A Profecia e a crise financeira mundial

Mais conhecido por sua contribuição às modernas Constituições – a doutrina da separação entre os três poderes exposta no clássico “O espírito das leis” (1748) -, Charles-Louis de Secondat, senhor de La Brède e Barão de Montesquieu, teceu “Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência” (1734).

“Como os romanos [americanos] se dedicavam às guerras [às finanças] e a consideravam a única arte, empenhavam todo seu espírito e todo seu pensamento à tarefa de aperfeiçoá-la. Mas os romanos [americanos] dominaram todos os outros povos não somente pela arte da guerra [das finanças], e sim também por seus princípios [sua ética do trabalho], sua sabedoria [sua precaução], sua persistência [sua poupança], seu amor à glória [ao empreendedorismo] e à pátria.

Os romanos [americanos] tiveram um período contínuo de prosperidade sob um conjunto de princípios, e um período contínuo de declínio quando se estiolaram todas essas virtudes.”

As cenas iniciais do filme “O gladiador” popularizaram batalhas infernais entre as tribos germânicas e a formidável máquina de guerra romana.

A belicosidade dos bárbaros, a fúria musical de Wagner, a vontade de poder em Nietzsche, a disciplina militar prussiana, o nacionalismo com a vitória de 1870 sobre a França e a unificação da Alemanha, em 1871, sugeriam um espírito guerreiro de Frederico, O Grande, de Bismarck, o Chanceler de Ferro, e de Hitler, o nacional-socialista, que só duas guerras mundiais poderiam atenuar.

Será que só duas Grandes Depressões poderiam atenuar o espírito financista dos americanos? Dizem deles os ingleses que são o único povo na História que saiu da barbárie e passou ao declínio sem experimentar a civilização.

Deliciosa ironia, mas certamente uma dose exagerada de desprezo aristocrático pela democrática vulgaridade dos hábitos e costumes de sua ex-colônia. E também uma enorme dor-de-cotovelo por seu extraordinário desempenho político, econômico e tecnológico. Até recentemente.

“Restava aos romanos [americanos] a arte militar [a prática das finanças]. Mas depois que a corrupção e o vício [os excessos] se instalaram nos próprios exércitos [nas instituições financeiras], o império fundado pelas armas [sobre as finanças] não mais se sustentaria, nem mesmo pelas armas [pelas finanças]”, concluía Montesquieu.

Ao assumir a presidência do banco central americano em 1979, em meio ao caos inflacionário, Paul Volcker ouviu de um amigo a seguinte profecia: “Seu destino é fazer com que o declínio dos Estados Unidos na economia mundial ocorra de forma respeitável e ordeira”.

Tendo escapado por seus próprios méritos ao amargo vaticínio nos anos 80, e agora chamado para presidir o Conselho Assessor para a Recuperação Econômica pelo presidente Barack Obama, Volcker retorna para cumprir a profecia, condenado pela herança de Greenspan e de seu aprendiz Ben Bernanke.

do O Globo – Paulo Guedes

Crise Econômica; vamos falar de gastos públicos

Paul Krugman *O Estado de São Paulo

O índice Dow Jones está subindo até as alturas! Não, está em queda livre! Não, está em forte alta! Não, está…

Deixemos isso de lado. Enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante está nas desanimadoras notícias sobre a economia real. Agora, está claro que o resgate dos bancos é apenas o começo: a economia não-financeira também precisa desesperadamente de ajuda.

E para oferecer essa ajuda, teremos de deixar de lado alguns preconceitos. Na política, está na moda falar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas no momento, um aumento nos gastos do governo é exatamente o que o médico receitou e a preocupação com o déficit orçamentário deve ser adiada.

Antes de chegar nesse ponto, vamos falar da situação econômica. Nesta semana, aprendemos que as vendas no varejo despencaram de um precipício e o mesmo ocorreu com a produção industrial. O número de desempregados está num patamar associado a recessões graves e o índice de manufaturados medido pelo escritório do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) da Filadélfia está caindo no ritmo mais rápido em quase 20 anos. Todos os sinais apontam para um declínio econômico terrível, brutal e longo.

Quão terrível? A taxa de desemprego já está acima dos 6% (e critérios mais amplos de medição do desemprego já registram valores de dois dígitos). É agora praticamente certo que o desemprego vá superar os 7% e, possivelmente, até os 8%, fazendo desta a pior recessão do último quarto de século.

E quanto vai durar? Poderia de fato durar bastante tempo.

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