A alternativa para os próximos 20 anos é uma forma sustentável de capitalismo, que não será vista como capitalismo

Paul Mason é autor de “Pós-Capitalismo”: Um Guia para o Nosso Futuro’ – Getty Imeges

Um grande ponto de interrogação se coloca sobre o mundo neste momento: o que vai acontecer depois da pandemia de covid-19?

A pergunta recai sobre as coisas mais mundanas e concretas — como quando voltaremos a dar as mãos ou abraçar nossos amigos — até as mais abstratas e aparentemente mais distantes: nossas liberdades individuais serão afetadas?

Será o fim da globalização? O que acontecerá com o capitalismo?

Esta última parece ir ao cerne do momento que vivemos atualmente. O capitalismo é mais uma vítima da crise ou seu causador? Como o sistema deve mudar para se adaptar a novas realidades? Há apetite para uma mudança desse porte entre as classes dirigentes e os empresários?

O britânico Paul Mason dedicou parte da vida para refletir sobre o capitalismo. Como jornalista, cobriu parte das grandes crises econômicas e dos movimentos sociais das últimas décadas.

Como intelectual, além de um livro de ficção e uma peça de teatro, escreveu sobre os mesmos temas: a classe trabalhadora, a crise financeira de 2008 e os diferentes protestos globais como a Primavera Árabe, Ocuppy Wall Street e os “indignados” da Espanha.

Mas fora suas últimas obras — PostCapitalism: A Guide to Our Future (“Pós-capitalismo: Um guia para o nosso futuro”, editado pela Cia das Letras) e Clear Bright Future: A Radical Defence of the Human Being (ainda sem edição no Brasil) — que o tornaram um nome conhecido internacionalmente, envolvido em vários debates sobre o estado atual do capitalismo e seu futuro.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, conversou com Paul Mason em Londres, onde ele vive.

Direito de imagemGETTY IMAGES

A peste negra foi a epidemia que mais matou na História

Em um artigo recente, o senhor traça um interessante paralelo entre o que acontece hoje e o que aconteceu depois da epidemia de peste negra, no século 14, que marcou a transição do feudalismo para o capitalismo.

Paul Mason – Um dos temas do meu trabalho é que, como o feudalismo, o capitalismo tem um começo, um meio e um fim.

Em meu último livro (Clear Bright Future: A Radical Defence of the Human Being), digo que o fim de um modo de produção de um sistema econômico é com frequência uma mistura de suas fraquezas internas com o que chamamos de “choques externos” ou exógenos.

Então, para nós, a mudança climática se manifesta como um choque exógeno, porque o único capitalismo industrial que conhecemos está baseado na extração de carvão e na destruição da biosfera.

É possível que, em um universo paralelo, o capitalismo tivesse se desenvolvido a partir da energia limpa e em harmonia com a natureza, mas não foi assim.

Há ainda a questão do envelhecimento populacional, que possivelmente levaria à falência 60% dos países até meados deste século porque não haverá gente o suficiente para sustentar uma população envelhecida.

O coronavírus é outro fator que parece ser um choque externo.

Mas meu argumento é que, ainda que todos pareçam choques externos, na realidades são produzidos pelo próprio capitalismo.

Esse é o problema: o tipo de capitalismo que temos destrói as florestas tropicais e cria condições para que milhões de pessoas vivam em situação vulnerável.

E no mundo desenvolvido — provavelmente não tão óbvio para alguns leitores na América Latina — ele tem criado “doenças da pobreza”. Há muita gente morrendo de obesidade em Londres, com diabetes tipo B ou enfermidades nos pulmões porque fumou a vida inteira.

O paralelo que faço com a peste negra é limitado, mas vale a pena ser explorado, porque a epidemia foi responsável por duas coisas: primeiro, interrompeu o modelo econômico do feudalismo porque não havia componeses para cultivar a terra.

E nas cidades não havia pessoas o suficiente que soubessem trabalhar com o que era a principal matéria-prima da época, a lã. Nas revoltas que eclodiram depois da peste negra, sempre houve participação dos trabalhadores que manufaturavam a lã.

Protestos em Wall Street em 2008: para Mason, capitalismo financeiro é danoso para o próprio capitalismo
Direito de imagemGETTY IMAGES

O outro impacto — e maior — foi a quebra da ideologia. Porque fez com que as pessoas dissessem: “Isso (o modelo) não está funcionando.”

Entre aqueles que estudaram aquele período há um livro brilhante que se chama Lust for Liberty (“Desejo de liberdade”, em tradução livre), de Samuel K. Cohn. O título já diz tudo: ao final da epidemia, as pessoas se deram conta de que o sistema não as estava protegendo.

Se pensa no feudalismo — e acredito que na América Latina a imagem seja desses grandes senhores de terras, pois as revoltas coloniais também foram contra os grandes senhores de terras —, e a cultura entre esses donos de terra era o paternalismo. O proprietário está ali para explorar, mas também para proteger.

E o que aconteceu no século 14 foi que as pessoas disseram: “Espera aí, isso não está nos protegendo”. E a palavra liberdade começou a ser usada e disseminada.

Nós pensamos na palavra “liberdade” no contexto da Revolução Francesa, mas desde 1360 observamos o uso da palavra “libertas”, em latim, pelos revolucionários.

Algo que me chama atenção nesta comparação é que a peste negra marcou a transição do feudalismo para o capitalismo, o que, de alguma maneira, permitiu o Renascimento e o que conhecemos como Idade Moderna. Há mais ou menos 40 anos se fala do fim dessa Idade Moderna e do que, por falta de uma expressão melhor, se chama “pós-modernismo”. Como se novamente uma epidemia estivesse marcando a transição para um período distinto…

Mason – É interessante, mas não vejo as coisas assim. Há muita coisa em jogo. Minha posição é a de que temos em nível global um sistema econômico que não funciona. E é um sistema que depende que um mundo rico bombeie recursos para um mais pobre e, por sua vez, que este mundo pobre bombeie lucro de volta ao rico.

É uma simplificação extrema, mas é assim que funciona.

Isso gerou grande desenvolvimento no hemisfério sul do planeta — algo bom para a região —, mas, ao mesmo tempo, cria pobreza e desigualdade, inclusive no mundo desenvolvido, tanto ao ponto de mostrar que o sistema não é sustentável.

Em 2008, dissemos: “Há muita dívida”. E a razão foi que os bancos centrais imprimiram muita moeda e as pessoas usaram isso para especular. E a solução foi US$ 75 bilhões extras em dívida e mais dinheiro por parte dos bancos centrais.

Estamos tentando curar a doença… com mais doença. E a doença é o capitalismo financeiro.

E qual a cura que se está oferecendo para a crise de covid-19? Mais dinheiro por parte dos bancos centrais, mais dívida.

Então, antes de falar de Modernidade, devemos falar de algo muito mais recente: o modelo econômico neoliberal, que está baseado em uma profunda desigualdade, especulação financeira extrema e baixos salários. Um modelo que em algum momento funcionou, mas que não funciona mais.

Indústria automotiva destruiu empregos quando surgiu, mas acabou gerando outros – Direito de imagem GETTY IMAGES

Deixemos de lado a questão da dívida. Se você pensa em uma franquia da Starbucks, ela trabalha com uma margem de lucro bem pequena, porque está em constante pressão para reduzir preços.

Se a Starbucks decide aumentar o preço do café, o McDonald’s reduz imediatamente. Então estamos diante de algo que há sido chamado de “capitalismo just in time”, onde praticamente não há estoque.

É o que temos no serviço de saúde britânico: deixamos que ele opere em sua capacidade máxima, assim não há camas ou respiradores sobressalentes. E isso não pode continuar assim. O que se necessita é de capacidade.

No futuro fará sentido que a Starbucks tenha várias lojas com cafés de cada país. Fará sentido que elas tenham empregados adicionais, porque essa situação deve continuar e eles devem em algum momento ter algo como 10% da força de trabalho doente a todo momento.

E, logicamente, o serviço de saúde britânico deveria ter mais camas, mais médicos, mais enfermeiros.

