A dupla ameaça para os povos da Amazônia

Indígenas enfrentam a Covid-19, para o qual não têm imunidade alguma, e os garimpeiros ilegais que aproveitam para intensificar sua atividade enquanto as atenções estão voltadas para a pandemia.

A maioria dos casos de Covid-19 identificados até o momento entre os povos indígenas das Américas se encontra na região amazônica, sendo 3 no Peru e 42 no Brasil, onde, além disso, quatro indígenas já morreram, segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).

“Exigimos que os Governos de cada um dos nossos países reconheçam de maneira pública sua responsabilidade em relação aos povos e nacionalidades indígenas como populações especialmente vulneráveis à pandemia, e que sejam tomadas todas as medidas necessárias, culturalmente apropriadas e efetivas para proteger nossas comunidades e territórios. Em caso de ação contrária ou omissão, pedimos à comunidade internacional que se mantenha em alerta máximo pelo possível cometimento de um ato genocida”, afirma a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA, na sigla em espanhol) em um comunicado publicado em 31 de março.

Na mensagem, a entidade aponta uma situação de emergência em todos os países abrangidos pela Amazônia: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Os povos originários destes países enfrentam agora um duplo problema: primeiro, a sua falta de imunidade diante deste novo vírus. O segundo é menos midiático, mas evidente para quem o sofre: a intensificação da atividade ilegal de garimpeiros e madeireiros aproveitando que as atenções estão completamente voltadas pela pandemia.

“É um apelo dos povos indígenas da Amazônia, porque estão nos ignorando”, declara José Gregorio Díaz Mirabal, membro do povo Wakuenai Kurripako, originário da Amazônia venezuelana, e coordenador-geral da COICA. Em toda a região amazônica, incluindo seus diversos países, há um total de 7.780 casos confirmados e 395 mortos, de acordo com o mapa atualizado em 21 de abril pela Rede Eclesiástica Pan-Amazônica (REPAM), que não diferencia entre casos de indígenas e não indígenas em suas cifras.

A etnia sateré-mawé, conhecida como guardiã do fruto do guaraná, é uma das que já foram afetadas pelo coronavírus: com um caso de contágio confirmado, vários suspeitos e a morte de um tuxaua, terminologia sateré para designar os líderes anciões de cada comunidade. “O falecimento deixou a toda a aldeia São Benedito, de 90 pessoas, sob rigorosa quarentena”, conta, com tristeza, Sérgio Batista Garcia Wara, membro dessa etnia que habita a Terra Indígena Andará Marau, que ocupa parte dos Estados do Amazonas e Pará.

“A terra indígena está em isolamento há quase um mês. Faltam elementos básicos de higiene, como sabão, e para se alimentar muita gente está recorrendo à pesca e à caça, embora estes recursos sejam a cada dia mais escassos”, prossegue Batista. Nas profundezas da selva, a via fluvial é a principal opção de transporte, em muitos casos a única, mas as autoridades locais proibiram a navegação para evitar a propagação do vírus. Não obstante, estas restrições também dificultam o abastecimento de alimentos essenciais, entre eles certos medicamentos urgentes.

Batista, que trabalha em Parintins (AM), a cidade mais próxima, como diretor do Consórcio de Produtores Sateré-Mawé, não pôde se deslocar à aldeia indígena e observa a quarentena com seus filhos na cidade, onde já foram confirmados 37 casos positivos de coronavírus e cinco mortos. O Consórcio vende guaraná nativo a redes de comércio justo da França e Itália, dois países duramente atingidos pelos efeitos da covid-19, e é formado por 336 famílias indígenas associadas, que se inquietam pelo futuro de sua única fonte de renda.

