceber que se trata de conteúdo humorístico, corremos o risco de nos confundir.

Em geral, é preciso desconfiar de histórias que encaixam de uma forma tão perfeita que parecem pré-fabricadas. Em geral, são mesmo.

2. Não há fontes mencionadas. O melhor do boato do Quixote é que era facilmente comprovável: bastava ir ao site gutenberg.org, procurar a edição online do texto e fazer uma busca do fragmento. Por isso, a maior parte dos boatos e notícias falsas não menciona nenhuma fonte, o que dificulta seu rastreamento.

Por exemplo, um dos boatos mais compartilhados durante as eleições norte-americanas dava conta de que o papa Francisco apoiava Donald Trump. O texto falava de “meios de comunicação”, citava um comunicado sem links e, em algumas versões, chegava inclusive a incorporar declarações de “fontes próximas ao Papa”, mas sem dar nomes.

Também é preciso desconfiar se a fonte é alguma variante do clássico “um amigo de um amigo”. Ou seja, se são citados dados vagos, como “todo mundo conhece alguém que…” ou “já vi muitos casos de gente que…”. No mínimo, é muito possível que o autor esteja extrapolando a partir de casos episódicos, ignorando qualquer outra informação que contrarie sua versão.

Às vezes, atribui-se a declaração a um veículo para lhe dar credibilidade, como ocorreu com a também falsa declaração de Trump de que “os republicanos são os eleitores mais estúpidos”. Pelo menos nesses casos, pode-se recorrer à fonte citada para confirmar ou não a informação.

Como reconhecer uma notícia falsa antes de compartilhá-la com seus amigos
 Se o possível boato for uma foto, pode-se procurar a imagem no Google Images– usando inclusive filtros por data, para evitar o ruído gerado no buscador nos dias em que esse material é notícia. Às vezes, trata-se de fotos publicadas previamente e que nada têm a ver com a suposta notícia. Essa busca também pode ajudar a identificar montagens.

No caso de notícias sobre virais, como vídeos, fotos e outros, é importante que o veículo tenha conversado com o autor da publicação original. Às vezes, trata-se de conteúdo humorístico ou de montagens que podem ser levadas a sério quando tomadas fora de contexto.

3. O resto do site tampouco parece confiável. Se a notícia continua parecendo suspeita, outras três coisas podem ser comprovadas muito facilmente sem sair do site que a publicou:

  • O veículo. Obviamente, os veículos de comunicação convencionais também publicam notícias falsas, mas por engano e ocasionalmente, não de forma sistemática e porque seja parte do seu modelo de negócio, como ocorre em outros casos. Agora, é verdade também que, quando um veículo respeitado comete um erro desse tipo, as consequências são piores, porque em geral se confia mais nessa publicação.
  • Se não conhecemos o veículo, frequentemente basta dar uma olhada na capa para saber se o resto das suas notícias parecem confiáveis, ou se estamos diante de uma publicação satírica ou fanaticamente partidária. Segundo uma reportagem do Buzzfeed, essa última categoria difunde entre 19,1% e 37,7% de notícias falsas, enquanto nos veículos tradicionais analisados (CNN, ABC e Politico) o percentual não chegava a 1%.
  • A URL. Muitas notícias falsas sobre as eleições foram divulgadas por meio de sites que imitavam os endereços de veículos de comunicação, mas que não eram autênticos, como bbc.co em vez de bbc.com. Além disso, nas redes sociais, as contas podem ser identificadas: se aparece o selo azul ao lado do nome no Twitter e no Facebook, pelo menos sabemos que se trata da página oficial da publicação.

4. Não foi publicada em outros veículos. Se uma informação apareceu em outros veículos de comunicação, é menos provável que seja falsa. Obviamente, pode se tratar de uma notícia exclusiva, mas, mesmo nesses casos, é provável que outros veículos a repercutam. Por outro lado, não se pode descartar que o boato se reproduza sem que ninguém tenha tomado o cuidado de tentar confirmar sua veracidade.

No caso de informação política, uma boa ideia pode ser buscá-la também em veículos que tenham uma outra linha editorial. Mas a distorção não é necessariamente apenas da parte do veículo: muitas vezes, nós acreditamos naquilo em que queremos acreditar. É muito fácil questionar os boatos que contradigam as nossas ideias, mas não vemos nenhum inconveniente em dar como certos aqueles que as reforçam.

5. Lembra alguma coisa. Muitas dessas notícias seguem um esquema que já foi utilizado em outras ocasiões. Frequentemente, é possível até mesmo rastrear a origem dessas notícias falsas em lendas urbanas clássicas, como a história de Ricky Martin e a geleia, cuja primeira versão aparece em um relato humorístico dos anos 50.

Podemos lembrar, também, a carta falsa do prefeito de Zaragoza explicando que não proibiria a carne de porco nos restaurantes das escolas a pesar dos pedidos dos muçulmanos, um boato que já havia circulado na França e na Bélgica. Algo semelhante aconteceu com as histórias que diziam que o Facebook passaria a ser pago, assim como as correntes que ameaçavam com o fechamento do Messenger e do Hotmail. Em outras histórias, como a da suposta “camisinha armadilha”, encontramos analogias com mitos de várias culturas (a vagina dentada).

6. O Snopes a desmentiu antes. Este conselho aparece no final, mas bem poderia ser a primeira coisa a fazer. Este site é a principal ferramenta na hora de confirmar ou desmentir um boato, pelo menos em língua inglesa. Para mencionar alguns exemplos recentes, a origem do Black Friday não está na venda de escravos e Donald Trump não ganhou no voto popular, apesar do que disseram algumas notícias falsas. Há também alguns casos clássicos, como o das galinhas de quatro coxas da Kentucky Fried Chicken. O site também contém um banco de dados com os veículos que divulgam notícias falsas.

Logicamente, uma notícia pode ser autêntica e também engraçada. Ou pode seguir um esquema que lembre o de outras grandes histórias. Ou pode ser publicada em um veículo do qual não sabemos nada. Por vezes acontece de a realidade acabar imitando as lendas urbanas. Muitas boas atraem a atenção justamente por esses motivos. Mas quando vários desses indicadores aparecem juntos, convém no mínimo desconfiar.

Como o Facebook pode ter ajudado Trump a ganhar a eleição

Nos Estados Unidos, a mídia impressa leva muito a sério seu papel no processo democrático.

Donald Trump discursa durante a campanhaTrump fez das redes sociais uma arma para “driblar” a mídia tradicional
Image copyrightGETTY IMAGES

Quando chega o momento de uma eleição presidencial, jornais e revistas acreditam que seu apoio formal a um ou outro candidato é repleto de significância, e que suas recomendações serão analisadas com seriedade por seus leitores.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Bem, nós agora sabemos que não é bem assim – praticamente todos os grandes jornais dos EUA ou declararam apoio a Hillary Clinton ou deixaram de endossar Donald Trump na campanha de 2016. E isso inclui veículos de mídia que no passado foram fiéis a candidatos do Partido Republicano.

Na verdade, a mídia impressa americana, assim como os veículos de TV, estão despertando para o fato de que sua influência pode ser mínima em comparação com o Facebook.

Manchetes de jornais em Nova YorkJornais americanos em sua maioria se recusaram a apoiar Trump
Image copyrightGETTY IMAGES

Em 1992, na eleição-geral do Reino Unido, o tablóide The Sun gabou-se de ter “vencido” a eleção para o Partido Conservador, que estava em situação delicada na disputa com os trabalhistas. Nos EUA, agora, há quem pergunte se a rede social mais popular do mundo não fez o mesmo no triunfo de Trump.

Eis o argumento principal: 156 milhões de americanos têm contas no Facebook e, de acordo com pesquisas, pelo menos dois terços deles usam a rede social como fonte primária de notícias.

Essas notícias podem, volta e meia, vir de veículos mais tradicionais de mídia – incluindo os jornais que endossaram Hillary. Mas o que cada usuário vai ver dependerá de quem são seus amigos e do que eles compartilham.

Daí vem a noção de uma “bolha”: pessoas que estavam inclinadas a votar em Trump na eleição da última terça-feira apenas viram histórias que refletiam sua visão do mundo. E o mesmo se deu com aqueles que simpatizavam com Hillary.

É claro que podemos dizer que esse tipo de filtragem sempre ocorreu – pessoas de orientação liberal tendiam a ler jornais liberais. Pessoas mais conservadores encontravam suas ideias refletidas pelo que liam. A diferença é que a maioria dos editores tentava fazer duas coisas – apresentar ao menos algumas opiniões alternativas e assegurar que os fatos de qualquer história fossem checados.

Imagem de escritório do Facebook nos EUARede social é criticada por não checar fatos ou zelar por diversidade de opiniões
Image copyright
GETTY IMAGES

O Facebook não leva a cabo nenhum desses dois procedimentos. O algoritmo do feed de notícias veicula o que “pensa” ser a sua opinião e a de seus amigos e certamente não checa fatos. Um exemplo é que, durante a campanha presidencial americana, histórias acusando Hillary de assassinato ou que “revelavam que o presidente Barack Obama é muçulmano” apareceram nas páginas de pessoas com tendência de apoio a Trump.

Também ocorreu o contrário. Um falsa declaração supostamente feita pelo bilionário em 1998, em que ele dizia que seria simples ser candidato pelo Partido Republicano “porque seus eleitores são burros”, continua circulando na rede social graças ao compartilhamento de americanos que não gostam de Trump.

Os dois grandes partidos americanos (Democrata e Republicano) vêm usando extensivamente o Facebook como arma eleitoral nos últimos anos. Porém, para Trump, as redes sociais ofereceram uma maneira poderosa de levar sua mensagem diretamente ao eleitorado. Ainda mais porque sua campanha considerava a maior parte da mídia tradicional como hostil e parcial.

Donald Trump posa para fotosFacebook e Twitter podem ajudaram Trump a capturar eleitores indecisos
Image copyrightGETTY IMAGES

É possível dizer que, sem o Facebook, Trump não seria o próximo ocupante da Casa Branca?

É difícil responder, mas parece provável que as mídias sociais serviram para polarizar opiniões em uma campanha eleitoral já acalorada. E que podem ter ajudado a trazer eleitores indecisos para o lado do bilionário. E isso questiona a alegação do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, de que a rede social se trata apenas de uma plataforma tecnológica, não de uma poderosa empresa de mídia.

Mas há alguns sinais de que o Facebook está pronto para encarar essa imensa responsabilidade ou ao menos refletir sobre os recentes eventos. Na quarta-feira, a jornalista da BBC Jane Wakefield entrevistou o diretor de Tecnologia da empresa, Mike Schroepfer, durante uma passagem por Londres. E ela perguntou a Schroepfer qual o papel que, na sua opinião, a mídia social tinha desempenhado na eleição.

“É difícil especular. Nossa premissa é que as pessoas podem publicar e comunicar o que elas querem discutir”, disse o executivo.

Mas Zuckerberg também falou. Em um post revelando o sentimento de “estar esperançoso” – e com uma foto dele segurando sua filha bebê enquanto assistia à cobertura da eleição – o criador do Facebook contou-nos que estava “pensando em todo o trabalho à frente para criarmos o mundo que queremos para nossas crianças”.

Mark Zuckerberg
Post de Mark Zuckerberg na noite da eleição Image copyrightFACEBOOK

Zuckerberg falou especificamente em curar doenças, melhorar a educação, conectar as pessoas e promover oportunidades iguais – e definiu esta missão como “maior do que qualquer presidência”.

Nos comentários, diversas pessoas pareceram apreciar o pensamento de Zuckerberg. “Obrigado por estar usando sua influência para o bem” foi uma resposta típica.

Mas Zuckerberg não apresentou ainda uma reflexão sobre como ele influenciou a maneira como americanos viram a campanha eleitoral e seu impacto foi positivo para o processo democrático. Magnatas da mídia ao longo da história, como William Randolph Hearst e Rupert Murdoch, vem tentando dominar a política. E se orgulharam desse poder.

Mas Mark Zuckerberg parece determinado a fingir que ele não é nem mais nem menos influente que qualquer uma das 1,6 bilhão de pessoas que são suas “leitoras”.

E que nos últimos dias viram o mundo mudar.
Rory Cellan-Jones/BBC

A crise dos rituais eleitorais

Foto publicada no Blog de Edson Novaes Ganhando ou perdendo, o milionário Donald Trump já destruiu muitos mitos sobre as eleições norte-americanas.

Mostrou também que muitas ideias populares sobre rituais democráticos estão perdendo o seu fascínio e aceitação acima de qualquer dúvida.

Aqui no Brasil, o resultado do segundo turno nas eleições municipais também revelou que muitos comportamentos antes solenemente condenados, já não são mais tidos como pecados capitais em comportamento político individual.

Caleb Crain, escritor norte-americano, produziu um demolidor artigo na revista New Yorker onde resgata uma série de pesquisas de opinião para mostrar como o eleitor norte-americano é terrivelmente desinformado sobre o sistema político em seu próprio país.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Um terço dos norte-americanos acham que o slogan marxista ‘de cada um conforme a sua possibilidade e a cada um conforme a sua necessidade’, está na constituição dos EUA”, diz Crain que acrescenta em seu texto: “Quase a mesma proporção de eleitores não sabe quais são os três poderes que garantem a democracia no país”.

As campanhas eleitorais e com elas, todos os rituais surgidos em torno do exercício do voto, estão sofrendo o impacto direto da massificação das estratégias publicitárias e do encastelamento da classe política numa redoma de privilégios e cumplicidades. A abstenção e o voto nulo começaram a abalar todo o clássico discurso sobre participação cidadã na definição dos rumos do Brasil.

Por outro lado, os escândalos de corrupção envolvendo parlamentares e governantes minaram severamente a credibilidade dos responsáveis por um sistema político que até agora era apontado como a pedra angular da democracia.

Esta ignorância sobre o que é e como funciona a democracia não surgiu agora com o fenômeno Trump. Ela já é antiga mas era minimizada pela imprensa e pelos políticos norte-americanos mas bastou o surgimento de um milionário arrogante para que as falácias sobre o sistema fossem expostas a luz do dia.

O fenômeno Trump mostrou que é grande o número de norte-americanos desiludidos com a política e que descreem na forma como os dois maiores partidos se revezam no poder há mais de um século.

A desilusão dos eleitores

Aqui no Brasil, o fenômeno Lava Jato mirou no governo Lula mas acabou acertando na credibilidade pública dos poderes Legislativo e Executivo, com algumas escoriações no Judiciário.

Ao mexer na abelheira da corrupção eleitoral para derrubar Dilma Rousseff e tentar impedir a candidatura presidencial de Lula em 2018, os responsáveis pela Lava Jato, com a colaboração da imprensa e da Polícia Federal, escancararam para o eleitor brasileiro o que rola nos bastidores da política e principalmente das eleições no país.

Daí não haver surpresa alguma pelo fato dos eleitores preferirem candidatos que se apresentaram como não políticos, ou simplesmente decidiram não votar em ninguém. Os porta-vozes do sistema tentam achar explicações convincentes para o óbvio mas só conseguem reforçar o fato de que não querem ou não conseguem ir mais fundo na identificação do crescente distanciamento entre o publico brasileiro e seus governantes.

A metralhadora giratória de Donald Trump agrada os eleitores que não sabem identificar os três poderes de seu país e torna evidente que a tão decantada democracia norte-americana é, em boa parte, um produto de marketing político. Se o voto não fosse obrigatório aqui no Brasil os números da desilusão e da desesperança seriam ainda mais impactantes.

Joshua Rothman, um colunista da revista The New Yorker, mostrou como a radicalização política gerada pelo fenômeno Trump envenenou a vida nas comunidades norte-americanas num fenômeno que ocorreu aqui também, especialmente depois da crise gerada em torno do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Rothman cita o livro da pesquisadora Nancy Rosenblum, autora do livro “Good Neighbors: The Democracy of Everyday Life in America” no qual ela afirma que estamos vivendo dois tipos diferentes e, às vezes antagônicos, de democracia: a política dos partidos e a política do dia a dia.

Na primeira agimos como cidadãos e na segunda como vizinhos. O problema é que hoje começamos a nos comportar cada vez mais como vizinhos porque as opções políticas antagônicas se tornaram cada vez mais próximas do nosso dia a dia. Acabamos contagiados pela polarização entre os políticos, com a consequente redução da tolerância entre vizinhos e amigos.

O que se torna cada vez mais claro, e que tanto lá como aqui, não é a democracia que está em crise, mas o discurso criando em torno dela e os seus autoproclamados lideres e defensores. A divulgação dos negócios bilionários com dinheiro publico para fins pessoais e eleitorais aqui no Brasil bem como a publicação dos e-mails de Hillary Clinton mostraram como a classe governante nos dois países administra o Estado como um bem privado.

Mostrou também um crescente descrédito de uma parcela considerável de eleitores que já descreem também na capacidade do sistema se auto-depurar. Esta é uma possibilidade preocupante e que nos coloca diante de dois cenários possíveis: uma anarquia resultante da falência moral da classe dirigente e da inexperiência política dos cidadãos comuns; ou um vácuo político que abre caminho para um autoritarismo herdeiro de Hitler, Stálin e Pinochet.

***

Carlos Castilho é jornalista e editor do site do Observatório da Imprensa

EUA teme ataque de hackers russos no dia das eleições

O governo dos Estados Unidos teme um ataque massivo de hackers russos no dia das eleições presidenciais, em 8 de novembro.

De acordo com a emissora NBC, foi criada uma força-tarefa sem precedente coordenada pela Casa Branca e pelo Departamento de Segurança Nacional, com apoio do Pentágono e das principais agências de segurança, da CIA à NSA. [ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Nos últimos meses, fontes do governo norte-americano acusaram hackers russos de invadirem sistemas e divulgarem informações confidenciais.

Um desses ataques teria violado o sistema do Pentágono.

Além disso, a candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, diz que a Rússia apoia o seu adversário, o republicano Donald Trump.

Washington está se preparando para o pior cenário, o qual envolveria um ciberataque total ou parcial que derrubasse a rede elétrica ou a conexão à Internet nos Estados Unidos.

Mas os agentes também estão trabalhando para montar ações contra manipulação e desinformação nas redes sociais, como Twitter e Facebook, onde poderiam ser publicados documentos falsos.

“Trump é narcisista e perigoso”, diz ex-presidente do Banco Mundial

Em entrevista à DW, Robert Zoellick diz por que não quer o bilionário na Casa Branca e por que acredita que Hillary Clinton sairá vencedora. O candidato republicano é “orientado pelo ego”, afirma.

Donald Trump

Robert Zoellick foi presidente do Banco Mundial de 2007 a 2012. Antes disso, trabalhou em vários governos republicanos, inclusive como secretário de Estado adjunto e Representante para Comércio dos EUA. Em entrevista à DW, ele fala de suas diferenças ideológicas com Trump e da ameaça que este representaria se fosse eleito presidente.
[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Para ele, o candidato republicano é “narcisista” e “orientado pelo ego”. “Tive a sorte de servir a uma variedade de presidentes, sei a importância desse trabalho e não quero Trump no Salão Oval”, afirma.

DW: O senhor, juntamente com muitos líderes republicanos, se opôs fortemente às ideias sobre políticas externa e econômica de Donald Trump, declarando que não poderia votar nele, já que ele “seria o presidente mais irresponsável na história americana”. O senhor mantém essa avaliação sobre Trump?

Robert Zoellick: Sim. Esta é uma eleição particularmente incomum na vivência americana. Por um lado, Hillary Clinton é uma figura estabelecida, que faz uma campanha tradicional seguindo regras do passado. Mas as regras estão em movimento. Donald Trump, por outro lado, defende a visão de que este sistema está fundamentalmente quebrado. Ele prega a mudança e vende a ideia de que ele, como alguém de fora, é a pessoa que pode fazer essa mudança. E ele usa sua experiência empresarial, mas especialmente – e isso que achei um elemento particularmente preocupante – a noção de que parte do problema é causada pelo “outro”. E o “outro” pode ser mexicano, muçulmano ou outros estrangeiros. Vimos antes na história o que acontece quando países culpam os outros por seus problemas.

Minhas diferenças ideológicas com Trump não envolvem apenas política – seu protecionismo, sua paixão por líderes autoritários e [o presidente russo,] Vladimir Putin. Mas também acho que ele é uma pessoa narcisista, orientada pelo ego e que seria perigoso. Eu tive a sorte de servir a uma variedade de presidentes, sei a importância desse trabalho e não o quero [Trump] no Salão Oval.

Qual é a sua opinião sobre a candidata presidencial democrata Hillary Clinton e a nova investigação sobre emails dela pelo FBI, possivelmente relacionada a uma investigação anterior?

Robert ZoellickZoellick foi presidente do Banco Mundial entre 2007 e 2012

Ela representa o establishment no lado democrata. Uma das ironias é que se os democratas não tivessem os chamados superdelegados, ela poderia não ter sido nomeada, ela poderia ter perdido para Bernie Sanders.

Portanto, este movimento populista é um fenômeno na esquerda e na direita. Isso irá afetá-la se ela for eleita presidente, porque o Partido Democrata não é mais o partido de 1990, quando seu marido era presidente. Você já pode ver que Elizabeth Warren, Bernie Sanders e outros alertam que já existe uma lista negra de pessoas que você não pode nomear.

Essa questão vai ser bastante importante para o futuro, caso ela seja eleita. Porque a questão é se ela vai tentar se mover para o centro e, no processo, tentar realinhar algo dos partidos e cooptar alguns republicanos, já que acredito que ela pegará alguns votos dos republicanos. Mas, ao mesmo tempo, em nosso sistema, ao contrário do sistema parlamentar alemão, você tem que trabalhar com o Congresso. Então, eu pessoalmente acho que ela tem mais personalidade para trabalhar com o Congresso do que o presidente Obama.

Quem o senhor acha que seria um melhor presidente para a Europa e para o mundo e por quê?

Acho que Trump é perigoso em todas as frentes. E acho que uma presidente Clinton adotará uma política mais firme em relação à Rússia, sem necessariamente ser beligerante. Mas ela se deixou acuar em relação a questões comerciais, o que não acho que seja algo bom para a Europa, os EUA ou outros.

Há maneiras de ela encontrar uma solução alternativa a isso, e os primeiros compromissos dela, com representantes de comércio dos EUA, vão ser importantes para sinalizar isso. Também penso, seja no caso do presidente Obama ou do próximo presidente, que os Estados Unidos e a Alemanha foram um pouco desleixados nesse ponto. Acho que há coisas que os EUA poderiam fazer, por exemplo, quanto às negociações do Brexit, que poderiam ajudar no processo entre a UE e o Reino Unido.

Hillary ClintonZoellick aposta que Hillary Clinton se tornará a próxima presidente dos EUA

Da mesma forma, acho que, com um país como a Polônia, com o qual os EUA têm laços tradicionalmente fortes – e os poloneses contam com os EUA na questão da segurança – existem maneiras de os EUA serem, talvez, solidários, dizendo aos poloneses que você vai ter que ser mais cooperativo no sistema geral, porque há sinais na Polônia e na Hungria que parecem um pouco com o que havia no período entre guerras.

Os Estados Unidos poderiam ser mais solidários de diferentes maneiras, mas não tenho certeza se uma presidente Clinton e sua equipe seriam criativos nesse sentido. Eles podem estar propensos a deixar a Europa para os europeus. Enquanto os europeus, é claro, têm que ser aqueles que tomam as decisões. Acho que os Estados Unidos poderiam ser solidários e úteis.

O senhor, então, votará em Clinton? Qual é a sua previsão para a eleição?

Eu disse que não vou votar em Trump. Mas nos Estados Unidos a votação é secreta. Eu já dei meu voto, porque devo estar viajando no dia.

Não acho que o mais recente relatório do FBI possa virar o jogo e tranquilamente diria que Hillary Clinton tem cerca de 70% de chance. E parte disso se deve ao colégio eleitoral no sistema americano, no qual se você ganha um estado, você ganha todos os votos desse estado. Se tivesse que fazer uma aposta, eu diria que na quarta-feira estaremos felicitando a presidente Clinton.

O Partido Republicano tem sido dilacerado por Donald Trump nesta campanha. Qual deverá ser o futuro da legenda após a eleição?

Essa é outra questão bastante incerta. Acho que parte dela depende do desempenho final de Trump. Vejo três facções. Uma delas será de pessoas intimamente associadas a Trump. No caso da derrota dele, esta vai buscar vingança e retaliação, e a continuação do ódio que ele tem representado.

Há outro grupo, associado ao senador Ted Cruz, do Texas, que estará competindo com o candidato à vice-presidência, o governador Mike Pence, de Indiana, e que vai assumir a visão de que Trump está correto e de que o sistema está quebrado e de que precisamos mudar, mas que ele não era conservador o suficiente.

E haverá muitos outros, incluindo uma série de governadores republicanos e o presidente da Câmara, Paul Ryan, que favorecem políticas mais inclusivas, e eles vão adotar posições diferentes. É difícil dizer como isso funcionará. Eu também acho que você poderá ver uma mudança de geração, já que as pessoas procuram novos rostos.

Falta de transparência pode prejudicar Hillary mais do que pneumonia

Anúncio de dois incidentes de saúde da candidata democrata à Casa Branca não deve afetar corrida presidencial. A forma como sua campanha lidou com a repercussão do caso, porém, pode ter impacto negativo.

Hillary Clinton

Dúvidas sobre a saúde da candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, vieram à tona no início do mês, quando ela teve um acesso de tosse durante um comício em Cleveland, no estado de Ohio.

Enquanto assessores de sua campanha garantiram que Hillary sofre de alergias sazonais, o episódio imediatamente ganhou atenção nacional e foi debatido por alguns círculos conservadores que já tinham ventilado teorias sobre o estado de saúde da democrata.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O diagnóstico feito pelo médico de Hillary de que ela está com pneumonia, revelado no domingo, depois de a ex-secretária de Estado ter passado mal – o que foi descrito inicialmente como um incidente causado pelo forte calor – durante cerimônia referente ao 15º aniversário dos ataques de 11 de setembro, é uma má notícia para a democrata.

Mas os recentes episódios referentes à saúde de Hillary não vão tirá-la da corrida presidencial contra Donald Trump – na qual Hillary ainda é apontada como favorita –, nem fazem diferença para os fervorosos simpatizantes de Trump ou para as pessoas que já decidiram votar contra ela, avaliam analistas políticos. Além disso, o crucial grupo dos indecisos não deve decidir votar contra Hillary exclusivamente com base nesses dois incidentes – o diagnóstico de pneumonia e o mal-estar num evento público.

“Não acho que seja uma guinada na disputa”, opina James Davis, especialista em política americana e internacional na Universidade de St. Gallen, na Suíça.

“Desde que ela retorne à campanha em três ou quatro dias, não creio que influenciará a corrida”, estima Iwan Morgan, chefe do programa de estudos sobre os Estados Unidos na University College London.

Problema está na gestão de crises

Não é incomum que candidatos presidenciais adoeçam durante a extenuante campanha eleitoral, que pode durar até dois anos. E é por isso que, segundo os estudiosos, mais importante do que os incidentes de saúde em si é a forma como a equipe de campanha de Hillary vai lidar com a repercussão dos incidentes.

E nesse ponto – administrar e comunicar o estado de saúde da democrata – os assessores de Hillary poderiam ter feito um trabalho melhor, diz Davis: “Não entendo por que eles não anunciaram já na sexta-feira, quando, aparentemente, ela foi diagnosticada. Se eles tivessem dito que ela estava doente e que precisava de uma pausa, isso não teria sido um grande problema”.

De acordo com Davis, o momento do anúncio do diagnóstico de pneumonia de Hillary é “um prato cheio àqueles que argumentam que sua campanha não é muito transparente”.

Para Morgan, é um tanto curioso que a saúde de Hillary esteja em pauta agora, uma vez que ela se submeteu a exames médicos muito mais rigorosos do que os feitos pelo adversário republicano.

Trump e Hillary são os candidatos mais velhos da história a concorrer à presidência

Candidatos mais velhos deveriam divulgar registros

Para acabar com a especulação sobre a saúde dos candidatos – que são os mais velhos a disputar uma eleição presidencial –, Hillary (68) e Trump (70) deveriam simplesmente liberar seus registros médicos completos, sugerem Davis e Morgan.

“O povo americano tem o direito de saber se eles estão elegendo alguém que tem a energia e a saúde necessárias para executar o mandato”, argumentou Davis.

Especialmente levando-se em consideração que equipes de campanha ao longo da história nem sempre foram transparentes sobre o real estado de saúde de seus respectivos candidatos.

Quando Franklin Delano Roosevelt concorreu à Casa Branca, a maioria das pessoas não sabia que ele passava a maior parte do tempo em uma cadeira de rodas, mencionou Davis. E que John F. Kennedy tinha sérios problemas nas costas e tomava fortes analgésicos também não ficou conhecido, acrescentou Morgan.

Tendo em conta estes antecedentes históricos, depende agora da conduta da equipe de campanha se estes episódios de saúde de Hillary vão desaparecer ou continuar sendo uma questão eleitoral.

“A campanha precisa ser aberta e transparente, deixar que o povo americano saiba qual é o diagnóstico e dar uma indicação do que ela fará para se recuperar”, disse Davis. “E se eles fizerem isso de forma aberta e honesta, tudo vai passar.”
DW

Eleições USA: O que Trump quis dizer ao pedir que donos de armas detenham Hillary?

O candidato à Presidência americana pelo Partido Republicano, Donald Trump, desencadeou nova polêmica ao sugerir que donos de arma poderiam deter sua rival na disputa, a democrata Hillary Clinton.

Donald Trump em comício na Carolina do Norte
Trump sugeriu que Hillary poderia ser ‘parada’ por defensores da 2ª emenda, que “protege o direito dos americanos de manter e portar armas”
Image copyrightREUTERS

A declaração, feita durante um comício na Carolina do Norte na tarde de terça-feira, foi interpretada por muitos como uma incitação à violência, gerando forte repercussão na imprensa e nas redes sociais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Trump afirmou que Hillary nomearia juízes liberais à Suprema Corte americana (equivalente ao STF brasileiro) se vencesse as eleições presidenciais em novembro, o que supostamente ameaçaria os direitos ao porte de armas.

“Hillary quer essencialmente abolir a segunda emenda (que protege o direito do povo de manter e portar armas). Aliás, se ela puder escolher os juízes, vocês não poderão fazer nada, amigos”, disse Trump. “Quem sabe o pessoal da segunda emenda (possa), não sei.”

O empresário negou que estivesse promovendo violência contra a rival. Segundo Trump, seu intuito era fazer com que portadores de armas de fogo votem em grande número.

Mas o republicano Paul Ryan, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos (Câmara dos Deputados no Brasil), classificou a declaração de Trump como uma “piada inapropriada”.

Reação

No Twitter, usuários reagiram rapidamente aos comentários de Trump, criticando o republicano pelo que entenderam como uma incitação à violência.

“Isso não é brincadeira. Pessoas instáveis com armas poderosas e um ódio desequilibrado por Hillary Clinton estão escutando você, @realDonaldTrump”, disse Chris Murphy, senador pelo Estado de Connecticut, em sua conta no Twitter.

“Não trate isso como um passo em falso político. É uma ameaça de homicídio, aumentando as chances de tragédia e crise nacionais”, acrescentou.

Tuíte de Chris MurphyNo Twitter, Chris Murphy, senador pelo Estado de Connecticut, foi um dos que criticaram Trump – Image copyrightTWITTER
Chris Murphy tweet: Image copyrightTWITTER

Diretor de campanha de Hillary, Robby Mook disse que “o que Trump está dizendo é perigoso”.

O empresário reagiu, tuitando que ele estava se referindo ao poder político dos defensores dos direitos ao porte de armas de fogo. “Disse que cidadãos favoráveis à segunda emenda devem se organizar, votar e salvar nossa Constituição”, afirmou via Twitter.

Tuíte de Donald Trump
Donald Trump culpou imprensa: “desesperada por desviar atenção de posição de Hillary sobre 2ª emenda” – Image copyrightTWITTER

Por meio de um comunicado, sua campanha declarou que “os defensores da 2ª emenda têm uma alma incrível e são tremendamente unidos, o que lhes dá grande poder político”.

“E neste ano eles vão votar em número recorde, e não será por Hillary Clinton, será por Donald Trump”.

Tuíte da NRAAssociação Nacional de Rifles apoiou Trump –  Image copyrightTWITTER

O ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, apoiou Trump, dizendo que a declaração do empresário não era uma ameaça. Ele acusou a imprensa de estar envolvida em uma “conspiração para eleger Hillary Clinton”.

Alguns apoiadores de Trump que deixavam o comício na Carolina do Norte afirmaram à rede de TV americana CNN que não estavam preocupados com as intervenções do candidato por se tratar claramente de uma “piada” vinda de alguém que fala de maneira improvisada.

A Associação Nacional de Rifles, principal organização de lobby pró-armas do país, também apoiou Trump e afirmou que Hillary escolheria juízes contrários à segunda emenda.

Durante sua campanha, e em meio a diversos episódios de violência com armas de fogo, a candidata democrata vem prometendo apertar o cerco ao porte, mas não há indicação de que ela pretenda extinguir a segunda emenda.
BBC