Mas, se tudo isso acontecer, todo o modelo neoliberar vai ruir. Então esse é meu ponto. Estamos diante de um modelo que já se esgotou e acredito que a tarefa para aqueles envolvidos na política é pensar em uma solução.

Porque a resposta não pode ser a mesma que a maioria dos países deu em 2008, certo? Austeridade, cortes em áreas como a saúde… Isso parece estar no centro de tudo o que está errado neste momento.

Mason – Exatamente. Temos que rechaçar a austeridade, não só porque ela afeta mais aqueles que têm menos, mas porque se você a combina com a maior disponibilidade de recursos por parte dos bancos centrais…

Pense em termos da quantidade de dinheiro circulando: se um governo coloca mais dinheiro para circular, mas ao mesmo tempo está cortando gastos, o único lugar para onde esses recursos podem fluir é para os mais ricos.

Então, essa combinação de imprimir mais moeda enquanto se reduz o Estado só vai produzir mais desigualdade.

E digo o seguinte a seus leitores: qualquer governo da América Latina que se proponha a fazer essas duas coisas ao mesmo tempo está conscientemente enchendo o bolso das casses mais altas.

Como jornalista, Paul Mason trabalhou para a BBC e para o Channel 4, na Inglaterra
Direito de imagem GETTY IMAGES

O que você acha que vai acontecer? Porque estamos diante de mudanças que nunca se pensou que ocorreriam com tanta rapidez: países aprovando uma renda básica universal ou a nacionalização de alguns setores da economia… Isso deve continuar?

Mason – Não. Veja, é possível pensar na nossa cabeça que o livre mercado funciona perfeitamente bem e que vai corrigir tudo em circunstâncias normais, mas o que precisamos agora é de forte intervenção estatal.

O que estamos vendo com Trump ou com os conservadores no Reino Unido que estão tomando as medidas corretas, ainda que com lentidão: fechar a economia e a reconversão de algumas companhias às mãos do Estado.

Mas o que vai acontecer quando as pessoas se derem conta de que a normalidade não vai retornar? Acredito que precisamos de três coisas.

Primeiro, que o governo tenha uma participação em todos os negócios estratégicos. Isso não é o mesmo que resgatá-los financeiramente. Pode-se dar-lhes algum dinheiro, mas com algumas condições, como que mantenham toda a força de trabalho que possam — no caso das empresas do setor aéreo e as petroleiras, pode-se pedir que comecem a fazer uma transição para a tecnologia verde. E que o Estado seja dono de parte da empresa.

Você mencionou a renda básica. A longo prazo, a melhor maneira para que isto funcione é através de algo chamado de serviços básicos universais.

Quer dizer, usar o dinheiro dos contribuintes para garantir renda para todo mundo, mas também para prover serviços básicos gratuitos: saúde, educação universitária, moradia acessível e transporte barato ou gratuito nas cidades.

O problema nesta crise é que nada disso vai ajudar, porque o que as pessoas precisam neste momento é dinheiro. Assim, no curto prazo precisamos que cada país tenha um esquema de salário básico universal.

Finalmente, a terceira coisa que creio que precisamos é que os bancos centrais comprem a dívida do governo, se necessário, de maneira indireta.

Isso é um anátema para a economia de livre mercado porque basicamente é o governo decretando o fim da independência dos bancos centrais — algo que era uma ficção, de qualquer maneira. É o governo emprestando a si mesmo.

Para muitos isso não faz sentido, mas teríamos que pensar da seguinte maneira: estaríamos concedendo um “empréstimo ponte” (modalidade que algumas instituições financeiras condecedem quando seus clientes necessitam de liquidez imediata) ao futuro.

A conta seria paga por aqueles que estivesse vivos daqui 50 ou 100 anos. Porque, se pagássemos os custos agora, as pessoas não morreriam apenas pela doença. A própria democracia poderia morrer.

E em um momento em que ela já está frágil — veja Trump e Bolsonaro —, se permitirmos uma depressão na escala de 1929 creio que em muitos países a democracia evaporaria.

Algo que o senhor analisava quase cinco anos atrás em “Postcapitalism”, seu livro anterior, é que o capitalismo havia perdido sua capacidade de se adaptar, em especial o neoliberalismo. O que pensa sobre esse tema hoje?

Mason – O capitalismo pode se adaptar a essa crise, mas assumirá uma forma bem diferente. Ficará tão diferente que muita gente nem o enxergará como capitalismo.

Agora mesmo há muitas oportunidades para o investimento privado. Na área de educação, por exemplo, ou no entretenimento.

O faturamento da Netflix está aumentando, seu problema é não conseguir produzir conteúdo novo neste momento. Mas está lá a oportunidade para que as pessoas criativas o façam. Por exemplo: acho que a animação voltará a ser bastante popular.

Não estou dizendo que essa crise vai significar o fim do capitalismo. O ponto do meu livro era diferente: que o capitalismo havia perdido sua capacidade de se adaptar a mudanças tecnológicas.

Sim, é verdade.

Em essência, em todas as revoluções tecnológicas anteriores, as novas tecnologias eliminavam formas antigas de trabalho.

Por exemplo, as pessoas que usavam cavalos ou carroças ficaram sem trabalho no início do século 20, com a criação do automóvel. Mas novos postos de trabalho foram criados nas fábricas de veículos.

E assim o capitalismo vai se adaptando. O problema é que a tecnologia da informação atualmente destrói formas de trabalho mais rapidamente do que cria — e em particular elimina empregos com alta remuneração.

Claro que ele também cria a função do desenvolvedor de software, que é bem pago, mas agora muito do processo de desenvolvimento de software está automatizado.

O clássico trabalho manual bem remunerado era o de fabricante de ferramentas para maquinário. E então havia um engenheiro talentoso que era capaz de desenhar e fundir em metal algo que era tão precioso que poderia construir aviões com ele. Agora ele faz um computador.

Essa é a ideia que trato de explicar quando falo da capacidade de adaptação do capitalismo, mas a crise causada pela covid-19 é um problema a mais.

O senhor segue acreditando que é possível ver as sementes desse pós-capitalismo no ambiente em que vivemos hoje?

Mason – A tecnologia da informação permite que o lucro venha cada vez mais fácil. Também cria a possibilidade de automatização rápida. Cria um efeito de rede que produz novos materiais.

Por exemplo: quando descobrirmos uma vacina contra o coronavírus, independentemente da decisão dos fabricantes de cobrar ou não por ela, o fato é que ela poderia estar à disposição do mundo inteiro no dia seguinte. E de forma gratuita. Hoje é muito fácil fabricar uma vacina com uso da tecnologia da informação.

Basicamente, a tecnologia da informação está dificultando que o capitalismo seja capitalista. Agora, temos modalidades diferentes de propriedade, como a Wikipedia, o movimento “open source”, plataformas de cooperação.

Em Postcapitalism eu argumento que nos levará tempo para amadurecer um sistema alternativo. E creio que o fato de que agora mesmo estejamos enfrentando uma crise de funcionalidade do modelo existente deveria fazer as pessoas pensarem nas alternativas de que dispomos.

Para mim, a alternativa para os próximos 20 anos é uma forma mais sustentável de capitalismo. Quero dizer mais verde, menos excludente, sem especulação financeira.

Continuará sendo capitalismo, mas muitos não o enxergarão como tal.

Tecnologia,Economia,Trabalho,Emprego,Blog do Mesquita 01

A banca, a farsa e a ditadura invisível

George Orwell e a novilíngua

O romance 1984 de George Orwell, pseudônimo do súdito nascido na Índia Eric Arthur Blair, lançado em 1949, é uma crítica a Stalin e à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e, de modo sutil, a glorificação de Winston Churchill, nome do herói – Winston – do romance.Imagem relacionada

Logo no início do livro travamos conhecimento da existência do Ministério da Verdade e da Novilíngua, graças aos quais se difundiam lemas governamentais: “liberdade é escravidão”, “ignorância é força”.