Povos em isolamento voluntário
Há na América Latina uma centena de povos originários em isolamento voluntário, ou seja, que não têm nenhum contato com outra população exterior, segundo a ONG Survival. “As populações em isolamento voluntário são extremamente suscetíveis a este tipo de doenças virais, porque não têm imunidade nem para esta nem para nenhuma das enfermidades respiratórias que circulam no resto do mundo”, explica o médico Douglas Rodrigues, especializado em saúde indígena. O maior risco do coronavírus em relação a outros vírus que também são desconhecidos para estes povos é o potencial de disseminação que ele apresenta. “No caso do coronavírus, estamos reagindo como indígenas isolados, já que não temos nenhuma memória imunológica na população e por isso se produziu esta pandemia”, ressalta este profissional da saúde que trabalha com comunidades amazônicas e faz pesquisas para a Universidade Federal de São Paulo.

Rodrigues afirma, taxativo, que a única medida para proteger os indígenas em isolamento voluntário é manter-se à distância e permitir que continuem isolados. Porém, e embora esta recomendação pareça evidente, a nomeação do antropólogo e missionário católico Ricardo Lopes Dias para ocupar o cargo de gestor da Coordenação Geral de Povos Indígenas Isolados e Recém Contatados da Fundação Nacional do Índio (Funai) ativou os alarmes de organizações indigenistas como a Survival Internacional. Lopes participou durante 10 anos da entidade católica norte-americana Missão Novas Tribos, atualmente rebatizada como Ethnos360, e atuou no vale do Javari, uma das maiores reserva indígenas do Brasil, onde se encontra a maior concentração de povos originários isolados.

Essa organização, dedicada à evangelização de comunidades indígenas, tem um especial interesse em chegar aos povos isolados. Em 1987, os missionários estabeleceram contato com a etnia isolada dos zo’é; poucos anos depois, um terço da população havia morrido de doenças como gripe ou malária, e em 1991 a Funai determinou a expulsão dos missionários da área indígena. Embora o Ministério Público tenha aberto uma investigação sobre a morte desses indígenas, o processo acabou arquivado sem demonstrar a responsabilidade direta dos missionários.
Uma menina sateré-mawé da aldeia da Vila Nova, na terra indígena Andará Marau, no Amazonas. Este povo indígena é um dos mais vulneráveis ao novo coronavírus. LUNA GÁMEZ
Em 3 de março deste ano, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) denunciou o recente aumento na presença de missionários tentando contatar povos isolados, captar indígenas e “abrir as portas da Terra Indígena para ações nefastas de proselitismo religioso”. A ação recebeu na sexta-feira, 17 de abril, uma sentença favorável por parte da Justiça brasileira, que proibiu o contato de missionários com etnias isoladas no Vale do Javari.

Intromissões arriscadas para a saúde
A Amazônia como um todo está se tornando um possível foco de contágios. Especificamente o Estado do Amazonas apresenta desde o início da semana uma “curva acelerada” de contágios, conforme confirmou o governador Wilson Lima (PSC), alertando para a falta de infraestrutura sanitária nos hospitais públicos das cidades, que já estão chegando à sua saturação. A situação também é preocupante em outras partes da floresta, como no departamento peruano de Loreto, onde a maior parte da população é constituída por povos originários e os serviços de saúde são escassos.

Embora a Amazônia seja uma região de acessos complicados, também é uma galinha dos ovos de ouro para madeireiros, garimpeiros e outros buscadores de minérios que veem na quarentena um momento ideal para explorar clandestinamente as áreas protegidas. “Nossos xamãs estão trabalhando para nos proteger. Vocês também devem fazer o seu trabalho para evitar que a epidemia entre pelos caminhos abertos pelos não indígenas”, declara o comunicado da Associação Hutukara, da etnia yanomami, que já registrou um caso positivo e um morto na sua comunidade vítima do coronavírus SARS-CoV-2.

Este povo ancestral, com 26.780 indivíduos distribuídos entre o Brasil e a Venezuela, é um dos mais ameaçados do todo o continente americano pela atividade relacionada à mineração ilegal. Estima-se que em suas terras possa haver 20.000 garimpeiros clandestinos, uma cifra que quase iguala o número de indígenas. “Os garimpeiros abriram caminhos pelos rios, por ar e por terra na área yanomami. Isto é uma grande ameaça para a nossa saúde”, alerta a nota desta tribo indígena.

Ao seu lado, na vizinha Guiana Francesa, as populações indígenas Wayana, Teko e Wayãpi também sofrem as ameaças dos garimpeiros ilegais. Por este motivo, as comunidades que vivem junto ao rio Maroni começaram a construir no fim de março uma barreira para impedir a circulação fluvial e, especialmente, para bloquear a passagem dos mineradores.

“Os buscadores de ouro estão se aproveitando do confinamento, sabemos que sua atividade mineradora se intensificou nos últimos dias, porque a água do rio vem muito mais suja”, relata Claudette Labonté, indígena da etnia palikur, coordenadora de assuntos femininos da COICA e presidenta da federação Parikweneh. “O Governo francês afirma estar em guerra contra a covid-19, mas nós, os povos nativos, enfrentamos um duplo combate para continuarmos vivos: o vírus e os invasores”, acrescenta ela, denunciando o abandono total do Governo francês, que nem sequer lhes concede o estatuto de povo ancestral nem os direitos decorrentes disso, como o acesso à terra.

A única medida que o Executivo de Paris estabeleceu foi o confinamento total, o que Labonté qualifica como “cegueira política”, já que não considera as especificidades de suas formas de vida tradicionais. Muitos destes povos indígenas vivem em estruturas comunitárias, com várias famílias em uma mesma oca e a necessidade vital de sair para pescar e assim garantir sua alimentação. Labonté afirma que as áreas indígenas estão sob grande pressão da exploração garimpeira. “Estamos nos preparando para uma possível volta da conquista em nome do ouro.”

Também no Equador os mineradores se aproveitam da atenção dedicada à pandemia e do confinamento decretado em muitas regiões do país para intensificar suas atividades. “A empresa Terraearth S.A continua trabalhando durante o estado de exceção sem ter alvarás, sem licença ambiental e sem respeitar a emergência sanitária e toque de recolher, pondo em risco os habitantes da província de Napo”, denunciou no fim de março, pelo Twitter, a Confederação de Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (CONIAE).

Díaz, coordenador-geral da COICA e porta-voz dos povos da Amazônia, salienta que neste momento “o ouro vale mais que o petróleo” e alerta que a maioria dos povos indígenas que habitam a selva amazônica estão preocupados com sua sobrevivência. “Tememos que a doença se espalhe e que, junto com a invasão de nossas terras e a pressão da mineração ilegal, ocorra outro extermínio dos povos indígenas.”

Corrida do Ouro ameaça a Amazônia

Ouro extraído por garimpeiros acarreta desmatamento, poluição e violência antes de seguir para mercado global. Projeto de lei que permite mineração em terras indígenas gera temores de que garimpo ilegal se intensifique.

Ouro extraído ilegalmente é derretido e transformado em barras padronizadas

Vistos do alto, os arredores de Creporizão, uma cidade isolada da Amazônia no Pará, parecem um cobertor verde-escuro. Ao longo das estradas e rios que atravessam a floresta tropical, a vista é outra, devido às manchas marrons lamacentas que marcam suas margens: garimpos de ouro ilegais.

Todos os dias, centenas de exploradores procuram o metal precioso, e esperam encontrar algo nessa região. Alguns chegam aos garimpos de barco, rio acima e rio abaixo; outros vêm em pequenos aviões. São imagens que se tornaram cotidianas na maior floresta tropical do mundo, um dos principais motivos da vasta destruição da mata.

José Maria – que prefere ocultar seu sobrenome – é um dos garimpeiros vindos do estado do Maranhão, cerca de mil quilômetros a leste. Esperando à margem do rio para ser levado de barco até uma das minas, ele se defende: “A gente faz trabalho honesto aqui, para ganhar a vida. Qual é o problema?”

“Já está havendo uma corrida do ouro”

Os garimpos em que José e seus colegas trabalham se situam nos mais de 2 milhões de hectares da reserva onde vive uma das maiores etnias indígenas da Amazônia, os munduruku. Suas terras, ricas em minerais, são protegidas pela Constituição brasileira de 1988.

Segundo uma pesquisa de opinião de 2019, uma maioria esmagadora da população do Brasil é contra a mineração nas áreas indígenas. No entanto é justamente isso o que o presidente Jair Bolsonaro exige num controverso projeto de lei apresentado ao Congresso. Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados, apesar de considerar o projeto constitucional, adiou a votação, por não ser “o momento certo”.

O Ministério de Minas e Energia afirmou que planeja regular as atividades mineradoras em terras indígenas, acrescentando ser necessário consultar as comunidades indígenas, para que participem da extração de ouro. Embora alguns mundurukus tenham cedido à sedução do dinheiro rápido, a maioria da comunidade continua se opondo ao garimpo ilegal.

O mercúrio despejado no rio Tapajós durante o garimpo se espalha por afluentes que passam perto de Creporizão, no Pará

Aproximadamente um décimo da área do Brasil é classificada como “indígena”, dividindo-se em mais de 400 reservas. No entanto, segundo a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), há mais de 450 zonas de mineração ilegais na Amazônia brasileira. Uma lei seguindo a vontade de Bolsonaro poderia acarretar um aumento dramático de tais atividades mineradoras.

“Se a lei passar, o teto vai cair na nossa cabeça”, comenta o antropólogo americano Glenn Shepard, que trabalha junto à população indígena afetada pelo garimpo ilegal. “A lei vai aquecer novamente as minas de ouro ilegais. Já está havendo uma verdadeira corrida do ouro, fora do controle dos grupos indígenas.”

A equipe de jornalistas Unearthed, do Greenpeace, noticiou que os garimpeiros planejavam continuar trabalhando mesmo durante a pandemia do novo coronavírus, acirrando assim os temores de contágio dos indígenas com a covid-19. O Ministério das Minas e Energia afirmou à DW que, antes mesmo da votação do projeto de lei, já recebeu mais de 4 mil solicitações para atividades mineradoras nas terras dos nativos brasileiros.

Riqueza à custa de vidas indígenas

Garimpeiros e indígenas encontram-se em conflito constante. Em julho de 2019, a Fundação Nacional do Índio (Funai) registrou que um líder da comunidade waiãpi fora morto por garimpeiros no Amapá. Segundo dados da Global Witness, só em 2018 foram mortos 20 ambientalistas e defensores dos direitos à terra no Brasil. A ONG internacional aponta que, com 43 assassinatos registrados em todo o mundo naquele ano, a mineração foi o setor mais mortal para os ativistas.

A mineração também causa graves danos ao meio ambiente, contribuindo decisivamente para o desmatamento: de acordo com a revista especializada Nature Communications, entre 2005 e 2015 ela foi responsável por 9% de toda a mata destruída na Região Amazônica.

Uma análise de imagens de satélite publicada pela ONG Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP) mostrou que em 2019 um total de 2 mil hectares de árvores foi derrubado na reserva dos índios munduruku – mais do que o dobro do ano anterior.

Em novembro de 2019, dezenas de líderes indígenas amazônicos se reuniram em Brasília para denunciar e apresentar queixa à autoridades competentes pelas irregularidades em suas terras.

Imagem aérea mostra garimpo na região de Creporizão, no Pará

“Seria a morte do nosso povo”: assim Alessandra Korap Munduruku, uma líder do estado do Pará, que participou do encontro, resume os efeitos de uma eventual legalização da mineração. A busca pelo ouro traz doenças, prostituição, dependência de drogas entre as crianças e conflitos violentos entre os homens, além de envenenar os peixes com mercúrio, enumera.

O mercúrio despejado no rio Tapajós durante o garimpo se espalha por seus afluentes, também pelos que passam perto de Creporizão e são fonte de água para as comunidades locais.

O neurologista Erik Jennings, atuante na cidade de Santarém, Pará, tirou amostras de sangue e cabelo de 112 nativos para medir seus níveis do metal pesado, numa pesquisa pioneira. “É um genocídio lento”, revelou à DW. “Mercúrio no corpo pode causar graves impedimentos cognitivos e visuais, e deformar os fetos.”

Ouro anônimo

Até mesmo o comércio de ouro legal no Brasil é, em grande parte, não regulado, o que permite negócios ilegais, enquanto a Região Amazônica vai sendo cada vez mais destruída.

