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Geir Campos – Poesia

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Geir CamposLiteratura,Poesia,Blog do Mesquita,Geir Campos
 
Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de agora.
 
As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
— pois nem sempre de amor e entrega foi
o chão em que plantei, colhi nem sempre.
 
Se os dentes não gastei, gastei meus olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.
 
A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.

Geir Campos – Versos na tarde – Versos na tarde – 15/08/2016

8ª Cantiga de acordar mulher
Geir Campos ¹

Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida…
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?

¹Geir Nuffer Campos
* São José do Calçado, Espírito Santo – 28 de fevereiro de 1924 d.C
Niterói, Rio de Janeiro – 8 de maio de 1999 d.C


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Geir Campos – Versos na tarde – 05/07/2016

2ª Cantiga de acordar mulher
Geir Campos¹

Eu te imagino acordando
para a primeira comunhão do amor.
Teu vestido de rezas (não são rosas)
costuradas por quem
as soube de ouvir também
vais despindo e ficando
com o uniforme natural de nadador;
gesto por gesto, vais passando a perceber
que em teu novo exercício pouco adianta
toda teoria
— como adianta pouco um salva-vidas
a quem prefere, entre dois nados, mergulhar…
Melhor que o nado, o mergulho desvenda
as mais profundas relações de corpo a mar.

¹ Geir Nuffer Campos
* São José do Calçado, ES. – 28 de fevereiro de 1924 d.C
+ Niterói, RJ. – 8 de maio de 1999 d.C


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Geir Campos – Versos na tarde – 30/01/2013

Acalanto
Geir Campos ¹

Exaustos de fotografar a vida
em seus sessenta aspectos por minuto,
adormecem os olhos no aconchego
de crepúsculo antigo e sempre novo:
as imagens do dia, prisioneiras
entre as dobras das pálpebras, discutem
argumentos possíveis para um sonho.

¹ Geir Nuffer Campos
* São José do Calçado, ES. – 28 de fevereiro de 1924 d.C
+ Niterói, RJ. – 8 de maio de 1999 d.C


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Geir Campos – Versos na tarde – 03/02/2013

Alba
Geir Campos ¹

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.

Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
do leste — o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.

¹ Geir Nuffer Campos
* São José do Calçado, ES. – 28 de fevereiro de 1924 d.C
+ Niterói, RJ. – 8 de maio de 1999 d.C


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Geir Campos – Versos na tarde

Pião
Geir Campos ¹

Quem te ensinou, pião, a simples arte
de girar e fazer do giro a vida,
vertical sobre o bico – único ponto
de teu corpo, no chão, a suportar-te?
Essa a tua verdade essencial:
como um homem cercado de mentiras,
buscas talvez em torno uma saída
que não achas; e assim debalde giras
num equilíbrio falso, que afinal
se rompe… e ao chão te entregas, todo, tonto.

Do livro Rosa dos Rumos.

¹ Geir Nuffer Campos
* São José do Calçado, ES. – 28 de fevereiro de 1924 d.C
+ Niterói, RJ. – 8 de maio de 1999 d.C


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Geir Campos – Versos na tarde

Poema
Geir Campos ¹

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar os outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a noção pulsar
– do amargo e injusto e falso por mudar-
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano

¹ Geir Nuffer Campos
* São José do Calçado, ES. – 28 de fevereiro de 1924 d.C
+ Niterói, RJ. – 8 de maio de 1999 d.C

Professor universitário,  jornalista, tradutor e escritor.


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