Parece ridículo que alguém fosse atingido por tais farsas? Mas outra coisa não lhe é feita, desde os anos 1980, com as palavras e expressões tais como globalização, mercado livre, política ou decisão inevitável, modernização trabalhista, ações indispensáveis, contenção de despesas públicas, superavit fiscal, déficits públicos e baboseiras semelhantes.

A ensaísta e premiada escritora francesa Viviane Forrester publicou, em 2000, Uma Estranha Ditadura (UNESP, 2001) que desmascara a novilíngua neoliberal, que tomou conta de todas as notícias da imprensa, das análises supostamente técnicas e mesmo da academia, como demonstra com precisão e objetividade o filme de Charles Ferguson, Trabalho Interno (Inside Job), lançado em 2010.

Vamos analisar os verdadeiros significados destas palavras, os objetivos desta farsa e, como é óbvio, quem é beneficiado com este reeditado “1984”.

Tomemos um caso concreto – a reforma da previdência social no Brasil. Como já foi sobejamente demonstrado esta previdência é superavitária, mesmo sem a cobrança de milhões de reais devidos por empresas privadas.

O economista J. Carlos de Assis, nas páginas do jornal Monitor Mercantil e em vários blogs e portais virtuais, lançou o desafio a qualquer membro do governo, economista chapa branca ou independente, analista de jornal, rádio e emissora de televisão e doutos acadêmicos para debater com ele o “déficit previdenciário”. Ninguém se ofereceu a este repto que já completa dois meses.

Vejamos alguns elementos desta novilíngua. Primeiro este “pensamento único”, por si já prova do sentido ditatorial, que se autodenomina neoliberal. Que magnífica composição: neo, dando a ideia de novo, de atual, e liberal, que lembra imediatamente liberdade, independência.

Mas significando efetivamente a selvageria do cada um por si, de nenhuma restrição ao abuso, da satisfação de desejo, o mais iníquo, e a competitividade destruidora de pessoas e bens.

Resultado de imagem para a ditadura invisivel da economia

Viviane Forrester levantou, para março de 1996, sete grandes empresas multinacionais que tiveram cotações em bolsa elevadas com a divulgação da demissão de empregados. O resultado desta “competitividade” foi transferir o dinheiro de salários para os maiores lucros dos acionistas, um processo de concentração de renda e de expansão da miséria.

Mas a competitividade parece atender a voz divina que manda os ricos ficarem mais ricos e os pobres ainda mais pobres. Ou você não havia notado esta novilíngua?

Para que serve a economia? Para promover concentração de riqueza ou existência digna para as pessoas?

Em Londres e em Nova Iorque houve manifestações, peço atenção do analfabeto Ministro da (des)Educação (sic) – “houveram” – remete-lo-ia (!) ao ensino Fundamental I, de mestres de escolas de economia em defesa do real estudo desta disciplina, pois, em suas próprias palavras, estava sendo transformada apenas e simplesmente em engenharia financeira. Mas a imprensa mundial, dominada pela banca (sistema financeiro), fez-se surda e muda.

Resultado de imagem para a ditadura invisivel da economia

Outro vocábulo da novilíngua é globalização. Viviane Forrester chama “obra-prima do gênero” farsante.

Escreve esta crítica francesa: “seu nome por si só cobre todos os fatos de nossa época e consegue camuflar, tornando-a indiscernível no interior desse amálgama, a hegemonia do ultraliberalismo: um sistema político que, sem estar oficialmente no poder, comanda o conjunto daquilo que os poderes têm a governar, obtendo uma plenipotência planetária”.

Este avanço da banca à economia, à política, à comunicação social, a toda sociedade já é descrito até por seus executivos e membros de um organismo da banca: o Fundo Monetário Internacional (FMI).

E a imprensa, mesmo quando combate ações da banca, divulga a novilíngua, como se fosse inevitável a discussão nos seus termos e significados. É uma escolha a qual também devemos combater.

Afinal expropriação privada é tirar de alguém, sem que haja interesse público, algo que lhe pertence, seja o salário, no exemplo dado por Viviane Forrester, seja o direito à saúde ou à educação.

Chame-se de déficit público, de custo irrecuperável, de administração perdulária (como se altos juros não fosse o mais perdulário dos gastos públicos), de futura insolvência, como se alardeia às aposentadorias e pensões, sempre é você que está sendo tungado.

Já pensou o caro leitor quem vai receber suas contribuições previdenciárias se não for o Estado? e que garantia você terá da própria permanência da seguradora ou banco daqui a 30 ou 40 anos quando você resolver se aposentar?

É a farsa da banca que nos coloca nesta ditadura da própria linguagem, muito mais difícil de se insurgir do que a da censura, dos tanques nas ruas ou de um Estado totalitário. É a ditadura invisível que nos oprime neste século XXI. E que os coxinhas, batedores de panela ou simplesmente ignorantes colocaram no Poder no Brasil.

Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

Coronavírus: por que a pandemia pode acelerar a desglobalização da economia mundial

O novo coronavírus teve efeitos econômicos imediatos e esmagadores em todo o mundo. Uma das palavras-chave para entender os últimos 25 anos da história mundial é a globalização.

Embora, como diz Jonty Bloom, jornalista da BBC, qualquer historiador econômico possa falar de como há séculos – se não milênios – as pessoas negociam a grandes distâncias.

Bloom se lembra de observar o lucrativo comércio de especiarias na Idade Média.

Mas a globalização de hoje é realmente diferente por causa da escala e velocidade das trocas internacionais, que nas últimas décadas explodiram em níveis sem precedentes.
Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES
As instalações de viagens, a Internet, o fim da Guerra Fria, os acordos comerciais e as economias em rápido desenvolvimento se combinaram para criar um sistema mais interdependente do que nunca.

É por isso que o surto do novo coronavírus teve efeitos econômicos tão imediatos e esmagadores em todo o mundo.

“Estamos diante de uma crise generalizada do capitalismo democrático mundial e do capitalismo não democrático, como o da China”
A professora Beata Javorcik, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, disse a Jonty Bloom que o ritmo de mudança da economia nos últimos 17 anos foi muito profundo.

“Quando pensamos na epidemia de Sars em 2003, a China representou 4% da produção global”, lembra ele. “A China agora representa 16%, quatro vezes mais. Isso significa que o que quer que aconteça naquele país afeta muito mais o mundo”.

O lado oculto
Por sua parte, Ian Goldin, professor de globalização e desenvolvimento da Universidade de Oxford, diz que nos últimos anos foi permitido espalhar riscos. “Eles são o lado oculto da globalização”.

Isso, ele acrescenta, pode ser visto não apenas nesta crise, mas na crise econômica de 2008 e na vulnerabilidade da Internet a ataques cibernéticos. “O novo sistema econômico mundial oferece enormes benefícios, mas também implica riscos enormes”.

Então, o que essa crise significa para a globalização?Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Muitos acreditam que as cadeias produtivas localizadas em diferentes países serão afetadas. Richard Portes, professor de economia da London Business School, diz que é óbvio que algumas coisas terão que mudar, porque pessoas e empresas perceberam o tamanho dos riscos que estão assumindo. “Olhe para o comércio. Depois que as cadeias de suprimentos foram interrompidas [pelo coronavírus], as pessoas começaram a procurar fontes alternativas em casa, mesmo que fossem mais caras”, diz ele.

“Se as pessoas encontrarem fornecedores domésticos, ficarão com eles, precisamente por causa dos riscos que agora percebem.”

O professor Javorcik concorda e acredita que há uma combinação de fatores que farão com que a indústria manufatureira ocidental comece a trazer para casa alguns de seus empregos (“re-shoring”).

“Eu acho que a guerra comercial (principalmente entre os EUA e a China) combinada com a epidemia de coronavírus fará com que muitas empresas levem muito a sério a reforma”, diz ele.