“É relativamente fácil cometer fraude nesse setor. É quase impossível ir atrás de todos esses casos”, explica Luís de Camões Lima Boaventura, advogado em Santarém. “Até ser instalado um sistema computadorizado, as autoridades não têm como verificar a legalidade das transações. Para realizar uma transação ilegal com ouro, no momento só é preciso lápis e papel.”

Estimativas da Agência Nacional de Mineração indicam que a cada ano são comercializadas ilegalmente no Pará cerca de 30 toneladas de ouro, no valor de cerca de 4,5 bilhões de reais – mais de seis vezes o volume declarado oficialmente.

Quando garimpeiros como José Maria retornam a Creporizão, após a jornada que por vezes dura um dia inteiro, eles se dirigem a uma das muitas lojas de ouro da cidade. Lá, o metal trazido pelos garimpeiros é derretido e transformado em barras padronizadas.

Assim, ouro extraído ilegalmente torna-se parte do mercado global, e sua origem não pode mais ser traçada. E no fim, ninguém mais sabe que essas barras douradas são também responsáveis pelo monstruoso desmatamento, poluição ambiental e violência na Amazônia.

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Eles não fazem home office: garimpeiros e grileiros seguem degradando a Amazônia e os indígenas

Já se somam três mortes de índios na região amazônica, vítimas do novo coronavírus. E estas mortes têm a ver com a invasão de suas terras por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros.Amazônia,Blog do Mesquita

Segundo nota da Funai, a primeira morte aconteceu na noite de quinta-feira, dia 9, de um adolescente indígena de apenas 15 anos, Alvanei Xirixana Pereira, morador da Comunidade Boqueira, oriundo da Comunidade Rehebe e havia passado um período na Comunidade Boqueirão, quando teria apresentado os primeiros sintomas. A funai informou que equipes de saúde já ingressaram no local para auxiliar no mapeamento daqueles que mantiveram contato com o jovem, além de realizar o isolamento do grupo para melhor acompanhamento.

Na noite de sábado, dia 11, a Funai confirmou mais duas mortes de indígenas em Manaus, capital que enfrenta uma forte elevação no número de infectados com a doença. Trata-se de um indígena da etnia tikuna, de 78 anos, e de uma indígena Kokama, de 44 anos.

Segundo dados do governo, há mais seis casos confirmados de contaminação. A Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Governo Federal, orientou indígenas a evitarem deslocamentos das aldeias a centros urbanos, assim como não permitirem a entrada de pessoas externas em suas terras.

Garimpeiros no território Yanomami

Segundo Paulo Basta, pesquisador da Fiocruz, existe forte indício do adolescente indígena ter sido contaminado por causa da ação dos garimpeiros e que, atualmente, possui 20 mil garimpeiros ilegais atuando no território Yanomami.

A situação assim, torna-se cada vez mais preocupante, principalmente com os povos indígenas que vivem em territórios invadidos por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros. Esse pessoal, como alertou o biólogo Paulo Moutinho, não faz home office.

A presença de invasores ameaça centenas de comunidades indígenas de contágio pelo coronavírus, que estão muito apreensivas com a situação.

Além da condição especial dos indígenas, que, isolados, não desenvolvem imunidade para vírus e bactérias circulantes em áreas não isoladas, tornando-os extremamente vulneráveis, pior quando se trata de um vírus altamente poderoso e sem alternativa farmacológica de cura, mas também porque a cultura de compartilhamento dos locais onde vivem, dormem, cozinham, também dificulta o isolamento dos índios. Casas compartilhadas, utensílios que circulam entre várias pessoas e a dificuldade de acesso à itens como sabão e álcool em gel tornam o combate ao vírus muito mais complexo nessas comunidades.Amazônia,Brasil,Desmatamento,Poluição,Mineração,Meio Ambiente

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), no final de fevereiro, os indígenas, que estão recebendo informações sobre a Covid-19, já estavam preocupados com o avanço e chegada da doença, e os Yanomami, em Roraima, incendiaram um helicóptero e prenderam os seus ocupantes, ligados ao garimpo clandestino. No início de março, os Kaiapó, no Pará, rebelaram-se contra chefes dos garimpeiros e exigiram a imediata retirada deles.

Segundo informa o ISA, na fronteira do Brasil com a Venezuela, o território Yanomami é a maior terra indígena do país, com área equivalente à de Portugal, vivendo cerca de 26 mil membros dos povos yanomami e ye’kwana, distribuídos em 321 aldeias. O território sempre foi alvo de garimpeiros porque é sabida a existência de ouro na região, desde a década de 1970.

O Instituto também informa que o garimpo já degradou 114 hectares de floresta, o equivalente a 114 campos de futebol, só no mês de março e 2020.

Em nota, o ISA afirma que os povos indígenas estão a mercê de cerca de 20 mil garimpeiros que entram e saem do território sem nenhum controle e que isso é o principal vetor da Covid-19 na terra Indígena Yanomami que, assim como outros grupos, devem ser urgentemente protegidos, sob risco da ocorrência de um genocídio indígena.

Diante do agravamento da situação das invasões e a escalada da pandemia em todo o Brasil, a situação demanda resposta rápida e extraordinária dos órgãos federais e autoridades responsáveis.

Megaoperação para afastar invasores

O Governo Federal informou que montou uma megaoperação para afastar invasores das terras indígenas.

A operação percorreu três terras indígenas no sul do Pará onde vivem cerca de 1.700 índios. Os fiscais cumpriram 14 dias de quarentena preventiva antes de irem para o local e seguem à risca o protocolo sanitário, principalmente quanto à necessidade de não manter contato com os índios.

Em matéria exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, é possível verificar que os garimpeiros fogem assim que notam a presença do helicóptero dos fiscais do IBAMA. Pelo ar, eles localizam e prendem os garimpeiros ilegais. Por terra, eles destroem pontes de acesso na mata e colocam fogos em equipamentos, principalmente retroescavadeiras e outros utilizados nos garimpos. Os fiscais do IBAMA também encontraram armas e munição, além de animais silvestres presos possivelmente para comércio ilegal.

Degradando a Amazônia e os índios

O estrago ambiental já foi feito, e eles estão cada vez mais próximos das aldeias indígenas isoladas.

Imagens de satélite mostram que garimpeiros estão ampliando suas operações dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, mesmo durante a pandemia do novo coronavírus.

Na reportagem do Fantástico, um fiscal do Ibama  relata que o aumento das invasões pelos garimpeiros ocorreu porque possivelmente eles acharam que ia haver um relaxamento da fiscalização por causa do novo coronavirus.

Nesse momento, a única solução é o isolamento total dos povos.Amazônia,Desmatamento,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 06

Segundo a nota da Funai a Fundação em apoio às comunidades, seguirá os protocolos de contingenciamento junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena e aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, além de fornecer o necessário, como alimentação e combustível, para facilitar o atendimento das equipes de saúde no monitoramento dos sintomas e evitar que os indígenas saiam das aldeias.

China quer comida. O Brasil paga o preço.

A questão é Global: Segurança Alimentar demanda esforços nacionais,
e têm um impacto muito além
das fronteiras de qualquer país.

A Amazônia tende a evocar uma visão edênica – de uma terra misteriosa e impenetrável, cheia de feras selvagens, de onças a sucuris. Uma região rica em flora não descoberta. Mas parte disso é incongruente com essa reputação, onde grandes caminhões passam por postos de gasolina em ruínas e cobertos de sujeira, e onde as terras antes cheias de árvores e a promessa de aventura na selva se transformaram em pastagem de gado ou campo de soja.

Uma estrada chamada BR-163

Acesse o Google Maps e aumente o zoom para o estado de Mato Grosso e encontre o fio fino da estrada que atravessa o estado. Ramificando-se, existem linhas marrons perpendiculares, todas elas inconfundivelmente desmatadas, cortando e contrastando com a floresta verde escura. Essa rodovia é onde a agricultura e a selva amazônica se encontram.

A floresta tropical no Brasil foi progressivamente vítima da demanda global por soja e carne bovina. E o maior cliente do país para ambos é a China. A história da Amazônia se enredou não apenas com a história da fraca proteção do Brasil em sua fronteira florestal, mas também com a ascensão dessa nova superpotência e sua estratégia de segurança alimentar.

A soja é o elo fraco da China, a principal commodity de alimentos de que precisa no mundo exterior.


O país importa a safra, que costuma usar para alimentar seus porcos, e as empresas estatais chinesas também investem diretamente na cadeia de suprimentos do Brasil, para que o país sul-americano possa aumentar suas próprias exportações.

Árvore de noz brasileira morta em pé em uma fazenda de gado. A região vive da pecuária e da indústria madeireira. A região é a cidade Apiacas no Norte de Mato Grosso.

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Essa crescente fome de soja incentivou os garimpeiros brasileiros a manter o ritmo arrasando a selva intocada, acelerando o desmatamento.

Essa dinâmica destaca algumas das tensões inerentes ao desafio de combater as mudanças climáticas. A classe média da China tem uma fome crescente de carne, levando a um aumento na demanda por soja.

Para um país que se comprometeu a honrar o Acordo de Paris, as medidas de segurança alimentar da China são contrárias aos seus esforços ambientais, embora o acordo climático vise reduzir as emissões nacionais de carbono, ele não responde pelas atividades e responsabilidades dos signatários de outros países. países. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, argumenta que o país deve priorizar o crescimento econômico, mesmo que isso acarrete o custo de destruir a maior floresta tropical do planeta.

Sinop, uma próspera comunidade de 140.000 habitantes no norte de Mato Grosso e um centro de agricultura industrial, simboliza essa transformação.

O local está em um estágio de desenvolvimento – o Burger King realizou sua grande inauguração aqui recentemente e o McDonald’s está a caminho – mas também é uma economia avançada com comunidades pavimentadas e com casas de milionários construídas para com sofisticação  em meados do século XX.

Junto com a soja e o gado, uma cidade extensa deslocou a floresta exuberante, batendo contra o deserto, e os moradores se orgulham disso.

“Somos campeões da soja e do gado”, vangloria-se Daniel Brolese. “A demanda da China é o que tranquiliza os agricultores aqui”. Brolese, vice-prefeito de assuntos econômicos. Ele percorre a cidade apontando quadras particulares de tênis e vôlei de praia. Nas calçadas, carros de luxo, de um Corvette Stingray a um Porsche Cayenne.

Periodicamente, ele faz uma pausa na turnê para se concentrar em um novo projeto que, segundo ele, catapultará Sinop ainda mais e ajudará a impulsionar mais exportações para a China. “Ferrogrão”, diz ele, “não é questão importante para o desenvolvimento”.

Ele está se referindo a uma ferrovia que os produtores sonham há muito: Ferrogrão – o “trem de grãos” – em português – transportaria soja do interior da Amazônia para seus portos fluviais ao longo do rio Tapajós e depois para o Oceano Atlântico. Há muito desejado pelos agronegócios e autoridades daqui, o projeto nunca teve o capital político e financeiro necessário do governo federal para avançar – os oponentes argumentaram que isso custou muito e beneficiou muito poucos. Mas duas coisas se juntaram que podem finalmente tornar Ferrogrão uma realidade: a eleição de Bolsonaro e a China.

Mas os garimpeiros aproveitaram o fraco estado de direito e a aplicação de políticas ambientais para encontrar uma maneira criativa de continuar lucrando.

Primeiro eles destruíam árvores para dar lugar ao gado e, depois de alguns anos usando os campos como pastagens, eles os converteria para cultivar soja.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

A rigor, a terra não seria mais “recém-colhida” e a moratória da soja se manteria. Mesmo os agronegócios comprometidos com a moratória lutam com a responsabilidade ao coletar informações. A criação de gado agora é oficialmente o maior motor do desmatamento na Amazônia, tanto porque existe uma demanda internacional crescente genuína por carne bovina quanto porque os desenvolvedores estão planejando um eventual desenvolvimento da soja.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita