O papel dos militares na América Latina

As Forças Armadas perderam influência após os golpes do século XX e países da região não sabem o que fazer com seus militares.

O papel dos militares na América Latina
Brasil é um dos países que tem colaborado mais com as missões de paz da ONU (Foto: Wikipédia)
Tanques nas ruas fizeram parte da política da América Latina durante boa parte do século XX, mas hoje é difícil imaginar as Forças Armadas retomando o poder.
Em uma região livre de guerras, os governos latino-americanos ainda não resolveram como empregar seus militares.

As Forças Armadas perderam influência política rapidamente nas últimas décadas. Em apenas dois países – Venezuela e Cuba – militares continuam a desempenhar um papel político importante.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O atual presidente de Cuba, Raul Castro, foi durante muitos anos o general mais poderoso do país, e as Forças Armadas ainda controlam pelo menos metade da economia cubana.

Leia também: Motivos para apoiar a desmilitarização da Polícia Militar no Brasil

Na Venezuela, Chávez transformou o exército em uma filial do seu movimento político. Sob seu sucessor, Nicolás Maduro, oficiais militares mantêm muitos cargos no governo, e as Forças Armadas construíram um império de negócios.

Mas há sinais de que o exército está recuando para uma posição mais institucional.

A principal ameaça à segurança da região é o crime organizado. Vários governos enviam tropas para combater traficantes e outros criminosos comuns.

Mal preparados para a tarefa, eles muitas vezes acabam matando inocentes.

Os militares também estão respondendo a catástrofes naturais, que estão acontecendo com mais frequência devido às mudanças climáticas. Há, também, missões de paz da ONU, com as quais a região está colaborando mais.

Mas os exércitos estão inchados demais para esse papel limitado. O crescimento econômico acelerado da década de 2000 inflou orçamentos de defesa.

Para reforçar sua imagem de potência mundial, o Brasil embarcou numa farra de gastos que incluiu a compra de submarinos e caças sofisticados. Agora, seu orçamento está pressionado.

Os latino-americanos querem policiais mais bem equipados e remunerados. Já é tempo de um ajuste das prioridades e das despesas na área da segurança
Fontes:
The Economist – Of soldiers and citizens

Allende: livro esconde ações da CIA no golpe do Chile

Um dos traços característicos de muitos livros contemporâneos é uma opção que se poderia chamar de história ideológica. São obras que pretendem usar fatos e personagens como instrumento para sustentar a opinião de seus autores. Não pretendem avançar o conhecimento, nem debater fatos estudados a partir de análises novas. Seu objetivo é fazer propaganda.

Poucas obras demonstram essa finalidade com tanta evidência como o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, e o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, parceira de Narloch com Duda Teixeira. Os dois retratam o Brasil e sobre o Continente é a de um universo de bufões, malandros e impostores, onde poucos se salvam.

Os autores pretendem demonstrar que brasileiros e latino-americanos são cidadãos de um universo piada, que até hoje foram retratados por maus historiadores que apenas inventaram para embelezá-los.

Só para você ter uma ideia. Na página 151 do livro sobre o Brasil, Leandro Narloch descreve o país como se fosse um paciente com “ diversos males psicológicos. Bipolar, oscilaria entre considerações muito negativas e muito positivas sobre si próprio. Obsecado com sua identidade, em todas as sessões aborreceria os colegas perguntando “Quem sou eu?”, “Que imagens devo passar”?, “O que me diferencia de vocês?”

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Não consigo achar graça nesse tipo de comparação que, a meu ver, sequer corresponde ao retrato que os brasileiros fazem de si próprios. Eu acho coisa de colonizado.

Você encontra muitas pessoas em dúvida sobre sua identidade na rua? Perguntam se são paraguaios, armenios ou ingleses na frente do espelho? Não sabem para quem torcer na Copa do Mundo? Como é que os brasileiros vêem o país, neste momento?

Mas a liberdade de expressão inclui o direito de dizer besteira e todo mundo pode abusar.

Só não precisa exagerar nas inverdades. Estou falando do livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina, que publica um capítulo sobre o presidente chileno Salvador Allende, deposto por um golpe militar em 1973.

Você talvez tenha ouvido falar que a professora Maria Ligia Prado, da Universidade de São Paulo, já desmascarou a dupla num artigo publicado no Estadão. A professora demonstrou que os dois fizeram uso errado de informações sobre um trabalho universitário de Allende, numa tentativa de sustentar, erradamente, que o presidente do Chile apoiava idéias nazistas na faculdade.

Depois de mostrar o erro grotesco dos autores, a professora recordou que “o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.”

Fique sabendo que tem mais bobagem por aí. A nova descoberta é deste blogueiro.

Coerentes em seus esforços permanentes de ridicularizar os nativos e glorificar os colonizadores, Narloch e Teixeira tentam reduzir o papel da CIA no golpe que derrubou Allende.