“Muitas dessas atividades podem ser automatizadas, porque a reposição de peças traz certeza. Você não precisa se preocupar com a política comercial nacional. E isso oferece a oportunidade de diversificar sua base de fornecedores”.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Alguns argumentaram que, no futuro, a fabricação de ventiladores e máscaras faciais deve ser considerada uma questão de segurança nacional.
Em um artigo publicado na revista mexicana Letras Libres, Toni Timoner, especialista em risco macroeconômico, é mais forte:

“A retirada do comércio internacional se acelerará. Os exportadores já estão reconfigurando suas cadeias de suprimentos e aproximando a produção com o custo das eficiências. Os importadores aumentarão as barreiras tarifárias em resposta. Esse processo já havia começado com a guerra comercial e agora entrará em turbulência. Ásia” e o Ocidente se isolam. Uma cortina econômica de ferro cai sobre o mundo “.

As Universidades
Mas Como aponta o jornalista Jonty Bloom, grande parte da globalização não se refere apenas ao movimento de mercadorias ou matérias-primas, mas a pessoas, idéias e informações. Algo que as economias ocidentais fazem muito bem.

David Henig, diretor da Política Comercial do Reino Unido para o Centro Europeu de Política Econômica Internacional, observa que “o setor de serviços deve parecer que caiu de um penhasco. Olhe apenas para o turismo e as universidades”.

“Deve haver uma enorme preocupação com o número de novas inscrições para universidades ocidentais neste outono. É uma indústria enorme. Muitas universidades, por exemplo, dependem de estudantes chineses”.Direitos autorais da imagem CHRISTOPHER FURLONG

O que acontecerá com as universidades? Na foto, uma luva cirúrgica abandonada nas ruas da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
A mesma preocupação foi expressa  pelo escritor e pensador canadense Michael Ignatieff, reitor da Universidade da Europa Central, com sede em Budapeste.

“Eu acho que as fronteiras estão aumentando em todos os lugares e que a mobilidade do trabalho será reduzida, mas a mobilidade do capital não.

“Com fronteiras mais estritas, será mais difícil para universidades como a minha continuar atraindo estudantes de cem países diferentes. Tenho latino-americanos em Budapeste … Continuarei com os mesmos colombianos, peruanos ou brasileiros extraordinários que tenho agora?

“Não sei, os países apertarão as fronteiras, apertarão as restrições. Portanto, podemos ter uma desglobalização do ensino superior. Essa é uma ameaça real de que todo mundo no mundo universitário está falando. Não quero que a próxima geração seja preso dentro das fronteiras nacionais “. ponderar.

Já estava em declínio
Segundo o jornalista Jonty Bloom, a desaceleração ou a reversão da globalização afetará fortemente todas as indústrias acima mencionadas, mas acrescenta que o professor Goldin acha que a atual pandemia marca uma mudança oceânica e que 2019 “foi o ano que marcou o pico maior na fragmentação da cadeia de suprimentos “.

Fatores como impressoras 3D, automação, entrega rápida e protecionismo já os faziam sentir. Aparentemente, a covid-19 apenas acelerou o processo.

A preocupação agora, diz Bloom, não é se essas mudanças ocorrerão, mas quão profundas serão e como serão gerenciadas.

Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Eclac), acredita que a gobalização “pelo menos como a conhecíamos antes dessa pandemia, será definitivamente diferente”.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Alicia Bárcena acredita que a globalização definitivamente vai mudar.
Em entrevista ele indicou que “isso definitivamente não será uma globalização das cadeias de valor. Isso é o que será mais importante: a mudança nos modos de produção e nos modos de consumo”.

“Isso vai parecer muito com uma economia de guerra”: o alerta sobre como a crise do coronavírus aumentará o desemprego e a pobreza na América Latina
Por sua vez, Terry Breton, Comissário do Mercado Interno da União Européia, disse em uma teleconferência com jornalistas que é muito cedo para tirar conclusões”, mas todos sabemos que haverá um antes e depois dessa crise. Ninguém sabe. como sairemos, mas será escrito um novo mundo baseado em outras regras. Seremos mais autônomos em certas áreas críticas. As relações bilaterais serão revistas “, relatou o jornal El País na Espanha.

O professor Goldin tem uma maneira simples de abordar as profundas mudanças que a globalização enfrentará, explicou à BBC: Será mais parecido com o que aconteceu após a Primeira Guerra Mundial ou o que aconteceu após a Segunda?

Depois de 1918, tínhamos organizações internacionais fracas, a ascensão do nacionalismo, protecionismo e depressão econômica.

Em vez disso, depois de 1945, tínhamos mais cooperação e internacionalismo, refletidos no acordo de Bretton Woods, no Plano Marshall, nas Nações Unidas e no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

O economista britânico John Maynar Keynes – centro – foi vital na formulação do acordo de Bretton Woods, o primeiro acordo monetário internacional que estabeleceu as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países industrializados.
Embora otimista, o professor Goldin está preocupado com algo: quem assumirá a liderança. “Podemos estar otimistas, mas não vemos liderança da Casa Branca“. E acrescenta: “A China não pode assumir isso e o Reino Unido não pode liderar na Europa”.

Então a globalização será revertida?, pergunta o jornalista Jonty Bloom. E ele responde que provavelmente não, porque é um desenvolvimento econômico muito importante, mas certamente pode desacelerar.

A grande questão, acrescenta Bloom, é se vamos aprender as lições desta crise.

E ele conclui: “Vamos aprender a identificar, controlar e regular os riscos que parecem inerentes à globalização? Porque a cooperação e a liderança necessárias para que isso ocorra não parecem abundar no momento”.

 

A globalização poderá ser afetada pelo coronavirus?

Basta olhar para um carro saindo das linhas de montagem em Sindelfingen ou Wolfsburg, na Alemanha. Pode ser um Mercedes E-Class ou um Volkswagen Golf.

O Made in Germany não é mais aplicado por lá. Apenas um quarto de todas as peças usadas ainda é comprovado pelas montadoras, sendo o restante deixado por vários fornecedores. Os componentes vêm de todos os lugares do mundo.

Isso envolve um enorme desafio logístico. O gerenciamento da cadeia de fornecedores não é nada simples. Por exemplo, um contêiner com peças da China não chega ao porto de Hamburgo? Sindelfingen e Wolfsburg podem logotipo com um enorme problema.

Atualmente, os cenários de gargalos estão sendo analisados ​​por muitas empresas na Alemanha e em outras partes do mundo. Como montadoras estão tentando lidar com esse problema, como os fabricantes de máquinas, as pequenas e mídias empresas e as empresas listadas no índice DAX. O tópico também pressiona o sistema de saúde da Alemanha, onde o novo coronavírus exacerba uma escassez de remédios já em andamento.

Muitas pessoas estão perguntando se estamos vendo o começo do fim da globalização. Teremos que reavaliar uma divisão global do trabalho? Como países precisam trazer a produção de volta para casa? Existe uma alternativa funcional para uma fábrica global que foi construída nas últimas três décadas?

Aqui está uma decepção para todos aqueles que acreditam que todos os problemas atuais no mundo são causados ​​pela globalização: não há soluções fáceis. Por um lado, uma globalização levou a um aumento enorme de riqueza e bem-estar, e não apenas nos países industrializados.

Algumas nações conseguiram deixar o status de países em desenvolvimento e podem usar emergentes, tirando milhões e milhões de pessoas com extrema pobreza.

É claro que não deve ignorar problemas relacionados a condições de trabalho, padrões sociais e ambientais. Mas se alguém no Ocidente exigir que a produção seja repatriada, muitos empregos serão perdidos em outros lugares se isso for causado por um cabo.

Muitas pessoas reagem de maneira furiosa quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala em trazer de volta os empregos para seu país. Mas, quando o ministro da Economia Alemã, Peter Altmaier, ou seu homólogo francês, Bruno Le Maire, fala sobre a criação de mais instalações de produção na Europa e na recuperação das principais habilidades de produção, como pessoas que reagem à maneira mais despreocupada.

Isso não significa que nenhuma mudança seja necessária. Veja a indústria farmacêutica. A Alemanha, assim como a França, obtém no exterior cerca de 80% de todos os ingredientes ativos usados ​​para medicamentos (40% somente na China). Olhando para esses dados, é possível defender o sistema que precisa ser aprimorado.

Mas não vamos esquecer como essa discrepância surgiu no primeiro lugar. A produção doméstica havia ficado muito cara, e as pressões de custo exercidas sobre o setor pelas seguradoras de saúde continuam enormes.

No entanto, está errado supor que a Alemanha esteja totalmente nas mãos dos chineses em muitos setores. A economia alemã, como parte integrante e beneficiária da divisão global de trabalho, não depende de nenhum país. Nenhum dos parceiros comerciais da Alemanha responde por mais de 10% das importações e impostos globais do país, de acordo com a Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK).

Obviamente, o covid-19 está levando como empresas a reavaliar suas cadeias de suprimentos, com o objetivo de diminuir ainda mais a dependência de alguns participantes do mercado. Também pode ocorrer um debate sobre o quão bom é o sistema “just in time” da administração de produção e não seria mais sensato voltar a uma política de compras antecipadas.

O diretor da Câmara de Comércio da União Europeia na China, Jörg Wuttke, que afirma acreditar que terminou o tempo das empresas que decidiram produzir onde isso pode ser feito com mais eficiência. Afinal, isso também afeta negativamente a Alemanha, uma nação orientada para exportação.

A produção econômica da Alemanha caiu 5% em 2009, nenhuma medida da crise financeira global. Sofreria muito mais se a globalização fosse revertida. Limitar-se à produção doméstica séria como voltar ao século 19.

Com a proteção crescente em vários países, os formuladores de políticas devem ser adotados para reunir alguns bons argumentos quando disserem que as pessoas que estão sendo afetadas.

Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

Somos globalistas? Vamos examinar o pacote.

¹Nos discursos presidenciais na Assembleia da ONU em NYC, ouviu-se o slogan nacionalista (parecia anos 50) com Trump reiterando que sua política é “América First” e Bolsonaro grunhindo “A Amazônia é nossa”.

Pelo menos nos anos 50 o nacional-desenvolvimentismo fazia algum sentido, e pasmem era a contraparte do suposto “imperialismo ianque”. Era ainda anti-imperialista, nos anos seguintes, o mantra dos militares “integrar para não entregar”. A Amazônia era vista como vazio geográfico na iminência de ser tomado dos brasileiros. Naqueles anos, tais aventuras tiveram seu apelo e houve quem embarcasse à direita e à esquerda.

Hoje, tanto Donald Trump quanto Bolsonaro parecem – no curto prazo – leões que rugem em reinados despedaçados. O primeiro tenta com bazófias segurar um ciclo econômico de fôlego e data de validade prestes a vencer. Há quase unanimidade entre especialistas no prognóstico de que a América do Norte caminha para uma recessão.

O segundo, o nosso Capitão Viva a América, quer fazer caixa já, pagar as contas do dia seguinte e para tanto torra o patrimônio nacional, vendido a preço de banana.

No longo prazo ambos nos parecerão ratos que roeram a roupa do rei de Roma. E com seu nacionalismo populista de direita deixarão triste e malfadada lembrança.

Os dois, Trump e Bolsonaro – apresentam seu nacionalismo falacioso e acusam seus opositores de GLOBALISTAS. Inclui no pacote esquerda e ambientalistas.

Somos globalistas? Acho que não. É pura mistificação.

Vejamos: a globalização se deu via mercados e via doutrina neoliberal nos anos 80. A falência do estado de bem-estar social que predominava na Europa livre e a derrocada do socialismo soviético, fortaleceram o projeto de um capitalismo universal. Quem não se globaliza se trumbica, mais ou menos assim. Nunca foi um projeto da esquerda, muito menos ambientalista.
Globalismo? É mais um “ismo” em que se apoia o discurso do ódio.

Ao contrário, frequentando as várias edições do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e depois em outras praças, o slogan era “Outro Mundo é Possível”.

Ali como em outros lugares se fizeram presentes os “descontentes da globalização” (assim chamados por J. Stiglitz, ex-economista do Banco Mundial e prêmio Nobel de Economia). Os que sobraram no processo de globalização econômica feita aos trancos e barrancos. O processo foi tão brutal que gerou Davos e os Objetivos do Milênio.

Por isso é risível imputar à esquerda o epíteto de globalista.

No caso dos ambientalistas a mistificação também não se sustenta.

Sabemos desde os anos 70, enquanto comunidade científica, elites dirigentes, governantes ilustrados, tecnocracia competente e mídia informada – que a poluição de rios e oceanos e as mudanças climáticas não respeitam fronteiras. É só lembrar de Chernobyl nos anos 80.

Chuva ácida, radiação, animais migratórios, genes de plantas, vírus e pestes não fazem chek-in nem obedecem a processos aduaneiros. Simple like that!

Há muito tempo sabemos que existem problemas ambientais globais. O Planeta Terra é um só embora as culturas humanas possam ser diferentes.

Temos um encontro inadiável entre a História e a biologia da Terra.

A visão de que devemos construir uma governança global para administrar os problemas que afetam a todos, indistintamente, pode ser tudo menos ideologia de quinta.

Precisamos de lideranças visionárias e responsáveis.

As mudanças climáticas em curso não podem ser tratadas com fanfarronice. Ou com ferramentas políticas do século passado.

Nós ambientalistas falamos de Humanidade, de Civilização, dos direitos das gerações futuras.

Falamos sobretudo de responsabilidade e da preservação da vida.

Globalismo? É mais um “ismo” em que se apoia o discurso do ódio.

Triste ver governantes minúsculos em momento tão grave.
¹Por Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.

Zukenberg e redes sociais

Zuckerberg publica manifesto em prol de “comunidade global”Manifesto foi publicado na página de Zuckerberg no FacebookManifesto foi publicado na página de Zuckerberg no Facebook

Criador do Facebook defende a globalização e apresenta estratégias para o futuro da rede social, cada vez mais acusada de permitir a disseminação de notícias falsas e estimular a polarização.

Promover uma comunidade global, evitar o isolamento e combater conteúdos enganosos são as novas metas do Facebook, segundo um manifesto em tom messiânico publicado por seu criador, Mark Zuckerberg, em resposta às críticas à plataforma, que tem quase 2 bilhões de usuários. Nos últimos anos, a rede social se tornou um espaço para a propagação de notícias falsas, disseminação do ódio e polarização.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

No manifesto de cerca de 5,8 mil palavras, Zuckerberg, de 32 anos, reconheceu que a plataforma abriga informações errôneas e conteúdo enganoso e afirmou que estão sendo tomadas medidas para reduzir o número de notícias sensacionalistas.

Ele ressalvou, porém, que o foco da rede social não estará em banir informação errada, mas em oferecer outras perspectivas. O Facebook enfrenta pressões de governos que exigem que a plataforma se responsabilize por conteúdos publicados por usuários e combata a propagação de notícias falsas.

“Nosso objetivo precisa ser ajudar as pessoas a ver a imagem completa e não apenas alternar perspectivas. Precisamos tomar cuidado sobre como faremos isso. Pesquisas mostram que algumas das ideias mais óbvias, como apresentar um artigo pela perspectiva oposta, na verdade aprofunda a polarização ao marcar outras perspectivas como externas”, destacou Zuckerberg, no manifesto publicado nesta quinta-feira (16/02).

Perigosos falsos seguidores

No documento intitulado Construindo uma comunidade global, Zuckerberg afirmou que, ao redor do mundo, há pessoas deixadas para trás pela globalização e movimentos que defendem a exclusão da conexão global, sem citar grupos específicos.

“Em tempos como estes, a coisa mais importante que o Facebook pode fazer é desenvolver uma infraestrutura social que dê às pessoas o poder de construir uma comunidade global que funcione para todos”, disse.

O manifesto apresentou cinco estratégias de como a rede social pretende fomentar a inclusão, contribuir para uma sociedade mais informada, fazer do mundo um lugar mais seguro, fortalecer instituições e aumentar o engajamento social e político.

“O Facebook não tem todas as respostas, mas estou convencido de que podemos desempenhar um papel”, ressaltou Zuckerberg.

