Mensalão, Congresso e validade das leis

Shakespeare,Ser ou não ser,Hamlet,Blog do Mesquita,Mensalão,“Ser ou não ser”…Pergunta um amigo:
“E as leis votadas durante o período mensalão como ficarão? Valem ou não”
?

No início do processo do mensalão – escrevi sobre isso – questionei como ficariam as leis aprovadas no período de vigência da ilegalidade.

E a lógica é cristalina.

Em sendo reconhecido juridicamente que o mensalão comprou os votos de parlamentares, são absolutamente nulas de pleno direito as leis aprovadas com votos corrompidos.

Previ que essa questão ainda viria à tona. Acredito que ainda virá. Aguardemos.


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Ivan Lessa e a bacteria do Pepino

O humor refinado e a pena ferina de Ivan Lessa, temperam pepino com Hamlet.O Editor


Tudo mata

Ivan Lessa/Colunista da BBC Brasil

Primeiro, era para a gente não comer manteiga. Manteiga matava. Depois ovo. Ovo matava.

O companheiro completava 18 anos e saía sem dar a menor pelota de casa e ia às ruas. Nunca lhe avisaram que as ruas matavam. Continuam matando. Viver é morrer.

Uma coisa está embutida na outra e é preciso que alguém nos dê um guia para não morrer antes do tempo. Se é que há um tempo para morrer.

Fato é que a vida é um conjunto de superstições, com avanços e recuos científicos. Para cada caneta esferográfica (uma das grandes invenções da humanidade) há uma bomba atômica pronta para explodir nas 32 esquinas que nos cercam.

Por falar em superstição, lembro que Carlito Rocha, durante os anos 40 um alto e pitoresco dirigente do Botafogo (foi o responsável pela adoção oficial pelo time do Biriba, um cachorro que entrou em campo um dia e nunca mais abandonou a equipe da estrela solitária), adotou a política de fazer com que os jogadores, antes de entrar em campo, chupassem uma manga. Isso porque era voz corrente – leia-se superstição – o fato de que “manga com cachaça mata”. Não mata nada. Mas era uma maneira de evitar que o pessoal tomasse umas e outras em dia de jogo.

Carlito Rocha também cismou com calção preto e uma beleza de camisa de mangas compridas e abotoada na frente, que, em 1948, a equipe usou por um ou dois jogos até levar uma tunda de um Bonsucesso ou Olaria. Coisas que só aconteciam com o Botafogo, conforme o bordão da época.

Morre-se de bomba, homem-bomba e carro-bomba no Iraque e no Afeganistão. Acham muito natural.

Nenhum cientista procurou estudar a sério esse fenômeno dos homens terem mania de matar outros homens, em vez, coisa muito melhor, de ficar tomando cachaça e chupando manga (a melancia seguida de álcool também mata, segundo o lendário popular).

É esperado, é natural, é lógico.

Agora, bota um surto de infecções intestinais, mortes e gente vomitando a alma e voando para os banheiros, tudo por causa do danado do pepino, e a notícia abafa qualquer outra.

Até o momento em que escrevo 18 já “subiram” graças ao pepino, que a princípio achavam que fosse o espanhol. A Espanha é um país orgulhoso e zela por suas tradições, tais como a Inquisição, o ditador Francisco Franco e as equipes do Real Madrid e do Barcelona.

Ficaram uma fúria e, em protesto contra o que chamaram até mesmo de “má fé” dos cientistas alemães, que deram o “primeiro a piar”, desandaram a devorar o insinuante legume na natural, sem vinagre ou azeite nem nada (aliás o azeite espanhol, há tempos já foi tido como responsável pela morte de algumas dezenas ou mais de pessoas, mas disso já se esqueceram) só para mostrar que a bactéria do E. Coli não tinha sotaque nem de Castilha nem da Galiza (e não Galícia, friso).

En passant, eu que sou mal-informado, desatento e pouco sério, sempre achei que o tão falado E. Coli era um atacante veterano do Barça ou do Real Madrid. E que o E era apenas a inicial de Eduardo. Eduardo Coli, vulgo Coli, cujo passe, comprado do Bahia FC, custara uma pequena fortuna. Os fatos, esses chatos, indicam que me enganei, mais uma vez.

Não foi o Coli o responsável pelos 1.169 casos registrados, até esta quinta-feira, na Europa. Alemanha, Suécia, foram todos de Escheverichia coli, pois esse o nome do bacilo ou da bactéria simbiente em questão.

Há outros suspeitos na fila, depois da Espanha: Holanda e Dinamrca entre eles.

Seria engraçado, num sentido macabro, se a Dinamarca fosse a responsável pelo assustador surto. Só porque proibiu a venda, em todo o território nacional, da pasta Marmite (“Você Ama ou Odeia” é seu slogan) noticiado aqui com pesar na seção BBC à Mesa, servida pelo Thomas Pappon.

A Dinamarca já proibira anteriormente o nosso Ovomaltine (ou Ovaltine por aqui) e o Horlicks, um ingrediente à base do malte, frio ou quente, que eu amo e pode ser preparado (duas colheres e leite) tanto no inverno quanto no verão. Agora segurem essa, dinamarqueses, mais chatos e pouco melancólicos, perdendo longe para o malfadado e doce príncipe Hamlet.

Ainda por cima o Coli (peguei intimidade) já chegou aos Estados Unidos e, para mostrar sua isenção, Rússia. Audácia do bofe.

Mais: volta à tona, para pegar ar, na certa, a discussão em torno dos celulares.

Um lado diz que sua radiação dá câncer, outro diz que não dá. Ambos citam estudos científicos, quando não emitido por um cientista.

No que as pessoas continuam falando e textando pelas ruas de todas as cidades do mundo. Sem parar. Sem rebater com um pepinozinho ou chupando uma carlotinha “daquelas”depois de umas e outras.

Agora, concerto de Ringo Starr, como está tendo, ou vem aí, pode. Esse não faz mal à saúde, ainda não vi ninguém reclamar. Durma-se com um barulho desses.


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Eleições 2010: PSDB e DEM são os melhores aliados do PT

Enquanto a fogueira das vaidades, e dos interesses pessoais, das oposições arde, Dilma Rousseff agradece aos pés fogueira junina, a existência de uma oposição pamonha. Para embolar a canjica, Rodrigo Maia, presidente do DEM, declara à Folha de S.Paulo: ” a eleição nos já perdemos. Não podemos perder é a dignidade”! Onde já se viu se perder o que não se tem?
Já o senador Álvaro Dias — uma das ‘vestais’ do PSDB — alimenta a fogueira:
” O DEM é um partido de mensaleiros”! Para não deixar de colocar lenha na ‘fogueira amiga’ o deputado Ronaldo Caiado completou

Será que ao PSDB o ganho de tempo na TV, em função da coligação com DEM, compensará a perda de identidade com o eleitor tucano?

O Editor


PSDB, DEM e o vice: quem se dispõe a assumir o lugar da razão?

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Costumo recorrer a Polônio, personagem de Hamlet, como símbolo de que a prudência e a moderação nem sempre são premiadas. Ele é mais lembrado pela famosa frase sobre os delírios do príncipe maluquete: “É loucura, mas tem método” — em versão que acabou quase se popularizando entre nós. Mas era também aquele, se pensarem bem, que atuava para evitar o banho de sangue.

Huuummm… O príncipe quis o banho de sangue, e a dinastia dos Hamlet foi para o vinagre. Não era um exímio político. Não mesmo! Eu espero, para o bem do processo político, que os Polônios, na crise que ora envolve a relação PSDB-DEM, tenham mais sorte, já que há, para continuar na metáfora, um monte de principezinhos ouvindo a voz de fantasmas. A peça deixa claro o que acontece quando se sai usando a espada para lá e para cá, enfiando no primeiro coitado que se move atrás da cortina tentando resolver a crise.

Eu realmente não creio que o DEM tenha motivos para gostar da condução do processo de escolha do vice, embora, na reta final, tenha havido um pouco mais de conversa do que se informa por aí. Foi um processo atrapalhado. Mas agora há um fato que está dado. O senador Álvaro Dias (PSDB) será o vice na chapa de Serra. E ao DEM resta verificar se leva a sua contrariedade ao extremo do rompimento, ignorando o que tem a perder e um passado de parceria com os tucanos que não lhe fez mal nenhum — muito pelo contrário — ou se faz política, admitindo que ela comporta reveses. O maior revés que pode lhe advir, diga-se, é a vitória da candidata do PT. Se o Democratas acha que isso já está dado, então, evidentemente, cessou o seu papel nessa disputa. Mas isso tem algumas implicações.

Quem vai ser o Polônio do DEM? Alguém se dispõe a tal tarefa, ou ficarão todos entre o ódio e a perplexidade, assistindo aos Hamlets a dar gritos de guerra no salão, dispostos a passar no fio da espada o primeiro vulto que se move? Eis uma boa questão.

Reitero: não há razões para o DEM gostar do encaminhamento dado. Este escriba mesmo — que não tem partido, mas, como Dilma, tem lado — já expressou até qual teria sido a sua escolha se escolhesse: o deputado José Carlos Aleluia (BA), depois que o nome da senadora Kátia Abreu (DEM-TO) se tornou inviável porque decidiu se manter à frente da CNA. Não aconteceram nem uma coisa nem outra. É um dado da realidade. A questão agora é saber o que é principal e o que é secundário nesse jogo.

O deputado Rodrigo Maia, presidente do DEM, deu uma declaração ao Globo típica de quem está pronto para a guerra de extermínio, como se alguém lucrasse com ela — a não ser o PT, evidentemente: “A eleição nós já perdemos, não podemos perder é o caráter”. Isso ajuda? A frase não parece nem mesmo à altura da gravidade do momento. Se o presidente da legenda, que deve ser referência de temperança, atua assim, o que se espera? E ele acha que a derrota já está dada por quê? Só porque o DEM não terá o vice? Não posso crer — nem ele. E se, a seu juízo, já não há mais esperanças, a que se deve tanto esforço? É o melhor modo de fazer pressão?

Na Folha de hoje, lê-se:

Maia afirmou que o DEM fará convenção na quarta-feira aprovando a aliança com Serra, mas colocando como candidato a vice um filiado seu. “Vamos esperar ele indicar o nome do DEM. Se não indicar, vamos aprovar o nosso nome”, declarou.

Questionado sobre o possível imbróglio jurídico se os tucanos mantiverem o nome de Dias, foi sucinto: “Pergunte ao advogado do PSDB”.

É uma resposta com laivos de surrealismo ao que já era bastante confuso. O que Rodrigo Maia e os demais democratas precisam se perguntar é quem sai ganhando com tais arroubos. Ademais, como conciliar o que ele disse à Folha com o que disse ao Globo? Pode recorrer à Justiça só para ser sócio da derrota certa? Acho que não! Parece que o melhor seria ter um pouco mais da prudência de Polônio e um pouco menos de ímpeto de Hamlet, né? —- buscando uma solução que não seja trágica.

Rodrigo Maia e alguns outros radicais precisam descobrir o valor que a “reação proporcional” tem em política. E precisa pôr na balança o que a associação de seu partido com os tucanos rendeu até agora. E eu tendo a dizer que o resultado é bastante satisfatório. E se deve começar pelo óbvio.

Serra bancou Gilberto Kassab como candidato à Prefeitura de São Paulo em 2008, comprando uma briga feia com o seu próprio partido. Fez Guilherme Afif, atual vice na chapa de Geraldo Alckmin, seu secretário. E é evidente que a legenda ganhou um peso no estado e na cidade que jamais teria na marcha em que historicamente vinha. O upgrade foi dado por Serra. Fosse a personagem que alguns democratas querem pintar agora, teria deixado Kassab no sereno para não ter de administrar a confusão.

“Ah, ele não o fez por amor ao DEM, mas porque se tratava de defender a gestão que também era sua…” Claro, claro! Em política, idealistas sempre somos nós, e oportunistas, os outros. O que interessa é saber se o partido ganhou ou perdeu quando o então governador tomou aquela decisão. Estamos falando da maior cidade do país, de um orçamento maior do que o da maioria dos estados. E também de um provável cargo de vice-governador da maior unidade da federação. O DEM ganhou ou perdeu?

A aproximação nem é tão recente assim. Derrotado em 2002 — e o então PFL estava rompido com ele —, Serra assumiu a presidência do PSDB em 2003, e teve início um movimento de reaproximação entre os dois partidos, que resultou juntamente na indicação, no ano seguinte, de Kassab para vice na sua chapa à Prefeitura de São Paulo

Rodrigo Maia sabe que Serra atuou de forma importante para formar o palanque na Bahia, que tem o democrata Paulo Souto como candidato ao governo. Sabe também que, num dado momento, Geddel Vieira Lima (PMDB) se dispunha até a deixar o ministério em favor de composição com os tucanos no Estado. Mas o tucano apoiou a opção DEM. O presidenciável se movimentou também em Santa Catarina, onde o PMDB decidiu enfrentar a direção nacional do partido para apoiar a candidatura de um democrata.

Serra foi crucial para convencer o peemedebista dissidente Jarbas Vaconcelos a se candidatar ao governo de Pernambuco, o que é visto como essencial para que o senador Marco Maciel tente a reeleição. Rodrigo deveria se perguntar se a aliança com Fernando Gabeira (PV), no Rio, que dá um bom palanque à pretensão de Cesar Maia se eleger ao Senado, teve ou não o dedo de Serra, que também arrumou o palanque para DEM no Piauí, no Sergipe e no Rio Grande do Norte.

Isso tudo fica longe da imprensa porque, afinal, a exemplo de Rodrigo, boa parte do jornalismo também acha que a eleição já está decidida. O que vai acima é informação, não juízo de valor. O presidente do DEM certamente não está disposto a abrir mão dessas composições. Mesmo certo, diz, de que não haverá vitória, ele não se mostra disposto nem mesmo a abrir mão do apoio a Serra. Mas também não quer renunciar à guerra.

Querem que eu escreva de novo? Escrevo! Não acho que a condução tenha sido a mais hábil, e há motivos efetivos para a direção do Democratas estar descontente. Mas também há um limite para a contrariedade. E o limite é não atuar contra a sua própria causa porque, afinal, se considera alvo de uma deslealdade ou algo assim. Ademais, essa confusão não foi construída unilateralmente. A posição do partido de vetar qualquer nome tucano menos um — só aceitava Aécio Neves, que não aceita — é, por qualquer ângulo que se queira, heterodoxa. Sempre parece uma intromissão indevida não na aliança — o partido tem o direito de tentar indicar o vice —, mas no partido alheio.

Vão querer arrastar essa crise até quarta, levá-la além, como anuncia o presidente do Democratas, apelando à Justiça? E quem ganha com isso? Alguém pode se confortar: “Ah, a gente perde, mas eles também”. E aonde isso os leva? Há um ditado italiano sobre a tolice de arrancar os próprios olhos só porque o outro o desafiou a provar que é macho — o ditado se refere a outra parte da anatomia masculina; eu só o estou tornando mais “domingável”… Também não dá para imitar o gesto daquele esquadrão que foi demonstrar seu inconformismo com a injusta crucificação de Brian no filme A Vida de Brian, de Monty Python: eles protestaram praticando suicídio coletivo…

Rodrigo Maia acha que a derrota já está dada? Se acha mesmo, deve ceder o lugar àqueles que, no partido, não acham — se é que existem. Se não existirem, então é a hora de todos eles brincarem de outra coisa. Mas eu tendo a crer que isso é só retórica um tanto desastrada. O DEM tem, sim, do que reclamar. Mas também tem o que preservar. Que tal todo mundo decidir pensar só um pouquinho no reino da Dinamarca?

Até porque, caros democratas, não existe solução em que todos perdem. No Brasil, ultimamente, quando quase todos perdem, ganha o PT.

Respeitem os milhões de eleitores que reiteram sua intenção de votar na oposição e tratem de tentar ganhar a eleição.

blog Reinaldo Azevedo

Shakespeare, aquecimento global e o Reino da Dinamarca

O Reino da Dinamarca
por Theófilo Silva ¹

Neste momento em que toda a humanidade tem os olhos voltados para este pequeno e rico país: a Dinamarca – espécie de sociedade ideal que atingiu todos os índices de prosperidade almejados pelas outras nações-, devemos fazer uma reflexão sobre o seu passado.

Shakespeare imortalizou a Dinamarca em Hamlet, quando disse “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Daí pra frente, essas palavras viraram um lugar comum todas as vezes que alguém sentiu o cheiro de corrupção em sua família, empresa, Estado…

Por mais que o Bardo de Stratford, naquele momento, estivesse falando de sua Inglaterra natal, a Dinamarca era mesmo um pobre e corrupto país que merecia verdadeiramente ser chamada de podre.

A Dinamarca situa-se na chamada península Escandinávia, o conceito é vago; mas Suécia, Noruega e num certo sentido, a Finlândia e os seus aparentados, a Islândia formam um “padrão escandinavo” em qualidade de vida, quase sem par no resto do mundo. Ordeiros, pacíficos, generosos, brilhantes, ricos ostentam todas as conquistas – as objetivas, pelo menos- que todos nós almejamos.

Mas não foi sempre assim. Cercados de gelo por todos os lados e com um sol que brilha partes do ano até a meia noite – esse povo, chamado no passado de Vikings, formaram as hordas mais cruéis da cristandade. Hábeis navegadores, entre os séculos IX e X – é possível que Erik, o viking tenha chegado à América séculos antes de Colombo – chegaram às costas da Europa devastando tudo que encontraram.

Durante um curto período, os Vikings governaram a Inglaterra. Aí, no século XI, parte do continente europeu se fortalece e a Escandinávia entra num processo de profunda estagnação, com Noruega, Suécia e Dinamarca se fundindo e se separando até assumirem a forma atual que conhecemos.

Até os anos de 1920, a Dinamarca e seus vizinhos não passavam de um imenso pântano gelado. Os filmes dos anos 80, Pelle, o Conquistador e a Festa de Babete nos dão um panorama do que era a Escandinávia até quatro gerações atrás. Um povo pobre, atrasado e quase sem esperança. Já hoje!

Pergunto: o que é que a Escandinávia tem que o Brasil não tem? Por que é que esta nação “abençoada por Deus” riquíssima em recursos naturais, clima favorável, não acaba com a miséria. Por mais que avanços tenham ocorrido, ainda se morre de fome no Brasil. O nosso índice de violência é igual ao de países em guerra. O número de favelados do Rio de janeiro e São Paulo superam a população escandinava. O que fazer para mudar isso? Dizem que a resposta é educação e mais educação. Sim, mas não é só isso. Algo mais forte se impõe.

Precisamos de um choque de moralidade. O problema do Brasil, por enquanto, é um só: Impunidade. Somos uma sociedade corrupta. Eu declaro aqui em alto e bom som: enquanto as Cortes Superiores do Brasil não colocarem os grandes e notórios corruptos na cadeia, o Brasil não mudará. Precisamos de exemplos, precisamos de um corrupto condenado e preso. Como os EUA fazem. Se um corrupto notório for preso, os outros ficarão intimidados. O STF precisa nos dar um corrupto de presente neste natal. Um corrupto embalado e condenado atrás das grades. Seria o primeiro passo para sonharmos com a prosperidade escandinava e para homenagearmos a cúpula do meio ambiente na Dinamarca, que não é mais podre, o Brasil é que é.

Theófilo Silva é Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador do blog do Moreno


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Os Quixotes Indignados

Por Theófilo Silva[1]

Dom Quixote IlustraçãoA condenação definitiva, a 150 anos de prisão, do bilionário financista americano Bernard Madoff por crimes financeiros, que saiu do tribunal algemado, num processo cujo desfecho durou menos de um ano, nos impõe uma série de reflexões acerca da ineficiência da enrolada justiça brasileira, a maioria delas já feitas pela imprensa.

Minha reflexão é recordar algumas figuras quixotescas presentes no cenário brasileiro nos último vinte anos – que eu me lembro -, aquelas marcadas por um fato: revolta e coragem diante da corrupção e da impunidade. Aqueles cidadãos pacatos – com algo de Hamlet – muitas vezes puros, colocados pelo destino diante de verdades lamentáveis. E dos funcionários públicos encarregados de alguma investigação contra um corrupto poderoso. Aqueles servidores que “passam dos limites”, “agem fora de sua jurisdição” sendo chamados de loucos por acelerarem os lentos e ineficientes passos da justiça.

Todos nós crescemos ouvindo o discurso de Rui Barbosa citado por nossos avós: “de tanto ver prosperar a desonra…”. Falo desses Quixotes, que diante de atos desonestos agem de forma surpreendente, enfrentando culpados poderosos pegos “com a mão na botija”. Esses sujeitos meio loucos, meio heróis, de 1990 para cá: Takeshi Imai, Eriberto França e o caseiro Francenildo; funcionários federais, como: Luiz Francisco, Sílvio Marques, Fausto de Sanctis e o que está na berlinda, delegado Protógenes, todos que de uma forma ou de outra alteraram os rumos da história por força de sua indignação e de suas ações. Homens que, como diz o duque de Milão, em Como Gostais, peça de Shakespeare: “usam a loucura como disfarce de caçador, para disparar seus tiros…”

Suas personalidades são distintas. Takeshi, Eriberto e Francenildo são gente do povo que num momento de provação demonstraram indignação e patriotismo. Sílvio Marques é o único em que não há “loucura”, mas simplesmente coragem. Esse promotor juntou várias toneladas de provas contra Paulo Salim – deixou-o preso por 45 dias -, figura que reputo como a mais repugnante de toda a história do país, mais até que Joaquim Silvério dos Reis. Um atestado vivo da inexistência de justiça no Brasil.

O procurador de fala mansa e tímida, Luiz Francisco, criou um pandemônio na vida de muitos corruptos, mesmo que os holofotes o tenham cegado um pouco. Já o juiz Fausto de Sanctis teve a coragem de trombar com a figura pública mais detestada do país, o presidente do STF, Gilmar Mendes, sendo duramente perseguido por isso.

Todos eles granjearam a simpatia da sociedade e dos homens de bem deste país. Seus atos os tornaram uma espécie de Quixotes lutando com os moinhos, e na sua busca por justiça podem ter exagerado, e por isso tiveram suas vidas desmanteladas.

Um ou outro errou, mas o legado é positivo. Não são heróis nem loucos: são homens indignados. Resta-lhes um consolo vindo também de um simples mensageiro do rei Henrique VI, na peça homônima do nosso amigo Shakespeare: “Diante de muitos golpes de uma machadinha, o mais possante carvalho oscila e acaba vindo ao chão”. Vida longa aos Quixotes!

[1]Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador do blog do Moreno

Shakespeare – Reflexões na tarde

“…uma das emoções mais significativas da tragédia é a do desperdício; um considerável potencial de vida é perdido com a morte do herói, mas por outro lado, ao mesmo tempo que temos a sensação de o herói ser um homem condenado, de os acontecimentos conspirarem para conduzi-lo a seu fim, sentimos igualmente que ele é, em medida mais que considerável, o responsável por sua própria destruição.”

AC Bradley¹ – sobre Hamlet, de Shakespeare²

¹Andrew Cecil Bradley
Crítico literário e professor de literatura da Universidade de Oxford.
* Cheltenham, Gloucestershire, Inglaterra – 26 Março de 1851

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Londres, Inglaterra – 2 de setembro de, 1935

>> Biografia de Shakespeare