Como se fosse a verdade mais simples do mundo, eles escrevem na página 274 que a CIA atuou no país “entre 1962 e 1970”.

A data é precisa: Allende foi eleito em 1970 e tomou posse em 1971. Se a CIA parou de atuar em 1970, não pode ser responsabilizada por nada de ruim que ocorreu no país depois disso.

Referindo-se ao golpe, em setembro de 1973, Narloch e Teixeira sublinham que a CIA deixara o país antes dessa “data dramática.”

Pena que não foi assim. O engraçado é que tanta gente conhece o papel da CIA na queda de Allende que chega a ser espantoso que se tente negá-lo.

Basta abrir o livro de memórias de William Colby, com uma longa carreira em altos cargos na CIA, para descobrir que eles não falam a verdade.

Com a autoridade de quem era diretor da CIA em 1971– e o Chile era uma prioridade mundial da Casa Branca naquele momento – e assumiu a direção de operações clandestinas no fatídico ano de 1973, Colby escreve com a cautela de um executivo fiel às cláusulas de confidencialidade de seu trabalho, mas mesmo assim faz um relato instrutivo da atuação do serviço secreto americano no Chile, antes e depois da posse de Allende.

O livro de Colby nem é novo. Tem mais de 30 anos. Foi publicado em 1978, cinco anos depois do golpe, e traduzido em várias línguas. Li a versão em frances, “30 anos de CIA,” comprada na década de 80. Naquela época, Questionada por seu envolvimento em diversos crimes e conspirações, a CIA decidiu abrir alguns segredos. O livro de Colby pode ser visto como parte deste processo. Não conta tudo, esconde bastante, mas revela alguma coisa.

Falando sobre os trabalhos realizados no Chile a partir de 1971, Colby escreve na página 287: “as quantias que ali se gastava representavam uma parte considerável do orçamento” da agencia. Esclarece: “milhões de dólares.”Explica: “era preciso apoiar os partidos centristas, os jornais de oposição, os grupos sindicais e as entidades estudantis.”

Quem estuda a queda de Allende, sabe a importancia dessas revelações. Em poucos meses de governo, o conflito entre aliados e adversários de Allende transformou a vida dos chilenos num caos. Ocorreram greves de caminheiros, mercado negro de alimentos, vários atos de sabotagem. Quando fala de “milhões de dólares” no financiamento dos inimigos de um presidente eleito, Colby confirmava as conhecidas acusações de que a Casa Branca atuava nos bastidores para derrubá-lo.

Ao retirar a CIA de cena, os autores fabricam uma versão falsa da história. Pelo que Colby revela, é uma falsificação e tanto.

Colby sustenta, no livro, a tese de que a CIA não participou do golpe militar de setembro de 1973. Não é preciso acreditar nessa versão, que já foi desmentida até pelo embaixador americano em Santiago.

Com sua versão, Colby assume a postura padrão dos altos funcionários do governo americano, que sempre sustentam em manifestações públicas que seu país não comete crimes e respeita as instituições e à democracia. Mesmo assim, as revelações mostram a CIA dentro do caos, fazendo o possível para enfraquecer Allende de todas as maneiras e em todas oportunidades. Dessa maneira, o livro deixa claro que a CIA ajudou os golpistas.

Colby reconhece, na página 289, que a ajuda aos adversários de Allende “gerava tensões na sociedade chilena.” Admite que é “indiscutível” que a “política oficial dos Estados Unidos” era hostil a Allende, que ela tentou dirigir “o capital privado contra o Chile, a bloquear créditos internacinais que poderiam beneficiar o país e o que militares americanos mantinham relações calorosas e permanentes com seus homólogos chilenos.”

Em sua versão conveniente, Colby garante que o plano era esperar até 1976, quando haveria nova eleição presidencial, para garantir uma vitória da oposição.

Mas na página 288 ele admite que, em 1973, quando ocorreram eleições para deputado, planejava-se arrancar Allende da cadeira num golpe parlamentar. Fala, mais uma vez, da ajuda à oposição. Em tom de lamento, escreve: “o apoio (da CIA) aos candidatos anti-Allende permitiu o ingresso na Câmara de Deputados uma maioria de representantes hostis ao presidente marxista. Faltaram apenas dois votos para que formasse uma maioria de dois terços que teria permitido afastá-lo do posto.”

Na mesma página, o diretor da CIA esclarece que os principais destinatários dos “milhões de dólares” eram partidos “moderados” e não organizações de extrema direita, como a lendária “Patria y Libertade”. Colby diz que essa organização embolsou pouco, pelo menos da CIA: 38 00o dólares em 1970 e 7 000 em 1971.