“Problemas como o terrorismo, os desastres naturais, doenças, crise dos refugiados e as mudanças climáticas precisam de respostas coordenadas e globais. Nenhuma nação poderá resolvê-los sozinha”, afirmou Zuckerberg, acrescentando que a rede social pode contribuir para solucionar essas questões, por meio da inteligência artificial.

“Minha esperança é que cada vez mais pessoas se comprometam em longo prazo a construir infraestruturas sociais para unir a humanidade”, disse o fundador da plataforma.

Segundo ele, a ideia é reforçar os laços de comunidades físicas e promover a participação política e social.

Para Zuckerberg, o Facebook pode ter um impacto positivo no mundo, fortalecer o consenso, reduzir a dissonância e o isolamento.

CN/rtr/efe/ap/afp

Crianças sírias ‘são exploradas em fábricas de grifes europeias na Turquia’, revela investigação da BBC

Refugiados sírios, incluindo crianças, estão sendo explorados em fábricas na Turquia que produzem roupas para marcas conhecidas, revelou uma investigação da BBC.

Etiquetas da Marks and Spencer
Etiquetas da Marks and Spencer foram encontradas em uma fábrica na Turquia

Os refugiados trabalham mais de doze horas por dia e ganham menos que os demais funcionários das fábricas, de acordo com revelações feitas pelo programa Panorama.

Foram encontrados refugiados menores de idade trabalhando em fábricas que produzem roupas vendidas nas lojas da britânica Marks and Spencer e da varejista online Asos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Refugiados adultos também foram encontrados pela produção do Panorama trabalhando ilegalmente na confecção de peças de jeans para a Zara e Mango.

A reportagem conversou com dezenas de trabalhadores sírios empregados de forma ilegal na indústria têxtil.

Todas as marcas negam responsabilidade e afirmam que monitoram cuidadosamente suas cadeias de produção. Elas dizem não ter informação sobre exploração de refugiados ou menores de idade.

Muitas roupas vendidas no Reino Unido são produzidas na Turquia devido à proximidade da Europa. A curta distância permite às marcas atender a pedidos de última hora e efetuar entregas com maior rapidez.

Segundo dados da ONU, há mais de 4,8 milhões de sírios fugindo da guerra e a Turquia acolhe 2,7 milhões deles – é o país que mais os recebe no mundo.

A maioria dos recém chegados não tem permissão de trabalho.

Investigação

Para investigar as denúncias de exploração, a reportagem da BBC utilizou câmeras escondidas.

Meninos sírios em uma fábrica na Turquia
Dezenas de menores de idade foram encontrados pela BBC em fábrica em Istambul

Foram encontrados quatro sírios menores de idade trabalhando em uma oficina têxtil que produz roupas para a loja britânica Marks and Spencer e para a cadeia Asos.

Em entrevista, os refugiados disseram ganhar um pouco mais de uma libra (R$ 3,82) por hora, um valor muito abaixo do salário mínimo na Turquia. Um intermediário realiza os pagamentos na rua, na clandestinidade.

Além disso, um dos refugiados relatou situações de maus tratos nessas fábricas. “As máquinas têm todos os direitos: se uma for quebrada, eles a consertam imediatamente. Se algo acontecer com um sírio, se desfazem dele como um pedaço de pano”, disse.

O mais jovem trabalhador em uma das fábricas visitadas que produz roupas para a Marks and Spencer tinha 15 anos e trabalhava 15 horas por dia engomando roupas que depois seriam enviadas ao Reino Unido.

“Eles falam de seus salários irrisórios e condições terríveis de trabalho. Sabem que estão sendo explorados, mas também sabem que não podem fazer nada a respeito”, disse o repórter do Panorama, Darragh MacIntyre.

‘Inaceitáveis’

Questionada pela BBC, a empresa Marks and Spencer – uma das mais importantes redes de varejo do Reino Unido – disse que não encontrou sequer um refugiado sírio em sua cadeia de produção durante as inspeções.

Etiqueta da Asos em roupa
A marca Asos negou ter responsabilidade pela exploração de refugiados sírios na Turquia

Um porta-voz da companhia afirmou que as revelações do Panorama são “extremamente sérias e inaceitáveis”.

A empresa insiste que emprega legalmente qualquer sírio que trabalhe em suas fábricas.

“Todos os nossos fornecedores estão contratualmente obrigados a seguir nossos princípios globais de abastecimento. Isto inclui o que esperamos e exigimos deles em termos de respeito aos trabalhadores”, disse o porta-voz.

Mas os funcionários sírios que trabalham na oficina que produz roupas para a marca afirmaram que as auditorias realizadas para checar o padrão de produção não funcionam porque os refugiados são escondidos antes da chegada dos investigadores. Somente na fábrica onde trabalham, eles já foram escondidos três vezes das 10h às 18h.

Já a Asos reconheceu que uma oficina visitada pelo Panorama em Istambul produz roupas para sua marca, mas não é “aprovada” pelo grupo. Na oficina – que produz e entrega roupas a uma das principais fabricantes da marca em Istambul, Hazar, através de subcontratos – as imagens mostraram uma criança de 10 anos de idade trabalhando.

Desde então, a companhia inspecionou as oficinas e encontrou 11 adultos e três menores sírios. A Asos disse que os menores encontrados receberam apoio financeiro para ir à escola e os adultos um salário até que encontrem um trabalho legal.

Um porta-voz da companhia disse ao Panorama que iniciou programas de recuperação “apesar de que o que acontecia na fábrica (onde foram encontrados os sírios) não tem nada a ver com a Asos”.

Zara e Mango

Homens produzindo jeans
Refugiados sírios também trabalham na produção de jeans para as lojas Mango e Zara

O programa da BBC também encontrou refugiados sírios que trabalham 12 horas por dia em uma fábrica de calças jeans para Mango e Zara. Os refugiados manuseavam produtos químicos para tingir as calças sem usar máscara.

A companhia Mango disse que a fábrica fazia subcontratos sem seu conhecimento e que em uma inspeção após o programa não encontrou trabalhadores sírios.

Mango disse que seus funcionários estão “em boas condições com exceção de algumas medidas de segurança pessoal”.

A empresa matriz da Zara, Inditex, disse à BBC que suas inspeções nas fábricas são “uma forma muito eficaz de seguir e melhorar as condições laborais” e que já havia sido informada sobre descumprimento de regras da oficina inspecionada pela BBC em junho, mas deu a ela um prazo até dezembro para a melhoria de condições de trabalho.

Exterior de uma fábrica em Estambul
A BBC usou uma câmera escondida para encontrar sírios explorados em fábricas de roupa na Turquia

Esta não é a primeira vez em que a Zara está envolvida em um caso de exploração de funcionários.

No Brasil, a empresa foi implicada em 2011 em um flagrante envolvendo 15 funcionários bolivianos e peruanos trabalhando em condições degradantes em uma oficina terceirizada em São Paulo e firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) se comprometendo a empreender medidas para combater o problema.

Contudo, segundo uma auditoria do Ministério do Trabalho em maio de 2015, a Zara Brasil descumpriu o acordo firmado – em fiscalização a fornecedores, foram verificados problemas como excesso de jornada de trabalho, atraso nos pagamentos e exclusão de imigrantes da linha de produção, o que levou o órgão a autuar a empresa com uma multa total de R$ 838 mil.

À época, a empresa negou o descumprimento e recorreu dos autos.

O Ministério Público do Trabalho analisa desde então o relatório dos fiscais – a apresentação dos resultados está prevista para novembro, quando também deve ser atualizado o valor da multa que a companhia pode ter de pagar.

Em nota enviada à redação, a Zara nega que tenha cometido qualquer violação das regras e que tenha em qualquer momento utilizado trabalho infantil na confecção de suas peças. A empresa acrescenta que está em tratativas com o Ministério Público do Trabalho para demonstrar que não descumpriu o TAC assinado em 2011.

Área de fábricas em Istambul
Cerca de 2,7 milhões de sírios chegaram à Turquia ao fugir da guerra

Para Danielle McMullan, do Centro de Direitos Humanos e Negócios de Londres, uma organização que investiga casos de exploração trabalhista em mais de 6 mil companhias no mundo, as marcas não entendem que têm responsabilidades.

“Não é o bastante dizer que não sabem nada a respeito e negar as irregularidades. Eles têm a responsabilidade de supervisionar onde suas roupas são feitas e em quais condições”, afirma McMullan.

Trump e o fantasma da globalização

Entre os temores decorrentes do resultado da eleição presidencial nos EUA está a oposição do candidato vencedor à globalização e ao livre-comércio.

Donald Trump durante campanha eleitoralCampanha de candidato republicano foi marcada por retórica antiglobalização

Um dos motivos por que Donald Trump venceu a disputa pela Casa Branca foi ter conquistado para si a classe média frustrada – o assim chamado angry white man (homem branco zangado).

A era Trump trará de volta o provincianismo econômico?

Muitos de seus discursos foram marcados por uma acirrada retórica antiglobalização. Ele colocou em questão a cooperação econômica com outros países; disse que pretende renegociar acordos de livre-comércio como o Nafta e impedir que o TTIP, com a União Europeia (UE), sequer se realize. E não só: ele também pretende trazer de volta para os Estados Unidos os postos de trabalho transferidos para a China.
[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Palavras de ordem desse gênero encontram ressonância, sobretudo, entre a classe média branca. Enquanto os ricos ficavam cada vez mais ricos, também graças às interconexões mundiais, a globalização não trouxe maior prosperidade à classe média.

Para os operários do Rust Belt (cinturão da ferrugem), uma antes próspera região industrial do nordeste americano, é cada vez mais difícil garantir a subsistência. Isso, apesar de manterem vários empregos – mas que são mal pagos. Trump responsabiliza a globalização e o livre-comércio por tais desníveis sociais.

Antiglobalização, um instrumento do populismo contemporâneo

Os estereótipos de inimigos contam entre os instrumentos principais no repertório de um populista. Eles promovem identidade e coesão, desviando a atenção do próprio fracasso. Judeus, muçulmanos, bolcheviques, sionistas, americanos, social-democratas: sempre houve estereótipos hostis de que os populistas se servissem.

Hoje há outro inimigo em curso: a globalização. É cada vez mais comum reduzir-se a uma vaga ameaça esse fenômeno multifacetado. O neoprotecionismo de um Trump não abre um precedente. Os opositores da globalização já estão por toda parte, promulgando medidas protecionistas.

O Brexit (decisão pela saída do Reino Unido da UE) não foi apenas antieuropeu, mas também um rechaço à globalização, incluindo a imigração em massa. Também a Frente Nacional (FN), popular na França, defende um rigoroso protecionismo econômico. Menos populista, porém tão mais decidido, é o movimento na Alemanha contra acordos de livre-comércio como o TTIP ou o Ceta, com o Canadá.

O ex-diretor do Instituto de Economia Mundial (IfW, na sigla em alemão) Rolf Langhammer atribui esse desdobramento ao declínio das taxas de crescimento global nos últimos anos, que acirrou os conflitos de distribuição. Os populistas atribuíram esses problemas à globalização, embora, segundo o especialista, a fonte do mal seja, antes, o progresso tecnológico.

Ascensão e declínio de um mito

Será, então, que o início da presidência de Trump marca o começo do fim para a globalização econômica? O início de uma espiral descendente, gradativamente precipitando a economia mundial em direção ao provincianismo econômico?

É o que faz aponta o índice de globalização do grupo de logística Deutsche Post DHL, segundo o qual tanto os investimentos estrangeiros quanto os fluxos de transações e de capital vêm caindo constantemente desde o princípio da crise econômica, em 2007.

Gustav Horn, diretor do Instituto de Macroeconomia e Pesquisa de Conjuntura (IMK), responsabiliza sobretudo a China por essa conjuntura. Há muito, a economia mundial não roda macia, e medidas protecionistas à la Trump poderão emperrar ainda mais seu motor.

Alguns anos atrás, essa súbita “calmaria da globalização” seria considerada impossível. Há décadas era consenso que a dinâmica global resolvia os problemas do mundo, beneficiando os pobres e multiplicando a prosperidade.

Especialmente desde a abertura da China e a queda da Cortina de Ferro, o comércio internacional e os fluxos de capital vinham aumentando de forma constante. A integração vitoriosa do mercado interno da UE e a consolidação de uma classe média de alto poder aquisitivo na Índia, Rússia e China vieram confirmar a credibilidade de uma “globalização benéfica”.

Populistas europeus enaltecem vitória de Trump

Crescimento globalizado

No momento, essa quase euforia perante a globalização retrocedeu temporariamente. O comércio global estanca, a maior economia do mundo terá como presidente um adversário da globalização; por todo o mundo, populistas bradam contra a globalização e o livre-comércio. Será que essa dinâmica que vem crescendo desde a época da industrialização receberá agora o golpe de misericórdia?

É inegável que a globalização também trouxe efeitos positivos. Langhammer lembra que tanto as nações industriais como as emergentes se beneficiaram: centenas de milhões conseguiram escapar à pobreza nos países emergentes e em desenvolvimento, graças à abertura dos mercados nacionais.

Horn lembra que a China, o México e o Brasil, em particular, acusaram crescimento meteórico através do comércio mundial. Por outro lado, ele reconhece que a prosperidade proveniente à globalização deveria ser mais bem distribuída.

Também na Europa o livre-comércio teve efeito positivo. O mercado comum europeu promoveu prosperidade nos países do Sul e do Leste do continente. Da Espanha à Romênia, o padrão de vida melhorou em tempo recorde após a adesão à União Europeia – e, consequentemente, ao mercado comum.

Mais do que isso, o livre-comércio para além das fronteiras nacionais na Europa foi um catalisador da paz e da compreensão entre os povos. As interligações econômicas tornam quase impossível uma guerra. A globalização uniu seres humanos das mais diferentes culturas. Assim, quem se posiciona contra ela incentiva as iniciativas solitárias nacionalistas.

Protecionismo não é a solução

Trump gostaria de isolar os EUA e restringir o comércio em nível mundial. No entanto, o plano de colocar os acordos de livre-comércio sob sindicância nada traria à classe média americana frustrada.

Para Horn, a política econômica de Trump prejudicaria a real-economia e os mercados financeiros, a longo prazo. Mais importante, porém: ela não serve em absoluto à classe média. A redução do imposto sobre fortunas agravará ainda mais a desigualdade e reforçará a distribuição de capital de baixo para cima.

Tanto o diretor do IMK quanto Langhammer estão convencidos de que uma política econômica que prejudique os acordos de livre-comércio não resolverá os problemas da classe média americana.

O ex-diretor do IfW chama a atenção para o aspecto do avanço tecnológico: os EUA possuem, de fato, numerosas universidades de ponta, mas seu sistema de ensino é basicamente desigual. Num país caracterizado pela alta tecnologia e não pela indústria, a mão de obra bem treinada teria uma situação mais fácil. Além disso, deixou-se de realizar uma reforma estrutural em polos industriais como o Rust Belt.

A globalização proporcionou crescimento econômico, prosperidade e entendimento entre os povos. Devido ao alarmismo dos populistas e dos idealistas político-sociais, contudo, ela passou a ser associada antes a riscos do que a chances.

Em muitos casos, a insuficiente distribuição de capital, tanto nos países emergentes quanto nos industrializados, tem causas mais complexas, como reforma estrutural, corrupção, uma economia mundial vacilante – a lista é praticamente infinita.

Fazer retroceder a roda da globalização não é apenas pouco pragmático, mas fomenta, no fim das contas, o isolamento econômico e social – um desdobramento que definitivamente não é sinônimo de mais prosperidade.
BBC

Endividamento chinês e crise mundial preocupam economistas

economiachinablog-do-mesquita“Se a China despencar, não passaremos ilesos”, alerta especialista.

A China vem acumulando desequilíbrios financeiros e uma dívida crescente que podem se traduzir em um novo choque financeiro global.

O endividamento chinês no final de 2015 já correspondia a cerca de 255% do PIB, um acréscimo de 107% nos últimos oito anos.

Com uma carteira de empréstimos de US$ 28 trilhões, uma crise do setor financeiro chinês teria consequências globais. O economista da Simplific Pavarini e professor de economia do Ibmec-RJ, Alexandre Espírito Santo, se diz preocupado com o endividamento das empresas chinesas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

“Se você não paga o empréstimo do banco, ele tem prejuízo, e isso acarreta sim em um alerta”, disse. “Por que todo dia sai alguma coisa nova da China? Os analistas econômicos são como médicos que ficam com o dedo no gogó do paciente esperando algum sinal de sintoma. Tem que ficar de olho. Se a China despencar, vai ter um preço no mundo inteiro, e não passaremos ilesos”, completou o economista, acrescentando: “As economias estão interligadas por causa da globalização financeira. Aquela tese do descolamento não é factível. Então qualquer crise grande no mercado internacional afeta aqui, porque o canal que interliga as economias é a taxa de câmbio (dólar)”.

Crise na China pode afetar o resto do mundo

Segundo o diretor do Centro Chinês de Pesquisa Econômica e reitor da Escola Nacional de Desenvolvimento, ambos da Universidade de Pequim, Yao Yang, em um artigo publicado no Valor Econômico no mês passado, “a maior parte dessa dívida é detida por empresas estatais, responsáveis por apenas um terço da produção industrial, ao mesmo tempo em que recebem mais da metade do crédito concedido pelos bancos chineses. Embora a relação dívida sobre patrimônio do setor industrial como um todo tenha diminuído ao longo dos últimos 15 anos, a dívida das estatais chinesas aumentou desde a crise financeira mundial de 2008 para uma média de 66%, 15 pontos percentuais superior a de outras categorias de empresas”.

“A China tem um problema financeiro grave. Os bancos chineses emprestaram muito e não estão recebendo de volta, muitas empresas vão dar calote. E o quadro mundial já não está muito bom”, enfatizou o professor de economia da FGV/EPGE, Antonio Carlos Porto Gonçalves, que apesar da preocupação, demonstra otimismo na resolução do problema.

“Entretanto, as crises que não são previstas são muito mais complicadas. O governo chinês emite moeda e pode evitar essa crise. Na crise de 2008, o governo americano socorreu os bancos americanos, por que isso não poderia acontecer na China? Eu sou otimista”, exclamou Antonio.

Esse fenômeno pode não ter sido problema quando a economia chinesa estava crescendo, mas, para analistas em geral, pode representar, hoje, um grave risco econômico.

“Isso vai estar no radar dos mercados ao longo de 2017. Se a gente tiver uma pneumonia na China, o mundo vai ressentir”, completou o economista e professor do Ibmec-RJ, Alexandre Espírito Santo.

Gigante asiático

O impacto da China no nível internacional gera interpretações bem distintas. De uma perspectiva econômica, o crescimento acelerado da China e a expansão de suas exportações nas últimas décadas são tanto objetos de elogios quanto de críticas. Desde 1978 quando começou o processo de abertura do mercado, instaurada pelo secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Deng Xiaoping, tem havido um aumento contínuo do peso do mercado na economia chinesa, e conseqüentemente, especulações a respeito de uma eventual crise financeira.

“Apesar dessa abertura gradual da economia, o sistema financeiro chinês tende a ser mais controlado do que nos outros lugares do mundo, em teoria essa presença do estado deveria fazer que a instabilidade fosse menor”, defendeu o professor de economia Unicamp, Bruno De Conti.

Para Bruno, as especulações são comuns, mas é ainda distante a possibilidade de uma crise se instaurar na China.

“Há dois anos houve um problema com a bolsa de valores em Xangai, e aí se especulou sobre uma crise por lá. Mas quando a gente olha para os bancos, os cinco principais que estão entre os maiores do mundo, são todos públicos. E isso dá, portanto, ao estado uma capacidade maior de controle até mesmo em eventuais momentos de crise”, completou.

Hoje a economia chinesa é a segunda maior do mundo e o país é o maior exportador mundial de mercadorias com cerca de US$ 2,27 trilhões, ou seja, 14% das exportações mundiais em 2015. O segundo colocado são os Estados Unidos com cerca de 9% das exportações mundiais, e o Brasil aparece em vigésimo quinto lugar, com 1,2%. O interesse chinês no cenário econômico está concentrado numa aposta de continuidade do crescimento acelerado e na defesa do processo de globalização da economia. A economia chinesa se transformou no principal motor de crescimento da economia mundial.
Jornal do Brasil/Rebeca Lerieri

Comportamento – A exigente (e instável) geração do milênio

São confiantes, não se sentem presos aos seus empregos. É duro aprender a lidar com essa turma.

Geração Y,Educação,Comportamento,Blog do Mesquita

É cada vez mais difícil contratar e reter talentos. Os profissionais mais jovens estão chegando ao mercado com expectativas exageradas sobre sua carreira, que geralmente não coincidem com as de seus empregadores.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

São representantes da chamada geração do milênio, também conhecida como geração Y. Uma radiografia extensa desses jovens, nascidos entre 1980 e 2001, acaba de sair nos Estados Unidos sob o título The Troph Kids Grow Up: How the Millennial Generation Is Shaking Up the Workplace (“Os garotos premiados cresceram: como a geração do milênio transforma o ambiente de trabalho”), escrita pelo jornalista americano Ron Alsop, do Wall Street Journal.

Quem são esses jovens?

Segundo Alsop, eles cresceram num ambiente superprotetor. Mimados por pais e professores, foram habituados a receber troféus – eis a origem do título do livro – por suas conquistas infantis. Têm uma confiança elevada nas próprias competências e costumam se irritar quando o empregador não partilha dessa avaliação.

“Acham que têm condições de se tornar CEO de um dia para o outro”, diz Alsop. Esses jovens começam agora a ocupar as vagas deixadas pelos baby boomers – como são conhecidos os nascidos entre a Segunda Guerra e 1960 –, que estão se aposentando.

Suas expectativas são muito maiores do que as das gerações que os precederam. De acordo com uma pesquisa da CareerBuilder, o maior site de emprego dos Estados Unidos, eles querem de imediato salários altos (74%), horários flexíveis (61%), promoção antes de completar um ano na empresa (56%) e um pouco mais de tempo livre e férias (50%).

Exigentes, precisam da atenção constante de seus chefes. Avaliações anuais não são suficientes. Querem saber com freqüência como estão se saindo no trabalho. Ao mesmo tempo, ficam aborrecidos quando recebem críticas. Alsop sugere que sejam repreendidos de forma cuidadosa, sob o risco de que abandonem a empresa.

“Gostam de ser estimulados a toda hora, mas nem sempre recebem de forma positiva as sugestões para melhorar seu desempenho”, disse Steve Canale, gerente de recrutamento da General Electric, em entrevista a Alsop.

A hierarquia das empresas também não assusta esses jovens profissionais. “Querem ser tratados como colegas, não como subordinados, e esperam acesso livre a seus chefes, mesmo ao CEO, para defender suas idéias brilhantes”, afirma Alsop.

Apesar das exigências que fazem a suas empresas, os integrantes da geração do milênio não se sentem amarrados a elas. Se o trabalho deixa de ser gratificante, o abandonam sem pensar duas vezes, até porque não os incomoda a idéia de voltar para a casa dos pais, se necessário.

Num levantamento realizado pela Michigan State University e pelo site MonsterTrak, dois terços desses jovens afirmaram que, provavelmente, “surfarão” de um emprego para outro durante suas carreiras.

O autor de The Troph Kids Grow Up acredita que as empresas terão de se adaptar, em alguma medida, à geração do milênio para conseguir reter seus talentos. Precisam de suas habilidades tecnológicas, de sua capacidade de trabalhar em equipe e de sua competência para executar vários trabalhos ao mesmo tempo.

É fundamental, segundo Alsop, que mostrem claramente as oportunidades à disposição desses jovens, caso permaneçam na empresa.
da Época