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Gustave Le Bon – Reflexões

Opiniões influenciadas pelo interesse

A maior parte das coisas pode ser considerada sob pontos de vista muito diferentes: interesse geral ou interesse particular, principalmente. A nossa atenção, naturalmente concentrada sob o aspecto que nos é proveitoso, impede que vejamos os outros. O interesse possui, como a paixão, o poder de transformar em verdade aquilo em que lhe é útil acreditar. Ele é, pois, freqüentemente, mais útil do que a razão, mesmo em questões em que esta deveria ser, aparentemente, o guia único. Em economia política, por exemplo, as convicções são de tal modo inspiradas pelo interesse pessoal que se pode, em geral, saber préviamente, conforme a profissão de um indivíduo, se ele é partidário ou não do livre câmbio.

As variações de opinião obedecem, naturalmente, às variações do interesse. Em matéria política, o interesse pessoal constitui o principal factor. Um indivíduo que, em certo momento, energicamente combateu o imposto sobre a renda, com a mesma energia o defenderá mais, se conta ser ministro. Os socialistas enriquecidos acabam, em geral, conservadores, e os descontentes de um partido qualquer se transformam facilmente em socialistas.

O interesse, sob todas as suas formas, não é somente gerador de opiniões. Aguçado por necessidades muito intensas, ele enfraquece logo a moralidade. O magistrado ávido de promoção, o cirurgião em presença de uma operação inútil porém frutuosa, o advogado que enriquecerá com complicações de processo que ele poderia evitar, terão rapidamente a moral muito abalada se imperiosas necessidades de luxo lhes estimularem o interesse. Essas necessidades podem constituir, nas naturezas superiores, um elemento de actividade e de progresso, mas nas naturezas medíocres determinam, pelo contrário, uma acentuada degenerescência moral.

O interesse moral é freqüentemente um factor de opiniões tão poderoso quanto o interesse material. O amor-próprio ferido, por exemplo, provoca ódios intensos e todas as opiniões que dai decorrem. O ódio dos burgueses da Revolução contra a nobreza e as suas sanguinárias vinganças provinham sobretudo de humilhações outrora sofridas. Marat vingava-se da sua antiga situação social; Hébert, libelista do Père Duchesne, que causou tantas mortes, foi, ao começo, um realista ardente. Se tivessem vivido bastante de modo a ocupar lugares ou a ter títulos na época do Império, eles teriam-se, sem dúvida, tornado, como tantos dos seus êmulos, conservadores fervorosos.

Gustave Le Bon

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Gustave Le Bon – Literatura

O Prazer e a DorGustave Le Bon,Literatura,Blog do Mesquita

O prazer e a dor não conhecem a duração. A sua natureza é dissiparem-se rapidamente e, por conseguinte, só existirem sob a condição de ser intermitente. Um prazer prolongado cessa logo de ser um prazer e uma dor continua logo se atenua. A sua diminuição pode mesmo, por confronto, tornar-se um prazer. O prazer só é, pois, um prazer sob a condição de ser descontínuo. O único prazer um pouco durável é o prazer não realizado, ou desejo.
O prazer somente é avaliável pela sua comparação com a dor. Falar de prazer eterno é um contra-senso, como justamente observou Platão. Ignorando a dor, os deuses não podem, segundo Platão, ter prazer. A descontinuidade do prazer e da dor representa a conseqüência dessa lei fisiológica: “A mudança é a condição da sensação”. Não percebemos os estados contínuos, porém as diferenças entre estados simultâneos ou sucessivos. O tique-taque do relógio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por não ser mais ouvido, e o moleiro não será despertado pelo ruído das rodas do seu moinho, mas pelo seu parar.

É em virtude dessa descontinuidade necessária que o prazer prolongado cessa logo de ser um prazer, porém uma coisa neutra, que só se pode tornar novamente vivaz depois de ter sido perdida. A felicidade paradisíaca sonhada pelos crentes deixaria logo de possuir atrativos do paraíso para o inferno.O prazer é sempre relativo e ligado às circunstâncias. A dor de hoje torna-se o prazer de amanhã e inversamente. Dor, para um homem que abundantemente jantou, ser condenado a comer côdeas de pão seco; prazer, para o mesmo indivíduo abandonado durante muitos dias, sem alimentos, numa ilha deserta.

Diz com razão a sabedoria popular que cada qual tem o seu prazer onde o encontra. O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna, sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão. A importância do papel da sensibilidade ao prazer e à dor nitidamente se manifesta, quando procuramos imaginar o que poderia ser a existência de um desses puros espíritos, tais como os sectários de muitas religiões os supõem.
Desprovidos de sentidos e, portanto, de sensações e de sentimentos, eles permaneceriam indiferentes ao prazer e à dor e não conheceriam nenhum dos nossos móveis de ação. Os mais angustiosos sofrimentos de indivíduos outrora queridos por eles não os poderiam comover. Não teriam, pois, nenhuma necessidade de comunicar com eles. Não se concebe sequer a existência de tais seres.

Gustave Le Bon, in ‘As Opiniões e as Crenças’