Colby conta que a intervenção da CIA naquele país foi discutida na Casa Branca, num encontro com a presença de Richard Nixon em pessoa. Recorda que por ordem expressa de Nixon a CIA tentou impedir a posse de Allende assim que ele venceu as eleições. Pretendia-se dar um golpe militar mas o plano foi abandonado diante da constatação de que René Schneider, o comandante-em-chefe das Forças Armadas era legalista até a medula. (Numa ação até hoje mal esclarecida, um grupo de extrema-direita, que tinha contatos com a CIA, matou Schneider numa tentativa de sequestrá-lo).

Com franqueza de bom memorialista, Colby faz uma revelação sobre os políticos chilenos e os maus costumes do serviço secreto americano. Lembra que, como Allende foi eleito com 36% dos votos, sua posse precisava ser aprovada pelo Congresso chileno. Depois de abandonar a ideia de um golpe militar, o plano seguinte do governo americano, então, foi conseguir dinheiro “para tentar corromper um número suficiente de deputados para votar contra Allende”. Não deu certo, admite. A verba foi economizada porque a operação não era “factivel,”ou seja, os parlamentares não estavam à venda.

Confesso que a descoberta de um erro tão constrangedor num livro que acusa os historiadores de esconder fatos desagradáveis e divulgar versões convenientes não chega a ser espantoso mas é lamentável. Os “politicamente incorretos” foram lançados num ambiente de impunidade intelectual e muita referência. Chegam a ser levados à serio. O critico musical Nelson Motta e o colunista Luiz Felipe Pondé fazem comentários elogiosos na contra-capa de um dos livros. Será que um deles abriu o livro para saber que talento genial de Noel Rosa foi reduzido a fazer “marketing da pobreza”? Ou que Florestan Fernandes deixou de ser sociólogo para se tornar historiador?
Meu Deus…

Paulo Moreira Leite/Revista Época
Jornalista desde os 17 anos, foi diretor de redação de ÉPOCA e do Diário de S. Paulo. Foi redator chefe da Veja, correspondente em Paris e em Washington.

José Roberto Toffoli, anistia e vôos da morte

Vôo da Morte. Do juiz argentino Torres ao futuro ministro Toffoli.

Atenção leitor. Caso tenha se utilizado da ponte-aérea Amsterdã-Valência, operada pelo consórcio KLM-Air France-Transavia, o piloto pode ter sido o argentino Julio Alberto Poch, aquele dos vôos assassinos.

Poch era o piloto dos vôos destinados a jogar no oceano Atlântico ou no rio da Prata, sem pára-quedas, presos políticos da ditadura argentina (1976 a 1983).

Pelos cálculos do juiz argentino Sergio Torres foram mais de mil presos políticos atirados de aviões pilotados por Poch.

Segundo dizia Poch, com a insensibilidade moral de um psicopata, todos esses “terroristas de esquerda” tinham sido dopados antes de ingressarem no avião e, assim, “não sentiam nada”.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Poch deixou a marinha da Argentina em 1981. Com o título de capitão de fragata, fixou residência na Holanda e passou a trabalhar como piloto de aviões. Imaginava, pelo decurso do tempo, que tinham esquecido dele e o som das “madres de Plaza de Mayo” não ecoavam em Amsterdã.

Num trabalho do juiz federal argentino Sergio Torres, encarregado dos processos sobre pessoas desaparecidas durante a ditadura militar, muitas testemunhas contaram sobre os chamados “vôos da morte”, em aviões pilotados por Julio Alberto Poch.

No curso dos processos, o juiz Sergio Torres descobriu que Poch, hoje com 57 anos, vivia em Amsterdã e trabalhava como piloto de aviões.

Na terça feira passada, em cumprimento a mandado internacional de prisão expedido pela Justiça argentina, Poch foi preso a bordo de um “low-cost”, no aeroporto de Valência (Espanha). O vôo atrasou cerca de duas horas para decolar, tempo levado para a substituição de Poch por outro piloto.

Hoje, chegou ao cárcere de Picassent, em Valência, onde está encarcerado Poch, a nota da expedição de pedido de extradição pela Argentina.

PANO RÁPIDO. Na Argentina, foram declaradas inconstitucionais as leis de anistia, Ponto Final e Obediência Devida, que conferiram impunidade a cerca de 1.800 militares envolvidos com torturas e assassinatos, durante a ditadura.

Enquanto o juiz argentino Sergio Torres processa assassinos da ditadura militar argentina, no Brasil, aguarda-se a chegada de José Antonio Toffoli para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Toffoli, como Advogado Geral da União, sustentou tese que beneficiou o coronel Brilhante Ustra. O referido coronel Ustra comandou o DOI-CODI, onde eram torturados e desapareciam presos políticos.

No Brasil, a lei de anistia foi feita pelo regime militar. Ela, ao contrário do entendimento de Toffoli, não se aplica aos casos de terrorismo de Estado, que foi o que tivemos no Brasil, durante a ditadura.

Wálter Fanganiello Maierovitch
Presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi